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terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Os textos de Paulo são mesmo de Paulo? Uma 1ª análise.



Paulo e uma possível organização das epístolas, segundo seu vocabulário.

Grande parte do material que temos do Novo Testamento corresponde às cartas que Paulo de Tarso (talvez 5 - 64/65 d.C.) enviou para as igrejas que fundou na costa do Mediterrâneo e para companheiros seus como Tito, Timóteo e Filemon. Esse material faz parte, é claro, dos primeiros relatos que temos do Cristianismo como religião dentro do mundo Romano. Os estudiosos assumem uma certa cronologia para as cartas, que não é a ordem de sua encadernação no Novo Testamento:
 
1ª Tessalonicenses* (51 d.C.)
2ª Tessalonicenses, Gálatas* e 1ª Coríntios* (52 d.C)
Filipenses*, Filemon* e 2ª Coríntios* (53-54 d.C.)
Romanos* (55-56 d.C.)
Colossenses (57-59 d.C.)
Efésios (62 d.C.)
1ª Timóteo (62-64 d.C)
2º Timóteo (62-65 d.C.)
Tito (66-67 d.C.)

        evangelho de Marcos (66-70 d.C.)
        evangelhos de Mateus e Lucas (80-90 d.C.)
        evangelho de João (90-110 d.C.)
        Didache e Pastor de Hermas (90-150 d.C.)

 
Nessa lista, os textos marcados com asteriscos (*) são tidos como indubitavelmente obras de Paulo.
 
Paulo escreveu suas obras durante e após suas 3 viagens missionárias. A primeira viagem foi entre as cidades de Sidon, Perga e Antioquia; a 2ª viagem foi entre Jerusalém, Antioquia (da Síria), Filipos, Tessalônica, Atenas, Corinto, Éfeso, Rhodes e Cesaréia; a 3ª viagem foi entre Antioquia (da Síria), Antioquia (da Frígia), Éfeso, Tessalônica, Atenas, Rodes e Tiro. Não há muitos indícios nas cartas sobre seu local de escrita, mas alguns eventos relatados dão certa noção do ano em que foram produzidas.
 
É importante notar que os textos de Paulo são anteriores aos Evangelhos, daí sua contribuição inegável às fases iniciais do Cristianismo. O Cristianismo ensinado por Paulo, anterior aos Evangelhos, deve ter sua origem em Jerusalém, onde ele foi recrutado como oficial Fariseu para perseguir os Cristãos. Desde pelo menos 30 d.C. já circulavam documentos Romanos sobre os Cristãos. Na sua conversão em Damasco/Síria, Paulo esteve com o grupo de Ananias e foi mandado de volta a Jerusalém, para o grupo de Pedro. Depois, ele seguiu para a igreja de Antioquia da Síria, onde fortaleceu uma comunidade onde passou pelo menos 1 ano. Quando foi outra vez a Jerusalém, ele até Pedro o jovem João Marcos, que viria a ser o primeiro Evangelista, muitos anos mais tarde. A partir de seu retorno a Antioquia, Paulo percorreu a costa do Mediterrâneo ao longo de 15 anos e outras duas viagens a Jerusalém e Antioquia, antes de começar a enviar as cartas que temos na Bíblia. Aparentemente, em algumas viagens missionárias Paulo estava acompanhado de uma mulher grega chamada Tecla, e os textos deixados por ele foram escolhidos ou modificados por seus aprendizes de forma a ocultar o nome dela.
 
O debate sobre a autoria dos textos de Paulo se torna importante quando algumas idéias dele apoiadas numa carta são combatidas em outras, como a participação de mulheres nas congregações e a aceitação ou não da escravidão de um Cristão por outro. A situação se complica ainda mais quando pensamos que o material de Paulo que nos chegou foi copiado e recopiado por comunidades religiosas ao longo de muitos séculos, comunidades estas que se desenvolveram independentemente antes que Roma decretasse uma autoridade política sobre o Cristianismo, no séc. 4. Até que a centralização de poderes acontecesse, muitos grupos Cristãos passaram a produzir seus próprios materiais religiosos. Não raro, esses textos eram atribuídos à autoria de pessoas famosas (ex. Paulo, Mateus, João) de forma que fossem seguidos e preservados.
 
Até que os Evangelhos se tornassem um elemento importante no Cristianismo, isto é, até que os ditos e feitos de Jesus passassem a inspirar as pessoas, uma teologia inicial se desenvolveu com base nas discussões filosóficas e metafísicas de Paulo, além do que ele mesmo dizia sobre Jesus. Tal conhecimento, segundo a epístola de Gálatas, se trata de algo sobrenatural vindo diretamente de Jesus (já morto havia 20 anos). Em verdade, as epístolas não dão muitos indícios sobre qual foi o contato de Paulo com comunidades Cristãs anteriores a ele. Por isso, quando pensamos que algumas delas talvez não sejam autoria de Paulo, o Cristianismo assume a aparência de uma colcha de retalhos, com filosofias, teologias, etc que se desenvolveram mais ou menos por si mesmas, do modo que puderam fazer isso, e nalgum ponto do séc. 4 foram unificadas (à força) pela nascente Igreja Romana.
 
Analisar a autoria de textos copiados e recopiados é, por outro lado, algo difícil que envolve as palavras/expressões usadas e as idéias apresentadas. Palavras e expressões podem caracterizar um autor, como é o caso dos textos Joaninos, enquanto as idéias podem identificar um grupo religioso. Assim, podemos por exemplo dizer que o evangelho de João, as cartas 1ª João, 2ª João e 3ª João, assim como o Apocalipse são de um ou dois autores apenas (ver Joaninos 1 e Joaninos 2). As idéias defendidas nesses trabalhos não se replicam nos evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas, fazendo supor que são obras de uma comunidade independente.
 
Aqui, apresento uma metodologia para comparar as epístolas (e não as cartas) de Paulo, isto é, os textos que foram supostamente escritos por Paulo para as Igrejas fundadas por ele (Romanos, 1ª Coríntios, 2ª Coríntios, Filipenses, Colossenses, Efésios, Gálatas, 1ª Tessalonicenses e 2ª Tessalonicenses). As cartas (Filemon, Tito, 1ª Timóteo e 2ª Timóteo) não foram incluídas por se tratarem de obras com natureza diferente, não feitas com objetivo de ensino, mas correspondências pessoais entre Paulo e alguém íntimo dele.
 
Num 1º passo, todas as palavras das epístolas paulinas foram catalogadas, incluindo sua posição no texto. Essas posições não foram utilizadas aqui, mas foram coletadas com a idéia de posteriormente estudar as aproximações de palavras nos textos paulinos. Num 2º passo, foram removidas as palavras conectivas (ex. e, ou, para, assim, etc) e os verbos de ligação (ser, estar, ficar, etc). As demais palavras foram todas convertidas em substantivos masculinos singulares (ex. agradecemos ⇒ agradecer ⇒ agradecimento). Palavras com significado especial foram separadas (ex. espírito [de paz] ≠ Espírito [Santo]). Num 3º passo, palavras com significados semelhantes foram agrupadas sob a escrita mais comum (ex. conhecimento, sabedoria, entendimento). Essa foi a etapa realmente demorada. Para efeito de representatividade, as palavras com repetição menor do que 9 vezes no texto foram desconsideradas.
 
O resultado dessas contagens e alinhamentos é mostrado na Figura 1.



Figura 1 - Contagens de palavras nas epístolas de Paulo. Essas contagens incluem espaços como sendo palavras. Dados disponíveis em https://docs.google.com/spreadsheets/d/1OoRvj4Ip4SEKPAq1fFwc2Koida-hg2nkE8Uiwl6Gh8A/edit?usp=sharing

O primeiro resultado interessante é notar que poucas palavras são repetidas várias vezes. A epístola 2ª Tessalonicenses, por exemplo, tem 1200 palavras. Destas, apenas 6 se repetem mais de 9 vezes. Mesmo numa epístola imensa como Romanos (quase 11200 palavras), a palavra mais repetida (Deus) só aparece 167 vezes (14%, também a média de repetições de palavras em todas as epístolas). As palavras mais repetidas nas epístolas paulinas são Deus (aparece nas 9 epístolas), Jesus (em 8/9 só não aparece em Colossenses) e Senhor (em 8/9, só não aparece em Gálatas). A ausência de Jesus em Colossenses e Senhor em Gálatas faz supor que talvez não derivem do mesmo autor.
 
Para estabelecer um parentesco entre os textos, cada um deles foi interpretado como um vetor dentro de um espaço formado por muitas palavras. Um vetor é uma coordenada de vários números (ex. vetor = (10,2,0), com as coordenadas 10, 2 e 0). Os pares de vetores podem ser paralelos/múltiplos (ex. (1,4) e (3,12)), antiparalelos (ex. (1,4) e (-3,-12)) ou completamente independentes (ex. (2,0) e (0,1), reparando que cada um carrega uma coordenada que o outro não tem). No mundo real, a maioria dos vetores se relaciona entre esses extremos, possuindo uma “projeção” entre si que varia de 0 (vetores independentes) até +1 (vetores paralelos) ou -1 (vetores antiparalelos). Para comparar os textos, as epístolas de Paulo foram convertidas em vetores, não de 3 dimensões (pois não estamos lidando com posições de coisas no espaço), mas com 106 coordenadas. Essas coordenadas são as contagens de repetições das suas palavras. Na tabela acima, por exemplo, Romanos tem 167 na coordenada “Deus”. Feitas essas conversões, foram calculadas as “projeções” entre cada par de vetores, conforme a Figura 2. Cada projeção de dois vetores foi calculada assim: projeção vetores A,B = 2*(a1*b1 + a2*b2 + ... + a106*b106) / (a1² + b1² + a2² +b2² + ... + a106² + b106²), que é um procedimento geométrico bastante usual conhecido como "produto escalar".



Figura 2 - Projeções calculadas entre as epístolas de Paulo. Valores mais altos sugerem maior proximidade entre os textos, valores mais baixos sugerem textos destoantes. A projeção de cada texto consigo mesmo (ex. Rm vs. Rm) sempre é de 1 ou 100%. Os valores de projeção independem das diferenças de tamanho entre os textos. Disponível em https://docs.google.com/spreadsheets/d/1OoRvj4Ip4SEKPAq1fFwc2Koida-hg2nkE8Uiwl6Gh8A/edit?usp=sharing
 
É possível ver que os textos, mostrados em projeções na Figura 2 com cores mais alaranjadas, compõem basicamente 2 grupos. Um deles formado por Romanos, 1ª Coríntios e 2ª Coríntios, outro formado por 1ª Tessalonicenses, 2ª Tessalonicenses, Filipenses, Colossenses e Efésios.
 
Depois de calculadas as projeções, foi montada uma representação “geométrica” dos textos, de modo a colocar próximos aqueles mais semelhantes e distantes aqueles mais destoantes. Tomando como evidência que 1ª Tessalonicenses seja o texto mais antigo dentre as epístolas, as semelhanças entre elas podem nos indicar a ordem de produção do textos, indo desde o grupo mais coeso até os textos mais divergentes. Isso é mostrado na Figura 3.

Figura 3 - Organização das epístolas como um fluxo de produção. Os números indicam as projeções entre os textos. Projeções mais altas indicam textos mais semelhantes. As setas indicam uma possível sequência de produção, baseado na suposição de 1ª Tessalonicenses (1Tes) como epístola mais antiga.
 
Finalmente, esse esquema de produção das epístolas pode orientar uma discussão sobre a autoria dos textos paulinos. Do lado esquerdo, vemos um conjunto de 5 textos altamente semelhantes quanto ao seu vocabulário: 1ª Tessalonicenses, 2ª Tessalonicenses, Filipenses, Colossenses e Efésios. Se 1ª Tessalonicenses carrega a “assinatura de Paulo”, o mesmo ocorre com os demais.
 
Fora desse grupo, encontramos Gálatas e 2ª Coríntios, que possuem associações boas apenas com Efésios. A relação em particular com essa epístola pode sugerir que ela serviu de modelo para a confecção das posteriores. É bastante plausível Gal e 2Co ambos reflitam a obra de 2 outros escritores, ou uma edição tardia nas comunidades em que foram preservados. O mesmo vocabulário de 2ª Coríntios de fato é usado em 1ª Coríntios e Romanos, porém ambas essas últimas não possuem semelhança com Gálatas.
 
Romanos, 1ª Coríntios e 2ª Coríntios possuem de fato dimensões muito diferentes dos outros textos (7200 a 11200 palavras vs. 1200 a 3650 palavras). Além disso, são textos coesos entre si quanto ao vocabulário usado. Mas não são coesos com o 1º grupo de 5 textos, sugerindo um autor independente ou edições tardias.

Em outras palavras, é possível que as epístolas “de Paulo” na verdade sejam obras de pelo menos 3 autores. O grupo “mais paulino” seria composto por 1ª Tessalonicenses, 2ª Tessalonicenses, Filipenses, Colossenses e Efésios. Já Gálatas seria obra de um 2º autor inspirado em Efésios, assim como uma 3º autor teria produzido 2ª Coríntios, 1ª Coríntios e Romanos. Todos eles assinaram suas obras como “Paulo”, porém o vocabulário usado em cada grupo de textos sugere que não são obras da mesma pessoa. Ou, pelo menos, eles são ideologicamente tão distintos que Paulo teria passado por grandes transformações em sua forma de escrever, e principalmente seu vocabulário, entre esses 3 grupos de textos.

Tal diferença de autoria talvez explique divergências de idéias encontradas nas epístolas, como por exemplo uma postura judaizante em algumas e um postura anti-judaizante em outras. Gálatas como uma obra em separado, por exemplo, é bastante significativo, uma vez que se trata de um texto defendendo um forte legalismo dentro da Igreja, postura bastante farisaica. A epístola é endereçadas "às igrejas da Galácia", uma região da Grécia e não uma cidade em específico, ao mesmo tempo em que seu autor “Paulo” afirma apresentar ali conhecimentos sobre o que Deus gosta ou não que lhe foram providos pelo próprio Jesus. Tal modo de apresentar idéias divergentes é também encontrada nos textos Joaninos, com um “apóstolo João” se auto-nomeando como o “discípulo amado”, de forma a conferir mais autoridade para suas palavras divergentes do aos textos mais antigos, além de relatar eventos junto a Jesus que nenhum outro evangelista reporta.

Romanos e as epístolas a Corinto, também provavelmente obras de um “Paulo” que não é o de Tarso, são obras de forte caráter doutrinário, onde o autor instrui as igrejas sobre como lidar com divergências internas e o mundo Romano ao redor. Caso não sejam obras reais de Paulo, são provavelmente das comunidades fundadas por ele, de forma a tecer uma estrutura religiosa-cultural que viria a ser o Cristianismo. Trata-se de uma estrutura bem distinta dos 5 textos mais provavelmente “paulinos”, em que Paulo relata seus problemas pessoais, seus sofrimentos, expectativas, e fortalece a idéia de que tudo o que se passava COM ELE era para o fortalecimento do Reino de Jesus.

Desde a centralização de poder na Igreja Romana, diversas epístolas foram consideradas falsas. Geralmente, o motivo era sua não citação em nenhuma obra antiga (isso lá no séc. 4), mas muitas vezes tratou-se de votações onde algo como metade mais 1 dos cardeais julgou o texto como falso (ver http://www.ntcanon.org/table.shtml). Algumas que ficaram nesse limbo e ainda assim ganharam seu lugar na Bíblia foram Efésios, Colossenses e 2ª Tessalonicenses. Marcion de Sinope, um famoso "herege" do séc. 2, por exemplo, foi uma das primeiras pessoas a encadernar cartas de Paulo num livro religioso. Marcion via Paulo como o profeta por excelência. Em sua versão anti-judaica do Cristianismo, Marcion aceitava como verdadeiro apenas o evangelho de Lucas (pois fora discípulo de Paulo) e as epístolas Gálatas, 1ª Coríntios, 2ª Coríntios, Romanos, 1ª Tessalonicenses, 2ª Tesslonicenses, Efésios (Laodicences, segundo ele), Colossenses, Filipenses e Filemon. Pela data do trabalho de Marcion (citado pela Igreja já em 144 d.C.), acredita-se nele como testemunha da antiguidade de tais escritos.

Mesmo sendo antigo, Efésios levanta dúvidas por conter 40 palavras que não aparecem nas outras cartas, não falar sobre os dons espirituais e mostrar um Jesus autoritativo (agindo por sua própria vontade). Colossenses também fala contra o Gnosticismo, um movimento que só seja mencionado em documentos do séc. 2, além de usar conjugações incomuns de verbos. 2ª Tessalonicenses repete, várias vezes, o fato de não ser um trabalho falso. Essa estrutura, como eu mesmo já coloquei, geralmente é encontrada justamente naqueles textos que são alterações de algum outro ou completamente forjados.

Na análise feita aqui, de textos em português, evitando-se toda conjugação de palavras através de sua transformação em substantivos masculinos singulares (isso foi escolha minha), tais problemas obviamente não ocorrem. Por conta disso, todas as epístolas "duvidosas" na verdade encontram seu lugar junto do pacote mais provavelmente paulino, devido às palavras que utilizam e o número de repetições de cada palavra. Mais ainda, seria surpreendente que trabalhos enormes e tão significativos como Romanos, 1ª Coríntios e 2ª Coríntios não sejam obras de Paulo. Normalmente vemos Paulo mais por essas obras, como um organizador das Igrejas, do que pelas outras. A ideia aqui, ainda mais pela limitação de metodologia, é fazer pensar que talvez conheçamos o Paulo errado. Por exemplo, Lucas descreve, em Atos, um Paulo muitíssimo mais polido e "romano" do que Paulo parece nas 5 epístolas aqui atribuídas a ele. É possível que Romanos, 1ª Coríntios e 2ª Coríntios reflitam algo como o livro de Atos, ou seja, um Paulo idealizado, narrado/narrador a partir não de si mesmo, mas de uma comunidade fundada sobre seus ensinamentos.

Evidentemente, uma análise como essa deveria ser feita a partir dos textos em gregos mais antigos disponíveis. No entanto, esses mesmos textos são cópias-recópias bem distantes dos originais do século 1. Análises em outros vieses, como as idéias defendidas em cada epístola, ainda serão feitas (a seu tempo). Uma vez que essa metodologia de análise foi sendo aprimorada através de várias tentativas de classificar os textos e pouco se modificou quanto aos resultados, é provável que uma comparação de ideias defendidas também não modifique isso.
 
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CARTAS QUE NÃO SÃO DE PAULO

Atos de Paulo, loungecba.blogspot.com, 28/02/2021.
Marcos, um evangelista entre Pedro e Paulo, loungecba.blogspot.com, 05/06/2020.
O evangelho de Paulo, loungecba.blogspot.com, 02/04/2022.
Pauline epistles - wikipedia
Século 1 - 2ª parte, loungecba.blogspot.com, 13/06/2016.
The Missionary Journeys of Paul, churchofjesuschrist.org.
Who wrote Paul's Epistles?, Rasch Measurement Transactions, 2001.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Obscurantismo vs. Cristianismo


Capa do Epistolæ Obscurorum Virorum (Cartas de Homens Obscuros), publicado em 1515-1519 por Johann Reuchlin


A palavra 'obscurantismo' é entendida hoje como a restrição proposital do conhecimento, a si mesmo ou a outros. Esse nome passou a ser largamente usado desde o séc. 18, com uma revolução do método científico que deu aos homens conhecimentos sobre as transformações químicas, gases - e daí os primeiros motores, astronomia e a eletricidade. Muitos, de repente, tiveram a certeza de poderem descobrir por si mesmos qualquer coisa no Universo. 

Não descobrir 'por si mesmo' significava que o conhecimento ou ciência seria herdado ou concedido de alguma fonte divina. No mundo Cristão, seria o insight provido por Deus sobre as questões mundanas, totalmente em acordo com as Escrituras.

Curiosamente, o nome 'obscurantismo' surgiu em uma sátira que diversos intelectuais fizeram sobre o intento de um monge alemão em destruir as cópias do Talmude judaico, no começo do séc. 16. O Talmude era visto como uma deturpação do entendimento de outra escritura judaica, que chamamos Velho Tratamento. Ou, pelo menos, esse era o argumento para encomendar a queima das obras.

Mais ou menos desde então, muitas ações da Igreja foram chamadas de obscurantistas. O propósito deste texto é levantar o que há de verdade e inverdade nisso.

A IGREJA ANTI-OBSCURANTISTA

Enquanto funcionou sob a tutela de Roma Ocidental (sécs. 4 - 6), a Igreja se tornou um pólo educacional. Grandes pensadores como Justinus de Roma (100-165 d.C.), Irenaeus de Lyon (130-202 d.C.), Clemente de Alexandria (150-215 d.C.), Tertulliano de Cartago (155-240 d.C.) e Santo Agostinho (354-430 d.C.)¹ encontraram no ambiente religioso a estabilidade para produzir suas obras. Também foi através dos mosteiros e abadias que a educação greco-romana chegou à Europa Ocidental.

Quando o Império Ocidental se desintegrou, ocupado por povos menos educados, as províncias Romanas foram deixadas sem a tecnologia Romana (nem meios de reproduzir ela). Os mosteiros Beneditinos passaram a ser a única estrutura educacional existente. Por volta do séc. 8, boa parte das pessoas com recursos suficientes estudava nesses mosteiros. A adesão à vida religiosa era temporária: a partir de doações da família à ordem religiosa, o jovem era admitido como noviço e podia permanecer na vida ascética dos monges até que resolvesse sair. De fato, a maioria retornava às ocupações dos seus clãs para substituir os mais velhos como senhores de terras.

Nesses mosteiros medievais desenvolveram-se tecnologias como rodas-d'água, ferraduras, criação de peixes, rotação de culturas nos campos, óculos, relógios mecânicos e a produção de cervejas a partir de cereais. O aproveitamento frutífero da Natureza era visto como um dom divino de sabedoria, e oferecer esse conhecimento aos outros era uma demonstração de caridade. Não por acaso, foram ordens religiosas que administraram as primeiras universidades do Ocidente e até fundaram as primeiras escolas nas Américas.

A NOMEAÇÃO DOS APÓCRIFOS

Os escritos Cristãos circulam desde o séc. 1. Num primeiro momento, que se estendeu até o séc. 3, não havia o que hoje chamamos de um 'códice sagrado'. Diversos autores escreveram suas próprias versões dos Evangelhos e das cartas teológicas de Paulo. Boa parte desse material nem mantinha a linha teológica seguida pelos supostos autores. Por exemplo, cerca de metade das cartas de Paulo se contrapõe a conceitos da outra metade, tais como a manutenção de classes ou estratos sociais, além do papel das mulheres dentro da Igreja.

Um exemplo disso é a carta a Filemon, onde Paulo apresenta o caso do escravo Onésimo, que estava sob sua proteção. Paulo argumenta que Onésimo se tornara Cristão e o ajudava na prisão, encomendando que Filemon (dono de Onésimo) o tratasse como a ele mesmo. Na carta aos Colossenses, Paulo por outro lado manda que os escravos obedeçam a seus senhores (Colossenses 3.22). Hoje acredita-se que as cartas aos Efésios, Colossenses, 2ª Tessalonicenses, 1ª e 2ª Timóteo, e a Tito muito provavelmente não se originaram de Paulo. Os autores desses textos (assim como Lucas) tentaram romanizar Paulo, fazer de sua mensagem algo em acordo com as autoridades.

A negação de materiais bibliográficos (e sua ocultação do público), nesse início, teve o papel de selecionar obras que formassem um conjunto lógico, e que dessem suporte umas às outras, e também a uma instituição. Foi então que o nome 'apócrifo' ou 'oculto' passou a ser usado. Apócrifo era tudo aquilo que não se encaixava, que deveria ficar de fora, escondido do público.

CATEQUIZAÇÃO DAS MASSAS

Num segundo momento, o Cristianismo já fundido com o Império Romano se dedicou a difundir o credo imperial para os territórios na Europa e nas cercanias do Mar Negro. Um dos motores dessa difusão foi Santo Agostinho, educado na rica Cartago, que tratou de explicar Deus para as audiências Gregas. Agostinho era um pregador e argumentador poderoso. Mas entre os detalhes de sua preparação, segundo ele mesmo, estava a crença de que o conjunto total do Cristianismo seria chocante e ininteligível aos ouvintes. Por isso, ele intencionalmente desviava de certos temas ou conteúdos.

Tal estratégia e justificativa ainda são muito usadas. Faltaria habilidade dos ouvidores para compreender 'corretamente' os detalhes de uma pregação, ou mesmo elementos da fé que apoiam. Afinal, como representado no exemplo dos seguidores de Coré (Números 16), há eleitos de Deus para interpretar Suas palavras e estes não devem ser questionados. Dar elementos para questionar seria como estimular disputas.

A passagem da 'Igreja agência educacional' para a 'Igreja perseguidora de conhecimentos', ambas até convivendo num mesmo local e tempo, como se pode imaginar, ocorreu pela via do poder. Começou na medida em que os mosteiros se converteram em abadias e se vincularam aos poderes imperiais. Do séc. 10 em diante, religiosos voltavam das Cruzadas, para serem autoridades, com habilidades sacerdotais e militares, além de pertencerem a clãs da nobreza. Alguns monastérios evoluíram para fortalezas. Houve não poucos casos de uma abadia financiar ou dirigir ataques armados a outras. Educar nobres era uma tarefa santa, mas os nobres lutam entre si; os santos de uns podiam ser nomeados como os demônios de outros.

Um ponto importante do Obscurantismo é que o exemplo da Igreja de Beréia (Atos 17.10-11) nunca foi útil a um sistema militar ou de dominação. Nos primórdios da Igreja Imperial, os Concílios foram estratégias para definir quais seriam os textos aceitos, como seriam ensinados e para quem. O 'para quem' foi bem marginal quanto ao público comum: no séc. 6 a Europa já era pelo menos 50% cristianizada, mas as primeiras traduções bíblicas para idiomas populares só apareceram nos sécs. 8 e 9. Embora algumas frases e eventos bíblicos fossem populares, apenas depois do séc. 16 houve realmente uma difusão texto. Até então, conhecer os Evangelhos privilégio dos religiosos que, por seu juramento de fidelidade à Igreja, seriam menos tentados a discordar do entendimento institucional.

MUDANÇAS DE RUMO

A Reforma Protestante, no séc. 16, foi inicialmente um poderoso movimento anti-obscurantista. Os defensores da Reforma argumentavam que a Igreja Católica mantinha seus fiéis alheios às Escrituras, substituindo a mensagem de Cristo por interesses mesquinhos. De fato, várias criações Católicas como o Purgatório, a paga de tributos pelas almas dos mortos e a bênção dos doadores de grandes fortunas eram famosas trocas do texto Cristão por criações convenientes.

Qualquer língua além do Latim ou Grego eram consideradas seculares (não religiosas), desde que a Igreja se uniu funcionalmente ao Império Bizantino, no séc. 6. Por isso, a Bíblia só era copiada em Latim ou Grego Koiné (de Alexandria). No séc. 8, apareceram uma tradução de João para o idioma inglês e outra de Mateus para o alemão. No séc. 11, época das Cruzadas, apareceram versões em inglês do Pentateuco e dos 4 Evangelhos. Nos sécs. 13 e 14 surgiram versões bíblicas completas em Francês e Tcheco. Pelo menos 1200 anos depois de Jesus!

A partir de uma tradução do texto completo para o Alemão, feita por Lutero, um dos líderes da Reforma, muitas outras traduções foram produzidas. Até contrariando os esquemas Coloniais do próprio séc. 16, produziu-se versões em línguas africanas e indígenas, nos séculos seguintes.

No séc. 18, durante a Revolução Francesa, os intelectuais acusavam abertamente o rei e a Igreja por ocultarem da população os problemas sociais alarmantes. Isso era verdade, assim como foi verdade na Revolução Russa em 1905. Desde o Sacro Império Romano-Germânico (de quem a Igreja Católica francesa descendia) e Roma Oriental (de quem a Igreja Ortodoxa russa descendia), a Igreja desqualificava problemas mundanos como fome, exploração e doenças em favor da busca da espiritualidade e uma permissão única das autoridades ao conhecimento. Não sem razão, muitos movimentos anti-obscurantistas, como o Iluminismo na França e o Socialismo na Alemanha/Rússia, também se tornaram anti-Cristãos.

O Socialismo alemão, por exemplo, se valeu da educação de trabalhadores sobre direitos e fluxos monetários para produzir uma quebra da aceitação de deveres. O movimento das elites em combater esse tipo de educação como algo maligno incluiu a Igreja demonizando o movimento. Para hilaridade geral, um dos movimentos 'Socialistas' mais antigos foi a comunidade dos Essênios perto do Mar Morto, onde possivelmente João Batista teria se instruído, antes de ‘preparar os caminhos do Senhor’. E outro foi a comunidade Cristã de Jerusalém descrita no livro de Atos dos Apóstolos (Atos 2.44-47).

EVOLUÇÃO

O Cristianismo nasceu dentro do Judaísmo, numa época de conflitos políticos e inicialmente aceitando a cosmogonia judaica. Ou seja, os Cristãos eram párias dos Judeus por sua rejeição aos mestres Saduceus/Fariseus, e não por seu entendimento de mundo. Para os primeiros Cristãos, estava OK a formação do homem a partir do barro (Adama, em Aramaico), um mundo de terra plana sobre o grande mar subterrâneo e embaixo do oceano celestial.

Diversas contendas também surgiram entre a Igreja e a Ciência, como resultado da revolução metodológica. A Torah judaica foi canonizada como livro sagrado, anunciante de Jesus, e então seus conceitos sobre o funcionamento do mundo passaram a duelar com a tradição de cada povo e as descobertas científicas. Que absurdo os Bwiti africanos guardarem os ossos de seus antepassados! Que terrível uma luz produzida por eletricidade! Embora a maior parte dos duelos Igreja-Ciência diga respeito ao Velho Testamento, que é a Torah judaica, foi a Igreja Cristã quem mais se posicionou contra a Ciência.

Nicolau Copérnico e Galileu Galilei, por exemplo, usaram medições astronômicas para deduzir que a Terra orbitava o Sol, e não o contrário. Nesse mesmo séc. 16, Vasco da Gama faria sua viagem ao redor do mundo, provando que se tratava de uma esfera e não um plano. Esse modelo desafia coisas como o livro de Josué, quando o Sol e a Lua foram ordenados a parar no céu.

Josué, cap. 10
12. Josué falou ao Senhor no dia em que ele entregou os amorreus nas mãos dos filhos de Israel, e disse em presença dos israelitas: Sol, detém-te sobre Gabaon, e tu, ó lua, sobre o vale de Ajalon. E o sol parou, e a lua não se moveu até que o povo se vingou de seus inimigos. Isto acha-se escrito no Livro do Justo. O sol parou no meio do céu, e não se apressou a pôr-se pelo espaço de quase um dia inteiro.

Ainda que a tradução do hebraico tomada pudesse ser problemática², ela foi amplamente abraçada como verdadeira. Num mundo que girasse feito peão ao redor do Sol, com a Lua orbitando em volta, parar os astros no céu seria desastroso. Por isso, jamais Copérnico, Galileu ou mesmo Vasco da Gama poderiam estar corretos. Seus dados, raciocínio e mesmo espólios de viagem não poderiam ser obras de Deus, e não deveriam ser acreditados jamais. Eles próprios deveriam morrer, se não negassem suas obras (declarando-as como falsas) em público. Nenhum deles foi morto.

No séc. 19, outro elemento científico a causar ampla controvérsia foi a Teoria da Evolução. A Torah judaica começa justamente com Deus produzindo a Terra e os seres tais como são atualmente. O homem, em especial, foi feito do barro. Como então os cientistas poderiam dizer o absurdo de animais e plantas produzidos a partir de outros seres ancestrais? Mesmo em pleno séc. 21, esse embate quanto à Evolução existe: um verdadeiro 'crente' (em Jesus?) é entendido como alguém que deveria rejeitar por completo as evidências científicas nesse quesito, ainda que possa recorrer às mesmas evidências e metodologias em muitos outros assuntos. Poderia até mesmo consumir levedo transgênico num pão feito com trigo modificado geneticamente, assado num forno de microondas.

ESCONDENDO A BÍBLIA NA IGREJA

Muitos religiosos (e não apenas Cristãos) chamam a atenção para um mal hábito dos processos de conversão. 'Conversão' é o nome Cristão usado para a adesão de uma pessoa a um credo. Nesses processos, é comum que as pessoas realmente não vejam o objetivo, mas algo que os missionários apresentam e lhes parece bom. Nalguns lugares, missionários bem vestidos fazem pensar que o credo proporcionará riqueza. Noutro, autoridade e poder. Noutro ainda, uma boa aparência. Em muitas comunidades assoladas por dependências e problemas de saúde, o credo significa afastamento das drogas e tratamento.

O problema é que o Cristianismo, em especial, não trata disso. Jesus reuniu discípulos extremamente diferentes (e aparentemente eles até brigavam entre si) e tentou inspirar eles a ficarem juntos, apesar disso. Os grupos religiosos não costumam ser assim, e que bom haver muitos deles e bem diferentes! Não raramente, os líderes religiosos se associam a tais imagens problemáticas (desenhadas pelos novos convertidos) e se tornam estereótipos: "o rico", "o poderoso", "o curandeiro", "o juiz". A própria Igreja tem uma tradição de se associar com governos e fazer dos líderes 'novos representantes do Império', o que tem suas retribuições por parte dos governantes. A Igreja ordenou as Cruzadas, apoiou os reis Católicos em sua conquista dos povos nas Américas e na África. Depois também apoiou invasões e massacres nas duas Guerras Mundiais.

Dentro desse panorama, é importante notar que o Obscurantismo tem uma função social significativa: ele promove o poder de uns sobre os outros. Isso também acontece com o dinheiro, política, militarismo, racismo, etc. Dentro do Cristianismo, tal ferramenta de poder foi usada até como meio de manipular os ensinamentos bíblicos.

Primeiramente, houve a determinação de que apenas escritos Cristãos estariam em concordância com Deus, e portanto apenas esses seriam verdadeiros. Não raro, os demais deveriam ser destruídos. Em 325 d.C., o Concílio de Nicéia determinou que todas as obras de Árius³ fossem queimadas. Em 1240, o ex-judeu e monge franciscano Nicholas Donin de La Rochelle traduziu o Talmude para o latim e apresentou uma solicitação ao Papa para que as obras fossem queimadas, o que de fato aconteceu. Esse acontecimento foi quase idêntico ao de 1507, com o monge Johannes Pfefferkorn, a fonte para o livro Epistolæ Obscurorum Virorum. Em 1562, o bispo Diego de Landa ordenou a queima dos livros Maia, no México. No final do séc. 17, os Anglicanos eram famosos por queimar em público os livros Católicos, na Inglaterra. Esses são alguns exemplos de queimas ‘religiosas’, havendo outras famosas, como os Nazistas queimando livros ‘Comunistas’ na Áustria. Tal prática marcou a fase de cristianização da Europa, perdurou na retomada dos territórios Mouros e se estendeu para as batalhas de dominação promovidas por Espanha/Portugal nas Américas e na África durante o séc. 18. Mais recentemente, os sécs. 19 e 20 viram diversos movimentos Protestantes banirem toda literatura 'não Cristã' de comunidades fundamentalistas o suficiente para se apartarem da vida urbana.

Num segundo momento, precisamos entender o que seria uma literatura Cristã. Mesmo os Evangelhos foram produzidos muito depois de Jesus, então ser Cristão na prática era ser aceito pelas lideranças religiosas. Muitos livros foram condenados pelos Papas, Patriarcas e não foi diferente com os líderes Protestantes. Logo, para uma obra ser Cristã ela deve ser validada pela autoridade Cristã local. Por isso, o Obscurantismo foi usado, acima de tudo, para reforçar uma autoridade ou poder já existente. Talvez o exemplo mais pitoresco desse tipo de Obscurantismo seja a Bíblia dos Escravos. Tratou-se de uma re-edição do texto Bíblico feita no começo do séc. 19 para os escravos convertidos nos EUA, mas retiradas todas as partes que falassem sobre liberdade. A pregação aos escravos também era 'editada', para reforçar a importância de obedecer ao senhor. No caso, o Senhor-Deus e o senhor-dono eram figuras intercambiadas. Por definição, o dono era enaltecido como bom e justo (logo, suas maldades eram na verdade retribuições).

Mesmo hoje, ainda que exista uma lista enorme de pensadores Cristãos, a maioria absoluta dos fiéis jamais ouviu falar deles, nem ouvirá. Brennan Manning? Wendell Berry? Karl Barth? Huberto Rohden? Géza Vermés? Thomas de Aquino? Ugolino Brunforte?* São nomes desconhecidos do público religioso, bem mais afeito às 'invocações do poder de Deus'. Embora sejam/tenham sido claramente defensores da fé e exploradores do mundo espiritual dentro de suas teologias, há muito tempo não faz parte do funcionamento Cristão questionar e racionalizar, sobretudo o próprio Cristianismo. Mesmo no Protestantismo, as vezes em que esse questionamento apareceu resultaram em rupturas de grupos.

No mundo Judeu, a prática questionadora surgiu com a destruição de Jerusalém e o desaparecimento dos Saduceus, supostamente descendentes dos Levitas da época de Salomão, e na prática descendentes dos Macabeus. Os apontamentos e discussões produzidos pelos Rabinos deram origem ao Talmude. Já entre os Cristãos, a aliança Igreja-Estado cristalizou uma obediência militar que repudia o questionamento filosófico. Para defender-se desse questionamento, a Igreja desembocou em ações obscurantistas.

PANDEMIA DE 2020

A intrusão de religiosos Cristãos em diversas áreas do conhecimento produziu frutos como as belas músicas de Antônio Vivaldi e também os estudos de Gregor Mendel, pai da Genética. Mas geralmente essa intrusão é perigosa. Seguidos por fiéis como se fossem canais de comunicação com o divino, facilmente os líderes religiosos usam de seu status social para afirmar idéias perante um público pouco instruído - ou que até substitui seus conhecimentos por falas de uma autoridade. No Brasil são conhecidas atuações religiosas para moldar práticas legais, políticas, psicológicas e médicas. Longe do curandeirismo que permeia todas as culturas, os líderes religiosos se valeram atualmente como validadores (ou não) de práticas dos profissionais da Saúde.

Muitas igrejas, desde a disseminação maciça do vírus SARS-COV-2, mais vulgarmente 'novo coronavírus', prestaram grandes des-serviços à Saúde Pública. As más ações foram desde a afirmação de que Deus protegeria todos do grupo religioso (logo não deveriam apostatar da fé usando máscaras e evitando contato social), até a prescrição de orações curativas, exorcismos em pacientes de Covid-19 e venda de amuletos que poderiam curar os doentes, e por fim a insistência na continuidade de cerimônias coletivas. Em diversos países do mundo, houve tanta disseminação de novos casos da doença nas igrejas quanto em eventos esportivos, bares, etc porque, basicamente, o que tornava os ambientes perigosos era a quantidade e proximidade das pessoas. Não houve qualquer tipo de proteção divina dentro dos templos.

Diante da necessidade de encerramento temporário das atividades coletivas, as igrejas Cristãs em geral preferiram arriscar a vida de seus fiéis. Foram mais enfáticas ainda aquelas com acesso a autoridades políticas. Com ambas as lideranças concordando quanto a arriscar as pessoas e não avisar sobre (e nem mesmo reconhecer) os riscos, milhares de casos da doença foram rastreados com sua origem em um único culto religioso. Não foi diferente na época da Gripe Espanhola, apesar dos mais de 100 anos de avanços desde então.

Onde está a restrição ao conhecimento? Poucas religiões no mundo mantém ritos que ainda dependem de um espaço sagrado, que não podem ocorrer fora dali. O Judaísmo tinha essa relação com o Templo de Jerusalém. O Cristianismo, em especial, não mantém tal ligação com um local sagrado. Mas tal detalhe geralmente é omitido das discussões (como fazia Santo Agostinho), das pregações, das conversas até, porque é institucionalmente valioso cultuar os espaços. Os templos são referidos como 'casa do Senhor'. Fora da igreja (espaço físico), aceita-se a perda do contato com Deus, em detrimento de ensinos do próprio Jesus (João 4:20-24).

A QUEBRA

Há uma cisão lógica entre a Religião e a Ciência, bem conhecida. De um lado, o conhecimento é fruto de um entendimento do texto sagrado e jamais poderá discordar de tal texto. De outro lado, o conhecimento nasce da lógica aplicada aos dados experimentais, e questionada tanto quanto for possível. A base para o conhecimento é uma base, e somente isso. Inevitável que o estabelecido e o mutante se contraponham... Mas é necessário, num mundo de fé, viver com ambos. Boa parte das pessoas não faz a menor idéia de como seus próprios telefones funcionam.

O caminho obscurantista sempre foi a supressão da diferença, ou da discussão, declarando outras opiniões como falsas, outros trabalhos como falsos, até a evidência experimental como falsa. Como mostrado acima, mesmo partes do texto ‘sagrado’ precisam ser escondidas para manter privilégios e poderes. Questões como a sabedoria embutidas nos ensinamentos bíblicos, interferência de Deus na história humana e a significação de Jesus no funcionamento das sociedades são altamente discutíveis e de proveitosa discussão, mas quase sem exceção tidas como já resolvidas em contextos obscurantistas. Geralmente essa 'discussão já resolvida' é simplesmente um pacto entre autoridades, um acordo de 'toma lá, dá cá'. Para vergonha do Cristianismo, tanto o nome de Cristo como a Verdade pregada por Ele foram e são comumente usados em favor dos mesmos poderes que determinaram Seu assassinato.

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¹ Justinus de Roma defendeu o Cristianismo perante o Senado Romano, argumentando que as características do Logos ou Mundo Ideal se cumpriam em Deus e Jesus era um transmutador entre esse 'mundo divino' e o 'mundo material'.

Irenaeus de Lyon atuou fortemente contra as seitas Gnósticas. Ele defendia que as experiências visionárias jamais poderiam substituir a tradição dos apóstolos e os Evangelhos. Ele é a referência mais antiga a citar juntos Mateus, Marcos, Lucas e João, bem antes que houvesse um livro emendando todos esses textos.

Clemente de Alexandria se dedicou à conversão dos Gregos para o Cristianismo. Ele descreveu uma antropologia da religião grega, apresentando a crença nas forças da Natureza, depois em seres antropológicos, depois em mitos semi-divinos e finalmente em deuses que apenas serviram para desmembrar os atributos de Deus, juntando -os com todo tipo de falha moral dos homens.

Tertuliano de Cartago elaborou uma das 1as metafísicas do corpo, espírito e Divino. Esse foi um assunto importante na Cristandade, desde então. Segundo ele, havia um 'material' que compunha o Pai, Filho e Espírito Santo. Algo semelhante a isso tinha sido dado a Adão, mas foi poluído pelo pecado e o material 'sujo' espalhou-se para cada homem desde então. Ele via o contato religioso como uma 'purificação', à qual tinham chegado os fundadores da Igreja.

Santo Agostinho compreendia a dualidade corpo-espírito no sentido Plantonista, isto é, uma criação imperfeita e uma perfeita, inimigos entre si. Agostinho elaborou o conceito de Pecado Original e argumentava pelo distanciamento do homem de tudo que fosse carnal.

² Traduções, principalmente a partir de um idioma antigo que não usava vogais nem separações entre palavras, sempre foi problemático. Muitas vezes, palavras diferentes eram escritas igual, e resta comparar trechos para ‘deduzir em aproximação’ o significado das expressões. Uma teoria curiosa sobre esse evento de Josué fala sobre a palavra usada para 'parar', que é só aparece repetida no Salmo 38:

Salmos, cap. 38
7. De fato, o homem passa como uma sombra, é em vão que ele se agita; amontoa, sem saber quem recolherá.

Obviamente, aqui se trata de 'escurecer' e não parar. Escurecer o Sol indicaria um eclipse solar prolongado na região da Judéia. Eclipses são previsíveis, e houve um evento assim em 30/out/1207 a.C.

³ Arius (256-336 d.C.) foi um líder religioso de Alexandria, no Egito. Sua pregação era de que Deus Pai estava acima e comandava tanto o Filho como o Espírito Santo. Essa idéia não era apenas dele, mas corrente de uma grande parte dos Cristãos. Apesar do Edito do Concílio de Nicéia, no séc. 7 ainda havia relatos de obras de Arius na Espanha.

* Brennan Manning (1934-2013) foi um ex-padre que defendia conceitos profundos de fé desvinculados da prática religiosa, traduzidos no relacionamento das pessoas com Deus e com as outras pessoas. Sua obra mais famosa é o Evangelho Maltrapilho.

Wendell Berry é um escritor e fazendeiro que analisa as relações entre os homens e o ambiente com base em princípios Cristãos. Sua obra mais famosa é The Unsettling of America - A inquietação da América.

Karl Barth (1886-1968) foi um ex-pastor argumentando pela desvinculação entre a Graça Divina e fatores culturais ou políticos. Ele foi um grande opositor de Hitler, na Alemanha. Sua obra mais famosa é Epístola aos Romanos, um comentário sobre a carta de Paulo.

Huberto Rohden (1893-1981) foi um ex-padre que se dedicou à transcrição filosófica do Cristianismo, isto é, às conexões entre o Cristianismo e outras religiões, assim como às Ciências em geral. Possui muitas obras famosas, entre elas "De alma para alma".

Géza Vermés (1924-2013) foi um estudioso do Judaísmo e Cristianismo, famoso por suas traduções de obras antigas e as pesquisas sobre a vida dos Cristãos no séc. 1. Ele foi um dos tradutores dos textos da famosa biblioteca Essênia encontrada nas cavernas de Qumram, às margens do Mar Morto. 

Tommaso d'Aquino (1225-1274) foi um teólogo Católico que traduziu as idéias de Aristóteles para o Cristianismo. Segundo ele, os homens só poderiam ser felizes/prósperos na medida em que descobrissem o seu propósito segundo Deus. De estudo obrigatório na formação eclesiástica, sua obra mais famosa é Suma Teologica.

Ugolino Brunforte (1262-1348) foi integrante do grupo de Francesco d'Assisi e um de seus biografistas. Nos contos de Brunforte, Francesco e seus nomes pregavam avidamente a humildade e irmandade entre os homens, revelando Cristo como cerne dessa comunhão. Sua obra mais famosa é Fioretti (Pequenas flores).

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PAPÉIS QUEIMADOS NOUTRO DIA

FOSTER, Frank Hugh. Theological Obscurantism. The American Journal of Theology, v. 15, n. 1, p. 96-106, 1911.


Bible translations - wikipedia


CARTWRIGHT, Mark. Medieval Monastery, ancient.eu, 14/dez/2018.

Irenaeus - wikipedia

Justin Martyr - wikipedia

Obscurantism - wikipedia

QUADRI, Sayed A. COVID-19 and religious congregations: Implications for spread of novel pathogens. International Journal of Infectious Diseases, 2020.

REUCHLIN, Johann. Epistolæ Obscurorum Virorum. Ed. Chato & Windus, 1909.

STETZER, Ed. Beware of Obscurantism, christianitytoday.com, 8/jul/2014.


WIETHOFF, William E. The obscurantist design in Saint Augustine's rhetoric. Communication Studies, v. 31, n. 2, p. 128-136, 1980.

domingo, 17 de junho de 2018

Criacionismo

detalhe do teto da Capela Sistina (do papa Sixtus IV), pintado por Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni em 1510, onde aparecem Adão e Deus

Um tópico interessante sobre o Brasil (e outros lugares) é o que alguns já chamaram de “superficialidade tecnológica”. Em poucas palavras, esse termo significa fazer uso de ferramentas ou instrumentos sem ter a menor noção de como eles funcionam. Significa usar um computador sem saber o que é um software, ou energia elétrica. O conceito surgiu para ser aplicado em tecnologia, mas serve bem a outras áreas. Por exemplo, os povos europeus que os romanos dominaram eram “tecnologicamente superficiais” quanto às suas construções. Desde a queda de Roma Ocidental (480 d.C.) até por volta do ano 1000, os europeus habitaram ruínas e adoraram estátuas, pinturas, etc como obras de deuses de um outro mundo. Para eles, o latim era um “idioma mágico” (Harry Potter que o diga). Em questões de fé, ser “tecnologicamente superficial” significa, por exemplo, crer que a Bíblia e tudo que ela contém são eventos imediatamente acontecidos (ex. ontem), dentro da própria congregação onde você está ou ainda gravados no papel pelo próprio Deus. Quem já não viu bíblias abertas sobre pedestais, talvez jamais folheadas, como se para emanar algum poder? Quem já não presenciou alguém furioso numa encenação de Páscoa, tentando defender Joaquim-vestido-de-Jesus contra um centurião romano com espada de papelão e capacete de plástico?

A situação fica ainda mais curiosa quando ciência e fé se misturam. E isso não é tão difícil, pois muitos textos bíblicos tratam do cotidiano das pessoas entre talvez 2000 a.C. e o final do séc. 1 d.C. O livro de Levítico proíbe o consumo de “animais imundos” como frutos do mar e porcos. Será que Deus estava raivoso quando criou esses seres? Ou podemos pensar que os 100 Km montanhosos que separam Jerusalém do mar demorassem um tempo para ser percorridos, o suficiente para transformar ouriços e ostras em algo com cheiro muito suspeito. Quanto aos porcos, são famosos transmissores de parasitas humanos. Não duvido que Deus inserisse algumas medidas “sanitárias” para proteger Seu povo das pestilências, como fez com respeito à lepra. E também não duvido que tais medidas possam ser uma fortuita obra humana, associadas a uma revelação divina¹. Seria hilário tentar viver, hoje, estritamente segundo as regras de 1400 a.C., data provável da compilação do Pentateuco segundo Moisés².

Mas a Ciência produz ferramentas para o conforto e para responder questões filosóficas. O uso de agricultura, ao mesmo tempo que proveu mais alimentos para as comunidades, colocou dúvidas sobre a participação divina nos frutos e cereais. Se o cereal não fosse plantado por homens, ele não nasceria! O texto de Levítico conclama ao Senhor todo cereal ou fruto que nasce sem ter sido plantado. Lá por volta de 1000 - 800 a.C. o autor de Eclesiastes também escrevia:

Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da mulher grávida, assim também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas. (Eclesiastes 11.5)

Hoje, invalidamos a 1ª parte dessa sentença. Seria pecaminoso ver a previsão do tempo ou fazer ultrassons pré-natais? O escritor bíblico mentiu? Descobrimos todas as obras de Deus? Não, não e não. O vento era imprevisível na época de Eclesiastes, mas Jesus já cobrava dos homens os seus conhecimentos sobre a agricultura. De forma semelhante, poderíamos seguir para o Gênesis e ver o que Moisés supostamente falou a Criação. 

O RELATO

“Supostamente” não é por falta de fé no texto bíblico: trata-se de um autor desconhecido, que não deve ter assistido (em 3ª pessoa, como observador externo) Deus criando o mundo. Tradicionalmente, diz-se que o texto é de Moisés, que viveu(ram) (ver O Êxodo fora da novela) por volta de 1400 a.C. Mas sabemos, pelo estilo e outros registros, que foi redigido em seu formato final no reinado do rei Josias de Judá, após seus sábios/sacerdotes organizarem manuscritos que encontraram dentro do Templo (ver História do nome de Deus). E temos, daí, um relato onde Deus faz o 1º homem do barro, faz a 1ª mulher de sua carne e, depois de Lhe desobedecerem pela 1ª vez, o Mau invadiu-os e a toda Criação. Deus os tira do Éden para colocar em uma terra onde teriam de trabalhar pelo seu sustento, onde se reproduziram e geraram os 50 bilhões de pessoas que já viveram, além dos quase 8 bilhões atualmente vivos.

Devemos, entretanto, lembrar que, além da criação do Homem a partir do barro, faziam parte da cosmologia do VT a Terra ser plana como uma moeda, o Sol e a Lua girarem ao redor dela (Josué 10.12,13) e o céu azul ser um imenso oceano (Gênesis 1.7).

A EVIDÊNCIA

A versão científica é radicalmente diferente. Nesta, o homem atual resulta da mistura e extinção de vários outros “humanos”. Trata-se de uma espécie única desde os últimos 100 mil anos, que divergiu dos primatas mais próximos há 3.5 milhões de anos. Espécie única significa que os outros “humanos” morreram até o último indivíduo ou que uma espécie se misturou irreversivelmente com a outra. Os famosos Neandertais, por exemplo, viviam na Europa e tinham crânio e corpo maiores que o homem atual, com pernas bem mais curtas. Essa espécie “humana” usava ferramentas, mas desapareceu (não deixou mais esqueletos) desde 40 mil anos atrás. Comparações de DNA antigo extraído de esqueletos sugerem que se fundiram à espécie Homo sapiens sapiens atual. Ao mesmo tempo, amostras de lugares diferentes indicam que os homens como os conhecemos dominaram o sul do Saara há 3.5 milhões de anos, enquanto outras espécies semelhantes dominaram a Europa e o sul da África na mesma época. É isso que significa divergir evolutivamente: duas raças semelhantes e equivalentemente poderosas dizimam seus concorrentes, cada qual no seu território. Os “homo” sul-saarianos aprenderam a usar ferramentas; os da Europa e do sul africano tornaram-se respectivamente pequenos e ágeis puladores de árvores ou intimidadores macacos terrestres de 300 Kg. “Tornaram-se” também não pode parecer algo mágico - significa que as raças foram divergindo e, passo a passo, uma poderosa dizimou outra um pouco menos dotada.

CIÊNCIA OU BÍBLIA

As evidências da(s) Criação(ões) Bíblica e Científica também são muito diferentes. O texto Bíblico provém talvez de Moisés, ou de uma fonte muito mais antiga. Historicamente, podemos inferir que venha do Egito, onde os hebreus passaram por uma grande modernização cultural. Se bem que o Éden é posicionado, biblicamente, no Mar Vermelho ou no Golfo Pérsico. São relatos orais que, alguma hora, foram transcritos no papel e re-copiados desde então. Na melhor hipótese, podemos supor que sejam fruto de uma revelação divina a um profeta. Já o texto científico tem sua base em um caminhar-para-trás no tempo a partir de suposições testáveis feitas sobre de esqueletos antigos que fornecem anatomia, idade, posição geográfica e restos de DNA. Como ambas são bem diferentes, muita gente já teve de escolher entre uma e outra. Especialmente porque isso tem implicações, e a mais notável é o papel de Jesus nesse mundo.

JUIZ JESUS

Tanto a Ciência quanto o relato bíblico merecem credibilidade. A Ciência, pela metodologia com que investiga, buscando sempre o que é mais correto. O relato bíblico, pelas fontes de que dispõe, isso é, a revelação do próprio Criador passada oralmente e depois escrita, de geração em geração. Quando ambos discordam, temos o clássico dilema policial de acreditar nas evidências ou nas testemunhas. Jesus, ou pelo menos o que os evangelistas escreveram Dele, dá sinais de concordar com o VT. Mas sempre podemos pensar que os evangelistas eram, eles próprios, judeus que tinham a Criação Bíblica como seu conhecimento de base. Em nenhum momento Jesus foi interrogado explicitamente sobre o início do mundo, ou falou abertamente sobre esse assunto, então o que nos resta é analisar figuras de linguagem da narrativa de terceiros.

Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo. … Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante. (1ª Coríntios 15.21-45)

Além dos profetas, a palavra de Jesus é o testemunho com maior credibilidade que temos. Ele cita Abel, filho de Adão, como um profeta, o que está registrado nos textos de Mateus (Mateus 23.34-36) e Lucas (Lucas 11.49-51). Não podemos imaginar que Jesus tivesse um entendimento limitado ou restrito pela cultura do Seu tempo! Segundo Paulo, Jesus veio à terra para desfazer o castigo da mortalidade imposto sobre Adão e Eva, quando desobedeceram a Deus. Se não temos um Adão e uma Eva (como diz o Gênesis humano científico), então sobre o que Paulo está falando? Ainda que possamos supor que Paulo misturava a iluminação divina com seu conhecimento do 1ª século, Jesus faz uma referência a Adão que não podemos ignorar.

Por outro lado, está bem claro que todos os Cristãos são mortais. Não sabemos sobre João, mas todos os demais apóstolos morreram. Inclusive Pedro, famoso por presenciar milagres. Jesus, então, apesar de ter ressuscitado fisicamente algumas pessoas, incluindo a Si próprio, veio à terra para preparar o Reino de Deus (Mateus 12.28), assinalar o perdão dos homens (Mateus 12.31) e anunciar a Ressurreição ao final dos tempos (Mateus 22:28-30). Ele anunciou um re-nascimento após a morte, que não é exatamente reverter a mortalidade de Adão, mas fazer algo inexistente antes. A mortalidade de todos os demais seres viventes, castigados junto com Adão, não foi sequer abordada por Jesus.

Lembremos que, no VT, o pecado de um pesava sobre o destino de todos. O homem puro teria vida longa, enquanto o pecador morreria, matado por Deus ou outros homens. Sempre terminava com a morte sendo o fim completo e definitivo. No tempo dos gregos (330 - 130 a.C.), introduziu-se o conceito do Hades, um mundo sombrio onde os mortos ficavam depositados, aguardando por toda eternidade. Embora Paulo, o grego, tenha se esforçado em anunciar Adão e Jesus como o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim da Humanidade, precisamos avaliar seriamente se isso era uma revelação dada a ele ou parte de sua retórica figurativa, uma vez que Jesus não colocou tais termos. De fato, a única referência criacionista de Jesus, ainda sob a palavra de Seus narradores Mateus e Lucas, é citar Abel como um profeta (coisa que o VT mesmo não faz).

UMA NÃO-CONCLUSÃO

É significativo que Jesus não tenha abordado esse tema; talvez não fosse uma questão na moda em Sua época, mas seria algo que muitos hoje gostariam de Lhe perguntar. Talvez valha a fala de Jesus: “Quem me constituiu juiz ou árbitro entre vós?” (Lucas 12.14). A misteriosa Carta aos Hebreus diz que não se chega a Deus senão por meio da fé (Hebreus 11.6), o que significa, raciocinando, que provavelmente Deus se faz invisível à Ciência. Ao contrário do que clamam alguns argumentos Criacionistas de que os cientistas são ateus, muitos se debruçam sobre Seu rastro, como mostram as freqüentes notícias eufóricas sobre alguém ter descoberto a “assinatura matemática”, "química" ou “cósmica” de Deus.

Ser “teologicamente superficial”, aqui, significa não se questionar sobre a Criação, aceitar passivamente a opinião mais vantajosa. Cerca de 40% dos estadounidenses acredita na Criação a partir do barro. Outros 40% acreditam numa evolução guiada pela mão divina e, finalmente, 20% fica puramente na Ciência. Entre os escolares brasileiros, cerca de 30% acreditam na Criação a partir do barro, contra 40% que aceitam alguma forma de evolução do Homem (assustadores 30% são indecisos, talvez tentando conciliar as duas teorias). Mas é possível conciliá-las? Sem ferir gravemente a uma delas, somente pensando uma revelação feita a um profeta, na medida do conhecimento da época (2000 a.C., pelo menos), onde Adão e Abel tenham sido, para além da alegoria, pessoas reais, talvez líderes de clãs em algum lugar próximo ao Golfo Pérsico. Esse seria o limite de alcance do relato, ainda que não o início de tudo, mais ou menos como quando alguém lhe pergunta sobre sua lembrança mais antiga.

JESUS SEM ADÃO?

E quanto ao papel de Jesus como Salvador, de um Homem que não surgiu pecando? Talvez devêssemos, aí mesmo, nos perguntar porque os homens se admitem pecadores, carregadores de uma culpa congênita. Lembremos que essa culpa era irremediável (e pouco representativa) no VT. Apesar disso, mesmo os mais seguidores da Lei permaneciam suspeitos da própria pureza (Isaías 6.5).

Segundo Jesus, o pecado reside em (I) não amar a Deus acima de todas as coisas; (II) não amar ao próximo e a si mesmo igualmente (Mateus 22.36-40, 1ª João 4.21). Parecem condições simples, mas são muito abrangentes. Do fim para o começo, “amar ao próximo” significa ter seu prazer no bem estar, na felicidade e no crescimento do outro. É uma construção social de outras espécies também, e pode-se citar muitos animais que defendem o seu grupo às próprias custas. Nos humanos, essa atitude pode ser inata ou não, e fica mais fraca especialmente em grupos grandes. Pode-se até imaginar uma gama de crianças e adultos, homens e mulheres, ricos e pobres, que entra facilmente em pecado II (ou seja, que escolhe pelo dano ao próximo) a menos que seja ensinada não fazer isso.

Paulo falava sobre a Lei ser uma condenação (Romanos 3.19-24). Mas alguém pode aprender a amar o próximo? A parábola do semeador mesmo adverte que apenas uma parte aprende o Evangelho. E isso é talvez diferente de crer em Jesus, pois é uma regra moral (eu posso crer em Jesus e cometer crimes contra meu próximo). Depois de amar inatamente³, imitar o amor de Jesus é, ainda que muitas vezes impossível ou difícil, segundo nos instrui a parábola, o melhor caminho para escapar ao pecado II. Contemos com a interferência divina para isso!

Amar a Deus acima de tudo significa ter prazer proporcionado por Deus, não por meios naturais. Significa que Deus te faz feliz mais do que outras coisas. Pode significar rir de felicidade quando tudo ao seu redor desaba, mas também cria a pergunta: o que é o “estímulo Deus”?

Havendo uma ordem diretiva do Senhor, “amar a Deus” significa obedecer ela. Mas, lembrando, ordens psicóticas têm também essa característica diretiva e com obediência. De fato, a referência religiosa em pessoas delirantes é tão comum que motivou investigações sobre a conexão de religião e insanidade. Apesar disso, em João 3.1-10 o próprio Jesus fala para Nicodemus, fariseu renomado, sobre aquele que é 'nascido de novo' ter instruções diretamente de Deus*.

Não havendo uma ordem diretiva, “amar a Deus” pode significar não desobedecer regras objetivas. Há muitas delas em Êxodo e Levítico, inclusive muitas que criam o pecado II através da punição ou morte de quem faz ou se recusa a fazer algo. Tolerar o prejuízo causado por alguém, ainda que seja socialmente injusto, não parece menos amoroso com o próximo de que matá-lo a pedradas. Jesus mesmo argumentou pelo produto maior das ordens ou da Lei, de forma que elas evitassem o pecado II. Assim, é preciso pensar além do texto, e às vezes flexibilizá-lo muito para não criar outros pecados. Boa parte da literatura rabínica se dedica justamente a isso.

“Amar a Deus” não é uma faculdade animal (pelo menos não parece ser, apesar do "Tudo o que tem vida louve o Senhor" de Salmos 150.6), mas é uma ação muito antiga entre os humanos. Todas as culturas tiveram ou têm seus deuses. Mas não se trata necessariamente do Senhor dos Exércitos de 1000 a.C., YHWH ou o Pai de Jesus. Nesse caso, “amar a Deus” pode depender completamente de entender Jesus como Seu representante, algo ensinado por Ele e não conhecido de outra forma (o que de fato constitui o Cristianismo como religião independente do Judaísmo).

O BOM PASTOR

Resumindo, a colocação “simples” de Jesus sobre o pecado não inclui um Pecado Original, herdado de Adão. Na verdade, ela permite que algumas pessoas escapem naturalmente ao pecado II de não amar ao próximo, mas tornam improvável que alguém escape ao pecado I sem ser um Seu seguidor. Jesus só não arrebanha para Si alguns dentre aqueles que ouvem Deus diretamente, como os profetas.

Independentemente de Adão, a obra de Jesus se concentra sobre livrar os homens do pecado I, o que apenas destoa das teologias mais difundidas. Ele não deixa claro porque precisaria morrer, mas afirma que era seu destino e que salvaria os homens. A conexão entre as duas coisas é teórica, e foi onde Paulo colocou seu ponto. Embora frequentemente se argumente que, sem Adão, não haveria um Pecado Original pelo qual precisasse haver um sacrifício, temos a exposição de Jesus feita na festa de Hanukkah**:

Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas. Mas o mercenário, e o que não é pastor, de quem não são as ovelhas, vê vir o lobo, e deixa as ovelhas, e foge; e o lobo as arrebata e dispersa as ovelhas. Ora, o mercenário foge, porque é mercenário, e não tem cuidado das ovelhas. Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido. Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas. Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor. (João 10.11-16)

Imagens pastoris eram comuns na Judéía e Grécia mas, ao se referir como “o Bom Pastor”, Jesus se apropriou de um símbolo forte dos gregos, associado com Hermes o Salvador. Esse símbolo era usado desde 500 a.C., amplamente conhecido na Judéia e Roma. Isto é, não dá para dizer que Jesus o criou. O texto de João é muito pobre de alegorias, dando a entender que isso também não era uma parábola. Jesus falou claramente em dar sua vida (pois ninguém poderia tomá-la) e depois a recuperar conforme Ele mesmo quisesse. Ele não fala em pagar pelos pecados de Adão, mas que dar Sua vida era a tarefa Dele junto ao Pai. E talvez a ligação com Adão seja só vista por Paulo.

Na simbologia grega, o Bom Pastor dava sua vida para salvar as ovelhas do ataque dos lobos; além do peixe, esse o Bom Pastor (que já era usado na Grécia e Roma) logo se tornou o principal símbolo Cristão. Resta saber a que lobo Jesus se referia; normalmente esse inimigo é identificado com o Diabo.

EU SOU O CAMINHO

É importante que cada povo sinta-se vinculado a sua terra. Geralmente, esse vínculo é feito por mitos da Criação que trazem elementos do povo em questão associados ao surgimento da própria terra. No Cristianismo e no Islamismo, isso se complica pelo fato de serem religiões que valorizam sua exportação a outras terras e povos.

No Islã, o laço com a terra inicial (Meca) é mantido pela obrigatoriedade das peregrinações - embora grande parte do mundo islâmico seja composta por pobres com pouca probabilidade de viajarem até o Oriente Médio. O Catolicismo contornou essa dificuldade criando peregrinações a muitos lugares santos espalhados pelo mundo, mas principalmente na Europa. No Protestantismo, a aversão aos ícones retirou não só as imagens e pinturas dos templos, transformando-os em prédios puramente funcionais, como uma empresa, mas também destituiu de valor todos os lugares sagrados.

Apesar disso, especialmente entre os Protestantes fortaleceu-se a noção da Criação a partir do barro, como relatado no Gênesis, a ponto de pessoas rejeitarem sumária e coletivamente as evidências históricas e científicas em contrário. Num estado de “superficialidade tecnológica”, tudo depende das influências sociais sobre cada pessoa. Afora os artifícios retóricos e desqualificadores de criacionistas e cientificistas, como dito no início desse texto, ambas as teorias - a Criacionista e a Científica - têm seus valores e metodologias diferentes, cabendo inevitavelmente a cada um escolher entre elas, uma vez que sua conciliação é difícil. Como uma velha árvore não guarda vestígios da semente onde germinou, estamos muito longe no tempo desde a Criação para obter algo mais que teorias.

Analisando o principal dilema da teoria Científica, que é a perda do papel de Jesus sem o pecado de Adão, acabamos vendo que Jesus é, dentro do sistema criado por ele próprio, essencial do contato entre os homens e Deus, com ou sem Adão. Ainda que tenhamos antepassados vivendo há milhões de anos que viveu no sul do Saara, não há como chegar a Deus sem a intervenção de Jesus, mesmo se estivermos entre as almas puras e boas que nasceram e permaneceram amando ao próximo.

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¹ Diversos teólogos, desde o séc. 1 d.C., já defenderam Deus como o sentido da razão humana. Esse é justamente o ponto de João 1.1. Os teólogos gregos como Cerinthus separavam Deus, Jesus e a Razão. João afirmava que todos eram uma única identidade, tendo sido seguido nessa filosofia por Policarpo (69-156 d.C.) e Irineu (130-202 d.C.). Segundo eles, e também em parte segundo o livro de Provérbios, o conhecimento em si é uma obra divina, que brota não da experiência humana, mas da concessão de Deus.

² A experiência de Arnold Stephen Jacobs em 2006 talvez seja de grande valia sobre isso. Ele passou 1 ano seguindo à risca o texto bíblico, tal como está escrito. Você pode ler o livro dele, uma reportagem ou uma entrevista dele aqui.

³ Uma observação curiosa sobre esse amor inato, primal e puro aparece no Pastor de Hermas.

* Alguns pesquisadores cognitivistas já consideraram a religiosidade como doença mental. Embora a motivação religiosa de delírios seja comum, o comportamento religiosamente motivado também é, podendo ser encontrado em 35 a 85% das pessoas, sem que isso se reflita na ocorrência de psicopatologias. Também, não há maior interferência da religiosidade com uma patologia mental (ex. Ansiedade) do que com outra (ex. Esquizofrenia). Entre os poucos estudos que abordam de forma metodológica essa ligação de religiosidade e psicopatologias, aparece como indicativo de doenças mentais o entendimento não convencional (ou incomum) de contextos religiosos, como por exemplo, no Cristianismo, receber mensagens de Deus através do rádio/televisão ou sentir-se ordenado a sacrificar alguém para agradá-Lo.

** Em 330 a.C., a Judéia e grande parte do mundo foram anexados ao Império Macedônio por Alexandre o Grande. Alexandre só viveu 12 anos após seus feitos, mas deixou imensos territórios para serem governados por seus generais. Esses generais estabeleceram linhagens reais que logo entraram em guerra umas com as outras, pelo controle de terras. A Judéia ficou inicialmente sob o domínio dos reis greco-egípcios Ptolomai (as famosas Cleópatras são dessa linhagem), enquanto a Síria e territórios a leste ficaram sob os Seleucos. Até cerca de 200 a.C., os Ptolomai deram liberdade de culto aos judeus. No entanto, Antíoco III o Grande, dos Seleucos, expandiu seu território, derrotou Ptolomeu V, e anexou a Judéia. Ele iniciou um período de forte pressão para que os costumes e a religião nativos fossem abandonados em favor dos costumes gregos. Seu filho Antíoco IV Epiphanes (175 a.C.), em especial, saqueou o 2º Templo e destituiu o sacerdócio judeu, o que iniciou a revolta dos Macabeus em 167 a.C. A revolta foi liderada pelo sacerdote Matatias e seus 5 filhos. O 2º líder da revolta, Judas Macabeu, obteve êxito em retomar Jerusalém e o Templo.

Judas e seus irmãos disseram então: Eis que nossos inimigos estão aniquilados; subamos agora a purificar e consagrar de novo os lugares santos. Reunido todo o exército, subiram à montanha de Sião. Contemplaram a desolação dos lugares santos, o altar profanado, as portas queimadas, os átrios cheios de arbustos que tinham nascido como num bosque ou sobre as colinas, os aposentos demolidos. Rasgando suas vestes, eles se lamentaram muito e cobriram as cabeças com cinza, prostraram-se com o rosto por terra, tocaram as trombetas e ergueram clamores ao céu. Então Judas encarregou alguns homens de combater os soldados da cidadela, enquanto purificavam o templo. (1ª Macabeus 4.36-41)

Essa re-dedicação do Templo passou a ser comemorada, nos anos seguintes, com a festa de Hannukah. Tradicionalmente, a festa prossegue por 9 dias, até que todas as velas do Menorah tenham sido acesas, uma por dia.

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TEXTOS CHATOS DEMAIS PARA SEREM LIDOS

Good Shepherd - wikipedia
Hanukkah - wikipedia
Kriophoros - wikipedia
Moss S, Defying Darwin, The Guardian, 17fev2009
Oliveira GS, Estudantes e a evolução biológica: conhecimento e aceitação no Brasil e Itália, tese de doutorado na Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, 2015
Pettit J, God or meaningless morality, notsodeepthoughts.org
Sanderson S, Vandenberg B, Paese P, Authentic religious experience or insanity?, Journal of Clinical Psychology 55(5):607-616, 1999
Valério M, A falsa inerrância científica bíblica, evo.bio.br, jan2004

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Culto da ignorância

Trata-se um tema polêmico. Por isso, deixo aqui um material bem interessante a se ler, publicado na Revista Pesquisa Fapesp Ed. 236 - Outubro 2015. Ao invés de deixar uma pergunta sobre esse tema, penso que talvez fosse possível uma discussão mais não-objetiva, dadas as implicações que o debate FÉ vs. CIÊNCIA tem para ambos os lados.

 Visões Nubladas
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Outra leitura interessante poderiam ser as interpretações de um certo Messias vindo duma província romana de pouca expressão, que insistiam em dar novos ares à fabulosamente política Lei de Moisés. Embora a Lei tenha sido um presente memorável aos hebreus briguentos saídos de debaixo da lei egípcia, essa mesma lei tornou-se um instrumento mal usado nas mãos dos chefes fariseus, durante os governos grego e romano na Judéia.

O Messias parecia colocar algumas perguntas acima da Lei: (1) Você é moralmente habilitado a fazer cumprir a Lei? (2) O cumprimento da Lei exprime seu amor por Deus e pelo próximo? Assim, quando interrogado pelos Fariseus ou até pelo Diabo, Jesus dobrava e relativisava a Lei sob a necessidade de responder essas perguntas. Em se tratando de um debate FÉ vs. CIÊNCIA, talvez os mesmos critério de Jesus fossem aplicáveis.

(1) ALGUÉM está habilitado a testemunhar sobre a Criação e a evolução das espécies? A FÉ se apoia em mensagens proféticas dirigidas aos hebreus exilados, a Ciência em projeções baseadas em experimentos. Ambos tentam vislumbrar um passado remoto. Jó e seus amigos foram advertidos quanto a isso.

(2) Ao optar por um lado ou pelo outro, exprimimos amor por ALGUÉM? Em outras palavras, o cientista pode compreender em profundidade a argumentação do religioso e vice-versa? Para além das inferências sobre o passado, o que de bom pode-se extrair NO PRESENTE de cada uma dessas visões? A meu ver, se nada puder ser extraído, o debate pode continuar até o fim dos tempos.

Se há um fraco conhecimento de algum dos lados, não pode existir realmente um debate. Pelo menos não nos moldes prescritos por Tiago:

Porque o Senhor dá a sabedoria; da sua boca é que vem o conhecimento e o entendimento. Ele reserva a verdadeira sabedoria para os retos. Escudo é para os que caminham na sinceridade. (Provérbios 2.6-7)

Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria. ... Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia. (Tiago 3.13-17)

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NÃO VAI PASSAR MAL SE LER

Goodstein L, Basic religion test stumps many americans, New York Times 28/Setembro, 2010.
Barashept DP, God, Darwin and my college biology class, New York Times 27/Setembro, 2014.