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domingo, 13 de outubro de 2013

O Livro de Jó - 3ª parte - se entendendo com Deus

o animal magnífico, segundo Deus

No início livro de Jó, podemos dizer que Deus e Satanás fazem uma aposta. Deus exibe seu servo Jó, homem justo e crente, que jamais se desviava do caminho reto, e a quem Ele provia de imensa fortuna, filhos e filhas felizes, além de avançada idade e admiração entre os homens. Satanás ardilosamente afirma que Jó apenas era fiel porque Deus lhe dava riqueza. Deus permite então que Satanás lhe tire tudo. Com Jó ainda fiel, Satanás afirma lhe ele só era fiel porque Deus provia saúde. Então Deus concede que Satanás lhe tire até isso, mas não a vida. Finalmente, Jó é visitado por três rabis. Seus amigos afirmam a justiça de Deus ao tirar tudo de Jó, pois ele devia ter cometido algum pecado. Ao negar que fosse injusto em qualquer coisa, Jó apela para a sua fraqueza perante o Senhor, diz que poderia contender com Ele em um tribunal e até exercita a possibilidade de um defensor justo que conhecesse o sofrimento humano e que poderia defendê-lo perante Deus.

Eis que se levanta então Eliú, o jovem, do clã de Buz, provavelmente um parente de Zofar. Seu aparecimento é um mistério, pois Eliú não é citado nas passagens anteriores ao cap. 32 nem nas passagens posteriores aos cap. 37. Surgido do nada, esse personagem sobretudo não é citado por Deus quando profere sua sentença, no final. No entanto, o discurso de Eliú é um dos mais poderosos dentre os rabis. Seu anúncio de "... estou cheio de palavras; o meu espírito me constrange" (Jó 32.18) se revela uma exaltação de que Deus é capaz de castigar para afastar o homem até de pecados futuros e ninguém pode se gabar da própria justiça, nem mesmo Jó. Ele ainda afirma que Deus paga a cada um segundo suas obras, mas acrescenta que "provado seja Jó até ao fim, pelas suas respostas próprias de homens malignos" (Jó 34:36), ou seja, Jó poderia ser culpado pelas palavras de lamúria que usou após ser afligido! Maligno seria um Deus que usasse desse artifício para castigar os homens, dar-lhes penas pelos choramingos ao serem castigados!

Quando o Senhor aparece, sua primeira fala já é terrível ao orgulho humano, e vai primeiramente a Jó:

... perguntar-te-ei, e tu me ensinarás. Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? Faze-mo saber, se tens inteligência. (Jó 38.3-4)

Os motivos do Oleiro simplesmente não dizem respeito ao vaso! Ficamos a discutir porque Ele fez isso ou aquilo, mas uma simples semente jogada no chão hoje pode ser uma floresta dentro de 100 anos, e não temos controle sobre o nosso próprio presente. Quando o Senhor o preparou, quem estava presente? Nos basta entender isso que foi preparado como o fruto de um Deus bondoso, e no caso de Jó mesmo, em todo tempo Deus o protegeu do golpe final de Satanás. Não teríamos como medir os efeitos das decisões do Senhor, muito menos sondar suas reais causas.

Então para finalizar a contenda, o próprio Deus manifesta um discurso no mínimo misterioso:

Deus começa enumerando as virtudes das cabras monteses, jumentos selvagens, bois, avestruzes, e finalmente o hipopótamo. Pelo menos essa foi uma interpretação dada para o Leviatã descrito pelo nome Beemot, Beemote ou Behemote.

Uma parte enorme do discurso de Deus no cap 40 ocupa-se em elogiar o animal que "nutre-se da erva como o boi", que "sob os lotus se deita, oculto entre os juncos do brejo" e "quando o rio se enfurece, ele não se abala; mesmo que o Jordão encrespe as ondas contra a sua boca, ele se mantém calmo". Sobre esse animal, o livro é categórico - "ele ocupa o primeiro lugar entre as obras de Deus. No entanto, o seu Criador pode chegar a ele com sua espada". De forma muito interessante, não há qualquer referência sobre hipopótamos no rio Jordão (em qualquer época da história), apesar de ser um animal típico dos rios da Mesopotâmia, na região da Síria e Assíria. Mais além, fala Ele de fogo saindo de suas ventas:

Cada um dos seus espirros faz resplandecer a luz, e os seus olhos são como as pálpebras da alva. Da sua boca saem tochas; faíscas de fogo saltam dela. Das suas narinas procede fumaça, como de uma panela fervente, ou de uma grande caldeira. O seu hálito faz incender os carvões; e da sua boca sai chamas. (Jó 41.18-21)

Transformado em um Leviatã monstruoso e sendo a 1ª obra do Criador, o hipopótamo do Eufrates é o estranho símbolo de poder divino apresentado a Jó e seus amigos. Essa criatura aparentemente fazia parte da mitologia suméria e encontrou os hebreus quando foram deportados para a Babilônia, sem dúvida um animal enorme que deve ter lhes causado algum espanto pela força e ferocidade.

Se o mundo havia sido criado da água, e tal criatura vinha da água, eis a besta primordial! "Nada na terra se equipara a ele; criatura destemida! Com desdém olha todos os altivos; reina soberano sobre todos os orgulhosos" (Jó 41.33-34). Deus simplesmente desafia Jó e seus amigos a "pescar" o hipopótamo. Como somente Ele se aproxima do hipopótamo, Deus conclui: "quem seria maior do que eu?".

Quem então será capaz de resistir a mim? Quem primeiro me deu alguma coisa, que eu lhe deva pagar? Tudo o que há debaixo dos céus me pertence. (Jó 41.10-11)

A singeleza dessa aparição de Deus está no fato de que o Senhor não invalida o discurso de nenhum dos homens ali: nem de Jó (que O chamava de insensível e até destruidor), nem de qualquer dos seus amigos (que acusavam Jó pelos seus próprios sofrimentos). Ele apresenta suas criações (com graaande destaque para o hipopótamo), depois emenda que os amigos de Jó não haviam falado o que era certo sobre Ele. Deus simplesmente não debate nada sobre a sua natureza! Ele apenas diz "Eu sou supremo, acatem o que eu lhes ordeno".

E ficamos nós ainda discutindo sobre o que Deus aceita ou não, o que Ele gosta ou não. Se fulano teve desventuras na vida porque Deus está lhe punindo, ou se Deus se aproxima mais justamente dos sofredores. Há pessoas que se auto-infligem sofrimentos para que Deus as veja! E há pessoas que se gabam da proteção de Deus ao terem prosperidade!

Sobre a complexa discussão de Jó e seus amigos, Deus escolheu dizer "Calem-se!" ao invés de se explicar. Esse aspecto repentino do Senhor, essa supremacia de irromper para além do que se possa esperar Dele, foi o mais presente em todo o ministério de Jesus. Ele resolveu falar com uma mulher samaritana porque... estava próximo dela. Resolveu curar um homem na piscina de Betesda porque... topou com ele. Ele tratou bem dos leprosos porque passou onde eles ficavam. Salvou a adúltera porque levaram-na a Ele, mas não se desviou do que fazia para resolver esse problema. Resolveu curar no sábado porque era apenas mais um dia, em que seu Pai também trabalhava. Na imensa maioria das ocasiões, não parece que Jesus tenha "arquitetado" nada do que aconteceu. Os homens lhe levaram algo, e ele respondeu com sabedoria divina.

Paulo fez de tudo para entender e explicar o comportamento de Jesus, e certamente por isso os teólogos gregos se apaixonaram rapidamente por ele. Afinal, não podiam entender Jesus, assim como os rabis de Jó não podiam explicar a Deus.

Para os que insistem em prever o que Deus gosta ou não, talvez o hipopótamo saiba de algo.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

O Livro de Jó - 2ª parte - figurativamente falando

Enquanto esperamos Eliú aparecer, vamos escrevendo.

A parte mais antiga do Livro de Jó (cap. 1-2 e 42) provavelmente data dos tempos de Abraão (~ 2000 a.C.), sendo o texto mais antigo da Bíblia. Isso, claro, se desconsiderarmos a tradição oral escrita por Moisés em 1600 a.C., que descreve eventos de talvez 8000 a.C. Em outras palavras, Moisés escreveu depois sobre uma história mais antiga, como se comparássemos uma biografia de 1980 sobre Napoleão com um texto de 1920 sobre a 1ª Guerra.

Aqui, vamos examinar alguns significados "embutidos" no livro de Jó e que rodeavam a forma como os judeus o compreendiam.

ORA, AS MULHERES

No pequeno trecho em prosa que inicia o livro, salta aos olhos um costume pouco convencional e que de fato está bem longe dos costumes contados por Moisés: os filhos de Jó banqueteavam-se em suas casas e chamavam as irmãs a comerem com eles. Na tradição hebraica, as festas eram sempre promovidas pelo patriarca ou rabi (no caso Jó) e apenas os filhos homens eram convidados. Essa tradição seria quebrada muito tempo depois pelos costumes gregos e romanos introduzidos em ~500 a.C. após o Exílio babilônico. Pouco antes disso, em pleno Exílio, encontraremos por exemplo a rainha Vasti sendo chamada pelo rei Assuero (Xerxes o conquistador persa, quem diria) para ser exibida aos convidados (Estér 1.9) e depois a própria Estér (judia) recebendo a famosa oferta: "Rainha Ester, qual é o seu pedido? Você será atendida. Qual o seu desejo? Mesmo que seja a metade do reino, isso lhe será concedido" (Ester 7:2). Repare o poder oferecido! Uma oferta semelhante (senão propositalmente) foi feita a Salomé após dançar para a sedução dos convidados na festa promovida pelo pai Herodes (que era um judeu-grego educado pelos romanos, como convinha ao Império) ¹. Nos tempos de Jó, a moral hebraica condenaria totalmente as festas dos filhos, ainda mais com a presença das filhas! Ok, mas Hebron ainda era uma grande pastagem com tribos de pastores e Israel somente um sonho!

Na Península Arábica (onde ficava Uz e Ur dos caldeus) os costumes eram mais liberais. Haviam rainhas poderosas e também deusas poderosas. Jó era seguidor do Deus hebreu, mas essa era uma das opções nas vizinhanças. Em verdade, cada povoado tinha seus deuses... Desde a antigüidade, a Península Arábica conheceu grandes rainhas e provavelmente era muitíssimo mais igualitária em relação aos sexos. Ali, certamente as filhas de Jó eram tão importantes nas festas que talvez até oferecessem as suas próprias. Postura semelhante com as mulheres somente seria adotada por Jesus.

RECLAME COM O BISPO

Essa frase popular nunca poderia ser mais acertada do que com o Jó dos versículos em poesia. Ou seja, na parte do livro de Jó que foi escrita no Exílio. O Jó dessa parte poética é muito menos submisso do que o Jó da 1ª parte. Esse Jó é um homem profundamente deprimido, que reconhece a mão de Deus em suas agruras. Como escapar se é Deus quem lhe oprime?

Quando me deito, fico pensando: ‘Quanto vai demorar para eu me levantar?’ A noite se arrasta, e eu fico me virando na cama até o amanhecer. Meu corpo está coberto de vermes e cascas de ferida, minha pele está rachada e vertendo pus. ... Sou eu o mar, ou o monstro das profundezas, para que me ponhas sob guarda? Quando penso que a minha cama me consolará e que o meu leito aliviará a minha queixa, mesmo aí me assustas com sonhos e me aterrorizas com visões. Prefiro ser estrangulado e morrer do que sofrer assim; sinto desprezo pela minha vida! Não vou viver para sempre; deixa-me, pois os meus dias não têm sentido. ... Nunca desviarás de mim o teu olhar? Nunca me deixarás a sós, nem por um instante? Se pequei, que mal te causei, ó tu que vigias os homens? Por que me tornaste teu alvo? Acaso tornei-me um fardo para ti? Por que não perdoas as minhas ofensas e não apagas os meus pecados? Pois logo me deitarei no pó; tu me procurarás, mas eu já não existirei. (Jó 7.4-21)

Reconhecendo o poder de Deus, Jó expõe todo o amargor do seu coração quanto ao Senhor.

  • Embora inocente, eu seria incapaz de responder-lhe; poderia apenas implorar misericórdia ao meu Juiz. Mesmo que eu o chamasse e ele me respondesse, não creio que me daria ouvidos. Ele me esmagaria com uma tempestade e sem motivo multiplicaria minhas feridas. Não me permitiria recuperar o fôlego, mas me engolfaria em agruras. (Jó 9.15-18)
  • É tudo a mesma coisa; por isso digo: Ele destrói tanto o íntegro como o ímpio. Quando um flagelo causa morte repentina, Ele zomba do desespero dos inocentes. Quando um país cai nas mãos dos ímpios, Ele venda os olhos de seus juízes. Se não é Ele, quem é então? (Jó 9.22-24)

Embora muitas vezes pensemos que tal pessimismo seria um pecado, simplesmente era a verdade! Após ouvir as acusações dos amigos e sentir na pele a perda de tudo o que amava, estaria Jó contente? Claro, os amigos não eram pessoas muito "ouvidoras" quanto ao desabafo de Jó, então ele reclama ao próprio Deus sobre as injustiças que Ele lhe fizera!

Direi a Deus: Não me condenes, revela-me que acusações tens contra mim. Tens prazer em oprimir-me, em rejeitar a obra de tuas mãos, enquanto sorris para o plano dos ímpios? Acaso tens olhos de carne? Enxergas como os mortais? Teus dias são como os de qualquer mortal? Os anos de tua vida são como os do homem? Pois investigas a minha iniqüidade e vasculhas o meu pecado, embora saibas que não sou culpado e que ninguém pode livrar-me das tuas mãos.

"Foram as tuas mãos que me formaram e me fizeram. Irás agora voltar-te e destruir-me? Lembra-te de que me moldaste como o barro, e agora me farás voltar ao pó? Acaso não me despejaste como leite e não me coalhaste como queijo? Não me vestiste de pele e carne e não me juntaste com ossos e tendões? Deste-me vida e foste bondoso para comigo, e na tua providência cuidaste do meu espírito.

"Mas algo escondeste em teu coração, e bem sei que és tu: Se eu pecasse, me estarias observando e não deixarias sem punição a minha ofensa. Se eu fosse culpado, ai de mim! Mesmo sendo inocente, não posso erguer a cabeça, pois estou dominado pela vergonha e mergulhado na minha aflição. Se mantenho a cabeça erguida, ficas à minha espreita como um leão, e de novo manifestas contra mim o teu poder tremendo. Trazes novas testemunhas contra mim e contra mim aumentas a tua ira; teus exércitos atacam-me, em batalhões sucessivos. (Jó 10:2-17)

Essa figura do leão à espreita é bastante recorrente em todo o texto bíblico, indicando um poder de Deus ou do mau: "Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar" (1ª Pedro 5.8). Nesse caso, Jó reclama da severidade de Deus em seu castigo, argumentando (contra Ele) pela própria fragilidade.

A GRANDE PERGUNTA

O poder teológico do livro de Jó é enorme. Sua antigüidade e referência histórica devem ter feito dele muito importante para os judeus no Exílio. Além disso, Jó dispõe uma pergunta terrível do monoteísmo: "se não é Ele, quem é então?". Se não é Deus quem deixa o mal em toda a volta de Jó, quem é então?

Embora a teologia atual coloque o diabo como operante do mal, isso é muito raro em toda a Bíblia. Satanás é citado fazendo maldades no Gênesis, no início do livro de Jó, na tentação de Cristo, no confronto de Jesus com alguns endemoniados e depois no Apocalipse. Em todo o Velho Testamento, em especial, o mal representa punições e ações de defesa praticadas por Deus contra Seu povo (que se afastou na adoração de outros deuses como Baal) ou contra os inimigos do Seu povo (de quem o Senhor mandou muitas vezes matar as crianças e até mesmo o gado).

  • E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente. Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem sobre a terra e pesou-lhe em seu coração. E disse o Senhor: "Destruirei o homem que criei de sobre a face da terra, desde o homem até ao animal, até ao réptil, e até à ave dos céus; porque me arrependo de os haver feito." (Gênesis 6.5-7)
  • Entregá-los-ei ao desterro em todos os reinos da terra; por causa de Manassés, filho de Ezequias, rei de Judá, e por tudo quanto fez em Jerusalém. Porque quem se compadeceria de ti, ó Jerusalém? Ou quem se entristeceria por ti? Ou quem se desviaria a perguntar pela tua paz? Tu me deixaste, diz o Senhor, e tornaste-te para trás; por isso estenderei a minha mão contra ti, e te destruirei; já estou cansado de me arrepender. E padejá-los-ei com a pá nas portas da terra; já desfilhei, e destruí o meu povo; não voltaram dos seus caminhos. (Jeremias 15.4-7)
  • E tudo quanto havia na cidade [de Jericó] destruíram totalmente ao fio da espada, desde o homem até à mulher, desde o menino até ao velho, e até ao boi e gado miúdo, e ao jumento. (Josué 6.21)
Apenas no Novo Testamento o mal assume o real caráter de "obra de Satã" ou de ameaça à fé dos homens. No caso de Jó, sabemos de antemão que Deus estava envolvido em seus sofrimentos e de certa forma isso representava uma prova a mostrar para Satanás. Será esse o caso de todos os sofrimentos que a humanidade enfrenta, com crianças morrendo de fome, mortes em guerras, mortes por acidentes naturais, falta de condições mínimas de saúde, etc? De quantas testemunhas Satanás ainda precisaria?

O Novo Testamento, por outro lado, induz a pensarmos que o mal surge quando Satanás se apodera das pessoas:
  • Entrou, porém, Satanás em Judas, que tinha por sobrenome Iscariotes, o qual era do número dos doze. (Lucas 22.3)
  • Geralmente se ouve que há entre vós fornicação, e fornicação tal, que nem ainda entre os gentios se nomeia, como é haver quem possua a mulher de seu pai. ... Seja, este tal, entregue a Satanás para destruição da carne, para que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus. (1ª Coríntios 5:5)
  • Disse então Pedro: Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, e retivesses parte do preço da herdade? Guardando-a não ficava para ti? E, vendida, não estava em teu poder? Por que formaste este desígnio em teu coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus. (Atos 5.3-5)
  • Por isso bem quisemos uma e outra vez ir ter convosco, pelo menos eu, Paulo, mas Satanás no-lo impediu. (1ª Tessalonicenses 2.18)
Como pode ser Deus bom e ao mesmo tempo o operante ou permitidor de tanta maldade?

MONSTROS, UM DIABO E JESUS

A influência estrangeira se faz sentir de maneira muito sutil no livro de Jó. Os rabis Elifaz, Bildade, Zofar e Eliú trazem a mentalidade (conservadora) das nações vizinhas, mas não introduzem grandes elementos culturais. É o próprio Jó quem faz isso! Aqui e acolá são citados elementos culturais de outros povos como Raabe (monstro ou dragão egípcio do caos que habitava o mar) e Nergal (deus sumério da guerra e pestilência).

  • Deus não refreia a sua ira; até o séquito de Raabe encolheu-se diante dos seus pés. (Jó 9.13)
  • As colunas dos céus estremecem e ficam perplexas diante da sua repreensão. Com seu poder agitou violentamente o mar; com sua sabedoria despedaçou Raabe. Com seu sopro os céus ficaram límpidos; sua mão feriu a serpente arisca. (Jó 26.11-13)

Seria natural ver Moisés falando sobre um monstro egípcio que contraria a ordem natural posta por Deus, mas Jó somente falaria isso se ele fosse posterior ao cativeiro no Egito. Nergal (senhor do fogo e apelidade rei dos infernos pelos hebreus) também aparece, mas de forma não nomeada:

A calamidade tem fome para alcançá-la, e a desgraça está à espera de sua queda. Ela consome partes da sua pele; o primogênito da morte devora os membros do seu corpo. Ele é arrancado da segurança de sua tenda, e o levam à força ao rei dos terrores. O fogo mora na tenda dele; espalham enxofre ardente sobre a sua habitação. (Jó 18.12-15)

Sem dúvida, os hebreus no Exílio tinham uma visão demonizadora dos deuses babilônicos. É bastante curioso que as associações entre o Diabo e um reino de fogo são características do Novo Testamento. O Satanás do Velho Testamento se comporta muito mais como um anjo ou espírito maligno, geralmente associado à mentira. A imensa maioria das citações de Satanás no Velho Testamento está nos dois primeiros capítulos do livro de Jó!

Jó também faz uma curiosa referência ao Messias. Em seu debate com os amigos, ele aponta primeiro que Deus é bom, depois que deus não sofre com as amarguras humanas, e finalmente que ninguém poderia protegê-lo do julgamento (desigual e às cegas) de Deus. A única forma de haver justiça no mundo seria através de um mediador poderoso entre Deus e os homens, que pudesse olhar nos olhos do Todo Poderoso e mostrar-Lhe a verdade.

Ah! terra, não cubras o meu sangue e não haja lugar para ocultar o meu clamor! Eis que também agora a minha testemunha está no céu, nas alturas está o meu advogado. O meu intercessor é meu amigo, quando diante de Deus correm lágrimas dos meus olhos. Ele defende a causa do homem perante Deus, como quem defende a causa do amigo. (Jó 16.18-21)

Quem poderia ser o defensor dos homens, afirmar sua fragilidade e inocência perante um Deus que desconhece o sofrimento humano?

FOFOCA

¹ Salomé não é citada na Bíblia como sendo a filha de Herodes II. Em verdade, o nome da filha não aparece em qualquer lugar do Novo Testamento. Essa anotação foi feita pelo historiador romano Flávio Josephus no livro Antigüidades dos Judeus: "Herodias era casada com Herodes, o filho de Herodes o Grande e Mariane II, filha de Simão, o Alto Sacerdote. Herodes II e Herodias tiveram uma filha, Salomé...".

---------- NÃO DEIXE DE LER A 3ª PARTE !!! ----------

LITERATURA QUE OS RABIS TROUXERAM

Ivo Storniolo, Como ler o livro de Jó - o desafio da verdadeira religião, Ed. Paulus, 2008
Nergal - wikipedia1
Nergal - wikipedia2
Paradise Café Discussions - Raab, the dragon

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O Livro de Jó - 1ª parte: fatos e lendas


Jó representa todos aqueles que são castigados, sendo inocentes. Acusado pelos amigos e incitado ao mal pela esposa, ele não se afastou de Deus.

Existem muitas estórias sobre o livro de Jó. Algumas são verdades, outras são lendas, outras são invenções. Para quem nunca se situou, recomendo a leitura do livro, antes de mais nada. Ele trata basicamente de uma estória extremamente humana, onde um homem justo é açoitado pela perda de todas as suas posses, sua família e até sua saúde. No começo de tudo, entretanto, o narrador conta o final: Deus e Satanás discutem sobre os motivos da fidelidade humana ao Senhor. Satanás argumenta seguidamente que as pessoas somente são fiéis porque Deus lhes abençoa. Deus coloca como contra-exemplo seu servo Jó, e então Satanás aposta que se Jó fosse castigado, abandonaria a Deus. Essa passagem é fundamental, pois a estória não seria em nada emocionante se não soubéssemos de Deus sendo injusto com Jó! Feita a travessura, Jó é visitado por amigos ricos e poderosos de outrora, estes começam a debater entre si e com Jó o motivo de suas desventuras. Após muitos lamentos e discussões, o próprio Deus aparece, repreende a todos e restaura a fartura de Jó.

A estória é muito humana justamente porque a pobreza é algo muito fácil de se entender... Perder algo, então? Ser culpabilizado pelo próprio infortúnio? Achar-se inocente e não merecedor de uma desgraça? Poucos seres humanos não se reconheceriam aí.

ANTIGÜIDADE

A principal lenda que ronda esse livro é tratar-se do mais antigo da Bíblia. Uma parte disso é verdade, mas apenas uma parte. O livro é escrito assim: cap. 1-2 (prosa); cap. 3-40 (poesia); cap. 41-42 (prosa). Os capítulos em prosa provavelmente são do tempo de Abraão (~2000 a.C.). Já os capítulos em poesia datam do período do Exílio babilônico (600-550 a.C.).

A lenda do justo que sofre aparece em muitos textos antigos do Egito, e provavelmente era parte do folclore popular da época (a menos, é claro, que alguém argumente em favor de um bisbilhoteiro espiritual presenciando uma aposta entre Deus e Satanás). Como as línguas se  modificam ao longo do tempo (ex. Vossa mercê virando Vosmecê e depois Você), também podemos acompanhar um estilo de escrita... e o estilo do livro de Jó testemunha que se trata do hebraico mais antigo encontrado em toda Bíblia. Além disso, o livro não faz referência a sacerdotes: era o próprio Jó quem oferecia sacrifícios pelos pecados do seu clã, da mesma forma como Abraão se portava. Ele não era apenas um líder, mas um Rabi, com funções de cura, liderança e religião. Se o primeiro sacerdote instituído foi Moisés (~ 1200 a.C.), o livro de Jó certamente é anterior a ele. Para completar, não há referência a ouro e prata como riquezas. Eis como o livro descreve a fartura de Jó:

E nasceram-lhe sete filhos e três filhas. E o seu gado era de sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas; eram também muitíssimos os servos a seu serviço, de maneira que este homem era maior do que todos os do oriente. (Jó 1:2-3)

Comparemos isso com a descrição da fartura de Abraão, feita por seu emissário que foi até o pastor (ou Rabi) Labão na terra de Ur:

Eu sou o servo de Abraão. E o SENHOR abençoou muito o meu senhor, de maneira que foi engrandecido, e deu-lhe ovelhas e vacas, e prata e ouro, e servos e servas, e camelos e jumentos. E Sara, a mulher do meu senhor, deu à luz um filho a meu senhor depois da sua velhice, e ele deu-lhe tudo quanto tem. (Gênesis 24:34-36)

O servo de Abraão já menciona prata e ouro como riquezas! Dessa forma, a parte em prosa de Jó é bem mais antiga que o próprio livro de Gênesis (escrito por Moisés, se bem que contando fatos de ~8000 a.C.) e que Abraão.

A mesma antigüidade não se aplica à parte em poesia. De certa forma, essa parte representa até uma discordância de personalidade quanto ao protagonista Jó. Enquanto a prosa antiga fala de um justo que sofre calado, a poesia dá voz a Jó para chorar perante Deus e implorar pela própria morte, assim como para questioná-lo pelo que fez, e para debater ferrenhamente com seus amigos. Esse "outro Jó" não se atém mais às funções de líder ou rabi, mas trata de analisar e esmiuçar a própria situação, coisa que só se tornou comum no Velho Testamento a partir do contato com o modo Babilônico de pensar. Essa é a forma como Jeremias escreveu seu texto.

Além disso, o texto em poesia faz diversas referências aos Salmos, indicando que é posterior ao reinado de Salomão (970-930 a.C.), quando os Salmos começaram a ser ensinados no Templo:

Lembra-te de que a minha vida é como o vento; os meus olhos não tornarão a ver o bem. Os olhos dos que agora me vêem não me verão mais; os teus olhos estarão sobre mim, porém não serei mais. (Jó 7:7-8) ... Que é o homem, para que lhe dês importância e atenção, para que o examines a cada manhã e o proves a cada instante? (Jó 7:17-18)

Que é o homem, para que com ele te importes? E o filho do homem, para que com ele te preocupes? (Salmos 8:4)

Como uma correnteza, tu arrastas os homens; são breves como o sono; são como a relva que brota ao amanhecer; germina e brota pela manhã, mas, à tarde, murcha e seca. (Salmos 90:5-6)

Senhor, que é o homem para que te importes com ele, ou o filho do homem para que por ele te interesses? O homem é como um sopro; seus dias são como uma sombra passageira. (Salmos 144:3-4)

GEOGRAFIA

Um fato importante é que Jó não habitava em Israel. Esse dado é muito relevante pois faz supor que, se ele fosse um estrangeiro, não seria agrupado como "povo de Deus" pelos israelitas. No entanto, se Israel ainda não existisse... isso seria muito mais aceitável. Lembremos que Abraão também não era natural da terra de Hebron, mas de Ur dos caldeus. Ur era uma cidade da Suméria, entre os rios Tigre e Eufrates. Acredita-se que o mesmo se dê com Uz, pois é mencionado de Jó que "este homem era maior do que todos os do oriente" (Jó 1:3). Como houve forte influência do Egito sobre a formação de Israel, mas no entanto há muito pouco da cultura egípcia na cultura israelita, acredita-se que o estabelecimento de Israel deve muito aos Rabis vindos da Suméria, e talvez isso justifique a boa fixação dos israelitas quando foram deportados para as terras da Babilônia, a ponto de serem atraídos por seus deuses e cultos.

Ao sul de Israel, perto do golfo de Aqaba, ficava o reino de Edom. Dentro desse reino ficava a cidade-estado de Temã, de onde vinha um dos Rabis amigos de Jó, chamado Elifaz. Edom foi o reino fundado por Esaú, irmão de Jacó, e dessa forma aparentado com Israel. Além disso, no Gênesis Temã é nome do filho de Elifaz, o filho mais velho de Esaú (Gn 36.15). Quando a parte mais antiga do livro de Jó foi escrita, é provável que Esaú ainda nem tivesse andado por Edom, mas o reino se estruturou e, no tempo do Exílio babilônico, é possível que tanto o nome das cidades quanto os personagens da lenda tenham se baseado no Gênesis. "Elifaz, filho de Temã, de Edom" (no livro de Jó) talvez seja uma brincadeira com "Temã, filho de Elifaz, de Edom" (no Gênesis), invocando o personagem Elifaz como o mais "falador" dos rabis. Provavelmente era uma característica dos edomitas, que certamente acompanharam os hebreus em sua deportação para a Babilônia. De qualquer forma, esse Rabi chegava a Jó - de Uz - como um representante do reino do sul, para perguntar-lhe "pode alguém ser justo perante Deus?"

O segundo amigo de Jó, Bildade, era um rabi de terras mais próximas. Ele é apresentado como Bildade, de Suá. Suá era o nome de um filho de Abraão nascido de Quetura, mulher que ele desposou após a morte de Sara (Gn 25.1-2). O historiador romano Josephus de Alexandria deixou sua opinião de que Abraão havia dispersado os filhos pelo mundo, para que ficassem longe do reino de Isaque. De fato, no norte da Masopotâmia, nas terras da Síria, há registros de um reino chamado Sûchu (lê-se Suá), anterior ao império Hitita. Esse reino estendia-se a leste de Israel seguindo a planície fértil até a cabeceira do rio Eufrates. Dessa forma, Bildade provavelmente vinha de uma terra que os hebreus conheciam muito bem, da qual já haviam sido aliados e inimigos. Talvez por isso a mensagem de Bildade fosse "tem certeza de que você não carrega nenhuma culpa pelo que lhe aconteceu? Talvez um filho, ou filha...". Ele vinha acusar Jó pelos pecados de outros, já mortos!

O terceiro amigo de Jó era Zofar, de Naamat. Simplesmente não há qualquer indício de onde ficasse a cidade de Naamat. Alguns estudiosos crêem que se trate de uma cidade dentro do reino de Uz, portanto próxima a Jó, ou nas margens do deserto da Arábia. A única referência completa sobre o nome Naamat aparece no livro de Jasher, um apócrifo que conta a história dos clãs hebreus. Segundo o livro de Jasher, Naamat era o nome de um dos filhos de Buz, filho de Nahor, irmão de Abraão. Talvez se trate, assim, de uma tribo do leste aparentada com os hebreus (Jasher 22.21). Essa influência das tribos do leste se confirma com a repentina aparição de Eliú (o 4º mosqueteiro do trio), filho de Baraquel, de Buz (a tribo de Buz?). Eliú seria assim um parente próximo de Zofar. Esse personagem misterioso (que desaparece da mesma forma repentina) surge para declarar que Deus cuida zelosamente de sua Criação e, portanto, age premeditando o futuro.

O livro de Jó apresenta, portanto, a reunião de diversos ancestrais dos hebreus (daí a forte hipótese de que o livro seja contemporâneo de Abrão) em algum ponto do reino de Uz onde Jó (quem sabe mais um suposto patriarca) perdera suas terras, bens, família e a própria saúde. O livro apresenta uma fusão da antiga lenda do justo sofredor com personagens poéticos provavelmente simbólicos dos povos com os quais os hebreus conviveram no Exílio babilônico. Contada na íntegra, a estória assume a função de um ensino de valores e da descendência hebraica, ressaltando sobretudo o valor da discussão como forma de ensino entre os hebreus.

---------- NÃO DEIXE DE LER A 2ª PARTE !!! ----------

Em verdade, em verdade, podeis ler também
A linhagem hebraica
Começo de conversa - rodapé
Ivo Storniolo, Como ler o livro de Jó - o desafio da verdadeira religião, Ed. Paulus, 2008
Shuah - wikipedia
The Oldest Book - The Scroll Eaters
Teman (Edom) - wikipedia