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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

A Igreja do medo (Sobre ter sido EVANGÉLICO parte 1)

Shapes of Fear (Silhuetas do Medo; 1930-1932), do pintor estadounidense Maynard Dixon

De vez enquando, nos deparamos com mensagens que ficam por muitos dias, talvez meses pairando nas idéias, procurando um jeito de serem explicados. Trago abaixo uma dessas, que encontrei pelas redes sociais, e pensei que podia espelhar muito do que ocorre com a 1ª geração nascida no século 21. Tentei manter na íntegra a escrita do autor, mas tive de corrigir bastante a escrita dos comentários que se seguiram (separei os mais significativos, pois há inúmeras chamadas a amigos, apoios e xingamentos entre os que comentam).

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Sobre ter sido EVANGÉLICO e como isso f*d@# minha cabeça

Júlio Victor, 14jan2019

1 - Eu comecei a ir na Igreja Cristã Maranata e minha experiência é com essa denominação. Eu sei que nem todas são assim, mas quase todas são pois já fui em mais de 40 igrejas na minha vida e digo que só 3 denominações não reproduzem nada disso que vou falar.

#A Eu já fui membro dessa denominação. Algumas coisas ele que relata fazem sentido. Outras vai de cada um, sua experiência e intimidade com Deus. Estou em outra denominação e estou bem feliz porque posso ser um adorador e ter a certeza que Deus me ama sem ser questionada ou julgada.

#B Cara, você é uma resistência e eu concordei integralmente com todos os fatos, apesar de nunca ter sido evangélico. O que me trouxe pra esse universo foi a infelicidade de me apaixonar por uma garota evangélica lá pelos 19 anos. Tentei dar uma de desconstrutor de conceitos, mostrando pra ela que eu não era maligno e nem demoníaco por ter cabelo comprido e usar brinco, entre outras coisas. A partir daí comecei a expor minha opinião sobre esses assuntos com as pessoas e fui diversas vezes confrontado com argumentos fracos e até diziam que era hipócrita por não ter vivenciado isso, e você confirmou tudo.

2 - A igreja que me fez entrar no mundo da música, aprendi a tocar por causa dela. Porém o sonho de viver de música era PROIBIDO. Só podia tocar na Igreja, tocar MÚSICAS da igreja e ouvir músicas da Igreja. Caso contrário, inferno. Imagine na mente de uma CRIANÇA isso.

#A Cara%&o, na Maranata é exatamente assim mesmo. Você só pode tocar ou ouvir os louvores do hinário. E só pode cantar e tocar na igreja Maranata. Se você tocar em outra igreja ou para ganhar dinheiro, você já está automaticamente no inferno.

#B Até hoje sou discriminado por tocar músicas comuns no instrumento que aprendi na igreja…

3 - O medo é a principal forma de dominar a galera. ARREBATAMENTO (fenômeno bíblico que diz que Jesus vai voltar e levar quem não tá pecando). Logo se tu estiver fazendo algo errado (segundo a igreja) quando Jesus voltar tu fica para sofrer na mão do Anticristo até o Juízo Final.

#A O lema da ICM é ferrar com sua mentes, te fazer escravo de um medo que eles te impõem! Palavras como "Opressão" destroem com sua vida, e eles usam isso a todo momento para ofender os membros e os que não fazem parte da igreja! Eles lavam a tua mente de tal forma, que você não consegue mais ficar em igreja nenhuma!!!

#B A Universal faz muito isso. Eu parei de ir porque eu tava me sentindo mal, com medo o tempo todo. Eles falam assim: e se você morrer hoje, você acha que vai pro céu? Fazem peças e colocam vídeos na tela enorme pra todos verem. O que mais me chocou foi um vídeo de umas pessoas passando no meio de uma correnteza na cachoeira e do nada umas pessoas foram arrastados. Aí o pastor falou: eles morreram e você acha que eles foram pro céu? Quem garante? Enfim, tem muita gente que não tá lá nem pra glorificar a Deus, nem por amor, nem por nada, só por medo de morrer e não estar salvo. Está lá só porque acha que, se morrer, vai ser salvo por estar na igreja. Isso é muito triste. Eles abordam muito a parte da morte. No caso, essa foi uma experiência que eu tive. Pode ser que, com outras pessoas, em outras igrejas ou até nessa, mas outros pastores, seja diferente. Na verdade assim espero, né.

#C Já passei por isso. Uma vez, na igreja, teve um irmãozinho que veio dar uma profecia "de Deus" pra igreja de que Deus estava irado com a igreja e que iria matar uma pessoa como prova disso. Eu fiquei paranóico a partir daquele dia, achando que poderia ser eu, e assim tive meu primeiro ataque de pânico. Como eu era mente fechada, na época não conseguia discernir as coisas bem.

4 - DIVERSAS VEZES, eu, uma CRIANÇA, já acordei no meio da madrugada e fui conferir se meus pais e meu irmão estavam em suas camas para ter certeza que não rolou o arrebatamento ou que eu ao menos não estava sozinho.

#A Eu também fazia isso. Fico grata por ter saído dessa tortura.

#B Eu to me identificando com absolutamente tudo. Eu tive crises de pânico quando era criança. Eu tinha medo do "arrebatamento" e de Jesus voltar antes de eu realizar meus sonhos, e medo de ir pro inferno por não querer que Jesus voltasse. Era uma confusão na minha cabeça e eu vivia com medo. As igrejas deveriam saber o mal que elas fazem pras pessoas.

#C Eu sonhava todos os dias com o arrebatamento. Eu tinha 6 anos e até hoje eu tenho esse tipo de pesadelo, e a igreja fala ser um "dom". Todos os domingos, a igreja que eu ia passava um filme pesadíssimo pras crianças assistirem. No filme tinha morte (pessoas já mortas, todas abertas), assassinatos (reais, tipo os que passam nos jornais), e pessoas pulando de prédios.

5 - Toda vez que meus pais saíam ou demoravam a me buscar na escola, ou qualquer coisa do gênero eu começava a chorar com medo de Jesus ter voltado eu ter ficado para trás.

#A Eu tô me identificando demais.

#B Como o carinha disse ali, eu ri também, mas de nervoso, porque é muito eu. Eu era apavorado com isso. É muito tenso.

#C Eu chorava só de escutar a palavra apocalipse. Passava um comercial, sei lá, na record, no intervalo, que falava sobre o apocalipse e sobre arrebatamento essas coisas. Eu só parava de chorar quando dormia.

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O uso do medo como instrumento de ensino é muito antigo e aparece logo nas primeiras mensagens Cristãs. Quando Jesus andava pela Peréia (região a leste do rio Jordão, no largo vale do rio Jabok) indo em direção a Jerusalém, um discípulo perguntou: “Senhor, serão poucos os salvos?”, ao que se seguiu a forte advertência sobre uma porta fechada para a mesa de Deus, choro e ranger de dentes para todos que praticam o mal (Lucas 13.22-29). Em sua coleta sobre o que contavam de Jesus, Lucas também registrou falas ameaçadoras para quem faz os “pequeninos” pecarem (Lucas 17.1,2) e a destruição do mundo, quando uns seriam salvos e outros deixados para morrer (Lucas 17.26-37), o que foi interpretado como uma alusão ao Arrebatamento. Apesar disso, nesse último trecho não fica claro se os "levados" são os bons ou os maus.

João, o ‘discípulo amado’, cujo Evangelho é singularmente dedicado ao ensino dos significados Cristãos, não registra nenhuma dessas mensagens severas atribuídas a Jesus. Paulo também, mesmo servindo-se de repreensões às igrejas nascentes, às vezes duras como “não lhes pude falar como a espirituais … Dei-lhes leite, e não alimento sólido, pois vocês não estavam em condições de recebê-lo” (1ª Coríntios 3.1-6), não expõe qualquer tipo de ameaça ou castigo aos mal comportados. Em Apocalipse, João (agora como profeta) cita Jesus “apontando o dedo” aos pecados das 7 igrejas, o fogo destruindo um terço da humanidade e um lago de fogo destinado ao diabo, seus anjos e todos que o seguiram (Apocalipse 21.8). Sem ameaças particulares também.

Uma idéia de ser lascado, quebrado e jogado fora (por ser impróprio ao Reino de Deus) aparece em muitas partes do livro Pastor de Hermas (96-150 d.C.), obra que acompanhou o início da Cristandade. O livro conta a analogia da construção de uma grande torre de pedras brancas sobre um rio, onde as pedras são os “representantes da fé” e ao final de cuja construção o mundo seria consumido. Aqueles não aceitos para a torre seriam jogados no rio, para serem esquecidos.

A Igreja fez largo uso do medo como ferramenta política na Era Romana, com ações armadas contra os Arianos, Cátaros, Docetistas, Melquisedequianos, Nestorianos, Pelagianos, Waldesianos, etc¹. Já é estranho pensar na Igreja de Jesus com soldados..² Os Islâmicos sempre foram considerados inimigos de Cristo. Isso sem falar nas histerias de bruxaria e satanismo que levaram muitos à morte cruel (pelas mãos de Cristãos) entre os sécs. 10 e 18. Católicos já perseguiram as pessoas por parecerem Protestantes e vice-versa.

Qualquer historiador, olhando as datas das perseguições acima, concluiria que elas aconteceram quando não haviam guerras políticas a se lutar. É como se “purificar o Reino de Deus”, antes mesmo que ele venha, fosse uma alternativa natural a lutar por um pedaço de terra ou defender-se de um inimigo. Pessoalmente, eu duvido um tanto das ameaças de Jesus, por sua natureza “coletada entre o povo” - assim como os testemunhos das formigas indianas gigantes que comem homens, de Heródoto (aprox. 450 a.C.) - e porque propagadores da fé testemunhais e importantes, como João e Paulo, não as reproduziram. Jesus também não deixou (nem supostamente) pessoas encarregadas de limpar o mundo, reservando a Si mesmo essa tarefa, mas eis que fazemos isso a mais de 2 mil anos. Sempre que a paz ameaçou nossa capacidade de mostrar que somos melhores que alguém.

O texto acima traz um uso (reforçado por vários comentários) do medo do Arrebatamento para manter as pessoas na igreja. Se para os adultos a idéia era que todos tivessem medo de não estar entre os salvos - aqueles apontados pelo líder religioso, que usurpa hoje a tarefa reservada por Cristo para Si, no Último Dia, sejamos claros - para as crianças e adolescentes teve o efeito de gerar uma insegurança generalizada ante a possibilidade de ser deixado SOZINHO. A igreja ainda engordava tal medo com cenas e ameaças assustadoras, exibidos livremente, como as pavorosas músicas infantis do nosso folclore: “Nana neném, que a Cuca vem pegar…”, “Boi boi boi da cara preta, pega esse menino…”, “Bicho Papão saia do telhado…

Apela-se muito ao Arrebatamento dentro do Pentecostalismo, por sua abertura a clamores emocionados e visões proféticas sobre 'o que precisa ser feito para ganhar a Salvação' (mesmo Jesus não tendo sugerido qualquer barganha possível). Alguns pastores da Teologia da Prosperidade até evoluíram o conceito para entrevistas com Satanás, os demônios Belial e Legião, Exús da Umbanda, etc, onde os crentes são convencidos do poder do Diabo e imploram proteção. Lembrando que o encontro mais acalorado entre um Cristão e um demônio, na Bíblia, foi no cemitério dos Gadarenos, a saída apresentada nos ‘cultos de libertação/descarrego’ sempre consiste da doação de denários para igreja - prova irrefutável de fé - ou a aquisição de produtos santificados supervalorizados, a benção milagrosa do sacerdote ou uma peça de roupa sua, etc. Ficar longe da igreja, dos amuletos ou do sacerdote, assim, se torna para os adultos o que, para os mais jovens, era a possibilidade de ser deixado sozinho no Arrebatamento. Mas espera aí: Jesus, os Evangelistas, Paulo, Barnabé (da carta aos Hebreus), Tiago, Judas Tadeu ou qualquer outro escritor do Novo Testamento ensinou isso? Não..

O Novo Testamento, cada dia menos em voga nas congregações, fala justamente contrário ao direcionamento dos Cristãos pelo medo. Ele inicia com João Batista e Jesus (primos, né) desafiando autoridades em nome do bem comum, e segue pregando um amor em forma de igualdade, até uma certa carta de João [Evangelista] que escancara a incompatibilidade entre o medo e o amor, seja quanto a Deus ou aos homens (1ª João 4.17,18). Mas apesar disso, o medo tem sido muito pregado: ele responde, por exemplo, por ações coletivas bem pitorescas dos Cristãos pelo mundo, como matanças de Judeus na Idade Média, apoio a Hitler, caça aos comunistas durante a Guerra Fria e barramentos legais aos gays, hoje em dia.

O medo propalado de que nos tirem o direito a discriminar tem feito anti-milagres³ pelos Cristãos. Entre aqueles que foram instruídos a amar e até morrer pelo próximo (vide nosso fundador), o medo faz até os injustiçados pedirem pela desigualdade. Convenhamos que igualdade só é totalmente benéfica aos que estão no subsolo da pirâmide social; para os outros é provavelmente um prejuízo. Por isso queremos (todos) separar os outros, sejam pobres, doentes, negros, verdes, índios ou gays, enfim todo tipo de gente que Jesus nunca amaria (deve ter alguma fala Dele ou de outro para provar isso) - e de quem podemos usurpar livremente o direito de igualdade. Queremos (os Cristãos), em nome de Jesus, que nos mantenham os olhos livres de nosso pecado social, e por isso há talvez pouco a se esperar quanto a tirar o medo das igrejas.

Como dizia o teólogo Helmut Richard Niebuhr em seu famoso livro 'Cristo e cultura', a religião se fortalece dos rituais, segregações, status quo e privilégios que a garantem mais do que a incontornável dependência de Deus. No tempo das mega-congregações com ares empresariais, o medo pode ser uma ferramenta de trabalho (religioso!) mais útil. Deixa o Diabo e seus comunas beberrões gays afros da Venezuela ou do México pegarem seu filho e você vai ver se não...

O título ‘Igreja do medo’ é uma paródia do famoso livro ‘Religião do medo’ do estudioso Jason C. Bivins, obra de referência sobre a cultura Evangélica estadounidense. Bivins aponta que os Evangélicos desenvolveram a nomeação frequente do mal encarnado em eventos cotidianos como estrangeiros, inovações tecnológicas ou culturais, política e até hábitos das pessoas, assim como as lembranças do Arrebatamento, como um elo de coesão. Apesar disso, reflete, não há mais unanimidade de opiniões entre os Evangélicos do que entre qualquer outro grupo, o que talvez explique a imensa fragmentação dessa categoria de Cristãos, a ponto de ser muito difícil defini-los como grupo e haver grandes inimizades entre congregações.

Dentro do uso do medo como força de coesão, re-aparecem elementos fortes do Velho Testamento, onde o Arrebatamento selecionaria para o Reino de Deus aqueles crentes perfeitos e irrepreensíveis, aliados e parceiros da hierarquia (?) da igreja Protestante. Jesus, por outro lado, reuniu 12 dentre os mais desqualificados da Judéia, colocou por fundamento da Igreja seu discípulo mais turrão e ficou famoso ao enaltecer o amor pelas crianças, órfãos, viúvas e os mais simples em um discurso. João e Paulo permaneceram nessa idéia (João 12.5,6, 1ª Coríntios 13.3).

Aparentemente, tal estratégia de coesão funciona muito pior com os jovens do que com os mais maduros. Após a 2ª Guerra, até 65% dos nascidos Evangélicos mantinham tal fé quando adultos; tal proporção caiu para 35% nos anos 1970 e estima-se talvez menos de 5% para os nascidos a partir de 2010. O texto do Júlio Victor e seus comentaristas dá uma idéia de que há interesse da juventude pela igreja, mas uma repulsão - traumática até - quanto aos métodos (nem diria que Cristãos) usados nas congregações que frequentam.

As próximas exposições (com outras partes do texto dele) mostrarão que a relação das igrejas com os jovens é ainda mais tensa do que parece.

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¹ Vocabulário: Arianos (crentes na criação de Cristo como seu nascimento na Terra; séc. 4); Docetistas (crentes na natureza puramente espiritual de Cristo; altamente recorrente entre os Gnósticos do séc. 1 ao 14); Católicos (crentes que a Igreja Cristã atual descende do grupo de Pedro no séc. 1, com a liderança passada quase monarquicamente de um bispo romano ou papa para outro, séc. 4 em diante); Pelagianos (crentes de que o homem escolhe voluntariamente aproximar-se de Deus, séc. 5); Nestorianos (crentes de que Cristo era a fusão da carne e do Espírito; séc. 6); Islâmicos ou Muçulmanos (crentes na revelação final de Deus/Alah ao profeta Muhammad/Maomé, séc. 7 em diante); Melquisedequianos (crentes de que o sacerdote hebreu Melquisedeque era a encarnação do Espírito Santo; séc. 9); Waldesianos (crentes na necessidade Cristã de abdicar-se de todo bem material, séc. 12); Cátaros (crentes na natureza espiritual de Jesus e no satanismo do mundo material, séc. 14); Protestantes (crentes na supremacia e suficiência da Bíblia como instrução Cristã, sem um grande líder, séc. 16 em diante).

² A série de TV inglesa Dr. Who apresentou, em 2010, no episódio "The time of angels", uma igreja do séc. 51 (evoluída) que era indistinguível de um exército, com os cléricos portando capacete, farda e armas de fogo.

³ Inventei esse termo. Um anti-milagre seria algo maléfico e de ocorrência comum, dentro de um grupo religioso.

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NÃO LEIA ANTES DO JUÍZO FINAL

Batman e a teologia do medo, deusnogibi.com.br
Bivins JC, The religion of fear: conservative Evangelicals, identity and antiliberal POP, Journal for Cultural and Religious Theory, 8(2), 81-103, 2007.
Fea J, Evangelical fear elected Trump, theatlantic.com, 24/jun/2018
Goodstein L. Evangelicals fear the loss of their teenagers, The New York Times, 6/out/2006
Lake T, Fear and voting on the Christian right, Cable News Network (CNN), out/2015
Niebhur HR, Cristo e cultura, Série encontro e diálogos, vol. 3, Ed. Civilização Brasileira S.A., 1967.
Pavlovitz J, The greatest false idol of modern Christianity, johnpavlovitz.com, 15/jan/2015
Vargens R, Teologia do medo, renatovargens.blogspot.com, set/2009

sábado, 28 de julho de 2018

Idarte Média

Quadro Accolade, de Edmund Leghton, 1901. Essa imagem retrata uma visão romântica da Idade Média, com votos de fidelidade (que eram reais), títulos de nobreza concedidos mediante façanhas militares e reis/rainhas adorados pelos seu povo. Não era raro que princesas e rainhas fossem governantes, pois a mortandade entre os nobres era alta, geralmente envolvidos em peregrinações e batalhas. As cidades muradas da Idade Média também eram a única proteção dos camponeses contra um rei invasor, o que frequentemente levava a massacres antes que todos pudessem se abrigar ou como resultado do cerco de uma cidade. Se a cidade não pudesse se defender, o cerco podia matar de fome e sede todos ali dentro.

A Idade Média (mais ou menos 500-1500 d.C., na Europa) foi quando o Cristianismo se espalhou pelo Velho Mundo. Quando Roma oficializou a nova religião, houve um significativo embrace pelas altas classes, que responde pela difusão no Leste Europeu e na Ásia Menor. Mas no norte da África e na Europa, que mais tarde seriam centros difusores, o crescimento inicial do Cristianismo se deu justamente nas classes mais baixas, num período marcado por misticismo.

Chamamos de Idade Média o tempo entre a desconstrução do Mundo Antigo e a construção do Novo. Tanto uma Era como outra têm a extensão e o fluxo das rotas comerciais como maior símbolo da civilização e estabilidade. Por isso, o apogeu do Mundo Antigo, para a Europa, foi a unificação de todos os reinos sob Alexandre da Macedônia (330 a.C.) e depois Roma (50 a.C.). Isso fez com que sedas e incenso chegassem da distante Índia (com a qual Alexandre estabeleceu tratados políticos, e onde o apóstolo Tomé fundou uma comunidade Cristã) até as ilhas Britânicas (de onde supostamente saiu o cavaleiro denominado Saint Georges, símbolo das Cruzadas). Metais e grãos seguiam na direção contrária. O Mundo Moderno nasceu em aproximadamente 1500, com a re-criação dessas rotas comerciais. Elas assumiram sua forma mais poderosa com as Companhias das Índias (Orientais e Ocidentais), que novamente iam até a China e as Américas buscando especiarias, sedas, porcelanas, ouro, frutas, etc e os levavam por todo mundo em grandes caravelas.

AS VARIADAS IDADES MÉDIAS

Embora fixemos datas de começo e fim da Idade Média, foram séculos para um e para outro. A própria Idade Média foi diferente em cada lugar. No contexto europeu, o começo se deu com a desintegração ou recuo do Estado Romano Ocidental, a partir de 450 d.C. Roma estava repartida em dois impérios irmãos desde 400 d.C., por ter se tornado grande demais. Roma Ocidental (ou apenas Roma) recuou seguidamente frente ao fortalecimento de reinos guerreiros, até desintegrar-se por completo em 500 d.C. Já Roma Oriental (ou Bizâncio) enriqueceu enormemente com o comércio entre os reinos no Mediterrâneo e no Golfo Pérsico. Por isso, a Idade Média teve significados muito diferentes no Ocidente (Europa) e no Oriente (Grécia, Romênia e Turquia). E foi mais diferente ainda na África, que finalmente teve suas portas abertas desde a expansão do Islã.

A imagem mais popular é a do Ocidente, com cidades romanas reduzidas a ruínas, habitadas por povos misturando a magia pagã com o Cristianismo, vivendo com situação sanitária precária em minusculas vilas, sem sistemas legais, basicamente defendendo-se uns dos outros com espadas e armaduras. Mas Oriente romano, esse mesmo período foi marcado pela construção de castelos e igrejas fabulosos, grande evolução nas artes e na música, tecnologia naval, peregrinações suntuosas da realeza e emprego simultâneo de várias línguas em manuscritos e documentos. Muito do material que foi escolhido para ser parte da Bíblia foi preservado como literatura religiosa de Roma Oriental, mais conhecida pelo nome de sua capital Bizâncio (no original) ou Constantinopla (após Constantino I o Grande). Aliás, foi Constantino I quem autorizou a propagação do Cristianismo em Roma.

No Oriente Médio, os tempos medievais representaram a expansão do Islã desde a Arábia até a Índia, Ásia Menor, Síria, Norte da África e Espanha. Foi um período de unificações, grandes Califas, comércio, navegações, batalhas históricas e riqueza para o Islã. Nesse tempo, muitas mesquitas absorveram a arte hindu e passaram a ter portas lembrando um coração invertido. As artes islâmicas e tecnologia evoluíram sobremaneira, assim como o uso de animais para cavalaria e peregrinações.

Enquanto o território de Roma Ocidental regredia a uma rede de vilas isoladas, muradas e cultuando as pinturas dos prédios romanos invadidos pela vegetação, o Islã florescia com astronomia, veleiros cruzando o oceano Índico, cirurgias com ópio indiano como anestésico e poesia histórica. Roma Oriental não ficava por menos, ostentando linhagens centenárias de papas e reis, exércitos com armaduras decoradas, arquitetura grega em escala nunca vista nas cidades, aquedutos e piscinas públicas, teatro, missas e canto gregoriano. Esse reinado de luxúria só terminou justamente devido à expansão islâmica, com o sultão Mehmed o Conquistador e seus navios de guerra batendo às portas de Constantinopla, em 1492. Mesmo assim, no séc. 10, tanto o imperador de Bizâncio quanto o patriarca de Constantinopla (equivalente grego do Papa ocidental) reconheceram a autoridade política e religiosa de Simão I da Bulgária, que oficializaria a linhagem dos Czares (repare a semelhança fonética com César), garantindo um braço de Roma Oriental na atual Rússia. Os Czares levaram tanto o Cristianismo medieval quanto a escrita grega tradicional até meados do séc. 20.

ARTE SACRA

Páginas do livro de Kells. Confeccionado no séc. 8, o livro recuperado da Abadia de Kells, Irlanda, é talvez o mais belo exemplo de arte medieval. Trata-se de uma composição de 340 folhas de pele de carneiro, contendo os 4 Evangelhos e ricamente ilustrado. Além dos corantes caríssimos para a época, boa parte das letras e gravuras foi feita com fios de ouro. O livro portava, originalmente, uma capa de ouro e pedras, que fez com que fosse roubado num ataque viking, em 1007. No séc. 12, o livro voltou à abadia, mas foi tomado pelas forças republicanas do séc. 17. Desde então, ele permanece no Trinity College em Dublin, Irlanda. Outro detalhe fantástico é que, embora trate-se de um texto Cristão, todo o estilo das figuras e mesmo das letras é tipicamente Celta, mostrando a fusão de culturas que ocorreu no norte da Europa. Como não era o estilo dos monges Beneditinos incorporar culturas, cogita-se que as missões Cristãs nessa parte do mundo sejam anteriores à desintegração de Roma, quando Alexandria era um centro importante de formação de missionários. Retirado de en.wikipedia.org

A maior parte do que conhecemos da arte medieval é do tipo sacro, ou seja, voltada a um ambiente religioso. Isso não quer dizer que os homens medievais fossem extremamente religiosos, mas que as pessoas com habilidade para produzir arte eram, em geral, religiosos. Os camponeses estavam bastante ocupados com lavouras e desconheciam a cultura romana. Os nobres em geral estavam ocupados com atividades militares. Restava, então, aos religiosos a educação, dinheiro e tempo necessários a produzir pinturas e esculturas que eram usados figurativamente nas missas. O livro de Kells é um grande exemplo disso: embora muito tempo tenha sido usado em produzir pinturas traçadas/costuradas quase fio a fio, o texto contém muito erros, sugerindo que não era realmente um objeto de leitura. Nas igrejas medievais sem bancos e com missas em latim, sem bíblias, exibir imagens nas paredes ou em um enorme e fabuloso livro dourado era uma forma extravagante de conduzir os serviços religiosos. Era também como contar estórias para uma criança apontando as figuras no livro.

Mas o livro de Kells também nos conta um pouco da história da arte religiosa: quem produziu o livro deixou marcas do seu trabalho. As ovelhas usadas foram criadas entre a Irlanda e a Escócia, o couro foi trabalhosamente refinado, carvão, nozes e cascas de árvores foram usadas para desenhar as letras, bile, clara de ovo, cola e mel foram usados para fixar os corantes e até pão foi usado para limpar partes das páginas. Apesar de trabalhoso, esse era um modo artesanal de produzir: no séc. 13 surgiriam monges copistas profissionais capazes de trabalhar rapidamente e apenas com tintas. Até as letras seriam simplificadas em favor da velocidade de produção.

Da Roma Ocidental e seus paganismos nos chegaram misturas bem elaboradas da cultura Cristã e dos imaginários Celta e Nórdico/Germânico. São dragões, unicórnios, mandrágoras mágicas e grifos. O universo medieval sempre assombrou com seus monstros, mas eles não eram apenas para assustar: num tempo onde o alfabeto romano foi preservado apenas por religiosos e magos, as gravuras de monstros e heróis ensinavam através das histórias que se contavam a partir delas. Impunham preconceitos e hierarquias sociais, ou inspiravam momentos ​​de empatia. Eram a propaganda da ciência, arte, teologia e ética, tudo de uma só vez.

Até a palavra “monstro” traz sérios problemas de entendimento. O verbo latino “monstrare” significa literalmente “mostrar”, mas ao longo dos séculos, “monstrum” passou a significar um presságio - talvez bom, talvez ruim. Em francês ou inglês antigo, “monstre” servia para criaturas maravilhosas ou de alguma forma diferentes. No séc. 14, finalmente passou a significar um ser aterrorizante e fantástico.

Henry VI (1420-1471). A Europa foi rica em reis e nobres ostentando nomeações pela Igreja, alguns sendo até consagrados como santos. Apesar disso, havia bem pouco Cristianismo na forma como os reis combatiam entre si ou até como lidavam com seu povo. A coroa, como usada por Henry, é um objeto que ficou famoso em todo mundo por ser ostentado na cabeça dos reis. Esse formato de coroa é uma herança dos reis romanos que cultuavam o Sol Invictus, do séc. 3 em diante. Retirado de themorgan.org

A figura acima mostra Henry VI da Inglaterra em pé sobre um grande monstro manchado com olhos perversos e avermelhados. O monstro é chamado - no texto - de antílope, embora tenha pouco em comum com o assustadiço animal das savanas (mas lembremos que a África ficou fechada aos europeus por toda idade Média). Além dos chifres afiados (que, conta-se, cortavam árvores), e cauda demoníaca bifurcada, nessa ilustração ele ganha até marfins de javali. Mas é apenas um indicativo do poder de Henry: o medo do antílope e do rei se misturam.

Página de um Livro das Horas - esse tipo de livro era uma ferramenta dos monges Beneditinos* para ensinar a administração do tempo. Em geral muito ilustrados, eles lembravam os Almanaques que circularam no Brasil e outros países do início do séc. 20 até os anos 1980. Traziam um calendário com ênfase nos dias sagrados, festas, dias de plantio e colheita, passagens dos Evangelhos, salmos penitenciais (6, 31, 37, 50, 101, 129) e orações dedicadas a certos santos Católicos como Santa Bárbara, Santa Margarete de Antioquia, Santo Antônio e São Sebastião. Retirado de amphilsoc.org

Esses monstros surpreendentes existem, pelo menos em parte, porque fazer as imagens era um processo lento e cuidadoso. Os artistas tinham bastante tempo para refletir sobre os significados de seu trabalho. No antigo território de Roma Ocidental, o fim das rotas comerciais tornou os pigmentos muito raros: enquanto o negro podia ser feito de carvão e o ocre vermelho de argila, outros, como o azul marinho, só chegavam à Europa através das perigosas e abandonadas estradas até o Oriente Médio. Usar ouro nas ilustrações também era comum, e produzir uma única cópia ilustrada do Livro das Horas, um dos mais populares devocionais Cristãos da Idade Média, com anjos e a Virgem Maria portando luminosas capas azuis, podia significar muito. Era o resultado de uma viagem de anos, um preço considerável e ainda um trabalho minucioso de muitos dias ou meses do artesão. Nesse meio tempo pessoas poderosas se tornavam gigantes, assim como personagens pavorosos ganhavam mais dentes, chifres e força descomunal.

O HILÁRIO MUNDO DOS MONSTROS

Livro das Horas, séc. 15. A princesa atrás das montanhas, como se fosse um gigante, é a governante de Trebizonde, um reino Cristão ao sul do Mar Negro. Esse reino foi fundado por cavaleiros da 4ª Cruzada, reunidos de toda Europa e enviados para reconquistar Jerusalém. O reino ficava no litoral de onde hoje é a Turquia e se desligou de Bizâncio após a tomada de Constantinopla. Essa figura retrata bem as peregrinações envolvidas nos tempos das Cruzadas contra os reinos não-Cristãos: Saint Georges é supostamente um cavaleiro inglês (não há qualquer registro sobre ele além da tradição), que viajou pela Bélgica, Bizâncio e Turquia. Retirado de pinterest.co.uk

Examinando uma das ilustrações de um Livro das Horas belga do século 15, você pode ver quanto amor e cuidado os artistas medievais colocavam em seus monstros. A cena - uma das mais emblemáticas do Cristianismo - mostra Saint Georges perfurando com a lança a cabeça de um dragão. Para os olhos do séc. 21, o heroísmo de Georges pode parecer um pouco cômico - o dragão é do tamanho de um cachorro, parece deitado de barriga para cima e ainda está sendo pisado pelo cavalo. No entanto, o olhar do artista para os detalhes atordoa mais de 500 anos depois: você ainda pode distinguir as escamas na cauda do monstro e as expressão em seus olhos redondos. Não pela primeira ou última vez, o vilão fraco faz o herói parecer quase humorístico.

Livro das Horas de Henry VIII, França. O Tarasque era um monstro que habitava a margem do rio Reno, com cabeça de dragão, carapaça de tartaruga e cauda de escorpião, que incendiava tudo em que tocava. Sua destruição marca, supostamente, o começo da habitação humana naquelas terras. Abaixo está Marta, pregando aos habitantes da região, que assumiram o Cristianismo após ver seu milagre. Retirado de themorgan.org

Noutra cena fantástica, o Tarasque é trazido para fora de sua caverna por uma Santa Marta medieval, embora seu culto a identifique com a Marta em cuja casa Jesus encontrou Lázaro e sua outra irmã Maria. A tradição explica que Marta, Maria e Lázaro seguiram até a Europa de barco, após a ascensão de Jesus. Mas a região do rio Reno, na verdade, não possui montanhas ou cavernas. O Tarasque, nalgumas pinturas, também é pequeno como o dragão de Saint Georges. Na lenda, a santa serve de atrativo e distrai o monstro para que os cavaleiros o matem. Nessa pintura, em especial, ele lembra por demais um cão obediente, com olhar de são bernardo, sendo puxado por sua dona. O monstro obediente simboliza o triunfo sem batalha do bem (civilização) contra o mal (vida selvagem), bem no sentido inverso das lendas de Grimm, onde lobos se fantasiam de homens para enganar crianças.

XENOFOBIAS

Judeu de Bern, provavelmente a origem da lenda germano-brasileira sobre o “homem do saco”. Trata-se de uma peça de madeira esculpida em 1546. Embora tenha sido muito usada como representação para assustar crianças desobedientes, o chapéu judeu da criatura é bem característico. Retirada de slate.com

Mas nem todos os monstros medievais eram tão carismáticos. Muitos foram inspirados em mesquinhez e violência. O anti-semitismo - que poderia ser plausivelmente definido como a representação de judeus como monstros - era indiscutivelmente central para a cultura européia da época. Ogros judeus sedentos de sangue serviram como personagens em inúmeras peças, histórias e poemas. Como na época do Nazismo, os judeus eram obrigados a usar um chapéu amarelo ou listrado pontiagudo. No meio da cidade suíça de Bern, a escultura de uma fonte ainda traz um desses pavorosos judeus-monstro simplesmente tirando crianças de um saco para as devorar. Em nenhuma prática judaica já foi documentado semelhante coisa, então somos levados a pensar na disposição do artista e autoridades da época em criar uma imagem que justificasse as ações de Cristãos contra os judeus.

Talvez o exemplo mais famoso desse tipo de história esteja na coleção The Canterbury Tales, do poeta inglês Geoffrey Chaucer. Nessa obra, um judeu mata uma criança Cristã e joga seu corpo em um monte de lixo. Quase tão famosa é a lenda do judeu de Bourges, que queima seu próprio filho, mais ou menos como nos ritos de Moloque, que os judeus nos contaram a respeito dos povos Cananeus. Uma ilustração francesa do início do século 14 retrata o judeu de Bourges com grandes olhos revirados e um nariz de porco enquanto empurra seu filho para uma fornalha. A imagem, em toda sua histeria racista e sentimentalismo grotesco, não é tão diferente das charges antissemitas que Julius Streicher publicou no auge do Terceiro Reich de Adolf Hitler. Outras caricaturas da Idade Média incluem muçulmanos, mulheres, pobres e doentes mentais. Essas imagens, vistas hoje, parecem ressaltar as poucas diferenças genuínas entre Cristãos e pagãos quanto a seu trato com “o diferente”.

MONSTROS SANTÍSSIMOS

Martírio de São Bartolomeu. Existem pelo menos 4 versões sobre a morte do apóstolo às vezes nomeado como Bartolomeu, às vezes como Natanael. Numa versão da Armênia, ele foi flexado e depois decapitado. Noutra, a mais popular, ele foi crucificado de cabeça para baixo, como Pedro. Ainda noutra, retratada aqui, ele batizou o rei Polymius, sendo então torturado e morto pelo irmão do rei. Numa última versão, possivelmente a mais verdadeira, Bartolomeu navegou até a Índia, talvez na mesma missão de Tomé, onde morreu na cidade de Kalyan. Retirado de br.pinterest.com

Uma ironia ainda maior das imagens de monstros medievais é que piedosas figuras bíblicas - mártires, discípulos de Cristo e até mesmo o próprio Cristo - eram retratadas como monstruosas. As histórias sangrentas de São Bartolomeu sendo esfolado vivo e de São Denis ou São Firmino, que dizem terem carregado suas próprias cabeças depois de cortadas, inspiraram infinitas obras religiosas. Uma representação húngara do martírio de Bartolomeu, do século 14, mostra o santo com sua pele meio removida, a boca presa em um sorriso de gato do País das Maravilhas. Ainda mais estranho é uma versão do artista do século 12 da Santíssima Trindade como um mutante de quatro olhos e três cabeças. Imagens como essas - não menos do que as dos dragões ou judeus matadores de crianças - procuram aterrorizar, mas por uma razão diferente: sugerir que o medo é parte da fé religiosa.

O EXÓTICO CRISTIANISMO

Por fim, é preciso dizer que boa parte do espanto com a arte Cristã medieval se dá porque a cultura Cristã da época nos parece muito exótica, 5 séculos depois. Sem dúvida o Cristianismo mudou muito nesse tempo. Duas influências grandes sobre a arte Cristã foram as Cruzadas (séc. 11 a 14) - que encheram o imaginário europeu com monstros e coisas terríveis dos Mouros - e a Peste Negra (metade do séc. 14). A Peste originou-se no Mar Cáspio e espalhou-se rapidamente pela Europa, seguindo o litoral e a rota das embarcações. A quantidade de mortos, a deformidade dos corpos e o sofrimento dos contagiados invadiu o imaginário popular com imagens de demônios em forma de cadáveres e atormentando os moribundos. Isso acabou desembocando em uma série de obras Cristãs conhecidas como Ars Moriendi, ou Arte de Morrer.

Ars Moriendi, Holanda, 1460. Nessa gravura do livro, um moribundo é tentado por várias coroas relativas às riquezas, orgulho, poder, etc. Enquanto o moribundo parece extremamente confortável em sua cama, aparecem diversos demônios risíveis ao seu redor. Tais figuras lembram bastante os desenhos de Pieter Bruegel sobre monstros, demônios e a loucura. Retirado de en.wikipedia.org

Essas obras dispunham sobre a forma correta de um Cristão morrer, de maneira a escapar dos tormentos de demônios. Na versão mais longa que foi preservada, aparecem ilustrações de demônios que lembram muito os anões da Branca de Neve, alguns com longas orelhas de coelho, ou línguas enormes, chapéus longos com as pontas enroladas, etc. Eles carregam as tentações que levam ao pecado e sua aparência bizarra, parecendo cruzamentos de humanos com animais que estão sem saber o que fazer pelo mundo, de fato fazem uma referência cruel aos doentes mentais. Levar-se pelo pecado é um símbolo de deficiência. Os moribundos, por outro lado, são explicitamente instruídos a manter uma aparência serena. Não apenas no Ars Moriendi, mas em toda a arte medieval, as pessoas parecem morrer completamente desinteressadas e passivas. Mesmo que isso seja sob apedrejamento, devorados por feras, perfurados por lanças ou decapitados. A face serena era, segundo o Ars Moriendi, uma forma de manter longe os demônios.

ÍCONES

Mas talvez a maior representação da arte medieval seja os ícones. Trata-se de pinturas ou esculturas religiosas que são, elas próprias, canais de comunicação com o divino. A Cristandade romana encheu a Europa, Ásia menor e norte da África com imagens de cenas bíblicas, mártires, reis, papas e patriarcas. Como no caso dos gregos que adoraram como deuses novos as estátuas quebradas nas ilhas que povoavam, civilização após civilização, os homens medievais encontraram essas obras de artes de homens antigos, de um reino antigo, e lhes atribuíram o papel de mensageiros divinos. Pinturas romanas deram origem a santos e, mais do que isso, as próprias pinturas foram tidas como sagradas, lugares para onde as pessoas peregrinavam em busca de cura, iluminação ou por subserviência. A Igreja Oriental até mesmo formulou uma teologia para explicar o poder das imagens: assim como Deus assumiu a forma humana em Cristo, Ele poderia assumir a forma material de pinturas e esculturas.

Imagem de Nossa Senhora da Conceição, cultuada em todo Brasil e que favoreceu a proclamação da Independência por fazer com que, na colônia, se desenvolvesse um importante centro Católico. Em 1978, a imagem (esquerda) foi destruída em um atentado religioso, produzindo mais de 200 fragmentos que foram cuidadosamente colados no Museu de Arte de São Paulo (MASP) (direita). A coloração original era clara, com pinturas em dourado, azul e vermelho, como era o estilo do escultor. Hoje ela é castanho escuro, acumulando uma camada de cera e fuligem do templo. Nos sécs. 8 e 9, um movimento iconoclasta dentro da Igreja Católica destruiu boa parte dos ícones, com exceção dos ossos e resquícios de santos. Retirado de padrerodrigomaria.com.br

Além do papel evangelizador que tiveram numa época onde a escrita se tornou raramente usada, essas obras religiosas foram a representação material e poderosa de Deus, como a Arca da Aliança levada nos conflitos entre judeus e filisteus. No Brasil, um exemplo tardio dos ícones foi a imagem de Aparecida. Obra de um monge escultor do século 17**, a estatueta com cabeça quebrada foi recuperada de um rio e venerada como a própria Virgem, ganhando um santuário que hoje é o segundo maior templo católico em atividade no mundo.

Como na Rússia dos Czares, a Idade Média de algum modo se estendeu para além do seu tempo devido à falta de contato tecnológico entre o Brasil-colônia e o restante do mundo. Isso para não falar nos livros e filmes que, desde o séc. 19, encantam o imaginário de adultos e crianças desagradados com a mesmice da ciência racional e um Estado estável.

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* Os monges Beneditinos foram uma força poderosa da civilização durante a Idade Média. Afora o caráter evangelizador de suas missões na Europa, os Beneditinos seguiam uma organização quase militar de delimitação de territórios e propagação da cultura romana. Quando chegavam a uma localidade, os monges tratavam de cercar um território para o mosteiro (às vezes até usavam de nobres armados para isso) e organizavam meticulosamente seu dia sobre os princípios de trabalho e culto coletivo. Assim, enquanto alguns monges entoavam por horas a fio um canto de homenagem a Deus ou algum santo, outros trabalhavam na horta e outros na construção do prédio. Em horários específicos as equipes trocavam suas tarefas. Esses mosteiros foram centros de alfabetização e educação na Idade Média, além de manterem viva a ideia de um Estado que ia além das pequenas vilas, mesmo sendo a distante autoridade de um abade ou bispo em Roma ou outra cidade papal.

** Uma análise meticulosa do estilo usado na imagem de Aparecida atribuiu sua origem ao paulista Frei Agostinho de Jesus, famoso produtor de estátuas sacras. Trata-se de uma estátua de barro. Aparentemente, a cabeça da imagem quebrou-se e, segundo a tradição, a mesma foi jogada no rio, onde permaneceu tempo suficiente embaixo d’água para que sua pintura fosse quase totalmente removida. Desde sua descoberta no rio Paraíba do Sul, em Guaratinguetá/SP, diversos milagres e estórias fabulosas foram-lhe atribuídos, como uma pesca milagrosa e a estátua ter ficado tão pesada que os pescadores não puderam carregá-la.

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EM LETRAS PINTADAS COM OURO

Ars moriendi - wikipedia
Book of Kells - wikipedia
Medieval monsters: terrors, aliens, wonders, apollo-magazine.com, 8jun2018
Mark JJ, Book of Kells, ancient.eu, 30jan2018
Tsar - wikipedia

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Todos os medos

Cristo no deserto - Ivan Nikolayevich Kramskoy, 1872

Resolvi deixar aqui uma passagem que considero muito especial, de um ótimo livro.

Numa fria manhã de janeiro de 28, seus passos o levam a montanha de Gebel Quruntul. Em suas abas estende-se Jericó. Nos flancos das gargantas áridas, a rocha escancara bocas cavernosas onde habitam chacais, rastejam serpentes e águias buscam provisões para seus ninhos. Abaixo, entre areias de ouro, o solo abre-se ao leito do Jordão. Ao norte, os montes da Samaria sentinelam o Hermon, que, atrás, desponta com sua coroa de neve. Ao sul, na planície cintilante de sal, paira a água estéril do mar assombrado.

Jesus adentra o deserto lacerado por dúvidas. Por que João curvou-se a minha presença? Não é ele o profeta, o precursor, o novo Elias? Não encarna a esperança desses deserdados que, de mãos vazias, recorrem a ele ansiosos por salvação? E aquela Voz? Será mesmo que o Pai me gerou como seu filho e nutre por mim tanto afeto? Não será João o Messias? Ele padece prolongados jejuns; eu aprecio a boa mesa. Ele se abriga no deserto; eu prefiro as cidades. Ele usa linguagem direta como lança certeira; eu falo em metáforas. Ele recebe todos, mas não se mistura; eu convivo com pecadores, publicanos, pagãos. Meu Deus, arranca as escamas dos meus olhos, destrava as correntes de meu coração! O que esperas de mim?

Mira a paisagem desolada do lado oposto a Betânia da Transjordânia, onde recebera o batismo. Ali as manhãs inflamam-se de luz e calor, como se o Monte Nebo exibisse línguas de fogo. Ao fim da tarde, o sol afunda entre a copa rasteira dos arbustos e esconde sua face nas sombras das escarpas. A noite desce sem prenúncios, grávida de agouros malditos.

O testemunho do primo induz Jesus a não trazer alimentos e aliviar a sede com as gotas de orvalho recolhidas pela rara vegetação. Quer entreter-se consigo e com Deus. Ficar só por algum tempo, ouvir o silêncio, descobrir sua vocação. Respira o sopro amargo do “khamsin”, o Vento da Arábia, e medita nos quarenta dias e nas quarenta noites que as águas do Dilúvio recobriram a Terra; nos quarenta dias e nas quarenta noites que Moisés permaneceu no alto do Monte Sinai; nos quarenta dias e nas quarenta noites que Elias caminhou até a montanha de Deus. Entrega-se a oração. Deixa que o Espírito harmonize-lhe corpo e alma, esvazie sua mente de todas as distrações, dilate seu coração à vontade divina. Percorre as sendas mistéricas que conduzem do difuso ao infuso e experimenta a vertigem de ser virado ao avesso. Deleita-se no inefável.

No décimo dia, a língua cola-se ao chão da boca, o ventre rosna vazio, o espírito enche-se de aridez. Deus está mudo. Os olhos de Jesus percorrem os desfiladeiros que contornam a exígua caverna na qual se abriga. Não vê pedras, vê pés recheados de frutas secas e adoçados com mel. As rochas são peixes grelhados; os seixos, figos ressecados; os calhaus, bolos recobertos com calda de melão.

É assaltado por ímpetos de abandonar preces e meditação, fugir desse lugar onde o silvo das cobras amplia-se ao rumor dos ventos e produz o som de risadas sarcásticas. Quer ir ao encontro de tortas de romãs e doces de amêndoas que sua mãe tão bem prepara. É retido por uma força mais íntima do que ele a si próprio. Deve quedar-se, amargar o jejum, descartar alucinações, manter-se atento à voz misteriosa de Deus. Um versículo das Escrituras reboa em sua mente: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que brota da boca de Deus. Não basta saciar-se de pão; antes, é preciso também aplacar a fome de beleza. Buscar no miolo vazio do pão inexistente o sentido, o fermento que leveda a massa, o gesto que faz da copa comunhão.

No vigésimo dia, o vácuo por dentro do umbigo traga-lhe as entranhas. O estômago grita como choro de criança doente, os intestinos liquefazem-se, a cabeça ferve sob um peso insuportável. Quem se julgava amado sente-se, agora, abandonado. Luta, dois dias e duas noites, contra o poder invisível, o mesmo contra o qual lutou Jacó até agarrar o anjo de Deus e impedir que ele se afastasse sem antes dar-lhe a bênção.

Súbito, vê-se em Jerusalém, de pé no pináculo do Templo, a uma altura de sessenta metros do solo. Seus olhos sobrepassam as torres da cidade e se estendem ao horizonte quimérico de impérios grandiosos: Nínive, Babilônia, Assur, Passárgada. Ouve vozes: Se és Filho de Deus, renuncia das tuas responsabilidades e joga-te daqui. O sotaque destoa daquele que, no Jordão, lhe fez declaração de amor. A voz, agora soturna, prossegue: Cruza os braços, apaga da mente todo juízo, aceita os desígnios do Todo Poderoso, não com fé, mas com a cegueira de quem tem os olhos vazados. Porque a Escritura diz: “Ele dará ordem a Seus anjos e eles te tomarão pelas mãos, para que não tropeces em nenhuma pedra.”

Imagina-se como João, os rins cingidos por um cinturão de couro, a Voz potente a anunciar a libertação aguardada por Israel, as multidões a segui-lo. Ah, como tudo seria mais simples e sedutor se os prodígios de Moisés se repetissem e todos vissem a vara se transmutar em cobra e a cobra em vara, e Javé irromper numa sarça ardente! Assaltam-lhe imagens da unção de um rei que tem o seu perfil e, montado num cavalo árabe, percorre triunfante as ruas de Jerusalém aclamado pelo povo. Na poeira soprada pelo Vento vislumbra o rei Salomão, glorioso, aproximar-se e oferecer-lhe o cetro real e todos os tesouros, incluídos os memoráveis presentes da rainha de Sabá.

Aterrorizado pelas imagens que sua mente gulosa saboreia, levanta-se, esmurra as cenas que se descortinam a seus olhos, pula sobre o solo duro e arenoso para ter a certeza de que esta ali, próximo ao Jordão, e não na cidade do Santuário. Grita, a si mesmo e a quem possa escutar,a palavra da Escritura: Não tentarás o Senhor teu Deus! Não tenho que imitar João, fingir que sou Elias, revestir-me da realeza de Salomão, de Davi ou da glória de Moises. Devo seguir o meu caminho, beber do cálice de sangue e comer do pão que não esta isento do fermento dos fariseus. Meu Pai, Deus de amor, o que me reservas?

Mergulha, a partir desse dia, no sofrimento de quem, em plena vida, anseia por renascer. Quer reafirmar suas opções mais profundas. Mas quais? Quem sou? O que Deus quer de mim? Não sou filho de sacerdote, nem estudei com monges ou escribas. Criado num vilarejo, sou apenas o filho de um carpinteiro.

Por que, Senhor, povoas tão fundo o centro de meu espírito? Por que, no batismo, me chamaste de Filho Amado? Não és o Inacessível, o Inominável, o Transcendente? No entanto, sinto-te muito próximo, mais íntimo a mim do que minhas intuições mais recônditas. És um outro, diferente de mim e, contudo, teu Espírito funda a minha verdadeira identidade. És o meu verso e reverso. És o avesso de minha pele, a cor do sangue que corre em minhas veias, a luz que acende meus olhos. És o pássaro que atravessa o meu horizonte, as árvores que sombreiam o meu caminho, as águas que banham o meu corpo. És o Cosmo e também esta pedra na qual me recosto, o nó de meus sentimentos, o afago e o desafio. És Pai e, no entanto, sinto-te Mãe.

Seu espírito apazigua-se. Percebe, pela primeira vez, os grilos amarelados que saltitam entre cascalhos. A oração, com seu toque sutil, clareia aos poucos sua mente e dilata-lhe os olhos. O tempo é breve, não quer dispor de poder como os que governam, nem apropriar-se da tenda que Deus lhe arma. Entregar-se-á ao Espírito, guardará fidelidade às suas intuições, não recuará diante das veredas imprevisíveis.

No trigésimo dia, a fome o tortura e a sede queima-lhe a garganta. Sente-se fraco, as pernas bambeiam ao tentar andar. Observa, com uma ponta de inveja, o voejar delicado de pequenas borboletas brancas. Também no deserto há vida, basta ter olhos para ver. Ao crepúsculo, contempla o poente, embevecido pelo jogo de cores. O sol recolhe suas espadas douradas em aljavas rubras e a noite abre, cautelosa, seu véu escuro cravejado de brilhantes. De repente, os olhos rodopiam. No céu, não são estrelas, são reluzentes diamantes. Da linha do horizonte avançam em sua direção, suspensos no ar, palácios e castelos. Distingue nos terraços, entre ameias, odaliscas que retorcem o ventre nu ao som de citaras. Umbigos delicados giram ao ritmo de pandeiros. Têm a pele de pêssego, o requebro insinuante, o olhar lascivo. Não são mulheres, são frutas maduras a avivar-lhe o apetite. São serpentes a exalar fragrância de maçãs e transformar o deserto num harém tão luminoso como o incêndio que arde em suas entranhas.

Um forte ímpeto percorre seu corpo. Eis o que um homem deve almejar! De que vale a vida sem o ter, o poder e o prazer? Esquálido, apóia-se no galho que lhe serve de bengala, ergue-se cambaleante, estira o madeiro aos céus e, com o fio de voz que lhe resta, brada: Vai-te, Satanás, porque a Escritura diz: Ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele prestarás culto.

Cai prostrado. A noite se derrama em sua mente. O suor salpica-lhe a pele, a respiração ofegante parece tragar a terra. Sua pele não sente o chão e seu ser ignora o corpo. É nada. Está extenuado, como se tivesse caminhado, como Hillel, do Eufrates ao Jordão. Um imenso vazio o povoa. Imponderável, mergulha na escuridão de um mundo que não nasceu, aborto sem olhos e sem vida.

Aos poucos, recobra a consciência. Não, não são as lembranças da memória e as conexões da inteligência que falam mais forte. São os ardores do coração. Não o seduzem a cobiça sensual, a voracidade de poder, o sonho da imortalidade. Está livre, invadido por uma profunda paz. Vagas brilhantes a inundar o oco do oceano. Sentidos, razão e espírito moldam-se em seu ser como uma só unidade. Tudo nele converge, imanência, transcendência e transparência, Enlaçam-se, num só complexo, todas as dimensões de sua vida.

Pressente, enfim, que nada mais poderá apartá-lo do Amor. Renascido, ao irromper do quadragésimo primeiro dia ele desce a montanha.

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Frei Betto, Um homem chamado Jesus, Ed. Rocco, p80-86, 2009.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Enquanto isso, no inferno . . .


Digerimos esse texto do Mark Dever, por isso ele pode parecer meio gosmento a princípio... mas vai ficar melhor depois de engolir. É o que diz no manual, pelo menos.

Mark Dever é pastor da Igreja Batista de Capitol Hill, no distrito de Washington; fundador do ministério 9 Marcas e um dos organizadores do ministério Juntos Pelo Evangelho; conferencista internacional e autor de vários livros, incluindo os livros “Nove Marcas de Uma Igreja Saudável”,”Refletindo a Glória de Deus” e “Deliberadamente Igreja”, todos publicados em português pela Editora FIEL.

Pregar sobre o inferno é manipulação. É a tática do medo. É assédio psicológico. Não é isso o que as pessoas dizem?

Na maior parte de sua história - afirma o filósofo A. C. Grayling - o cristianismo tem sido uma ideologia geralmente violenta e sempre opressiva – pense nas Cruzadas; na tortura; nas pessoas queimadas em estacas; nas mulheres constantemente escravizadas ao parto e ao seu marido, sem poderem se divorciar; na distorção da sexualidade feminina; no uso do medo (dos tormentos do inferno) como um instrumento de controle; e nos resultados horrendos de sua calúnia contra o Judaísmo.

Mas hoje em dia, os cristãos são consumidores mais conscientes. Eles sabem como se vender no mercado, lançando fora as repressões, como se fossem um novo produto ou um político. Grayling continua:

Atualmente, em contraste, o cristianismo se especializa em músicas comoventes e desfocadas. Suas ameaças acerca do inferno; sua exigência por pobreza e castidade; sua doutrina de que apenas poucos serão salvos e muitos serão condenados foram deixadas de lado e substituídas por dedilhados de violão e sorrisos açucarados. O cristianismo tem se reinventado com freqüência, com uma hipocrisia de tirar o fôlego, com o interesse de manter o seu domínio sobre os incautos. E se um monge medieval despertasse do sono hoje, como no filme O Dorminhoco, de Wood Allen, não seria capaz de reconhecer a fé que leva o mesmo nome que a sua.

De qualquer modo, essa é a transformação que um descrente observou entre os cristãos. Isso reflete o nosso desconforto moderno, nossa repulsa em afirmar publicamente qualquer um dos ensinos impopulares de Jesus, como o apavorante quadro do futuro, pintado por Jesus. Poderia isso refletir também o modo como os crentes se renderam rapidamente aos padrões culturais?

POR QUE ESCARNECEMOS DO MEDO?

Nossa sociedade não se agrada de ser motivada pelo medo. Nós nos ressentimos com isso. Afinal de contas, o medo não é um guia confiável. Ele parece ser indigno de nós. Parece primitivo e até animalesco. Parece muito instintivo, em vez de racional.

“Fobias” são como chamamos os medos irracionais. Então nos referimos à hidrofobia como sendo um medo irracional de água ou à aracnofobia, como um medo irracional de aranhas. Devemos ter pena das fobias e rejeitá-las. Se você chama o modo como concebo a sexualidade de “homofobia”, então você não deve levar em consideração o que digo. As fobias são indignas de serem levadas a sério.

O medo é poderoso, admitimos, mas também é irracional e nos deixa sujeitos à manipulação, vulneráveis. Por essa razão, não gostamos dele.

O MEDO FUNCIONA

Ironicamente, todo mundo sabe que o medo é útil. As pessoas fogem do que temem. Por isso tiramos proveito dele.

Fazemos isso desde os primórdios dos tempos. Por essa razão, as fábulas de Esopo advertiam sobre o destino dos preguiçosos. Os provérbios e as máximas de Confúcio e Benjamin Franklin contrastam a prosperidade dos que andam retamente com a pobreza dos que fazem coisas erradas. Os pais dizem aos filhos para não fazerem isto ou aquilo para que não se machuquem ou para não terem aqueles amigos porque eles o conduzirão ao que não é bom. Os professores dizem a Joãozinho que, se ele não ler, não poderá trabalhar; e se não puder trabalhar, não poderá ter as coisas que quer e a vida que deseja. Fingimos não acreditar em afirmações assustadoras, mas a grande verdade é que o medo vende!

Você quer segurança para os seus filhos, por essa razão, compra determinado carro. Você quer sua saúde protegida, por isso adquire um convênio e compra vitaminas. Você quer manter uma boa aparência, então compra um aparelho para abdominais. Você quer segurança financeira, portanto, faz investimentos. Você quer ter um sono sadio, o que significa que precisa dormir em segurança, por essa razão, compra um alarme para a sua casa. O medo funciona!

E não é só a Madison Avenue que sabe disso. A cidade onde moro, Washington, DC, conhece a utilidade do medo. O medo pode ser censurado – “Não há nada a temer, mas tema o próprio medo” – no entanto, ele é utilizado constantemente.

Apenas imagine uma tela escura de televisão. Depois, uma foto desagradável em preto e branco aparece, e uma voz profunda e agourenta diz: “Se o ‘Fulano de Tal’ chegar ao poder, prisioneiros assassinos serão soltos; os empregos evaporarão; nosso país ficará indefeso; os idosos passarão fome; o sol não brilhará; sempre será inverno e não haverá mais natal”! Depois, a tela muda para uma foto colorida de um candidato sorrindo, sendo cumprimentado calorosamente por pessoas felizes. A voz passa de agourenta para uma voz calorosa e confiante. Ela afirma o candidato. Fim.

E SE, DE FATO, HOUVER ALGO A TEMER?

É lógico que é bom ensinarmos os nossos filhos a não terem medo de sombras e sermos cautelosos com aqueles que utilizam o medo para nos vender algo. Mas e se houver realmente algo a temer? E se nossas ações tiverem conseqüências e nem todas as conseqüências forem boas? E se houver uma relação entre o que fazemos e o que colhemos? Temos permissão para falar disso?

Nossa sociedade tolera advertências sobre perigos reais: “Ponte caída. Retorno à direita”. Valorizamos advertências médicas educativas: “Se você não parar de fumar, isso o matará”. Especulamos como uma ação afetará nosso meio ambiente ou nossa economia. Somos rápidos em advertir contra ameaças terroristas.

Mas e nas questões espirituais? Nos assuntos sobre Deus, nossa alma e vida após a morte? O medo é um motivador apropriado nessas questões?

Podemos nos ressentir com tal idéia, no entanto, nossos ressentimentos nunca foram um guia infalível contra o que é falso, não é mesmo? O fato de nos ressentirmos com algo não significa que ele não seja verdadeiro!

JESUS NOS MOSTROU O QUE DEVEMOS TEMER: O INFERNO

Jesus sabia que havia algo a temer: passar a eternidade no inferno. Ele disse aos seus discípulos:

Mc 9.43-48. E, se tua mão te faz tropeçar, corta-a; pois é melhor entrares maneta na vida do que, tendo as duas mãos, ires para o inferno, para o fogo inextinguível onde não lhes morre o verme, nem o fogo se apaga. E, se teu pé te faz tropeçar, corta-o; é melhor entrares na vida aleijado do que, tendo os dois pés, seres lançado no inferno onde não lhes morre o verme, nem o fogo se apaga. E, se um dos teus olhos te faz tropeçar, arranca-o; é melhor entrares no reino de Deus com um só dos teus olhos do que, tendo os dois seres lançado no inferno, onde não lhes morre o verme, nem o fogo se apaga.

Em outra passagem, Jesus disse:

Lc 12.4-5. Digo-vos, pois, amigos meus: não temais os que matam o corpo e, depois disso, nada mais podem fazer. Eu, porém, vos mostrarei a quem deveis temer: temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno. Sim, digo-vos, a esse deveis temer.

Jesus nos exortou a temer o inferno. E nos advertiu para temermos a Deus, que tem o poder de nos lançar no inferno.

PASTORES, NÃO TENHAM MEDO DO MEDO

É uma ilusão pensar que podemos viver sem medo neste mundo amaldiçoado e caído. Todo mundo tem medo de algo, é só uma questão do que.

Pastores, não sejam seduzidos pelos padrões culturais a respeito do que devemos ou não temer. Não seja enganado pela ironia de nossa cultura em relação ao medo. Eles também sentem medo. Em vez disso, siga a Jesus, admoestando os outros acerca do futuro aterrorizante que aguarda aqueles que não se arrependem de seus pecados e não confiam em Cristo.

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Eu sei que você sabe inglês. Please read this one bellow:
GRAYLING, A. C.. Against All Gods. London: Oberon Books, 2007. p. 24