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sábado, 28 de julho de 2018

Idarte Média

Quadro Accolade, de Edmund Leghton, 1901. Essa imagem retrata uma visão romântica da Idade Média, com votos de fidelidade (que eram reais), títulos de nobreza concedidos mediante façanhas militares e reis/rainhas adorados pelos seu povo. Não era raro que princesas e rainhas fossem governantes, pois a mortandade entre os nobres era alta, geralmente envolvidos em peregrinações e batalhas. As cidades muradas da Idade Média também eram a única proteção dos camponeses contra um rei invasor, o que frequentemente levava a massacres antes que todos pudessem se abrigar ou como resultado do cerco de uma cidade. Se a cidade não pudesse se defender, o cerco podia matar de fome e sede todos ali dentro.

A Idade Média (mais ou menos 500-1500 d.C., na Europa) foi quando o Cristianismo se espalhou pelo Velho Mundo. Quando Roma oficializou a nova religião, houve um significativo embrace pelas altas classes, que responde pela difusão no Leste Europeu e na Ásia Menor. Mas no norte da África e na Europa, que mais tarde seriam centros difusores, o crescimento inicial do Cristianismo se deu justamente nas classes mais baixas, num período marcado por misticismo.

Chamamos de Idade Média o tempo entre a desconstrução do Mundo Antigo e a construção do Novo. Tanto uma Era como outra têm a extensão e o fluxo das rotas comerciais como maior símbolo da civilização e estabilidade. Por isso, o apogeu do Mundo Antigo, para a Europa, foi a unificação de todos os reinos sob Alexandre da Macedônia (330 a.C.) e depois Roma (50 a.C.). Isso fez com que sedas e incenso chegassem da distante Índia (com a qual Alexandre estabeleceu tratados políticos, e onde o apóstolo Tomé fundou uma comunidade Cristã) até as ilhas Britânicas (de onde supostamente saiu o cavaleiro denominado Saint Georges, símbolo das Cruzadas). Metais e grãos seguiam na direção contrária. O Mundo Moderno nasceu em aproximadamente 1500, com a re-criação dessas rotas comerciais. Elas assumiram sua forma mais poderosa com as Companhias das Índias (Orientais e Ocidentais), que novamente iam até a China e as Américas buscando especiarias, sedas, porcelanas, ouro, frutas, etc e os levavam por todo mundo em grandes caravelas.

AS VARIADAS IDADES MÉDIAS

Embora fixemos datas de começo e fim da Idade Média, foram séculos para um e para outro. A própria Idade Média foi diferente em cada lugar. No contexto europeu, o começo se deu com a desintegração ou recuo do Estado Romano Ocidental, a partir de 450 d.C. Roma estava repartida em dois impérios irmãos desde 400 d.C., por ter se tornado grande demais. Roma Ocidental (ou apenas Roma) recuou seguidamente frente ao fortalecimento de reinos guerreiros, até desintegrar-se por completo em 500 d.C. Já Roma Oriental (ou Bizâncio) enriqueceu enormemente com o comércio entre os reinos no Mediterrâneo e no Golfo Pérsico. Por isso, a Idade Média teve significados muito diferentes no Ocidente (Europa) e no Oriente (Grécia, Romênia e Turquia). E foi mais diferente ainda na África, que finalmente teve suas portas abertas desde a expansão do Islã.

A imagem mais popular é a do Ocidente, com cidades romanas reduzidas a ruínas, habitadas por povos misturando a magia pagã com o Cristianismo, vivendo com situação sanitária precária em minusculas vilas, sem sistemas legais, basicamente defendendo-se uns dos outros com espadas e armaduras. Mas Oriente romano, esse mesmo período foi marcado pela construção de castelos e igrejas fabulosos, grande evolução nas artes e na música, tecnologia naval, peregrinações suntuosas da realeza e emprego simultâneo de várias línguas em manuscritos e documentos. Muito do material que foi escolhido para ser parte da Bíblia foi preservado como literatura religiosa de Roma Oriental, mais conhecida pelo nome de sua capital Bizâncio (no original) ou Constantinopla (após Constantino I o Grande). Aliás, foi Constantino I quem autorizou a propagação do Cristianismo em Roma.

No Oriente Médio, os tempos medievais representaram a expansão do Islã desde a Arábia até a Índia, Ásia Menor, Síria, Norte da África e Espanha. Foi um período de unificações, grandes Califas, comércio, navegações, batalhas históricas e riqueza para o Islã. Nesse tempo, muitas mesquitas absorveram a arte hindu e passaram a ter portas lembrando um coração invertido. As artes islâmicas e tecnologia evoluíram sobremaneira, assim como o uso de animais para cavalaria e peregrinações.

Enquanto o território de Roma Ocidental regredia a uma rede de vilas isoladas, muradas e cultuando as pinturas dos prédios romanos invadidos pela vegetação, o Islã florescia com astronomia, veleiros cruzando o oceano Índico, cirurgias com ópio indiano como anestésico e poesia histórica. Roma Oriental não ficava por menos, ostentando linhagens centenárias de papas e reis, exércitos com armaduras decoradas, arquitetura grega em escala nunca vista nas cidades, aquedutos e piscinas públicas, teatro, missas e canto gregoriano. Esse reinado de luxúria só terminou justamente devido à expansão islâmica, com o sultão Mehmed o Conquistador e seus navios de guerra batendo às portas de Constantinopla, em 1492. Mesmo assim, no séc. 10, tanto o imperador de Bizâncio quanto o patriarca de Constantinopla (equivalente grego do Papa ocidental) reconheceram a autoridade política e religiosa de Simão I da Bulgária, que oficializaria a linhagem dos Czares (repare a semelhança fonética com César), garantindo um braço de Roma Oriental na atual Rússia. Os Czares levaram tanto o Cristianismo medieval quanto a escrita grega tradicional até meados do séc. 20.

ARTE SACRA

Páginas do livro de Kells. Confeccionado no séc. 8, o livro recuperado da Abadia de Kells, Irlanda, é talvez o mais belo exemplo de arte medieval. Trata-se de uma composição de 340 folhas de pele de carneiro, contendo os 4 Evangelhos e ricamente ilustrado. Além dos corantes caríssimos para a época, boa parte das letras e gravuras foi feita com fios de ouro. O livro portava, originalmente, uma capa de ouro e pedras, que fez com que fosse roubado num ataque viking, em 1007. No séc. 12, o livro voltou à abadia, mas foi tomado pelas forças republicanas do séc. 17. Desde então, ele permanece no Trinity College em Dublin, Irlanda. Outro detalhe fantástico é que, embora trate-se de um texto Cristão, todo o estilo das figuras e mesmo das letras é tipicamente Celta, mostrando a fusão de culturas que ocorreu no norte da Europa. Como não era o estilo dos monges Beneditinos incorporar culturas, cogita-se que as missões Cristãs nessa parte do mundo sejam anteriores à desintegração de Roma, quando Alexandria era um centro importante de formação de missionários. Retirado de en.wikipedia.org

A maior parte do que conhecemos da arte medieval é do tipo sacro, ou seja, voltada a um ambiente religioso. Isso não quer dizer que os homens medievais fossem extremamente religiosos, mas que as pessoas com habilidade para produzir arte eram, em geral, religiosos. Os camponeses estavam bastante ocupados com lavouras e desconheciam a cultura romana. Os nobres em geral estavam ocupados com atividades militares. Restava, então, aos religiosos a educação, dinheiro e tempo necessários a produzir pinturas e esculturas que eram usados figurativamente nas missas. O livro de Kells é um grande exemplo disso: embora muito tempo tenha sido usado em produzir pinturas traçadas/costuradas quase fio a fio, o texto contém muito erros, sugerindo que não era realmente um objeto de leitura. Nas igrejas medievais sem bancos e com missas em latim, sem bíblias, exibir imagens nas paredes ou em um enorme e fabuloso livro dourado era uma forma extravagante de conduzir os serviços religiosos. Era também como contar estórias para uma criança apontando as figuras no livro.

Mas o livro de Kells também nos conta um pouco da história da arte religiosa: quem produziu o livro deixou marcas do seu trabalho. As ovelhas usadas foram criadas entre a Irlanda e a Escócia, o couro foi trabalhosamente refinado, carvão, nozes e cascas de árvores foram usadas para desenhar as letras, bile, clara de ovo, cola e mel foram usados para fixar os corantes e até pão foi usado para limpar partes das páginas. Apesar de trabalhoso, esse era um modo artesanal de produzir: no séc. 13 surgiriam monges copistas profissionais capazes de trabalhar rapidamente e apenas com tintas. Até as letras seriam simplificadas em favor da velocidade de produção.

Da Roma Ocidental e seus paganismos nos chegaram misturas bem elaboradas da cultura Cristã e dos imaginários Celta e Nórdico/Germânico. São dragões, unicórnios, mandrágoras mágicas e grifos. O universo medieval sempre assombrou com seus monstros, mas eles não eram apenas para assustar: num tempo onde o alfabeto romano foi preservado apenas por religiosos e magos, as gravuras de monstros e heróis ensinavam através das histórias que se contavam a partir delas. Impunham preconceitos e hierarquias sociais, ou inspiravam momentos ​​de empatia. Eram a propaganda da ciência, arte, teologia e ética, tudo de uma só vez.

Até a palavra “monstro” traz sérios problemas de entendimento. O verbo latino “monstrare” significa literalmente “mostrar”, mas ao longo dos séculos, “monstrum” passou a significar um presságio - talvez bom, talvez ruim. Em francês ou inglês antigo, “monstre” servia para criaturas maravilhosas ou de alguma forma diferentes. No séc. 14, finalmente passou a significar um ser aterrorizante e fantástico.

Henry VI (1420-1471). A Europa foi rica em reis e nobres ostentando nomeações pela Igreja, alguns sendo até consagrados como santos. Apesar disso, havia bem pouco Cristianismo na forma como os reis combatiam entre si ou até como lidavam com seu povo. A coroa, como usada por Henry, é um objeto que ficou famoso em todo mundo por ser ostentado na cabeça dos reis. Esse formato de coroa é uma herança dos reis romanos que cultuavam o Sol Invictus, do séc. 3 em diante. Retirado de themorgan.org

A figura acima mostra Henry VI da Inglaterra em pé sobre um grande monstro manchado com olhos perversos e avermelhados. O monstro é chamado - no texto - de antílope, embora tenha pouco em comum com o assustadiço animal das savanas (mas lembremos que a África ficou fechada aos europeus por toda idade Média). Além dos chifres afiados (que, conta-se, cortavam árvores), e cauda demoníaca bifurcada, nessa ilustração ele ganha até marfins de javali. Mas é apenas um indicativo do poder de Henry: o medo do antílope e do rei se misturam.

Página de um Livro das Horas - esse tipo de livro era uma ferramenta dos monges Beneditinos* para ensinar a administração do tempo. Em geral muito ilustrados, eles lembravam os Almanaques que circularam no Brasil e outros países do início do séc. 20 até os anos 1980. Traziam um calendário com ênfase nos dias sagrados, festas, dias de plantio e colheita, passagens dos Evangelhos, salmos penitenciais (6, 31, 37, 50, 101, 129) e orações dedicadas a certos santos Católicos como Santa Bárbara, Santa Margarete de Antioquia, Santo Antônio e São Sebastião. Retirado de amphilsoc.org

Esses monstros surpreendentes existem, pelo menos em parte, porque fazer as imagens era um processo lento e cuidadoso. Os artistas tinham bastante tempo para refletir sobre os significados de seu trabalho. No antigo território de Roma Ocidental, o fim das rotas comerciais tornou os pigmentos muito raros: enquanto o negro podia ser feito de carvão e o ocre vermelho de argila, outros, como o azul marinho, só chegavam à Europa através das perigosas e abandonadas estradas até o Oriente Médio. Usar ouro nas ilustrações também era comum, e produzir uma única cópia ilustrada do Livro das Horas, um dos mais populares devocionais Cristãos da Idade Média, com anjos e a Virgem Maria portando luminosas capas azuis, podia significar muito. Era o resultado de uma viagem de anos, um preço considerável e ainda um trabalho minucioso de muitos dias ou meses do artesão. Nesse meio tempo pessoas poderosas se tornavam gigantes, assim como personagens pavorosos ganhavam mais dentes, chifres e força descomunal.

O HILÁRIO MUNDO DOS MONSTROS

Livro das Horas, séc. 15. A princesa atrás das montanhas, como se fosse um gigante, é a governante de Trebizonde, um reino Cristão ao sul do Mar Negro. Esse reino foi fundado por cavaleiros da 4ª Cruzada, reunidos de toda Europa e enviados para reconquistar Jerusalém. O reino ficava no litoral de onde hoje é a Turquia e se desligou de Bizâncio após a tomada de Constantinopla. Essa figura retrata bem as peregrinações envolvidas nos tempos das Cruzadas contra os reinos não-Cristãos: Saint Georges é supostamente um cavaleiro inglês (não há qualquer registro sobre ele além da tradição), que viajou pela Bélgica, Bizâncio e Turquia. Retirado de pinterest.co.uk

Examinando uma das ilustrações de um Livro das Horas belga do século 15, você pode ver quanto amor e cuidado os artistas medievais colocavam em seus monstros. A cena - uma das mais emblemáticas do Cristianismo - mostra Saint Georges perfurando com a lança a cabeça de um dragão. Para os olhos do séc. 21, o heroísmo de Georges pode parecer um pouco cômico - o dragão é do tamanho de um cachorro, parece deitado de barriga para cima e ainda está sendo pisado pelo cavalo. No entanto, o olhar do artista para os detalhes atordoa mais de 500 anos depois: você ainda pode distinguir as escamas na cauda do monstro e as expressão em seus olhos redondos. Não pela primeira ou última vez, o vilão fraco faz o herói parecer quase humorístico.

Livro das Horas de Henry VIII, França. O Tarasque era um monstro que habitava a margem do rio Reno, com cabeça de dragão, carapaça de tartaruga e cauda de escorpião, que incendiava tudo em que tocava. Sua destruição marca, supostamente, o começo da habitação humana naquelas terras. Abaixo está Marta, pregando aos habitantes da região, que assumiram o Cristianismo após ver seu milagre. Retirado de themorgan.org

Noutra cena fantástica, o Tarasque é trazido para fora de sua caverna por uma Santa Marta medieval, embora seu culto a identifique com a Marta em cuja casa Jesus encontrou Lázaro e sua outra irmã Maria. A tradição explica que Marta, Maria e Lázaro seguiram até a Europa de barco, após a ascensão de Jesus. Mas a região do rio Reno, na verdade, não possui montanhas ou cavernas. O Tarasque, nalgumas pinturas, também é pequeno como o dragão de Saint Georges. Na lenda, a santa serve de atrativo e distrai o monstro para que os cavaleiros o matem. Nessa pintura, em especial, ele lembra por demais um cão obediente, com olhar de são bernardo, sendo puxado por sua dona. O monstro obediente simboliza o triunfo sem batalha do bem (civilização) contra o mal (vida selvagem), bem no sentido inverso das lendas de Grimm, onde lobos se fantasiam de homens para enganar crianças.

XENOFOBIAS

Judeu de Bern, provavelmente a origem da lenda germano-brasileira sobre o “homem do saco”. Trata-se de uma peça de madeira esculpida em 1546. Embora tenha sido muito usada como representação para assustar crianças desobedientes, o chapéu judeu da criatura é bem característico. Retirada de slate.com

Mas nem todos os monstros medievais eram tão carismáticos. Muitos foram inspirados em mesquinhez e violência. O anti-semitismo - que poderia ser plausivelmente definido como a representação de judeus como monstros - era indiscutivelmente central para a cultura européia da época. Ogros judeus sedentos de sangue serviram como personagens em inúmeras peças, histórias e poemas. Como na época do Nazismo, os judeus eram obrigados a usar um chapéu amarelo ou listrado pontiagudo. No meio da cidade suíça de Bern, a escultura de uma fonte ainda traz um desses pavorosos judeus-monstro simplesmente tirando crianças de um saco para as devorar. Em nenhuma prática judaica já foi documentado semelhante coisa, então somos levados a pensar na disposição do artista e autoridades da época em criar uma imagem que justificasse as ações de Cristãos contra os judeus.

Talvez o exemplo mais famoso desse tipo de história esteja na coleção The Canterbury Tales, do poeta inglês Geoffrey Chaucer. Nessa obra, um judeu mata uma criança Cristã e joga seu corpo em um monte de lixo. Quase tão famosa é a lenda do judeu de Bourges, que queima seu próprio filho, mais ou menos como nos ritos de Moloque, que os judeus nos contaram a respeito dos povos Cananeus. Uma ilustração francesa do início do século 14 retrata o judeu de Bourges com grandes olhos revirados e um nariz de porco enquanto empurra seu filho para uma fornalha. A imagem, em toda sua histeria racista e sentimentalismo grotesco, não é tão diferente das charges antissemitas que Julius Streicher publicou no auge do Terceiro Reich de Adolf Hitler. Outras caricaturas da Idade Média incluem muçulmanos, mulheres, pobres e doentes mentais. Essas imagens, vistas hoje, parecem ressaltar as poucas diferenças genuínas entre Cristãos e pagãos quanto a seu trato com “o diferente”.

MONSTROS SANTÍSSIMOS

Martírio de São Bartolomeu. Existem pelo menos 4 versões sobre a morte do apóstolo às vezes nomeado como Bartolomeu, às vezes como Natanael. Numa versão da Armênia, ele foi flexado e depois decapitado. Noutra, a mais popular, ele foi crucificado de cabeça para baixo, como Pedro. Ainda noutra, retratada aqui, ele batizou o rei Polymius, sendo então torturado e morto pelo irmão do rei. Numa última versão, possivelmente a mais verdadeira, Bartolomeu navegou até a Índia, talvez na mesma missão de Tomé, onde morreu na cidade de Kalyan. Retirado de br.pinterest.com

Uma ironia ainda maior das imagens de monstros medievais é que piedosas figuras bíblicas - mártires, discípulos de Cristo e até mesmo o próprio Cristo - eram retratadas como monstruosas. As histórias sangrentas de São Bartolomeu sendo esfolado vivo e de São Denis ou São Firmino, que dizem terem carregado suas próprias cabeças depois de cortadas, inspiraram infinitas obras religiosas. Uma representação húngara do martírio de Bartolomeu, do século 14, mostra o santo com sua pele meio removida, a boca presa em um sorriso de gato do País das Maravilhas. Ainda mais estranho é uma versão do artista do século 12 da Santíssima Trindade como um mutante de quatro olhos e três cabeças. Imagens como essas - não menos do que as dos dragões ou judeus matadores de crianças - procuram aterrorizar, mas por uma razão diferente: sugerir que o medo é parte da fé religiosa.

O EXÓTICO CRISTIANISMO

Por fim, é preciso dizer que boa parte do espanto com a arte Cristã medieval se dá porque a cultura Cristã da época nos parece muito exótica, 5 séculos depois. Sem dúvida o Cristianismo mudou muito nesse tempo. Duas influências grandes sobre a arte Cristã foram as Cruzadas (séc. 11 a 14) - que encheram o imaginário europeu com monstros e coisas terríveis dos Mouros - e a Peste Negra (metade do séc. 14). A Peste originou-se no Mar Cáspio e espalhou-se rapidamente pela Europa, seguindo o litoral e a rota das embarcações. A quantidade de mortos, a deformidade dos corpos e o sofrimento dos contagiados invadiu o imaginário popular com imagens de demônios em forma de cadáveres e atormentando os moribundos. Isso acabou desembocando em uma série de obras Cristãs conhecidas como Ars Moriendi, ou Arte de Morrer.

Ars Moriendi, Holanda, 1460. Nessa gravura do livro, um moribundo é tentado por várias coroas relativas às riquezas, orgulho, poder, etc. Enquanto o moribundo parece extremamente confortável em sua cama, aparecem diversos demônios risíveis ao seu redor. Tais figuras lembram bastante os desenhos de Pieter Bruegel sobre monstros, demônios e a loucura. Retirado de en.wikipedia.org

Essas obras dispunham sobre a forma correta de um Cristão morrer, de maneira a escapar dos tormentos de demônios. Na versão mais longa que foi preservada, aparecem ilustrações de demônios que lembram muito os anões da Branca de Neve, alguns com longas orelhas de coelho, ou línguas enormes, chapéus longos com as pontas enroladas, etc. Eles carregam as tentações que levam ao pecado e sua aparência bizarra, parecendo cruzamentos de humanos com animais que estão sem saber o que fazer pelo mundo, de fato fazem uma referência cruel aos doentes mentais. Levar-se pelo pecado é um símbolo de deficiência. Os moribundos, por outro lado, são explicitamente instruídos a manter uma aparência serena. Não apenas no Ars Moriendi, mas em toda a arte medieval, as pessoas parecem morrer completamente desinteressadas e passivas. Mesmo que isso seja sob apedrejamento, devorados por feras, perfurados por lanças ou decapitados. A face serena era, segundo o Ars Moriendi, uma forma de manter longe os demônios.

ÍCONES

Mas talvez a maior representação da arte medieval seja os ícones. Trata-se de pinturas ou esculturas religiosas que são, elas próprias, canais de comunicação com o divino. A Cristandade romana encheu a Europa, Ásia menor e norte da África com imagens de cenas bíblicas, mártires, reis, papas e patriarcas. Como no caso dos gregos que adoraram como deuses novos as estátuas quebradas nas ilhas que povoavam, civilização após civilização, os homens medievais encontraram essas obras de artes de homens antigos, de um reino antigo, e lhes atribuíram o papel de mensageiros divinos. Pinturas romanas deram origem a santos e, mais do que isso, as próprias pinturas foram tidas como sagradas, lugares para onde as pessoas peregrinavam em busca de cura, iluminação ou por subserviência. A Igreja Oriental até mesmo formulou uma teologia para explicar o poder das imagens: assim como Deus assumiu a forma humana em Cristo, Ele poderia assumir a forma material de pinturas e esculturas.

Imagem de Nossa Senhora da Conceição, cultuada em todo Brasil e que favoreceu a proclamação da Independência por fazer com que, na colônia, se desenvolvesse um importante centro Católico. Em 1978, a imagem (esquerda) foi destruída em um atentado religioso, produzindo mais de 200 fragmentos que foram cuidadosamente colados no Museu de Arte de São Paulo (MASP) (direita). A coloração original era clara, com pinturas em dourado, azul e vermelho, como era o estilo do escultor. Hoje ela é castanho escuro, acumulando uma camada de cera e fuligem do templo. Nos sécs. 8 e 9, um movimento iconoclasta dentro da Igreja Católica destruiu boa parte dos ícones, com exceção dos ossos e resquícios de santos. Retirado de padrerodrigomaria.com.br

Além do papel evangelizador que tiveram numa época onde a escrita se tornou raramente usada, essas obras religiosas foram a representação material e poderosa de Deus, como a Arca da Aliança levada nos conflitos entre judeus e filisteus. No Brasil, um exemplo tardio dos ícones foi a imagem de Aparecida. Obra de um monge escultor do século 17**, a estatueta com cabeça quebrada foi recuperada de um rio e venerada como a própria Virgem, ganhando um santuário que hoje é o segundo maior templo católico em atividade no mundo.

Como na Rússia dos Czares, a Idade Média de algum modo se estendeu para além do seu tempo devido à falta de contato tecnológico entre o Brasil-colônia e o restante do mundo. Isso para não falar nos livros e filmes que, desde o séc. 19, encantam o imaginário de adultos e crianças desagradados com a mesmice da ciência racional e um Estado estável.

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* Os monges Beneditinos foram uma força poderosa da civilização durante a Idade Média. Afora o caráter evangelizador de suas missões na Europa, os Beneditinos seguiam uma organização quase militar de delimitação de territórios e propagação da cultura romana. Quando chegavam a uma localidade, os monges tratavam de cercar um território para o mosteiro (às vezes até usavam de nobres armados para isso) e organizavam meticulosamente seu dia sobre os princípios de trabalho e culto coletivo. Assim, enquanto alguns monges entoavam por horas a fio um canto de homenagem a Deus ou algum santo, outros trabalhavam na horta e outros na construção do prédio. Em horários específicos as equipes trocavam suas tarefas. Esses mosteiros foram centros de alfabetização e educação na Idade Média, além de manterem viva a ideia de um Estado que ia além das pequenas vilas, mesmo sendo a distante autoridade de um abade ou bispo em Roma ou outra cidade papal.

** Uma análise meticulosa do estilo usado na imagem de Aparecida atribuiu sua origem ao paulista Frei Agostinho de Jesus, famoso produtor de estátuas sacras. Trata-se de uma estátua de barro. Aparentemente, a cabeça da imagem quebrou-se e, segundo a tradição, a mesma foi jogada no rio, onde permaneceu tempo suficiente embaixo d’água para que sua pintura fosse quase totalmente removida. Desde sua descoberta no rio Paraíba do Sul, em Guaratinguetá/SP, diversos milagres e estórias fabulosas foram-lhe atribuídos, como uma pesca milagrosa e a estátua ter ficado tão pesada que os pescadores não puderam carregá-la.

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EM LETRAS PINTADAS COM OURO

Ars moriendi - wikipedia
Book of Kells - wikipedia
Medieval monsters: terrors, aliens, wonders, apollo-magazine.com, 8jun2018
Mark JJ, Book of Kells, ancient.eu, 30jan2018
Tsar - wikipedia

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Relendo o Pastor de Hermas

'O semeador', ou uma das telas com esse nome, de Vincent van Gogh

Esse texto faz parte de um material composto por

O Pastor de Hermas (PH) é um daqueles livros da antiguidade Cristã que está rodeado de mistérios. O primeiro deles é a data em que foi escrito: o autor é realmente um homem chamado Hermas, irmão de Pio, bispo de Roma entre 142 e 155 d.C. Mas, no texto, há uma referência para que seja entregue a Clemente, supostamente uma autoridade em Roma. E houve um Clemente, bispo de Roma por volta de 96 d.C. A teoria mais aceita é o livro que tenha sido composto em partes e depois reunido entre 96 e 150 d.C. Se isso for verdade, o Pastor de Hermas foi escrito logo após as cartas de Paulo.

Mas porque isso é importante? No começo da Era Cristã, tanto os Evangelhos quanto as cartas de Paulo, Pedro, etc eram textos que circulavam em separado, copiados a mão, passados de comunidade em comunidade como preciosidades. O PH fez parte dessas jóias da evangelização, por tanto tempo que causou grande alvoroço quando foi rejeitado como obra sagrada pela Igreja. Embora não tenha pontos teológicos fortemente disputados (como outros livros, a exemplo a Sabedoria e o livro de Tobias), o PH não se encaixa no critério para ser um livro sagrado. Ele não traz o relato de alguém que viu Jesus pessoalmente (se bem que João Marcos e Lucas, evangelistas, provavelmente também não O viram).

O segundo ponto misterioso é o conteúdo do livro. Ele traz mandamentos, parábolas e visões, assemelhando-se a uma versão particular do Novo Testamento (NT) sem os detalhes cronológicos dos evangelhos, os detalhes históricos do livro de Atos ou a discussão filosófico-teológica das cartas de Paulo. O PH são estórias, estranhamente encadeadas, de um autor que recebe ensinamentos Cristãos diretamente de anjos-pastores. Fica evidente, nele, a analogia com a figura do “bom pastor”, usada fartamente no NT, especialmente por Lucas e João.

O PH usa visões como as de João, no livro de Apocalipse. É através dessas visões que ele acompanha e conversa com os anjos-pastores. A estrutura explicativa da Parábola do Semeador é constante ao longo da obra, ainda que não haja uma transcrição dessa parábola. Aquele anjo que se intitula ‘anjo da Penitência’ acompanha Hermas boa parte do tempo, ensinando-o... precisamente os ensinamentos que estão nos evangelhos e nas cartas de Paulo! Mas não há a citação direta de personagens dos Evangelhos, do Velho Testamento (VT), transcrições dos evangelistas ou de Paulo, como se o PH fosse uma obra completamente independente.

O estilo em que o livro foi escrito é definitivamente Cristão¹ e romano. As estórias são repetitivas e detalhistas, com cenas rurais simples de explicação complicada. Esse estilo aparece de modo mais suave no Apocalipse e perduraria até o final da Idade Média, em obras como o Decameron (1350). Roma recebeu a visita de Paulo e foi sede do ministério de Pedro até sua morte, por isso impressiona que o PH possa ser uma obra Cristã independente. Por outro lado, quase todo o texto do PH reflete a Parábola do Semeador, encontrada nos livros de Mateus, Marcos e Lucas, mas com um papel maior no livro de Marcos, o mais antigo deles (66-70 d.C.). Mesmo a explicação

Para que, vendo, vejam, e não percebam; e, ouvindo, ouçam, e não entendam; para que não se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados. (Marcos 4.12)

que faz um paralelo de Isaías 6.9-10, é conservada e re-explicada em muitas partes ao longo do livro. Por exemplo, em suas visões, Hermas é a todo momento questionado: “Vês isso e não entendes?”

A obra enfatiza a Salvação obtida por meio de Penitência, isto é, pelo sofrimento produzido para expiação dos pecados. O próprio Hermas é castigado pelos pecados de seus filhos. Esse conceito é bem distinto dos evangelhos e das cartas de Paulo. Trata-se, na verdade, de um entendimento particular do NT: Jesus sofrendo para expiar os pecados humanos e os apóstolos vítimas da perseguição judaico-romana aos Cristãos tornam-se uma espécie de modelo de conduta. E os Cristãos foram, nos 1os anos da nova doutrina, direcionados a buscar o sofrimento para a Salvação de si e dos outros.

Mas a teologia ensinada pelo PH tem outras nuances. Logo no início do livro, vemos:

Cap 6. 5O Senhor jurou por sua glória e respeito de seus eleitos: se depois deste dia, fixado como limite, ainda se cometer um só pecado, eles não obterão a salvação, pois a penitência para os justos tem limite. Terminaram os dias de penitência para todos os santos. Contudo para os pagãos, a penitência pode ser feita até o último dia.

Em outras palavras, Hermas introduz sua obra como um divisor de eras mais importante até do que o ministério de Cristo. Após ela, os Cristãos não deveriam pecar jamais, pois teriam sido informados de todos os pormenores necessários à Salvação. Trata-se de um entendimento tão radical quanto a anunciação do Quran a Maomé, que justificaria até os Cristãos se ofenderem com alguém que não conhece o PH.

Uma curiosa referência aos judeus é feita numa pequena passagem:

Cap 7. 'Dize a Máximo: Eis que chega a tribulação. Se te parece bem, renega de novo. O Senhor está próximo daqueles que fazem penitência, como está escrito no livro de Eldad e Medad, que profetizaram para o povo no deserto.

Não se sabe porque Hermas introduziu essa passagem. Eldad e Medad são homens da Israel liderada por Moisés durante a peregrinação pelo deserto. Eles foram abençoados como profetas que estavam fora do acampamento quando Moisés pediu tal dom a Deus. Um manuscrito do séc. 11 atesta que os versos 35 e 36 de Números 10 não são obra de Moisés, mas de Eldad e Medad. Nos manuscritos Masoretas, as marcas laterais indicam que tais versos foram adicionados depois. E vários escritos antigos levam a crer que existiu um livro de Eldad e Medad. Tal livro foi dado como apócrifo pelos judeus e desapareceu ainda na antiguidade, mas Hermas parece ter tido contato com ele, o que torna a composição do PH ainda mais misteriosa. Seria o mais canônico dos livros gnósticos²?

Outra referência curiosa de Hermas é o cereal “espelta” (cap 12), um trigo avermelhado e doce que foi cultivado na Europa até a Idade Média. Desde então, ninguém mais citou tal cereal.

Hermas faz mais uma referência ao VT quando transcreve o jejum de Isaías 58, que aparece repartido em dois trechos:

Cap 54. "Senhor, estou jejuando." "Escuta. 4Deus não deseja esse jejum vazio. Com efeito, jejuando desse modo para Deus, não farás nada para a justiça. Jejua do seguinte modo: 5Não faças nada de mau em tua vida e serve ao Senhor de coração puro; observa seus mandamentos, andando conforme seus preceitos, e que nenhum desejo mau entre em teu coração, e crê em Deus. Se fizeres isso e o temeres, abstendo-te de toda obra má, viverás em Deus. Se cumprires essas coisas, farás um jejum grande e agradável ao Senhor." … Cap 56. 5Eis como observarás o jejum que queres praticar: 6Antes de tudo, guarda-te de toda palavra má, de todo desejo mau, e purifica teu coração de todas as coisas vãs deste mundo. Se observares isso, teu jejum será perfeito. 7E jejuarás do seguinte modo: depois de cumprir o que foi escrito, no dia em que jejuares, não tomarás nada, a não ser pão e água. Calcularás o preço dos alimentos que poderias comer nesse dia e o porás à parte para dar a uma viúva, a um órfão ou necessitado e, desse modo, te tornarás humilde. Graças a essa humildade, quem tiver recebido ficará saciado e rogará ao Senhor por ti.

VISÕES

Uma das primeiras visões de Hermas se refere a uma mulher que lhe apresenta a Grande Torre, símbolo da Igreja, erguida com pedras tiradas de dentro de um rio e depois da terra. Noutro ponto do livro, as pedras – que representam as pessoas salvas – são tiradas de um abismo, de uma planície e também de montanhas. Todos são representações de grupos de pessoas, através de uma elaborada explicação, semelhante à Parábola do Semeador.

Cap 10. 4Não estás vendo diante de ti uma grande torre que está sendo construída sobre as águas, com pedras quadradas e brilhantes? 5Com efeito, ela estava sendo construída em forma quadrada pelos seis jovens que tinham vindo com ela. Outros milhares e milhares de homens carregavam as pedras, uns do fundo da água, outros da terra, e as entregavam aos seis jovens, que as recebiam e construíam.

Quando a Torre estivesse pronta, chegaria o dia do Juízo Final.

Cap 13. As pedras quadradas e brancas, que se ajustam bem entre si, são os apóstolos, os bispos, os doutores e os diáconos ... Estes são os que estiveram sempre de mútuo acordo, conservaram a paz entre si e se ouviram reciprocamente. É por isso que na construção da torre suas junturas se ajustavam bem.

A hierarquia da Igreja é apontada como possuindo o tipo de pessoa mais adaptada à Igreja. Para Hermas, a participação na organização religiosa é a forma mais segura de obter a Salvação. Tal conceito deriva da reverência aos fundadores e foi criado dentro do Catolicismo romano (não está presente no NT). Ele foi responsável por uma incrível filiação de pessoas aos monastérios durante a Idade Média, na Europa. Com o enchimento dos monastérios, apenas os pertencentes a famílias ricas e poderosas passaram a ter direito à filiação religiosa e, em outras palavras, à Salvação. Isso sem dúvida foi uma inversão surpreendente da rejeição de Jesus aos mestres judeus e suas regalias! Mais recentemente, até no séc. 19, era prática que os membros de famílias poderosas fossem enterrados não menos do que dentro das igrejas Católicas. Mas, ainda, estamos no séc. 2 e, como dizia Jesus, os ricos não eram dignos da Igreja.

Cap 15. 7Aprende contigo mesmo: enquanto eras rico, eras inútil; agora, porém, és útil e frutuoso para a vida. Tornai-vos úteis para Deus! Tu mesmo foste uma dessas pedras.

Uma das expressões usadas no mesmo cap. 15 é “dureza de seus corações”, expressão típica do livro de Marcos e das cartas de Paulo. João Marcos, o evangelista, foi um seguidor de Paulo aceito no grupo pela intervenção de Barnabé, com quem viajou de Antioquia para Chipre (Atos 15.36-40). Dentro do mundo romano, Hermas pode ter adquirido essa expressão tanto de Marcos quanto de Paulo, sendo parente de um dos primeiros bispos romanos.

Outra particularidade do PH é colocar repetitivamente os negócios e ocupações mundanas como agentes de um afastamento entre as pessoas e Deus. Novamente, ele evoca a Parábola do Semeador.

Cap 19. Da mesma forma, enfraquecidos pelos negócios do mundo, vos tendes deixado levar pelo abatimento e não entregastes ao Senhor as vossas preocupações.

A 2ª visão de Hermas é o encontro com uma enorme fera. Não há descrições precisas, mas de um animal multi-colorido, no qual, claro, cada cor representa algo.

Cap 22. Mas ela aumentava cada vez mais e eu suspeitei que fosse algo divino. Nesse momento, o sol brilhou um pouco, e então pude ver uma fera enorme, parecida com a baleia. E da sua boca saíam gafanhotos de fogo.

Hermas escapa da fera simplesmente por “entregar sua preocupação a Deus”, mediante a intervenção do anjo Tegri, senhor das feras selvagens. O nome “Tegri” é até hoje um mistério, mas dada a semelhança entre as visões de Hermas e as passagens de Daniel, é possível que o autor tivesse algum contato com os textos hebraicos. Além disso, a palavra aramaica usada para o verbo de “fechou a boca dos leões” em Daniel 6.22 é Sgr ou Segri, que poderia, por uma mudança de pronúncia, se transformar em Tegri. Dessa forma, o anjo de Hermas seria o mesmo anjo de Daniel, desvelando novamente um conhecimento do VT pelo autor do livro.

Noutra visão, Hermas presencia uma grande árvore, de onde um grande anjo cortava ramos e os entregava aos homens.

Cap 67. 1Ele me mostrou um grande salgueiro, que cobria planícies e montanhas, e ao abrigo do salgueiro tinham-se recolhido todos os que são chamados pelo nome do Senhor. ... Cap 69. 2Ele me respondeu: "Escuta. Essa grande árvore que cobre planícies, montanhas e toda a terra, é a lei de Deus dada ao mundo inteiro, e essa lei é o Filho de Deus anunciado até os confins da terra. Os povos que se encontram debaixo da árvore são aqueles que ouviram o anúncio e creram. 3O anjo grande e glorioso é Miguel, que tem o poder sobre esse povo e o governa. É ele que dá a lei e grava no coração daqueles que crêem.

O anjo então recolhia os ramos de volta e, dependendo do estado em que voltavam, distribuía penitências aos que receberam tais ramos. Havia desde os que voltavam com frutos até aqueles que voltavam secos e fendidos. E temos, mais uma vez, uma semelhança da Parábola do Semeador, onde aparece o nome do anjo Miguel.

Miguel é uma figura do livro de Daniel (Daniel 10.21), do livro de Judas (Judas 1.9) e do Apocalipse (Apocalipse 12.7), tido como protetor de Israel e um dos espíritos que andam junto de Deus (Miguel, Gabriel, Rafael e Uriel, segundo o livro de Enoque). Também foi uma figura bastante reverenciada na Idade Média, sugerindo que algo da tradição mística judaica foi absorvida pelo Cristianismo de Roma Ocidental e repassada com sucesso às comunidades Cristãs na Europa. O PH possivelmente foi uma ferramenta desse processo, deixando claro que Hermas absorveu (de forma simples, talvez por tradição oral) elementos de textos judaicos importantes como Daniel e Isaías.

Noutra visão, Hermas visita a terra de Arcádia, na Grécia, uma grande ilha ligada ao continente pela passagem de Corinto. As grandes planícies de Arcádia (planícies não são comuns na Grécia!) renderam ao lugar uma imagem de terra fértil, onde habitavam pastores. Na mitologia grega, Arcádia é o lar de Pan, o deus-bode senhor dos sátiros. Mesmo na Roma Ocidental antiga, essa imagem de Arcádia como uma terra antiga, fértil, sagrada e pacífica já existia no imaginário popular.

Cap 78. 4Então me transportou para a Arcádia, sobre um monte de forma cônica. Fez-me sentar no topo da montanha, e me mostrou uma grande planície e, ao redor da planície, outras doze montanhas, cada uma com aspecto diferente. 5A primeira era negra como fuligem; a segunda, seca e sem vegetação; a terceira, cheia de espinhos e cardos; ... A décima segunda montanha era inteiramente branca; seu aspecto era muito exuberante, e a montanha em si mesma era belíssima. ... Cap 79. 1 No meio da planície, ele me mostrou uma grande rocha branca que se erguia da planície. Era mais alta que as montanhas, e quadrada, de modo a conter o mundo inteiro. 2A rocha era antiga, e havia nela uma porta escavada, que parecia ter sido escavada recentemente. Resplandecia mais do que o sol, e eu me maravilhava com tal esplendor.

Arcádia, em outras palavras, era o local da torre de Hermas. É muito significativo que ele não a tenha colocado em locais bíblicos como Jerusalém, Nazaré, Éfeso, Corinto (ok, Arcádia é vizinha de Corinto), etc. Um leitor dos textos bíblicos facilmente colocaria o centro do mundo num desses locais, como Jerusalém era tida por centro-do-mundo na Idade Média. Hermas preferiu uma localização mais místico-imaginária, denunciando que a obra tem um fundo de 1º contato com o Cristianismo, ou de uma obra Cristã para ser lida por não Cristãos.

MANDAMENTOS

Assim como um substituto aos textos bíblicos, o PH traz tanto Mandamentos quanto Parábolas. Supõe-se, assim, que desde o início o livro foi tratado como uma obra didática de evangelismo.




LISTAS

Um formato de apresentar virtudes e defeitos humanos aparece na famosa lista de Paulo contrastando os frutos do Espírito e as obras da carne (Gálatas 5.19-23), assim como em outras obras Cristãs. Esse formato com uma lista de aspectos positivos emparelhada a uma lista de aspectos negativos é bastante usada no PH:

Os frutos da Cólera, são amargura, ocupações, estultícia, leviandade, estupidez, irritação; furor, ressentimentos. Os frutos da Paciência são força poderosa e sólida, alegria, despreocupação, glória ao Senhor, doçura e calma (Hermas 34.1-7);

Os frutos da Justiça são delicadeza, modéstia, doçura, suavidade, castidade, santidade temperança. Os frutos do Mal são cólera, amargor, insensatez, desejos de atividade, gastos loucos, bebidas inebriantes, orgias, requintes variados e supérfluos, paixões pelas mulheres, grande riqueza, orgulho e altivez (Hermas 36.1-10);

Os males de que nos abster são adultério, fornicação, excesso na bebida, prazer depravado, comer em demasia, luxo da riqueza, ostentação, orgulho, altivez, mentira, maledicência, hipocrisia, rancor, blasfêmias, roubo, mentira, fraude, falso testemunho, avareza, desejos maus, engano, vanglória, arrogância e outros vícios semelhantes. As boas ações são fé, temor do Senhor, caridade, concórdia, palavras justas, verdade, perseverança, assistir às viúvas, visitar os órfãos e necessitados, resgatar da escravidão os servos de Deus, ser hospitaleiro, não criar obstáculos para ninguém, ser calmo, inferior a todos, honrar os anciãos, praticar a justiça, conservar a fraternidade, suportar a violência, ser paciente, não nutrir rancor, consolar os aflitos na alma, não afastar da fé os escandalizados, mas convertê-los e dar-lhes coragem, corrigir os pecadores, não oprimir os devedores e necessitados, e outras ações semelhantes (Hermas 38.3-10);

Eu pedi: "Senhor, dize-me o nome das virgens e das mulheres trajadas de preto." Ele respondeu: "Escuta o nome das virgens mais fortes, que estão nos ângulos (da porta). A primeira é a Fé; a segunda, a Temperança; a terceira, a Força; a quarta, a Paciência. As outras, colocadas entre as primeiras, chamam-se: Simplicidade, Inocência, Castidade, Alegria, Verdade, Inteligência, Concórdia, Caridade. Aquele que leva esses nomes e também o nome do Filho de Deus, poderá entrar no Reino de Deus. Escuta também os nomes das mulheres trajadas de preto. Quatro delas são mais fortes: a primeira é a Incredulidade; a segunda, Intemperança; a terceira, Desobediência; a quarta, Engano. As que se seguem chamam-se: Tristeza, Maldade, Dissolução, Cólera, Falsidade, Insensatez, Maledicência e Ódio. O servo de Deus que leva esses nomes verá o Reino de Deus, mas nele não entrará." (Hermas 92.1-3)

É provável que tanto Paulo quanto Hermas tenham se apropriado desse estilo ítem-a-ítem, como a lei mosaica, do tipo “faça isso”, “não faça aquilo”. No caso de Paulo e sua comunidade da Galácia (descendentes de gauleses, celtas e gregos), tal listagem era uma metodologia quase militar de conversão. Para os pregadores como Hermas, parecia ser também uma forma didática de ensinar sobre o Cristianismo aos romanos, como numa espécie de fábula com heróis e vilões.

ESTRUTURA DO TEXTO

Algumas passagens do PH são especialmente significativas na condução da sua narrativa. Elas introduzem idéias que são muito mais aceitas como teologia hoje, muito após o contato com o Islã e a Reforma Protestante do que no 2º século. Talvez muitas delas pareçam surpreendentemente atuais.

O arrependimento é valioso
Cap 30. Não te parece que o fato de se arrepender é em si mesmo inteligência? O arrependimento é ato de grande inteligência. Com efeito, o pecador compreende que fez o mal diante do Senhor, e que o ato que ele cometeu entra no coração, então se arrepende e não pratica mais o mal. Ao contrário, ele se empenha com todo o zelo a praticar o bem, humilha e experimenta a sua alma, pois ela pecou.

Deus castiga, mas acaba concedendo o perdão
Cap 39. 3De fato, Deus não é como os homens rancorosos; ele não conhece o rancor e tem compaixão de sua criatura. ... E se alguma vez pedires alguma coisa ao Senhor e ele tardar em concedê-la, não duvides porque não obtiveste logo o pedido da tua alma; certamente, tardas a receber o que pediste, por causa de alguma provação ou de algum pecado que ignoras.

Hermas até conhece o anjo do Castigo, que trata as pessoas distantes de Deus com prejuízos, indigência, doenças, insegurança, injúrias por pessoas indignas e calamidades (Hermas 63)

Sem cuidados religiosos, a alma se afasta de Deus
Cap 40. As vinhas, antes belas, por falta de cuidados, secam por causa dos espinhos e ervas daninhas de todo tipo. (novamente, uma imagem da Parábola do Semeador)

A tristeza sinaliza um afastamento de Deus
Cap 42. 2O homem triste pratica sempre o mal ... Com efeito, a oração do homem triste jamais tem a força de subir ao altar de Deus ... O vinho misturado com vinagre não tem o mesmo sabor. Igualmente acontece com a tristeza: misturada com o Espírito Santo, não conserva a própria oração.

O mal/diabo atinge aqueles que se afastaram de Deus
Cap 48. 3Quando um homem enche de bom vinho recipientes apropriados e entre estes deixa alguns semi-cheios, ao voltar para os recipientes ele não se preocupa com os que estão cheios, pois sabe que estão cheios; observa, sim, os que estão semi-cheios, temendo que tenham azedado, e o vinho perca o sabor. 4O mesmo acontece com o diabo: Ele vai e tenta todos os servos de Deus. Os que estão cheios de fé lhe resistem fortemente, e o diabo se afasta deles, pois não encontra por onde entrar. Então, ele vai até os que estão semi-cheios e, encontrando lugar, entra neles, faz o que quer, tornando-os seus escravos.

Todo prazer é insensato e vazio para os servos de Deus
O cap 45 traz precisamente essa frase. Reparemos a semelhança com a obra de Santo Agostinho³.

O favor de Deus é merecido
Cap 46. Escuta. Pratica a justiça e a virtude, a verdade e o temor do Senhor, a fé, a mansidão e todas as coisas boas semelhantes a essas. Praticando essas coisas, serás servo agradável de Deus e viverás nele. Todo aquele que servir ao desejo bom viverá em Deus.

Os ricos e os pobres têm funções distintas para Deus
Cap 50. 9De fato, o Senhor vos enriqueceu, para que presteis a ele tais serviços.

Cap 51. Escuta. O rico tem muitos bens, mas aos olhos do Senhor ele é pobre, porque se distrai com suas riquezas. A oração e a confissão ao Senhor não lhe são importantes e, se ele as faz, são breves, fracas e sem nenhum poder. Contudo, se o rico se volta para o pobre e atende às suas necessidades, crendo que o bem que ele fez ao pobre poderá encontrar sua retribuição junto a Deus (porque o pobre é rico por sua oração e confissão, e sua oração tem grande poder junto de Deus), então o rico atende sem hesitação às necessidades do pobre. 6Assim, o pobre, socorrido pelo rico, reza por ele e agradece a Deus pelo seu benfeitor; este, por sua vez, redobra o zelo para com o pobre, para que não lhe falte nada na vida, pois sabe que a oração do pobre é bem acolhida e rica junto a Deus.

Os justos e os pecadores serão distinguidos no outro mundo
Cap 52. Porque os justos e os pecadores não se distinguem neste mundo, mas são semelhantes. De fato, para os justos este mundo é inverno, e eles não se distinguem, pois nele habitam juntamente com os pecadores.

Cap 53. 3No verão, os frutos de cada árvore aparecem e se pode saber de que espécie são.

O fim está próximo
Nos sécs. 1 e 2, principalmente, a literatura Cristã era bastante voltada à anunciação de que Jesus retornaria em pouco tempo, para o Juízo da humanidade. No PH, essa visão é discreta, mas presente:

Cap 89. 2O Filho de Deus nasceu antes de toda a Criação, embora ele tenha sido o conselheiro de seu Pai para a Criação. … 3Ele respondeu: "Porque Ele se manifestou nos últimos dias da consumação. A porta foi feita recentemente, para que os que devem salvar-se entrem por ela no Reino de Deus."

Filhinhos, é já a última hora; e, como ouvistes que vem o anticristo, também agora muitos se têm feito anticristos, por onde conhecemos que é já a última hora. (1ª João 2.18)

O Cristianismo foi ensinado aos mortos
Desde o início do Cristianismo, surgiu um problema teológico: “Se a Salvação vem através de Jesus, o que aconteceu aos que viveram antes Dele?” A resposta que surgiu então, ainda susceptível de várias interpretações, era de que Jesus desceu ao Hades (mundo dos mortos, na tradição greco-romana) e resgatou de lá os espíritos dos que haviam morrido antes Dele.

Cap 93. 5Eu perguntei: "Senhor, por que as quarenta pedras também sobem com eles do abismo, visto que estas já haviam recebido o selo?" Ele respondeu". "Porque esses apóstolos e doutores que anunciaram o nome do Filho de Deus, adormecidos no poder e na fé do Filho de Deus, o anunciaram também àqueles que tinham morrido antes deles, e lhes deram o selo do anúncio. 6Desceram com eles à água e novamente subiram. Contudo, desceram vivos e subiram vivos, enquanto os que estavam mortos antes deles desceram mortos e subiram vivos. E graças a eles que estes últimos receberam o nome do Filho de Deus.

Pois também Cristo sofreu pelos pecados uma vez por todas, o justo pelos injustos, para conduzir-nos a Deus. Ele foi morto no corpo, mas vivificado pelo Espírito, no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão que há muito tempo desobedeceram, quando Deus esperava pacientemente nos dias de Noé, enquanto a arca era construída (1ª Pedro 3.18-20) … Por isso mesmo o evangelho foi pregado também a mortos, para que eles, mesmo julgados no corpo segundo os homens, vivam pelo Espírito segundo Deus. (1ª Pedro 4.6)

Tanto a passagem de Pedro como a de Hermas falam do resgate de espíritos antigos. Hermas parece limitar o número dos salvos a 40, mas era um uso linguístico do Oriente Médio chamar “muitos” de 40, como dizemos hoje “já falei mais de 1000 vezes”. Quando Hermas usa essa 'prosódia' em Roma, sabemos que ele foi influenciado pelo linguajar do Oriente Médio. Pedro e Paulo em Roma foram instrumentos dessa influência!

Segundo Hermas, os próprios patriarcas, apóstolos e doutores do Cristianismo foram ao Hades resgatar os mortos pré-Cristo. Trata-se de algo bem diferente da carta de Pedro, mostrando que não havia um consenso nesse assunto (ainda hoje não há), além de destacar que O PH e as cartas de Pedro não absorveram materiais um do outro.

Os inocentes são herdeiros do reino de Deus
Cap 106. 1Os fiéis que vieram da décima segunda montanha, a branca, são os seguintes: são como crianças pequeninas, em cujo coração não entra maldade nenhuma. Eles nem sequer sabem o que é o mal, e sempre permaneceram na inocência. 2Tais homens certamente habitarão no Reino de Deus, pois em nada violaram os mandamentos de Deus, mas perseveraram todos os dias de sua vida na inocência e no mesmo sentimento. 3Todos vós que assim perseverardes e fordes sem malícia, como crianças pequenas, sereis mais gloriosos do que todos os anteriores. Com efeito, todas as crianças são gloriosas diante de Deus e os primeiras diante dele.

Essa fala aparece no Sermão da Montanha de Mateus, no Sermão da Planície de Lucas e noutras falas de Jesus. A idéia é muito bem sintetizada por Hermas nesse trecho acima, mas vai prontamente em contrário de um “pecado original”. Como se houvesse aqueles ‘naturalmente herdeiros’, que,não precisam ser modificados por Cristo.

CONCLUSÃO

Desde a época de Titus Flavius Clemens, ou Clemente bispo de Alexandria (150 – 215 d.C. - não confundir com Clemente bispo de Roma, citado por Hermas) houve uma crescente resistência das hierarquias Cristãs em aceitar o PH como livro inspirado por Deus. A principal crítica foi justamente quanto às visões de Hermas, que fomentavam algo do Gnosticismo. Apenas as visões do Apocalipse de João foram aceitas como inspiradas, talvez por sua semelhança com Daniel.

Embora o PH pareça uma obra independente, desvinculada do Velho e do Novo Testamentos, nalguns pontos ele transparece o contato com conhecimentos judeus e, provavelmente, o texto de Marcos. Sabemos que Hermas era alguém instruído no Cristianismo, numa transição entre o paganismo greco-romano e a nova doutrina.

A história nos conta como o PH foi importante na Europa romana. Há relatos de largo uso dele como instrumento de evangelização, até o séc. 4 d.C., quando a própria Roma começou a desmoronar. O PH não foi conhecido ou difundido pelo Cristianismo oriental, baseado em Alexandria e Constantinopla. Muitos conceitos do PH foram combatidos e discutidos dentro da Igreja por séculos. Por fim, diversos deles foram resgatados (não necessariamente a partir do PH) a partir do séc. 16 dentro de algumas subdivisões do Protestantismo.

* O texto do Pastor de Hermas, em português, pode ser lido em Leia!

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¹ Não é simples definir uma obra como Cristã. O Cristianismo tem muitas vertentes e mudou muito ao longo dos séculos. O conceito que estou usando aqui é de uma obra que se referencie a Jesus como divino e Senhor (as obras islâmicas e judaicas são diferentes quanto a isso, quando falam de Jesus) e que seja coerente com a filosofia Cristã de alguma época. Assim, obras que falem de Jesus como profeta, mago ou entidade metafísica não seriam chamadas de Cristãs, assim como aquelas apresentando uma teologia única, que ninguém mais replicou.

² Os Gnósticos eram, originalmente, um secto dos judeus. Mas foram/são um grupo de teologia fluida, cujos preceitos são continuamente revelados por Deus na forma de visões. Por isso, não faltam escritos Gnósticos que sejam “Cristãos”. O material literário dos Gnósticos inclui inserções de muitas culturas e revelações que aparentemente não se encaixam, cuja busca de um significado é o cerne do gnosticismo.

³ Aurelius Augustinus Hipponensis (354-430 d.C.), chamado também de Santo Agostinho, foi um dos maiores teólogos de todos os tempos. Sua obra “Confissões” marcou a história do Cristianismo ao unir os conceitos de Platão sobre “mundo terreno” e “mundo ideal” com a perspectiva Cristã de “mundo terreno” e “mundo espiritual”. Assim, o corpo e todas as suas necessidades se tornaram antíteses do espírito e tudo que existe de divino. Mesmo a fome, a sede, o desejo sexual se mostraram fontes de pecado para Agostinho. E o prazer, em especial, seria o maior de todos os pecados, tentando os homens desde seu nascimento até a morte. Somente a racionalidade fria, planejada, voltada à Igreja era uma forma correta de se viver. Agostinho foi terrivelmente influente sobre a mentalidade da Europa Medieval, introduzindo muitos conceitos Cristãos que vemos em uso até hoje.

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PERGAMINHOS MAIS VELHOS QUE PAPIRO

Arcadia - wikipedia
Blumenthal F, Eldad and Medad. Jewish Bible Quarterly, 36(2):88, 2008.
Galatians 5:1, 13-25 "Where is the list?" - Midway Presbiterian Church, 2013.
Gospel of Mark - wikipedia
Leiman SZ, The Inverted nuns at Numbers 10: 35-36 and the Book of Eldad and Medad, Journal of Biblical Literature, 93(3):348-355, 1974.
Michael - biblehub.com
Wilford JN, Archaeologists find celts in unlikely spot: turkey, New York Times, 2001.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

O gadareno e os porcos

um vídeo de Barry Cook

Existe uma passagem do ministério de Jesus que sempre me chamou à atenção, e eu gostaria de compartilhar as dúvidas e mistérios sobre esse trecho. Não vou colar ela aqui, para que você se dê ao trabalho de ler as versões dela. Trata-se da expulsão de um (ou mais) demônios na terra dos gadarenos, mais propriamente numa região conhecida como Decápolis. Você pode encontrar tal passagem em Mateus 8.28-34, Marcos 5.1-20 e Lucas 8.26-39. Os 3 evangelistas sinóticos (que narraram cronologicamente a vida de Jesus) contam sobre esse episódio, mas sobretudo João Marcos dá atenção a ele. Isso é relevante, pois João Marcos em geral é o mais sucinto dos evangelistas.

Essa passagem tem múltiplas interpretações, algumas literais, outras figurativas, e certamente não há como esgotar o assunto aqui. Apenas seria bom expor algumas idéias.

O ocorrido se deu na região conhecida como Decápolis, que é um nome greco-romano. Não se trata de uma cidade, mas de um “estado” formado por 10 cidades independentes que contavam com muitos privilégios junto a Roma, como terem cada qual a sua moeda, etc. Esses privilégios eram concedidos justamente às cidades que disseminavam a cultura romana no Oriente, como o culto ao imperador. Faziam parte da Decápolis as cidades-estado de Gerasa, Scythopolis (chamada Beth-Shean, em Israel), Hippos (ou Sussita), Gadara (Umm Qais), Pella, Philadelphia (atual cidade de Aman, capital da Jordânia), Capitolias (Beit Ras, ou ainda Dion), Canatha (Qanawat), Raphana e Damasco (atual capital da Síria).

mapa de Decápolis

Jesus e seus seguidores haviam saído de barco de Cafarnaum, até o outro lado do lago de Genesaré (mar da Galiléia), desembarcando nalgum local que Marcos chama de “terra dos gadarenos”. Provavelmente não haviam construções ali, ou o nome exato do lugar seria conhecido. Alguns dizem que essa foi uma das raras andanças do Messias em território gentio, mas os conflitos militares na região sugerem que, na verdade, tratava-se de um território judeu, pelo menos politicamente. Lá chegando, veio ao seu encontro um “homem com espírito imundo”, que “morava nos sepulcros”, ao qual “ninguém podia prender”. Marcos relata que ele “andava sempre, de dia e de noite, clamando pelos montes, e pelos sepulcros, e ferindo-se com pedras”. Precisamos entender bem o que isso significa, pois fará toda diferença na interpretação dos fatos.

Tradicionalmente, fala-se em um indivíduo possuído por demônios, que seriam expulsos pelo Messias. No entanto, o fato de andar dia e noite, clamando e ferindo-se, faria qualquer profissional de saúde atual pensar em um esquizofrênico, lunático (termo medieval) ou simplesmente louco. São de fato comportamentos bem típicos! No tempo de Jesus, os judeus associavam tanto as doenças físicas (ex. lepra) quanto mentais (ex. esquizofrenia) à possessão por demônios. Estar doente tornava o indivíduo “impuro”, alguém em quem ninguém queria sequer tocar. Freqüentemente esse “impuros” viviam no campo, próximos às cidades, vageando por onde achassem comida (ver 2ª Reis 7.8). Um cemitério gadareno não seria local improvável para habitarem.

O culto aos mortos era comum em Roma e na Grécia, e talvez alguns gadarenos mais "romanicizados" fossem adeptos disso. Isso faria dos cemitérios locais sagrados, onde seriam deixadas oferendas (de forma semelhante ao que vemos hoje no xintoísmo japonês, santeria caribeña e umbanda brasileira). Já pos cemitérios judeus eram locais "impuros", de onde as pessoas se afastavam. Talvez por isso o profeta Isaías tenha escrito 700 anos antes:

Fiz-me acessível aos que não perguntavam por mim; fui achado pelos que não me procuravam. A uma nação que não clamava pelo meu nome eu disse: ‘Eis-me aqui, eis-me aqui.’ O tempo todo estendi as mãos a um povo obstinado, que anda por um caminho que não é bom, seguindo as suas inclinações; povo que sem cessar me provoca na minha frente, oferecendo sacrifícios em jardins e queimando incenso em altares de tijolos; povo que vive nos túmulos e à noite se oculta nas covas, que come carne de porco, e em suas panelas tem sopa de carne impura.

Esse povo diz: ‘Afasta-te! Não te aproximes de mim, pois eu sou santo!’ Essa gente é fumaça no meu nariz! É fogo que queima o tempo todo! Vejam, porém! Escrito está diante de mim: Não ficarei calado, mas darei plena retribuição; eu lhes darei total retribuição, tanto por seus pecados como pelos pecados dos seus antepassados’, diz o Senhor. ‘Uma vez que eles queimaram incenso nos montes e me desafiaram nas colinas, eu os farei pagar pelos seus feitos anteriores.

Logo que Jesus desceu do barco, Marcos conta que o endemoniado veio correndo ao seu encontro, questionando-o: “Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes”. Mateus acrescenta: “Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo?”. Certamente o homem que se flagelava com pedras também se via como impuro e endemoniado, e realmente dizia 'Afasta-te!'. Não podemos afirmar que não fosse de fato um possuído, mas essa passagem chama a atenção, entre outras coisas, pelo comportamento estranho do “filho das trevas”: noutras aparições, o diabo e seus conservos são sempre sutis, ativos e manipuladores. Mas aqui ele corre na direção de Jesus e humilhando-se à vista de todos!

Alguns estudiosos, por outro lado, atentam que o pronto reconhecimento do Messias é uma característica de seres espirituais. Enquanto os homens ficaram por muito testando Jesus, esperando “sinais”, o diabo e os anjos rapidamente se manifestaram a Ele. E a sujeição a Jesus também é bem hipócrita: "não nos atormente antes do tempo”, dizia, mas o homem ali ESTAVA atormentado em todos os seus dias.

Como era hábito dos rabis que expulsavam demônios, Jesus perguntou o nome de quem tinha a sua frente. E a resposta não podia ser mais estranha: “Legião, porque somos muitos”. De fato, a palavra que aparece nos manuscritos gregos é LEGIO. Tratava-se de um nome usado especificamente para… solados romanos! Os judeus e gadarenos conviviam com as tropas romanas na região havia pelo menos 200 anos e ninguém chamaria de LEGIO a qualquer um, mas somente um militar romano.

No tempo de Jesus, haviam muitos movimentos populares contra Roma, a exemplo dos Zelotes em Jerusalém. Eram tempos turbulentos, e tornaram-se ainda mais turbulentos até o ano 70, quando Roma ordenou a destruição dos monumentos em Jerusalém, a começar pelo Templo. Nesses anos, a Judéia toda estava sendo fortemente patrulhada pela Legião X Fretensis (X = 10ª legião), formada por 5000 soldados, além dos oficiais. Essas “patrulhas” estavam lá justamente para assegurar a PAX ROMANA (os reinos subordinados não podiam guerrear entre si) e acabar com qualquer revolta popular. E o símbolo que os legionários carregavam nos escudos e bandeira era, curiosamente, esse abaixo:


 Selo e bandeira da 10ª legião

Ok, é um porco selvagem. Na Itália dos romanos, era um símbolo de força militar (assim como a águia e o touro, outros símbolos de Roma). A 20ª legião - Val Victrix - também usava o porco nos escudos. Mas era um animal que os judeus e gadarenos conheciam, que estava associado às pestes, ao castigo divino e aos velhos inimigos Filisteus. Provavelmente era um animal criado sem restrições no lado oriental do Jordão (antiga terra dos amonitas e moabitas) e com toda certeza era usado como mantimento para as patrulhas e até para as cidades da Decápolis. Diversos estudiosos citam que referências aos soldados romanos na judéia até os nomeiam depreciatoriamente como “os porcos”.

Qual não é a surpresa em que o “demônio LEGIO” se importasse tremendamente por “ficar na região” e desejasse justamente “ir aos porcos”. Parece um linguajar militar! Aqui as opiniões divergem bastante: alguns estudiosos dizem que o possesso talvez fosse um soldado romano insano e querendo voltar aos seus 2000 compatriotas acampados. Outros estudiosos falam ainda da incrível semelhança que existe entre o porco, em grego THUS (Θΰç) e “sacrifício” (THUEIN = Θΰεiν), sugerindo que era formalmente um “animal de sacrifício”, da mesma forma que o carneiro era para os judeus. Portanto, a criação de porcos em território gadareno seria uma criação “cerimonial” ou “oferenda” aos deuses pagãos ou demônios DAQUELA TERRA. Os gregos, por exemplo, sacrificavam porcos a Ceres, deusa da terra, e o faziam em covas ou cavernas, que os judeus bem poderiam interpretar como túmulos. O mais comum é que se diga “ora, os porcos eram animais impuros”. Mas só eram impuros para alimentação! Os camelos e jumentos também eram impuros, segundo o código de Moisés.

O mais estranho, contudo, seria pensar em Jesus fazendo as vontades de um demônio.

Mesmo debruçando-se muito sobre as escrituras, não há explicações definitivas para esse estranho ocorrido na terra dos gadarenos. Só temos o texto bíblico, e ele não é revelador quanto a isso. O demônio/endemoniado/insano dizia-se possuído pela Legião e disse a Jesus que gostaria de ficar na região. Para isso ele deveria passar aos porcos/ir aos romanos. E Jesus consentiu!!!! Sem dúvida importava ao Messias curar esse homem, fosse de uma doença mental ou de uma possessão demoníaca. E ele não hesitou em dizer: “vai”, de forma que o tormento SAIU do homem.

Alguns dizem que se tratava de uma transferência, como no famoso “bode espiatório” que os judeus soltavam no deserto carregando todos os seus pecados. Não há de fato como fazer isso, mas era importante a eles sentirem-se livres do tormento! E talvez fosse necessário ao homem que a sua insanidade - o seu demônio interno - passasse aos porcos ou aos legionários, para que ele ficasse livre e limpo, como de fato ficou.

Os mais literais afirmam que o demônio Legião possuiu uma manada de porcos e, desesperados, os animais se lançaram de uma colina no lago de Genesaré. Embora os homens pudessem ser habitados por demônios e continuar vivos, isso não seria possível aos animais. Quanto ao seu desejo de ficar na região… ninguém sabe o que seria de Legião nesse caso. Jesus mesmo havia dito algo sobre os demônios expulsos: “Quando o espírito imundo tem saído do homem, anda por lugares secos, buscando repouso; e, não o achando, diz: ‘Tornarei para minha casa, de onde saí’. E, chegando, acha-a varrida e adornada. Então vai, e leva consigo outros sete espíritos piores do que ele e, entrando, habitam ali; e o último estado desse homem é pior do que o primeiro" (Lucas 11.24-26). Nesse caso, que diferença faria irem aos porcos ou não?

Outros defendem que o suicídio dos porcos poderia ser um simbolismo para que o homem abandonasse sua devoção aos deuses pagãos, e poderia realmente tratar-se de ele (o insano) ter atacado uma manada de porcos cerimoniais que se jogaram no lago. Há ainda quem fale em um movimento do homem ou dos gadarenos contra o domínio romano, ou do abandono de sua vontade insana de voltar à 10ª Legião. Realmente não temos como saber, pois a Bíblia não fala mais dos gadarenos. O que sabemos é que a população do local, mesmo impressionada de ver o homem curado e calmo, não quis que Jesus permanecesse lá. Isso pode estar ligado tanto à destruição de uma manda de porcos sagrados quanto a problemas com Roma, de quem Gadara era uma cidade protegida e com muitos privilégios.

O que sabemos é que Jesus disse ao homem para ficar na Decápolis, e anunciar a todos o que Deus tinha feito. Além de deixar uma testemunha para a conversão dos gadarenos (que aconteceria nos 100 anos seguintes), Jesus talvez pensasse em não desafiar as autoridades romanas levando um legionário consigo. Mesmo se tratando de um insano, isso seria crime passível de morte.

Devo dizer que a teoria de um soldado insano é muito mais atraente do que um possuído habitando túmulos. Uma vez que Gadara estava sob controle do rei Herodes de Jerusalém e nos anos de conflito o Sinédrio se fez particularmente ativo no controle dali, é pouco provável que a cidade tivesse muitas práticas pagãs, mesmo romanas. Até hoje, Gadara (atualmente Umm Quais) tem bosques de carvalhos onde seria perfeitamente possível criar grandes manadas de porcos para a alimentação de soldados.

Com os conflitos contra o rei Nero que se iniciaram em 66 d.C., a cidade se aliou aos movimentos de libertação da Judéia e foi devastada pelas legiões 5ª Macedonica, 10ª Fretensis e 15ª Appolinara, sob comando do general Titus Flavius Vespasianus.

Ruínas romanas de Gadara, na atual Umm Quais. Ao fundo, o lago de Genesaré.

Para finalizar, tendo deixado mais perguntas que respostas, deixo também uma frase particularmente significativa de C. S. Lewis quanto à sua conversão:

Na primeira vez que eu me examinei seriamente, encontrei o que me chocou: um zoológico de permissividades, uma bagunça de ambições, um viveiro de medos, um harém de ódios e paixões. Meu nome é Legião.

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CÊ PODE LÊ, PODE SIM

Duncan Heaster, The real Devil
frei Mauro Strabeli, Bíblia: perguntas que o povo faz, Ed. Paulus, 1990
James R. Brayshaw, livro Imagine no satan, cap. 9
Jona Lendering, Wars between the Jews and Romans: the War of 66-70 CE
The Vally Presbiterian Church - Bible Study Resources
Umm Quais - wikipedia

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O Livro de Jó - 1ª parte: fatos e lendas


Jó representa todos aqueles que são castigados, sendo inocentes. Acusado pelos amigos e incitado ao mal pela esposa, ele não se afastou de Deus.

Existem muitas estórias sobre o livro de Jó. Algumas são verdades, outras são lendas, outras são invenções. Para quem nunca se situou, recomendo a leitura do livro, antes de mais nada. Ele trata basicamente de uma estória extremamente humana, onde um homem justo é açoitado pela perda de todas as suas posses, sua família e até sua saúde. No começo de tudo, entretanto, o narrador conta o final: Deus e Satanás discutem sobre os motivos da fidelidade humana ao Senhor. Satanás argumenta seguidamente que as pessoas somente são fiéis porque Deus lhes abençoa. Deus coloca como contra-exemplo seu servo Jó, e então Satanás aposta que se Jó fosse castigado, abandonaria a Deus. Essa passagem é fundamental, pois a estória não seria em nada emocionante se não soubéssemos de Deus sendo injusto com Jó! Feita a travessura, Jó é visitado por amigos ricos e poderosos de outrora, estes começam a debater entre si e com Jó o motivo de suas desventuras. Após muitos lamentos e discussões, o próprio Deus aparece, repreende a todos e restaura a fartura de Jó.

A estória é muito humana justamente porque a pobreza é algo muito fácil de se entender... Perder algo, então? Ser culpabilizado pelo próprio infortúnio? Achar-se inocente e não merecedor de uma desgraça? Poucos seres humanos não se reconheceriam aí.

ANTIGÜIDADE

A principal lenda que ronda esse livro é tratar-se do mais antigo da Bíblia. Uma parte disso é verdade, mas apenas uma parte. O livro é escrito assim: cap. 1-2 (prosa); cap. 3-40 (poesia); cap. 41-42 (prosa). Os capítulos em prosa provavelmente são do tempo de Abraão (~2000 a.C.). Já os capítulos em poesia datam do período do Exílio babilônico (600-550 a.C.).

A lenda do justo que sofre aparece em muitos textos antigos do Egito, e provavelmente era parte do folclore popular da época (a menos, é claro, que alguém argumente em favor de um bisbilhoteiro espiritual presenciando uma aposta entre Deus e Satanás). Como as línguas se  modificam ao longo do tempo (ex. Vossa mercê virando Vosmecê e depois Você), também podemos acompanhar um estilo de escrita... e o estilo do livro de Jó testemunha que se trata do hebraico mais antigo encontrado em toda Bíblia. Além disso, o livro não faz referência a sacerdotes: era o próprio Jó quem oferecia sacrifícios pelos pecados do seu clã, da mesma forma como Abraão se portava. Ele não era apenas um líder, mas um Rabi, com funções de cura, liderança e religião. Se o primeiro sacerdote instituído foi Moisés (~ 1200 a.C.), o livro de Jó certamente é anterior a ele. Para completar, não há referência a ouro e prata como riquezas. Eis como o livro descreve a fartura de Jó:

E nasceram-lhe sete filhos e três filhas. E o seu gado era de sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas; eram também muitíssimos os servos a seu serviço, de maneira que este homem era maior do que todos os do oriente. (Jó 1:2-3)

Comparemos isso com a descrição da fartura de Abraão, feita por seu emissário que foi até o pastor (ou Rabi) Labão na terra de Ur:

Eu sou o servo de Abraão. E o SENHOR abençoou muito o meu senhor, de maneira que foi engrandecido, e deu-lhe ovelhas e vacas, e prata e ouro, e servos e servas, e camelos e jumentos. E Sara, a mulher do meu senhor, deu à luz um filho a meu senhor depois da sua velhice, e ele deu-lhe tudo quanto tem. (Gênesis 24:34-36)

O servo de Abraão já menciona prata e ouro como riquezas! Dessa forma, a parte em prosa de Jó é bem mais antiga que o próprio livro de Gênesis (escrito por Moisés, se bem que contando fatos de ~8000 a.C.) e que Abraão.

A mesma antigüidade não se aplica à parte em poesia. De certa forma, essa parte representa até uma discordância de personalidade quanto ao protagonista Jó. Enquanto a prosa antiga fala de um justo que sofre calado, a poesia dá voz a Jó para chorar perante Deus e implorar pela própria morte, assim como para questioná-lo pelo que fez, e para debater ferrenhamente com seus amigos. Esse "outro Jó" não se atém mais às funções de líder ou rabi, mas trata de analisar e esmiuçar a própria situação, coisa que só se tornou comum no Velho Testamento a partir do contato com o modo Babilônico de pensar. Essa é a forma como Jeremias escreveu seu texto.

Além disso, o texto em poesia faz diversas referências aos Salmos, indicando que é posterior ao reinado de Salomão (970-930 a.C.), quando os Salmos começaram a ser ensinados no Templo:

Lembra-te de que a minha vida é como o vento; os meus olhos não tornarão a ver o bem. Os olhos dos que agora me vêem não me verão mais; os teus olhos estarão sobre mim, porém não serei mais. (Jó 7:7-8) ... Que é o homem, para que lhe dês importância e atenção, para que o examines a cada manhã e o proves a cada instante? (Jó 7:17-18)

Que é o homem, para que com ele te importes? E o filho do homem, para que com ele te preocupes? (Salmos 8:4)

Como uma correnteza, tu arrastas os homens; são breves como o sono; são como a relva que brota ao amanhecer; germina e brota pela manhã, mas, à tarde, murcha e seca. (Salmos 90:5-6)

Senhor, que é o homem para que te importes com ele, ou o filho do homem para que por ele te interesses? O homem é como um sopro; seus dias são como uma sombra passageira. (Salmos 144:3-4)

GEOGRAFIA

Um fato importante é que Jó não habitava em Israel. Esse dado é muito relevante pois faz supor que, se ele fosse um estrangeiro, não seria agrupado como "povo de Deus" pelos israelitas. No entanto, se Israel ainda não existisse... isso seria muito mais aceitável. Lembremos que Abraão também não era natural da terra de Hebron, mas de Ur dos caldeus. Ur era uma cidade da Suméria, entre os rios Tigre e Eufrates. Acredita-se que o mesmo se dê com Uz, pois é mencionado de Jó que "este homem era maior do que todos os do oriente" (Jó 1:3). Como houve forte influência do Egito sobre a formação de Israel, mas no entanto há muito pouco da cultura egípcia na cultura israelita, acredita-se que o estabelecimento de Israel deve muito aos Rabis vindos da Suméria, e talvez isso justifique a boa fixação dos israelitas quando foram deportados para as terras da Babilônia, a ponto de serem atraídos por seus deuses e cultos.

Ao sul de Israel, perto do golfo de Aqaba, ficava o reino de Edom. Dentro desse reino ficava a cidade-estado de Temã, de onde vinha um dos Rabis amigos de Jó, chamado Elifaz. Edom foi o reino fundado por Esaú, irmão de Jacó, e dessa forma aparentado com Israel. Além disso, no Gênesis Temã é nome do filho de Elifaz, o filho mais velho de Esaú (Gn 36.15). Quando a parte mais antiga do livro de Jó foi escrita, é provável que Esaú ainda nem tivesse andado por Edom, mas o reino se estruturou e, no tempo do Exílio babilônico, é possível que tanto o nome das cidades quanto os personagens da lenda tenham se baseado no Gênesis. "Elifaz, filho de Temã, de Edom" (no livro de Jó) talvez seja uma brincadeira com "Temã, filho de Elifaz, de Edom" (no Gênesis), invocando o personagem Elifaz como o mais "falador" dos rabis. Provavelmente era uma característica dos edomitas, que certamente acompanharam os hebreus em sua deportação para a Babilônia. De qualquer forma, esse Rabi chegava a Jó - de Uz - como um representante do reino do sul, para perguntar-lhe "pode alguém ser justo perante Deus?"

O segundo amigo de Jó, Bildade, era um rabi de terras mais próximas. Ele é apresentado como Bildade, de Suá. Suá era o nome de um filho de Abraão nascido de Quetura, mulher que ele desposou após a morte de Sara (Gn 25.1-2). O historiador romano Josephus de Alexandria deixou sua opinião de que Abraão havia dispersado os filhos pelo mundo, para que ficassem longe do reino de Isaque. De fato, no norte da Masopotâmia, nas terras da Síria, há registros de um reino chamado Sûchu (lê-se Suá), anterior ao império Hitita. Esse reino estendia-se a leste de Israel seguindo a planície fértil até a cabeceira do rio Eufrates. Dessa forma, Bildade provavelmente vinha de uma terra que os hebreus conheciam muito bem, da qual já haviam sido aliados e inimigos. Talvez por isso a mensagem de Bildade fosse "tem certeza de que você não carrega nenhuma culpa pelo que lhe aconteceu? Talvez um filho, ou filha...". Ele vinha acusar Jó pelos pecados de outros, já mortos!

O terceiro amigo de Jó era Zofar, de Naamat. Simplesmente não há qualquer indício de onde ficasse a cidade de Naamat. Alguns estudiosos crêem que se trate de uma cidade dentro do reino de Uz, portanto próxima a Jó, ou nas margens do deserto da Arábia. A única referência completa sobre o nome Naamat aparece no livro de Jasher, um apócrifo que conta a história dos clãs hebreus. Segundo o livro de Jasher, Naamat era o nome de um dos filhos de Buz, filho de Nahor, irmão de Abraão. Talvez se trate, assim, de uma tribo do leste aparentada com os hebreus (Jasher 22.21). Essa influência das tribos do leste se confirma com a repentina aparição de Eliú (o 4º mosqueteiro do trio), filho de Baraquel, de Buz (a tribo de Buz?). Eliú seria assim um parente próximo de Zofar. Esse personagem misterioso (que desaparece da mesma forma repentina) surge para declarar que Deus cuida zelosamente de sua Criação e, portanto, age premeditando o futuro.

O livro de Jó apresenta, portanto, a reunião de diversos ancestrais dos hebreus (daí a forte hipótese de que o livro seja contemporâneo de Abrão) em algum ponto do reino de Uz onde Jó (quem sabe mais um suposto patriarca) perdera suas terras, bens, família e a própria saúde. O livro apresenta uma fusão da antiga lenda do justo sofredor com personagens poéticos provavelmente simbólicos dos povos com os quais os hebreus conviveram no Exílio babilônico. Contada na íntegra, a estória assume a função de um ensino de valores e da descendência hebraica, ressaltando sobretudo o valor da discussão como forma de ensino entre os hebreus.

---------- NÃO DEIXE DE LER A 2ª PARTE !!! ----------

Em verdade, em verdade, podeis ler também
A linhagem hebraica
Começo de conversa - rodapé
Ivo Storniolo, Como ler o livro de Jó - o desafio da verdadeira religião, Ed. Paulus, 2008
Shuah - wikipedia
The Oldest Book - The Scroll Eaters
Teman (Edom) - wikipedia