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terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Os textos de Paulo são mesmo de Paulo? Uma 1ª análise.



Paulo e uma possível organização das epístolas, segundo seu vocabulário.

Grande parte do material que temos do Novo Testamento corresponde às cartas que Paulo de Tarso (talvez 5 - 64/65 d.C.) enviou para as igrejas que fundou na costa do Mediterrâneo e para companheiros seus como Tito, Timóteo e Filemon. Esse material faz parte, é claro, dos primeiros relatos que temos do Cristianismo como religião dentro do mundo Romano. Os estudiosos assumem uma certa cronologia para as cartas, que não é a ordem de sua encadernação no Novo Testamento:
 
1ª Tessalonicenses* (51 d.C.)
2ª Tessalonicenses, Gálatas* e 1ª Coríntios* (52 d.C)
Filipenses*, Filemon* e 2ª Coríntios* (53-54 d.C.)
Romanos* (55-56 d.C.)
Colossenses (57-59 d.C.)
Efésios (62 d.C.)
1ª Timóteo (62-64 d.C)
2º Timóteo (62-65 d.C.)
Tito (66-67 d.C.)

        evangelho de Marcos (66-70 d.C.)
        evangelhos de Mateus e Lucas (80-90 d.C.)
        evangelho de João (90-110 d.C.)
        Didache e Pastor de Hermas (90-150 d.C.)

 
Nessa lista, os textos marcados com asteriscos (*) são tidos como indubitavelmente obras de Paulo.
 
Paulo escreveu suas obras durante e após suas 3 viagens missionárias. A primeira viagem foi entre as cidades de Sidon, Perga e Antioquia; a 2ª viagem foi entre Jerusalém, Antioquia (da Síria), Filipos, Tessalônica, Atenas, Corinto, Éfeso, Rhodes e Cesaréia; a 3ª viagem foi entre Antioquia (da Síria), Antioquia (da Frígia), Éfeso, Tessalônica, Atenas, Rodes e Tiro. Não há muitos indícios nas cartas sobre seu local de escrita, mas alguns eventos relatados dão certa noção do ano em que foram produzidas.
 
É importante notar que os textos de Paulo são anteriores aos Evangelhos, daí sua contribuição inegável às fases iniciais do Cristianismo. O Cristianismo ensinado por Paulo, anterior aos Evangelhos, deve ter sua origem em Jerusalém, onde ele foi recrutado como oficial Fariseu para perseguir os Cristãos. Desde pelo menos 30 d.C. já circulavam documentos Romanos sobre os Cristãos. Na sua conversão em Damasco/Síria, Paulo esteve com o grupo de Ananias e foi mandado de volta a Jerusalém, para o grupo de Pedro. Depois, ele seguiu para a igreja de Antioquia da Síria, onde fortaleceu uma comunidade onde passou pelo menos 1 ano. Quando foi outra vez a Jerusalém, ele até Pedro o jovem João Marcos, que viria a ser o primeiro Evangelista, muitos anos mais tarde. A partir de seu retorno a Antioquia, Paulo percorreu a costa do Mediterrâneo ao longo de 15 anos e outras duas viagens a Jerusalém e Antioquia, antes de começar a enviar as cartas que temos na Bíblia. Aparentemente, em algumas viagens missionárias Paulo estava acompanhado de uma mulher grega chamada Tecla, e os textos deixados por ele foram escolhidos ou modificados por seus aprendizes de forma a ocultar o nome dela.
 
O debate sobre a autoria dos textos de Paulo se torna importante quando algumas idéias dele apoiadas numa carta são combatidas em outras, como a participação de mulheres nas congregações e a aceitação ou não da escravidão de um Cristão por outro. A situação se complica ainda mais quando pensamos que o material de Paulo que nos chegou foi copiado e recopiado por comunidades religiosas ao longo de muitos séculos, comunidades estas que se desenvolveram independentemente antes que Roma decretasse uma autoridade política sobre o Cristianismo, no séc. 4. Até que a centralização de poderes acontecesse, muitos grupos Cristãos passaram a produzir seus próprios materiais religiosos. Não raro, esses textos eram atribuídos à autoria de pessoas famosas (ex. Paulo, Mateus, João) de forma que fossem seguidos e preservados.
 
Até que os Evangelhos se tornassem um elemento importante no Cristianismo, isto é, até que os ditos e feitos de Jesus passassem a inspirar as pessoas, uma teologia inicial se desenvolveu com base nas discussões filosóficas e metafísicas de Paulo, além do que ele mesmo dizia sobre Jesus. Tal conhecimento, segundo a epístola de Gálatas, se trata de algo sobrenatural vindo diretamente de Jesus (já morto havia 20 anos). Em verdade, as epístolas não dão muitos indícios sobre qual foi o contato de Paulo com comunidades Cristãs anteriores a ele. Por isso, quando pensamos que algumas delas talvez não sejam autoria de Paulo, o Cristianismo assume a aparência de uma colcha de retalhos, com filosofias, teologias, etc que se desenvolveram mais ou menos por si mesmas, do modo que puderam fazer isso, e nalgum ponto do séc. 4 foram unificadas (à força) pela nascente Igreja Romana.
 
Analisar a autoria de textos copiados e recopiados é, por outro lado, algo difícil que envolve as palavras/expressões usadas e as idéias apresentadas. Palavras e expressões podem caracterizar um autor, como é o caso dos textos Joaninos, enquanto as idéias podem identificar um grupo religioso. Assim, podemos por exemplo dizer que o evangelho de João, as cartas 1ª João, 2ª João e 3ª João, assim como o Apocalipse são de um ou dois autores apenas (ver Joaninos 1 e Joaninos 2). As idéias defendidas nesses trabalhos não se replicam nos evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas, fazendo supor que são obras de uma comunidade independente.
 
Aqui, apresento uma metodologia para comparar as epístolas (e não as cartas) de Paulo, isto é, os textos que foram supostamente escritos por Paulo para as Igrejas fundadas por ele (Romanos, 1ª Coríntios, 2ª Coríntios, Filipenses, Colossenses, Efésios, Gálatas, 1ª Tessalonicenses e 2ª Tessalonicenses). As cartas (Filemon, Tito, 1ª Timóteo e 2ª Timóteo) não foram incluídas por se tratarem de obras com natureza diferente, não feitas com objetivo de ensino, mas correspondências pessoais entre Paulo e alguém íntimo dele.
 
Num 1º passo, todas as palavras das epístolas paulinas foram catalogadas, incluindo sua posição no texto. Essas posições não foram utilizadas aqui, mas foram coletadas com a idéia de posteriormente estudar as aproximações de palavras nos textos paulinos. Num 2º passo, foram removidas as palavras conectivas (ex. e, ou, para, assim, etc) e os verbos de ligação (ser, estar, ficar, etc). As demais palavras foram todas convertidas em substantivos masculinos singulares (ex. agradecemos ⇒ agradecer ⇒ agradecimento). Palavras com significado especial foram separadas (ex. espírito [de paz] ≠ Espírito [Santo]). Num 3º passo, palavras com significados semelhantes foram agrupadas sob a escrita mais comum (ex. conhecimento, sabedoria, entendimento). Essa foi a etapa realmente demorada. Para efeito de representatividade, as palavras com repetição menor do que 9 vezes no texto foram desconsideradas.
 
O resultado dessas contagens e alinhamentos é mostrado na Figura 1.



Figura 1 - Contagens de palavras nas epístolas de Paulo. Essas contagens incluem espaços como sendo palavras. Dados disponíveis em https://docs.google.com/spreadsheets/d/1OoRvj4Ip4SEKPAq1fFwc2Koida-hg2nkE8Uiwl6Gh8A/edit?usp=sharing

O primeiro resultado interessante é notar que poucas palavras são repetidas várias vezes. A epístola 2ª Tessalonicenses, por exemplo, tem 1200 palavras. Destas, apenas 6 se repetem mais de 9 vezes. Mesmo numa epístola imensa como Romanos (quase 11200 palavras), a palavra mais repetida (Deus) só aparece 167 vezes (14%, também a média de repetições de palavras em todas as epístolas). As palavras mais repetidas nas epístolas paulinas são Deus (aparece nas 9 epístolas), Jesus (em 8/9 só não aparece em Colossenses) e Senhor (em 8/9, só não aparece em Gálatas). A ausência de Jesus em Colossenses e Senhor em Gálatas faz supor que talvez não derivem do mesmo autor.
 
Para estabelecer um parentesco entre os textos, cada um deles foi interpretado como um vetor dentro de um espaço formado por muitas palavras. Um vetor é uma coordenada de vários números (ex. vetor = (10,2,0), com as coordenadas 10, 2 e 0). Os pares de vetores podem ser paralelos/múltiplos (ex. (1,4) e (3,12)), antiparalelos (ex. (1,4) e (-3,-12)) ou completamente independentes (ex. (2,0) e (0,1), reparando que cada um carrega uma coordenada que o outro não tem). No mundo real, a maioria dos vetores se relaciona entre esses extremos, possuindo uma “projeção” entre si que varia de 0 (vetores independentes) até +1 (vetores paralelos) ou -1 (vetores antiparalelos). Para comparar os textos, as epístolas de Paulo foram convertidas em vetores, não de 3 dimensões (pois não estamos lidando com posições de coisas no espaço), mas com 106 coordenadas. Essas coordenadas são as contagens de repetições das suas palavras. Na tabela acima, por exemplo, Romanos tem 167 na coordenada “Deus”. Feitas essas conversões, foram calculadas as “projeções” entre cada par de vetores, conforme a Figura 2. Cada projeção de dois vetores foi calculada assim: projeção vetores A,B = 2*(a1*b1 + a2*b2 + ... + a106*b106) / (a1² + b1² + a2² +b2² + ... + a106² + b106²), que é um procedimento geométrico bastante usual conhecido como "produto escalar".



Figura 2 - Projeções calculadas entre as epístolas de Paulo. Valores mais altos sugerem maior proximidade entre os textos, valores mais baixos sugerem textos destoantes. A projeção de cada texto consigo mesmo (ex. Rm vs. Rm) sempre é de 1 ou 100%. Os valores de projeção independem das diferenças de tamanho entre os textos. Disponível em https://docs.google.com/spreadsheets/d/1OoRvj4Ip4SEKPAq1fFwc2Koida-hg2nkE8Uiwl6Gh8A/edit?usp=sharing
 
É possível ver que os textos, mostrados em projeções na Figura 2 com cores mais alaranjadas, compõem basicamente 2 grupos. Um deles formado por Romanos, 1ª Coríntios e 2ª Coríntios, outro formado por 1ª Tessalonicenses, 2ª Tessalonicenses, Filipenses, Colossenses e Efésios.
 
Depois de calculadas as projeções, foi montada uma representação “geométrica” dos textos, de modo a colocar próximos aqueles mais semelhantes e distantes aqueles mais destoantes. Tomando como evidência que 1ª Tessalonicenses seja o texto mais antigo dentre as epístolas, as semelhanças entre elas podem nos indicar a ordem de produção do textos, indo desde o grupo mais coeso até os textos mais divergentes. Isso é mostrado na Figura 3.

Figura 3 - Organização das epístolas como um fluxo de produção. Os números indicam as projeções entre os textos. Projeções mais altas indicam textos mais semelhantes. As setas indicam uma possível sequência de produção, baseado na suposição de 1ª Tessalonicenses (1Tes) como epístola mais antiga.
 
Finalmente, esse esquema de produção das epístolas pode orientar uma discussão sobre a autoria dos textos paulinos. Do lado esquerdo, vemos um conjunto de 5 textos altamente semelhantes quanto ao seu vocabulário: 1ª Tessalonicenses, 2ª Tessalonicenses, Filipenses, Colossenses e Efésios. Se 1ª Tessalonicenses carrega a “assinatura de Paulo”, o mesmo ocorre com os demais.
 
Fora desse grupo, encontramos Gálatas e 2ª Coríntios, que possuem associações boas apenas com Efésios. A relação em particular com essa epístola pode sugerir que ela serviu de modelo para a confecção das posteriores. É bastante plausível Gal e 2Co ambos reflitam a obra de 2 outros escritores, ou uma edição tardia nas comunidades em que foram preservados. O mesmo vocabulário de 2ª Coríntios de fato é usado em 1ª Coríntios e Romanos, porém ambas essas últimas não possuem semelhança com Gálatas.
 
Romanos, 1ª Coríntios e 2ª Coríntios possuem de fato dimensões muito diferentes dos outros textos (7200 a 11200 palavras vs. 1200 a 3650 palavras). Além disso, são textos coesos entre si quanto ao vocabulário usado. Mas não são coesos com o 1º grupo de 5 textos, sugerindo um autor independente ou edições tardias.

Em outras palavras, é possível que as epístolas “de Paulo” na verdade sejam obras de pelo menos 3 autores. O grupo “mais paulino” seria composto por 1ª Tessalonicenses, 2ª Tessalonicenses, Filipenses, Colossenses e Efésios. Já Gálatas seria obra de um 2º autor inspirado em Efésios, assim como uma 3º autor teria produzido 2ª Coríntios, 1ª Coríntios e Romanos. Todos eles assinaram suas obras como “Paulo”, porém o vocabulário usado em cada grupo de textos sugere que não são obras da mesma pessoa. Ou, pelo menos, eles são ideologicamente tão distintos que Paulo teria passado por grandes transformações em sua forma de escrever, e principalmente seu vocabulário, entre esses 3 grupos de textos.

Tal diferença de autoria talvez explique divergências de idéias encontradas nas epístolas, como por exemplo uma postura judaizante em algumas e um postura anti-judaizante em outras. Gálatas como uma obra em separado, por exemplo, é bastante significativo, uma vez que se trata de um texto defendendo um forte legalismo dentro da Igreja, postura bastante farisaica. A epístola é endereçadas "às igrejas da Galácia", uma região da Grécia e não uma cidade em específico, ao mesmo tempo em que seu autor “Paulo” afirma apresentar ali conhecimentos sobre o que Deus gosta ou não que lhe foram providos pelo próprio Jesus. Tal modo de apresentar idéias divergentes é também encontrada nos textos Joaninos, com um “apóstolo João” se auto-nomeando como o “discípulo amado”, de forma a conferir mais autoridade para suas palavras divergentes do aos textos mais antigos, além de relatar eventos junto a Jesus que nenhum outro evangelista reporta.

Romanos e as epístolas a Corinto, também provavelmente obras de um “Paulo” que não é o de Tarso, são obras de forte caráter doutrinário, onde o autor instrui as igrejas sobre como lidar com divergências internas e o mundo Romano ao redor. Caso não sejam obras reais de Paulo, são provavelmente das comunidades fundadas por ele, de forma a tecer uma estrutura religiosa-cultural que viria a ser o Cristianismo. Trata-se de uma estrutura bem distinta dos 5 textos mais provavelmente “paulinos”, em que Paulo relata seus problemas pessoais, seus sofrimentos, expectativas, e fortalece a idéia de que tudo o que se passava COM ELE era para o fortalecimento do Reino de Jesus.

Desde a centralização de poder na Igreja Romana, diversas epístolas foram consideradas falsas. Geralmente, o motivo era sua não citação em nenhuma obra antiga (isso lá no séc. 4), mas muitas vezes tratou-se de votações onde algo como metade mais 1 dos cardeais julgou o texto como falso (ver http://www.ntcanon.org/table.shtml). Algumas que ficaram nesse limbo e ainda assim ganharam seu lugar na Bíblia foram Efésios, Colossenses e 2ª Tessalonicenses. Marcion de Sinope, um famoso "herege" do séc. 2, por exemplo, foi uma das primeiras pessoas a encadernar cartas de Paulo num livro religioso. Marcion via Paulo como o profeta por excelência. Em sua versão anti-judaica do Cristianismo, Marcion aceitava como verdadeiro apenas o evangelho de Lucas (pois fora discípulo de Paulo) e as epístolas Gálatas, 1ª Coríntios, 2ª Coríntios, Romanos, 1ª Tessalonicenses, 2ª Tesslonicenses, Efésios (Laodicences, segundo ele), Colossenses, Filipenses e Filemon. Pela data do trabalho de Marcion (citado pela Igreja já em 144 d.C.), acredita-se nele como testemunha da antiguidade de tais escritos.

Mesmo sendo antigo, Efésios levanta dúvidas por conter 40 palavras que não aparecem nas outras cartas, não falar sobre os dons espirituais e mostrar um Jesus autoritativo (agindo por sua própria vontade). Colossenses também fala contra o Gnosticismo, um movimento que só seja mencionado em documentos do séc. 2, além de usar conjugações incomuns de verbos. 2ª Tessalonicenses repete, várias vezes, o fato de não ser um trabalho falso. Essa estrutura, como eu mesmo já coloquei, geralmente é encontrada justamente naqueles textos que são alterações de algum outro ou completamente forjados.

Na análise feita aqui, de textos em português, evitando-se toda conjugação de palavras através de sua transformação em substantivos masculinos singulares (isso foi escolha minha), tais problemas obviamente não ocorrem. Por conta disso, todas as epístolas "duvidosas" na verdade encontram seu lugar junto do pacote mais provavelmente paulino, devido às palavras que utilizam e o número de repetições de cada palavra. Mais ainda, seria surpreendente que trabalhos enormes e tão significativos como Romanos, 1ª Coríntios e 2ª Coríntios não sejam obras de Paulo. Normalmente vemos Paulo mais por essas obras, como um organizador das Igrejas, do que pelas outras. A ideia aqui, ainda mais pela limitação de metodologia, é fazer pensar que talvez conheçamos o Paulo errado. Por exemplo, Lucas descreve, em Atos, um Paulo muitíssimo mais polido e "romano" do que Paulo parece nas 5 epístolas aqui atribuídas a ele. É possível que Romanos, 1ª Coríntios e 2ª Coríntios reflitam algo como o livro de Atos, ou seja, um Paulo idealizado, narrado/narrador a partir não de si mesmo, mas de uma comunidade fundada sobre seus ensinamentos.

Evidentemente, uma análise como essa deveria ser feita a partir dos textos em gregos mais antigos disponíveis. No entanto, esses mesmos textos são cópias-recópias bem distantes dos originais do século 1. Análises em outros vieses, como as idéias defendidas em cada epístola, ainda serão feitas (a seu tempo). Uma vez que essa metodologia de análise foi sendo aprimorada através de várias tentativas de classificar os textos e pouco se modificou quanto aos resultados, é provável que uma comparação de ideias defendidas também não modifique isso.
 
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CARTAS QUE NÃO SÃO DE PAULO

Atos de Paulo, loungecba.blogspot.com, 28/02/2021.
Marcos, um evangelista entre Pedro e Paulo, loungecba.blogspot.com, 05/06/2020.
O evangelho de Paulo, loungecba.blogspot.com, 02/04/2022.
Pauline epistles - wikipedia
Século 1 - 2ª parte, loungecba.blogspot.com, 13/06/2016.
The Missionary Journeys of Paul, churchofjesuschrist.org.
Who wrote Paul's Epistles?, Rasch Measurement Transactions, 2001.

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Atos de Paulo

Parede pintada na Grotto de Saint Paul. Da esquerda para direita, Tecla (na janela), Paulo e Teoclea.

Em 1995, foi encontrada uma caverna na região da antiga Éfeso/Turquia. O local é famoso como um pólo inicial do Cristianismo, e seu nome é parte do título de um dos livros do Novo Testamento. Mais especificamente trata-se de uma carta 'assinada' por Paulo, endereçada para a nascente igreja de Éfeso. Na prática, há muitos questionamentos se Paulo escreveu mesmo tal carta, uma vez que ela menciona eventos não condizentes com o período que Paulo passou em Éfeso (53-54 d.C.), além de contradizer pontos doutrinários importantes de outras cartas dele.

Apesar disso, Éfeso foi com certeza um polo difusor do Cristianismo, a partir dos ensinamentos de Paulo. No séc. 4, a caverna conhecida como 'Grotto de Saint Paul' passou a ser reformada para funcionar como templo. As paredes foram pintadas, construiu-se um batistério e um presbitério. Até o séc. 13 foram incluídas novas pinturas, com soldados Bizantinos, e o local permaneceu ativo até o séc. 19. Depois de quase 1500 anos, a igreja 'sob a rocha' foi abandonada.

Uma das pinturas encontradas ali nos remete ao séc. 2 e uma obra particular desse período, conhecida como 'Atos de Paulo'. Trata-se de uma cena com Tecla, Paulo e Teoclea (mãe de Tecla), todos personagens da estória denominada 'Atos de Paulo e Tecla'. O pintor fez questão de anotar os nomes das figuras, em grego. Não, você provavelmente não tem 'Atos de Paulo' na sua Bíblia. Esse livro é formado por 3 livros menores, 'Atos de Paulo e Tecla', o maior, 'Carta dos Coríntios a Paulo' e '3ª Epístola dos Coríntios', esses dois bem curtos. Todos são obras do séc. 2, obviamente apócrifas, feitas para se parecerem com livros que hoje estão nas Bíblias.

Eles tiveram, por um tempo, sua valorização como se fossem textos originais. Afinal, uma das pinturas na parede de 1500 anos da 'Grotto', é de uma cena inicial do livro 'Atos de Paulo e Tecla'. O interesse nessas obras, desde que se percebeu serem apócrifas, é pelo que elas contam da Igreja no séc. 2. Um mundo religioso de disputas internas e os conceitos de fé começando a ser solidificados.

COMO ERA O SÉC. 2

Em termos políticos, não foi muito distinto do séc. 1. As últimas reformadas dos Judeus estavam sendo debeladas, na Palestina. Roma controlava Cartago no norte da África (as outras terras na costa norte ainda eram independentes), dominava Espanha, Itália e Grécia (norte da França, Germania e Bretanha ainda estavam fora do mapa), avançando a oeste até a Turquia. Era o tempo da expansão do Império.

A religião Romana tinha seus níveis estatal, comunitário e familiar. No nível estatal, cultuavam-se os deuses gregos com preces e sacrifícios (os Romanos não tinham estórias de batalhas, traições, etc envolvendo os deuses), além da figura do imperador. Todos os após Augusto tiveram o título 'Divino' incluído em seus nomes, e suas estátuas foram colocadas nos templos. No nível comunitário, seguiam-se divindades como Mitra, que simbolizavam honra e reconhecimento dentro de um grupo. No nível doméstico, cada família tinha seu pequeno altar e panteão formado, sobretudo, por antepassados. Essas divindades domésticas eram chamadas de 'lares'.

O Mitraísmo era uma religião em crescimento dentro de Roma. Mitra era uma divindade do Oriente, versão de Ahura-Mazda do Iran, o todo poderoso. Sua fama como líder da hierarquia divina o transformou em divindade importante na Pérsia, que as legiões romanas trouxeram para o Ocidente no séc. 1 a.C. Na época de Jesus, Mitra já era a principal divindade das tropas Romanas, e se difundiu nas regiões ocupadas, até o séc. 4. Mitra só deixou de ser cultuado por decreto imperial.

O culto de Mitra nos interessa, pela era de sincretismo em que o Cristianismo se desenvolveu. Mitra era um deus associado ao Sol, ao Zodíaco, ao culto dentro de cavernas. Apenas os homens podiam participar. Nesse culto geralmente havia o sacrifício de touros e banquetes. Por outro lado, escrever sobre ele devia ser proibido, pois sobraram muitas representações e nenhum texto do culto. Mitra era celebrado em 25/dezembro.

Pelo séc. 2, o Cristianismo se difundia entre a população Romana, absorvendo valores aos quais o Evangelho não se referia. Por exemplo, os cultos Cristãos inicialmente eram em sinagogas; com a perseguição aos Judeus, os Cristãos se mudaram para as cavernas e templos subterrâneos de Mitra. A data de nascimento de Jesus está bem clara.. Por volta do séc. 4, um símbolo já bem associado a Jesus era o Sol.

PAULO E TECLA

Se as mulheres tiveram um papel crítico nas falas de Jesus, na organização das comunidades ao redor do Mestre e nas viagens de Paulo, por outro lado não eram bem aceitas no mundo Judeu e nem nos cultos Mitraicos. Na fusão do Cristianismo com os Mistérios de Mitra, as mulheres foram abordadas de forma negativa, exigindo-se delas silêncio e subordinação. Em boa parte das cartas chamadas deutero-paulinas, isto é, atribuídas a Paulo mas não condizentes com seu estilo, as ideias sobre igualdade de direitos logo foram combatidas.

Tecla de Iconium representou um ideal feminino dessa época, combinando castidade e proteção divina. Ainda não existiam conventos, e pregadores mulheres são meta especulação. Talvez a Tecla real e humana tenha tido tal atuação. No texto 'Atos de Paulo e Tecla', é a passagem de Paulo pela cidade e sua pregação que motivam Tecla a assumir sua castidade perante a família e um noivo. Na cena retratada na 'Grotto', Paulo prega (com os dedos levantados) enquanto a jovem Tecla observa de uma janela. Sua mãe, do outro lado, manda que queimem a filha quando esta recusa o casamento. A popularidade da cena é constatada nos danos feitos à pintura, provavelmente enquanto a 'Grotto' estava desabitada, em que Teoclia foi queimada.

Atos de Paulo e Tecla
5. E quando Paulo entrou na casa de Onesíforo, houve grande alegria, e o dobrar dos joelhos e o partir do pão, e a palavra de Deus acerca do domínio próprio e da ressurreição, com Paulo dizendo: “Bem-aventurados os puros de coração porque eles verão a Deus. Bem-aventurados os que guardam casto o corpo porque se tornarão templo de Deus. Bem-aventurados os que dominam a si mesmos, porque Deus conversará com eles. Bem-aventurados os que renunciaram a este mundo porque eles agradarão a Deus. Bem-aventurados os que, tendo mulheres, agem como se não as tivessem, porque serão herdeiros de Deus. Bem-aventurados os que têm temor de Deus, porque eles se tornarão anjos de Deus. 6. Bem-aventurados os que temem as palavras de Deus, porque serão consolados. Bem-aventurados os que recebem a sabedoria de Jesus Cristo, porque serão chamados filhos do Altíssimo. Bem-aventurados os que guardam o batismo, porque eles descansarão junto do Pai e do Filho. Bem-aventurados os que abrem o coração para o conhecimento de Jesus Cristo, porque eles estarão na luz. Bem-aventurados os que, por causa do amor de Deus, abandonam o modo de vida mundano, porque eles hão de julgar os anjos e serão abençoados à destra de Deus. Bem-aventurados os misericordiosos porque receberão misericórdia e não verão o amargo dia do juízo. Bem-aventurados os corpos de quem é virgem porque agradarão a Deus e não perderão a recompensa da sua castidade: porque a palavra do Pai se tornará um ato de salvação para eles no dia do filho dele, e terão repouso para sempre.

Esse trecho, como alguém pode imaginar, é uma boa reprodução do Sermão da Montanha (Mateus 5). Lembrando que as cartas de Paulo são mais antigas que o texto dos Evangelhos, em especial mais antigas que Mateus (100 d.C.), fica claro que o autor não é Paulo. Porém, isso também nos mostra que Mateus era bem conhecido já no séc. 2.

Dentro desse caldeirão de misturas que era o séc. 2, obviamente não faltavam questões doutrinárias para se discutir. Acredita-se que os Atos de Paulo, em suma, sejam provocações à Igreja para combater certas filosofias correntes.

Atos de Paulo e Tecla
14. Então, Demas e Hermógenes disseram: “Leve-o [Paulo] ao governador Castélio por seduzir o povo com o novo ensino cristão. Dessa forma, ele o matará e você terá sua Tecla como esposa. E nós vamos ensinar a você que a ressurreição, a qual ele diz que vai acontecer, já aconteceu por meio dos filhos que temos [e que ressuscitamos ao conhecer o Deus verdadeiro]”.

Aqui, os personagens negativos incorporam o ensino combatido em 2ª Timóteo 2.18: “Eles se desviaram da verdade, afirmando que a ressurreição já aconteceu, e com isso perverteram a fé em alguns”. De fato, a pregação Cristã de uma Ressurreição no final dos tempos era algo combatido sobretudo pelos Gregos. 

Na trama, Tecla se recusou ao casamento. O noivo, tomado de ódio, recorreu às amizades políticas para sentenciar Tecla, sendo a mãe quem lhe designa ser queimada viva. Mas então ocorre uma série de milagres.

Atos de Paulo e Tecla
22. E os jovens e as virgens carregavam lenha e forragem para que Tecla fosse queimada. E quando ela foi conduzida nua, o governador chorou e admirou-se da força que havia nela. Os carrascos arrumaram a lenha e mandaram que ela subisse na pira. E ela, após fazer o sinal da cruz, subiu sobre a lenha. E eles atearam fogo. Mas, mesmo com uma grande chama ardendo, o fogo não a tocava. Então, Deus, tendo se compadecido, provocou um estrondo subterrâneo e cobriu de sombra o alto com uma nuvem cheia de água e granizo, e todo o seu conteúdo foi derramado de tal maneira que muitos ficaram em perigo e morreram, o fogo foi apagado e Tecla foi salva.

33. Após ser tomada da mão de Trifena, Tecla foi despida, recebeu um calção subligar e foi lançada no estádio. Então, leões e ursos foram lançados em direção a ela. Mas uma leoa feroz correu mais rápido e deitou-se a seus pés. E a multidão de mulheres deu grandes gritos. E uma ursa correu em direção a ela. Mas a leoa, correndo, enfrentou e despedaçou a ursa. Por sua vez, um leão treinado para atacar homens, que pertencia a Alexandre, correu em direção a ela. Mas a leoa, bateu-se contra o leão e foi destruída junto com ele. As mulheres lamentaram muitíssimo, visto que a leoa, que era a defensora dela, também havia morrido.

34. Então, introduziram muitas feras, enquanto ela permanecia em pé, com as mãos estendidas, orando. Quando terminou a oração, virou-se e viu um grande fosso cheio de água, e disse: “Agora é a oportunidade para eu me batizar.” E lançou-se, dizendo: “Em nome de Jesus Cristo, eu me batizo em meu último dia!” Mas ao verem isso, as mulheres e toda a multidão, choraram, dizendo: “Não se lance na água!” De modo que até o governador verteu lágrimas, porque umas focas estavam prestes a devorar uma beleza tal. E ela, então, lançou-se na água em nome de Jesus Cristo, mas as focas, depois de ver o fulgor de um raio de fogo, boiaram mortas. E havia uma nuvem de fogo ao redor dela, de tal maneira que nem as feras podiam aproximar-se, nem sua nudez podia ser vista.

35. ... Alexandre disse ao governador: “Eu tenho touros bem apavorantes, vamos prender a lutadora a eles.” E, embora contrariado, o governador permitiu, dizendo: “Faça o que quiser”. E prenderam-na pelos pés entre os touros. E colocaram ferros incandescentes sob os genitais deles, para que, agitando-se bem mais, eles a matassem. Então, eles saltaram. Mas a chama ardente consumiu as cordas e ela ficou como se [Tecla] não tivesse sido presa.

Alexandre era outro pretendente, que tomou Tecla por escrava de Paulo e tentou se apoderar dela. Após ter seu manto rasgado, ele também se enfureceu. No meio de grandes milagres protegendo-a, Tecla batiza a si mesma numa piscina de focas (ou leões marinhos). Essa ação de independência (nem mesmo Jesus batizou a Si mesmo), reunida às demonstrações públicas do poder de Deus, nos fazem pensar que ela era alguém de destaque no séc. 2, talvez comparável ao próprio Paulo, e as estórias foram elaboradas para justificar tal fama.

Atos de Paulo e Tecla
38. Depois de ouvir estas coisas, o governador ordenou que fossem trazidas vestimentas e disse: “Cubra-se com as vestimentas.” E ela disse: “Aquele que me cobriu, estando nua entre as feras, esse me cobrirá com salvação no dia do julgamento.” E, pegando as vestimentas, cobriu-se. O governador imediatamente baixou uma resolução, dizendo: “Eu liberto Tecla, a piedosa serva de Deus, para vocês.” E todas as mulheres gritaram com grande voz e, como de uma única boca, deram louvor a Deus, dizendo: “Há um único Deus, o que salvou Tecla”, de tal forma que, por causa das vozes, toda a cidade foi sacudida.

Tecla, aqui, foi lançada nua para as feras, como acontecia nos espetáculos de expurgo promovidos pelo Império. Mas depois ela também aparece como um ícone ou mártir vivo, a conversora de toda cidade de Iconium. Mais especificamente, a que converteu as mulheres ao monoteísmo e castidade. No texto, ela se declara fiel seguidora de Paulo, apesar de não se discutir nada da filosofia Paulina, aceita como a própria graça de Deus.

AS DISPUTAS NA IGREJA

No séc. 2, é importante lembrar que ainda estamos no período antes do 1º Concílio, ou Concílio de Nicéia. Esse evento marcou a intromissão do Estado Romano na Igreja porque foi convocado por ordem de Constantino I a fim de uniformizar a religião Cristã, agora abraçada pelo Império. Mas nada disso existia ainda, no séc. 2. Bem ao contrário, a expansão do Cristianismo fazia-se misturando os ensinamentos de Paulo com os Evangelhos (que circulavam em separado) e também as filosofias variadas típicas do grande mundo Romano. As diversas vertentes, claro, viam umas às outras como hereges.

As duas cartas aos Coríntios dão uma ideia desse conflito, ainda no séc. 1. Diversas vezes, Paulo adverte a Igreja sobre doutrinas exóticas se infiltrando entre eles.

1ª Epístolas aos Coríntios, cap. 1
10. Rogo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que todos estejais em pleno acordo e que não haja entre vós divisões. Vivei em boa harmonia, no mesmo espírito e no mesmo sentimento.11. Pois acerca de vós, irmãos meus, fui informado pelos que são da casa de Cloé, que há contendas entre vós.

Cap. 5 - 9. Na minha carta vos escrevi que não tivésseis familiaridade com os impudicos.

Paulo dá a entender que esta 1ª Epístola não foi sua primeira correspondência. Infelizmente, o texto da obra anterior se perdeu. Pelo conteúdo conselheiro das cartas a Corinto, o séc. 2 produziu continuações delas. Claro que não vieram de Paulo, mas agora as doutrinas 'exóticas' podiam ser nomeadas, apontadas com precisão. A estória de Tecla coloca uma situação dessas.

Muito interessante observar que, a respeito da união entre Cristãos e incrédulos, Paulo orienta que tais matrimônios não devem ser desfeitos por causa das diferenças religiosas, dizendo que o esposo não convertido é santificado pela sua esposa e que o contrário também se aplica. Ele acreditava numa vitória 'racional' da filosofia Cristã.

Carta dos Coríntios a Paulo
Agora, as coisas que esses homens dizem e ensinam são estas: eles dizem que não devemos usar os profetas; que Deus não é Todo-Poderoso; que não haverá ressurreição da carne; que o homem não foi feito por Deus; que Cristo não desceu em carne; Ele também não nasceu de Maria; e que o mundo não veio de Deus, mas dos anjos. Portanto, irmão, [te pedimos], dê todo o cuidado para vir até nós, para que a igreja dos Coríntios permaneça sem ofensas e a loucura desses homens se torne clara.

A partir do que está escrito, podemos fazer uma lista das Cristologias que circulavam no séc. 2. Para entender elas, devemos lembrar que a adoração a Jesus precedia em muito o conhecimento dos Evangelhos, ou das cartas de Paulo. O monoteísmo se difundiu em Roma com Jesus, mas também com Mitra. Cristo era um ícone, uma divindade restauradora de Israel, o santificador dos gentios, o caminho para o paraíso. Para os Romanos, era mais um deus.

Uma das Cristologias circulantes era o Docetismo, doutrina que pregava a materialização de Jesus a partir do espírito de Deus, e não como um homem nascido carnal. Tais compreensões eram importantes para justificar a separação carne-espírito. Vemos algo semelhante no Velho Testamento, com profetas como Enoque e Elias sendo levados diretamente a Deus, sem passar pela morte. E também na literatura extra-corânica do Islã, onde o profeta Jesus foi elevado aos céus e Judas transformado na aparência dele para ser crucificado. Não convinha Deus permitir tal sofrimento a Seu profeta!

CONCLUSÃO

O séc. 2 pode ser pensado como um grande divergente na história da Igreja. Por um lado havia a proximidade com as comunidades originais fundadas por Paulo. Por outro, o Cristianismo crescia se misturando às religiões Romanas, como o Mitraísmo. E juntando-se a isso, o número de Cristãos aumentava, requerendo lideranças centralizadas.

Certamente não era o espírito de Jesus, nem tampouco de Paulo, gerar uma instituição com hierarquias internas. Em suas andanças pela Galiléia, Jesus se ateve a questões genéricas/universais como o amor a Deus e o próximo. O mais distante que Ele foi do universo Judeu foram suas conversas com centuriões e Samaritanos. Marcos, seguidor de Paulo, redigiu falas de Pedro que deram origem aos Evangelhos. Lucas, também do grupo de Paulo, depois juntou nesse material os ensinamentos Galileus.

Paulo não reivindicava autoridade maior entre as comunidades fundadas por ele mesmo, mas inclusive clamava que seus ensinamentos haviam provido do Espírito Santo. Pedro e Marcos foram bispos, inaugurando as hierarquias religiosas. Mas, então, como tratar quando os ensinamentos 'do Espírito' são diferentes entre uma comunidade e outra? O que fazer quando o Espírito está atrelado a vieses culturais (e costuma estar)?

A resposta do séc. 2, lá nos Atos de Paulo, era o combate.

3ª Epístola aos Coríntios
Estando em meio a tantas tribulações, não me admiro se os ensinamentos do maligno se espalharam rapidamente. Pois meu Senhor Jesus Cristo apressará sua vinda e desprezará (não mais suportará a insolência) os que falsificam suas palavras.

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LITERATURA DE 2ª MÃO


3rd Corinthians, christian-history.org

BOLEN, Todd. The Grotto of Saint Paul in Ephesus, bibleplaces.com, 29/abr/2013

DEVAI, Sara Gonçalves. Atos de Paulo e Tecla: estudo e tradução, dissertação de mestrado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, USP, 2019

Grotto of Saint Paul, hollylandphotos.org

LONGHENRY, Ethan R. The Acts of Paul and Thecla, venicechurchofchrist.org, 29/set/2019

Map of 2nd Century Roman Expansion, ancient.eu, 26/abr/2012

Mithraism - wikipedia


WASSON, Donald L. Roman Religion, ancient.eu, 13/nov/2013

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Debatendo Jonas


Quadro do artista gráfico polonês Dawid Planeta, da série “Mini People in the Jungle”, de 2018.


Jonas foi um profeta cuja tradição aparece de forma problemática no Antigo Testamento. A importância mais recente do personagem vem da fala de Jesus e do nome atribuído a um de seus maiores divulgadores, Simão “filho de Jonas”.

Mateus, cap. 12
38. Então alguns escribas e fariseus tomaram a palavra: Mestre, quiséramos ver-te fazer um milagre. Respondeu-lhes Jesus: Esta geração adúltera e perversa pede um sinal, mas não lhe será dado outro sinal do que aquele do profeta Jonas: do mesmo modo que Jonas esteve três dias e três noites no ventre do peixe, assim o Filho do Homem ficará três dias e três noites no seio da terra. No dia do juízo, os ninivitas se levantarão com esta raça e a condenarão, porque fizeram penitência à voz de Jonas. Ora, aqui está quem é mais do que Jonas. No dia do juízo, a rainha do Sul se levantará com esta raça e a condenará, porque veio das extremidades da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. Ora, aqui está quem é mais do que Salomão.

Lucas, cap. 11
29. Afluía o povo e ele continuou: Esta geração é uma geração perversa; pede um sinal, mas não se lhe dará outro sinal senão o sinal do profeta Jonas. Pois, como Jonas foi um sinal para os ninivitas, assim o Filho do Homem o será para esta geração. A rainha do meio-dia levantar-se-á no dia do juízo para condenar os homens desta geração, porque ela veio dos confins da terra ouvir a sabedoria de Salomão! Ora, aqui está quem é mais que Salomão. Os ninivitas levantar-se-ão no dia do juízo para condenar os homens desta geração, porque fizeram penitência com a pregação de Jonas. Ora, aqui está quem é mais do que Jonas.

Afora a enigmática figura da rainha do Sul/do meio-dia (que parece ser a rainha de Sabá, na Etiópia), Jesus se refere a Jonas como tendo feito dois sinais: a pregação a Nínive e a estadia no peixe por 3 dias. A forma como esses dois "sinais" se conectam é no mínimo misteriosa.

O RELATO BÍBLICO

Existem livros nomeados como Jonas no Antigo Testamento e também no Alcorão. Como a estória de Jonas se passa longe de Israel, o relato Islâmico é bem importante.

Segundo a Bíblia, Jonas filho de Amitai foi convocado por Deus para pregar aos habitantes de Nínive, capital do Império Assírio até o final do séc. 7 a.C. Os Assírios foram uma potência militar no Oriente Médio até serem substituídos pelos Babilônicos, no séc. 6 a.C. Nos textos bíblicos, os Assírios ficaram registrados devido à invasão de Canaã no séc. 8 a.C., quando o Reino do Norte foi capturado (2ª Reis 17-18, 2ª Crônicas 32), e também devido ao equilíbrio de poderes com o Egito. Israel oscilava de aliança entre um e outro, de acordo com os interesses em cada momento.

O texto de Jonas conta sobre um profeta chamado a pregar no coração da Assíria, que fugiu de Jope (Líbano) para Társis, no outro extremo do Mediterrâneo. Nessa fuga, uma tempestade interrompeu o curso do barco e Jonas foi apontado pelos marinheiros (via um jogo de sorte) como causador da catástrofe. Jogado ao mar e engolido por uma baleia, Jonas ficou 3 dias no interior do "grande peixe", onde admitiu a soberania de Deus e assim foi devolvido à terra.

Na cena seguinte, Jonas está em Nínive e tenta converter a população. Por fim, a cidade toda se arrepende, o rei Assírio convoca um grande jejum, até dos animais, e a destruição de Nínive é impedida. Jonas no entanto esperava ver Nínive cair.. Ele senta-se sob um pé de mamona, que testemunha sua dor. Deus envia um verme que mata a planta e Jonas se lamenta por ela, ao que Deus lhe lembra da Sua piedade para com Nínive.

Detalhe: não fazemos a menor idéia de como Jonas chegou do Mediterrâneo até uma cidade nas margens do rio Tigre, que deságua no Golfo Pérsico, ligado ao Oceano Índico. É possível que o redator mais moderno dessa estória realmente não soubesse a distância enorme entre os dois locais. E, mais importante ainda, a completa falta de um relato da viagem (terrestre) entre os dois pontos distantes, entre os dois acontecimentos narrados, sugere que Jonas nunca fez esse caminho.

O RELATO JUDEU

Os Judeus mantém uma coleção de estórias orais repassadas pelos rabinos, principalmente entre os sécs. 5 e 11. Uma dessas obras, atribuída ao Rabbi Eliezer filho de Hyrcanus (porém sabidamente uma obra do séc. 8) traz uma versão mais "emocionante" de Jonas. Nela, Jonas foi enviado em 3 missões: restaurar as bordas de Israel (2ª Reis 14.25), anunciar a destruição de Jerusalém e depois a de Nínive.

O "grande peixe" era do tamanho de uma Sinagoga, com uma grande pérola dependurada na sua garganta, fornecendo luz, e os olhos do animal servindo de janelas. Por eles, Jonas viu o Sheol (mundo dos mortos), os filhos de Coré* e os subterrâneos do mundo, com 7 montanhas sustentando Jerusalém**. Jonas ameaçou e afastou o Leviatã, criatura das profundezas que tentou comer o peixe. Quando estava sob o Templo, ele fez seu pedido de retornar, que, ali, não seria negado por Deus¹.

Os marinheiros viram Jonas voltando, foram a Jope e circuncidaram-se.

A citação de 2ª Reis, que coloca Jonas como natural de Gate-Hefer - Galiléia, entre Nazaré e Caná, durante as lutas Judá/Samaria - é plausível. Além de uma breve citação, não há fala alguma do "Rabbi medieval" sobre Jonas em Nínive.

O RELATO ISLÂMICO

A literatura religiosa Islâmica é menos condensada que a Judaico-Cristã. Assim, temos um relato sobre Jonas bem sucinto no Alcorão e muitos Hadith ou tradições a respeito do que se sucedeu a Jonas.

Nesses textos tradicionais, Jonas é natural da Assíria. A cronologia também é outra: Jonas vai a Nínive pregar e, depois disso, fracassado, toma um barco, é jogado ao mar (ou rio) e engolido pela baleia. O motivo é o mesmo: Jonas seria a causa de uma tempestade. De dentro do "grande peixe", rodeado pela escuridão, Jonas clamou a Alláh, que o ouviu e deu ordens ao animal para devolver ele.

Jonas abriga-se sob uma vinha/aboboreira, que cresceu por ordem de Alláh. Então Nínive se arrepende e o castigo divino é suspenso. Jonas volta para sua casa.

Aqui, também são duas estórias que parecem mal-coladas: Jonas voltando do estômago da baleia e Jonas convertendo a cidade. Particularmente, a versão com Jonas sendo de Nínive parece mais plausível.

Sura 37, "Os enfileirados"
139. E também Jonas foi um dos mensageiros, o qual fugiu num navio carregado. E se lançou à deriva, e foi desafortunado. Uma baleia o engoliu, porque era repreensível. Se não se tivesse contado entre os glorificadores de Deus, teria permanecido em seu ventre até ao dia da Ressurreição. Nós o arranjamos, enfermo, em uma praia deserta, e fizemos crescer, ao lado dele, uma aboboreira. E o enviamos a cem mil (indivíduos) ou mais. Eles creram nele, e lhes permitimos deleitarem-se por algum tempo.

CONFABULANDO

As duas estórias (da baleia e da profecia em Nínive) são estranhamente pareadas tanto pela cultura Judaica quanto pela Islâmica. Apesar disso, cada um atribui a Jonas uma origem diferente e valoriza de forma diferente os elementos das estórias. Os Judeus e Islâmicos valorizam o episódio da baleia, pela submissão do profeta a Deus. Os Judeus colocam o episódio como um castigo divino, os Islâmicos não têm uma boa explicação.

Os Islâmicos valorizam também a pregação em Nínive (atual Mosul, Iraque), mas sem tantos detalhes como contam os Judeus. Na estória Judaica há um jejum imposto até aos animais (seriam pecadores?), além da piedade de Deus. Na versão Islâmica, há uma conversão em massa por medo do desastre. Sabemos (e o autor do texto Corânico também) que Nínive e a Assíria não aderiram ao culto Judeu, nem mesmo ao monoteísmo. Algo semelhante foi dito por Daniel com respeito a Nabucodonosor, que também nunca aderiu ao monoteísmo Judeu (apesar de Daniel 4.31-34).

Nínive/Ninua era uma cidade dedicada à deusa Ishtar, cujo nome até significava "casa da deusa". Os Judeus em geral associavam a cidade com o cativeiro dos habitantes de Israel/Efraim (os que estavam lá antes dos Samaritanos).

Naum, cap. 1 (séc. 7 a.C.)
1. Oráculo sobre Nínive. Livro da visão de Naum de Elcos. ... 8. Como um temporal violento ele [o Senhor] destruirá este lugar, e, mesmo nas trevas, acossará seus inimigos. ... 14. Quanto a ti, eis o que ordenou o Senhor: Descendência alguma levará teu nome. Farei desaparecer do templo de teus deuses as imagens esculpidas e as imagens fundidas. Vou preparar teu sepulcro, porque és pouca coisa. ... Cap. 2 - 14. Eis que venho agora contra ti - oráculo do Senhor dos exércitos - vou incendiar teus carros e reduzi-los a fumaça, a espada vai devorar os teus leõezinhos; porei fim às tuas rapinas na terra, não se ouvirá mais a voz dos teus mensageiros. Cap. 3 - 7. Todos os que te virem fugirão para longe de ti, dizendo: Nínive está arruinada! Quem se apiedará de ti?

O livro de Tobias (presente nas Bíblias Católicas, apenas) conta a estória de um Judeu de Nínive (como Jonas), expulso da cidade por não adotar os costumes Assírios. Quando Salmanasar V (pai de Sargão II) morre, ele volta para a cidade e seu pai Tobit fica cego. Tobias é buscado pelo anjo Raphael, que o envia para salvar uma certa Sarah, atormentada por um demônio. Depois das aventuras, o anjo ensina Tobias como curar seu pai e ambos fogem da cidade antes de a profecia se cumprir.

Trata-se de um texto ensinando costumes e moral Judaicas, além das tradicionais magias (presentes nos textos Haggadah também) e com chamativos à antiguidade do povo. Jonas, por outro lado, fala da intervenção divina e acontecimentos fantásticos, como muitas estórias do Oriente. Sendo ambos da mesma referência de local e tempo, Tobias e Jonas não parecem frutos do mesmo povo.

Nínive foi arrasada no começo do séc. 6 a.C., por uma união dos reis Cyaxares (Império Medo) e Nabopolassar (Império Persa, pai de Nabucodonosor II). A postura dos Judeus indicava que um parceiro melhor sempre foi o Egito, também alvo de profecias. Jonas representa um adiamento dessa vingança dos Judeus, talvez um resultado da longa permanência do Império Assírio.

Não há dúvidas que o nome de Jonas foi importante nas terras Assírias (um tanto "rio Tigre-acima" das terras Babilônicas). Talvez tenha sido um profeta Judeu importante - apesar de não ter convertido nenhum rei, até onde sabemos. Essa provavelmente foi a origem da estória sobre sua poderosa pregação em Nínive: simbolizar que Jonas tenha sido um profeta, responsável pela duração longa do Império Assírio.

Talvez ele fosse lembrado, entre outras coisas, por ter sido jogado de um barco e voltado. Se isso aconteceu em Nínive, devia tratar-se do enorme rio Tigre, famoso pela quantidade de grandes peixes (aliás, um deles é mencionado na estória de Tobias). É difícil pensar numa baleia adentrando o rio, mas até isso acontece em cursos d'água largos o suficiente. Talvez não fosse um fenômeno raro, embora espantoso sem dúvida, nos tempos da Assíria. De qualquer forma, o Jonas Islâmico foi cuspido pelo animal temente a Alláh numa ilha, além da foz do rio.

Alguns historiadores chegam a equiparar Jonas com o Jasão Grego, herói de mil aventuras, matador de monstros e favorecido da deusa Athena. Entre seus feitos de esperteza, Jasão derrotou um dragão esfregando nele uma poção de dormir. Noutra versão, o dragão é um monstro marinho que engole Jasão e o vomita. Curiosamente, uma poção para vomitar era feita da abóbora, mesma planta associada com Jonas. Não é impossível que as lendas de nomes parecidos tenham se enroscado.

No entanto, ao contrário do astuto guerreiro Jasão, nosso Jonas é jogado ao mar numa clara ocasião de sacrifício para aplacar a tempestade. Na mitologia da Suméria, onde Nínive ficava, as tempestades (no rio) eram produzidas por um grande dragão submerso. Jonas parece ter sido o sacrifício a essa criatura, e um que no entanto voltou para assombrar a todos.

A PODEROSA REFERÊNCIA CRISTÃ

Diversas estórias semitas, muitas envolvendo Elias ou Moisés, circulavam como tradições orais no tempo dos Romanos. Outras (sobre Jasão, quem sabe) haviam chegado com os Gregos. Algumas dessas estórias foram resgatadas por Jesus em suas andanças na Galiléia. Ditas pela boca de Jesus, tais fábulas, parábolas e ensinamentos foram preservadas também na Escritura do Cristianismo. E Jonas não deixou de ser citado pelo Messias.

Exceptuando-se as fontes sobrenaturais, há três modos de essa estória ter chegado ao mundo de Jesus. E chegou, pois os Judeus mantiveram um livro da Torá com a lenda de Jonas. Além da citação nominal do "sinal de Jonas", há uma "tumba de Jonas" na Galiléia e Pedro, salvo de dentro do lago tempestuoso, foi curiosamente referido como Simão filho de Jonas (Mateus 16.17).

A primeira via seria pelas caravanas entre a Assíria e o porto de Jope, passando pela Galiléia. Estórias envolvendo os Judeus de lugares distantes e lendários certamente eram bem recebidas.

A segunda seria a herança dos tempos de cativeiro Babilônico, tal como as aventuras de Daniel. A terceira, aparentada com a segunda, seria através dos Samaritanos retornados da Assíria, que não foram aceitos pelos Judeus como seus parentes. O Evangelho de João introduz muitos elementos Samaritanos na história de Jesus, que não podem ser simplesmente ignorados.

Por qualquer dessas rotas, Jesus, mesmo longe de ser alguém que retorna das águas, e mais longe ainda de ser um filho das águas do rio Tigre, nos pescou essa lembrança.

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NOTAS DOS PROFETAS

Ahadith.co.uk

Assyria - wikipedia

Battle of Nineveh (612 BCE) - wikipedia

Garcia B, Medusa, ancient.eu, 20/ago/2013

HAMEL, Gildas. Taking the Argo to Nineveh: Jonah and Jason in a Mediterranean context. Judaism, v. 44, n. 3, p. 341, 1995.

IBN KATHIR, Al-Imam. Stories of the Prophets, Ed. Darussalam, Arábia Saudita, 2003.

Jonas, o profeta, loungecba.blogspot.com, 19/abr/2014

List of burial places of biblical figures - wikipedia

Mark JJ, Nebuchadnezzar II. ancient.eu, 07/nov/2018

Mark JJ, Nineveh, ancient.eu, 06/mar/2011

Pirkei De Rabbi Eliezer, MIDRASH, cap. 8, Israel/Babilônia (aprox.630 - c.1030), Sefaria.org

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* Coré liderou uma rebelião contra o governo de Moisés e Arão, enquanto eram conduzidos pelo deserto. Após o extermínio de sua linhagem, dois que estavam distantes foram poupados e retornaram à obediência de Moisés.

Números, cap. 16
28. Moisés disse então: “Nisto conhecereis que o Senhor me enviou a fazer todas estas obras e que nada faço por mim mesmo. Se estes morrerem com a morte ordinária dos homens, e se a sua sorte for como a de todos, o Senhor não me enviou; mas se o Senhor fizer um novo prodígio e o solo abrindo a sua boca, os engolir com tudo o que lhes pertence, de sorte que desçam vivos à habitação dos mortos, então sabereis que estes homens desprezaram o Senhor.” Apenas acabou ele de falar, fendeu-se a terra debaixo de seus pés e, abrindo sua boca, os devorou com toda a sua família, todos os seus bens e todos os homens de Coré. Desceram vivos à morada dos mortos, eles e tudo o que possuíam; cobriu-os a terra, e desapareceram da assembléia.


** A profecia das Sete Montanhas é normalmente atribuída a Roma, que muitos textos antigos referem como "cidade das sete colinas". O autor (medieval) do texto aparentemente tentou jogar esse cenário profético para Jerusalém, colocando as montanhas "sob o solo".

Apocalipse, cap. 17
3. Transportou-me, então, em espírito ao deserto. Eu vi uma mulher assentada em cima de uma fera escarlate, cheia de nomes blasfematórios, com sete cabeças e dez chifres. A mulher estava vestida de púrpura e escarlate, adornada de ouro, pedras preciosas e pérolas. Tinha na mão uma taça de ouro, cheia de abominação e de imundície de sua prostituição. ... 7. Mas o anjo me disse: Por que te admiras? Eu mesmo te vou dizer o simbolismo da mulher e da Fera de sete cabeças e dez chifres que a carrega. ... 9. Aqui se requer uma inteligência penetrante. As sete cabeças são Sete Montanhas sobre as quais se assenta a mulher.

¹ A tradição de que orações feitas em um santuário são mais provavelmente atendidas é muito antiga. Lembremos a lenda de Medusa, que foi pedir proteção a Athena (contra Poseidon) dentro do seu templo. No mundo islâmico, o valor das orações é até contabilizado entre os diversos lugares sagrados (Hadith 1413, guardada por Anas bin Malik - Sunan Ibn Majah, cap. 7, The Chapters of establishing the prayer and the Sunnah regarding them). Meca é o principal deles, cada oração valendo por 100 mil daquelas feitas em casa. Em segundo lugar, ficam as feitas nas mesquitas do profeta ou em al-Aqsa, no monte do Templo, que valem por 50 mil orações feitas em casa.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Sobre a re-escritura da Bíblia

Imagens de um manuscrito Bizantino do final do séc. 12, contendo os 4 evangelhos. As capas dos livros são gravuras dos evangelistas Marcos, Mateus, Lucas e João. As partes em dourado são finíssimas folhas de ouro cortadas e coladas sobre o papel.


versão em PDF

Esse título parece bizarro, eu sei. Como assim reescrever a Bíblia? Um texto de 6000 anos pelo menos? Que loucura é essa?


Espero que de fato isso não aconteça, porque valorizo o texto bíblico. Não que o considere algo gravado por Deus em folhas de papiro, ou um tesouro particular da Antiguidade, mas porque aprendi a ver nele os traços de quem o escreveu. Exista ou não a participação divina nisso, foi um texto feito por homens que acreditavam em Deus e deixaram seu registro dessa crença.


Sobre a participação divina, serei breve. Não é o que vou falar aqui. Mas lembro muito das palavras de um sábio pastor que disse, certa vez, que Deus não escreve com tinta - isso fazem os homens. Deus escreve com as vidas dos homens, e cada um relata sua experiência como a viveu, e como quer que os outros se lembrem dela. A assinatura Dele está lá, nas entrelinhas de tudo, até nos minerais que serviram de corante para fazer a tinta com que os textos foram escritos.


O que pretendo tratar aqui é a re-escritura do texto bíblico por homens, no sentido de refazer ele de acordo com suas realidades. Os Evangelhos passaram muito por isso, a ponto de haver 4 versões deles, pelo menos, desiguais e guardadas juntas, no pacote sagrado que denominamos Novo Tratamento. Deixo já claro que não há nada de original aqui: os textos bíblicos são objeto de estudo desde sua confecção, e apenas compilo informações que outros compilaram, de quem as obteve estudando demoradamente os textos.


Um ponto crítico dos Evangelhos é trazerem um personagem sagrado, Jesus, que não deixou o Seu testamento. Paulo fez isso - deixou um testamento em suas cartas - e tais cartas continuam sendo as cartas de Paulo por quase 2000 anos. Quando não deixou algo escrito, Jesus e seus mais próximos e mais próximas permitiram que outros, bem depois, escrevessem Sua vida por Ele. Biografia póstuma.


Temos uma versão de Jesus no texto de Marcos, outra no texto de Mateus, outra em Lucas, mais uma em João e ainda outras no Alcorão e no Livro de Mórmon. E há muitas outras ainda. Essas versões oficiais tiveram um privilégio não dado a muitos grupos que fizeram suas próprias versões da vida de Jesus. Isso foi reescrever o texto bíblico, muitas e muitas vezes. Algumas reedições já haviam aparecido no VT, por exemplo com Êxodo, Deuteronômio e Juízes sobrepondo suas histórias, também com divergências. Nos Evangelhos, tantas reedições e reformulações são validadas sob o tremendo guarda-chuvas de não haver uma versão "assinada pelo autor".


MARCOS


Marcos foi composto por volta do ano 60 d.C., às pressas, baseado nas estórias que Pedro contava e que foram supostamente redigidas por João Marcos, ex-seguidor de Paulo. Marcos fez isso já como bispo em Alexandria, no Egito. Foi uma versão forte, validada pelo grupo de Cristãos mais antigo, pescadores da Galiléia, e pelo líder organizador que Paulo era. O texto de Marcos foi escrito ainda enquanto a Galiléia dos Zelotes era devastada pelas legiões no começo da 1ª Guerra Judaico-romana. João Marcos precisava apresentar Jesus como filho de Deus, e fez somente isso. O texto termina de forma breve, com Jesus indo para a Galiléia (de onde ele provinha e onde as guerras estavam), investindo os apóstolos de poder e logo indo para sentar-se “à direita de Deus”. Sem mais detalhes.


MATEUS


Mateus ganhou forma na época do cerco de Jerusalém. A cidade sagrada seria devastada pelas catapultas Romanas, uma parcela imensa da população seria exterminada tentando fugir, o Templo seria saqueado, incendiado e demolido. Mateus anunciava um Jesus messias, salvador, um personagem sagrado que viria sobre as nuvens controlando os raios e solidificando os mares. Jesus viria, em outras palavras, salvar Jerusalém como um super-herói enviado por Deus.


Noutros tempos, havia estórias sobre o Anjo-do-Senhor defendendo Jerusalém contra os AssÍrios, e Miguel defendendo o Templo contra os Gregos (2ª Macabeus 3). Jesus agora precisava Se inserir na história Judaica como o enviado de Deus. Por isso, Mateus toma na Íntegra o texto de Marcos. Mas essa narrativa sai das páginas escritas, ganha espaço oral e retorna apresentando Jesus como legítimo descendente do antigo rei Davi, andando sobre o Mar da Galiléia (na verdade um grande lago), proferindo um grande sermão onde convoca os pobres ao Reino de Deus (Mateus 5) e apresentando parábolas onde explica o Seu Reino detalhadamente (Mateus 13). No final de tudo, Jesus aparece ressuscitado em uma montanha sagrada da Galiléia (seria o monte Gerizim, onde ficava o Templo dos Samaritanos?) e comanda Seus discípulos a saírem pelo mundo.


LUCAS


Lucas também traz outra versão de Jesus. Não tão carismática quanto Mateus, porém mais detalhista. Seria o equivalente a uma "versão original", não fosse posterior e de outra origem. Lucas (o texto, não o autor) nasce de um grego andando pelas terras destruídas já em meados do séc. 2. A destruição passou, o Salvador não veio, mas virá. Lucas tem um Jesus que não reúne Judeus, mas sim os pobres.


Lucas 7.22

Respondeu-lhes Ele: Ide anunciar a João o que tendes visto e ouvido: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, aos pobres é anunciado o Evangelho.


Em Lucas, Jesus fala com pessoas de todas as castas sociais -  Fariseus, Centuriões, homens comuns. Jesus reúne as pessoas transitando pelas planícies e até prepara lanches. Lucas é um livro particularmente diferente dos outros porque não encerra sua narrativa com a volta de Jesus: ele a prossegue com um novo capítulo, sobre a reunião da Igreja e o surgimento do grupo comandado por Paulo, aquilo que convencionamos separar e chamar de Atos dos Apóstolos. Nas versões mais antigas, Lucas e Atos eram um único livro..


JOÃO


João também fez sua revisão do Evangelho, marcando um momento e situação bem singulares da Igreja na virada do séc. 1 para o séc. 2. Primeiro, o contato de João (o texto) com Marcos é parcial, bem diferente das outras versões. O que sugere que era o texto base de uma comunidade separada de Pedro e Paulo. A falta de contato na verdade é mais sutil: João parece negar boa parte do que os outros evangelistas apresentam. João Batista é uma figura breve que, no evangelho de João Evangelista, não batiza Jesus. O texto de João também desfaz os ritos que Paulo instituiu (como a Ceia), coloca Jesus em contato com os Samaritanos e desdenha da ancestralidade de Jesus. A repetição do título de Profeta para Jesus até mesmo dá a entender que João seja uma obra Samaritana, pois os Judeus eram repletos de profetas (sendo Isaías o maior deles, depois de Moisés), enquanto os Samaritanos reconheciam apenas Moisés e o Messias.


Outro aspecto de João é a colocação do "discípulo amado". Esse personagem propositalmente anônimo é um "Forrest Gump", sempre no lugar e hora certos. O texto faz parecer que se trata de João Boanerges, filho de Zebedeu, mas no relato herdado de Pedro (dos Evangelhos Sinóticos), esse personagem está sempre em companhia de Simão Pedro e Tiago Boanerges, o que não acontece no evangelho de João. Há bons motivos para supor que o "discípulo amado" é apenas uma criação literária para  reportar as falas de um Jesus também literário, que expressava os pensamentos da comunidade Samaritana uns 70 anos após a morte de Jesus. Era uma comunidade não aceita entre os Judeus e tentando se inserir entre os Cristãos, na medida em que esses deixavam as sinagogas (em João, as Sinagogas são citadas muitas e muitas vezes). Ao contrário da ritualidade "farisaica" do grupo de Paulo, que aparece nos outros textos, João tem pretensões bem mais espirituais e filosóficas.


ALCORÃO


Uma outra revisão bastante notável ocorreu no séc. 7, com a estruturação dos textos que compõem o Alcorão. O texto árabe não é uma narrativa centrada em Jesus, como os Evangelhos, mas tem uma estrutura mais ou menos cronológica - como a Bíblia - onde Ele aparece de forma esparsa em textos como Os Humanos (livro/surata 114, último do Alcorão), As Fileiras (surata 61), O Ferro (surata 57), etc. Como em João, o distanciamento dos textos tradicionais não é casual, mas uma espécie de negativa deles. O Alcorão encontra a Cristandade definida como um império de cultura grega, com capital em Constantinopla, repleto de ritos sagrados, superpoderes e todo tipo de exacerbação das características de Jesus. Por isso, apresenta um Jesus que nega pessoalmente tudo isso: nega sua divindade, nega a Trindade e nega mesmo a Crucificação. O Jesus corânico se parece bem mais aos profetas do VT, anunciando inclusive a vinda de Muhammad ou Maomé.


Esse novo Jesus abraça as tradições Judaica e Árabe sem se oficializar com nenhuma delas, além de textos Cristãos que circulavam e depois foram abandonados pela tradição oficial (como o Evangelho de Barnabé). O profeta Jesus curava e fazia milagres, distanciando-se dos Evangelhos Cristãos não tanto na sua vida, mas nos eventos “fora de sua pessoalidade”, como Seu nascimento (que se dá sob uma tamareira) e sua posição nas tramas divinas. No Alcorão, Jesus simplesmente anunciaria um profeta novo e teria sido levado aos céus em vida (com Judas transfigurado em Jesus e sendo crucificado pela sua própria traição). Jesus foi recebido entre os profetas destinados a voltarem como herdeiros da nova Terra, no fim dos tempos. O significado redentor de Jesus, propagado sobretudo por João e por Paulo, é combatido por essa versão da história. Jesus é profeta, Allah é o redentor.


MÓRMONS


Uma grande revisão mais recente apareceu no séc. 19 e deu origem ao Mormonismo. Inicialmente uma seita Cristã e ainda em processo de vinculação ou desvinculação ao sistema majoritário, os Mórmons introduziram uma nova versão da história Judaica, com um certo Lehi levando "os fiéis" para fora de Jerusalém antes de sua tomada por Nabucodonosor II (587 a.C.). Eles cruzaram a Arábia pela margem leste do Mar Vermelho e depois navegaram através do Golfo de Adem (extremidade sul do Mar Vermelho) ao redor da África e pelo Atlântico, até as Américas, mais especificamente na costa leste dos EUA. Esse novo povoamento Judeu tem sua história descrita no livro deixado por Mórmon, seu último profeta.


Em sua Ascensão, Jesus foi visitar também esse seu outro povo escolhido (Nephitas), que guardou seus ensinamentos a despeito da mentira plantada pelos Cristãos (e, apesar disso, a imensa maioria da cristologia Mórmon é idêntica à descrita nos Sinóticos). Tal povo colono foi extinto no séc. 5 e, claro, os Espanhóis não os encontraram no séc. 16. Finalmente, no séc. 19, um profeta da região foi avisado por um anjo/espírito antigo (Moroni) sobre placas douradas enterradas numa montanha perto de Nova York, a partir das quais ele traduziu todo o livro de Mórmon e recuperou a história esquecida dos seguidores de Cristo, assim como Seus verdadeiros ensinamentos.


A teologia Mórmon é extremamente sensível a ordenações. As pessoas recebem de Deus visões e sabedorias na medida das funções que lhes são atribuídas por autoridades da Igreja. A autoridade eclesiástica, por sua vez, deriva do próprio Joseph Smith, que foi assim investido por Deus e Jesus (em pessoa(s)), o anjo Moroni e os anjos de João Evangelista, Pedro, Thiago Boanerges, etc. Obviamente essa estrutura hierárquica cria um sistema vertical de comando equivalente ao que fez a Igreja Católica medieval.


OUTRAS REVISÕES


Eu citei algumas revisões da vida de Jesus dentre as mais bem documentadas. As revisões sobre entendimento e prática do Cristianismo são inúmeras, indo desde o movimento Franciscano até o apoio das megachurchs a regimes ultradireitistas. Mas tudo o que nos restou daquele culto de 2000 atrás foram textos, e eles mesmos são revisões.


A história da Igreja está crivada dessas re-escrituras do Evangelho. Re-interpretar e re-fazer a história de Jesus, e principalmente o que ele deixou após a morte, tem sido um componente importante  para respaldar - via um texto sagrado, que não poucos julgam escrito por Deus - doutrinas que emergem de um certo Cristianismo e vêem essa versão anterior como franca ameaça. Para que o novo rei possa existir, o antigo precisa ser destruído.


A ameaça do "Cristianismo escrito" é justamente por sua existência enquanto prática (seja lá o que significa dar um mesmo nome a uma multidão de cultos), e não como algo que se possa trancafiar no armário. A história Judaica antiga, por exemplo, deixou de ser ameaça desde que o Templo foi destruído. A partir de então, os Cristãos se nomeiam herdeiros dos Judeus (claro que os Judeus são contra isso, e eventualmente um grupo tentou matar o outro várias vezes), tal como os Muçulmanos (conflitos com Cristãos e Judeus são inúmeros). Os Mórmons se apropriaram da história Judaica mesclando ela com restos de civilizações indígenas ainda visíveis no oeste estadunidense do séc. 19 (no caso, os indígenas americanos seriam os Lamanitas apóstatas, cruéis, etc que um defensor de Cristo não sentiria culpa em matar). Em cada caso, a história de Deus e Jesus contada pelo grupo mais antigo foi dada como falsa, apóstata, demoníaca ou boba


O SURGIMENTO DO CRISTO INSTITUCIONAL


Antes da organização do Cânon Cristão, ou "aquelas obras que são verdadeiras", não se usava uma biblioteca de 5000 anos como obra de referência, como se tudo ali estivesse conectado. Então as muitas obras foram selecionadas por sua conectividade, e organizadas numa sequência lógica que também não foi sua sequência de elaboração, e finalmente tudo pareceu conectado, como sílabas ordenadas para formar uma palavra.


Lá pelos séc. 2 e 3, os livros que hoje são partes da Bíblia eram usados como referência de vários cultos diferentes. O Alcorão nos dá uma margem para pensar que, mais longe de Roma, tais textos sobreviveram em circulação até meados do séc. 7. Hoje, tais obras sacras estão esquecidas como material de devoção e somente são estudadas como peças de museu. Nós as chamamos de apócrifos, palavra que significa “obscuro ou desconhecido”, pois sua leitura era permitida somente aos membros da hierarquia Cristã.


Eles dão uma ideia de outras muitas revisões feitas sobre os Evangelhos, com maior ou menor proximidade entre si, e seria altamente indesejável que os fiéis duvidassem da mão de Deus montando o Cânon tal como foi selecionado. Ou, pior ainda, que acreditasse em tais obras e se desviassem da linha única, central (e podemos dizer intolerante) definida pelo mix Igreja + monarquia. Mais recentemente, acredita-se que até várias mãos e fontes contribuíram para cada Evangelho, sendo Muhammad e Joseph Smith não menos autorizados que eles.


A DUREZA EM ADMITIR FLEXIBILIDADE


Muitos teólogos diriam que não pode haver flexibilidade, e talvez justifiquem isso unindo um versículo de Salomão (séc. 10 a.C.) com outro de Paulo, mil anos depois, ao qual Lucas (seu cronista, em Atos) poderia se opor, além de Jesus. Muito surpreende a variedade de Jesuses e Deuses desenhados a partir da multidão de textos e entendimentos que Os representam aqui na Terra.


Se o texto fornece aprovação ou rejeição, é preciso que o divino fale com seus fiéis? Isso faria alguma diferença? E se o que as pessoas escutam de Deus também é loucamente variável, indo da caridade irrestrita ao apedrejamento do próximo e a automutilação, é realmente um único Deus lhes falando? Se divertindo, talvez? Essas são apenas algumas perguntas provocativas, e de uma provocação bem desdenhada há tempos, se pensarmos num(s) texto pétreo, feito e refeito para ser o entreposto entre a palavra de Deus e a mente humana. O texto não deixou, afinal, muita liberdade para Deus falar.


O assunto é especialmente sério porque esse texto, inicialmente de alguma forma disperso e variante, mesclado com a experiência e a necessidade humanas, foi recortado, colado e interpretado como um compêndio de leis. Curiosamente, se trata da(s) narrativa(s) de vida de alguém executado como fora-da-lei.. A partir de um pária agindo segundo o Amor, a lei Cristã em certo tempo ganhou o poder de ser imposta por bem - que Deus o faça - ou por mal - esse eu mesmo farei - se as pessoas não concordam com o trato. Jesus representava a autoridade de Deus, e seus representantes levavam a autoridade Dele. A autoridade vigora por poder e força, passando por cima das vontades pessoais. Mas não é o detentor de todo poder que transforma as pessoas em obedientes (há livre arbítrio!), nem quem as pune porque o arbítrio não é tão livre assim. Quem pune é a Igreja.


A Igreja deve punir para que não seja punida, uma espécie de esquema militar com Deus no quartel general blindado duma capital, enquanto a Igreja é Seu exército e os fiéis a Sua linha de frente contra o resto do mundo. Essa ideia traduz as melhores literaturas religiosas, desde que o Evangelho de João fala assim. Mas em momento algum os Joaninos foram maioria, em momento algum se serviu vinho nas festas da Igreja e raro se ensinou os fiéis a lavarem os pés uns dos outros. O exército chamado Igreja (a série britânica Doctor Who fez questão de retratar a Igreja do séc. 40 assim), se invocarmos a história de uns 2000 anos para trás, raras vezes esteve armado com qualidades celestiais contra o sofrimento, a fome, a destruição da Natureza ou o desdém e exploração de uns pelos outros. Costuma ser um exército contra as outras religiões, contra os desvios do grupo. Todo bem ou prosperidade ou felicidade que possa advir vêm da fidelidade militar ao grupo, e não tê-los dentro do grupo já é um indício de infidelidade. Tê-los fora do grupo é abominação.


No meio de tantas revisões da experiência de Cristo na Terra, ou dos contatos de Deus com o mundo humano, como exercemos a nossa liberdade de escolher e contar essa experiência? Será que podemos argumentar que não somos (a Igreja) um grupo heterogêneo lutando por si mesmo, e mais tarde (?) entre si? Será que Jesus não poderia ter escolhido divulgadores mais parecidos ou que fossem capazes de dizer “A paz esteja convosco” uns para os outros, como Ele mesmo fazia?


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TEXTOS TRANCAFIADOS NA TORRE INVISÍVEL


Alcorão online em português

Chambers TL, New Testament words and quotations in the Book of Mormon, IOSR Journal Of Humanities And Social Science (IOSR-JHSS), v. 22, n.2, p.120-147, 2017.

Livro de Mórmon online

Pelos muitos caminhos de Deus - Desafios do pluralismo religioso à Teologia da Libertação, ASETT, Ed. rede, 2003.

Reynolds NB, The Gospel according to Mormon, Interpreter: A journal of Latter-day Saint Faith and Scholarship, v.29, p. 85-104, 2018.

* Vasconcellos PL, Curso Jesus na História, canal Paz e Bem, 2020.