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domingo, 15 de março de 2026

Exús na Cristandade

Montagem bizarra fundindo vários aspectos de Exu. Os crânios são um sinal de comunicação com os mortos. O tridente é um símbolo de poder sobre os reinos dos espíritos, material e dos deuses. As cabaças são portadoras de pós para magia. As velas ou qualquer outro fogo são sinal de sua ligação com esse elemento.

À primeira vista, falar de Exu pode parecer estranho, como falar do diabo. Eu já fiz isso. Mas esse texto deve justamente conter tal ímpeto associativo. Exu é uma das divindades africanas mais fascinantes e complexas, e sua presença atravessou o Atlântico para se instalar no imaginário religioso brasileiro — chegando até mesmo a adentrar algumas igrejas evangélicas.

Origens africanas
Exu (ou Esú) tem suas raízes entre os diversos povos, etnias e aldeias da grande cultura Yorubá, que floresceu na costa oeste da África, entre o Congo e a Guiné, entre os sécs. 8 e 18. O hábito de descalçar-se em locais sagrados, roupas rituais brancas com a cabeça coberta e até mesmo a designação "Alá" para os panos brancos sugerem que houve contato entre eles e o Islã emergente.

Cada comunidade yorubá pré-diáspora possuía suas próprias divindades que, mais tarde, no Brasil, seriam reunidas sob o nome genérico de Candomblé. Exu aparecia na maioria delas e grupos étnicos distintos e línguas diferentes. Unidos sob a escravidão no outro lado do Atlântico, eles encontraram em Exu algo em comum para adorar e temer.

Exu na mitologia yorubá
Exu é muito complexo, psicologicamente falando. Tão complexo que, como vários personagens yorubá, parece ser o resultado de uma grande fusao de seres distintos. O Cristianismo fez isso com Jesus - sim, os Evangelhos e as cartas de Paulo concordam só parcialmente - e os Judeus fizeram isso com Moisés - um profeta, guerreiro, legislador e proibido de entrar em Canaã.

Numa cultura que não polarizava bem e mal, Exu era um viajante entre os mundos, capaz de levar mensagens entre deuses e humanos.

Em algumas tradições, ele era apresentado como o discípulo mais fiel do Criador, aquele que se sentou nas estradas para cobrar pagamentos ao seu mestre, e o único que teria aprendido a criar seres vivos.

Noutras versões, sua convivência com Oxalá é bem menos amistosa: Exu prega peças no Criador e chega a duelar com Ele pelo título de orixá mais velho.

Símbolo da virilidade, Exu teria sido parceiro (os itans sagrados não usam  "esposo", emboram falem assim de outros casais) de Oyá ou Iansã, a deusa guerreira conhecida por sua força de sedução, perigo e afronta violenta aos poderes. Em certas narrativas, Exu também desafia constantemente a autoridade, mas não como guerreiro e sim de forma astuta — como o Loki nórdico. Numa história, ele barganha com Xangô sua participação no banquete da realeza, ao lado de Yemanjá e Oxalá, em troca de inhames muito apreciados pela rainha. Noutra, ele enriquece recebendo oferendas pelas perdas em sua casa, incendiada secretamente por ele mesmo.

Exu assume ainda o papel de um sábio não convencional. Ele é uma figura que surge inesperadamente nas estradas e propõe enigmas com desfechos que explicam as coisas do mundo. Se Jesus usava parábolas para descrever o Reino de Deus, Exu sempre foi um personagem das estradas, conhecido apenas pelos viajantes. Às vezes, encontrava os mesmos viajantes indo numa direção e também na outra, sugerindo sua identificação com o desconhecido — seja o futuro à frente, seja o esquecimento do que ficou para trás. Seria bobagem tentar prever os caminhos de Exu.

Exu tambem representava a verdade absoluta, como Jesus. Mas havia diferenças: Jesus se autodenominava "a verdade e a vida", mas não o vemos desmascarando ninguém; a verdade, em Jesus, parece escapar por pequenos furos nas pessoas. Em confissões, às vezes. Exu, por sua vez, escancarava as verdades ocultas. Numa história famosa, ele provoca a briga de dois camponeses discutindo a cor do seu chapéu — que era preto de um lado e vermelho do outro. Para além da provocação, Exu desnudou a violência silenciosa por trás da aparente cordialidade. A verdade, para Exu, era para ser mostrada, a despeito das consequências. E isso costuma envolver lições de humildade, o que até Jesus aprovaria. Mesmo Oxalá, em sua nobre tarefa de criar o Ayé (mundo material), foi interrompido — e em algumas versões, impedido — por uma bebedeira com vinho de palma oferecido por Exu.

Exu e os mortos
Uma das identificações mais marcantes de Exu é sua relação com os mortos, ou melhor, com as almas (eguns). No Cristianismo formal, não há paralelo direto: no Catolicismo, fala-se em relíquias sagradas. Aparições de almas abençoadas são raríssimas. Na Bíblia, há o episódio da invocação do profeta Samuel por uma feiticeira a pedido do rei Saul, e a aparição de Moisés e Elias no monte Tabor. Mas diversas tradições africanas não têm o conceito de alma como no ocidente — quando alguém morre, simplesmente termina.

No Brasil, as tradições indígenas sobre espíritos que vagueiam durante a noite fortaleceram a versão de Exu como alguém capaz de convocar as almas para realizar tarefas. Oyá, sua parceira, aprendeu essa arte com ele, mas a empregava para levar os eguns para longe do Ayé (singular casal!).

Os iorubás temiam os mortos, que eram invocados por meio de oferendas a Exu para atrapalhar, adoecer ou enlouquecer inimigos. Muitas casas na Nigéria colonial tinham imagens de Exu do lado de fora para afastar esses espíritos — imagens com búzios, dentes pontiagudos, carranca e um grande pênis ereto, o que os missionários cristãos interpretaram como culto ao diabo. Tal qual as bruxas cozinhando remédios ou hereges fazendo cultos cristãos diferenciados.

Sincretismo brasileiro
No Catolicismo, as almas permanecem um tempo entre os vivos e outro no Purgatório. Enquanto entre os vivos, algumas almas podem instruí-los; outras, por meio de orações, podem promover milagres. Muitos santos católicos tornaram-se milagreiros após a morte.

Com essa referência, Exu assumiu no Brasil um lugar de controle das almas, notoriamente para causar problemas. Assim, tornou-se a entidade capaz de promover tanto o bem (iluminando caminhos, mostrando decisões favoráveis) quanto o mal (atraindo eguns). Por isso, é procurado por quem busca vingança e por quem é atormentado. Exu pode ser aplacado com oferendas!

De forma sincrética, Exu ganhou nomes diferentes conforme sua atuação: Exu Mirim (causa pequenos acidentes, semelhante ao Saci), Exu Tiriri (justiceiro), Exu Marabô (revelação e cura), Exu Tranca-ruas (guardião), Exu Caveira (manipulação e fala com os mortos), entre outros. Não difere muito da variedade de títulos de Nossa Senhora. Embora distintos, todos esses Exus mantiveram um estereótipo básico: figura masculina, capa preta ou vermelha, aparição preferencial à meia-noite, gargalhadas barulhentas, gosto por tabaco e cachaça. O Exu mais africano prefere a corrida (ninguém o vê), sangue, vestes de caçador (faca e porrete) misturadas a adereços de adivinho (búzios) e a exibição de um grande pênis ereto — seu símbolo de virilidade.

O Catolicismo associou a Exu um aspecto diabólico, enquanto o protestantismo o transformou em espírito obsessor (elemento do Espiritismo), comum em exorcismos públicos — o "espírito imundo" que Jesus expulsou de um jovem ou do morador dos sepulcros Gadarenos.

Mas basta olhar com atenção para perceber que o Exu do Candomblé não sai possuindo corpos de qualquer um; no máximo, um sacerdote iniciado e durante uma cerimônia. Para esses, Exu é um ser do fogo, o espírito que dá movimento, que impulsiona os acontecimentos, que exige a verdade.

Exu como representante do povo
Aspectos menos discutidos de Exu vêm do lado oriental do Atlântico. Associado às estradas e ao comércio, ele seria a divindade mais pobre, destinada a trabalhar como plebeu, enquanto outros orixás são honrados como senhores ou nobres. Num conto sobre o encontro de Oxalá e Exu, este último testa o Grande Orixá fazendo-o carregar sacos imundos de sal, carvão e dendê — e Oxalá obedece, previamente instruído a não recusar. Noutro conto, Exu cultiva inhames, como os mais pobres da Nigéria, mas não oferece seu produto à realeza; outra divindade vem comprá-los, e surpreendem-se ao encontrar Exu à mesa, mostrando que ele estava longe do círculo de convidados.

Esses itans revelam talvez uma das características mais humanas de Exu: fazer parte do povo, não da nobreza. É uma ordem social reconhecível desde a antiguidade: uns trabalham, outros são honrados. Exu representa os que trabalham, que recorrem aos orixás por ajuda, cura e proteção. A proximidade gera identificação e afeição. Não por acaso, Exu é visto como mediador entre homens e orixás — há até a premissa de "Exú primeiro".

Junto a disso, no Candomblé, é comum banir Exu dos locais de culto quando o ritual não é específico para ele. Não há banimentos semelhantes para Ogum, Yemanjá ou Oxóssi. Justifica-se por um itan controverso no qual Exu atrapalha a criação do mundo em vingança por não ter recebido oferendas de Oxalá. Deus travesso e desordeiro, Exu seria um elemento de caos, atrapalhando ou ajudando conforme sua vontade e as oferendas recebidas. Sem o "suborno" a Exu, oferendas a Ogum podem virar perdas, e as de Yemanjá, conflitos. Exu acaba outra vez representando algo que os homens conhecem bem nas relações de poder: a corrupção.

Num exemplo realista: Mário e Luidge são dois encanadores que disputam um terreno na justiça. Ambos apelam a Xangô, senhor da justiça, e a Exu, que faz a comunicação. Aquele que oferecer mais a Exu — não a Xangô — tende a vencer. É uma lógica aplicada apenas a Exu, não a outros orixás.

Mesmo sua atitude rebelde, que motiva o banimento ritual, é exótica. Sim, Exu atrapalhou a criação, impôs dificuldades a Oxalá, propôs enigmas e desafiou homens. Mas Xangô é um senhor da guerra irritadiço; Oyá, deusa das tempestades, poderia ser muito mais terrível. Yemanjá levantou ondas que fizeram todos os deuses se ajoelharem, só sendo parada por Oxalá. Se Exu faz a comunicação com os homens, não deveria estar presente? Não deveria falar através das pessoas em transe? O banimento possivelmente reflete a entrada no círculo do poder: nega-se a pobreza, a sujeira e o suor do trabalho. É preciso ser dedicado, não um beberrão festivo; ter poder, não carregar sacos. Exu não cabe aí. Seu espaço é lá fora, na rua, com o povo — não no palácio. E não no espaço sagrado.

Noutro pensamento curioso, questiona-se o aspecto humanóide de Exu: enquanto os orixás discutem dentro de casa, ele fica sentado à porta devorando ratos. Noutro itan, Exu (Bará) assume um apetite insaciável e devora outras divindades. Escreveu Pierre Verger:

"Exu é um Orixá ou um ebor asá [espírito inumano, por vezes com múltiplos olhos, braços ou cabeças] de múltiplos e contraditórios aspectos, o que torna difícil defini-lo de maneira coerente. De caráter irascível, ele gosta de suscitar dissensões e disputas, de provocar acidentes e calamidades públicas e privadas. É astucioso, grosseiro, vaidoso, indecente, a tal ponto que os primeiros missionários, assustados com essas características, compararam-no ao diabo, dele fazendo o símbolo de tudo o que é maldade, perversidade, abjeção, ódio, em oposição à bondade, à pureza, à elevação e ao amor de Deus. Entretanto, Exu possui o seu lado bom e, se é tratado com consideração, reage favoravelmente, mostrando-se serviçal e prestativo."

Há poucas referências yorubá a seres não humanóides. Yroco, a divindade-árvore; as Ya-mi ou feiticeiras da floresta, que eram parte humanas e parte aves; a família de Oxóssi, caçador das matas (ele teria vindo ao Ayé antes dos demais Orixás, antes de os homens serem feiros, junto com sua família). Sobre Exu, fala-se de ele ter uma lâmina na cabeça, que esconde com a trança.

Exu vs. Diabo cristão
Aqui, caimos em um tema recorrente de blogs e sites. Desviei desse tema repetitivo, deixando para o final, mas ele é inevitável.

A condição mais interessante de Exu talvez apareça nos países que foram  cristianizados entre os séculos XVI e XIX, como o Brasil. Aqui, assim como na África, Exu foi associado a algo libertário que não cabia nos moldes cristãos tradicionais. Sua sensualidade e agressividade, comparadas à castidade e ao "espírito acima da carne" pregados por Santo Agostinho, colocaram-no na categoria de representante de Satanás — justificativa para a colonização e submissão dos povos iorubás. Cultuar Exu era cultuar o Diabo Cristão.

Esse pareamento teve apoio. Para os conquistadores, justificava que a Igreja se afastasse dos escravizados. Não eram filhos de Deus. Para os que sofriam ou resistiam à colonização, era um modo de manter os brancos longe dos Orixás. Dificilmente um branco se aventuraria num terreiro com "diabos" na entrada. Isso não impedia ações policiais, mas afastava curiosos.

Muitas manifestações de Exu até ganharam ares "cristãos", com certos Exus se declarando "fulano do inferno" ou Pombogiras (Exus femininos) chamadas em cantigas de "mulher de Satanás". Obviamente, não faz sentido diabolizar Exu, já que não há paralelo real entre a cosmogonia yorubá e o Cristianismo.

Vertentes sincréticas chegam a representar Oxalá como um Jesus de braços abertos (sem a cruz) e Exus como diabinhos. No Pentecostalismo, Exu é "convidado frequente" em cultos, como possessão maligna a ser expulsa para validar o poder do pastor. É uma abordagem utilitarista, que reúne fiéis apresentando uma divindade rival como demônio. Na Europa, onde as religiões Afro são pouco significativas, o demônio usual dos cultos Pentecostais é Maomé ou o Alcorão.

O Jesus dos Evangelhos só esteve frente a frente com o diabo no deserto, e apenas na versão de Lucas. O diabo não aparece tentando pessoas no dia a dia, muito menos fazendo travessuras malévolas que possam ser evitadas com oferendas. Não é um convocador de espíritos nem guardião de lugares de culto. Simplesmente, diabo e Exu não são iguais, assim como Jesus e Oxalá não são. Não há entre Exu e Oxalá uma disputa pelos corações dos homens.

Exu permanece, em sua essência, o mensageiro entre mundos, o guardião das encruzilhadas, o senhor das possibilidades — tão humano quanto divino, tão temido quanto respeitado, e definitivamente muito mais complexo do que qualquer redução maniqueísta pode capturar.

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Ele esqueceu de ler
PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. Companhia das Letras, 2020.
VERGER, Pierre et al. Lendas africanas dos orixás. Corrupio, 1985.

sábado, 8 de junho de 2019

O Cristianismo da Pobreza - 3ª parte (1950 até hoje)

Da esquerda para a direita: Walter Rauschenbusch, pastor da Igreja Batista e idealizador do Evangelho Social; Gustavo Gutierrez Merino, padre e teólogo do Peru, um dos idealizadores da Teologia da Libertação; Leonardo Boff (na verdade Genézio Darci Boff), teólogo brasileiro e um dos grandes veiculadores da Teologia da Libertação; o Jesus moreno e sorridente que sempre foi ícone das obras dos irmãos López Vigil, na Nicarágua.

Esse texto é o final de uma trilogia sobre os pobres Cristãos desde os dias de Jesus até hoje. As demais partes podem ser lidas nos links abaixo:


Os movimentos socialistas no séc. 19 não deixaram de penetrar na Igreja. De um lado, a Igreja Católica se opôs ao Socialismo, vendo a pobreza como um desígnio de Deus. Os pobres se aliavam à Igreja na medida em que ela reunia doações dos ricos para educação e saúde; os ricos eram abençoados por esmolas e doações. Do outro lado, Luteranos, Anglicanos e Metodistas aderiram a ações clamadas inicialmente pelos socialistas: as missões luteranas foram as primeiras a implantar serviços estatais na América do Norte, África Ocidental e Índia. Os Ortodoxos, expandindo-se para o Ocidente, também se associaram aos movimentos sociais.

O Socialismo organizou-se politicamente na 2ª metade do séc. 19 com o filósofo alemão Karl Marx (1818-1883). Marx analisou a manutenção da desigualdade social e pregava como única forma de transformação que os pobres se organizassem, conquistassem à força o poder político. Ele também convivia com uma Igreja Católica conivente com a exploração trabalhista, de forma que definiu a religião como “ópio do povo”. Em seu livro “Crítica da Filosofia de Direita de Hegel” (1843), ele assinalou que a religião acalmava as tensões sociais e distraía os pobres de lutarem por seus direitos. Consequentemente, movimentos como as revoluções Russa (1905), Chinesa (1911) e Guevarista, na América Latina (anos 1950-1970), que se inspiraram no trabalho de Marx, quase sempre tentaram instituir o Ateísmo. Isso apenas fortaleceu a oposição Católica ao Socialismo.

LEÃO XIII E O SOCIALISMO

Apesar da oposição socialista ao Cristianismo e vice-versa, já no final do séc. 19, representantes do Catolicismo e do Protestantismo se filiaram a movimentos sociais. Em 1891, o papa Leão XIII publicou sua encíclica Rerum Novarum (mudança política), sobre o Capital e o Trabalho. 

Os elementos do conflito agora são inconfundíveis, na vasta expansão das atividades industriais e das maravilhosas descobertas da ciência; nas relações alteradas entre mestres e operários; nas enormes fortunas de alguns poucos indivíduos e na total pobreza das massas; o aumento da autoconfiança e a combinação mais próxima das classes trabalhadoras (1) … Acrescente-se a isso que a contratação de mão-de-obra e a conduta comercial estão concentradas nas mãos de poucos, de modo que um pequeno número de homens muito ricos colocou sobre as massas abundantes de trabalhadores pobres um jugo pouco melhor do que a escravidão (3) … Que exercer pressão sobre o indigente e o indigente em prol do ganho, e obter o lucro da necessidade do outro, é condenado por todas as leis, humanas e divinas. Defraudar qualquer salário devido é um grande crime que clama à ira vingadora do céu. "Eis que o salário dos trabalhadores, que por fraude foi contido por vós, clama; e o clamor deles entrou nos ouvidos do Senhor dos exércitos." Por fim, os ricos devem abster-se religiosamente de reduzir os ganhos dos operários, seja pela força, por fraude ou por negócios usurários; e com toda a razão maior, porque o trabalhador é, via de regra, fraco e desprotegido, e porque seus meios fracos devem ser considerados sagrados em proporção a sua escassez (20).

A carta de Leão XIII às igrejas era uma clara reação aos movimentos socialistas na Europa, considerados “agitadores”. Mas ela também trazia para a Igreja persuadir os ricos a agir com ética e evitar a desigualdade social.

SOCIALISMO CRISTÃO

Nos EUA, começaram a aparecer figuras Protestantes pregadoras de um “Socialismo Cristão”, que enxergava nas ceias comunais da Igreja Primitiva um modelo alternativo para o Socialismo. Um desses foi o Francis Julius Bellamy (1855-1931), que chegou a ser vice-presidente. Bellamy é conhecido por redigir a Declaração de Aliança, um recital patriótico de aliança dos homens como iguais sob a bandeira dos EUA. Embora ele tenha falado bravamente contra o racismo após a libertação dos escravos e a Guerra Civil estadounidense, defendia a segregação dos imigrantes, chamados de “pessoas menores" que rebaixariam os padrões nacionais. Em 1891, Bellamy foi demitido da Igreja Batista por pregar contra os males do capitalismo e descrever Jesus como socialista. Outra dessa figuras foi Norman Thomas (1884-1968), um pastor Presbiteriano que atuou contra a participação dos EUA na 1ª Guerra. Quando a Igreja deslocou seus recursos da ajuda as populações carentes para o militarismo, Thomas filiou-se ao Partido Socialista.

RAUSCHENBUSCH E O EVANGELHO SOCIAL

Não tardou para que os protestantes estadounidenses, sobretudo Batistas, que foram formados através de massas ex-escravas da Guerra Civil, forjassem um “Evangelho Social”. Tal filosofia não pretendia inserções políticas, mas que nomeava as igrejas para cuidar dos desfavorecidos. O pastor Washington Gladden (1836–1918) deu forma à idéia em seu livro O Jeito Cristão (1877), onde defendia a inserção dos Cristãos em todas as atividades humanas, de forma a melhorá-las segundo a vontade de Deus.

“Aqueles cristãos cuja principal preocupação é a sua própria condição espiritual, são um tipo muito pobre de cristãos. Uma santidade autoconsciente é uma contradição em termos. É através de um serviço de auto-esquecimento que a cultura mais elevada é obtida; através do seguimento fiel dAquele que não veio para ministrar a Si mesmo, e não para ser ministrado, mas para ministrar aos outros; que se tornou Rei dos reis e Senhor dos senhores por sua total auto-rendição; e cujo maior elogio é foi zombado por seus assassinos". (cap. Christians quiet life)

Um paladino desse movimento foi o reverendo Walter Rauschenbusch, da Igreja Batista, que reuniu seus estudos sobre o Socialismo Alemão ao trabalho que realizava em Hell's Kitchen/NY, um bairro extremamente pobre e abundante de criminalidade. Rauschenbusch falava em 2 conversões, uma a Cristo como divindade, outra a Cristo como motor de ajuda às populações pobres. Seu livro “Teologia para um Evangelho Social” (1917) foi um marco para ações da Igreja.

Rauschenbusch afirmava que o Evangelho individualista tornou clara a pecaminosidade do indivíduo, mas não mostrou a pecaminosidade institucionalizada. Segundo ele, e também o que mais tarde seria a versão Católica da Teologia da Libertação, o Reino de Deus é a exata proposta teológica do Evangelho Social. Essa pregação de Jesus foi gradualmente substituída pelo culto à figura de Cristo. Isso foi feito a princípio pela igreja primitiva a partir do que parecia ser uma necessidade, mas Rauschenbusch chamava os Cristãos a retornar à doutrina do "Reino de Deus".

“Mas, de fato, ao longo da história, a política da maioria dos Estados foi moldada para tornar fácil e perpétua a condição pecaminosa. Homens que estiveram sob os ensinamentos do cristianismo durante toda a vida nem sequer percebem que o parasitismo [dos ricos sobre os pobres] é pecado, tão profundamente nosso insight sobre o pecado foi obscurecido pela falta de um ideal religioso da vida social”. (cap. A natureza do pecado)

“Não podemos tolerar que pessoas pobres e trabalhadoras sejam privadas de condição física, juventude, educação, igualdade e justiça, a fim de permitir que outros vivam vidas luxuosas. Nos revolta ver essas condições perpetuadas pela lei e pela força organizadas, ou justificadas pelos formadores da opinião pública. Nenhuma das chaves oferecidas pelo cristianismo individualista pode mudar isso”. (cap. A concepção de Deus)

“A Ceia do Senhor estava conectada com a realização dos ideais sociais e esperanças da Igreja. A prevalência da profecia no cristianismo primitivo aponta na mesma direção. Ele agia como uma interpretação da Ceia do Senhor. A perspectiva do retorno do Senhor tornou-se fraca com o passar do tempo. O ato eucarístico desligou-se da refeição fraterna, e isso diminuiu muito seu valor social. A refeição ainda era realizada ocasionalmente à noite, mas se transformou em uma apresentação de caridade onde os ricos alimentavam os pobres e, finalmente, tais eventos cessaram de acontecer. O ato eucarístico estava agora ligado ao culto da igreja no domingo de manhã”. (cap. Batismo e a Ceia do Senhor)

YMCA

Nos EUA e na Europa, o Evangelho Social gerou abrigos e escolas para órfãos, imigrantes e pobres, principalmente na região de Chicago/EUA. Esses abrigos recebiam imigrantes e proviam alimentação e educação para as crianças, assim como cursos de inglês e profissionalizantes para os adultos, sobretudo italianos. Mais tarde eles se expandiram para playgrounds, piscinas, campos, teatros e ginásios públicos. Outro fruto foi o grupo, hoje internacional, denominado YMCA* (YMCA = Young Men's Christian Association), que surgiu na Inglaterra com o objetivo de levar desenvolvimento físico, espiritual e mental aos povos. O grupo inicialmente pretendia ajudar imigrantes do campo a se estabelecer nas cidades, mas suas estruturas de escolas, institutos profissionalizantes e centros esportivos acabaram se convertendo em pólos sociais nas cidades do Canadá e Europa. Em todas as unidades do YMCA, sempre foi dada importância à pregação Cristã e estudos religiosos. Na América Latina, o YMCA teve contribuições importantes no desenvolvimento do Panamá e Peru.

CONCÍLIO DO VATICANO

A vertente Católica não se interessou prontamente pelo Evangelho Social que, apesar disso, lembrava muito as obras sociais Católicas. A idéia de argumentar pela “igualdade das pessoas” parecia revolucionária demais para a Igreja! No entanto, em 1961 o papa João XXIII (1881-1963) convocou todos os cardeais para uma longa revisão das atuações da Igreja. Na sua encíclica Pacem in Terris (paz na terra), ele deixou exposto, quando morreu, as novas diretrizes definidas para os Católicos.

44. Ao invés, universalmente prevalece hoje a opinião de que todos os seres humanos são iguais entre si por dignidade de natureza. As discriminações raciais não encontram nenhuma justificação, pelo menos no plano doutrinal. E isto é de um alcance e importância imensos para a estruturação do convívio humano segundo os princípios que acima recordamos. Pois, quando numa pessoa surge a consciência dos próprios direitos, nela nascerá forçosamente a consciência do dever: no titular de direitos, o dever de reclamar esses direitos, como expressão de sua dignidade, nos demais, o dever de reconhecer e respeitar tais direitos.

56. Acresce que por sua mesma natureza, todos os membros da sociedade devem participar deste bem comum, embora em grau diverso, segundo as funções que cada cidadão desempenha, seus méritos e condições. Devem, pois, os poderes públicos promover o bem comum em vantagem de todos, sem preferência de pessoas ou grupos, como assevera nosso predecessor, de imortal memória, Leão XIII: "De modo nenhum se deve usar para vantagem de um ou de poucos a autoridade civil constituída para o bem comum de todos". Acontece, no entanto, que, por razões de justiça e eqüidade, devem os poderes públicos ter especial consideração para com membros mais fracos da comunidade, pois se encontram em posição de inferioridade para reivindicar os próprios direitos e prover a seus legítimos interesses.

89. Realmente não pode um homem ser superior a outro por natureza, visto que todos gozam de igual dignidade natural.

João XXIII assumia como direitos inalienáveis várias coisas às quais a pobreza priva o homem, como educação, saúde, alimentação, participação no Estado, etc, atribuindo ao Estado o direito de vigiar por essas igualdades entre os homens, uma vez que o Estado foi instituído por Deus. Dessa forma, ele criou um movimento anti-concentração de renda e anti-poderio abusivo de uns sobre os outros que inspirou a Teologia de Libertação. João XXIII, entretanto, não expôs mecanismos pelos quais as desigualdades já existentes seriam corrigidas, ainda mais sem movimentos de rebeldia.

À medida que os esforços da Igreja Protestante pelos pobres perdiam força e começavam a ser substituídos por uma reação Católica, o pastor Batista Martin Luther King Jr (1929-1968) assumiu essa frente de batalha quase isoladamente. Naturalmente um ativista pelos direitos dos negros, após a emenda constitucional de 1964 (que criava a igualdade racial na Constituição) ele se dedicou a movimentos pelos direitos das populações pobres. Infelizmente, a articulação política de King e seu isolamento como ativista religioso facilitaram seu assassinato em 1968.

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

Provavelmente influenciados pelo marxismo Guevarista e fortalecidos pelo Concílio do Vaticano sob João XXIII, diversos religiosos latinos se envolveram em ativismos sociais e luta contra a desigualdade de renda. Sua corrente de discurso acabou chamada Teologia da Libertação. Veja-se que seu levante ocorreu justamente quando, após uma avalanche de contato com o Socialismo através do herói Che Guevara, os países latino-americanos em geral recuaram para dentro de regimes militares. Dessa forma, os intelectuais Católicos agindo por igualdade entre as pessoas assumiram, aqui e ali, a figura de inimigos do governo. Vários tiveram de se esconder ou foram assassinados. Alguns nomes desse grupo foram Gustavo Gutiérrez e Samuel Escobar (Peru), Leonardo Boff (Brasil), Juan Luis Segundo (Uruguay), Jon Sobrino (Espanha), René Padilla (Equador) e Orlando Enrique Costas (Porto Rico). Os grandes pensadores foram Sobrino e Boff que, em pouco tempo, haviam formado uma legião de missionários para advogar pelos pobres no Brasil, África Ocidental, Índia, China e Polinésia.

Seu trabalho nos países onde passaram foi criar o ativismo político dentro da Igreja Católica, de forma que a mesma usasse sua influência nos governos em prol dos desfavorecidos. Além disso, tentaram trazer para os cuidados da Igreja, como no passado, as populações carentes. Dessa vez, no entanto, o movimento tinha claramente fins ideológicos e políticos, para criar na população uma consciência dos pecados associados com a desigualdade social. Pecado dos quais todos, de alguma forma, tomavam parte sem perceber.

JESUS CRISTO LIBERTADOR

No Brasil, uma obra poderosa dentro do círculo erudito da Igreja, feita para arrebanhar padres e bispos, foi o livro “Jesus Cristo Libertador” (1972), de Leonardo Boff.

“Basta vermos as imagens de Cristo nas grandes igrejas a partir do séc. 3. O Jesus de Nazaré, fraco no poder mas forte no amor, que renunciou à espada e à violência condenando-as, foi recalcado pelo Cristo político constituído pela Ressurreição em Senhor do Mundo. Seus representantes papas e bispos governam em seu nome e usam da força para destruir os ‘inimigos de Deus’. Esqueceu-se rapidamente nos escalões da igreja a violenta crítica movida por Jesus contra a forma [violenta] de exercício do poder no mundo antigo. (Mateus 20:25-28, Lucas 22:25-27, Marcos 10:42-45).”

“Cristo não começou pregando a si mesmo, mas o Reino de Deus. Que significa esse Reino de Deus que constitui indiscutivelmente o centro de Sua mensagem? Para os ouvintes de Jesus significava bem outra coisa que para os ouvidos de fiel moderno, para quem o Reino de Deus é a outra vida, o céu, o pós-morte. Reino de Deus - que ocorre 122 vezes nos evangelhos e 90 na boca de Jesus - significava para os ouvintes de Jesus a realização de uma esperança, no final do mundo, de superação de todas as alienações humanas, da destruição de todo o mal, seja físico, seja moral, do pecado, do ódio, da divisão, da dor e da morte.”

“O Êxodo refere que de 7 em 7 anos devia-se festejar o ano sabático (Êxodo 23:10-12, 21:2-6). Nesse ano todos deveriam sentir-se filhos de Deus e por isso todos se deveriam considerar como irmãos. Os escravos seriam libertados. As dívidas seriam perdoadas e as terras uniformemente distribuídas. Nenhum patrão deveria esquecer que cada homem é um ser livre para Deus (Deuteronômio 15:12-15). O Levítico (25:8-16) revela essa idéia social prescrevendo que de 50 em 50 anos se celebre o ano jubileu. Será um ano de graça do Senhor. Todos serão livres. Cada um voltará para sua terra que será restituída e para sua família. Esse ideal social, porém, jamais foi cumprido. O egoísmo e os interesses feitos sempre foram mais fortes. Por isso tornou-se aos poucos uma promessa para os tempos messiânicos (Isaías 61:1).”

Tal obra se constitui em um profundo estudo das bases teológicas modernas da Igreja Católica e foi muito influente entre o clero Católico latino, servindo de base para a atual política da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, por exemplo.

UM TAL JESUS

No campo popular, bem no começo dos anos 1980 surgiu a obra radiofônica “Um tal Jesus”, dos irmãos María e José Ignacio López Vigil, da Nicarágua. A obra, narrada aos capítulos, usa de muita pesquisa histórica e irreverência para refazer o cenário bíblico com um Jesus extremamente humano, tomado por dúvidas, mas apaixonado pela justiça. Ele inspira aos poucos um movimento de homens e mulheres livres, comprometidos com a construção do Reino de Deus. Desde o início, as autoridades religiosas condenaram o livro por sua “fuga da Bíblia” e o proibiram, com ameaças e até mesmo excomunhões. Entretanto o livro é legítimo representante do apelo popular que a Teologia da Libertação pretende, a obra sendo reproduzida largamente e logo se tornando um “livro proscrito”, compartilhado entre os fiéis. Sem dúvida, devido à poderosa mensagem de “apaixonar-se pelo que Jesus faz” que o livro passa.

“Foi na sinagoga de Nazaré onde Jesus anunciou pela primeira vez a mensagem de libertação a seus conterrâneos. Naquela ocasião Jesus descreveu os sinais que caracterizam essa libertação. Agora, depois de um tempo de atividade na Galiléia manda que digam a João que o anunciado começa a se cumprir. Até aquele momento, a atividade de Jesus havia sido o que hoje chamaríamos uma tarefa de “conscientização”. Com sinais e com palavras, Jesus havia despertado entre os pobres de Cafarnaum e das aldeias, a esperança de sua libertação e a consciência de sua dignidade. O Reino de Deus começa precisamente quando no coração do Homem se abre caminho para certeza de que todos somos iguais, de que as diferenças entre os seres humanos são contrárias à vontade de Deus, e a partir desta convicção, o homem acha forças para lutar por um mundo justo e livre. Antes de passar a qualquer ação libertadora, o cristão tem de tomar consciência desta mensagem, essencial ao evangelho. Não há ação libertadora sem uma prévia conscientização libertadora.” (cap. 45, Uma pergunta chegou da cadeia)

“O texto profético de Isaías no qual Jesus baseou sua missão (Is 61, 1-2) falava de cegos, de surdos, de mortos... Uma interpretação que reduz os sinais do Reino Messiânico a simples e isoladas curas com as quais Jesus demonstrava quanto poder tinha, falseia o evangelho. Cegos eram os que não viam, os que Jesus – com sua capacidade de fazer com que o homem se supere – fez com que voltassem a ver. Mas cego é, também, o pobre que, mergulhado na injustiça e vítima dela, não vê como sair dessa situação e chega a se cegar, quando pensa que sempre foi assim, assim será sempre. Surdo é o que não escuta com seus ouvidos e mais ainda o pobre que não escuta as vozes que falam de libertação, porque sua dor o fez perder as esperanças de que tudo possa mudar. Surdo é o que acaba se tornando fatalista e passivo. Mortos estão os que nunca viveram uma vida humana e só suaram e choraram, oprimidos por outros homens que os trataram como animais. Quando estes cegos vêem, estes surdos são capazes de ouvir e estes mortos se levantam de suas tumbas de miséria, o Reino de Deus está chegando. Porque o evangelho é uma boa notícia de libertação. Uma libertação integral que irá mais além desse mundo, libertando-nos da própria morte, mas que começa já nesta terra.” (cap. 45, Uma pergunta chegou da cadeia)

“Assim como Jesus nos ensinou em sua vida e com suas palavras que não há oposição entre ação e oração, entre amor a Deus e amor ao irmão, não devemos criar nenhuma oposição entre o trabalho de evangelização e o de promoção humana, como se a promoção fosse uma tarefa horizontal, de menor categoria para o cristão por ser “política”, e a evangelização fosse superior, mais pura, por ser vertical e relacionar-nos diretamente com Deus. Esta oposição é falsa, pois entre evangelização e promoção humana há uma contínua inter-relação. Evangelizar o homem é anunciar-lhe a boa notícia de sua dignidade de filho de Deus e em nome desta mesma dignidade infinita o homem deve ser libertado da fome, da falta de cultura, da dependência econômica... Promover o homem é abri-lo a todas as realidades físicas, intelectuais, políticas... Também à realidade da fé, pois a dimensão religiosa é essencial ao ser humano. Não existe nenhuma contradição. Ambas as tarefas estão profundamente relacionadas.” (cap. 60, De dois em dois)

COMISSÃO DE LAUSANNE

O lado Protestante moveu-se bem menos que o Católico, no sentido de produzir mudanças sociais. Apesar disso, uma poderosa ação teve lugar em Lausanne/Suíça. Formou-se uma Comissão para a Evangelização Mundial, composta por delegados de 150 países e organizada pelos famosos pregadores Billy Graham e John Stott. O encontro fundador, em 1974, estabeleceu o comprometimento de Jesus com as populações pobres e a necessidade de intervenção da Igreja em casos de injustiça contra os homens. Além disso, a Comissão admitiu que as influências culturais locais sobre a Igreja no 3º Mundo não eram menos perturbadoras que as influências grega e romana na Europa, de forma que as culturas locais deveriam ser usadas como vias de Cristianização e não combatidas pela Igreja.

“Primeiro, o próprio Jesus se identificava constantemente com os pobres e os fracos. Aceitamos a obrigação de seguir suas pegadas nesse assunto, como em todos os demais. Pelo menos, através do amor que ora e dá, pretendemos fortalecer nossa solidariedade para com eles.”

“Porém, o que Jesus fez foi mais que uma obra de auto-identificação. Em seu ensinamento, bem como no dos apóstolos, o corolário das boas novas aos oprimidos foi uma palavra de juízo contra o opressor (p. ex. Lucas 6.24-26; Tiago 5.1-6). Confessamos que, em situações econômicas complexas não é fácil identificar os opressores, a fim de denunciá-los, sem cair numa retórica estridente que não leva a lugar algum. Não obstante, concordamos em que há ocasiões em que nosso dever de cristãos é falar, de alto e bom som, contra a injustiça, em nome do Senhor que é o Deus da justiça tanto quanto da justificação. Nele procuraremos a coragem e sabedoria para agirmos assim.”

“Este Conselho expressou sua preocupação sobre o sincretismo nas igrejas do Terceiro Mundo. Mas não nos esquecemos de que as igrejas ocidentais caem no mesmo pecado. De fato, a forma mais insidiosa de sincretismo no mundo de hoje talvez seja a tentação de mesclar um evangelho privatizado de perdão pessoal com uma atitude mundana (ou mesmo demoníaca) para com a riqueza e o poder. Não estamos nós mesmos isentos de culpa nesse assunto. Mas desejamos ser cristãos integrados, para os quais Jesus seja realmente Senhor de tudo. De maneira que nós, que pertencemos ao Ocidente, ou somos oriundos dele, precisamos examinar a nós mesmos e procurar nos libertar do sincretismo ao estilo ocidental.”

De qualquer forma, os anos 1980 do Brasil viram despontar a riqueza e o poder econômicos das igrejas Neo-pentecostais, dentro do setor Protestante. Até os anos 2000, mais e mais líderes Neo-pentecostais foram admitidos nos círculos de poder financeiro e político, a ponto de constituir um grupo específico dentro do Senado Federal. Obviamente, tal enriquecimento não se refletiu em qualquer melhora da situação social no país, de forma que a Igreja Protestante brasileira, está, até o momento, descompromissada com as questões sociais. Não é essa a realidade dos EUA, por exemplo.

FRANCISCO I

Em 2013, os conflitos políticos que levaram à abdicação do papa Bento XVI também deram voz, dentro da Igreja Católica, a uma ala esquerdista que, embora não seja filiada à Teologia da Libertação, advoga por causas semelhantes, como uma atenção maior da Igreja aos problemas políticos que produzem a injustiça social. Em sua 1ª Encíclica, o papa Francisco I escreveu:

“Assim como o mandamento “Não matarás” estabelece um claro limite para salvaguardar o valor da vida humana, hoje também temos que dizer “Não farás” a uma economia de exclusão e desigualdade. Essa economia mata. Como pode ser que não noticiem quando um idoso morre de exposição ao frio, mas seja notícia que o mercado de ações perdeu dois pontos? Este é um caso de exclusão. Podemos ficar parados quando a comida é jogada fora e pessoas estão morrendo de fome? Este é um caso de desigualdade. Hoje tudo vem sob as leis da competição e a sobrevivência do mais forte, onde os poderosos se alimentam dos impotentes. Como conseqüência, massas de pessoas se encontram excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem possibilidades, sem qualquer meio de fuga.

Os seres humanos são considerados bens de consumo para serem usados ​​e depois descartados. Criamos uma cultura de “jogar fora” que agora está se espalhando. Não se trata mais simplesmente de exploração e opressão, mas de algo novo. Em última análise, a exclusão tem a ver com o que significa ser parte da sociedade em que vivemos; os excluídos não são mais a parte inferior da sociedade ou os que vivem nas suas bordas - eles não fazem mais parte dela. Os excluídos não são os “explorados”, eles são as “sobras”.

Neste contexto, algumas pessoas continuam a defender teorias que se traduzem em que o crescimento econômico, encorajado por um livre mercado, terá sucesso inevitável em trazer maior justiça e inclusão no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos fatos, exprime uma crua e ingênua confiança na bondade daqueles que exercem o poder econômico, e no funcionamento sagrado do sistema econômico vigente. Enquanto isso, os excluídos ainda estão esperando. Para manter um estilo de vida que exclui os outros, ou para manter o entusiasmo por esse ideal egoísta, uma globalização da indiferença se desenvolveu. Quase sem ter consciência disso, acabamos sendo incapazes de sentir compaixão pelo clamor dos pobres, chorar pela dor de outras pessoas e sentir necessidade de ajudá-los, como se tudo isso fosse responsabilidade de outra pessoa e não nossa. A cultura da prosperidade nos amortece. Estamos muito satisfeitos se o mercado nos oferecer algo novo para comprar. Nesse meio tempo, todas essas vidas atrofiadas por falta de oportunidade parecem um mero espetáculo; eles não conseguem nos mover.”

CONCLUSÃO AFINAL

Tendo alcançado os dias atuais, não há muito mais o que dizer. Somos uma Igreja partida entre Católicos, Protestantes e Ortodoxos, cada qual com seus subgrupos. Ao longo desses 2019 anos, deixamos para trás um Jesus preocupado com o sofrimento de seu povo não tanto nas mãos dos romanos, mas do egoísmo de uns pelos outros. O Jesus que dizia aos ricos para abandonarem tudo foi seguido por fiéis coletores de ajudas para a comunidade, como Paulo e Estevão; organizadores de ritos dominicais para alimentar os famintos, como Justino; intelectuais pregando pela administração justa do dinheiro como Agostinho e João Crisóstomo. E mesmo assim tivemos uma igreja fazedora de fortunas e subserviente aos nobres em Bizâncio, que via com assombro os Waldenses e Franciscanos escolherem andar entre os pobres. Foi uma igreja que arrecadou dinheiro para fazer escolas, hospitais e orfanatos, mas que também gerou as Casas de Trabalho para explorar aqueles que se sacrificam por comida. Foi uma igreja que se aliou ao poder do Nazi-fascismo, mas que também o desafiou com o custo da vida. Que pregou o Socialismo Cristão nos palanques, que desenhou um Evangelho Social para que os Cristãos ajudassem seus necessitados.

Na 2ª metade do séc. 20, enquanto os Católicos promoveram um Concílio, a Teologia da Libertação e estruturas administrativas como a Congregação Nacional dos Bispos do Brasil, hoje protegida por Francisco I, os Protestantes não avançaram além da antiga YMCA com seus dormitórios coletivos e a Comissão de Lausanne, que pouco fez além de reconhecer o tamanho do problema que tinha nas mãos. Enquanto isso, o segmento Neopentecostal fez sua opção pelo poder político, ajudando mesmo no erguimento de estruturas opressoras de poder. Ao ver isso, acabamos pensando: “Porque só uma parte dos Cristãos se importa com fazer o que Jesus fazia? Porque perderam tanto da coragem de fazer coisas simples como Ele e Paulo faziam pelo próximo?” É como se fôssemos uma sombra distante, enfraquecida por tantos anos à deriva no tempo. Na verdade, mal nos lembramos de Jesus e engolimos os mesmos deuses cruéis de metal que os mais vis dos homens disputam entre si.

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*Hoje, é quase impossível desvincular o nome YMCA da música do grupo Village People (1978). A música fala debochadamente sobre a estadia em um grande hotel, frequentado por pessoas de todos os tipos e lugares. De fato, essa foi uma forma bastante comum, nos EUA dos anos 1950-1980, de apresentação do YMCA. Tratavam-se de pensões muito baratas, construídas originalmente para servirem de moradia para aqueles que vinham do campo para a cidade. Nos anos 70-80, porém, as pensões passaram a ser ocupadas principalmente por pessoas que perderam suas casas por hipotecas. Até 2006, haviam muitas dessas instalações nos EUA.

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JÁ FOI O TEMPO DE LER

Gladden W, The Christian Way, Dodd, Mead & Company, NY, 1877.
Hull House - wikipedia
O EVANGELHO E A CULTURA, Relatório da reunião de Consulta realizada em Willowbank, Somerset Bridge, Bermudas, entre 06 e 13 de janeiro de 1978. Patrocinada pelo Grupo de Teologia e Educação de Lausanne. ABU Editora e Visão Mundial.
Rauschenbusch W, A Theology for a Social Gospel, The Maximillan Company, NY, 1917.
Social Gospel - wikipedia
Um tal Jesus - Radialistas.net
Walter Rauschenbusch, christianitytoday.com, Christian History
YMCA - wikipedia

quarta-feira, 15 de maio de 2019

O Cristianismo da Pobreza - 2ª parte (séc. 15 ao 20)


Acima, Esq. - Desenho da jornalista estadounidense Nellie Bly, que se fingiu de insana e documentou em um diário os horrores dentro do asilo Blackwell, em Nova York (1867). Acima, Centro - Charge do jornal italiano Il Fischietto, 1871, satirizando um frade a proteger o mendigo na igreja. Acima, Dir. - pastor Friedrich Niemöller, que acusou os Protestantes de conivência com o Nazismo. Abaixo, Esq. - “Casa de trabalho” em Londres, Inglaterra, 1900. Abaixo, Dir. - pastor Dietrich Bonhoeffer, preso pela oposição ao extermínio dos judeus.

Esse texto é uma continuação de O Cristianismo da Pobreza - 1ª parte, que conta as ações sociais da Igreja Cristã até os dias atuais. No último texto, seguimos até o movimento dos Franciscanos.

ADMIRÁVEL IDADE MODERNA

A Idade Média terminou no meio do séc. 15, através de grandes mudanças na Europa. O Islã recuou da Espanha para o norte da África. Bizâncio, a Roma Oriental, foi dominada pelo Islã e interrompeu-se o fluxo terrestre de mercadorias entre Ocidente e Oriente. Os Cristãos Ocidentais se repartiram entre Católicos Romanos e Protestantes. Começaram as navegações através dos oceanos para América, África Ocidental, Índia e China. Na prática, isso mudou completamente o comércio no mundo: prometiam-se grandes lucros para os reis e comerciantes, fortunas para os destemidos e também novas doenças. Para a população mais desfavorecida da Europa, a divisão religiosa marcou a intervenção do Estado nos serviços oferecidos.

Os reinos Católicos perseveraram na tradição dos hospitais e esmolas. Os Franciscanos, em especial, tornaram-se famosos por esse serviço (e muitas vezes eram eles que pediam esmolas). Os países Protestantes direcionaram os dízimos para o Estado ou para órgãos superiores das Igrejas e criaram leis contra a mendicância (pois os pobres às vezes eram peregrinos portadores de pragas do Oriente). Mas também formaram órgãos governamentais, que contratavam os pobres para reparar e limpar ruas e pontes, por exemplo.

Os Ortodoxos foram englobados pelo Islã, com o qual mantiveram boas relações. No entanto, a região da Etiópia, Grécia, Turquia e Romênia, sob o comando dos sultões Ottomanos, não permitiu que a Igreja Cristã tivesse uma função social. No mundo Católico Ocidental (reinos que seriam depois Portugal, Espanha, França e Itália), a caridade fazia Deus gostar dos homens. Era absolutamente necessária para garantir a ida ao Paraíso e o escape do Purgatório (nesse último caso, na forma de ofertas ou missas pagas pela família do morto). No mundo Protestante (reinos que seriam Suécia, Noruega, Dinamarca, Inglaterra, Alemanha, Holanda e Suíça), a caridade transmutou-se em ofertas de trabalho nas casas de família, comércios, campos ou prefeituras. Nos cultos, pregava-se a missão do evangelho de Mateus: alimentar os famintos, vestir os maltrapilhos, dar de beber sedentos, visitar os enfermos, acolher os viajantes, enterrar os mortos (uma inserção do livro de apócrifo de Tobias), cuidar dos órfãos e das mães solteiras, além dos prisioneiros.

Uma vez que o número de carentes era grande e até havia entidades para arrecadar esmolas, as igrejas Protestantes hierarquizaram quem receberia benefícios. Às vezes, isso significava coletas em toda uma cidade. Primeiro vinham as viúvas, órfãos, abandonados, doentes, peregrinos e pobres voluntários (como os Franciscanos e Waldenses); depois os desonrados, que haviam perdido suas fortunas; depois os artesãos e acometidos por crises econômicas (como aumento do preço do pão); por fim vinham os fraudulentos e expulsos de suas comunidades religiosas. Muitos desses últimos foram tentar sua sorte na América.

Nos países Católicos, era muito difundida a teologia do Pastor de Hermas, onde os pobres e os ricos eram tais pelo desígnio de Deus, de forma que os pobres orassem pelos ricos em agradecimento. Já o pregador protestante Ulrich Zwingli, por exemplo, lamentava “Ninguém doa em felicidade, pelo amor a Deus e ao próximo, mas por medo do Diabo, do Inferno e de um Deus tirano, para comprar sua eternidade”. No lado Protestante, diversos filósofos apontavam que a má administração pública era causadora da miséria.

Entre os sécs. 16 a 18, os reinos da Europa se anexaram sob famílias muito poderosas, que governavam colônias rurais e extrativistas na América, África, Índia e China. A Igreja Católica empreendeu várias missões no norte da África à procura do lendário reino de Padre João, uma estória contada nos livros da Roma antiga, e que seria um aliado contra o Islã. Em 1520, depois de quase 100 anos procurando, os espanhóis Rodrigo de Lima (explorador) e Francisco Alvares (franciscano) trouxeram notícias sobre o reino de Lebna Dengel, na Etiópia, que mantinha tradições Cristãs*.

A América dos Incas, Maias e Aztecas foi visitada por caravelas de Espanha, Portugal, França, Holanda e Inglaterra. Embora os navegadores criassem portos nas outras culturas, penetrar países e estabelecer bases ali foi um trabalho diplomático das igrejas Católica e Protestante. Junto com “converter pagãos e anunciar o Evangelho como Cristo mandou”, estava o ideal de conseguir poder junto às grandes coroas. Quanto aos povos encontrados, eram primitivos para Católicos e Protestantes; seriam humanos na medida em que fossem aculturados e convertidos. Para as coroas ia além: os estrangeiros eram lucro.

A ordem dos Jesuítas (Católica) se opôs a esse sistema e, como foram os 1os direcionados ao além-mar, perderam status até decaírem em “ordem mendicante”. Os Metodistas e Batistas (Protestantes) acabaram caçados ou fuzilados por exploradores. Quase tudo que sabemos dessa época ficou guardado em documentos e cartas dos religiosos.. Na China e Índia, os Jesuítas tentaram converter as nobrezas destes reinos, o que irritou muito as ricas famílias européias.

Com a queda dos Jesuítas, as ordens enviadas ao redor do mundo passaram a ser Franciscanos, Dominicanos, Augustinianos (Católicos) e Anglicanos (Protestantes), que destruíram os cultos nativos (e várias vezes foram sacrificados aos deuses, também), mas estabeleceram hospitais, escolas e comércio nas colônias. Isso resultou em um sem-número de pobres, órfãos, idosos abandonados, mutilados e doentes nas colônias.

RUMO A UMA NOVA ERA

A política Protestante de prover os pobres com trabalho e serviços municipais atingiu seu ápice no séc. 17, prestes a entrar na Era Industrial, com a organização de Paróquias. Cada Paróquia recebia donativos de 50-100 casas gerenciadas por uma igreja, registrava os moradores e supria necessidades dos mais pobres. Como algumas Paróquias eram mais solícitas, muita gente se mudava em busca de ajuda. Os mais necessitados eram encaminhados a “Casas de pobres”, construções para 200-1000 pessoas com o design de prisões, onde os pobres eram separados em categorias. As “Casas” recebiam uma verba estatal mas em grande parte deveriam manter suas finanças**. Lá havia alimentação, cuidados médicos e dormitório; os moradores realizavam serviços como cuidar dos doentes, ensinar, quebrar pedras ou ossos (para fazer fertilizantes), limpar fios de telégrafos e enrolar cordas resinadas para a indústria naval. Muitos trabalhadores eram crianças ou idosos vivendo em condições de higiene e alimentares que se tornaram alarmantes.

Nos reinos Católicos, que se mostraram grandes conquistadores de terras, persistia a crença de que dar esmolas era um ato religioso e, portanto, o Estado não devia intervir. Assim, a Igreja Católica produziu instituições filantrópicas como hospitais, orfanatos e asilos mantidos por doações das Paróquias e das famílias ricas. No Brasil, apareceram as Santa Casas de Misericórdia (Santos/SP em 1543, Salvador/BA em 1549, Rio de Janeiro/RJ em 1567, São Paulo/SP em 1599, João Pessoa/PB em 1602, Belém/PA em 1619, Vitória/ES em 1818). Uma carta na Baviera, em 1791, registra: “Muitos são da opinião que dar esmolas não é meritório, se não for entregue pessoalmente. A partir desta regra, quase geral, a bênção de Deus permanecerá na casa". Embora os reinos Protestantes também tivessem sérios problemas no cuidado com os pobres, entre o Mundo Católico ficava claro que o propósito da caridade era assegurar bênçãos divinas, e não reverter a pobreza.

DEPOIS DAS REVOLUÇÕES

A entrada no séc. 19 ficou cravejada de revoluções em todo o mundo. A mais famosa foi a Revolução Francesa, mas aí se encaixam a independência dos EUA e também do Brasil. As ciências despontavam com a descoberta do mundo microscópico, química e engenharia de motores. Comerciantes e empresários influenciavam os rumos da política a ponto de emprestar dinheiro aos reis e ameaçá-los. Na América surgiam novas nações; na África, Índia e China, os europeus assumiam controle dos territórios. Os países Católicos, fiéis à tradição de manter hospitais públicos, asilavam agora idosos, órfãos, mães solteiras, doentes e criminosos. Esse papel social foi muito importante no Brasil, por exemplo, mas também impediu que os governos vissem o cuidado com os desfavorecidos como sua responsabilidade. Por um lado, o cuidado com os pobres criava uma servidão voluntária dos pobres às famílias ricas, para que recebessem seus donativos Cristãos (o que estruturou muito da sociedade colonial); por outro lado, transformava os pobres em joguetes da política, diplomaticamente organizados pela Igreja.

O serviço assistencial era visto como uma obrigação das famílias ricas (que pagavam à Igreja, por isso), mas não um direito dos pobres. Basicamente, os governos permitiam todos os abusos capitalistas e mercantilistas contra as populações (e isso constituiu, especialmente na América, um sistema de servidão), deixando para a Igreja remendar, no que pudessem, os seus desmandos. Na França, a Revolução produziu instituições que eram controladas pelo Estado (as mesmas dos tempos da monarquia) mas contratavam religiosos para fazer o mesmo serviço feito antes. A contratação de mulheres para os serviços sociais em instituições público-católicas até se tornou uma fonte de empregos para a classe média.

Nos países Protestantes, o Estado assumiu a responsabilidade pelos pobres. Nesses países, a pobreza era vista como desvio pecaminoso do homem, até irreversível (sobretudo nas comunidades calvinistas¹). Aos pobres era necessário oferecer oportunidades de trabalho, de forma que se esforçassem ao máximo para mudar sua condição. Caso não pudessem fazê-lo (geralmente não podiam), seria um sinal divino de sua miséria. Considerando que os recursos estatais eram na forma de recebimento de alimentos, abonos, etc, e não uma garantia de direitos, a Igreja acabou se aliando com a classe empresarial para garantir a exploração da mão de obra desses desvalidos mais pobres. Eles deveriam, acima de tudo, merecer seus benefícios! Isso produziu, tanto na Europa quanto na América do Norte, a organização dos pobres em guetos fiscalizados ou gerenciados pelas comunidades das igrejas. Por um lado havia a garantia do acesso ao pão e água, por outro havia a cobrança de que trabalhassem o mais possível, pelo salário que os ricos quisessem pagar. Na metade do séc. 19, quase todos os guetos e “Casas de trabalho” européias abrigavam pessoas vinculadas à indústria têxtil, extremamente lucrativa (não para os pobres).

O séc. 19 viu o despontar dos governos Luteranos (ex. Dinamarca, Suécia, Noruega) como grandes promotores de equidade social. Esses países combinaram a idéia Católica de criar organizações e instituições religiosas de apoio aos necessitados, onde nada precisava ser dado em troca, com a assistência por parte do Estado. Assim, a Igreja era fornecedora da mão de obra e o Estado mantinha a entrada de capital. Os países Luteranos foram os primeiros a enviar missões humanitárias para a América, África e Ásia.

Por volta de 1890, na Europa, a pobreza movimentava um mercado de trabalho “sob a chibata Protestante”. Nas colônias ao redor do mundo, essa pobreza replicava a sociedade feudal, com as famílias ricas e a Igreja Católica cuidando/governando massas populares. Bem longe do “cuidar dos órfãos e viúvas”, essa época produziu uma Igreja Cristã privilegiada econômica e politicamente, apoiada sobre as costas dos pobres junto com uma minoria rica. A riqueza não santificava exatamente, mas tornava moralmente correto. Essa “moral religiosa” marcou o Cristianismo do início do séc. 20.

OS NOVOS DONOS DO MUNDO

O séc. 20 inicia com a 1ª Guerra Mundial e tem sua metade marcada pela 2ª Guerra². Nos países pobres, esse período pode ser bem descrito por uma repartição da sociedade entre o ambiente rural (que fornecia matérias primas para os países ricos) e o ambiente urbano (as indústrias nos países pobres produziam para mercados interno e externo, os países ricos recebiam os dividendos). Essa migração das indústrias foi, em grande parte, uma forma de as empresas fugirem do Socialismo europeu, que estabelecia regras de proteção aos trabalhadores. Nos países pobres, não haviam regras.

Os governos dessas terras, agora eram completamente substituídos/comprados pelos governos europeus (mais ou menos como nos tempos pós-Alexandre o Grande ou de Roma). Na parte urbana das colônias, a lei de exploração estrangeira foi trocada por uma lei de exploração trabalhista. Na parte rural, houve um distanciamento entre os patriarcas ricos e as populações que controlavam: agora, os pobres - incluindo muito ex-escravos - eram servos de ricos senhores urbanos com os quais tinham pouco ou nenhum contato. Na América do Norte, fortaleceram-se igrejas Pentecostais como organização política de pobres e ex-escravos. 

Os Luteranos e Batistas chefiaram a implantação de um sistema de ajuda social, que chegou a ser missionário na África Ocidental. Para lá também foram Anglicanos e Luteranos da Europa, muitos dos quais presenciaram os crimes contra a Humanidade praticados no Grande Congo e outras regiões. Na América Central e no Brasil, a Igreja Católica esteve muito ligada à repulsão do Socialismo nas cidades, enquanto mantinha seu tradicional sistema de hospitais, asilos, orfanatos e abrigos, que permanecia distante das cidades interioranas e não era suficiente para as capitais.³

As medidas sanitaristas que aconteceram entre o final do séc. 19 e a 2ª Guerra deram o 1º passo para uma mudança nas perspectivas de vida e saúde da população em todo o mundo. Foram, entretanto, medidas para uns poucos: os trabalhadores urbanos, sem acesso a condições de saúde adequadas, circulavam por conduções, vielas e bairros erguidos para serem guetos, para manter eles e sua imundície longe das áreas frequentadas pelos mais ricos. As populações foram separadas nas igrejas (Católicas e Protestantes), ou as próprias igrejas eram separadas.

Na Europa, os movimentos Socialistas e Nazi-fascistas ganharam força e, enquanto os Protestantes do norte tentaram não se envolver, mantendo o ideal de separação entre Igreja e Estado, os Católicos do sul travaram relações tensas com o grupo Nazi-fascista. A Revolução Russa, iniciada em 1905, não abriu caminho para a Igreja Ortodoxa - antes, restringiu ainda mais os Cristãos a um segmento oculto e silencioso da população.

Os movimentos que levaram o Gen. Francisco Franco ao poder em 1936 (Espanha), também expropriaram a Igreja Católica de todas as suas propriedades, bens e função educacional. Os Jesuítas foram banidos. Na Itália, a unificação dos reinos havia quebrado os vínculos com a Igreja Católica e o movimento de Benito Mussolini, em 1930, assegurou a autoridade papal, de forma que ele foi aclamado como “aquele que devolveu a Itália para Deus”. No mesmo ano, os movimentos que elegeram Adolf Hitler (Alemanha) se mostraram hostis ao Catolicismo. Muitos padres chegaram a ser fuzilados. Apesar disso, os Católicos Alemães em geral eram simpatizantes do Regime, pois o Socialismo pregava justamente contra as influências religiosas. Houve muitas tentativas de Roma em estabelecer relações pacíficas com Hitler. Todas foram assinadas e ignoradas em momento oportuno. Mesmo antes da Guerra, cerca de 28 milhões de pessoas foram assassinadas por esses regimes; com a 2ª Guerra, mais 55 milhões foram mortos.

No Brasil dos anos 1930, o governo do Gen. Getúlio Vargas pretendeu substituir alguns serviços filantrópicos como as escolas, até então totalmente mantidas por famílias ricas ou pelas Igrejas Católica e Luterana. Houve uma aproximação entre Igreja e Exército e criou-se um sistema de educação profissional, hoje chamado “Sistema S” (Senai, Senac, Sesi, etc), onde a participação da Igreja era menor. Nas periferias, contudo, a educação e saúde continuavam nas mãos da Igreja, que também fazia a função de repelir o Socialismo.

Ficou famoso nessa época o pastor Friedrich Gustav Emil Martin Niemöller, da Igreja Luterana da Alemanha, que se opôs a considerar Cristãos apenas os arianos (loiros, de olhos verdes, filhos de outros arianos). Ele publicou um poema de grande circulação, hoje gravado em vários monumentos:

“Primeiro vieram contra os socialistas e eu não falei - porque eu não era socialista. Então eles vieram contra os sindicalistas e eu não falei - porque eu não era sindicalista. Então eles vieram contra os judeus e eu não falei - porque eu não era judeu. Então eles vieram contra mim - e não havia mais ninguém para falar por mim.”

Niemöller foi preso em um campo de concentração e, mais tarde, assinou a Declaração de Culpa de Stuttgart (1945), onde responsabilizava os Protestantes pela não resistência ao Nazismo.

Outro nome importante dos anos 1930 foi o pastor Dietrich Bonhoeffer. Ficou famoso por sua atividade unificadora das igrejas protestantes e seu livro “O preço do discipulado”, sobre a função do Cristianismo no mundo secular. Ele se opôs diretamente à perseguição e morte dos judeus na Alemanha, sendo preso em 1943. Bonhoeffer foi acusado de um atentado contra Hitler e fuzilado, em 1945.

AGUARDAMOS UMA CONCLUSÃO

Nesse período da história, a Igreja se dividiu e, de formas muito distintas, tentou formas de tratar com a existência da pobreza no mundo. Os Católicos criaram entidades de assistência, que porém não eram numericamente suficientes; os Protestantes inseriram na política do Estado a manutenção dos pobres (o que, muitas vezes, gerou uma exploração ainda maior deles). Nas crises econômicas e políticas que marcaram a metade do séc. 20, encontramos igrejas lutando ou cooperando com o Estado segundo seus interesses de privilégios, segurança e poder, mas não mais em benefício daqueles que Jesus chamava de "benditos".

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* Algumas obras notáveis que resultaram dessas missões diplomáticas foram Historia de los Indios de la Nueva España, de Toribio de Benavente Motolinia, 1536; Brevíssima relação da destruição das Índias e Historia de Las Índias, de Bartolomé de las Casas, 1550; Florentine codex: general history of the things of New Spain, de Bernardino de Sahagun, 1550; Historia ecclesiastica Indiana, de Jeronimo de Mendieta, 1595; The natural and moral history of the Indies, de Joseph de Acosta, 1590; Historia de las islas del archipielago y reynos de la gran China, Tartaria, Cuchinchina, Malaca, Sian, Camboxa y Iappon, y de los sucedido en ellos a los religiosos descalços, de Marcello de Ribadeneyra, 1601; História da Etiopia, de Pedro Páes, 1620; Tratados históricos, políticos, éticos y religiosos de la monarquia de China, de Domingo Fernández Navarrete, 1676.

** Curiosamente, a idéia de organizar os pobres para sustentarem uns aos outros foi bastante difundida por alguns religiosos filiados à Teologia da Libertação, um movimento Igreja Católica. Na série “Um tal Jesus”, de María e José Ignacio López Vigil, por exemplo, a “multiplicação dos pães e peixes” se transforma em reunião dos alimentos de muitos seguidores para formar um jantar.

¹ Calvinismo: teologia atribuída ao pregador Protestante francês John Calvin, onde Deus tem visão absoluta da existência humana e, portanto, elegeu alguns para a Salvação e outros para a Destruição. Essa condição expressa-se (mas nem sempre) na prosperidade de cada um e perpassa aos seus descendentes. A observação das leis de Deus é obrigatória a todos, embora só os predestinados possam gozar disso.

² Nenhuma das Guerras Mundiais teve origem religiosa. Antes, foram guerras econômicas. A 1ª Guerra (1914-1918) foi um embate do Oeste Europeu contra o Leste Europeu pelas colônias na África e Ásia. As lutas foram nas colônias comerciais e os países do Oeste venceram, causando fragmentações por crises econômicas no Leste. As colônias mudaram de mãos, algumas formaram forças revolucionárias. Mas o sistema Capitalista estava em crise. A 2ª Guerra (1939-1945) foi uma luta do Capitalismo Liberal (sem regras) contra o Capitalismo Estatal = Nazi-facismo (economia e vida das pessoas governada pelo Estado). Foi uma luta dentro da Europa pelo controle das cidades e indústrias. Muitas nações ricas foram arruinadas, enquanto o Socialismo ganhou força em ambos os lados. Diversas colônias conseguiram independência. Os países pobres, com populações frágeis em relação aos governos, em geral absorveram a filosofia Nazi-facista e iniciaram regimes militares.

³ Mesmo os países europeus de tradição Católica como Portugal, Espanha, França, etc são historicamente os que menos produziram em termos de igualdade social.

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MELHOR QUEIMAR TAIS LIVROS

Benito Mussolini - wikipedia
Clapsis E, Peace, economic injustice and the orthodox church, Greek Orthodox Archdiocese of America, 17/ago/2010
Dietrich Bonhoeffer - wikipedia
Kahk S, The religious roots of modern poverty policy: Catholic, Lutheran, and Reformed Protestant traditions compared. Archives Européennes de Sociologie / European Journal of Sociology/Europäisches Archiv für Soziologie, p. 91-126, 2005
Martin Niemöller - wikipedia
Mereles C, Direito à saúde - história da saúde pública no Brasil, politize.com.br, 23/abr/2018
Nellie Bly - wikipedia
Pandolfi D, Repensando o Estado Novo, Ed. Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro, 1999
Poor relief - wikipedia
Umbertino R, The poor - our masters, Orthodox Church in America, 2004
Workhouse - wikipedia

segunda-feira, 29 de abril de 2019

O Cristianismo da Pobreza - 1ª parte (séc. 1 ao 14)


Esquerda: decapitação de São Justino em 165 d.C., mosaico na Igreja Monte das Beatitudes/Jerusalém; Centro: Santo Agostinho, pintura de Pietro di Giovanni D'Ambrogio/Itália, 1435; Direita: encontro entre o sultão Malek al-Kamil e Francisco de Assis, em 1219, no Egito - pintura do Frei Robert Lentz/EUA

Ver ações da Igreja Cristã em benefício de populações carentes talvez não seja vívido na memória dos mais novos como é, na dos mais velhos. Até os anos 1970, por exemplo, diversos países da América Latina, assolados por regimes ditatoriais ou a mais legítima exploração capitalista tiveram intervenções da Igreja Católica. Raramente essas intervenções assumiram um papel político, no entanto. Uma ação política significa mobilizar grupos sociais para desfazer esquemas de exploração dos mais fracos pelos mais poderosos. Isso pode descambar para movimentos revolucionários e rebeldias, o que jamais foi o objetivo da Igreja, sempre associando a palavra “revolução” com a guerra de Lúcifer*. Mas como desmontar um sistema social / econômico em que algumas pessoas ricas, favorecidas legal e politicamente, se beneficiam do sofrimento de outras, sem produzir uma revolução? Desde o século 1, esse tem sido o desafio de parte da Igreja.

JESUS

O ponto inicial desses movimentos religiosos foi o nascimento e convivência de Jesus entre os mais pobres. É difícil avaliar a posição social de Jesus a partir dos Evangelhos, mas a profissão do pai como carpinteiro, o nascimento em um lugar frequentado por pastores, a convivência com pescadores, a não menção de qualquer propriedade faz pensar que Jesus estava entre os mais pobres de sua gente, só acima dos inválidos e leprosos. Quando Ele ainda emenda a fala “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus" (Marcos 10.25), conclui-se imediatamente que Jesus não era rico.

Mas como Jesus via as pessoas com posses? Embora muitos sejam tentados a pensar logo no elogio da viúva pobre por doar “duas pequeninas moedas de cobre, de muito pouco valor” (Marcos 12.42), é importante ressaltar que se trata de uma fala sobre doação, antecedida por uma repreensão aos mestres da lei, que “devoram as casas das viúvas” (Marcos 12.40) e coroada por “deu tudo o que possuía para viver" (Marcos 12.44). O que Jesus acaba fazendo com seu exemplo é parear as condições “favorecido” e “ruim”. Mas isso não O impediu de se envolver com centuriões romanos e publicanos, até incluindo Mateus, um deles, entre o seu grupo de apóstolos (Mateus 10.2-4).

No episódio do jovem rico, anotado apenas por Lucas em sua pesquisa histórica, Jesus coloca como condição para ser salvo que ele “vendesse tudo o que possui e desse o dinheiro aos pobres, tendo então um tesouro nos céus" (Lucas 18.22). Embora essa passagem deixe dúvidas sobre a importância de livrar-se do dinheiro ou de dar o mesmo aos pobres, ela é bem semelhante à conversa de Jesus com o publicano Zaqueu:

“Olha, Senhor! Estou dando a metade dos meus bens aos pobres; e se de alguém extorqui alguma coisa, devolverei quatro vezes mais". Jesus lhe disse: "Hoje houve salvação nesta casa! Porque este homem também é filho de Abraão”. (Lucas 19.8,9)

Não se relata, curiosamente, um episódio semelhante com Mateus, também publicano, ou alguma evidência posterior com Paulo de Tarso, fariseu-romano bem abastado. De fato, a preocupação da Igreja Primitiva com as riquezas parece se resumir em as riquezas serem distrações que afastam de Deus, mais ou menos como os espinhos da Parábola do Semeador. É Tiago (irmão de Jesus) quem primeiro estrutura essa relação Cristã com os pobres, resgatando-a do profeta Isaías:

As suas mãos estão cheias de sangue! Lavem-se! Limpem-se! Removam suas más obras para longe da minha vista! Parem de fazer o mal, aprendam a fazer o bem! Busquem a justiça, acabem com a opressão. Lutem pelos direitos do órfão, defendam a causa da viúva. (Isaías 1.15-17)

A religião que Deus, o nosso Pai aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo. (Tiago 1:27)

IGREJA PRIMITIVA

A forma como o livro de Atos descreve a organização da Igreja Primitiva, isto é, com as pessoas vendendo suas posses e levando o dinheiro para repartir entre todos (Atos 2.44,45), conforme a necessidade de cada um, sugere ainda uma sociedade comunal. Podemos pensar que em tal sociedade inexistem riscos e pobres, nem uma classe privilegiada, mas as primeiras cartas apostólicas, relativas às igrejas nascentes, sugerem que não havia tal controle.

Quando vocês se reúnem, não é para comer a ceia do Senhor, porque cada um come sua própria ceia sem esperar pelos outros. Assim, enquanto um fica com fome, outro se embriaga. Será que vocês não têm casa onde comer e beber? Ou desprezam a igreja de Deus e humilham os que nada têm.. (1ª Coríntios 11.20-22)

Mas vocês têm desprezado o pobre. Não são os ricos que oprimem vocês? Não são eles os que os arrastam para os tribunais? (Tiago 2.6)

Seguindo o mandamento de Jesus quanto a “amar o próximo”, assim como Isaías e Tiago, vemos Paulo reunindo, em suas viagens, doações com as quais ajudava os crentes mais pobres:

Naqueles dias, crescendo o número de discípulos, os judeus de fala grega entre eles queixaram-se dos judeus de fala hebraica, porque suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária de alimento. Por isso os Doze reuniram todos os discípulos e disseram: "Não é certo negligenciarmos o ministério da palavra de Deus, a fim de servir às mesas. Irmãos, escolham entre vocês sete homens de bom testemunho, cheios do Espírito e de sabedoria. Passaremos a eles essa tarefa ..." Então escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, além de Filipe, Prócoro, Nicanor, Timom, Pármenas e Nicolau, um convertido ao judaísmo, proveniente de Antioquia. (Atos 6.1-5)

Agora, porém, estou de partida para Jerusalém, a serviço dos santos. Pois a Macedônia e a Acaia tiveram a alegria de contribuir para os pobres dentre os santos de Jerusalém. Eles tiveram prazer nisso, e de fato são devedores a eles. Pois se os gentios participaram das bênçãos espirituais dos judeus, devem também servir aos judeus com seus bens materiais. Assim, depois de completar essa tarefa e de ter a certeza de que eles receberam esse fruto, irei à Espanha e visitarei vocês [romanos] de passagem. (Romanos 15.2528)

Tiago, Pedro e João, tidos como colunas, ... somente pediram que nos lembrássemos dos pobres, o que me esforcei por fazer. (Gálatas 2.9,10)

Um relato do final do séc. 1 nos chega pela 1ª carta de Clemente, bispo de Roma, aos Coríntios (81-96 d.C.). Nessa carta, Clemente ressalta a natureza pobre e humilde de Jesus, diversas vezes evocando as passagens acima, de Isaías.

cap. 16 1. Cristo está entre os humildes, e não entre aqueles que se sobrepõem ao seu rebanho. 2. O Senhor Jesus Cristo, cetro da majestade de Deus, não veio, embora pudesse, no alarde da arrogância ou da soberba, mas humilde, conforme o Espírito Santo havida dito sobre ele.

Pouco à frente, o livro Pastor de Hermas (96-150 d.C.) também sugere a convivência de ricos e pobres nas igrejas, atribuindo aos ricos a função de cuidar dos pobres e aos pobres a função de orar pelos ricos, pois sua oração era ouvida pelo Senhor (Hermas 51.1-6). Cumprir essas obrigações (tanto os ricos quanto os pobres estavam comprometidos) era, segundo Hermas, condição para ser contado entre as “pedras brancas” que compunham sua torre símbolo do Reino de Deus.

Relatos do séc. 2 nos chegaram, também, por meio da Apologia de Justino**, uma carta ao imperador Tito Élio Adriano Antonino Pio César Augusto (governou de 138 a 161 d.C.), onde o teólogo judeu defende os Cristãos como cidadãos romanos que não deveriam ser tratados por inimigos. Em sua carta, Justino usa passagens de Isaías, Mateus e Clemente, apontando que os ritos dominicais (do dia de Sol, segundo ele) se destinavam a recolher doações para órfãos, viúvas, necessitados, prisioneiros e forasteiros.

5. .. Vem depois a distribuição e participação feita a cada um dos alimentos consagrados pela ação de graças e seu envio aos ausentes pelos diáconos. 6. Os que possuem alguma coisa e queiram, cada um conforme sua livre vontade, dá o que bem lhe parece, e o que foi recolhido se entrega ao presidente. Ele o distribui a órfãos e viúvas, aos que por necessidade ou outra causa estão necessitados, aos que estão nas prisões, aos forasteiros de passagem, numa palavra, ele se torna o provedor de todos os que se encontram em necessidade. (1ª Apologia 67.5-6)

ROMA

A transformação da Igreja em órgão político deu-se a partir do Incêndio de Roma em 64 d.C., seguida pela destruição de Jerusalém em 70 d.C. Com judeus e Cristãos transformados em párias da sociedade romana, sua organização em grupos onde cada protegesse os demais foi essencial para que sobrevivessem. As 1as dioceses (Roma, Alexandria, Síria, … ) já estabeleceram redes de proteção entre os Cristãos que culminaram, por exemplo, no estabelecimento de reinos como Axum na Etiópia, Hymiar no Iêmen depois Bizâncio na Turquia. O surgimento de uma classe rica e poderosa de Cristãos acabou por atrelar a Igreja ao governo imperial, a ponto de o rei Constantino I declarar o Cristianismo como fé do Império, no início do séc. 4. O que nos restou de tal época foram os documentos de definição da doutrina Cristã, litigiosos e militares, muito pouco atentos a questões sociais.

No séc. 5, Agostinho bispo de Hippona Regia, no norte da África gerenciado pela diocese de Cartago, escreveu sua obra “Cidade de Deus”. Agostinho provavelmente foi uma das pessoas mais influentes no Cristianismo romano e medieval (sécs. 4 a 16). No livro, ele descreve uma Roma se fragmentando, sendo invadida por estrangeiros e culpando os Cristãos pelos rumos tenebrosos do Império.

“Mas alguns homens bons e cristãos foram submetidos à tortura, para os forçar a entregarem seus bens ao inimigo. Eles não podiam entregar nem perder aquele bem que os tornava bons entre os homens. Se, no entanto, eles preferiam a tortura à rendição das riquezas, então eu digo que eles não eram bons homens. Antes, deveriam ser lembrados de que, se sofriam tão severamente por causa do dinheiro, deveriam suportar todo tormento por amor a Cristo. Que eles aprendam a amá-Lo antes, e saibam que Ele enriquece com felicidade eterna todos os que sofrem por Ele. Não o fazem a prata nem o ouro, pelos quais era lamentável sofrerem, quer os preservassem mentindo ou os perdessem dizendo a verdade.” (Cidade de Deus, cap. 10)

Agostinho compõe as imagens de uma “cidade dos homens” gerida por vícios e concupiscências, ou libertinagens, e uma “cidade de Deus” governada pela devoção e aperfeiçoamento dos homens, atrelando uma e outra aos acontecimentos da sua época e à longa história do Império. A divisão social dentro do Cristianismo fica evidente quando Agostinho cita, em sua obra, o grande valor das esmolas dadas pelos Cristãos ricos aos Cristãos pobres.

“... Ele pode assim mostrar a ineficácia da caridade para eliminar os pecados do passado. Tais pessoas que dão esmolas, ao invés de mudarem maus hábitos de vida por uns melhores, não podem ser ditas como fazendo obras de caridade. Pois este é o significado do ditado: se você não fez bem a um dos menores destes, você não fez bem para mim (Mateus 25:45). Eles não realizam ações de caridade mesmo quando pensam que estão fazendo isso. Pois, se dessem pão a um cristão faminto porque ele é cristão, certamente não negariam a si mesmos o pão da justiça, isto é, o próprio Cristo. Deus não considera a pessoa a quem o presente é feito, mas o espírito no qual ele é feito.” (Cidade de Deus, cap. 27)

Quando enalteceu uma vida simples e pobre (Agostinho foi um exemplo disso), ele de certa maneira definiu o que seria dos monges medievais: homens que abjuraram de suas posses, que entregaram tudo para entrar no Reino de Deus, para não serem desencaminhados pelas riquezas. A Igreja Cristã, enquanto isso, tornou-se a instituição recebedora dessas doações.

Em toda a Europa, à medida que o governo romano recuava e as terras ficaram reduzidas a pequenos reinos sem lei, sabemos que os mosteiros tiveram um forte papel educacional. Em seu círculo de monges pobres e auto-sustentantes (essa era a filosofia de São Benedito de Nursia, Itália - 480 a 547 d.C.), a Igreja se tornou o polo urbano e organizador da vida medieval no Ocidente.

No Oriente, a Igreja e o Império de Bizâncio/Constantinopla enriqueciam com o comércio de seda e incenso para Índia e Arábia, bloqueando a expansão do Islã com Cristãos, pela 1ª vez na história, treinados para a guerra..

IDADE MÉDIA

Esse período entre o desmantelamento de Roma Ocidental (aprox. 500 d.C.) e a destruição de Roma Oriental pelo Islã (1453) foi caracterizada por enormes contrastes entre os Cristianismos Ocidental e Oriental, a ponto de que ambos separaram-se oficialmente em 1054. O ano 1000 e a Grécia representavam fronteiras importantes no tempo e espaço da Idade Média.

No Oriente, falamos de Grécia, Turquia, Egito e Palestina. Toda essa região era controlada por Bizâncio/Roma Oriental, com capital em Constantinopla e usando o grego como idioma. Paulo chamava essa região de Galácia, por onde passavam as caravanas de seda, linho, incenso e pedras preciosas indo da China e Índia para o Iêmen e então para a Europa. Por isso Bizâncio enriqueceu e, como tinha a Igreja atrelada ao Estado, floresceram igrejas. Apesar disso, o modelo grego de Cristianismo era pouco centralizado, com muitos religiosos casados e cada comunidade cuidando de si própria, o que levou a uma separação definitiva do Ocidente em 1054 (no Ocidente ficaram os Católicos Romanos e, no Oriente, os Católicos Ortodoxos). O rico Estado/Igreja Bizantino manteve um equilíbrio fluido com o Islã, através de batalhas e acordos monetários com os povos vizinhos.

A população de Bizâncio era mais tradicional, instruída e urbana que a de Roma Ocidental, sendo formada por judeus, gregos e romanos abraçados pelo Cristianismo. Essa fusão produziu menos desigualdade social e mais abertura religiosa, além de as culturas grega e judaica favorecerem debates filosóficos. Como era uma rota comercial, Bizâncio oferecia muitos empregos aos pobres, seja nos mercados de todos os tipos, serviços portuários ou mesmo como ladrões de mercadorias. A aristocracia enquanto isso cuidava de barcos e remessas, ou de negócios e expedições militares contra o Islã, no Mediterrâneo e Mesopotâmia. Após o ano 1000, os favores imperiais por sucessos comerciais e militares faziam famílias inteiras ascenderem ou afundarem socialmente. A alta mortalidade por pragas do Oriente ou batalhas requeria uma ação social importante da Igreja na manutenção de asilos e orfanatos. A Igreja Ortodoxa, apesar de ligada ao Estado, sempre foi a responsável por manter as instituições de ajuda aos pobres, baseando-se sobretudo na pregação de João Crisóstomo (349-407 d.C.), bispo de Constantinopla e até hoje um ícone no Cristianismo Oriental.

"Privar é pegar o que pertence a outro. Por isso somos ensinados que quando não mostramos misericórdia, seremos punidos como aqueles que roubam. Porque o nosso dinheiro é do Senhor, no entanto, podemos tê-lo em mãos. Se fornecermos para os necessitados, obteremos grande abundância. É por isso que Deus permitiu que você tivesse mais: não para você desperdiçar prostitutas, bebidas, comidas chiques, roupas caras e todos os outros tipos de indulgência, mas distribuir para os necessitados. Um funcionário do tesouro imperial, quando se nega a distribuir o que é ordenado, mas em vez disso se dedica à sua própria indulgência, paga a multa e é condenado à morte. Assim também o rico é um tipo de mordomo do dinheiro para distribuição aos pobres. Ele é ordenado a distribuí-lo aos seus companheiros que estão em falta. Então, se ele gastar mais consigo mesmo do que sua necessidade exige, ele pagará a pena mais severa. Porque os seus próprios bens não são seus, mas pertencem aos seus conservos. Devemos usar nossos bens com parcimônia, como pertencentes a outros, para que eles possam se tornar nossos. Como devemos usá-los sendo pertencentes a outros? Quando não os gastamos além de nossas necessidades, e não gastamos apenas para as nossas necessidades, mas entregamos partes iguais às mãos dos pobres. Se você é rico, mas gasta mais do que precisa, você dará uma conta dos fundos que lhe foram confiados. Isso também acontece em grandes famílias. Muitas pessoas confiaram seus assuntos financeiros a seus empregados domésticos. Aqueles que receberam esta confiança guardam o que lhes foi dado, e não fazem mal uso do dinheiro, mas o distribuem onde e quando o seu mestre o orienta. Você também deve fazer isso. Pois você obteve mais do que os outros, não para gastá-lo por si mesmo, mas para se tornar um bom administrador" (João Crisóstomo)

No Ocidente, falamos da Europa entre Espanha e Turquia. A África fora perdida para o Islã, assim como parte da Espanha e França. Esse lado da Europa empobreceu e se fragmentou em inúmeros reinos sob autoridade de bárbaros - mais precisamente pagãos semi-convertidos ao Cristianismo. A vida dos pobres era regulada pela proteção e ataques militares das famílias ricas, que mantinham acordos diplomáticos com os mosteiros. Os nobres defendiam suas terras (contra outros nobres) e às vezes os mosteiros; os mosteiros negociavam acordos entre os nobres, além de ajudarem os pobres em épocas de crise. Não havia luxos ou uma “classe média”; as pessoas tinham seus destinos traçados ao nascer nobres (destinados ao serviço militar, por isso o nome “cavaleiros”) ou camponeses (literalmente destinados ao campo). Dependendo das colheitas boas ou não, os camponeses dependiam das esmolas coletadas pelos mosteiros.

Esmolas eram, como acusava Agostinho, a forma de famílias ricas comprarem a bênção Cristã. Uma marca dessa época é a titulação de nobres como “santos” e seu enterro dentro das igrejas. Também a Igreja era detentora de terras, criando uma teia de recolhimento de produtos onde muitas vezes os mosteiros e abadias acumulavam fortunas. Os mosteiros beneditinos, cujo lema era “trabalho e adoração”, tornaram-se centros educacionais (educação = ensino estórias bíblicas ou locais por pinturas nas paredes¹), médicos e sociais da população que vivia em chalés rústicos de madeira espalhados nos campos ou nas bordas das florestas. A educação religiosa fez os camponeses profundamente religiosos, regulando seu dia e calendário por significados Cristãos. Por outro lado, as famílias ricas vinham de clãs pagãos antigos e os pobres, sujeitos à imprevisibilidade das colheitas, cultuavam deuses agrícolas como Lug, Kernunos, Dagda, Thor, etc. Tal fusão cultural e o desuso de textos religiosos produziu tradições como a Páscoa (ressurreição de Cristo + ovos e animais no início da primavera), o dia de Finados (oração pelos mortos + Samhain ou dia dos mortos) e a Caça às bruxas (causas misteriosas de pestilências + encantamentos com ervas e animais).

Após o ano 1000, a Europa Ocidental voltou a receber linho, lã, medicamentos (ex.ópio) e incenso do Oriente, vindos por Bizâncio (Roma Oriental). Muitas famílias nobres se filiaram à Igreja na reconquista da Terra Santa, enquanto a Igreja sacralizou os direitos sobre as terras. Com menos conflitos na Europa e cavaleiros sendo sustentados, as vilas tornaram-se cidades dentro de fortalezas, onde se aninhavam as abadias. Muitos nobres e religiosos entraram no “exército celestial”, que combatia tempestades, doenças e as forças do mal formadas por demônios, bruxas e bestas. Os cuidados médicos nos mosteiros evoluíram para hospitais de leprosos e idosos (eram locais onde se mantinham os doentes longe da população, com alguém lhes fornecendo alimento), peregrinos (viajar para um local sagrado e fazer doações lá era um modo usual de obter perdão legal e religioso), doentes (os cuidados médicos da época não iam muito além de alimentação e dormitório para quem não conseguia trabalhar) e pobres (locais onde eram distribuídas doações da Igreja e dos nobres). Esses abrigados eram chamados de “irmãos e irmãs”, nomes que depois foram usados pelos religiosos, sendo sustentados principalmente pelo trabalho comunal junto com os religiosos, em terras da Igreja, ou por doações de rejeitos dos mercados.

Foi nessa situação que um mercador de tecidos da fronteira França/Itália chamado Peter Waldo assumiu um discurso religioso por volta de 1170. Ele declarou seus bens um fardo para seguir a Cristo (quem se lembra do jovem rico?) e diversos padres o seguiram. Seu grupo, “Os Pobres de Lyon/da Lombardia”, defendia a pobreza voluntária, inexistência do Purgatório (para o qual a Igreja coletava muitas doações), pregação leiga e a tradução da Bíblia para o Arpitan (dialeto Franco-Provençal). Foram até Roma defender-se perante o papa, acabando excomungados anos depois. Até o séc. 16 houve perseguição e morte de Waldenses, mas se descentralizaram e semearam movimentos por toda Itália e França. Em 1202, juntou-se a eles o jovem Giovanni di Pietro di Bernardone, também de uma rica família de comerciantes de tecidos, que voltava da guerra entre os reinos italianos de Perugia e Assis. Giovanni fez a sua versão do Waldensianismo menos rebelde às doutrinas, mas ainda clamando pela pobreza e cuidado com os pobres. Ordenado Francisco de Assis, ele seria a 3ª figura Cristã mais influente na Europa, atrás apenas de Jesus e Maria.

FRANCISCO

Já próximo ao final da Idade Média, o grupo dos “Irmãos Menores” de Francisco ficou famoso por sua defesa da humildade e pobreza perante o papa Inocente III, em 1209, conseguindo o que Peter Waldo não pode. Peregrinando entre o centro e o norte da Itália, eles conseguiram muitos adeptos em seu propósito de caridade, a ponto de que novas ordens mendicantes surgiram e Francisco foi ao Egito, 10 anos depois, como diplomata da Igreja junto ao sultão Malek al-Kamil. Grande parte do que se sabe dele foi escrito postumamente, especialmente na obra Fioretti (Pequenas Flores) de Frei Ugolino Brunforte, que conta sobre milagres e a transição de comando da ordem para Irmão Bernardo.

“Irmão Bernardo, fazendo o santo sinal da cruz, em nome da santa obediência, partiu para Bolonha. Mas quando chegou naquela cidade, as crianças viram que estava vestido estranhamente e mal, então riram e zombaram dele, tomando-o por louco. Todas estas provações ele aceitou pelo amor de Cristo, com grande paciência e alegria. Procurando ser ainda mais desprezado, foi ao mercado, onde, tendo se sentado, um grande número de crianças e homens se reuniu. Puxaram-no pelo capuz, jogando pedras e poeira. A tudo isso, Irmão Bernardo suportou em silêncio, com expressão de santa alegria no semblante, e por vários dias retornou ao mesmo lugar para receber os mesmos insultos. A paciência sendo uma obra de perfeição e prova de virtude, um doutor culto da lei, vendo tal virtude e constância nele, disse dentro de si : “Sem dúvida este homem deve ser um grande santo”. Indo até ele, ele perguntou quem ele era, e de onde vinha.” (Fioretti, cap. 5)

Fioretti parece resumir as estórias contadas localmente sobre Francisco de Assis e seu grupo, formando uma lenda onde o ponto central não estava tanto em ajudar os pobres, mas em destituir-se das riquezas como foi pedido ao jovem rico, para que não atrapalhem. Além disso, a imagem de Francisco que se construiu condiz muito com a idéia medieval de atrair a bênção divina suportando um sofrimento pessoal, mesmo causado por si mesmo e sem benefício de qualquer um.

AINDA NÃO É UMA CONCLUSÃO

Embora a ajuda aos órfãos e viúvas seja mandamento bíblico, as ações da Igreja no sentido de prover auxílio para os necessitados começou de forma pontual e pouco eficaz. Ela cresceu muito lentamente ao longo dos séculos, vinculada talvez mais a ações políticas do que religiosas (embora sempre ligada à Igreja), enquanto a estrutura religiosa do Cristianismo tornou-se exuberante.

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* A batalha de Lúcifer contra Deus, curiosamente, é em grande parte uma construção imaginativa. Citada de forma profética e nebulosa em um trecho do Apocalipse, ela ganhou o imaginário ocidental pela obra Paraíso Perdido, de John Milton (1667). O livro, escrito em forma de poema pelas filhas de um autor cego, e depois ilustrado pelo artista Gustave Doré (que ilustrava Bíblias) em 1866, foi tão impactante que mais ou menos se tornou o ensino religioso sobre a Criação.

** Justino defendeu os Cristãos mas acabou, depois de confrontar o filósofo Crescens em Roma, sendo acusado de ser Cristão. Julgado com mais 6 alunos seus perante um tribunal, ele e os demais se recusaram a fazer sacrifício aos deuses romanos e foram decapitados.

¹ Existe até hoje uma expressão européia para os vitrais e pinturas na igrejas: “Bíblia do homem pobre”.

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LEIA QUEM FOR LEITOR

Estamos divulgando aqui as obras contidas no site Apologistas Católicos, onde se pode encontrar diversas obras do início da Igreja Cristã. Vale a pena conhecer. 

Augustino de Hippona, City of God, séc. 5
Byzantine Empire - wikipedia
Cartright M, Society in the Byzantine Empire, Ancient History Encyclopedia, ancient.eu, abr/2018
Crisótomo J, 2º sermão sobre Lázaro e o homem rico
Cristãos do norte, loungecba.blogspot.com, set/2016
Francis of Assisi - wikipedia
Geary P. J., Peasant religion in medieval Europe, Cahiers d'Extrême-Asie, 185-209, 2001
Mark JJ, Silk Road, Ancient History Encyclopedia, ancient.eu, mai/2018
Sweetinburgh S., The hospital experience in medieval England, Historyextra.com/BBC, mar/2016
Ugolino Brunforte, Little flowers of St. Francis of Assisi (Fioretti), séc. 14
Waldensians - wikipedia