domingo, 15 de março de 2026

Exús na Cristandade

À primeira vista, falar de Exu pode parecer estranho, como falar do diabo. Eu já fiz isso. Mas esse texto deve justamente conter tal ímpeto associativo. Exu é uma das divindades africanas mais fascinantes e complexas, e sua presença atravessou o Atlântico para se instalar no imaginário religioso brasileiro — chegando até mesmo a adentrar algumas igrejas evangélicas.

Origens africanas
Exu (ou Esú) tem suas raízes entre os diversos povos, etnias e aldeias da grande cultura Yorubá, que floresceu na costa oeste da África, entre o Congo e a Guiné, entre os sécs. 8 e 18u. Um O hábito de descalçar-se em locais sagrados, roupas rituais brancas com a cabeça coberta e até mesmo a designação "Alá" para os panos brancos sugerem que houve contato com o Islã emergente.

Cada comunidade yorubá pré-diáspora possuía suas próprias divindades que, mais tarde, no Brasil, seriam reunidas sob o nome genérico de Candomblé. Exu aparecia na maioria delas e grupos étnicos distintos e línguas diferentes. Unidos sob a escravidão no outro lado do Atlântico, eles encontraram em Exu algo em comum para adorar e temer.

Exu na mitologia yorubá
Exu é muito complexo, psicologicamente falando. Tão complexo que, como vários personagens yorubá, parece ser o resultado de uma grande fusao de seres distintos. O Cristianismo fez isso com Jesus - sim, os Evangelhos e as cartas de Paulo concordam só parcialmente - e os Judeus fizeram isso com Moisés - um profeta, guerreiro, legislador e proibido de entrar em Canaã.

Numa cultura que não polarizava bem e mal, Exu era um viajante entre os mundos, capaz de levar mensagens entre deuses e humanos.

Em algumas tradições, ele era apresentado como o discípulo mais fiel do Criador, aquele que se sentou nas estradas para cobrar pagamentos ao seu mestre, e o único que teria aprendido a criar seres vivos.

Noutras versões, sua convivência com Oxalá é bem menos amistosa: Exu prega peças no Criador e chega a duelar com Ele pelo título de orixá mais velho.

Símbolo da virilidade, Exu teria sido parceiro (os itans sagrados não usam  "esposo", emboram falem assim de outros casais) de Oyá ou Iansã, a deusa guerreira conhecida por sua força de sedução, perigo e afronta violenta aos poderes. Em certas narrativas, Exu também desafia constantemente a autoridade, mas não como guerreiro e sim de forma astuta — como o Loki nórdico. Numa história, ele barganha com Xangô sua participação no banquete da realeza, ao lado de Yemanjá e Oxalá, em troca de inhames muito apreciados pela rainha. Noutra, ele enriquece recebendo oferendas pelas perdas em sua casa, incendiada secretamente por ele mesmo.

Exu assume ainda o papel de um sábio não convencional. Ele é uma figura que surge inesperadamente nas estradas e propõe enigmas com desfechos que explicam as coisas do mundo. Se Jesus usava parábolas para descrever o Reino de Deus, Exu sempre foi um personagem das estradas, conhecido apenas pelos viajantes. Às vezes, encontrava os mesmos viajantes indo numa direção e também na outra, sugerindo sua identificação com o desconhecido — seja o futuro à frente, seja o esquecimento do que ficou para trás. Seria bobagem tentar prever os caminhos de Exu.

Exu tambem representava a verdade absoluta, como Jesus. Mas havia diferenças: Jesus se autodenominava "a verdade e a vida", mas não o vemos desmascarando ninguém; a verdade em Jesus parece escapar por pequenos furos nas pessoas. Em confissões, às vezes. Exu, por sua vez, escancarava as verdades ocultas. Numa história famosa, ele provoca a briga de dois camponeses discutindo a cor do seu chapéu — que era preto de um lado e vermelho do outro. Para além da provocação, Exu desnudou a violência silenciosa por trás da aparente cordialidade. A verdade, para Exu, era para ser mostrada, a despeito das consequências. E isso costuma envolver lições de humildade, o que até Jesus aprovaria. Mesmo Oxalá, em sua nobre tarefa de criar o Ayé (mundo material), foi interrompido — e em algumas versões, impedido — por uma bebedeira com vinho de palma oferecido por Exu.

Exu e os mortos
Uma das identificações mais marcantes de Exu é sua relação com os mortos, ou melhor, com as almas (eguns). No Cristianismo formal, não há paralelo direto: no Catolicismo, fala-se em relíquias sagradas. Aparições de almas abençoadas são raríssimas. Na Bíblia, há o episódio da invocação do profeta Samuel por uma feiticeira a pedido do rei Saul, e a aparição de Moisés e Elias no monte Tabor. Mas diversas tradições africanas não têm o conceito de alma como no ocidente — quando alguém morre, simplesmente termina.

No Brasil, as tradições indígenas sobre espíritos que vagueiam durante a noite fortaleceram a versão de Exu como alguém capaz de convocar as almas para realizar tarefas. Oyá, sua parceira, aprendeu essa arte com ele, mas a empregava para levar os eguns para longe do Ayé (singular casal!).

Os iorubás temiam os mortos, que eram invocados por meio de oferendas a Exu para atrapalhar, adoecer ou enlouquecer inimigos. Muitas casas na Nigéria colonial tinham imagens de Exu do lado de fora para afastar esses espíritos — imagens com búzios, dentes pontiagudos, carranca e um grande pênis ereto, o que os missionários cristãos interpretaram como culto ao diabo. Tal qual as bruxas cozinhando remédios ou hereges fazendo cultos cristãos diferenciados.

Sincretismo brasileiro
No Catolicismo, as almas permanecem um tempo entre os vivos e outro no Purgatório. Enquanto entre os vivos, algumas almas podem instruí-los; outras, por meio de orações, podem promover milagres. Muitos santos católicos tornaram-se milagreiros após a morte.

Com essa referência, Exu assumiu no Brasil um lugar de controle das almas, notoriamente para causar problemas. Assim, tornou-se a entidade capaz de promover tanto o bem (iluminando caminhos, mostrando decisões favoráveis) quanto o mal (atraindo eguns). Por isso, é procurado por quem busca vingança e por quem é atormentado. Exu pode ser aplacado com oferendas!

De forma sincrética, Exu ganhou nomes diferentes conforme sua atuação: Exu Mirim (causa pequenos acidentes, semelhante ao Saci), Exu Tiriri (justiceiro), Exu Marabô (revelação e cura), Exu Tranca-ruas (guardião), Exu Caveira (manipulação e fala com os mortos), entre outros. Não difere muito da variedade de títulos de Nossa Senhora. Embora distintos, todos esses Exus mantiveram um estereótipo básico: figura masculina, capa preta ou vermelha, aparição preferencial à meia-noite, gargalhadas barulhentas, gosto por tabaco e cachaça. O Exu mais africano prefere a corrida (ninguém o vê), vestes de caçador (faca e porrete) misturadas a adereços de adivinho (búzios) e a exibição de um grande pênis ereto — seu símbolo de virilidade.

O Catolicismo associou a ele um aspecto diabólico, enquanto o protestantismo o transformou em espírito obsessor (elemento do Espiritismo), comum em exorcismos públicos — o "espírito imundo" que Jesus expulsou de um jovem ou do morador dos sepulcros gadarenos.

Mas basta olhar com atenção para perceber que o Exu do Candomblé não sai possuindo corpos de qualquer um; no máximo, um sacerdote iniciado e durante uma cerimônia. Para esses, Exu é um ser do fogo, o espírito que dá movimento, que impulsiona os acontecimentos, que exige a verdade.

Exu como representante do povo
Aspectos menos pensados de Exu vêm do lado oriental do Atlântico. Associado às estradas e ao comércio, ele seria a divindade mais pobre, destinada a trabalhar como plebeu, enquanto outros orixás são honrados como senhores ou nobres. Num conto sobre o encontro de Oxalá e Exu, este testa o Grande Orixá fazendo-o carregar sacos imundos de sal, carvão e dendê — e Oxalá obedece, instruído a não recusar. Noutro conto, Exu cultiva inhames, como os mais pobres da Nigéria, mas não oferece seu produto à realeza; outra divindade vem comprá-los, e surpreendem-se ao encontrar Exu à mesa, mostrando que ele estava longe do círculo de convidados.

Esses itans revelam talvez uma das características mais humanas de Exu: fazer parte do povo, não da nobreza. É uma ordem social reconhecível desde a antiguidade: uns trabalham, outros são honrados. Exu representa os que trabalham, que recorrem aos orixás por ajuda, cura e proteção. A proximidade gera identificação e afeição. Não por acaso, Exu é visto como mediador entre homens e orixás — há até a premissa de "Exú primeiro".

Apesar disso, no Candomblé, é comum banir Exu dos locais de culto quando o ritual não é específico para ele. Não há banimentos semelhantes para Ogum, Yemanjá ou Oxóssi. Justifica-se por um itan controverso no qual Exu atrapalha a criação do mundo em vingança por não ter recebido oferendas de Oxalá. Deus travesso e desordeiro, Exu seria um elemento de caos, atrapalhando ou ajudando conforme sua vontade e as oferendas recebidas. Sem o "suborno" a Exu, oferendas a Ogum podem virar perdas, e as de Yemanjá, conflitos. Exu acaba outra vez representando algo que os homens conhecem bem nas relações de poder: a corrupção.

Num exemplo realista: Mário e Luís disputam um terreno na justiça. Ambos apelam a Xangô, senhor da justiça, e a Exu, que faz a comunicação. Aquele que oferecer mais a Exu — não a Xangô — tende a vencer. É uma lógica aplicada apenas a Exu, não a outros orixás.

Mesmo sua atitude rebelde, que motiva o banimento ritual, é exótica. Sim, Exu atrapalhou a criação, impôs dificuldades a Oxalá, propôs enigmas e desafiou homens. Mas Xangô é um senhor da guerra irritadiço; Oyá,deusa das tempestades, poderia ser muito mais terrível. Se Exu faz a comunicação com os homens, não deveria estar presente? Não deveria falar através das pessoas em transe? O banimento possivelmente reflete a entrada no círculo do poder: nega-se a pobreza, a sujeira e o suor do trabalho. É preciso ser dedicado, não um beberrão festivo; ter poder, não carregar sacos. Exu não cabe aí. Seu espaço é lá fora, na rua, com o povo — não no palácio.

Noutro pensamento curioso, questiona-se o aspecto humanóide de Exu: enquanto os orixás discutem dentro de casa, ele fica sentado à porta devorando ratos. Noutro itan, Exu (Bará) assume um apetite insaciável e devora outras divindades. Escreveu Pierre Verger:

"Exu é um Orixá ou um ebor asá [espírito inumano, por vezes com múltiplos olhos, braços ou cabeças] de múltiplos e contraditórios aspectos, o que torna difícil defini-lo de maneira coerente. De caráter irascível, ele gosta de suscitar dissensões e disputas, de provocar acidentes e calamidades públicas e privadas. É astucioso, grosseiro, vaidoso, indecente, a tal ponto que os primeiros missionários, assustados com essas características, compararam-no ao diabo, dele fazendo o símbolo de tudo o que é maldade, perversidade, abjeção, ódio, em oposição à bondade, à pureza, à elevação e ao amor de Deus. Entretanto, Exu possui o seu lado bom e, se é tratado com consideração, reage favoravelmente, mostrando-se serviçal e prestativo."

Exu e o diabo cristão: uma comparação equivocada

A condição mais interessante de Exu talvez apareça nos países cristianizados entre os séculos XVI e XIX, como o Brasil. Aqui, assim como na África, Exu foi associado a algo libertário que não cabia nos moldes cristãos tradicionais. Sua sexualidade e agressividade, comparadas à castidade e ao "espírito acima da carne" pregados por Santo Agostinho, colocaram-no na categoria de representante de Satanás — justificativa para a colonização e submissão dos povos iorubás. Cultuar Exu era cultuar o Diabo Cristão.

Esse pareamento teve apoio. Para os conquistadores, justificava que a Igreja se afastasse dos escravizados. Para os que sofriam ou resistiam à colonização, era um modo de manter os brancos longe dos Orixás. Dificilmente um branco se aventuraria num terreiro com "diabos" na entrada. Isso não impedia ações policiais, mas afastava curiosos.

Muitas manifestações de Exu ganharam ares "cristãos", com certos Exus se declarando "fulano do inferno" ou Pombogiras (Exus femininos) chamadas em cantigas de "mulher de Satanás". Obviamente, não faz sentido diabolizar Exu, já que não há paralelo real entre a cosmogonia yorubá e o Cristianismo. Vertentes sincréticas chegam a representar Oxalá como um Jesus de braços abertos (sem a cruz) e Exus como diabinhos. No pentecostalismo, Exu é "convidado frequente" em cultos, como possessão maligna a ser expulsa para validar o poder do pastor. É uma abordagem utilitarista, que reúne fiéis apresentando uma divindade rival como demônio.

O Jesus dos Evangelhos só esteve frente a frente com o diabo no deserto, e apenas na versão de Lucas. O diabo não aparece tentando pessoas no dia a dia, muito menos fazendo travessuras malévolas que possam ser evitadas com oferendas. Não é um convocador de espíritos nem guardião de lugares de culto. Simplesmente, diabo e Exu não são iguais, assim como Jesus e Oxalá não são. Não há entre Exu e Oxalá uma disputa pelos corações dos homens.

Exu permanece, em sua essência, o mensageiro entre mundos, o guardião das encruzilhadas, o senhor das possibilidades — tão humano quanto divino, tão temido quanto respeitado, e definitivamente muito mais complexo do que qualquer redução maniqueísta pode capturar.

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