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domingo, 15 de março de 2026

Exús na Cristandade

Montagem bizarra fundindo vários aspectos de Exu. Os crânios são um sinal de comunicação com os mortos. O tridente é um símbolo de poder sobre os reinos dos espíritos, material e dos deuses. As cabaças são portadoras de pós para magia. As velas ou qualquer outro fogo são sinal de sua ligação com esse elemento.

À primeira vista, falar de Exu pode parecer estranho, como falar do diabo. Eu já fiz isso. Mas esse texto deve justamente conter tal ímpeto associativo. Exu é uma das divindades africanas mais fascinantes e complexas, e sua presença atravessou o Atlântico para se instalar no imaginário religioso brasileiro — chegando até mesmo a adentrar algumas igrejas evangélicas.

Origens africanas
Exu (ou Esú) tem suas raízes entre os diversos povos, etnias e aldeias da grande cultura Yorubá, que floresceu na costa oeste da África, entre o Congo e a Guiné, entre os sécs. 8 e 18. O hábito de descalçar-se em locais sagrados, roupas rituais brancas com a cabeça coberta e até mesmo a designação "Alá" para os panos brancos sugerem que houve contato entre eles e o Islã emergente.

Cada comunidade yorubá pré-diáspora possuía suas próprias divindades que, mais tarde, no Brasil, seriam reunidas sob o nome genérico de Candomblé. Exu aparecia na maioria delas e grupos étnicos distintos e línguas diferentes. Unidos sob a escravidão no outro lado do Atlântico, eles encontraram em Exu algo em comum para adorar e temer.

Exu na mitologia yorubá
Exu é muito complexo, psicologicamente falando. Tão complexo que, como vários personagens yorubá, parece ser o resultado de uma grande fusao de seres distintos. O Cristianismo fez isso com Jesus - sim, os Evangelhos e as cartas de Paulo concordam só parcialmente - e os Judeus fizeram isso com Moisés - um profeta, guerreiro, legislador e proibido de entrar em Canaã.

Numa cultura que não polarizava bem e mal, Exu era um viajante entre os mundos, capaz de levar mensagens entre deuses e humanos.

Em algumas tradições, ele era apresentado como o discípulo mais fiel do Criador, aquele que se sentou nas estradas para cobrar pagamentos ao seu mestre, e o único que teria aprendido a criar seres vivos.

Noutras versões, sua convivência com Oxalá é bem menos amistosa: Exu prega peças no Criador e chega a duelar com Ele pelo título de orixá mais velho.

Símbolo da virilidade, Exu teria sido parceiro (os itans sagrados não usam  "esposo", emboram falem assim de outros casais) de Oyá ou Iansã, a deusa guerreira conhecida por sua força de sedução, perigo e afronta violenta aos poderes. Em certas narrativas, Exu também desafia constantemente a autoridade, mas não como guerreiro e sim de forma astuta — como o Loki nórdico. Numa história, ele barganha com Xangô sua participação no banquete da realeza, ao lado de Yemanjá e Oxalá, em troca de inhames muito apreciados pela rainha. Noutra, ele enriquece recebendo oferendas pelas perdas em sua casa, incendiada secretamente por ele mesmo.

Exu assume ainda o papel de um sábio não convencional. Ele é uma figura que surge inesperadamente nas estradas e propõe enigmas com desfechos que explicam as coisas do mundo. Se Jesus usava parábolas para descrever o Reino de Deus, Exu sempre foi um personagem das estradas, conhecido apenas pelos viajantes. Às vezes, encontrava os mesmos viajantes indo numa direção e também na outra, sugerindo sua identificação com o desconhecido — seja o futuro à frente, seja o esquecimento do que ficou para trás. Seria bobagem tentar prever os caminhos de Exu.

Exu tambem representava a verdade absoluta, como Jesus. Mas havia diferenças: Jesus se autodenominava "a verdade e a vida", mas não o vemos desmascarando ninguém; a verdade, em Jesus, parece escapar por pequenos furos nas pessoas. Em confissões, às vezes. Exu, por sua vez, escancarava as verdades ocultas. Numa história famosa, ele provoca a briga de dois camponeses discutindo a cor do seu chapéu — que era preto de um lado e vermelho do outro. Para além da provocação, Exu desnudou a violência silenciosa por trás da aparente cordialidade. A verdade, para Exu, era para ser mostrada, a despeito das consequências. E isso costuma envolver lições de humildade, o que até Jesus aprovaria. Mesmo Oxalá, em sua nobre tarefa de criar o Ayé (mundo material), foi interrompido — e em algumas versões, impedido — por uma bebedeira com vinho de palma oferecido por Exu.

Exu e os mortos
Uma das identificações mais marcantes de Exu é sua relação com os mortos, ou melhor, com as almas (eguns). No Cristianismo formal, não há paralelo direto: no Catolicismo, fala-se em relíquias sagradas. Aparições de almas abençoadas são raríssimas. Na Bíblia, há o episódio da invocação do profeta Samuel por uma feiticeira a pedido do rei Saul, e a aparição de Moisés e Elias no monte Tabor. Mas diversas tradições africanas não têm o conceito de alma como no ocidente — quando alguém morre, simplesmente termina.

No Brasil, as tradições indígenas sobre espíritos que vagueiam durante a noite fortaleceram a versão de Exu como alguém capaz de convocar as almas para realizar tarefas. Oyá, sua parceira, aprendeu essa arte com ele, mas a empregava para levar os eguns para longe do Ayé (singular casal!).

Os iorubás temiam os mortos, que eram invocados por meio de oferendas a Exu para atrapalhar, adoecer ou enlouquecer inimigos. Muitas casas na Nigéria colonial tinham imagens de Exu do lado de fora para afastar esses espíritos — imagens com búzios, dentes pontiagudos, carranca e um grande pênis ereto, o que os missionários cristãos interpretaram como culto ao diabo. Tal qual as bruxas cozinhando remédios ou hereges fazendo cultos cristãos diferenciados.

Sincretismo brasileiro
No Catolicismo, as almas permanecem um tempo entre os vivos e outro no Purgatório. Enquanto entre os vivos, algumas almas podem instruí-los; outras, por meio de orações, podem promover milagres. Muitos santos católicos tornaram-se milagreiros após a morte.

Com essa referência, Exu assumiu no Brasil um lugar de controle das almas, notoriamente para causar problemas. Assim, tornou-se a entidade capaz de promover tanto o bem (iluminando caminhos, mostrando decisões favoráveis) quanto o mal (atraindo eguns). Por isso, é procurado por quem busca vingança e por quem é atormentado. Exu pode ser aplacado com oferendas!

De forma sincrética, Exu ganhou nomes diferentes conforme sua atuação: Exu Mirim (causa pequenos acidentes, semelhante ao Saci), Exu Tiriri (justiceiro), Exu Marabô (revelação e cura), Exu Tranca-ruas (guardião), Exu Caveira (manipulação e fala com os mortos), entre outros. Não difere muito da variedade de títulos de Nossa Senhora. Embora distintos, todos esses Exus mantiveram um estereótipo básico: figura masculina, capa preta ou vermelha, aparição preferencial à meia-noite, gargalhadas barulhentas, gosto por tabaco e cachaça. O Exu mais africano prefere a corrida (ninguém o vê), sangue, vestes de caçador (faca e porrete) misturadas a adereços de adivinho (búzios) e a exibição de um grande pênis ereto — seu símbolo de virilidade.

O Catolicismo associou a Exu um aspecto diabólico, enquanto o protestantismo o transformou em espírito obsessor (elemento do Espiritismo), comum em exorcismos públicos — o "espírito imundo" que Jesus expulsou de um jovem ou do morador dos sepulcros Gadarenos.

Mas basta olhar com atenção para perceber que o Exu do Candomblé não sai possuindo corpos de qualquer um; no máximo, um sacerdote iniciado e durante uma cerimônia. Para esses, Exu é um ser do fogo, o espírito que dá movimento, que impulsiona os acontecimentos, que exige a verdade.

Exu como representante do povo
Aspectos menos discutidos de Exu vêm do lado oriental do Atlântico. Associado às estradas e ao comércio, ele seria a divindade mais pobre, destinada a trabalhar como plebeu, enquanto outros orixás são honrados como senhores ou nobres. Num conto sobre o encontro de Oxalá e Exu, este último testa o Grande Orixá fazendo-o carregar sacos imundos de sal, carvão e dendê — e Oxalá obedece, previamente instruído a não recusar. Noutro conto, Exu cultiva inhames, como os mais pobres da Nigéria, mas não oferece seu produto à realeza; outra divindade vem comprá-los, e surpreendem-se ao encontrar Exu à mesa, mostrando que ele estava longe do círculo de convidados.

Esses itans revelam talvez uma das características mais humanas de Exu: fazer parte do povo, não da nobreza. É uma ordem social reconhecível desde a antiguidade: uns trabalham, outros são honrados. Exu representa os que trabalham, que recorrem aos orixás por ajuda, cura e proteção. A proximidade gera identificação e afeição. Não por acaso, Exu é visto como mediador entre homens e orixás — há até a premissa de "Exú primeiro".

Junto a disso, no Candomblé, é comum banir Exu dos locais de culto quando o ritual não é específico para ele. Não há banimentos semelhantes para Ogum, Yemanjá ou Oxóssi. Justifica-se por um itan controverso no qual Exu atrapalha a criação do mundo em vingança por não ter recebido oferendas de Oxalá. Deus travesso e desordeiro, Exu seria um elemento de caos, atrapalhando ou ajudando conforme sua vontade e as oferendas recebidas. Sem o "suborno" a Exu, oferendas a Ogum podem virar perdas, e as de Yemanjá, conflitos. Exu acaba outra vez representando algo que os homens conhecem bem nas relações de poder: a corrupção.

Num exemplo realista: Mário e Luidge são dois encanadores que disputam um terreno na justiça. Ambos apelam a Xangô, senhor da justiça, e a Exu, que faz a comunicação. Aquele que oferecer mais a Exu — não a Xangô — tende a vencer. É uma lógica aplicada apenas a Exu, não a outros orixás.

Mesmo sua atitude rebelde, que motiva o banimento ritual, é exótica. Sim, Exu atrapalhou a criação, impôs dificuldades a Oxalá, propôs enigmas e desafiou homens. Mas Xangô é um senhor da guerra irritadiço; Oyá, deusa das tempestades, poderia ser muito mais terrível. Yemanjá levantou ondas que fizeram todos os deuses se ajoelharem, só sendo parada por Oxalá. Se Exu faz a comunicação com os homens, não deveria estar presente? Não deveria falar através das pessoas em transe? O banimento possivelmente reflete a entrada no círculo do poder: nega-se a pobreza, a sujeira e o suor do trabalho. É preciso ser dedicado, não um beberrão festivo; ter poder, não carregar sacos. Exu não cabe aí. Seu espaço é lá fora, na rua, com o povo — não no palácio. E não no espaço sagrado.

Noutro pensamento curioso, questiona-se o aspecto humanóide de Exu: enquanto os orixás discutem dentro de casa, ele fica sentado à porta devorando ratos. Noutro itan, Exu (Bará) assume um apetite insaciável e devora outras divindades. Escreveu Pierre Verger:

"Exu é um Orixá ou um ebor asá [espírito inumano, por vezes com múltiplos olhos, braços ou cabeças] de múltiplos e contraditórios aspectos, o que torna difícil defini-lo de maneira coerente. De caráter irascível, ele gosta de suscitar dissensões e disputas, de provocar acidentes e calamidades públicas e privadas. É astucioso, grosseiro, vaidoso, indecente, a tal ponto que os primeiros missionários, assustados com essas características, compararam-no ao diabo, dele fazendo o símbolo de tudo o que é maldade, perversidade, abjeção, ódio, em oposição à bondade, à pureza, à elevação e ao amor de Deus. Entretanto, Exu possui o seu lado bom e, se é tratado com consideração, reage favoravelmente, mostrando-se serviçal e prestativo."

Há poucas referências yorubá a seres não humanóides. Yroco, a divindade-árvore; as Ya-mi ou feiticeiras da floresta, que eram parte humanas e parte aves; a família de Oxóssi, caçador das matas (ele teria vindo ao Ayé antes dos demais Orixás, antes de os homens serem feiros, junto com sua família). Sobre Exu, fala-se de ele ter uma lâmina na cabeça, que esconde com a trança.

Exu vs. Diabo cristão
Aqui, caimos em um tema recorrente de blogs e sites. Desviei desse tema repetitivo, deixando para o final, mas ele é inevitável.

A condição mais interessante de Exu talvez apareça nos países que foram  cristianizados entre os séculos XVI e XIX, como o Brasil. Aqui, assim como na África, Exu foi associado a algo libertário que não cabia nos moldes cristãos tradicionais. Sua sensualidade e agressividade, comparadas à castidade e ao "espírito acima da carne" pregados por Santo Agostinho, colocaram-no na categoria de representante de Satanás — justificativa para a colonização e submissão dos povos iorubás. Cultuar Exu era cultuar o Diabo Cristão.

Esse pareamento teve apoio. Para os conquistadores, justificava que a Igreja se afastasse dos escravizados. Não eram filhos de Deus. Para os que sofriam ou resistiam à colonização, era um modo de manter os brancos longe dos Orixás. Dificilmente um branco se aventuraria num terreiro com "diabos" na entrada. Isso não impedia ações policiais, mas afastava curiosos.

Muitas manifestações de Exu até ganharam ares "cristãos", com certos Exus se declarando "fulano do inferno" ou Pombogiras (Exus femininos) chamadas em cantigas de "mulher de Satanás". Obviamente, não faz sentido diabolizar Exu, já que não há paralelo real entre a cosmogonia yorubá e o Cristianismo.

Vertentes sincréticas chegam a representar Oxalá como um Jesus de braços abertos (sem a cruz) e Exus como diabinhos. No Pentecostalismo, Exu é "convidado frequente" em cultos, como possessão maligna a ser expulsa para validar o poder do pastor. É uma abordagem utilitarista, que reúne fiéis apresentando uma divindade rival como demônio. Na Europa, onde as religiões Afro são pouco significativas, o demônio usual dos cultos Pentecostais é Maomé ou o Alcorão.

O Jesus dos Evangelhos só esteve frente a frente com o diabo no deserto, e apenas na versão de Lucas. O diabo não aparece tentando pessoas no dia a dia, muito menos fazendo travessuras malévolas que possam ser evitadas com oferendas. Não é um convocador de espíritos nem guardião de lugares de culto. Simplesmente, diabo e Exu não são iguais, assim como Jesus e Oxalá não são. Não há entre Exu e Oxalá uma disputa pelos corações dos homens.

Exu permanece, em sua essência, o mensageiro entre mundos, o guardião das encruzilhadas, o senhor das possibilidades — tão humano quanto divino, tão temido quanto respeitado, e definitivamente muito mais complexo do que qualquer redução maniqueísta pode capturar.

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Ele esqueceu de ler
PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. Companhia das Letras, 2020.
VERGER, Pierre et al. Lendas africanas dos orixás. Corrupio, 1985.

quinta-feira, 27 de março de 2025

Cultura Woke

Antes que me processem, essa imagem é de autoria de Michael Junkroski e foi retirada da sua postagem "Woke Like Jesus". Adulterei ela para não deixar isso óbvio. Um parágrafo que gostei muito no texto foi "Acho que Jesus é uma lição sobre acordar e responder às injustiças do mundo. Ele nos arranca da visão nebulosa causada pelo sono em nossas vidas e nos empurra para um estado mais elevado, um no qual estamos dolorosamente cientes das diferenças de privilégio e compelidos a não reequilibrar o sistema, mas a inclinar a balança em favor dos pobres e desprivilegiados."

Cultura woke é o nome dado por Reacionários a uma suposta predominância de aporte a ideologias de minorias. Na prática, significa patrocinar mídia com temática antirracista, feminista e pró-LGBT ao invés de outros temas. Os "Wokes" seriam pessoas "acordadas", capazes de ver a manipulação a que estão sujeitas (por parte da cultura, da economia, do governo - é a ideia de um inimigo difuso na classe superior). Os Reacionários são pessoas desagradadas com os Wokes, engajadas em calar ou eliminar eles. Via homicídio, se necessário.

    A primeira questão, indo no sentido contrário, é sobre esse inimigo que não é uma pessoa. Ele existe? Estamos sendo traídos pelo governo? Pelos mais ricos? Pelas potências estrangeiras? Eu não sei se o nome "traído" se aplica aqui, porque em geral a sociedade gira ao redor de consumo, oferta de salários e ensino. Não há promessas (ok, toda propaganda é uma promessa), e sim produtos à venda.

    No caso de consumo cultural, é mais ou menos opcional consumir o que te é oferecido. Existem livros, existe a internet, existem atividades que não são controladas (no Brasil). Fazer o que todos fazem "porque todos fazem isso" é muito mentalidade de rebanho..

    No caso de consumo de produtos físicos (alimentos, aparelhos, etc), sim, estamos nas mãos de uma classe privilegiada. Isso desde o séc. 17 pelo menos. A "cultura Woke", aqui, deveria incentivar o consumo a partir de pequenos produtores, o que muitas vezes acontece. Mas nem sempre. Os pequenos produtores, inclusive, costumam estabilizar a economia nacional porque geram muito mais empregos/R$ lucrado que as grandes empresas. Não é simples para os mais pobres optar coisa alguma, geralmente buscam apenas o que é possível (e as grandes empresas oferecem produtos mais baratos, com muito menos gente sendo empregada para gerar eles). Mas existe uma parcela da população que tem essa possibilidade de optar quanto ao que consumir. Claro, isso faz conta de uma faixa de renda que vai descendo desde "os mais abastados" até certo ponto da "classe média". Em outras palavras, quanto ao consumo, não há Wokes pobres. Não tem como haver, por uma questão de sobrevivência. De certa forma, a "cultura Woke" depende da parte superior do Sistema Capitalista. Relacionemos isso, no meio religiosos, como MISERICÓRDIAdos ricosquanto as pobres.

    No caso da oferta de salários, de novo estamos, sim, mas mãos de quem tem o capital e comanda o Estado. Não tem muita saída a não ser favorecer políticos que estabeleçam regras protecionistas ao trabalhador. Se esses trabalhadores são  majoritariamente pretos, pobres, indígenas, etc depende de uma análise populacional e também de um acordo empresarial sobre "a quem interessa proteger". Essas pessoas precisarão ser pagas e não vai ser o Estado a lhes sustentar. Dentro da mentalidade Woke, importa proteger as minorias. Dentro da mentalidade empresarial, importa pagar quem consome. Em se tratando de minorias, elas vão ser importantes para a economia quando consumirem produtos diferenciados. Não antes. Então o argumento Woke, embora bem humano, fica enfraquecido na sua aplicabilidade. 

    No caso de ensino, chegamos a um ponto complicado. Não há ensino integral, onde tudo seja ensinado aos jovens. E muito do que é aprendido, não é aprendido na escola: há um ensino cultural doméstico, há um ensino cultural das comunidades onde o jovem se apresenta, há um ensino das redes sociais (não as chamo de comunidades), há um ensino encolhido pela própria pessoa. Todos  eles carregam vieses. Mas nem todos são passíveis de regras. A escola é. Ali, o ensino útil às classes mais pobres é a de ideologias de esquerda, destinadas a semear a guerra por direitos. A mentalidade Woke cabe bem nesses locais. Já o ensino útil às classes mais altas é anti-Woke, no sentido de adquirir conhecimentos técnicos necessários a ter postos de trabalho mais altos - que serão proporcionados ou financiados aqui e ali por seus pais. Lutar por direitos indígenas ou equidade racial se torna absoluta perda de tempo, quando você só precisa de um diploma para assumir a vice-presidência da empresa da família, ou para abrir seu próprio escritório em sociedade com o tio milionário. Essa diferença faz pensar em escolas-de-esquerda e escolas-de-direita. Entre as particulares, estão as de direita. Entre as estaduais, tudo muda dependendo de quem está no poder, fazendo um campo de guerra entre aqueles que eram o poder antes e os que são o poder agora. O nome Woke vem daí, de uma forma pejorativa atribuído para os defensores de minorias por aqueles que estão ganhando o poder agora.

    Existe um poder dos mais ricos contra o qual seria justo lutar? Se considerarmos que as famílias mais politicamente poderosas do Nordeste brasileiro são aparentadas com os donos das Capitanias Hereditárias do séc. 16, que financiavam a Coroa Portuguesa, esse poder está posto aqui, no Brasil. Mas ele é disputado, claro, com sobrenomes que "ascenderam" ao longo da história. Trata-se, essencialmente, de uma política controlada pelos mais ricos e que satisfaz os seus interesses. Leis trabalhistas, educação e saúde pública foram implementações DO ESTADO na medida em que se apostou em aumentar o consumo e a eficiência da mão de obra local. E sim, isso sempre funcionou a longo prazo; a curto prazo é dinheiro que poderia ser investido em benefícios agrícolas. E por isso, nem faz sentido falar em Wokes aqui: temos, na verdade, um poder político dividido entre os ricos industriais e os ricos rurais, com flutuações de acordo com o mercado mundial. Na época de expandir a agricultura, investiu-se em estradas. Na época de implementar indústrias, investiu-se em educação básica e vacinação geral. 

    Mas sim, os Wokes estão fazendo seu barulho em prol de políticas para inclusão, equidade, etc. E serão atendidos na medida em que os ricos industriais enxergarem neles um mercado consumidor. Atuações como o Black Money, Pink Money, etc têm talvez mais poderio sobre as decisões políticas dos industriais do que os sindicatos. Talvez estejamos apenas na época do Woke Money sem ter percebido isso, e daí valorizar essa cultura de apoio às minorias ou declarar guerra aberta a tudo o que eles defendem (vide Bolsonaro, Milei, Trump, Orban, etc) vai do novo fortalecimento de um "poder agrícola". Como representantes de um poder econômico derivado da exploração pura e simples de mão de obra para obter os produtos que exportam do país, os empresários/políticos dessa ala têm muitos motivos para defender trabalho escravo, fim de leis trabalhistas e privatização de todos os serviços (povo = lucro a obter). Isso ganha força com recentes movimentos Neofacistas, de supremacia e extermínio das minorias, de forma bem chamativa ocorrendo em países com tradição agropecuária, numa época em que o Leste Asiático desponta como pólo industrial.

    Somos apenas fornecedores de matéria-prima e mão-de-obra sacrificada para esse Novo Mundo. As lutas que  travamos aqui interessam bem pouco nesse cenário: pretos, pobres, indígenas, florestas, rios e jazidas são todos BENS NECESSITANDO DE COMPRADOR. Itens de extrativismo à venda. E os donos dos governos estão fazendo seus negócios. A "cultura Woke", pretendendo mostrar extermínios e maus tratos, não é somente indesejada nesse novo sistema. Ela é desprezível, porque FAZ O PRODUTO À VENDA PARECER FEIO. Quem quer consumir produtos associados à escravização de pessoas, ou à destruição de florestas milenares? Há de se empregar toda mídia comprável em desqualificar esse tipo de visão, de discussão, de abordagem da sociedade. Wokes devem ser calados. Wokes devem ser eliminados. A la Velho Oeste, vivos-ou-mortos.

OS INCOMODADOS

    Um ponto bastante curioso é: a quem a cultura Woke incomoda? Quero dizer, a quem desagrada dar visibilidade aos problemas dos LGBTs, negros, feministas, deficientes, etc? Já vimos que eles são um setor consumidor, e produzir para esse público pode ser um mercado rentável. No entanto, há críticas numerosas contra as abordagens voltadas a eles. Teria desaparecido a cultura não-Woke? Isso é, teria acabado a possibilidade de produzir livros, novelas, séries, quadrinhos, pinturas, matérias de jornais e revistas sem uma abordagem Woke? Se falamos de uma minoria Woke, isso nem faz sentido. Não poderiam conduzir o mercado. Se falamos em uma maioria Woke, há um público consumidor. Falar contra ele é basicamente reclamar de ser uma minoria não atendida pela cultura. O que colocaria os não-Woke como parte dos Woke (rindo sim). Mas os reclamantes existem, declaram-se vítimas de um sistema governamental que não lhes dá voz, um inimigo econômico-cultural coletivo que os priva de visibilidade. Nada mais Woke!

    A visibilidade que se pretende aqui é das pessoas anti-LGBT, anti-negros, anti-mulheres, anti-indígenas, etc. Chamamos estes de grupo de Reacionários, porque sempre se manifestam em oposição a alguém. Estamos falando de pessoas cuja atuação social se direciona a retirar direitos de outras pessoas. Por exemplo, retirar um banheiro destinado a pessoas Trans. Retirar uma cota em concurso público destinada a Indígenas. E vai.. Em suma, manter todas as desigualdades que até mesmo o Sistema Legislativo reconheceu e está trabalhando para consertar. Não sem mérito, trata-se de pessoas autodenomidadas conservadores. A quem interessa manter as desigualdades? Às minorias oprimidas não é.

    Às maiorias oprimidas, fica a questão de se entender como explorado ou embarcar na ONDA COACH de se comportar como explorador para "enganar o universo" e Ele te transformar magicamente em rico empresário. Na época da Escravidão, funcionava com os Capatazes ou Feitores (nenhum deles jamais deixou a condição de escravo), recrutados para oprimir seus iguais e, assim, ser superior.

CADÊ O JESUS?

    Até aqui, talvez o leitor já esteja se perguntando onde foi parar o Cristianismo. Lá no seu tempo de 2000 anos atrás, mais ou menos, Jesus se propunha justamente a "acordar" as pessoas. Não a respeito da dominação Romana (há quem fale que Roma promoveu o Cristianismo de um culto agrícola para a metrópole do mundo antigo), mas falando exatamente contra a religião ritual, institucionalizada, ditada por alguém poderoso. E que dava pouco ou nenhum valor à solidariedade / horizontalidade entre os fiéis. Na condição de um suposto profeta, Jesus era sim um Woke do seu tempo: alguém preocupado com questões como pobreza, fome, doenças, santificação por política (como os Saduceus e Fariseus que compunham a elite Judaica) e a crença de que as pessoas não podem se ajudar. Jesus virava a mesa - literalmente - para dizer que elas tinham o dever de se ajudar. Podemos inclusive voltar à pergunta lá de cima: a quem Jesus e seus seguidores Wokes incomodavam?

    Não eram os Romanos, ainda. Os Cristãos só viraram alvo de Roma após o grande incêndio de 64 d.C. e as revoltas contra o Império nessa mesma época - Jesus é de 40 anos antes. Quem apresentou queixas contra Jesus? Quem mandou Saulo / Paulo de Tarso em perseguição aos Cristãos 20 anos antes? Foram os líderes religiosos da Judéia, em geral com as costas quentes por meio de Roma. Eles eram militaristas, os protetores da moralidade, da ordem, dos bons costumes, da dependência das pessoas quanto às regras ditadas pelo Templo. Isso incluía recrutarem populares para fazer negócios na entrada do espaço sagrado (para a economia não quebrar) ou apedrejar outro popular até a morte. Dá para perceber uma semelhança com os Reacionários, ofendidos mortalmente pela valorização de minorias subjugadas pela Sociedade.

ABSURDUM EST

    Seria completamente absurdo pensar que um carpinteiro pobre de Nazaré, batizado por um revolucionário vestido em peles da beira do Jordão, merecesse mais atenção do que um douto. Um Saduceu versadom pormenores da lei, educado por anos juntoa mestres famosos, frequentador da elite local Romana, descendente das famílias que guardaram o Templo durante a invasão Grega em 300 a.C. A quem cabe a MISERICÓRDIA? Como ficaria a meritocracia?

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Prefira "ser Woke" a ter que ler isso:

Junkroski, M. "Woke like Jesus", postagem em Medium.com,  02/jan/2023.
Loungecba.blogspot.com, "Século 1 - 1ª parte", 28/mai/2016.
Loungecba.blogspot.com, "Os dois lados de uma Cleópatra", 29/jun/2018.
Vacari Neto, N. et al. "Desvendando o Pink money para empreendedores". International Journal of Scientific Management and Tourism, v. 10, n. 6, p. e1211-e1211, 2024.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Em que dia Jesus nasceu

Peguei uma imagem do Carlos Ruas. Impossível descrever melhor o drama. Na esquerda Deus/Javé, no meio Zeus/Júpiter, na direita Odin/Anthony Hopkins.

Falar sobre o nascimento de Jesus é algo complicado em muitos aspectos. Cronologicamente, temos 3 fontes sobre Jesus: Paulo (que não conviveu com Ele nem Seu grupo, mas foi o 1º a escrever, por volta de 50 d.C.), Pedro (oral) -> Marcos -> Mateus -> Lucas (produzidos nessa ordem, que criam uma narrativa baseada, cada um, na narrativa anterior e mais algo próprio, feitas entre 70 e 100 d.C.) e João (que traça uma nativa própria, isolada das demais (aprox. 150 d.C.). Dentre esses Evangelistas, apenas Mateus e Lucas se preocuparam com o "Natal". Nos demais, Jesus chega ao texto bíblico já adulto.

UM POUCO DA HISTÓRIA DO NATAL 

As duas narrativas que temos sobre o Natal são semelhantes, mas não iguais. Em Mateus, trata-se de cumprir uma profecia de Miquéias sobre a cidade de Belém/Efrata (Miquéias 5.2). Um anjo aparece no sonho de José dizendo que Maria conceberia do Espírito Santo e seu filho deveria ser chamado Jesus e ser conhecido como Emanuel, além de Nazareno. "Uns magos vindos do Oriente" chegam em Jerusalém guiados por uma estrela, e depois rumam para Belém (ao sul), onde encontram o local do nascimento. Os presentes que trazem são ouro, incenso e mirra (esses eram produtos típicos da antiga rota-da-seda, que unia caravanas no curso litoral da China - Índia - Iêmen - Arábia - Palestina e Egito - Turquia - Grécia; quantos eram os magos, não saberemos jamais.

Em Lucas, o anjo Gabriel aparece ao sacerdote Zacarias para anunciar o nascimento milagroso de seu filho João (o Batista), depois aparece a Maria para anunciar que ela geraria o Filho do Altíssimo. José e Maria seguem de Nazaré para Belém, a fim de participar do Censo de Augusto, imperador Romano. Assim que Jesus nasce, fora da cidade, onde não havia hospedagem, uma multidão de anjos surge aos pastores no campo, convidando-os para ver O Salvador. Não há estrela, nem magos, nem presentes.

Em 1223, na cidade de Greccio/Itália, o monge Francesco (futuramente São Francisco de Assis) resolve encenar o nascimento de Cristo em praça pública, fazendo uma manjedoura de altar, com um boi e um burro amarrados a uma casinha de madeira e pedras, coberta e forrada com palha. Não havia nenhuma imagem de pessoas. A cena externa e sua pregação sobre um Jesus pobre e desamparado surpreenderam a ponto de ser comentada por muitos escritores e copiada até os dias de hoje.

A DATA NATALINA

O historiador judeu Sextus Julius Africanus (160-240 d.C.) datou a concepção de Jesus (como embrião) em 25/3 (início da Primavera e data em que ele afirmava que o mundo foi criado). Após nove meses no ventre de sua mãe, Jesus nasceria em 25/12. A festa nesse dia foi padronizada em 336 d.C., durante o reinado de Constantino I, quem legalizou o Cristianismo em Roma. Constantino colocou o novo feriado Cristão sobre vários feriados Romanos que coincidiam: (1º) a comemoração do solstício de inverno (no hemisfério norte, 21/12 marca a noite mais longa do ano, quando neva; no hemisfério sul, é o dia mais longo); (2º) era também o aniversário da divindade indo-européia Mitra, associada com a movimentação de todo o Zodíaco (o que hoje chamamos de movimento de precessão da Terra), luz e da lealdade militar; (3º) o Solstício marcava o dia do Solis Invictus, basicamente um culto ao Sol, do qual Constantino I era devoto; (4º) ao feriado se seguia a Saturnalia, festa em honra ao deus Saturno, durante a qual as pessoas festejavam com fantasias, bebiam muito e trocavam presentes).

Noutras palavras, a data do Natal não tem bases em Jesus propriamente dito, mas apenas se apoveitou de feriados Romano que foram resignificados. Para azar geral, os Evangelhos de Mateus e Lucas não especificam datas. Mas podemos dar um palpite de que 25/12 é o dia errado: considerando o clima da região de Israel, entre novembro e janeiro ocorre uma época bem fria e chuvosa, na qual ninguém (especialmente um casal com uma mulher grávida) seguiria de Nazaré para Belém através dos campos, muito menos receberia visitas de magos viajantes ou de pastores, porque nenhum animal de criação sequer estaria nos campos.

ESTIMANDO O NASCIMENTO DE CRISTO 

Os dois relatos bíblicos que temos, se pensarmos que eles de fato contém algo verídico sobre o Natal, por outro lado podem sugerir um momento para o nascimento de Jesus. Mateus cita o evento astronômico da estrela que guiou os magos do Oriente para o Ocidente. Lucas cita o Censo de Augusto, registrado sem ano preciso entre as muitas burocracias Romanas. Ora, o Censo (que não foi um processo rápido, mas um deslocamento de muitas pessoas em muitas regiões a fim de contabilizar uma possível força militar) foi decretado por volta de 8 a.C. e, contabilizando as votações do Senado e sua execução em províncias distantes, deve ter ocorrido em Israel entre 6 e 4 a.C., para encontrar em reinado todas os monarcas citados.

A pista seguinte é dada pela estrela. Alguns corpos celestes costumam ser bem significativos quanto ao seu brilho. Um deles é Vênus, nosso planeta mais próximo e "estrela" mais brilhante. Vênus é mais próximo do Sol do que a Terra, de forma que, ao anoitecer, ele sempre se mantém no Oeste. Seria uma bússola confiável nos desertos, porém não muito duradoura: Vênus geralmente é visto só até as 20h00. De manhã, Vênus reaparece no lado leste. Outra possibilidade é Júpiter. Trata-se de um astro muito brilhante que, entre 6 e 4 a.C., estava alinhado com a Terra e o Sol, ou seja, aparecendo fortemente durante as noites. Júpiter também se desloca para o Oeste durante a noite, podendo servir de bússola para alguém que fosse nessa direção. Observadores do céu (como eram as nações Persas de então) poderiam ter usado Vênus ou Júpiter como guia para chegar até Belém, mas talvez fosse pouco provável se referirirem a astros "costureiros" como indicativo de algo único em significado.

Um dos fundadores da astronomia moderna, Johannes Kepler (1571-1630), sugeriu que a Estrela de Belém pudesse ser algo como uma "nova", que é o nome dado a uma estrela explodindo. Nessa situação, pela qual só passam estrelas imensas, uma única delas pode produzir mais luz que toda a galáxia. São eventos raros e muito visíveis: o último foi registrado em 1997. Era uma boa teoria, mas carece de evidências práticas: quando uma estrela explode, ela destrói tudo a seu redor, incluindo outras estrelas, e deixa um imenso anel de poeira, que se expande com o passar dos anos, muitas vezes com um pulsar (o centro da estrela, que permanece emitindo pulsos de rádio). Não há nenhum resquício de nova que pudesse ter ocorrido por volta de 5 a.C. Além disso, os astrônomos Chineses da dinastia Han (206 a.C. - 220 d.C.) eram muito cuidadosos em suas anotações e não deixariam de registrar um novo astro de tal magnitude.

Isso deixa poucas opções para a tal estrela. Excluindo planetas e uma nova, a opção mais plausível (também pela dificuldade de provas em contrário) é o surgimento de um cometa. São astros às vezes bem notórios, brilhantes e grandes, com uma cauda que sempre aponta na direção do Oeste após o pôr do Sol. Alguns cometas são cíclicos, como o Halley, que se aproxima da Terra a cada 76 anos; outros são errantes e passam uma única vez pelo sistema solar.

COMETA DE BELÉM 

Citação de cometas no livro CHINESE MATHEMATICAL ASTROLOGY, de Ho Peng Yoke, 2003, com observações astronômicas antigas. "Po" é um cometa pequeno, pouco visível. "Sui" é um cometa grande.

Os astrônomos Chineses registraram um cometa pequeno em 12 a.C. (que confere com nosso conhecido Halley), um cometa gigantesco em 5 a.C. e outro pequeno em 4 a.C., ano em que Herodes I, rei da Galiléia, morreu. Este último pode ser descartado segundo Mateus, pois Jesus estaria então no Egito. O primeiro também pode ser descartado, pois Jesus não era ainda nascido. Justamente o cometa de 5 a C. corresponde às espectativas, sendo um astro novo e que chamou muito a atenção quando foi visto.

A datação Chinesa é precisa quanto aos dias: o grande cometa foi visto entre 9/março e 4/maio de 5 a.C., coincidente com a época da Páscoa, quando os pastores dormem nos campos mais quentes para proteger os rebanhos de ovelhas contra o ataque de lobos e chacais. O nascimento de Jesus na primavera é consistente com o relato de Lucas sobre uma visita de pastores em Belém, embora Lucas não mencione estrela alguma. Devido ao deslocamento quilométrico entre as terras persas e Jerusalém, isso colocaria o nascimento de Jesus em algum ponto no final de abril.

O cometa de 5 a.C., além de imenso, segundo a descrição Chinesa, também apareceu quando 3 planetas davam seu show no céu noturno: Marte, Júpiter e Saturno. Para astrólogos persas, isso certamente indicaria um evento grandioso no Oeste. Curiosamente, Johannes Kepler analisou os movimentos dos planetas e calculou seu alinhamento a cada 805 anos: segundo ele, em 1604, ano da Reforma Protestante; em 799 quando Carlos Magno foi coroado rei de toda Europa; em 7-6 a.C. quando Jesus nasceu; em 812 a.C. quando Isaías fez suas previsões; e em 1617 a.C. na época de Moisés. Ele não errou muito nas datas.

DEPOIS DO NASCIMENTO

Segundo Mateus, Herodes I inquiriu os magos sobre onde e quando deveria nascer o Messias. Logo após o nascimento de Jesus, um anjo apareceu nos sonhos de José e o alertou para fugir ao Egito, onde ficou até a morte de Herodes (4 a.C.). Nesse meio tempo, o rei mandou exterminar todos os meninos com menos de 2 anos. Já Lucas contra uma história diferente: não ocorre extermínio de crianças e aos 8 dias de vida Jesus chega ao Templo de Jerusalém para ser circuncidado. Ele volta com os pais todos os anos para a festa de Páscoa (o que parece ter feito diligentemente até seus últimos dias), até o episódio em que fica no Templo aos 12 anos, "ouvindo e questionando os doutores da fé". Já em Lucas 3.23 Jesus reaparece junto de João Batista, com 30 anos.

São detalhes bem díspares nos dois Evangelhos, sendo que os demais sequer mencionam uma infância de Jesus. Dada a importância que ambos dedicam para a linhagem de Jesus e o tempo em que compuseram seu trabalho (entre 70 e 100 d.C.), podem ser detalhes inventados ou coletados de forma a simplesmente preencher uma lacuna. Ambos os textos cumprem a função de atribuir ares heróicos ou proféticos para o o jovem Jesus, que caberiam a alguém revelando sua importância após os 30 anos. Mateus inclusive reproduz o extermínio de crianças da época de Moisés, enquanto Lucas associa Jesus com profetas em atividade no Templo, como Simeão e Ana bar Fanuel.

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Manuscritos de escritores vivos

Britannica - History and Society. Why Is Christmas in December?

HUMPHREYS, Colin J. The Star of Bethlehem, A Comet in 5 BC and the Date of Christ’s Birth. Tyndale Bulletin, v. 43, n. 1, p. 31-56, 1992.




RAYMO C. Do you see what I see? Sciencemusings.com, 24/02/2019


quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Guarda noturno

Trago aqui uma obra de Mário de Andrade, finalizada em 1914, chamada "Conto de Natal". Vi ela como mais um daqueles cordéis enriquecidos por Ariano Suassuna, que fazem as pessoas verem, naqueles que lhes cercam, justamente as figuras que mais temem.


Clube Automobilístico, São Paulo, início do séc. 20

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Seriam porventura dez horas da noite...

Desde muitos dias os jornais vinham polindo a curiosidade pública, estufados de notícias e reclamos de festa. O Clube Automobilístico dava o seu primeiro grande baile. Tinham vindo de Londres as marcas de carros e corria que as prendas seriam de sublimado gosto e valor. Os restaurantes anunciavam orgíacos réveillons de natal. Os grêmios agitavam-se.

Seriam porventura dez horas da noite quando esse homem entrou na praça Antônio Prado. Trazia uma pequena mala de viagem. Chegara sem dúvida de longe e denunciava cansaço e tédio. Sírio ou judeu? Magro, meão na altura, dum moreno doentio abria admirativamente os olhos molhados de tristeza e calmos como um bálsamo. Barba dura sem trato. Os lábios emoldurados no crespo dos cabelos moviam-se como se rezassem. O ombro direito mais baixo que o outro parecia suportar forte peso e quem lhe visse as costas das mãos notara duas cicatrizes como feitas por balas. Fraque escuro, bastante velho. Chapéu gasto dum negro oscilante.

Desanimava. Já se retirara de muitos hotéis sempre batido pela mesma negativa: "Que se há de fazer! Não há mais quarto!"

Alcançada a praça, o judeu estacou. Pôs no chão a maleta e, recostado a um poste, mirou o vaivém. O povo comprimia-se. Passeavam, maltrapilhos, grupos conversando alto. Os ricos passavam esmerados nos seus trajes. No ambiente iluminado dos automóveis, esplendiam os peitilhos, as carnes desnudadas e os cachos as mulheres-da-vida que roçavam pela multidão, bamboleando-se, olhos pintados, lábios  carmim. Boiando no espaço, trilhas de odores sensuais.

O homem olhava e olhava. Parecia admiradíssimo. Por várias vezes fez o gesto de tirar o chapéu mas a timidez dolorosa gelava-lhe o movimento. Continuava a olhar.

"Vais ao baile do Clube?" "Não arranjei convite. Você vai?" "Onde irás hoje?" "Como não! Toda São Paulo estará lá." "Ao réveillon do Hotel Sportsman" "Vamos ao Trianon!" "Por que não vens comigo à casa do Marquês? Há lá um Souper-rose." "Impossível." "Por quê?" "Não Posso. Vou ter com a Amélia." "Ah..."

Tirando respeitoso o chapéu, o oriental dirigiu-se por fim ao homem que dissera “ir ter com a Amélia” e perguntou-lhe com uma voz tão suave como os olhos. Caiam-lhe os cabelos pelas orelhas, pelo colarinho:

— O senhor vai sem dúvida para o seu lar...

Decerto um louco. Não, bêbedo apenas. O outro deu de ombros. Descartou-se:

— Não.

— Mas... e o senhor poderia informar-me... não é hoje noite de Natal?...

— Parece. (E sorria.) Estamos a 24 de dezembro.

— Mas...

O homem da Amélia tocara no chapéu e partira. Desolação, no sacudir lento da cabeça. Agarrando a maleta, o judeu recomeçou a andar. Tomou pela rua de São Bento, venceu o último gomo da rua Direita, atingiu o Viaduto. A vista era maravilhosa. À direita, empinando sobre o parque fundo, o Clube Automobilístico arreado de lâmpadas de cor. A mole do edifício entrajada pelo multicolorido da eletricidade parecia um enorme foco de luz branca. Do outro lado do viaduto, na esplanada debruava a noite o perfil dum teatro.

O judeu perdia-se na visão do espetáculo. Aproximava-se do largo espaço da esplanada onde no asfalto silencioso escorregava outro cortejo de autos. Cada carro guardava outra mulher risonha a suportar toda a riqueza no pescoço. Feixes de operários estacados aqui e além. O rutilar daqueles monumentos, o anormal da comemoração batendo na pele angulosa dos casacos fazia explodir uma faísca de admiração e cobiça. Toda a população dos bairros miseráveis despejara-se no centro. Vieram divertir-se. Sim: divertir-se vendo os ricos e suas festas.

O sírio entrou por uma rua escura que entestava com o teatro. Incomodava-o a maleta. Num momento, unindo-se a uma casa em construção, deixou cair o trambolho entre dois suportes de andaime. Partiu ligeiro, atirando as pernas para frente, como pessoa a quem chamam atrás e não quer ouvir. E na subida vagarosa, lido numa placa de esquina: Rua da Consolação. Aqui o alarido já se espraiava discreto na surdo-mudez das casas adormecidas.

Subiu pela rua. De repente, parou diante da porta. Bateu e esperou. Acolheu-o uma criada de voz áspera:

— Por que não tocou a campainha? Não tem olhos? Que quer?

— Desculpe. Queria falar com o dono da casa...

— Não tem ninguém. Foram na festa.

Partiu de novo. Mais adiante animou-se a bater outra vez. Nem criada. E na aspiração de encontrar uma família em casa, batia agora de porta em porta. Desesperação febril. Persistência de poeta. Uma vez, a família estava. Que divino prazer lhe paga o esforço! Mas o chefe não podia aparecer. Lamentações lá dentro. Alguém estava morrendo. Deus o leve!

Mais ou menos uma hora, depois de ter subido toda a rua, o judeu desembocou na avenida. A faixa tremente da luz talhava-a pelo meio mas dos lados as árvores escureciam o pavimento livre das calçadas. Entre jardins onde a vegetação prolongava sombra e frescor, as vivendas enramadas de trepadeiras, como bacantes, dormindo. Sono mortuário. Apenas ao longe gritava um edifício qualquer num acervo de luzes. O judeu parou. O pó caiara-lhe as botinas e a beirada das calças. O cansaço rasgara-lhe uma ruga funda sob os olhos. Os lábios sempre murmurantes pendiam-lhe da boca secos e abertos. O rosto polira-se de suor. Limpando-se descuidado, recomeçou a andar muito rápido para o lado das luzes.

Atravessados quase em carreiras vários quarteirões, chegou ao trecho iluminado. Era uma praça artificial construída ao lado da avenida. Alguns degraus davam acesso à praia dos ladrilhos, onde passeavam pares muito unidos. Sob carramanchões de cimento armado agrupavam-se homens de olhares já turvos, bocas fartas ao redor da cerveja. Entre o zum-zum da multidão brincavam nas brisas, moderadas pela distância, melodias moles de danças. Por toda a parte a mesma alegria torpe.

Daquele miradouro via-se a cidade estirada sobre colinas e vales. Os prédios parecidos confundiam-se na claridade ambiente e nos longes, recortando um grande halo que mascarava de santa a Pauliceia.

Mas o judeu mal reparou nos enfeites com que o homem recamara aquela página da terra. Olhava apenas a multidão, perscrutava todos os olhares. Procuraria alguém?... Quase que corria no meio dos passeantes ora afastando-se ao contato de uns, ora atirando-se para outros como se reconhecendo alguém. Desiludia-se entretanto e procurava mais, procurava debatendo-se na turbamulta. Enfim, desanimado, partiu de novo. Ao descer os degraus do miradouro, notou duas escadinhas para o subsolo. Espiou. Outro restaurante! Fugiu para a rua.

A fila imóvel dos autos. Corrilhos de motoristas e frases obscenas. Passou. Ia afundar-se de novo no deserto da avenida. Mudou de resolução. Retornou de novo para a luz. Era um espelho de suor. Caíra-lhe o chapéu para o lado e uma longa mecha de cabelos oscilava-lhe na fronte como um pêndulo. Os motoristas repararam nele. Riram-se. Houve mesmo um prelúdio de vaia. Nada ouviu. Entrou de novo no miradouro. Desceu os degraus. Um negrinho todo de vermelho quis recusar-lhe a entrada. O oriental imobilizou-o com o olhar. Entrou. Percorreu os compartimentos. O mesmo desperdício de luz e mais as flores, os tapetes... Bem-estar! Numa antítese à brancura reta das paredes, o sensualismo de couros almofadados. E o salão nobre. A orgia escancarada.

Todo o recinto era branco. Dispostas a poucos metros das paredes as colunas apoiavam o teto baixo no qual os candelabros plagiavam a luz solar. Espelhos no entremeio das portas fenestradas eram como olhos pasmos e imóveis. As flores feminilizavam colunas e alampadários, poluíam seu odor misturando-o à emanação das carnes suarentas e nessa decoração de fantasia apinhavam-se comendo e bebendo, sorrindo e cantando, uma comparsaria heterogênea.

Bem na frente do judeu, sentados em torno duma mesa estavam dois homens e uma mulher. Falavam língua estranha cheia de acentos guturais. Seriam ingleses... Os homens louros e vermelhos denunciavam a proporção considerável da altura pelo esguio dos torsos e dos membros mas a perfeição das casacas dava-lhes à figura um quê de aristocracia.

A mulher era profundamente bela. Trajava preto. Gaze. A fazenda envolvia-lhe a plasticidade das ancas e das pernas, dando a impressão de que o busto saísse do escuro. O vestido como que terminava na cintura. Um tufo de tules brancos subia sem propriamente encobrir até parte dos seios, prendendo-se ao ombro esquerdo por um rubi. Sobre a perfeição daquele corpo a cabeça era outra perfeição. Na brancura multicor da pele queimava uma boca louca rindo alto. As narículas quase vítreas palpitavam voluptuárias como asas de pombas. Os olhos eram da maior fascinação no arqueado das sobrancelhas, na ondulação das pálpebras, no verde das pupilas más. E colmava o esplendor uma cabeleira de pesadas ondas castanhas. Já tonta, meneando o corpo, estendendo os braços com joias sobre a toalha, oferecia-se à contemplação abusiva da luz. Era nela que os dois ingleses apascentavam os olhares.

Em torno de todas as mesas, como refrão do prazer rico repetia-se a mesma tela: homens rudes acossados pelo desejo, mulheres incastas, perfeitas e maravilhosas.

Do outro lado do salão a orquestra vibrou. Ritmo de dança, lento. Balançaram dois ou três pares num círculo subitamente vazio. Um dos ingleses e a mulher de preto puseram-se a dançar. Inteiramente abraçada pelo homem ela jungia-se a ele, agarrava-se-lhe de tal jeito que formavam um corpo só. Ondulavam na cadência da música: ora partiam céleres como numa fuga, parando longamente depois como num espasmo. Ora se afastavam um do outro num requebro, ora mais se uniam e o braço esquerdo dela rastejava no dorso negro da casaca dele. Dançavam com os sentidos e a mulher na ascensão do calor e da volúpia, mostrava na juntura esquerda dos lábios um começo de língua.

O judeu continuava a olhar. Seguia os pares no baloiço do tango, esforçando-se por disfarçar com a imobilidade a excitação interior. Mas seus olhos chispavam. Mas juntas nas costas tremiam-lhe as mãos mordidas pelos dedos.

Enfim vibrados os últimos acordes, os dançarinos pararam. A inglesa seguida pelo parceiro, arrebentando os olhares que lhe impediam a passagem, viera sentar-se. Incrível! O judeu bufando enterrara o chapéu na cabeça, abrira o fraque com tal veemência que os botões saltaram e tirando dum bolso interno uma correia de couro, fustigara a espádua da mulher. Tal fora a energia da relhada que o sangue imediatamente brotava no vergão enquanto a infeliz uivava ajoelhando. O golpe arrebentara a gaze junto ao ombro.

Mas o judeu malhava indiferente todas as formosuras.

Um primeiro imenso espanto paralisou a reação daqueles bêbedos. O fustigador derribando cadeiras e mesas atravessava os renques de pusilânimes, cortava caras e braços nus. Tumulto. Balbúrdia dissonante. O mulherio berrava. Os homens, temendo serem atingidos pela correia do louco, fugiam dele na impiedosa comicidade das casacas. Arremessavam-lhe de longe copos e garrafas. Mas ele percorria em alargados passos o salão, castigando todos com furor. Onde a correia assentava, negrejava um sulco, chispava um uivo.

Nos primeiros segundos... Depois, em número, os homens já se expunham mais aos golpes na esperança de bater e derrubar. O círculo apertava-se. O oriental teve de defender-se. Vendo junto à parede um amontoado de mesas saltou sobre ele. Abandonara o chicote, empunhara uma cadeira, esbordoava com ela os que procuravam aproximar-se. Impossível atingi-lo. Seus braços moviam-se agílimos tonteando cabeças, derreando mãos.

As mulheres agrupadas à distância reagiam também. As taças pratos copos atirados por elas sem nenhuma direção, acertavam nos alampadários cujos focos arrebentavam. As luzes apagadas esmoreciam a nitidez do salão e as sombras enlutavam o espaço, diluindo todos numa semiobscuridade pavorosa.

Mais gente que acorria. Os passeantes do miradouro atulhando as portadas saboreavam em meio susto a luta. Os motoristas procuravam roubar bebidas. A polícia telefonava pedindo reforços.

Mas o oriental já começava a arquejar. Seus lábios grunhiam. Uma garrafa acertara-lhe na fronte. O chapéu, saltando da cabeça, descobriu na empastada desordem das madeixas a rachadura sangrando. O sangue carminava-lhe o rosto, cegara-lhe o olho esquerdo, entrava-lhe na boca e escorrendo pelo hissope da barba. Afinal alguém consegue agarrar-lhe a perna. Puxa-o com força. Ele tomba batendo-se. Todos tombam sobre ele. Ninguém lhe perdoa a desforra. Os que estão atrás levantam os punhos inofensivos para o alto esperando a vez. Desapareceu num molho de homens.

Chega a polícia. A autoridade só com muita luta e usando força, livra o mísero. No charco de champanhe, sangue e vidros estilhaçados, ele jaz expirante. Pernas unidas, braços estendidos para os lados, olhos fixos no alto, como querendo perfurar as traves do teto e espraiar-se na claridade fosca da antemanhã. Levaram-no entre insultos.

Todo jornal comentava o caso no dia seguinte. O público lia o inédito do escândalo, as invenções idiotas, as mentiras sensacionais dos noticiaristas. Nas múltiplas edições dos diários, relegado às derradeiras páginas, repetia-se o estribilho perdido que ninguém leu. Um guarda-noturno achara rente a uma casa em construção, uma pequena mala de viagem. Aberta na mais próxima delegacia, encontraram nela entre roupas usadas e de preço pobre, uma tabuinha com dizeres apagados, quatro grandes cravos carcomidos pela ferrugem e uma coroa feita com um trançado de ramos em que havia nódoas de sangue velho e restavam alguns espinhos.

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ALGO PARA DIZER A RESPEITO..

1. Essa não é uma obra tão famosa de Mário de Andrade, tocando em alguns pontos de tabus sociais assim como Macunaíma, por exemplo. Um dos grandes da Academia Brasileira de Letras, ele era um homem profundamente nacionalista e Católico. As concepções de moral e santidade do Catolicismo na virada dos sécs. 19/20 certamente influenciaram essa e muitas obras dele.

2. No texto, existem algumas referências aos Evangelhos. Algumas óbvias, como os cravos nas malas e o aspecto "sírio" ou "judeu" do homem; outras mais sutis como ele se importar com o Natal (supostamente Seu aniversário), a barba e o cabelo longos, não-feitos como de alguém humilde (aspecto pobremente descrito de Jesus), o rompante de açoitar as pessoas em uma espécie de restaurante ou casa de baile. Finalmente, a posição de braços estendidos, após ser "apedrejado" e espancado pela multidão.

3. Nos Evangelhos, Jesus açoitou os vendedores de oferendas dentro do Templo. Aparentemente, o motivo era terem transformado a Casa de Deus em um mercado. No texto, Jesus açoita as moças "pouco vestidas" que flertavam com os homens numa casa de bailes. A descrição das moças é bem detalhada e envolvente. Aparentemente, o novo mercado dentro da casa de Deus era a sensualidade em pleno Natal. Mas Jesus jamais se expressou contra a sensualidade nos Evangelhos. Nem tampouco contra mulheres. Muito menos uma casa de bailes poderia ser considerada lugar sagrado.

4. Mário de Andrade conhecia os Evangelhos e associava Jesus fortemente a uma imagem de grupo familiar. Outro conto dele, Peru de Natal, traz um pouco desse contexto. Outras formas de comemoração - sem a família - seriam para ele profanas, equiparando-as com a venda de oferendas no templo. Há o "profano de Jesus" e o "profano do Jesus de Mário". Relembrando uma fala genial de Ed René Kiwiz, Deus não cabe no nosso entendimento e portanto não nos cabe tentar explicar Ele, retratar ou prever como Ele agiria.

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Oxalá e Jesus: dois mundos aqui


Emprestei uma arte do Carlos Ruas.

O Brasil é um país religiosamente plural, com crenças se encontrando de uma forma única. Lá pelo séc. 16, os portugueses e espanhóis aportaram aqui trazendo o Catolicismo, que pouco a pouco foi se miscigenando à fé de muitas nações indígenas do litoral. Talvez a herança mais visível desse contato sejam as benzedeiras ou rezadeiras, que ainda são vistas nas áreas menos urbanas do país. Desde muito, um comércio bem brasileiro que até sempre produziu ganhos, especialmente nas classes mais pobres da sociedade, foi a produção de bolsas, patuás, etc com uma mistura de óstias, ervas conhecidas dos índígenas e magias africanas. No começo do séc. 17, começaram a chegar negros escravisados, aportando principalmente na Bahia, que trouxeram consigo a fé de diversas nações Yourubá: Guiné, Angola, Costa da Mina e Benin. Com o deslocamento da família real para o Brasil em 1808, o Rio de Janeiro passa a ser o principal porto de escravos. Aqui, numa situação em que essas pessoas foram forçadas a viver juntas, suas crenças se misturaram como não ocorreria na África. Cerca de 3,5 milhões de africanos foram trazidos para cá. Com o fim do tráfico negreiro em 1856, os africanos não chegavam mais e começou a se estabelecer o conceito de Crioulo, ou simplesmente negro brasileiro. Dessa forma, surgiram divindades com vários nomes (assim como Deus, no Antigo Testamento) e estórias que se sobrepõem parcialmente (como as de Jesus, no Novo Testamento). Algumas, até assumiram um caráter Cristão. Esse texto pretende traçar algumas semelhanças e diferenças entre Oxalá, que também é chamado Osalá, Orisalá ou Obatalá (para facilitar, será aqui nomeado apenas Oxalá) e Jesus (também Jeshua, Issa, etc).

O personagem africano possui diversos nomes (parecidos) justamente por integrar os panteões de várias nações da cultura Yorubá, na costa atlântica da África aio redor da foz do rio Níger (formado pela reunião dos rios Obá e Osum), onde hoje estão Benin, Nigéria e Camarões. Embora a cultura Yorubá se expanda por uma grande região na bacia do rio Níger, muito dela tem como centro o encontro do rio, da mata, do mar e os ventos do oceano. Sua cidade sagrada, Ile-Ifé, existe até hoje e tem como simbologia ser o ponto onde as divindades desceram ao plano material e iniciaram a criação do mundo. Existem numerosas versões orais de estórias sobre essas divindades, que só mais recentemente foram colocadas em forma escrita. Apenas aqui no Brasil os diversos Oxalás foram apresentados um ao outro. Por ser uma divindade de grande importância dentro dos Candomblés e na Umbanda, Oxalá ainda foi sincretizado com Jesus, a ponto de ser comum vermos imagens de Jesus nos terreiros, próximo a Exú, Iemanjá, etc. Da mesma forma, não é raro encontrar oferendas para Oxalá depositadas sob imagens de Jesus ou crucifixos em lugares públicos.

Dentro do Cristianismo, Jesus faz parte da Trindade, ou seja, Ele é uma manifestação de Deus. Temos assim o Pai (Javé, Jeová, YHWH, etc), o Filho (Jesus, Sua manifestação em forma humana, unindo Deus aos homens) e o Espírito Santo (Sua manifestação como poder ou inspiração dada às pessoas). O Antigo Testamento nos conta sobre os profetas seguindo instruções do Pai, o Novo Testamento apresenta Jesus como o Filho e o Espírito Santo é prometido às igrejas que Paulo fundou no séc. 1. O Candomblé, por outro lado, não coloca Oxalá como parte do criador Olorum / Olodumaré. Ele é o primeiro orixá, deus menor responsável por criar o mundo material, ou os homens - dependendo da origem da estória. Por algum motivo, depois de fazer nossa espécie, Oxalá passou a habitar entre nós, como velho e depois como jovem. Como nas tramas Gregas, não há uma distinção clara entre as narrativas terrenas e mítico-espirituais.

O sincretismo nunca é sem razão. Tanto Jesus como Oxalá possuem um lado divino e um lado terreno. No lado divino, Jesus declara (apenas no evangelho de João) que já existia antes de Abraão (João 8.58) e alguns religiosos mais extrapolantes vêem a figura do Anjo do Senhor que aparece no Antigo Testamento como uma representação de Jesus (todavia, devemos concordar, com uma personalidade bem distinta). Os Evangelhos contam 4 estórias parecidas sobre a vida terrena de Jesus. Depois de crucificado e enterrado, Jesus então volta a aparecer, anunciando que estaria sempre com seus discípulos e lhes daria poderes especiais para falarem sobre o Reino de Deus. Oxalá não passa por esse ciclo de encarnação, vida, morte e renascimento. Nas diversas narrativas, não necessariamente costuradas entre si, ele aparece hora convivendo entre os orixás num mundo espiritual, do qual levou uma corrente para descer dos céus e um saco ou concha cheia de areia para fazer o mundo seco de entre as águas; ora Ele aparece como um rei velho e se apoiando num cajado (porém forte o suficiente para carregar sacos de mercadorias), ora aparece como um guerreiro impetuoso fazendo exigências de espada na mão. Assim como Deus Pai trocava de nome nas estórias do Antigo Testamento, Oxalá também troca de nome entre as diversas estórias e reinos por onde anda.

Na cosmogonia Yorubá (em sua forma reunida, aqui no Brasil), Oxalá tem sua própria Trindade, sendo um jovem rei guerreiro (Oxaguiã), Oxalá (ele mesmo, adulto, sem idade definida) e Oxalufã (um rei idoso experiente e esforçado), todos usando roupas brancas, uma de suas marcas. Existem estórias associadas com cada uma dessas formas, como Oxalá deixando de homenagear Exú (que controla a fronteira dos mundos espiritual e material) por orgulho, se embebedando de vinho de palmeira (chama-se Toddy, acredite) numa festa celestial ou tentado por Exú, que lhe provocou muita sede, se envolvendo numa disputa com sua irmã mais nova Oduduwa (a quem foi dado criar o mundo e governar a Terra, noutras versões sendo um homem, inclusive o primeiro rei de Ilê-Ifé*), com quem se casou, em outras estórias, sendo dessa união pai de outros orixás, como Iemanjá (deusa do mar, identificada às vezes como grande mãe ou uma sereia, às vezes esposa de Oxalá). Sobre Oxalufã, diz-se que reinava em Ifon, desafiou o adivinho sagrado e viajou para Oyó visitar seu filho Xangô (deus da justiça, identificando como um senhor da guerra), que reinava lá. No caminho, Exú lhe pediu ajuda e o deixou sujo de sal, dendê e carvão (as preciosidades comerciais de Yorubá) sendo depois injustamente preso como um ladrão de cavalos. Oxaguiã, sua forma mais jovem, diz-se que era rei de Ejibó, partia para as batalhas levando inhame, sua única comida, e sempre retornava exigindo uma fortaleza maior. Ele seria um co-responsável, junto com Ogum (deus ferreiro, como Vulcano), pela invenção das ferramentas agrícolas.

Jesus viveu no começo do séc. 1 d.C., as narrativas sobre Ele foram assimiladas pelo Império Romano por volta do séc. 4 d.C. e difundidas na cultura Européia sob domínio Romano. Ele conta com muitas estórias orais, que foram reunidas por Mateus e Lucas no final do séc. 1 e montadas sobre a narrativa de Marcos. Sem falar na narrativa de João (séc. 2), de pouca semelhança com as outras, que é possivelmente uma coleção de estórias Samaritanas (e Samaria era um lugar por onde Jesus passava). Essas narrativas trazem um nascimento milagroso na cidade real de Belém (Judéia), sendo sua família de Nazaré (Galiléia), além de uma viagem dos pais ao Egito (potência econômica e militar da época), um aconselhamento dos anciãos no Templo (local sagrado) por Jesus criança, a vida posta em pássaros de barro (Evangelho da Infância de Cristo Segundo Tomé), até andar sobre as águas do lago da Galiléia, multiplicar pães, peixes, produzir pesca, ressuscitar várias pessoas e narrativas diversas de Sua ressurreição. Já as narrativas sobre Oxalá têm origem no séc. 7 d.C., quando a islamização do norte da África impôs uma barreira cultural com a Europa. Essas narrativas colocaram antigos reis como deuses criadores, permaneceram em forma oral e diversas até o séc. 17 e depois foram expatriadas para a costa atlântica da América Latina com o tráfico negreiro e a destruição dos impérios africanos pela investida colonialista dos Europeus. Elas contam como Oxalá desceu à Terra, criou os homens do barro, casou-se com Iemanjá e acabou por pedir ao Pai que lhe fossem dados poderes como aos outros orixás, como ficou aprisionado na cidade de Xangô, como tornou-se rei e desprezou seu amigo, como nasceu sem cabeça e depois conseguiu uma, feita de duas metades, uma quente e outra fria, como refez o órgão sexual do irmão com inhame, como criou a morte para que os homens não se achassem grandiosos demais.

Como Oxalá, Jesus era uma divindade andando por um mundo bastante humano, onde seus sofrimentos foram registrados como ensinamentos. Mas, talvez não seja necessário dizer, Oxalá andava por terras Yorubá na costa ocidental da África (temos inclusive os nomes de cidades) e Jesus por terras da Galiléia, Samaria e Judéia (também temos os nomes de cidades). Fora do contexto celestial, Oxalá vivia a criação de ferramentas agrícolas, o cultivo de inhame para subsistência dos pobres e o comércio de produtos com o norte da África, os conflitos de classe social e as disputas entre cidades-fortalezas. Jesus vivia a demonização dos porcos, os conflitos de classe entre seu povo e com os dominadores Romanos, clamando para Si mesmo uma liderança religiosa que era monopolizada pelos Fariseus. Numa condição sanitária melhor do que os antigos Hebreus, Paulo dizia que nenhuma comida era proibida aos filhos de Deus. Se Jesus era um andarilho pobre que apelava ao Pai por ajuda, se Ele manifestava entre as pessoas o poder divino para ser seguido, Oxalá era rei, não usava de poderes, andava e interagia com outros orixás que por ali também reinavam.

Não podemos separar precisamente o Jesus homem terreno das mitologias construídas ao redor de sua imagem divina. Paulo, primeiro a escrever sobre Jesus por volta de 50 d.C., transparecia saber pouco sobre a vida de seu inspirador: coisas como falar a Deus como a um pai, pagar dívidas, praticar amor ao próximo, não ter restrições ritualísticas de alimentos e esperar por um julgamento celestial no final dos tempos. Para Paulo, Jesus era mais celestial que humano. Marcos, que teve contato com o grupo de Pedro, trouxe uma narrativa curta sobre os poucos anos em que Jesus pregou pela Galiléia, realizando exorcismos, curas, multiplicando alimentos, ressuscitando mortos, mas também comendo, participando de festas, se incomodando com as multidões, ensinando, chorando a morte de um amigo, desafiando os religiosos, sendo preso, apanhando e sendo executado. Oxalá também tem esse viés de homem-deus misturados. Ele fala diretamente com Olorum, cria os homens (do barro), disputa pelo governo da Terra e tem a paternidade de outros deuses, mas também é rei de diferentes cidades-fortaleza, fica bêbado, dorme, carrega sacos, suja suas roupas, é aprisionado, gosta de inhame.

A adoração a Jesus tem por fim imitar comportamentos Dele enquanto humano, mas referenciando sua identidade divina; também a adoração a Oxalá ressalta características suas enquanto pessoa (guerreiro ou idoso sábio, mais na África do que no Brasil, e mesmo assim pouco significativa comparado à figura divina), mas há também (e principalmente) a referência a Ele enquanto divino criador dos homens. Nesse sentido, Jesus é referenciado como símbolo de união a Deus (Paulo ressalta muito esse aspecto), sabedoria (sobretudo em Lucas e Mateus), promessa de um futuro bom (Evangélicos), humildade (Franciscanos), aceitação do martírio (entendido frequentemente como paz), aliança aos pobres (Teologia da Libertação), verdade (Islã), etc. Oxalá, por outro lado, é associado à fé, à criação do Céu, ao ar, silêncio, paz e nascimento. As imagens de um e outro talvez se confundam: Oxalá é representado pela cor branca (sinal de pureza), que aprece em suas oferendas: carne branca, canjica branca cozida sem sal, acaçá (massa de milho branco cozida), rosas brancas, vinho branco e caramujos. Jesus também, embora muitas vezes pintado com o manto vermelho que Lhe vestiram no julgamento Romano (por Pôncio Pilatos e depois Herodes Agripa), tem indicação de ter usado roupas camponesas, uma túnica de duas peças até os joelhos, de lá branca ou clara, e sandalhas de couro. Dentro do Cristianismo, o Catolicismo faz oferendas com velas (brancas), o que é também um padrão do culto a Oxalá. Uma imagem de Jesus com vestes brancas sem dúvida lembraria Oxalá, para um fiel do Candomblé ou Umbanda.

O sincretismo é inevitável quando nos distanciamos das narrativas “originais” e passamos a ver a divindade como um símbolo de algo. Heródoto (485 a.C. - 425 a.C.) contava sobre a identificação entre deuses egípcios e gregos, notando que a última presença de um deus entre os homens era extremamente antiga. Tanto no caso de Jesus como Oxalá, aparentemente essa identificação já ocorria talvez menos de 1 século após suas andanças pela Terra. Ambos acabaram sendo associados com pombos brancos, fé, vida e paz. Mesmo assim, são personagens bastante distintos em seus ensinamentos ou personalidades, além de habitarem épocas e locais muito diferentes. Como divindades, talvez sejam distintos também quanto ao que esperam dos homens (Jesus deixou dois mandamentos apenas; Oxalá deixou apenas tabus quanto a alimentos e cores de roupa). Seus arquétipos - ou seja, as características que permitem serem imitados - são mais complexos do que simples conceitos de bem e mal (por exemplo, Jesus gostava de disputar jogos verbais com os religiosos e Oxalá teve problemas mentais**). Isso sempre abrirá margem para que os fiéis, ainda que um pouco e fazendo oferendas distintas, segundo cada sistema religioso, possam se parecer com seus modelos. Ou ambos.

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* Em Ilê-Ifé, a cidade sagrada, Orisá significa "aquele que fala" e também "espírito". Todos os governantes de Ilê-Ifé são chamados Orisá e considerados descendentes diretos de Oduduwa, a divindade que formou a Terra a partir das águas. Em 2015 assumiu o trono Adeyeye Enitan Ogunwusi Ojaja II, 401º Ooni ou Orisá. Se seguirmos a lógica de Heródoto, com 30 anos por geração, 401 x 30 = 1230 anos, indicando a fundação da cidade pouco antes de 800 d.C., no séc. 8, época da transformação de Baghdad em capital do maior califado da época.

** Numa das estórias sobre Oxalá, Ele se casa com Iemanjá e a põe para fazer todos os serviços domésticos. Iemanjá então se revoltou e falou tanto que enlouqueceu Oxalá. Arrependida, ela tratou dele e, em retribuição, Ele pediu a Olorum que concedesse a ela cuidar das cabeças de todos os homens. Noutra estória, Oxaguiã (o jovem Oxalá) nasce sem cabeça e o deus Ori lhe faz uma cabeça com inhame, que era muito quente e dava dores terríveis. Depois, Ele encontrou Icu, a morte, que lhe fez uma cabeça fria, mas com a qual sentia-se perseguido de temores. Ogum, com sua espada, ajuda o jovem juntando metade de cada cabeça, o que produziu paz em Oxaguiã.

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LÁ DO OUTRO LADO DO MAR

As duas torres - loungecba.blogspot.com, 7 set 2020
Abraão em questão - loungecba.blogspot.com, 15 mar 2018
Banco de Dados do Tráfico de Escravos Transatlântico, Emory  Center for Digital Scholarship initiative
CASALI, Rodrigo. Guias e Orixás: narrativas de expressões orais sobre os candomblés do MS. 2016. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo.
Jesus no Islã - loungecba.blogspot.com, 17 mar 2013
KAITEL, Alexandre; SILVEIRA, Luiz Henrique Lemos. Uma Reflexão mítica-arquetípica-religiosa da experiência dicotômica entre Cristo/Demônio e Oxalá/Exu. Religare, v. 17, n. 2, 2020.
O antigo Cristo - loungecba.blogspot.com, 25 jun 2012
O Evangelho de Paulo - loungecba.blogspot.com, 26 abr 2022
PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. Companhia das Letras, 2020.

quinta-feira, 28 de julho de 2022

A violência de Jesus

Expulsão dos mercadores do Templo. Pintura do artista russo Andrei Nikolayevich Mironov, em 2012.


Em frente de seus apoiadores, no Palácio da Alvorada em 15/6/22, ao tradicionalmente incentivar o  armamento da população, o presidente Jair Bolsonaro defendeu que  Jesus "não comprou pistola porque não tinha naquela época". Aparentemente, Jesus B (de Bolsonarista) era alguém favorável a defender o seu patrimônio ou a si mesmo causando a morte de outra pessoa. Se muitos são favoráveis, se os apoiadores de Bolsonaro são e, principalmente, se Bolsonaro é, como ou porque Jesus B não seria?


JESUS ARMADO

Quanto à defesa de Seu patrimônio, nos exóticos ensinamentos de Jesus dados na vila de Cafarnaum, à margem do lago de Genesaré, Mateus e Lucas registraram uma fala sobre Ele não ter onde descansar (Mt 8.20, Lc 9.58). Nenhum dos Evangelhos se refere a posses de Jesus, que apesar disso parecia ter pessoas Lhe cedendo facilmente casa e comida. Se Ele não tinha o que defender, podemos deixar de lado isso como motivo para matar alguém. Quanto a conjecturar se Jesus mataria, tendo o que defender, isso será só suposição.

Jesus mataria alguém para defender a si mesmo? Nos Evangelhos, quando Jesus foi preso Ele argumentou: "Vocês vieram armados para me prender, como se eu fosse um malfeitor. Entretanto, todos os dias eu estava sentado ensinando no templo e não me prenderam" (Mc 14.48-49, Mt 26.55, Lc 22.52-53). Na cena seguinte, Jesus é levado pelos guardas. Sem matar ninguém.

Nessa mesma hora, acontece a famosa cena em que supostamente Pedro (somente João 18.10 o nomeia) corta com espada a orelha de um dos guardas. Apenas em Mateus, Jesus repreende-o com argumento bem pacifista:

Guarda tua espada, porque aqueles que usarem da espada, pela espada morrerão. (Mt 26.52)

Aqui, há uma variedade de relatos, tornando a narrativa mais frágil. Em Marcos, os guardas tentam pegar também um jovem coberto com pano, que escapa. Em algumas tradições, acredita-se que seja o jovem João Marcos, futuro evangelista (Mc 14.51-52). Em Lucas, ao invés da fala, temos Jesus curando o guarda atacado (Lc 22.51). Em João, a fala é "Enfia a tua espada na bainha! Não hei de beber eu o cálice que o Pai me deu?" (Jo 18.11). 

Chama a atenção que, no texto de todos os evangelistas, encontramos alguém armado no grupo junto de Jesus (Lc 22.49 indica ser mais de um). Jesus, em especial, não estava armado.

Quando vos mandei sem bolsa, sem mochila e sem calçado, faltou-vos porventura alguma coisa? Eles responderam: Nada. Mas agora, disse-lhes ele, aquele que tem uma bolsa, tome-a; aquele que tem uma mochila, tome-a igualmente; e aquele que não tiver uma espada, venda sua capa para comprar uma". Eles replicaram: "Senhor, eis aqui duas espadas'. 'Basta', respondeu ele. (Lucas 22.35-36)

Esse é texto usado por Bolsonaro para defender o armamento em nome de Jesus. Tal trecho é de fato  frequentemente citado por pessoas desejando mostrar que Jesus apoiava atos violentos. Em si, trata-se de uma passagem presente só em Lucas, Como antes, seu papel na narrativa dos Evangelhos fica enfraquecido... O contexto é o último diálogo de Jesus na ceia, antes de ir para o Getsêmani (Morro das Oliveiras), onde seria preso. Lá, Jesus dizia a Pedro:

Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos. (Lc 22.31-32)

O significado mais aceito dessa fala é que Jesus prenunciava a perseguição aos Cristãos que se iniciaria. Então, Ele anunciava que seriam necessários dinheiro e proteção - com armas. Em Marcos e Mateus, Jesus cita uma profecia sobre as ovelhas se dispersarem quando o pastor fosse ferido (Mt 26.31). Em João, Jesus ora pela santificação dos discípulos (Jo 17). Em todas essas narrativas, continua sugerido que já havia alguém armado entre o grupo que seguiu Jesus até o Getsêmani.

Não há, porém, senão em Lucas, uma instrução explícita para se defenderem do que estava por vir. Em nenhum texto há uma instrução sobre matar. Como Lucas era Romano e seguiu Paulo até provavelmente o ano 60 d.C, depois peregrinando pela Galiléia a procurar por quem testemunhou a vida de Jesus e tendo escrito seus livros só bem depois, é possível que a recomendação de Jesus sobre as espadas faça parte da miríade de informações esparsas que Lucas coletou.


JESUS PACIFISTA

Um famoso símbolo do pacifismo de Jesus é a fala "Não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra" (Mt 5.39). Essa fala é reforçada por Lucas:

Digo-vos a vós que me ouvis: amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, abençoai os que vos maldizem e orai pelos que vos injuriam. Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra. E ao que te tirar a capa, não impeças de levar também a túnica. (Lc 6.27-29)

É notório que o mesmo livro de Lucas apresenta, posteriormente, Jesus recomendando levar espada para os discípulos se defenderem da perseguição. O que podemos pensar é que (1) Jesus mudou suas concepções sobre como reagir à agressão; (2) a agressão anunciada no Getsêmani não se compara às demais - para essa última, era cabível a defesa; ou (3) o compilado de ensinamentos feito por Lucas reflete alguns atribuídos a Jesus (pela população da Galiléia), que não eram realmente Dele.

Para opinar sobre isso, é importante fazer uma contextualização dos Evangelhos. Em 66 d.C., nada menos que 36 anos após o assassinato de Jesus, iniciou-se uma guerra entre Judeus e Romanos, que teve vários reavivamentos nos anos seguintes. Basicamente, os Judeus queriam expulsar as legiões Romanas das suas terras. Um evento principal dessa guerra foi a destruição de Jerusalém (70 d.C.), com genocídio dos moradores, demolição do Templo e incêndio da cidade. Tanto Judeus quanto Cristãos passaram a ser perseguidos no mundo Romano. O livro de Marcos foi escrito antes desse período em Alexandria/Egito, bem longe dos conflitos. Os livros de Mateus e Lucas não. De fato, a perseguição é pós-anunciada (como se fosse uma profecia, porém escrita após os eventos) tanto em Mateus quanto em Lucas, mas não em Marcos e João.

Julgais que vim trazer paz à terra? Não, digo-vos, mas separação. Pois de ora em diante haverá numa mesma casa cinco pessoas divididas, três contra duas, e duas contra três; estarão divididos: o pai contra o filho, e o filho contra o pai; a mãe contra a filha, e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora, e a nora contra a sogra. (Lc 12.51-53)

Não julgueis que vim trazer a Paz à terra. Vim trazer não a Paz, mas a espada. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra, e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa. (Mt 10.34-36)

Dessa forma, o anúncio de Lucas sobre levar uma espada parece se referir especificamente à perseguição; ao mesmo tempo sendo uma inserção do autor ou da comunidade Cristã com referência à segunda metade do séc. 1. Essa inserção era destoante do ensinamento inicial. O Jesus de Marcos e João não faz tais previsões ou pós-visões.


JESUS DESAFIADOR

Mas Jesus não era necessariamente um pacifista que oferecia a outra face. Isso é, Ele não aceitava simplesmente que ofendessem Ele ou Seu grupo. Dentro da Pax Romana (lei imposta pelos Romanos às suas províncias), pessoas da "colônia" causando confusão eram facilmente presas e executadas. Os Galileus eram famosos por serem briguentos, mas as disputas de Jesus - até onde sabemos - eram verbais. A história infelizmente demonstra a futilidade de argumentar com aqueles que consideram seus privilégios um direito de nascença... Mas também não vemos Jesus lutando contra os Romanos por mais liberdade. Sua disputa, segundo Ele mesmo, era contra a maldade institucionalizada.

O mundo não vos pode odiar, mas odeia-me, porque eu testemunho contra ele que as suas obras são más. (Jo 7.7)

Em Lucas, Jesus anuncia o Reino de Deus, formado pelos pobres (Lc 6.20) de coração reto e bom (Lc 8.15). Não se trata de um reino Judeu ou qualquer estrutura de direitos que os livrasse da dominação Romana. Lembremos que Jesus interagiu com um centurião Romano!

Segundo Mateus, somente os bons frutos - e não empunhar um nome ou outro -  distinguem os bons dos maus (Mt 7.22-23); para entrar no Reino dos Céus, é necessário a cada um ajudar seu irmão (Mt 5.22). De forma semelhante, em Marcos, Jesus instrui a perdoar qualquer ressentimento contra outra pessoa (Mc 11.25-26). Nos deparamos, outra vez, com Jesus defendendo algo que não é uma estrutura de poder ou direitos. O Reino dos Céus não é um reino definido por fronteiras.

Os meios que Jesus usava para defender seu ponto não poderiam ser classificados como violentos, nem tampouco como pacíficos. Ele lutava contra um sistema em que as pessoas eram treinadas para não se importar e até tomar proveito do sofrimento de outros. Contra esse sistema, Jesus desafiava as pessoas a acreditarem Nele, simplesmente. E usava estórias (provavelmente inventadas) para explicar a expectativa de um final do mundo, onde só os pertencentes ao Reino seriam salvos.

O Reino dos Céus é também semelhante a um tesouro escondido num campo. Um homem o encontra, mas o esconde de novo. E, cheio de alegria, vai, vende tudo o que tem para comprar aquele campo. O Reino dos céus é semelhante ainda a uma rede que, jogada ao mar, recolhe peixes de toda espécie. Quando está repleta, os pescadores puxam-na para a praia, sentam-se e separam nos cestos o que é bom e jogam fora o que não presta. Assim será no fim do mundo: os anjos virão separar os maus do meio dos justos e os arrojarão na fornalha, onde haverá choro e ranger de dentes. (Mt 13.47-50)


AGRESSÃO VERBAL

Alguns argumentam que Jesus usava de violência nas Suas palavras. Existem várias formas de agressão verbal, que precisam ser analisadas. Um delas é o Bullying. Jesus não praticava isso - enquanto desqualificava costumeiramente os ensinos dos Fariseus, hábeis debatedores das Sinagogas, Ele não mantinha essa atitude para com um deles em específico. Jesus também não era abertamente ofensivo, quanto mais tinha suporte de uma maioria. Ele de certa forma fazia o "Gaslighting", questionando os pilares mais profundos dos Fariseus, e de fato fazendo isso com todo mundo. Mas, novamente, não se trata de algo direcionado a uma única pessoa.

Os embates de Jesus eram geralmente desencadeados pelos próprios Fariseus, dentro da cultura Judaica de questionamento. Quanto a acusações, Jesus acusava, em especial os religiosos, a respeito de manterem uma atitude hipócrita de cobrar ao povo o que não faziam.

Ai de vós, Escribas e Fariseus hipócritas! Pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia, a fidelidade. Eis o que era preciso praticar em primeiro lugar, sem contudo deixar o restante. (Mt 23.23)


JESUS VIRANDO AS MESAS

Em sua mais famosa demonstração de violência, sem dúvida citada por quem defende um Jesus violento, Ele causou tumulto entre os vendedores no pátio do Templo.

Chegaram a Jerusalém e Jesus entrou no Templo. E começou a expulsar os que no Templo vendiam e compravam; derrubou as mesas dos trocadores de moedas e as cadeiras dos que vendiam pombas. Não consentia que ninguém transportasse algum objeto pelo Templo. E ensinava-lhes nestes termos: "Não está porventura escrito: A minha casa chamar-se-á casa de oração para todas as nações? Mas vós fizestes dela um covil de ladrões!". (Mc 11.15-17)

Essa passagem é repetida em Mateus (21.12-13), Lucas (19.45-46) e João (2.14-16), dando um caráter chamativo a ela. Aparentemente, trata-se de algo que motivou a reunião do Sinédrio para tratar sobre a prisão de Jesus. Tal reação violenta não é explicada, no texto, senão por trechos de Isaías que ela contém. João, de fato, tenta produzir uma explicação a posteriori emendando:

... Lembraram-se então os seus discípulos do que está escrito: O zelo da Tua casa me consome (Sl 68,10). (Jo 2.17)

Não era a 1a vez de Jesus em Jerusalém, então podemos imaginar que Ele já conhecia o mercado no Templo. Entretanto, das outras vezes (também celebrações de Páscoa), Ele não viera a Jerusalém como um líder ou profeta. A função de profeta, aliás, era justamente a de se contrapor ao Templo, aos governantes, aos Saduceus. Normalmente, os Fariseus das Sinagogas faziam essa função, mas desde a dominação pelos Gregos (330 a.C.) e Romanos  (63 a.C), tanto Fariseus quanto Saduceus haviam se reorganizado em uma elite social mantida por matrimônios e acordos.

Era isso que o mercado no Templo representava: os comerciantes ligados aos Fariseus trabalhando com a anuência dos líderes do Templo, os Saduceus. De certa forma, a violência de Jesus contra os comerciantes atingia a ambas as categorias e Jesus fazia isso na condição de profeta, aquele que foi recebido na cidade com palmas e acenos do povo. O "covil de ladrões", como na fala de Jesus, era Sua oposição aos trâmites entre a elite, com o Templo como centro.

No dia seguinte reuniram-se em Jerusalém os chefes do povo, os anciãos [Fariseus], os escribas, com Anás, sumo sacerdote, Caifás, João, Alexandre e todos os que eram da linhagem pontifical [Saduceus]. (Atos 4.5-6, julgamento de Pedro e João, narração feita por Lucas)

Uma forma pacifista que Jesus poderia ter escolhido para se opor à feira dentro do Templo seria falar ao povo para ficar longe daquele mercado. Afinal, era o povo quem usufruía e alimentava o comércio de itens religiosos.

Porém, vindo da Galiléia em um burrinho, ainda que Jesus representasse um profeta na capital (eles não eram raros), tratava-se de uma influência pública que Ele provavelmente não tinha. E, caso tivesse, seria motivo igualmente sério para as ações do Sinédrio contra Ele, talvez até com interferência dos Romanos por perturbar a ordem pública.

Virar as mesas dos comerciantes e gritar - segundo João, até empunhando um chicote - talvez não tenha mudado nada prático quanto ao comércio funcionando no Templo, mas afirmou Jesus como profeta perante os Seus seguidores.

O não-conformismo de Jesus quanto à maldade institucionalizada certamente teve algo a ver com Sua reação no Templo administrado pelos Saduceus. Embora o comércio ali não fosse inerentemente mau, nem tampouco os vendedores,  tratava-se de uma institucionalização da fé. Cada fiel gastava algumas moedas, oferecia um sacrifício de acordo com suas posses, pago em parte aos comerciantes e em parte aos Saduceus, e estava tudo resolvido com Deus. Uma espécie de terceirização do arrependimento. Embora Jesus fosse pacifista em muitos outros assuntos, incluindo a dominação dos Judeus pelos Romanos, ele era um profeta bastante contracultural no lido com essa institucionalização da fé.


O QUE O TEMPO FEZ

Uma vez que o Cristianismo tornou-se maioria em muitos lugares com o passar dos séculos, ele se institucionalizou como o Judaísmo do tempo de Jesus. Ao invés do Templo, temos várias igrejas que fazem essa função, cada uma com seu grau de terceirização da fé, que se reflete em hierarquias religiosas, grupos privilegiados e troca de favores religiosos (além de políticos) por dinheiro e poder. Nos dias de hoje, não seria improvável ver Jesus esbravejando contra pastores que associam o favor de Deus com o valor da doação feita para a Igreja.

Seja por acreditar que o modo contracultura de Jesus produziu uma série de ações levando à Sua morte, seja por considerar que Ele se dirigia a uma sociedade rural, seja porque os Cristãos inicialmente eram apenas uma minoria perseguida, seja pelo aspecto espiritual (não material) dos ensinamentos, Jesus acabou sendo lembrado e não praticado. Mais ou menos como ter uma fábrica de armamentos chamada Ghandi Armas & Munições Ltda, ou uma catedral adornada com ouro dedicada a São Francisco.

Não era Jesus quase um Romano seguidor de ordens, dentro de uma organização grande e poderosa? Quantas invasões de terras e destruição de povos tiveram a bandeira de Jesus na frente?  Não está Bolsonaro dizendo às pessoas que elas podem disparar balas em quem elas não gostam, abençoadas por Jesus? Em 12/10/21, o deputado estadual Frederico Braun d'Ávila defendeu, na tribuna da Assembleia Legislativa de São Paulo, que as pessoas fizessem o que manda Bolsonaro, que se armassem para exterminar os camponeses [como Jesus] e membros do MST, que são um câncer na Sociedade. Isso, junto com ofensas aos Católicos associados com a Teologia da Libertação, uma ala da Igreja Católica famosa por defender - muitas vezes com a vida - as populações mais pobres ao redor do mundo.

O Jesus B certamente não é o Jesus sobre o qual a Bíblia conta.

Sua misericórdia se estende, de geração em geração, sobre os que o temem. Ele manifestou o poder do seu braço: desconcertou os corações dos soberbos. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Ele saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos. Ele acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre. (Lucas 2.50-55, Exaltação de Maria)

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ARTIGOS PROSCRITOS

La Torre M, Jesus, the man of violence, baptistnews.com, 23/06/16.

Medeiros T, Bolsonaro: Jesus "não comprou pistola porque não tinha" na época, Correio Brasiliense, 16/06/22.

Sigal G, Was Jesus violent?, jewsforjudaism.org, chapter 22r.

Verbal Abuse - wikipedia

YODER, JH, Jesús y la realidad política, Ediciones Certeza, 1985.