Mostrando postagens com marcador catolicismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador catolicismo. Mostrar todas as postagens

sábado, 8 de junho de 2019

O Cristianismo da Pobreza - 3ª parte (1950 até hoje)

Da esquerda para a direita: Walter Rauschenbusch, pastor da Igreja Batista e idealizador do Evangelho Social; Gustavo Gutierrez Merino, padre e teólogo do Peru, um dos idealizadores da Teologia da Libertação; Leonardo Boff (na verdade Genézio Darci Boff), teólogo brasileiro e um dos grandes veiculadores da Teologia da Libertação; o Jesus moreno e sorridente que sempre foi ícone das obras dos irmãos López Vigil, na Nicarágua.

Esse texto é o final de uma trilogia sobre os pobres Cristãos desde os dias de Jesus até hoje. As demais partes podem ser lidas nos links abaixo:


Os movimentos socialistas no séc. 19 não deixaram de penetrar na Igreja. De um lado, a Igreja Católica se opôs ao Socialismo, vendo a pobreza como um desígnio de Deus. Os pobres se aliavam à Igreja na medida em que ela reunia doações dos ricos para educação e saúde; os ricos eram abençoados por esmolas e doações. Do outro lado, Luteranos, Anglicanos e Metodistas aderiram a ações clamadas inicialmente pelos socialistas: as missões luteranas foram as primeiras a implantar serviços estatais na América do Norte, África Ocidental e Índia. Os Ortodoxos, expandindo-se para o Ocidente, também se associaram aos movimentos sociais.

O Socialismo organizou-se politicamente na 2ª metade do séc. 19 com o filósofo alemão Karl Marx (1818-1883). Marx analisou a manutenção da desigualdade social e pregava como única forma de transformação que os pobres se organizassem, conquistassem à força o poder político. Ele também convivia com uma Igreja Católica conivente com a exploração trabalhista, de forma que definiu a religião como “ópio do povo”. Em seu livro “Crítica da Filosofia de Direita de Hegel” (1843), ele assinalou que a religião acalmava as tensões sociais e distraía os pobres de lutarem por seus direitos. Consequentemente, movimentos como as revoluções Russa (1905), Chinesa (1911) e Guevarista, na América Latina (anos 1950-1970), que se inspiraram no trabalho de Marx, quase sempre tentaram instituir o Ateísmo. Isso apenas fortaleceu a oposição Católica ao Socialismo.

LEÃO XIII E O SOCIALISMO

Apesar da oposição socialista ao Cristianismo e vice-versa, já no final do séc. 19, representantes do Catolicismo e do Protestantismo se filiaram a movimentos sociais. Em 1891, o papa Leão XIII publicou sua encíclica Rerum Novarum (mudança política), sobre o Capital e o Trabalho. 

Os elementos do conflito agora são inconfundíveis, na vasta expansão das atividades industriais e das maravilhosas descobertas da ciência; nas relações alteradas entre mestres e operários; nas enormes fortunas de alguns poucos indivíduos e na total pobreza das massas; o aumento da autoconfiança e a combinação mais próxima das classes trabalhadoras (1) … Acrescente-se a isso que a contratação de mão-de-obra e a conduta comercial estão concentradas nas mãos de poucos, de modo que um pequeno número de homens muito ricos colocou sobre as massas abundantes de trabalhadores pobres um jugo pouco melhor do que a escravidão (3) … Que exercer pressão sobre o indigente e o indigente em prol do ganho, e obter o lucro da necessidade do outro, é condenado por todas as leis, humanas e divinas. Defraudar qualquer salário devido é um grande crime que clama à ira vingadora do céu. "Eis que o salário dos trabalhadores, que por fraude foi contido por vós, clama; e o clamor deles entrou nos ouvidos do Senhor dos exércitos." Por fim, os ricos devem abster-se religiosamente de reduzir os ganhos dos operários, seja pela força, por fraude ou por negócios usurários; e com toda a razão maior, porque o trabalhador é, via de regra, fraco e desprotegido, e porque seus meios fracos devem ser considerados sagrados em proporção a sua escassez (20).

A carta de Leão XIII às igrejas era uma clara reação aos movimentos socialistas na Europa, considerados “agitadores”. Mas ela também trazia para a Igreja persuadir os ricos a agir com ética e evitar a desigualdade social.

SOCIALISMO CRISTÃO

Nos EUA, começaram a aparecer figuras Protestantes pregadoras de um “Socialismo Cristão”, que enxergava nas ceias comunais da Igreja Primitiva um modelo alternativo para o Socialismo. Um desses foi o Francis Julius Bellamy (1855-1931), que chegou a ser vice-presidente. Bellamy é conhecido por redigir a Declaração de Aliança, um recital patriótico de aliança dos homens como iguais sob a bandeira dos EUA. Embora ele tenha falado bravamente contra o racismo após a libertação dos escravos e a Guerra Civil estadounidense, defendia a segregação dos imigrantes, chamados de “pessoas menores" que rebaixariam os padrões nacionais. Em 1891, Bellamy foi demitido da Igreja Batista por pregar contra os males do capitalismo e descrever Jesus como socialista. Outra dessa figuras foi Norman Thomas (1884-1968), um pastor Presbiteriano que atuou contra a participação dos EUA na 1ª Guerra. Quando a Igreja deslocou seus recursos da ajuda as populações carentes para o militarismo, Thomas filiou-se ao Partido Socialista.

RAUSCHENBUSCH E O EVANGELHO SOCIAL

Não tardou para que os protestantes estadounidenses, sobretudo Batistas, que foram formados através de massas ex-escravas da Guerra Civil, forjassem um “Evangelho Social”. Tal filosofia não pretendia inserções políticas, mas que nomeava as igrejas para cuidar dos desfavorecidos. O pastor Washington Gladden (1836–1918) deu forma à idéia em seu livro O Jeito Cristão (1877), onde defendia a inserção dos Cristãos em todas as atividades humanas, de forma a melhorá-las segundo a vontade de Deus.

“Aqueles cristãos cuja principal preocupação é a sua própria condição espiritual, são um tipo muito pobre de cristãos. Uma santidade autoconsciente é uma contradição em termos. É através de um serviço de auto-esquecimento que a cultura mais elevada é obtida; através do seguimento fiel dAquele que não veio para ministrar a Si mesmo, e não para ser ministrado, mas para ministrar aos outros; que se tornou Rei dos reis e Senhor dos senhores por sua total auto-rendição; e cujo maior elogio é foi zombado por seus assassinos". (cap. Christians quiet life)

Um paladino desse movimento foi o reverendo Walter Rauschenbusch, da Igreja Batista, que reuniu seus estudos sobre o Socialismo Alemão ao trabalho que realizava em Hell's Kitchen/NY, um bairro extremamente pobre e abundante de criminalidade. Rauschenbusch falava em 2 conversões, uma a Cristo como divindade, outra a Cristo como motor de ajuda às populações pobres. Seu livro “Teologia para um Evangelho Social” (1917) foi um marco para ações da Igreja.

Rauschenbusch afirmava que o Evangelho individualista tornou clara a pecaminosidade do indivíduo, mas não mostrou a pecaminosidade institucionalizada. Segundo ele, e também o que mais tarde seria a versão Católica da Teologia da Libertação, o Reino de Deus é a exata proposta teológica do Evangelho Social. Essa pregação de Jesus foi gradualmente substituída pelo culto à figura de Cristo. Isso foi feito a princípio pela igreja primitiva a partir do que parecia ser uma necessidade, mas Rauschenbusch chamava os Cristãos a retornar à doutrina do "Reino de Deus".

“Mas, de fato, ao longo da história, a política da maioria dos Estados foi moldada para tornar fácil e perpétua a condição pecaminosa. Homens que estiveram sob os ensinamentos do cristianismo durante toda a vida nem sequer percebem que o parasitismo [dos ricos sobre os pobres] é pecado, tão profundamente nosso insight sobre o pecado foi obscurecido pela falta de um ideal religioso da vida social”. (cap. A natureza do pecado)

“Não podemos tolerar que pessoas pobres e trabalhadoras sejam privadas de condição física, juventude, educação, igualdade e justiça, a fim de permitir que outros vivam vidas luxuosas. Nos revolta ver essas condições perpetuadas pela lei e pela força organizadas, ou justificadas pelos formadores da opinião pública. Nenhuma das chaves oferecidas pelo cristianismo individualista pode mudar isso”. (cap. A concepção de Deus)

“A Ceia do Senhor estava conectada com a realização dos ideais sociais e esperanças da Igreja. A prevalência da profecia no cristianismo primitivo aponta na mesma direção. Ele agia como uma interpretação da Ceia do Senhor. A perspectiva do retorno do Senhor tornou-se fraca com o passar do tempo. O ato eucarístico desligou-se da refeição fraterna, e isso diminuiu muito seu valor social. A refeição ainda era realizada ocasionalmente à noite, mas se transformou em uma apresentação de caridade onde os ricos alimentavam os pobres e, finalmente, tais eventos cessaram de acontecer. O ato eucarístico estava agora ligado ao culto da igreja no domingo de manhã”. (cap. Batismo e a Ceia do Senhor)

YMCA

Nos EUA e na Europa, o Evangelho Social gerou abrigos e escolas para órfãos, imigrantes e pobres, principalmente na região de Chicago/EUA. Esses abrigos recebiam imigrantes e proviam alimentação e educação para as crianças, assim como cursos de inglês e profissionalizantes para os adultos, sobretudo italianos. Mais tarde eles se expandiram para playgrounds, piscinas, campos, teatros e ginásios públicos. Outro fruto foi o grupo, hoje internacional, denominado YMCA* (YMCA = Young Men's Christian Association), que surgiu na Inglaterra com o objetivo de levar desenvolvimento físico, espiritual e mental aos povos. O grupo inicialmente pretendia ajudar imigrantes do campo a se estabelecer nas cidades, mas suas estruturas de escolas, institutos profissionalizantes e centros esportivos acabaram se convertendo em pólos sociais nas cidades do Canadá e Europa. Em todas as unidades do YMCA, sempre foi dada importância à pregação Cristã e estudos religiosos. Na América Latina, o YMCA teve contribuições importantes no desenvolvimento do Panamá e Peru.

CONCÍLIO DO VATICANO

A vertente Católica não se interessou prontamente pelo Evangelho Social que, apesar disso, lembrava muito as obras sociais Católicas. A idéia de argumentar pela “igualdade das pessoas” parecia revolucionária demais para a Igreja! No entanto, em 1961 o papa João XXIII (1881-1963) convocou todos os cardeais para uma longa revisão das atuações da Igreja. Na sua encíclica Pacem in Terris (paz na terra), ele deixou exposto, quando morreu, as novas diretrizes definidas para os Católicos.

44. Ao invés, universalmente prevalece hoje a opinião de que todos os seres humanos são iguais entre si por dignidade de natureza. As discriminações raciais não encontram nenhuma justificação, pelo menos no plano doutrinal. E isto é de um alcance e importância imensos para a estruturação do convívio humano segundo os princípios que acima recordamos. Pois, quando numa pessoa surge a consciência dos próprios direitos, nela nascerá forçosamente a consciência do dever: no titular de direitos, o dever de reclamar esses direitos, como expressão de sua dignidade, nos demais, o dever de reconhecer e respeitar tais direitos.

56. Acresce que por sua mesma natureza, todos os membros da sociedade devem participar deste bem comum, embora em grau diverso, segundo as funções que cada cidadão desempenha, seus méritos e condições. Devem, pois, os poderes públicos promover o bem comum em vantagem de todos, sem preferência de pessoas ou grupos, como assevera nosso predecessor, de imortal memória, Leão XIII: "De modo nenhum se deve usar para vantagem de um ou de poucos a autoridade civil constituída para o bem comum de todos". Acontece, no entanto, que, por razões de justiça e eqüidade, devem os poderes públicos ter especial consideração para com membros mais fracos da comunidade, pois se encontram em posição de inferioridade para reivindicar os próprios direitos e prover a seus legítimos interesses.

89. Realmente não pode um homem ser superior a outro por natureza, visto que todos gozam de igual dignidade natural.

João XXIII assumia como direitos inalienáveis várias coisas às quais a pobreza priva o homem, como educação, saúde, alimentação, participação no Estado, etc, atribuindo ao Estado o direito de vigiar por essas igualdades entre os homens, uma vez que o Estado foi instituído por Deus. Dessa forma, ele criou um movimento anti-concentração de renda e anti-poderio abusivo de uns sobre os outros que inspirou a Teologia de Libertação. João XXIII, entretanto, não expôs mecanismos pelos quais as desigualdades já existentes seriam corrigidas, ainda mais sem movimentos de rebeldia.

À medida que os esforços da Igreja Protestante pelos pobres perdiam força e começavam a ser substituídos por uma reação Católica, o pastor Batista Martin Luther King Jr (1929-1968) assumiu essa frente de batalha quase isoladamente. Naturalmente um ativista pelos direitos dos negros, após a emenda constitucional de 1964 (que criava a igualdade racial na Constituição) ele se dedicou a movimentos pelos direitos das populações pobres. Infelizmente, a articulação política de King e seu isolamento como ativista religioso facilitaram seu assassinato em 1968.

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

Provavelmente influenciados pelo marxismo Guevarista e fortalecidos pelo Concílio do Vaticano sob João XXIII, diversos religiosos latinos se envolveram em ativismos sociais e luta contra a desigualdade de renda. Sua corrente de discurso acabou chamada Teologia da Libertação. Veja-se que seu levante ocorreu justamente quando, após uma avalanche de contato com o Socialismo através do herói Che Guevara, os países latino-americanos em geral recuaram para dentro de regimes militares. Dessa forma, os intelectuais Católicos agindo por igualdade entre as pessoas assumiram, aqui e ali, a figura de inimigos do governo. Vários tiveram de se esconder ou foram assassinados. Alguns nomes desse grupo foram Gustavo Gutiérrez e Samuel Escobar (Peru), Leonardo Boff (Brasil), Juan Luis Segundo (Uruguay), Jon Sobrino (Espanha), René Padilla (Equador) e Orlando Enrique Costas (Porto Rico). Os grandes pensadores foram Sobrino e Boff que, em pouco tempo, haviam formado uma legião de missionários para advogar pelos pobres no Brasil, África Ocidental, Índia, China e Polinésia.

Seu trabalho nos países onde passaram foi criar o ativismo político dentro da Igreja Católica, de forma que a mesma usasse sua influência nos governos em prol dos desfavorecidos. Além disso, tentaram trazer para os cuidados da Igreja, como no passado, as populações carentes. Dessa vez, no entanto, o movimento tinha claramente fins ideológicos e políticos, para criar na população uma consciência dos pecados associados com a desigualdade social. Pecado dos quais todos, de alguma forma, tomavam parte sem perceber.

JESUS CRISTO LIBERTADOR

No Brasil, uma obra poderosa dentro do círculo erudito da Igreja, feita para arrebanhar padres e bispos, foi o livro “Jesus Cristo Libertador” (1972), de Leonardo Boff.

“Basta vermos as imagens de Cristo nas grandes igrejas a partir do séc. 3. O Jesus de Nazaré, fraco no poder mas forte no amor, que renunciou à espada e à violência condenando-as, foi recalcado pelo Cristo político constituído pela Ressurreição em Senhor do Mundo. Seus representantes papas e bispos governam em seu nome e usam da força para destruir os ‘inimigos de Deus’. Esqueceu-se rapidamente nos escalões da igreja a violenta crítica movida por Jesus contra a forma [violenta] de exercício do poder no mundo antigo. (Mateus 20:25-28, Lucas 22:25-27, Marcos 10:42-45).”

“Cristo não começou pregando a si mesmo, mas o Reino de Deus. Que significa esse Reino de Deus que constitui indiscutivelmente o centro de Sua mensagem? Para os ouvintes de Jesus significava bem outra coisa que para os ouvidos de fiel moderno, para quem o Reino de Deus é a outra vida, o céu, o pós-morte. Reino de Deus - que ocorre 122 vezes nos evangelhos e 90 na boca de Jesus - significava para os ouvintes de Jesus a realização de uma esperança, no final do mundo, de superação de todas as alienações humanas, da destruição de todo o mal, seja físico, seja moral, do pecado, do ódio, da divisão, da dor e da morte.”

“O Êxodo refere que de 7 em 7 anos devia-se festejar o ano sabático (Êxodo 23:10-12, 21:2-6). Nesse ano todos deveriam sentir-se filhos de Deus e por isso todos se deveriam considerar como irmãos. Os escravos seriam libertados. As dívidas seriam perdoadas e as terras uniformemente distribuídas. Nenhum patrão deveria esquecer que cada homem é um ser livre para Deus (Deuteronômio 15:12-15). O Levítico (25:8-16) revela essa idéia social prescrevendo que de 50 em 50 anos se celebre o ano jubileu. Será um ano de graça do Senhor. Todos serão livres. Cada um voltará para sua terra que será restituída e para sua família. Esse ideal social, porém, jamais foi cumprido. O egoísmo e os interesses feitos sempre foram mais fortes. Por isso tornou-se aos poucos uma promessa para os tempos messiânicos (Isaías 61:1).”

Tal obra se constitui em um profundo estudo das bases teológicas modernas da Igreja Católica e foi muito influente entre o clero Católico latino, servindo de base para a atual política da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, por exemplo.

UM TAL JESUS

No campo popular, bem no começo dos anos 1980 surgiu a obra radiofônica “Um tal Jesus”, dos irmãos María e José Ignacio López Vigil, da Nicarágua. A obra, narrada aos capítulos, usa de muita pesquisa histórica e irreverência para refazer o cenário bíblico com um Jesus extremamente humano, tomado por dúvidas, mas apaixonado pela justiça. Ele inspira aos poucos um movimento de homens e mulheres livres, comprometidos com a construção do Reino de Deus. Desde o início, as autoridades religiosas condenaram o livro por sua “fuga da Bíblia” e o proibiram, com ameaças e até mesmo excomunhões. Entretanto o livro é legítimo representante do apelo popular que a Teologia da Libertação pretende, a obra sendo reproduzida largamente e logo se tornando um “livro proscrito”, compartilhado entre os fiéis. Sem dúvida, devido à poderosa mensagem de “apaixonar-se pelo que Jesus faz” que o livro passa.

“Foi na sinagoga de Nazaré onde Jesus anunciou pela primeira vez a mensagem de libertação a seus conterrâneos. Naquela ocasião Jesus descreveu os sinais que caracterizam essa libertação. Agora, depois de um tempo de atividade na Galiléia manda que digam a João que o anunciado começa a se cumprir. Até aquele momento, a atividade de Jesus havia sido o que hoje chamaríamos uma tarefa de “conscientização”. Com sinais e com palavras, Jesus havia despertado entre os pobres de Cafarnaum e das aldeias, a esperança de sua libertação e a consciência de sua dignidade. O Reino de Deus começa precisamente quando no coração do Homem se abre caminho para certeza de que todos somos iguais, de que as diferenças entre os seres humanos são contrárias à vontade de Deus, e a partir desta convicção, o homem acha forças para lutar por um mundo justo e livre. Antes de passar a qualquer ação libertadora, o cristão tem de tomar consciência desta mensagem, essencial ao evangelho. Não há ação libertadora sem uma prévia conscientização libertadora.” (cap. 45, Uma pergunta chegou da cadeia)

“O texto profético de Isaías no qual Jesus baseou sua missão (Is 61, 1-2) falava de cegos, de surdos, de mortos... Uma interpretação que reduz os sinais do Reino Messiânico a simples e isoladas curas com as quais Jesus demonstrava quanto poder tinha, falseia o evangelho. Cegos eram os que não viam, os que Jesus – com sua capacidade de fazer com que o homem se supere – fez com que voltassem a ver. Mas cego é, também, o pobre que, mergulhado na injustiça e vítima dela, não vê como sair dessa situação e chega a se cegar, quando pensa que sempre foi assim, assim será sempre. Surdo é o que não escuta com seus ouvidos e mais ainda o pobre que não escuta as vozes que falam de libertação, porque sua dor o fez perder as esperanças de que tudo possa mudar. Surdo é o que acaba se tornando fatalista e passivo. Mortos estão os que nunca viveram uma vida humana e só suaram e choraram, oprimidos por outros homens que os trataram como animais. Quando estes cegos vêem, estes surdos são capazes de ouvir e estes mortos se levantam de suas tumbas de miséria, o Reino de Deus está chegando. Porque o evangelho é uma boa notícia de libertação. Uma libertação integral que irá mais além desse mundo, libertando-nos da própria morte, mas que começa já nesta terra.” (cap. 45, Uma pergunta chegou da cadeia)

“Assim como Jesus nos ensinou em sua vida e com suas palavras que não há oposição entre ação e oração, entre amor a Deus e amor ao irmão, não devemos criar nenhuma oposição entre o trabalho de evangelização e o de promoção humana, como se a promoção fosse uma tarefa horizontal, de menor categoria para o cristão por ser “política”, e a evangelização fosse superior, mais pura, por ser vertical e relacionar-nos diretamente com Deus. Esta oposição é falsa, pois entre evangelização e promoção humana há uma contínua inter-relação. Evangelizar o homem é anunciar-lhe a boa notícia de sua dignidade de filho de Deus e em nome desta mesma dignidade infinita o homem deve ser libertado da fome, da falta de cultura, da dependência econômica... Promover o homem é abri-lo a todas as realidades físicas, intelectuais, políticas... Também à realidade da fé, pois a dimensão religiosa é essencial ao ser humano. Não existe nenhuma contradição. Ambas as tarefas estão profundamente relacionadas.” (cap. 60, De dois em dois)

COMISSÃO DE LAUSANNE

O lado Protestante moveu-se bem menos que o Católico, no sentido de produzir mudanças sociais. Apesar disso, uma poderosa ação teve lugar em Lausanne/Suíça. Formou-se uma Comissão para a Evangelização Mundial, composta por delegados de 150 países e organizada pelos famosos pregadores Billy Graham e John Stott. O encontro fundador, em 1974, estabeleceu o comprometimento de Jesus com as populações pobres e a necessidade de intervenção da Igreja em casos de injustiça contra os homens. Além disso, a Comissão admitiu que as influências culturais locais sobre a Igreja no 3º Mundo não eram menos perturbadoras que as influências grega e romana na Europa, de forma que as culturas locais deveriam ser usadas como vias de Cristianização e não combatidas pela Igreja.

“Primeiro, o próprio Jesus se identificava constantemente com os pobres e os fracos. Aceitamos a obrigação de seguir suas pegadas nesse assunto, como em todos os demais. Pelo menos, através do amor que ora e dá, pretendemos fortalecer nossa solidariedade para com eles.”

“Porém, o que Jesus fez foi mais que uma obra de auto-identificação. Em seu ensinamento, bem como no dos apóstolos, o corolário das boas novas aos oprimidos foi uma palavra de juízo contra o opressor (p. ex. Lucas 6.24-26; Tiago 5.1-6). Confessamos que, em situações econômicas complexas não é fácil identificar os opressores, a fim de denunciá-los, sem cair numa retórica estridente que não leva a lugar algum. Não obstante, concordamos em que há ocasiões em que nosso dever de cristãos é falar, de alto e bom som, contra a injustiça, em nome do Senhor que é o Deus da justiça tanto quanto da justificação. Nele procuraremos a coragem e sabedoria para agirmos assim.”

“Este Conselho expressou sua preocupação sobre o sincretismo nas igrejas do Terceiro Mundo. Mas não nos esquecemos de que as igrejas ocidentais caem no mesmo pecado. De fato, a forma mais insidiosa de sincretismo no mundo de hoje talvez seja a tentação de mesclar um evangelho privatizado de perdão pessoal com uma atitude mundana (ou mesmo demoníaca) para com a riqueza e o poder. Não estamos nós mesmos isentos de culpa nesse assunto. Mas desejamos ser cristãos integrados, para os quais Jesus seja realmente Senhor de tudo. De maneira que nós, que pertencemos ao Ocidente, ou somos oriundos dele, precisamos examinar a nós mesmos e procurar nos libertar do sincretismo ao estilo ocidental.”

De qualquer forma, os anos 1980 do Brasil viram despontar a riqueza e o poder econômicos das igrejas Neo-pentecostais, dentro do setor Protestante. Até os anos 2000, mais e mais líderes Neo-pentecostais foram admitidos nos círculos de poder financeiro e político, a ponto de constituir um grupo específico dentro do Senado Federal. Obviamente, tal enriquecimento não se refletiu em qualquer melhora da situação social no país, de forma que a Igreja Protestante brasileira, está, até o momento, descompromissada com as questões sociais. Não é essa a realidade dos EUA, por exemplo.

FRANCISCO I

Em 2013, os conflitos políticos que levaram à abdicação do papa Bento XVI também deram voz, dentro da Igreja Católica, a uma ala esquerdista que, embora não seja filiada à Teologia da Libertação, advoga por causas semelhantes, como uma atenção maior da Igreja aos problemas políticos que produzem a injustiça social. Em sua 1ª Encíclica, o papa Francisco I escreveu:

“Assim como o mandamento “Não matarás” estabelece um claro limite para salvaguardar o valor da vida humana, hoje também temos que dizer “Não farás” a uma economia de exclusão e desigualdade. Essa economia mata. Como pode ser que não noticiem quando um idoso morre de exposição ao frio, mas seja notícia que o mercado de ações perdeu dois pontos? Este é um caso de exclusão. Podemos ficar parados quando a comida é jogada fora e pessoas estão morrendo de fome? Este é um caso de desigualdade. Hoje tudo vem sob as leis da competição e a sobrevivência do mais forte, onde os poderosos se alimentam dos impotentes. Como conseqüência, massas de pessoas se encontram excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem possibilidades, sem qualquer meio de fuga.

Os seres humanos são considerados bens de consumo para serem usados ​​e depois descartados. Criamos uma cultura de “jogar fora” que agora está se espalhando. Não se trata mais simplesmente de exploração e opressão, mas de algo novo. Em última análise, a exclusão tem a ver com o que significa ser parte da sociedade em que vivemos; os excluídos não são mais a parte inferior da sociedade ou os que vivem nas suas bordas - eles não fazem mais parte dela. Os excluídos não são os “explorados”, eles são as “sobras”.

Neste contexto, algumas pessoas continuam a defender teorias que se traduzem em que o crescimento econômico, encorajado por um livre mercado, terá sucesso inevitável em trazer maior justiça e inclusão no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos fatos, exprime uma crua e ingênua confiança na bondade daqueles que exercem o poder econômico, e no funcionamento sagrado do sistema econômico vigente. Enquanto isso, os excluídos ainda estão esperando. Para manter um estilo de vida que exclui os outros, ou para manter o entusiasmo por esse ideal egoísta, uma globalização da indiferença se desenvolveu. Quase sem ter consciência disso, acabamos sendo incapazes de sentir compaixão pelo clamor dos pobres, chorar pela dor de outras pessoas e sentir necessidade de ajudá-los, como se tudo isso fosse responsabilidade de outra pessoa e não nossa. A cultura da prosperidade nos amortece. Estamos muito satisfeitos se o mercado nos oferecer algo novo para comprar. Nesse meio tempo, todas essas vidas atrofiadas por falta de oportunidade parecem um mero espetáculo; eles não conseguem nos mover.”

CONCLUSÃO AFINAL

Tendo alcançado os dias atuais, não há muito mais o que dizer. Somos uma Igreja partida entre Católicos, Protestantes e Ortodoxos, cada qual com seus subgrupos. Ao longo desses 2019 anos, deixamos para trás um Jesus preocupado com o sofrimento de seu povo não tanto nas mãos dos romanos, mas do egoísmo de uns pelos outros. O Jesus que dizia aos ricos para abandonarem tudo foi seguido por fiéis coletores de ajudas para a comunidade, como Paulo e Estevão; organizadores de ritos dominicais para alimentar os famintos, como Justino; intelectuais pregando pela administração justa do dinheiro como Agostinho e João Crisóstomo. E mesmo assim tivemos uma igreja fazedora de fortunas e subserviente aos nobres em Bizâncio, que via com assombro os Waldenses e Franciscanos escolherem andar entre os pobres. Foi uma igreja que arrecadou dinheiro para fazer escolas, hospitais e orfanatos, mas que também gerou as Casas de Trabalho para explorar aqueles que se sacrificam por comida. Foi uma igreja que se aliou ao poder do Nazi-fascismo, mas que também o desafiou com o custo da vida. Que pregou o Socialismo Cristão nos palanques, que desenhou um Evangelho Social para que os Cristãos ajudassem seus necessitados.

Na 2ª metade do séc. 20, enquanto os Católicos promoveram um Concílio, a Teologia da Libertação e estruturas administrativas como a Congregação Nacional dos Bispos do Brasil, hoje protegida por Francisco I, os Protestantes não avançaram além da antiga YMCA com seus dormitórios coletivos e a Comissão de Lausanne, que pouco fez além de reconhecer o tamanho do problema que tinha nas mãos. Enquanto isso, o segmento Neopentecostal fez sua opção pelo poder político, ajudando mesmo no erguimento de estruturas opressoras de poder. Ao ver isso, acabamos pensando: “Porque só uma parte dos Cristãos se importa com fazer o que Jesus fazia? Porque perderam tanto da coragem de fazer coisas simples como Ele e Paulo faziam pelo próximo?” É como se fôssemos uma sombra distante, enfraquecida por tantos anos à deriva no tempo. Na verdade, mal nos lembramos de Jesus e engolimos os mesmos deuses cruéis de metal que os mais vis dos homens disputam entre si.

----------------------------------

*Hoje, é quase impossível desvincular o nome YMCA da música do grupo Village People (1978). A música fala debochadamente sobre a estadia em um grande hotel, frequentado por pessoas de todos os tipos e lugares. De fato, essa foi uma forma bastante comum, nos EUA dos anos 1950-1980, de apresentação do YMCA. Tratavam-se de pensões muito baratas, construídas originalmente para servirem de moradia para aqueles que vinham do campo para a cidade. Nos anos 70-80, porém, as pensões passaram a ser ocupadas principalmente por pessoas que perderam suas casas por hipotecas. Até 2006, haviam muitas dessas instalações nos EUA.

----------------------------------

JÁ FOI O TEMPO DE LER

Gladden W, The Christian Way, Dodd, Mead & Company, NY, 1877.
Hull House - wikipedia
O EVANGELHO E A CULTURA, Relatório da reunião de Consulta realizada em Willowbank, Somerset Bridge, Bermudas, entre 06 e 13 de janeiro de 1978. Patrocinada pelo Grupo de Teologia e Educação de Lausanne. ABU Editora e Visão Mundial.
Rauschenbusch W, A Theology for a Social Gospel, The Maximillan Company, NY, 1917.
Social Gospel - wikipedia
Um tal Jesus - Radialistas.net
Walter Rauschenbusch, christianitytoday.com, Christian History
YMCA - wikipedia

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Madalena Arrependida - estudo da personagem

Pinturas evidenciando Maria Madalena. Os símbolos mais comuns associados a ela são a nudez, pintura, jóias e cabelo enfeitado (prostituta), o manto vermelho (riqueza), o frasco (essência de nardo) e o crânio (vida de reclusão).

Maria Madalena é uma personagem curiosa no Cristianismo. Principalmente porque há muitas tradições sobre ela. O sobrenome “Madalena”, na verdade, foi adicionado para indicar seu nascimento na cidade de Magdala, na margem oeste do Mar da Galiléia ou Lago de Tiberíades. Próximo dali ficava a cidade de Cafarnaum, onde Jesus passou um grande tempo. Ela é referida como uma das mulheres que acompanhavam o ministério de Jesus e lhe davam suporte “dos seus recursos”, o que pode significar que não era alguém pobre¹ (Lucas 8.2-3). O mesmo trecho acrescenta que Jesus havia expulsado 7 demônios dela, o que pode indicar a cura de uma doença. Essa última informação, Lucas pode tê-la obtido do texto de Marcos (Marcos 16.3).

Maria Madalena também é relatada como expectadora da Crucificação (junto com João, Maria mãe de Tiago e José (primos de Jesus), Salomé, a esposa de Zebedeu e a esposa de Cleophas, Mateus 27.56, Marcos 15.40, Lucas 23.49, João 19.25). Não bastasse isso, Maria Madalena foi a 1ª testemunha da Ressurreição² (Mateus 29.9, Marcos 16.9, João 20.8-18). As referências a ela nos Evangelhos são tantas que seria fácil cogitar-se uma relação mais íntima entre Jesus e ela do que com outras mulheres.

O historiador bíblico Bart Denton Ehrman ressalta, em alguns trabalhos, que a sociedade judaica desqualificava testemunhos femininos, e uma postura assim foi seguida pelos Cristãos a partir do séc. 2 d.C. Logo, o papel assumido por Maria Madalena nos Evangelhos parece autêntico, ainda que os relatos da Ressurreição tenham sido montados posteriormente, a partir de várias tradições, provavelmente seguindo algo ainda mais breve que o relato de Marcos. Os relatos e crenças populares, no entanto, foram muito além: Maria Madalena foi vista como amante de Jesus, prostituta arrependida, líder de movimentos e visionária. Boa parte desse material apareceu escrito em evangelhos apócrifos escritos do séc. 2 em diante, dos quais pouca informação é consubstanciada pelas Escrituras canônicas (isto é, os livros aceitos para a Bíblia).

MARIA NA ANTIGUIDADE

O Diálogo do Salvador, um texto Gnóstico do séc. 1 recuperado das cavernas de Nag Hammadi, no Mar Morto, apresenta Jesus, Judas Iscariotes, Tomé, Mateus e Maria Madalena em um diálogo. Reparemos nas figuras mal-afamadas: Judas que entregaria Jesus ao Sinédrio, Tomé o apóstolo descrente, Mateus o cobrador de impostos e Maria Madalena dos 7 demônios. Nessa estranha conversa, com Jesus expondo uma filosofia grega sobre o cosmos, algumas falas de Maria Madalena são atribuídas a Jesus, nos Evangelhos. Em outro texto Gnóstico do séc. 2, chamado Pistis Sophia, Jesus responde a perguntas dos apóstolos. A maioria delas vêm de Maria Madalena, a quem Ele se refere como "Maria, abençoada, a quem aperfeiçoarei em todos os mistérios das alturas, fala em franqueza, tu, cujo coração é elevado ao reino dos céus mais do que a todos os teus irmãos" e também "Você é mais abençoada do que todas as mulheres da Terra, porque você será a plenitude da plenitude e a conclusão da conclusão". No Evangelho de Tomé, do início do séc. 2 e semelhante ao de Mateus, Pedro pede que Maria Madalena deixe o grupo, pois as mulheres não eram merecedoras da Vida. Jesus responde: “Eis que eu a conduzirei, para fazê-la em homem, a fim de que ela também possa se tornar um espírito vivo como vocês, homens. Porque toda mulher que se faz homem entrará no reino dos céus”. No Evangelho de Filipe, do séc. 3, aparece: “E a companheira do salvador era Maria Madalena. Cristo amava Maria mais do que todos os discípulos e costumava beijá-la com frequência. Os outros discípulos ficavam ofendidos e expressavam desaprovação. Eles disseram a Ele: ‘Por que você a ama mais ela do que todos nós?’”. A resposta de Jesus é bastante obscura: “Quando um homem que vê e um cego estão nas trevas, eles são iguais. Mas quando a vem a luz, aquele que enxerga vê a luz, e o cego permanece nas trevas”.

Essas obras do início da Cristandade, algumas bem curtas, de formas diferentes (e às vezes bizarras) são concordantes com o fato de que Maria Madalena desempenhou um papel significativo, geralmente associado a um conhecimento especial sobre Jesus. Essa participação, não relatada nos textos canônicos, teria se dado pessoalmente (dando suporte e acompanhando Jesus) ou no imaginário das 1as comunidades Cristãs. Talvez a obra mais expressiva sobre isso seja o Evangelho de Maria [Madalena], um texto inteiro do séc. 2 sobre essa personagem. O início do texto é sobre as obras de Jesus após a Ressurreição; o restante é um diálogo entre Maria Madalena e os apóstolos, com a exposição (por Maria Madalena) de toda uma cosmogonia Gnóstica e debates sobre a escolha dela como a portadora dos ensinamentos de Jesus. Curiosamente, a outra Maria (mãe de Tiago e José, os primos de Jesus) também esteve na Crucificação e no túmulo de Jesus, mas não ganhou qualquer importância religiosa.

O teólogo Origen de Alexandria (184-253 d.C.) escreveu a respeito de uma crença difundida de que o testemunho de Maria Madalena seria uma fábula, contrastando isso com a descrição de Mateus onde Maria Madalena e a Maria mãe de Tiago e José são recepcionadas, na tumba, por um anjo radiante (Mateus 28). Por outro lado, a igreja de Dura-Europos (233-256 d.C.), na Síria, a construção Cristã mais antiga conhecida, retrata a cena de Marcos 16 com Maria Madalena e mais 2 mulheres indo ao túmulo de Jesus para encontrar um anjo de branco. Na cena retratada, a tumba está fechada. Esses relatos mostram que, embora os Gnósticos tenham fantasiado muito sobre Maria Madalena, até o séc. 3 d.C. não era costume da Igreja falar sobre ela mais do que expresso nas Escrituras.

A CRIAÇÃO DA PROSTITUTA

No séc. 2 d.C., o teólogo Tertuliano, na cidade romana de Cartago, norte da África, escreveu muito sobre as mentiras nas publicações Gnósticas. Ele usou a sensibilidade de Jesus ao toque da mulher pecadora, em Lucas, para afirmar que Cristo não era de qualquer forma imaterial, mas um ser humano. Em seu tratado, ele chama essa mulher de Madalena.

Um dos fariseus convidou-o para jantar com ele. Jesus, entrando na casa do fariseu, tomou lugar à mesa. Havia na cidade uma mulher que era pecadora; ela, sabendo que ele estava jantando na casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro com perfume e, pondo-se-lhe aos pés, chorando, começou a regá-los com lágrimas, e os enxugava com os cabelos da sua cabeça, e beijava-lhe os pés e ungia-os com o perfume. (Lucas 7.36-38)

Não há qualquer ligação entre o texto bíblico e Maria Madalena, de forma que Tertuliano já devia ser influenciado por uma tradição dentro da Igreja. No início do séc. 3 d.C., o teólogo Hippolytos, em Roma, também escreveu contra as heresias e acomodação de crenças pagãs dentro do Cristianismo. Em um sermão, ele mistura Maria Madalena, Maria de Betânia (Lucas 10.39, João 12.3) e a Sulamita procurando seu esposo (ver O Cântico da Sulamita) na cena de João 20, onde Maria Madalena pensa que Jesus ressuscitado é o jardineiro. Essa fusão de figuras bíblicas mostra uma tendência comum dessa época, que produzia personagens ricos e impressivos, mas difíceis de discutir a partir das Escrituras. No caso, temos uma Maria Madalena fictícia, apaixonada por Jesus, emocionada ao vê-lo como a pessoa mais valiosa de todas. No séc. 4 d.C., essa fusão de personagens já havia produzido, num hino composto por Ephraim, da Síria, uma mistura elaborada da Maria de Betânia e Maria Madalena:

Pelo óleo, Maria, de quem sete demônios saíram, mostra o mistério de Sua mortalidade, que pelo Seu ensino mortificou a concupiscência de sua carne. Então, a mulher pecadora, pelo fluxo de suas lágrimas, foi recompensada com a remissão dos pecados junto aos Seus pés

Essa imagem foi difundida dentro da Igreja, como um exemplo da mulher pecadora arrependida. A “concupiscência de sua carne” já era uma visão de Maria Madalena como prostituta, devido à fama de sua cidade³. Alguns teólogos discordavam dessa fusão de personagens, como Ambrósio, bispo de Milão no séc. 4 e seu aluno Santo Agostinho, bispo de Hippona Regia, norte da África, no início do séc. 5. Mas a criação da “Madalena prostituta” em grande parte é atribuída à Homilia 33 do papa Gregório I, publicada no final do séc. 6:

Sempre que pondero o espírito penitencial de Maria Madalena, sinto mais vontade de chorar do que de falar. Pois as lágrimas desta mulher pecaminosa amolecerão até mesmo um coração de pedra, em direção à ideia de fazer penitência. Tendo refletido sobre o que ela havia feito, ela não queria estabelecer limites para o que deveria fazer. Ela entrou, sem ser convidada, depois que a refeição começou, e trouxe suas lágrimas ao banquete. Veja com que dor ela devia queimar, quando ela não teve vergonha de chorar nem mesmo em um banquete.

Aquela que Lucas chama a mulher pecadora, a quem João chama Maria, acreditamos ser a Maria de quem sete demônios saíram, de acordo com Marcos. O que esses sete demônios significam, se não todos os vícios? É claro que a mulher usou anteriormente o unguento para perfumar sua carne em atos proibidos. O que ela mostrou, portanto, mais escandalosamente, ela agora estava se oferecendo a Deus de uma maneira mais louvável. Ela cobiçou com os olhos terrenos, mas agora através da penitência eles são consumidos pelas lágrimas. Ela usou o cabelo para enfeitar o rosto, mas agora seu cabelo seca as lágrimas. Ela falou coisas orgulhosas com a boca, mas beijando os pés do Senhor, ela agora plantou a boca nos pés do Redentor. Para cada deleite, portanto, que ela tinha em si mesma, agora ela se imolava. Ela transformou o número de seus crimes em virtudes, a fim de servir a Deus inteiramente em penitência”. (Homilia* XXXIII)

Nesse texto, o papa descaradamente mistura as figuras de Maria Madalena e mulher pecadora de Lucas, atribuindo a esta última a imagem de prostituta. Após a fragmentação de Roma Ocidental (490 d.C.), foi essa a imagem difundida entre o clero. É interessante que os Cristãos de Roma Oriental (Bizâncio) e do norte da África jamais associaram as imagens da várias Marias para criar as personagens do Ocidente. Assim, é possível que tal processo combinatório tenha a ver com a diminuição de uso da escrita no Ocidente e o fortalecimento das tradições orais durante a Idade Média.

DETALHES FABRICADOS E REVELADOS

Pouco antes do início das Cruzadas (1095), os pequenos reinos pagãos-cristãos da Europa começaram a se tornar militarmente fortes. Os primeiros a exibir essa tendência foram os Vikings, nas atuais Noruega, Suécia e Dinamarca. À medida que o Cristianismo se difundia, encontrou caminho entre a nova nobreza pós-romana. Uma vez que a nova sociedade estava radicalmente organizada em torno de famílias reais ricas e poderosas, senhoras de terras e de homens, os personagens bíblicos adquiriram ares da nobreza. No final do séc. 9 já existiam contos sobre uma Maria Madalena riquíssima, descendente de famílias nobres que governavam Magdala e Betânia! Após ter cometido adultério contra seu poderoso esposo, ela se retirara para viver em um mosteiro, na floresta ou no deserto, dependendo da tradição. Por isso as pinturas dessa época a retratam cheia de jóias e geralmente contemplativa ou lendo a bíblia, em um cárcere ou área natural.

Maria Madalena, por El Greco, 1580. Repare a cena de montanha, com um deserto e tendas atrás, além dos tradicionais objetos-símbolos.

MODERNIDADE TRANSVIADA

O relato mais fabuloso sobre Maria Madalena vem de “A Lenda Dourada”, uma coleção de histórias de santos medievais compilada por volta de 1260 pelo escritor italiano e frade dominicano Jacobus de Voragine. Neste relato, Maria Madalena é "fabulosamente rica, insanamente bela e escandalosamente sensual", mas desiste de sua vida de riqueza e pecado para se tornar uma seguidora de Jesus. Após a Crucificação, os judeus jogam Maria Madalena (e de Betânia também), seu irmão Lázaro, os futuros santos Maximin e Cedônio num barco sem leme no Mar Mediterrâneo, para morrerem. O barco desemboca em Marselha, no sul da França, onde Maria Madalena convence o governador da cidade a se converter ao Cristianismo. Ela prova ao governador o poder de Cristo orando para sua esposa ficar grávida. O governador e sua esposa viajam para Roma encontrar o apóstolo Pedro, mas seu navio é atingido por uma tempestade. A esposa morre no parto e ele a deixa em uma ilha com o bebê ainda vivo em seu peito, recuperando-o (ainda amamentado) ao voltar para a mesma ilha 2 anos depois. A esposa do governador ressuscita e diz a ele que Maria Madalena a trouxe de volta. Em Marselha, os anjos haviam passado os últimos 30 anos levando-a para ouvir suas canções no céu.

Por volta do séc. 16, a Reforma Protestante viu nos pecados sexuais um inimigo a ser combatido e a penitente Maria Madalena servia bem a esse propósito. Martinho Lutero, famoso iniciador da Reforma, não apenas reforçava que as 3 Marias (Maria Madalena, Maria de Betânia e a pecadora que entrou na casa do fariseu) eram a mesma Maria Madalena, como identificava essa figura também com a mulher adúltera que Jesus protegeu (João 8.3-11). Lutero ia até mais longe, afirmando que Jesus haveria pecado com Maria Madalena, culminando na famosa cena do “Não me toques!” (João 20.17). Embora os textos Gnósticos não tenham chegado até a Alemanha para influenciarem alguma coisa, não se pode descartar que a motivação de Lutero e dos Gnósticos tenha sido a mesma. Nos tempos de Lutero ainda, a separação entre Católicos e Protestantes era um tema religioso, político e muito delicado. Lutero, em seus escritos, optou por não duvidar de uma autoridade como Gregório I. Apesar dessa ideia forjada sobre Maria Madalena, a penitente ou arrependida, os Protestantes lutaram tanto contra os culto de Maria que vigorava na Igreja Católica que as referências a ela quase desapareceram.

Enquanto isso, uma pregação que se tornou muito comum nas missas católicas e em alguns cultos protestantes foi a comparação de Maria, mãe de Jesus, pobre e virgem, com a Maria Madalena, adúltera, prostituta e rica. Principalmente no séc. 18, muitos textos religiosos usavam essa imagem para identificar Cristo como um unificador de ricos e pobres, santos e pecadores. A partir do séc. 19, com a descoberta e tradução dos textos Gnósticos preservados em jarros nas cavernas do Mar Morto, diversos grupos Cristãos novamente aderiram a uma “verdade escondida pela Igreja” onde Maria Madalena ressurgiu como uma concubina ou mesmo esposa secreta de Jesus, portadora de ensinamentos secretos.

A Igreja Ortodoxa sustenta que a Maria Madalena foi para a cidade grega de Éfeso, no litoral mediterrâneo da atual Turquia, com Maria mãe de Jesus. Lá ela viveu e morreu, e seus ossos foram levados para Constantinopla em 886, onde ainda estão. A Igreja Católica sustenta outra versão, menos fabulosa que a do séc. 13, onde Maria Madalena, irmã de Lázaro, Marta e Lázaro, com alguns outros discípulos, foram expulsos pelos judeus depois da Ascensão de Cristo. Eles foram postos no mar Mediterrâneo num barco sem remos nem velas, que a correnteza levou em segurança até Marselha, no sul da França. Lá eles fundaram uma igreja, da qual Lázaro se tornou bispo. Sua pregação converteu ao Cristianismo toda a região de Provença, antes território pagão. Maria Madalena se retirou para uma colina próxima, em La Sainte-Baume, onde se entregou a uma vida de penitência durante 30 anos. A igreja local guarda como relíquia um crânio, preservado dentro de uma caixa com armações de ouro, que afirma ser de Maria Madalena.

-------------------------------

Obs. Nesse texto, foram usados links da versão wikipedia da Tradução Brasileira da Bíblia.

¹ Há muitos mistérios sobre a divisão de funções segundos os sexos, no início da Cristandade. Embora pensemos numa sociedade judaica muito patriarcal, Jesus teve seus maiores diálogos com mulheres. Uma sinagoga em Aphrodisias, na atual Turquia, listava muitas mulheres entre seus contribuidores. Também, a primeira revelação de Jesus após sua ressurreição foi para uma mulher. E o livro de Atos se refere a algumas comunidades Cristãs lideradas por mulheres. Embora todos esses sinais falem em favor de uma equidade entre os sexos, nenhum pronunciamento de Jesus abordou essa temática ou sequer uma mulher é listada entre os que receberam a missão de propagar o Evangelho.

² Há várias divergências quanto ao enterro de Jesus e a Ressurreição. Paulo, por exemplo, escreve que “[Jesus] foi ressuscitado ao terceiro dia segundo as Escrituras, e apareceu a Cefas e então aos doze. Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais a maior parte permanece até agora, mas alguns já dormiram. Depois apareceu a Tiago, então a todos os apóstolos, por último de todos apareceu também a mim, como a um abortivo” (1ª Coríntios 15.4-8). Essa descrição é importante porque data de antes da elaboração dos Evangelhos. Lucas, que seguia Paulo e escreveu muitas de suas estórias, também não relata a aparição para as mulheres. Segundo ele, Jesus se manifestou primeiro para Cleophas e um amigo Cristão, que caminhavam na estrada de Emaús (Lucas 24).

³ A Igreja desde cedo descreveu Magdala como uma cidade de prostituição, mas não há evidências refutando ou confirmando isso. Magdala era uma cidade próspera na margem do lago de Tiberíades, entre os sécs. 2 a.C. e 3 d.C. Referências antigas citam a fartura de peixes no porto de Magdala. Até a construção da cidade de Tiberíades, no tempo de Jesus, Magdala era o principal posto administrativo de Roma na região e funcionava como um centro de controle das mercadorias sendo transportadas entre a Galiléia e a Judéia, que depois empobreceu pelo deslocamento das autoridades romanas para a cidade vizinha. Lá foi descoberta a mais antiga sinagoga da Galiléia, construída por volta de 50 a.C. e também foi a cidade natal do famoso historiador judeu-romano Flavius Josephus. Sendo uma cidade portuária, era provável que sediasse muitas prostitutas, como as demais cidades portuárias romanas. Josephus descreve que Magdala foi arrasada pelos romanos durante a rebelião de 67 d.C., pouco antes que Jerusalém também fosse destruída, mas escavações recentes mostram que a cidade continuou funcionando por pelo menos mais 200 anos.

* Homilia é uma palavra derivada do latim que significa “conversa”. No Catolicismo, mais precisamente, trata-se de uma interpretação bíblica elaborada ou lida durante a Missa.

-------------------------------

ESCRITOS LENDÁRIOS

Althaus-Reid M, Liberation Theology and Sexuality, SCM Press, 2009
Devotion to our lady, devotiontoourlady.com
Dura Europos church - wikipedia
Emmel S, Dialogue of the savior, earlychristianwritings.com
Garza-DiazB A, The archaeological excavations at Magdala, ancient.eu, 19abr2018
Gospel of Philip - wikipedia
Gospel of Mary - wikipedia
Henderson JF, The disappearance of the feast of Mary Magdalene from the Anglican liturgy, .jfrankhenderson.com, 2004
Magdala - wikipedia
Mary Magdalene - wikipedia
Saint Louis Community College, Dura Europos - Christian house church, 2014
Symbols of Saint Mary Magdalene, http://biblesaints.blogspot.com, 5nov2011
Was Mary Magdalene wife of Jesus? Was Mary Magdalene a prostitute?, biblicalarchaeology.org, 17mar2018
Witcombe CLCE, Investigating Mary Magdalen, Pope Gregory the Great's homily 33 and the identification of Mary Magdalen as a prostitute, http://arthistoryresources.net, 2015

sábado, 28 de julho de 2018

Idarte Média

Quadro Accolade, de Edmund Leghton, 1901. Essa imagem retrata uma visão romântica da Idade Média, com votos de fidelidade (que eram reais), títulos de nobreza concedidos mediante façanhas militares e reis/rainhas adorados pelos seu povo. Não era raro que princesas e rainhas fossem governantes, pois a mortandade entre os nobres era alta, geralmente envolvidos em peregrinações e batalhas. As cidades muradas da Idade Média também eram a única proteção dos camponeses contra um rei invasor, o que frequentemente levava a massacres antes que todos pudessem se abrigar ou como resultado do cerco de uma cidade. Se a cidade não pudesse se defender, o cerco podia matar de fome e sede todos ali dentro.

A Idade Média (mais ou menos 500-1500 d.C., na Europa) foi quando o Cristianismo se espalhou pelo Velho Mundo. Quando Roma oficializou a nova religião, houve um significativo embrace pelas altas classes, que responde pela difusão no Leste Europeu e na Ásia Menor. Mas no norte da África e na Europa, que mais tarde seriam centros difusores, o crescimento inicial do Cristianismo se deu justamente nas classes mais baixas, num período marcado por misticismo.

Chamamos de Idade Média o tempo entre a desconstrução do Mundo Antigo e a construção do Novo. Tanto uma Era como outra têm a extensão e o fluxo das rotas comerciais como maior símbolo da civilização e estabilidade. Por isso, o apogeu do Mundo Antigo, para a Europa, foi a unificação de todos os reinos sob Alexandre da Macedônia (330 a.C.) e depois Roma (50 a.C.). Isso fez com que sedas e incenso chegassem da distante Índia (com a qual Alexandre estabeleceu tratados políticos, e onde o apóstolo Tomé fundou uma comunidade Cristã) até as ilhas Britânicas (de onde supostamente saiu o cavaleiro denominado Saint Georges, símbolo das Cruzadas). Metais e grãos seguiam na direção contrária. O Mundo Moderno nasceu em aproximadamente 1500, com a re-criação dessas rotas comerciais. Elas assumiram sua forma mais poderosa com as Companhias das Índias (Orientais e Ocidentais), que novamente iam até a China e as Américas buscando especiarias, sedas, porcelanas, ouro, frutas, etc e os levavam por todo mundo em grandes caravelas.

AS VARIADAS IDADES MÉDIAS

Embora fixemos datas de começo e fim da Idade Média, foram séculos para um e para outro. A própria Idade Média foi diferente em cada lugar. No contexto europeu, o começo se deu com a desintegração ou recuo do Estado Romano Ocidental, a partir de 450 d.C. Roma estava repartida em dois impérios irmãos desde 400 d.C., por ter se tornado grande demais. Roma Ocidental (ou apenas Roma) recuou seguidamente frente ao fortalecimento de reinos guerreiros, até desintegrar-se por completo em 500 d.C. Já Roma Oriental (ou Bizâncio) enriqueceu enormemente com o comércio entre os reinos no Mediterrâneo e no Golfo Pérsico. Por isso, a Idade Média teve significados muito diferentes no Ocidente (Europa) e no Oriente (Grécia, Romênia e Turquia). E foi mais diferente ainda na África, que finalmente teve suas portas abertas desde a expansão do Islã.

A imagem mais popular é a do Ocidente, com cidades romanas reduzidas a ruínas, habitadas por povos misturando a magia pagã com o Cristianismo, vivendo com situação sanitária precária em minusculas vilas, sem sistemas legais, basicamente defendendo-se uns dos outros com espadas e armaduras. Mas Oriente romano, esse mesmo período foi marcado pela construção de castelos e igrejas fabulosos, grande evolução nas artes e na música, tecnologia naval, peregrinações suntuosas da realeza e emprego simultâneo de várias línguas em manuscritos e documentos. Muito do material que foi escolhido para ser parte da Bíblia foi preservado como literatura religiosa de Roma Oriental, mais conhecida pelo nome de sua capital Bizâncio (no original) ou Constantinopla (após Constantino I o Grande). Aliás, foi Constantino I quem autorizou a propagação do Cristianismo em Roma.

No Oriente Médio, os tempos medievais representaram a expansão do Islã desde a Arábia até a Índia, Ásia Menor, Síria, Norte da África e Espanha. Foi um período de unificações, grandes Califas, comércio, navegações, batalhas históricas e riqueza para o Islã. Nesse tempo, muitas mesquitas absorveram a arte hindu e passaram a ter portas lembrando um coração invertido. As artes islâmicas e tecnologia evoluíram sobremaneira, assim como o uso de animais para cavalaria e peregrinações.

Enquanto o território de Roma Ocidental regredia a uma rede de vilas isoladas, muradas e cultuando as pinturas dos prédios romanos invadidos pela vegetação, o Islã florescia com astronomia, veleiros cruzando o oceano Índico, cirurgias com ópio indiano como anestésico e poesia histórica. Roma Oriental não ficava por menos, ostentando linhagens centenárias de papas e reis, exércitos com armaduras decoradas, arquitetura grega em escala nunca vista nas cidades, aquedutos e piscinas públicas, teatro, missas e canto gregoriano. Esse reinado de luxúria só terminou justamente devido à expansão islâmica, com o sultão Mehmed o Conquistador e seus navios de guerra batendo às portas de Constantinopla, em 1492. Mesmo assim, no séc. 10, tanto o imperador de Bizâncio quanto o patriarca de Constantinopla (equivalente grego do Papa ocidental) reconheceram a autoridade política e religiosa de Simão I da Bulgária, que oficializaria a linhagem dos Czares (repare a semelhança fonética com César), garantindo um braço de Roma Oriental na atual Rússia. Os Czares levaram tanto o Cristianismo medieval quanto a escrita grega tradicional até meados do séc. 20.

ARTE SACRA

Páginas do livro de Kells. Confeccionado no séc. 8, o livro recuperado da Abadia de Kells, Irlanda, é talvez o mais belo exemplo de arte medieval. Trata-se de uma composição de 340 folhas de pele de carneiro, contendo os 4 Evangelhos e ricamente ilustrado. Além dos corantes caríssimos para a época, boa parte das letras e gravuras foi feita com fios de ouro. O livro portava, originalmente, uma capa de ouro e pedras, que fez com que fosse roubado num ataque viking, em 1007. No séc. 12, o livro voltou à abadia, mas foi tomado pelas forças republicanas do séc. 17. Desde então, ele permanece no Trinity College em Dublin, Irlanda. Outro detalhe fantástico é que, embora trate-se de um texto Cristão, todo o estilo das figuras e mesmo das letras é tipicamente Celta, mostrando a fusão de culturas que ocorreu no norte da Europa. Como não era o estilo dos monges Beneditinos incorporar culturas, cogita-se que as missões Cristãs nessa parte do mundo sejam anteriores à desintegração de Roma, quando Alexandria era um centro importante de formação de missionários. Retirado de en.wikipedia.org

A maior parte do que conhecemos da arte medieval é do tipo sacro, ou seja, voltada a um ambiente religioso. Isso não quer dizer que os homens medievais fossem extremamente religiosos, mas que as pessoas com habilidade para produzir arte eram, em geral, religiosos. Os camponeses estavam bastante ocupados com lavouras e desconheciam a cultura romana. Os nobres em geral estavam ocupados com atividades militares. Restava, então, aos religiosos a educação, dinheiro e tempo necessários a produzir pinturas e esculturas que eram usados figurativamente nas missas. O livro de Kells é um grande exemplo disso: embora muito tempo tenha sido usado em produzir pinturas traçadas/costuradas quase fio a fio, o texto contém muito erros, sugerindo que não era realmente um objeto de leitura. Nas igrejas medievais sem bancos e com missas em latim, sem bíblias, exibir imagens nas paredes ou em um enorme e fabuloso livro dourado era uma forma extravagante de conduzir os serviços religiosos. Era também como contar estórias para uma criança apontando as figuras no livro.

Mas o livro de Kells também nos conta um pouco da história da arte religiosa: quem produziu o livro deixou marcas do seu trabalho. As ovelhas usadas foram criadas entre a Irlanda e a Escócia, o couro foi trabalhosamente refinado, carvão, nozes e cascas de árvores foram usadas para desenhar as letras, bile, clara de ovo, cola e mel foram usados para fixar os corantes e até pão foi usado para limpar partes das páginas. Apesar de trabalhoso, esse era um modo artesanal de produzir: no séc. 13 surgiriam monges copistas profissionais capazes de trabalhar rapidamente e apenas com tintas. Até as letras seriam simplificadas em favor da velocidade de produção.

Da Roma Ocidental e seus paganismos nos chegaram misturas bem elaboradas da cultura Cristã e dos imaginários Celta e Nórdico/Germânico. São dragões, unicórnios, mandrágoras mágicas e grifos. O universo medieval sempre assombrou com seus monstros, mas eles não eram apenas para assustar: num tempo onde o alfabeto romano foi preservado apenas por religiosos e magos, as gravuras de monstros e heróis ensinavam através das histórias que se contavam a partir delas. Impunham preconceitos e hierarquias sociais, ou inspiravam momentos ​​de empatia. Eram a propaganda da ciência, arte, teologia e ética, tudo de uma só vez.

Até a palavra “monstro” traz sérios problemas de entendimento. O verbo latino “monstrare” significa literalmente “mostrar”, mas ao longo dos séculos, “monstrum” passou a significar um presságio - talvez bom, talvez ruim. Em francês ou inglês antigo, “monstre” servia para criaturas maravilhosas ou de alguma forma diferentes. No séc. 14, finalmente passou a significar um ser aterrorizante e fantástico.

Henry VI (1420-1471). A Europa foi rica em reis e nobres ostentando nomeações pela Igreja, alguns sendo até consagrados como santos. Apesar disso, havia bem pouco Cristianismo na forma como os reis combatiam entre si ou até como lidavam com seu povo. A coroa, como usada por Henry, é um objeto que ficou famoso em todo mundo por ser ostentado na cabeça dos reis. Esse formato de coroa é uma herança dos reis romanos que cultuavam o Sol Invictus, do séc. 3 em diante. Retirado de themorgan.org

A figura acima mostra Henry VI da Inglaterra em pé sobre um grande monstro manchado com olhos perversos e avermelhados. O monstro é chamado - no texto - de antílope, embora tenha pouco em comum com o assustadiço animal das savanas (mas lembremos que a África ficou fechada aos europeus por toda idade Média). Além dos chifres afiados (que, conta-se, cortavam árvores), e cauda demoníaca bifurcada, nessa ilustração ele ganha até marfins de javali. Mas é apenas um indicativo do poder de Henry: o medo do antílope e do rei se misturam.

Página de um Livro das Horas - esse tipo de livro era uma ferramenta dos monges Beneditinos* para ensinar a administração do tempo. Em geral muito ilustrados, eles lembravam os Almanaques que circularam no Brasil e outros países do início do séc. 20 até os anos 1980. Traziam um calendário com ênfase nos dias sagrados, festas, dias de plantio e colheita, passagens dos Evangelhos, salmos penitenciais (6, 31, 37, 50, 101, 129) e orações dedicadas a certos santos Católicos como Santa Bárbara, Santa Margarete de Antioquia, Santo Antônio e São Sebastião. Retirado de amphilsoc.org

Esses monstros surpreendentes existem, pelo menos em parte, porque fazer as imagens era um processo lento e cuidadoso. Os artistas tinham bastante tempo para refletir sobre os significados de seu trabalho. No antigo território de Roma Ocidental, o fim das rotas comerciais tornou os pigmentos muito raros: enquanto o negro podia ser feito de carvão e o ocre vermelho de argila, outros, como o azul marinho, só chegavam à Europa através das perigosas e abandonadas estradas até o Oriente Médio. Usar ouro nas ilustrações também era comum, e produzir uma única cópia ilustrada do Livro das Horas, um dos mais populares devocionais Cristãos da Idade Média, com anjos e a Virgem Maria portando luminosas capas azuis, podia significar muito. Era o resultado de uma viagem de anos, um preço considerável e ainda um trabalho minucioso de muitos dias ou meses do artesão. Nesse meio tempo pessoas poderosas se tornavam gigantes, assim como personagens pavorosos ganhavam mais dentes, chifres e força descomunal.

O HILÁRIO MUNDO DOS MONSTROS

Livro das Horas, séc. 15. A princesa atrás das montanhas, como se fosse um gigante, é a governante de Trebizonde, um reino Cristão ao sul do Mar Negro. Esse reino foi fundado por cavaleiros da 4ª Cruzada, reunidos de toda Europa e enviados para reconquistar Jerusalém. O reino ficava no litoral de onde hoje é a Turquia e se desligou de Bizâncio após a tomada de Constantinopla. Essa figura retrata bem as peregrinações envolvidas nos tempos das Cruzadas contra os reinos não-Cristãos: Saint Georges é supostamente um cavaleiro inglês (não há qualquer registro sobre ele além da tradição), que viajou pela Bélgica, Bizâncio e Turquia. Retirado de pinterest.co.uk

Examinando uma das ilustrações de um Livro das Horas belga do século 15, você pode ver quanto amor e cuidado os artistas medievais colocavam em seus monstros. A cena - uma das mais emblemáticas do Cristianismo - mostra Saint Georges perfurando com a lança a cabeça de um dragão. Para os olhos do séc. 21, o heroísmo de Georges pode parecer um pouco cômico - o dragão é do tamanho de um cachorro, parece deitado de barriga para cima e ainda está sendo pisado pelo cavalo. No entanto, o olhar do artista para os detalhes atordoa mais de 500 anos depois: você ainda pode distinguir as escamas na cauda do monstro e as expressão em seus olhos redondos. Não pela primeira ou última vez, o vilão fraco faz o herói parecer quase humorístico.

Livro das Horas de Henry VIII, França. O Tarasque era um monstro que habitava a margem do rio Reno, com cabeça de dragão, carapaça de tartaruga e cauda de escorpião, que incendiava tudo em que tocava. Sua destruição marca, supostamente, o começo da habitação humana naquelas terras. Abaixo está Marta, pregando aos habitantes da região, que assumiram o Cristianismo após ver seu milagre. Retirado de themorgan.org

Noutra cena fantástica, o Tarasque é trazido para fora de sua caverna por uma Santa Marta medieval, embora seu culto a identifique com a Marta em cuja casa Jesus encontrou Lázaro e sua outra irmã Maria. A tradição explica que Marta, Maria e Lázaro seguiram até a Europa de barco, após a ascensão de Jesus. Mas a região do rio Reno, na verdade, não possui montanhas ou cavernas. O Tarasque, nalgumas pinturas, também é pequeno como o dragão de Saint Georges. Na lenda, a santa serve de atrativo e distrai o monstro para que os cavaleiros o matem. Nessa pintura, em especial, ele lembra por demais um cão obediente, com olhar de são bernardo, sendo puxado por sua dona. O monstro obediente simboliza o triunfo sem batalha do bem (civilização) contra o mal (vida selvagem), bem no sentido inverso das lendas de Grimm, onde lobos se fantasiam de homens para enganar crianças.

XENOFOBIAS

Judeu de Bern, provavelmente a origem da lenda germano-brasileira sobre o “homem do saco”. Trata-se de uma peça de madeira esculpida em 1546. Embora tenha sido muito usada como representação para assustar crianças desobedientes, o chapéu judeu da criatura é bem característico. Retirada de slate.com

Mas nem todos os monstros medievais eram tão carismáticos. Muitos foram inspirados em mesquinhez e violência. O anti-semitismo - que poderia ser plausivelmente definido como a representação de judeus como monstros - era indiscutivelmente central para a cultura européia da época. Ogros judeus sedentos de sangue serviram como personagens em inúmeras peças, histórias e poemas. Como na época do Nazismo, os judeus eram obrigados a usar um chapéu amarelo ou listrado pontiagudo. No meio da cidade suíça de Bern, a escultura de uma fonte ainda traz um desses pavorosos judeus-monstro simplesmente tirando crianças de um saco para as devorar. Em nenhuma prática judaica já foi documentado semelhante coisa, então somos levados a pensar na disposição do artista e autoridades da época em criar uma imagem que justificasse as ações de Cristãos contra os judeus.

Talvez o exemplo mais famoso desse tipo de história esteja na coleção The Canterbury Tales, do poeta inglês Geoffrey Chaucer. Nessa obra, um judeu mata uma criança Cristã e joga seu corpo em um monte de lixo. Quase tão famosa é a lenda do judeu de Bourges, que queima seu próprio filho, mais ou menos como nos ritos de Moloque, que os judeus nos contaram a respeito dos povos Cananeus. Uma ilustração francesa do início do século 14 retrata o judeu de Bourges com grandes olhos revirados e um nariz de porco enquanto empurra seu filho para uma fornalha. A imagem, em toda sua histeria racista e sentimentalismo grotesco, não é tão diferente das charges antissemitas que Julius Streicher publicou no auge do Terceiro Reich de Adolf Hitler. Outras caricaturas da Idade Média incluem muçulmanos, mulheres, pobres e doentes mentais. Essas imagens, vistas hoje, parecem ressaltar as poucas diferenças genuínas entre Cristãos e pagãos quanto a seu trato com “o diferente”.

MONSTROS SANTÍSSIMOS

Martírio de São Bartolomeu. Existem pelo menos 4 versões sobre a morte do apóstolo às vezes nomeado como Bartolomeu, às vezes como Natanael. Numa versão da Armênia, ele foi flexado e depois decapitado. Noutra, a mais popular, ele foi crucificado de cabeça para baixo, como Pedro. Ainda noutra, retratada aqui, ele batizou o rei Polymius, sendo então torturado e morto pelo irmão do rei. Numa última versão, possivelmente a mais verdadeira, Bartolomeu navegou até a Índia, talvez na mesma missão de Tomé, onde morreu na cidade de Kalyan. Retirado de br.pinterest.com

Uma ironia ainda maior das imagens de monstros medievais é que piedosas figuras bíblicas - mártires, discípulos de Cristo e até mesmo o próprio Cristo - eram retratadas como monstruosas. As histórias sangrentas de São Bartolomeu sendo esfolado vivo e de São Denis ou São Firmino, que dizem terem carregado suas próprias cabeças depois de cortadas, inspiraram infinitas obras religiosas. Uma representação húngara do martírio de Bartolomeu, do século 14, mostra o santo com sua pele meio removida, a boca presa em um sorriso de gato do País das Maravilhas. Ainda mais estranho é uma versão do artista do século 12 da Santíssima Trindade como um mutante de quatro olhos e três cabeças. Imagens como essas - não menos do que as dos dragões ou judeus matadores de crianças - procuram aterrorizar, mas por uma razão diferente: sugerir que o medo é parte da fé religiosa.

O EXÓTICO CRISTIANISMO

Por fim, é preciso dizer que boa parte do espanto com a arte Cristã medieval se dá porque a cultura Cristã da época nos parece muito exótica, 5 séculos depois. Sem dúvida o Cristianismo mudou muito nesse tempo. Duas influências grandes sobre a arte Cristã foram as Cruzadas (séc. 11 a 14) - que encheram o imaginário europeu com monstros e coisas terríveis dos Mouros - e a Peste Negra (metade do séc. 14). A Peste originou-se no Mar Cáspio e espalhou-se rapidamente pela Europa, seguindo o litoral e a rota das embarcações. A quantidade de mortos, a deformidade dos corpos e o sofrimento dos contagiados invadiu o imaginário popular com imagens de demônios em forma de cadáveres e atormentando os moribundos. Isso acabou desembocando em uma série de obras Cristãs conhecidas como Ars Moriendi, ou Arte de Morrer.

Ars Moriendi, Holanda, 1460. Nessa gravura do livro, um moribundo é tentado por várias coroas relativas às riquezas, orgulho, poder, etc. Enquanto o moribundo parece extremamente confortável em sua cama, aparecem diversos demônios risíveis ao seu redor. Tais figuras lembram bastante os desenhos de Pieter Bruegel sobre monstros, demônios e a loucura. Retirado de en.wikipedia.org

Essas obras dispunham sobre a forma correta de um Cristão morrer, de maneira a escapar dos tormentos de demônios. Na versão mais longa que foi preservada, aparecem ilustrações de demônios que lembram muito os anões da Branca de Neve, alguns com longas orelhas de coelho, ou línguas enormes, chapéus longos com as pontas enroladas, etc. Eles carregam as tentações que levam ao pecado e sua aparência bizarra, parecendo cruzamentos de humanos com animais que estão sem saber o que fazer pelo mundo, de fato fazem uma referência cruel aos doentes mentais. Levar-se pelo pecado é um símbolo de deficiência. Os moribundos, por outro lado, são explicitamente instruídos a manter uma aparência serena. Não apenas no Ars Moriendi, mas em toda a arte medieval, as pessoas parecem morrer completamente desinteressadas e passivas. Mesmo que isso seja sob apedrejamento, devorados por feras, perfurados por lanças ou decapitados. A face serena era, segundo o Ars Moriendi, uma forma de manter longe os demônios.

ÍCONES

Mas talvez a maior representação da arte medieval seja os ícones. Trata-se de pinturas ou esculturas religiosas que são, elas próprias, canais de comunicação com o divino. A Cristandade romana encheu a Europa, Ásia menor e norte da África com imagens de cenas bíblicas, mártires, reis, papas e patriarcas. Como no caso dos gregos que adoraram como deuses novos as estátuas quebradas nas ilhas que povoavam, civilização após civilização, os homens medievais encontraram essas obras de artes de homens antigos, de um reino antigo, e lhes atribuíram o papel de mensageiros divinos. Pinturas romanas deram origem a santos e, mais do que isso, as próprias pinturas foram tidas como sagradas, lugares para onde as pessoas peregrinavam em busca de cura, iluminação ou por subserviência. A Igreja Oriental até mesmo formulou uma teologia para explicar o poder das imagens: assim como Deus assumiu a forma humana em Cristo, Ele poderia assumir a forma material de pinturas e esculturas.

Imagem de Nossa Senhora da Conceição, cultuada em todo Brasil e que favoreceu a proclamação da Independência por fazer com que, na colônia, se desenvolvesse um importante centro Católico. Em 1978, a imagem (esquerda) foi destruída em um atentado religioso, produzindo mais de 200 fragmentos que foram cuidadosamente colados no Museu de Arte de São Paulo (MASP) (direita). A coloração original era clara, com pinturas em dourado, azul e vermelho, como era o estilo do escultor. Hoje ela é castanho escuro, acumulando uma camada de cera e fuligem do templo. Nos sécs. 8 e 9, um movimento iconoclasta dentro da Igreja Católica destruiu boa parte dos ícones, com exceção dos ossos e resquícios de santos. Retirado de padrerodrigomaria.com.br

Além do papel evangelizador que tiveram numa época onde a escrita se tornou raramente usada, essas obras religiosas foram a representação material e poderosa de Deus, como a Arca da Aliança levada nos conflitos entre judeus e filisteus. No Brasil, um exemplo tardio dos ícones foi a imagem de Aparecida. Obra de um monge escultor do século 17**, a estatueta com cabeça quebrada foi recuperada de um rio e venerada como a própria Virgem, ganhando um santuário que hoje é o segundo maior templo católico em atividade no mundo.

Como na Rússia dos Czares, a Idade Média de algum modo se estendeu para além do seu tempo devido à falta de contato tecnológico entre o Brasil-colônia e o restante do mundo. Isso para não falar nos livros e filmes que, desde o séc. 19, encantam o imaginário de adultos e crianças desagradados com a mesmice da ciência racional e um Estado estável.

-------------------------------------------------

* Os monges Beneditinos foram uma força poderosa da civilização durante a Idade Média. Afora o caráter evangelizador de suas missões na Europa, os Beneditinos seguiam uma organização quase militar de delimitação de territórios e propagação da cultura romana. Quando chegavam a uma localidade, os monges tratavam de cercar um território para o mosteiro (às vezes até usavam de nobres armados para isso) e organizavam meticulosamente seu dia sobre os princípios de trabalho e culto coletivo. Assim, enquanto alguns monges entoavam por horas a fio um canto de homenagem a Deus ou algum santo, outros trabalhavam na horta e outros na construção do prédio. Em horários específicos as equipes trocavam suas tarefas. Esses mosteiros foram centros de alfabetização e educação na Idade Média, além de manterem viva a ideia de um Estado que ia além das pequenas vilas, mesmo sendo a distante autoridade de um abade ou bispo em Roma ou outra cidade papal.

** Uma análise meticulosa do estilo usado na imagem de Aparecida atribuiu sua origem ao paulista Frei Agostinho de Jesus, famoso produtor de estátuas sacras. Trata-se de uma estátua de barro. Aparentemente, a cabeça da imagem quebrou-se e, segundo a tradição, a mesma foi jogada no rio, onde permaneceu tempo suficiente embaixo d’água para que sua pintura fosse quase totalmente removida. Desde sua descoberta no rio Paraíba do Sul, em Guaratinguetá/SP, diversos milagres e estórias fabulosas foram-lhe atribuídos, como uma pesca milagrosa e a estátua ter ficado tão pesada que os pescadores não puderam carregá-la.

-------------------------------------------------

EM LETRAS PINTADAS COM OURO

Ars moriendi - wikipedia
Book of Kells - wikipedia
Medieval monsters: terrors, aliens, wonders, apollo-magazine.com, 8jun2018
Mark JJ, Book of Kells, ancient.eu, 30jan2018
Tsar - wikipedia