terça-feira, 20 de outubro de 2026

Sob o signo de Jesus

 

 

suposto mapa astrológico de Jesus

Faz tempo que não escrevo, e devo agradecer essa volta, entre outras pessoas, ao bom humor de Leandro Karnal. Numa entrevista, ele se pôs a discutir com Rogério Vilela sobre o signo de Jesus. Eu dei tanta risada daquilo que dediquei um tempo ao assunto.

Antes que algum astrólogo se zangue comigo, deixo claro que isso aqui é uma brincadeira. Não sou astrólogo, não uso astrologia para nada em minha vida, não leio nem horóscopo de jornal. Mas sei um tanto de astronomia e gosto o suficiente de história para já ter explorado (como até Azimov já fez) a tradução de um sistema que não é geocêntrico (a Terra não é - mais - o centro do Universo) para uma interpretação geocêntrica dele (sempre olhamos o Universo a partir da Terra). Colocar Jesus nesse jogo pareceu divertido, interessante e depois assustador.

1º PASSO: TESTAR O SISTEMA

Como não entendo de astrologia, fiz o básico. Descrevi detalhes da minha personalidade para um software astrológico analisar e comparar com minha data, hora e local de nascimento. Ele achou compatibilidades muito boas. No dia seguinte (pensando em vícios de sistema), inseri a mesma personalidade (ctrl C + ctrl V) e os dados de nascimento do meu pai. Não somos nem um pouco parecidos, mas as compatibilidades foram ainda melhores. Acredito que meu pai seja mais eu do que eu! Outro dia e eu inseri novamente minha personalidade, com os dados de nascimento de minha esposa. Outra compatibilidade fantástica, e também não somos parecidos. Então coloquei os dados do meu cachorro e BAM! Outro igual a mim. Bastou para entender que quaisquer dados de nascimento seriam aplicáveis a qualquer pessoa. Na verdade, a pior compatibilidade com meu mapa astral era eu mesmo.

Mas eu estava usando errado a ferramenta. Ainda que de forma vaga, a astrologia associa a posição do objetos do sistema solar com um fundo de 12 constelações. O alinhamento Terra-Sol-Peixes no nascimento, por exemplo, criaria uma pessoa com responsabilidade pelo grupo¹. Terra-Sol-Áries daria preferência pela liderança. Terra-Sol-Capricórnio produziria disciplina e paciência, e assim por diante. Então seria justo tomar previsões e comparar com a personalidade, história de vida, etc, e não buscar SE existe compatibilidade. Pelo que vi, sempre há. Mas não seria essa a vez em que eu usaria um horóscopo: queria fazer Jesus usar ele. Perdão.

A literatura sobre Jesus é variada. Seria possível traçar vários 'Jesuses' dependendo de quem escreveu sobre Ele, sem contar que há fontes islâmicas reunindo materiais rejeitados no Ocidente, o que cria uma dificuldade terrível. Por isso, fiz a escolha de utilizar os evangelhos de Marcos e Lucas. Marcos traz o evangelho mais antigo e sucinto, cujos detalhes são copiados pelos demais. É quase um cronograma do que Jesus fez, como se fossem anotações num caderninho. Ou lembranças ditadas de um velho bispo em Alexandria.. Lucas, um dos escribas de Paulo, por outro lado, passeou pela Samaria recolhendo fragmentos da vida de Jesus. Lucas não viu nada do que narra, nem tampouco Paulo. Ele aprendeu de Paulo, leu materiais já circulantes, mas teve o trabalho de passar em cada cidadela para juntar estórias. Embora ruim com a materialidade, ele dá um material mais rico para a personalidade de Jesus: sonhador, compassivo, corajoso, líder, atento mais à atualidade do que aos planos ou passado, reinterpretador de tradições, homem de emoções intensas e senso de responsabilidade pelos demais. Fatos de Marcos, personalidade descrita por Lucas. Claro que o resultado poderia ser muito diferente com outras escolhas de material, mas acredito que essa opção foi bem embasada.

A análise de Lucas (segundo a astrologia) sugeria fortemente o Sol em Peixes no nascimento. A hora do nascimento torna-se importante para avaliar o Ascendente, ou constelação aparecendo no horizonte leste no momento do nascimento, que seria um filtro entre você e as outras pessoas. Terra-Sol-Peixes com ascendente Libras, por exemplo produzira alguém que se responsabiliza pela igualdade entre todos. Um ascendente Áries faria alguém com desejo por ser um bom governante. Outros detalhes estão na posição dos planetas. Júpiter indicaria ideais, Saturno indicaria apoios necessários, Marte as questões inegociáveis, a Lua suas fragilidades emocionais e assim por diante. Por isso, saber a hora exata e o local de nascimento dizem ao astrólogo como fazer um mapa psicológico seu. E as mudanças, conjunções etc durante a sua vida contariam de forma aproximada/intimista a sua história. Uma conjunção da Lua com Vênus (isso é comum, felizmente), por exemplo, indicaria episódios de significado amoroso.

Como não funcionou partir da personalidade no meu software, fui no sentido contrário. Coloquei dados de nascimento de pessoas conhecidas, pedindo 10 previsões sobre a vida de cada uma. Estavam ali atores, escritores, pessoas públicas de vida bastante conhecida para mim. Finalmente, houve previsões bem distintas. Dentre as 10 feitas para cada um, na média 8 eram corretas, 1 errada e 1 uma eu não saberia confirmar ou refutar. Entrei eu também nessa lista. Então fiquei interessado: partindo da personalidade, tudo serve. Mas, partindo do nascimento, encontrei uma incidência boa de previsões corretas, inclusive quanto aos momentos para os quais foram previstas, com no máximo 1 mês de erro!

2º PASSO - O NATAL

Como disse antes, Karnal me fez querer jogar a Jesus no colo da astrologia. Mas havia um problema: os detalhes do nascimento de Jesus são incertos, não há datas nos evangelhos e algumas referências históricas são impossíveis. Por exemplo, o Censo de Quirino (pelo qual José teria ido de Nazaré a Belém) não bate com o governo de Herodes I, que teria poder e apoio para ordenar a matança das crianças. Além disso, nenhum documento romano cita esse acontecimento, mesmo num sistema tão burocrático que podemos detalhar 2000 anos depois a composição e sucessões de seu Senado. O Evangelho mais antigo é de 40 anos após a Crucificação, de autoria de alguém que conheceu Pedro (não Jesus); o mais detalhado é de uns 80 anos depois, num período de guerras e instabilidades, quando inclusive Jerusalém havia sido devastada pelos Romanos e o evangelista nada relatou sobre isso. Hoje, há certo consenso de que Jesus teria nascido por volta de 6 a.C. e morrido num ponto comum do governo de Pôncio Pilatos e do sumo sacerdote Caifás, o que seria por 30 d.C. Jesus teria, então, pela sua morte, uns 36 anos. Junto com a imprecisão de 2 calendários sendo usados juntos - o solar, de Roma, e o lunar, dos Judeus - dá uma margem boa de aceitação.

Pedi então ao programa para criar centenas de mapas astrológicos com início em 7 a.C. até 1 a.C., com o nascimento localizado em Belém, e usei uma IA para vasculhar eles atrás de quais se adequariam melhor com os fatos narrados por Marcos (evangelho mais antigo) e os dados de personalidade fornecidos por Lucas. O alinhamento Terra-Sol-Peixes foi altamente pontuado. Dentre os que continham esse alinhamento, dois mapas foram altamente concordantes com o que foi pedido (mas nenhum em sua totalidade). Para começar, nenhum apontava uma estrela se super-destacando, mas ambos apontavam conjunções planetárias triplas que certamente chamariam a atenção durante a noite. Como se fosse uma estrela muito luminosa? Talvez. As previsões de mudança para longe de casa, religiosidade, perseguição, disputa e sofrimento se alinhavam com a vida de Jesus. Num dos dois mapas astrológicos candidatos, o nascimento de Jesus ocorreria em nov/7 a.C.; no outro, em 17/04/6 a.C. (surpreendente perto da Páscoa Judaica, de 30/mar a 02/abr desse ano). Para o primeiro, havia uma questão climática problema: nessa época, Israel é bem frio e chuvoso. Os rebanhos ficam em estábulos e isso não condiz com uma grávida viajando por aí nem pastores ao relento durante a noite. Para a 2ª data, vários fatores eram favoráveis:

1. Pastores no campo à noite (Lucas). Abril está dentro do período quente e seco, de pastoreio ao ar livre.

2. Herodes I ainda era vivo (Mateus/Lucas). Ele somente morreria em 4 a.C.

3. Personalidade de Jesus (segundo Lucas) parcialmente compatível: guiada pela misericórdia e preocupação com o coletivo.

4. Conjunção de Júpiter, Saturno e Marte de 6 a.C. alinhados com Peixes. Isso produziria um aspecto de "líder, inspirador e defensor do seu grupo". Jesus tem essa imagem, em Lucas.

O Censo de Quirino (Lucas 2:2) em 6 d.C., somente 10 anos depois, não condizia com o relato. Mas, em questões de datas, já observei que Lucas não é boa referência. João, que apresenta personagens e acontecimentos em sua maioria diferentes dos demais evangelhos, segue uma cronologia melhor que a de Lucas, por assim dizer, pelo menos indicando uma sequencia correta de estações do ano.

3º PASSO - AVALIAR QUANTO UM SISTEMA DETALHADO DE PREVISÕES PODE ESTAR CORRETO.

Sempre na incerteza, usei o software para gerar um questionário com previsões precisas a partir da minha data e local de nascimento. Claro, eu faria o mesmo com Jesus nascido em Belém em 17/04/6 a.C. O índice de acertos foi bem alto, novamente: de 10 previsões com data, 9 estavam corretas, 1 era ambígua (eu não me lembrava ou podia ser aplicado a varias situações distintas).

Aplicando finalmente essa metodologia a Jesus, fiquei com isso:

~12 anos de idade (6 d.C.)
1. Júpiter sobre Sol natal (i.e. Peixes) = ano de expansão, oportunidades, viagens, reconhecimento, otimismo.

2. Júpiter sobre Lua natal = expansão emocional, mudança de casa, gravidez, ou novo círculo social.

3. Júpiter sobre Meio do Céu = expansão profissional, promoção, novo emprego, ou reconhecimento público.

4. Júpiter sobre Ascendente = expansão pessoal, mudança de imagem, novo começo, sensação de renascimento.

Lembremos que a órbita de Júpiter é de 12 anos terrestres, mais ou menos. Por isso as repetições do nascimento. Esse parecia ser o grande ano de Jesus. O Evangelho da Infância de Tomé (apócrifo) encerra justamente a sua narrativa nesta faixa dos 12 anos, quando um Judeu deixa de ser criança, mostrando episódios de prodígios, discussões com mestres e a transição para a juventude. Ali, Jesus aparece extremamente precoce, inteligente e, por vezes, voluntarioso ou misterioso com seus poderes. Lucas (2:41-52) conta que, aos 12 anos, Jesus foi com os pais a Jerusalém para a festa da Páscoa. Nessa ocasião ele se perdeu do grupo de peregrinos e foi encontrado 3 dias depois no Templo, ensinando para os mestres da Lei. Um jovem peregrino esquecido numa cidade cheia de gente, que prefere ir ao Templo debater idéias do que se preocupar em encontrar seu grupo. Se Lucas estava certo, algo de fato aconteceu. E seria difícil pensar que os familiares dele achassem isso corriqueiro. Voltando a Nazaré, depois dessa Páscoa, Jesus seria sagrado adulto e poderia falar por si mesmo nas sinagogas. As previsões, claro, são de uma carreira profissional, não descrita nem mesmo na narrativa de Lucas.

José também desaparece da narrativa, o que nos leve a pensar que a 'evolução profissional' de Jesus talvez fosse trabalhar com o pai, ou por conta própria, fazendo obras (não apenas marcenaria) em construções.

~27–29 anos
5. Saturno sobre Lua natal (i.e. Peixes também). Reavaliação emocional. Mudança de lar, fim de ciclo familiar ou necessidade de cuidar de alguém.

Incerto. Assim como sabemos que José some das narrativas de Marcos e Lucas, seu primo João Batista, pouco mais velho, devia começar a vida como profeta em Jerusalém. Essa data pode coincidir com o afastamento do primo ou com a morte do pai, o que levaria um pobre a procurar trabalho em lugares mais distantes.

~29–30 anos
6. Saturno sobre Ascendente (i.e. Áries, segundo a narração de Mc e Lc).
Mudança na forma como se apresenta ao mundo. Nova imagem, novo papel social.

7. Saturno sobre Sol natal (i.e. Peixes, lembrando que a órbita de Saturno vale por 29,5 anos terrestres). Período de amadurecimento forçado. Responsabilidades novas, possível crise de identidade ou redefinição de propósito.

8. Saturno sobre Saturno natal. Sensação de "prestar contas" com a vida. Decisões estruturais.

Este parece ter sido o início do curto  ministério de Jesus (23 d.C.), a partir de Seu re-encontro com João Batista em Jerusalém. Nada é falado sobre Jesus antes de Seu ministério, o que significa que Ele não era uma pessoa em evidência. Havia frequentes profetas na Galiléia, Samaria e Judéia, mas Jesus não era alguém de quem se falasse. Lucas teria observado isso, se acontecesse. João, por outro lado, era alguém notado: seu enfrentamento ao rei Herodes Antipas (filho de Herodes I), a prisão e decapitação certamente mostraram a Jesus um mundo perigoso para quem se destaca. Mas talvez a ligação com o primo o tenha inspirado de alguma forma para o lado da contravenção ao sistema religioso. Jesus começa a pregar entre os pescadores do lado oeste do lago de Genesaré. Ali ele reuniu seus 12 seguidores mais próximos.

~36–38 anos
8. Saturno sobre Meio do Céu.
Reestruturação profissional. Mudança de carreira, demissão, ou reconhecimento tardio.

Jesus parece ter morrido aos 36-37 anos. Demissão e mudança de carreira seriam um eufemismos terríveis! O reconhecimento tardio ocorreria com os discípulos logo após a Ressurreição, especialmente se lembrarmos a conversão de Tomé/Dídimo (Jo 20:24–29).

~40-42 anos
9. Urano sobre Vênus natal  =
tensão em relacionamentos, término, traição, ou redefinição de valores afetivos.

10. Urano sobre Marte natal = aumento de energia, impulsividade, conflitos. Vontade de lutar por liberdade.

O Jesus de 41 anos estaria noutro plano, mas seu legado aqui em 35 d.C. devia encontrar os Cristãos se reunindo no Templo, sob a autoridade de Pedro. As traições e términos afetivos poderiam estar ligados ao movimento de perseguição do Sinédrio, em que talvez muitas comunidades tenham sido denunciadas. Vontade de lutar por liberdade está perfeitamente alinhado com a cisão inevitável do Judaísmo.

~42-45 anos
11. Urano sobre Sol natal =
vontade súbita de mudar tudo, ruptura com situação antiga, decisão impulsiva, renascimento.

12. Urano sobre Lua natal = instabilidade emocional, mudança de casa, fim de relacionamento ou necessidade de espaço.

13. Netuno sobre Sol natal = crise de identidade, sensação de dissolução, busca espiritual, confusão sobre propósito.

14. Netuno sobre Lua natal = sensibilidade extrema, sonhos vívidos, intuição forte, ou fuga da realidade.

15. Netuno sobre Vênus natal = idealização amorosa, paixão platônica, desilusão, ou entrega espiritual.

Jesus aos 42-45 anos.. Para qualquer outra pessoa, seria hilário ou assombroso pensar isso depois da morte. Mas Ele era o Filho ressuscitado, parte do Pai e do Espírito Santo imortais. Para Ele faz sentido! Renascimento é extremamente sugestivo, mas pode ser simbólico. Em 37 d.C., pouco depois da morte e Ressurreição de Jesus (bom, não sabemos quando foi essa última, mas a falta de relatos sugere pouco tempo entre ambas), o Cristianismo certamente estava se estruturando. Pedro fazia milagres. Havia discípulos como Ananias, na Síria, prontos a acolher fugitivos. Paulo estaria por volta da sua famosa viagem entre Jerusalém e Damasco/Síria, quando uma luz o cegou e Estevão estaria dando seu inflamado testemunho, que Lucas registrou. Seria esse o início do Cristianismo fora do Templo, fora de Israel inclusive, começando a separar-se do Judaísmo. Os apóstolos haviam se dividido, Tomé talvez estivesse a caminho da Índia.

"Sensibilidade extrema", "impulsividade" e "fuga da realidade" dão algo para se pensar. Profecias vãs? Estresse e paranóia? Idealismo sobre um reino de Deus que não havia se cumprido ainda? Mateus apresentou Jesus como um Messias, um ser divino que viria para derrubar Roma armado de todos os poderes celestiais. João trouxe um sábio amoroso que misturava os mundos material e espiritual, que dava significados à realidade comum. Mas nenhum Evangelho existia ainda, e Paulo estaria perto de começar a escrever sua cristologia bem greco-romana de busca pela perfeição. De qualquer forma, não havia mais o Messias curando, multiplicando alimentos, ressuscitando mortos. Não havia mais o Cristianismo de convivência diária da beira do lago, ou de andanças pela Samaria. Alguns grupos organizados principalmente por Paulo se dedicavam a compartilhar, a doar de cada um para todos os demais, mas ele mesmo perceberia que isso era difícil de manter. Os profetas tendem a ser tõ mais visíveis quanto forem exóticas as suas previsões, e não faltaram movimentos messiânicos pós-Jesus.

Desilusão? Paixão platônica? De fato, os apaixonados por Jesus só poderiam fazer isso de forma platônica. Idealizada, sem a presença real do mestre. Não deve ter sido simples para os discípulos ficarem sozinhos. Mas, como no famoso livro "When the prophecy fails"², reestruturações são possíveis. Embora se falasse de ressurreição, muitos estavam morrendo e não voltando. Talvez fosse a crise do credo, que precisaria existir e continuar, mas agora com pessoas diversas falando pelo Messias, e não mais Ele próprio. Embora a fé antiga, pé na margem do lago, estivesse fadada a morrer, surgia um proselitismo que faria o Cristianismo expandir por toda volta do Mediterrâneo em pouco menos de 200 anos. No séc. 3, já haveriam templos dedicados a Jesus, apesar de uma crescente perseguição do Estado Romano. E muitos do Estado também já se aliavam ao novo culto, que misturava em proporções variadas de Zeus, Javé, Mithra e Jesus. A entrega espiritual e os conflitos seriam inevitáveis.

~40-50 anos
16. Plutão sobre Sol natal =
transformação profunda, perda de poder, renascimento, ou confronto com sombras.

17. Plutão sobre Lua natal = crise emocional intensa, luto, fim de ciclo, ou transformação da vida familiar.

18. Plutão sobre Vênus natal = obsessão amorosa, relacionamento intenso que transforma ou destrói, ciúme, poder, paixão.

19. Plutão sobre Saturno natal = reestruturação forçada, fim de uma estrutura de vida, reconstrução a partir do zero.

Aos 45 anos de Jesus, por volta de 39-40 d.C., Paulo devia andar pela Síria elaborando seus primeiros materiais, que levaria a Pedro junto com um discípulo chamado João Marcos. Jesus não seria mais um homem andando sobre a Terra, como Pedro contava, mas uma filosofia, um ideal moral e psicológico a ser alcançado. O Jesus de Paulo não era homem, era o Cristo justo, perfeito, fonte de toda Graça.

Um tanto longe da teologia, quem lê essas previsões 'plutônicas' fica com a idéia de um Jesus derrotado, curtindo a amargura de seu fim como líder, como símbolo, e resgatado por um amor poderoso, consumidor e desafiador. Fica sinceramente difícil interpretar a partir daqui: lendo as previsões, parece que Jesus deixou a Trindade, perdeu o Reino e foi morar sozinho com sua grande paixão, que tinha poder sobre Ele. Uma alternativa (nossa única) é trazer isso aqui para baixo, como fizemos até agora. Não temos informações sobre Maria os seus irmãos de Jesus, mas sabemos que os discípulos começaram suas peregrinações. De alguma forma, assumiram missões obsessivas, de paixão e ciúme. Cristãos já então disputavam espaço com outros Cristãos por carregarem tradições diferentes, que somente seriam unificadas muito mais tarde, e não por meios tranquilos. Quanto ao fim do Reino, de tudo, não há como negar que o Cristianismo mudou. E mudaria ainda mais em 64 d.C. com Roma assumindo a perseguição tanto a Cristãos como Judeus.

A mudança nos é paradoxalmente ensinada como continuidade, mas penso que o mapa astrológico fala diferente sobre isso. Nos tempos de Jesus, havia um mestre (no sentido de 'ensinador') andando pelas comunidades pobres, de vez enquanto jantando com ricos, mas essencialmente ensinando as pessoas como fazer o que era certo. Não para serem ricas ou poderosas, nem mesmo para serem levadas ao Céu, mas porque aquilo era o que Deus esperava delas. Parecia o 'jeito bom de se viver' e ele não incluía sequer as regras judaicas, mas somente amor e fé: os conflitos de Jesus com os Fariseus eram justamente por isso. A morte de Jesus trocou essa orientação de mãos: ela foi para Pedro, talvez um dos mais brutos em sua juventude, foi para Paulo, o pensador grego, foi para líderes comunitários escondidos das autoridades, bispos, chefes nomeados pelo Estado, chefes nomeando o Estado. Desde Pedro e Paulo, as regras judaicas entraram na Igreja Cristã como se uma crença fosse a continuidade da outra (e temos a Bíblia com Velho e Novo Testamentos encadernados juntos - no caso da Protestante, com 400 anos entre um e outro), até que conviver não fosse mais possível. Não era isso que Jesus fazia. Ele não via Seu grupo como mais que Seu grupo. Não deixava de falar em Sinagogas, não deixava de ir ao Templo, não evitava pisar as terras de Gregos ou jantar com Romanos. Seu grupo não tinha fronteiras geográficas, nem de nascimento, nem de qualquer coisa exceto a capacidade de estar junto.

Por isso, talvez 39-40 d.C. representasse realmente um fim do Cristianismo-de-Jesus e o começo do Cristianismo-Religião. O fim de um grupo que seguia o mestre e o começo de algo que evolui sozinho, com muitos mestres, distanciado de resolver problemas práticos com base em 'amor e fé' para estabelecer regras que diriam quem pode estar no grupo, e sem se propor a resolver problemas reais. O grupo pelo grupo, porque Jesus mandou e disse que mandaria ao Inferno (literalmente o Hades grego) quem ficasse de fora. Podemos dizer que o medo do Inferno se tornou uma força motriz da Igreja, embora Pedro e Paulo não tivessem razões para fazer essa inclusão. Confronto com sombras!

Resta entender melhor esse amor 'plutônico', forte, ciumento, possessivo. Como disse antes, isso tudo é um exercício imaginativo. Seria tentador pensar no recomeço do Cristianismo como a formação de comunidades com regras próprias. Em suas cartas, Paulo diversas vezes repreende as comunidades fundadas por ele mesmo porque se desviaram dos ensinamentos, criaram divisões, toleraram imoralidades de pessoas com poder social, privilegiaram os mais ricos, foram exibicionistas (Corinto), professaram falsos ensinamentos e legalismos (Galácia), preguiça (Tessalônica), mentira, ira, roubos, crença em rituais purificadores (Éfeso e Colossos), regras de pureza e disputas internas (Roma e Filipos). Esse panorama mostra uma igreja inicial já dividida e certamente bem distante do 'amor e fé' de Jesus. Hoje, não duvido que uma mesma igreja, ou todas, se adequem a todas as repreensões de Paulo. Um amor pelos fiéis que é forte, mas doentio, ciumento e destruidor a ponto de que os 'desigrejados' são o grupo Cristão em crescimento mais virtuoso.

Esse exercício de ajustar uma história a uma previsão é chamado de storytelling. Basicamente, inventar uma estória convincente. Como disse no começo, as previsões de pessoas diferentes com nascimentos diferentes podem se ajustar perfeitamente, porque tentamos harmonizar duas informações distintas: uma previsão vaga (sem nomes, eventos, datas ou lugares específicos) com a biografia de alguém. Somente procurei fazer isso da forma que fosse menos fantasiosa possível, mas sempre tem fantasia envolvida. A parte assustadora disso tudo é que há boa margem de exatidão e temos previsões compatíveis com a vida do Jesus-humano, nascido em 17/04/6 a.C. (8 de 19, não são tantas assim), mas também muitas (11 de 19) que se adequam com o Jesus-Cristo, a figura idolatrada imaginária e ideal que guia a Igreja. Estaria Jesus diluído nisso tudo, depois de tanto tempo? Agora não parece tão bonito. E, não sendo previsões do Cristo mas de Jesus (se pensarmos em alguém que não está morto), o que se esperaria disso? Onde esse moço tem andado? Namorando pelo Cosmos?

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¹ A constelação de Peixes é composta, segundo descrições que remontam ao séc. 9, como um grupo de pelo menos 10 estrelas. A mais próxima delas está a 45 anos-luz (LY) do Sol, 5 estão a cerca de 100-170 LY, 3 estão a 280-350 LY e 1 está a 400 LY. São distâncias tão variáveis que não há como pensar em alguma interação gravitacional que mantenha elas todas 'agrupadas' mais do que agruparia toda a Via Láctea. Ou seja, são estrelas de grupos diferentes que, simplesmente pela imaginação dos antigos, foram juntadas na figura de dois peixes. E o peixe, sem nenhum significado fora da Terra (ou da água) tem seu simbolismo qualitativo como animal de cardume, comida, fruto da água, fartura, etc, dependendo da cultura. No Cristianismo, até ganha o significado de Ichthys (Iesous CHristos THeou), figura usada pelos Cristãos antigos como código, além de Jesus ter iniciado seu ministério junto a pescadores do lago de Genesaré (mar da Galiléia).

² "When Prophecy Fails" (1956), de Leon Festinger, Henry Riecken e Stanley Schachter. O livro conta sobre uma seita apocalíptica estadounidense liderada por Dorothy Martin, que receberia mensagens telepáticas de alienígenas do planeta "Clarion". Pelas mensagens, a Terra seria destruída por uma grande enchente precisamente em 21 de dezembro de 1954, sendo os fiéis resgatados à meia-noite por discos voadores. Nessa noite, a hora marcada passou, nenhum disco voador apareceu e o mundo não acabou. Mas, em vez de admitirem que estavam errados ou abandonarem a crença (o que geraria uma dor cognitiva insuportável por terem largado empregos e bens), os membros começaram a re-significar. Uma "nova mensagem" informou que Deus havia poupado o mundo por causa da luz e fé daquele pequeno grupo, que passou pregar e recrutar outras pessoas com muito mais intensidade. A seita se dispersou com o adoecimento e morte de sua líder, entre os anos 1980-90.

domingo, 15 de março de 2026

Exús na Cristandade

Montagem bizarra fundindo vários aspectos de Exu. Os crânios são um sinal de comunicação com os mortos. O tridente é um símbolo de poder sobre os reinos dos espíritos, material e dos deuses. As cabaças são portadoras de pós para magia. As velas ou qualquer outro fogo são sinal de sua ligação com esse elemento.

À primeira vista, falar de Exu pode parecer estranho, como falar do diabo. Eu já fiz isso. Mas esse texto deve justamente conter tal ímpeto associativo. Exu é uma das divindades africanas mais fascinantes e complexas, e sua presença atravessou o Atlântico para se instalar no imaginário religioso brasileiro — chegando até mesmo a adentrar algumas igrejas evangélicas.

Origens africanas
Exu (ou Esú) tem suas raízes entre os diversos povos, etnias e aldeias da grande cultura Yorubá, que floresceu na costa oeste da África, entre o Congo e a Guiné, entre os sécs. 8 e 18. O hábito de descalçar-se em locais sagrados, roupas rituais brancas com a cabeça coberta e até mesmo a designação "Alá" para os panos brancos sugerem que houve contato entre eles e o Islã emergente.

Cada comunidade yorubá pré-diáspora possuía suas próprias divindades que, mais tarde, no Brasil, seriam reunidas sob o nome genérico de Candomblé. Exu aparecia na maioria delas e grupos étnicos distintos e línguas diferentes. Unidos sob a escravidão no outro lado do Atlântico, eles encontraram em Exu algo em comum para adorar e temer.

Exu na mitologia yorubá
Exu é muito complexo, psicologicamente falando. Tão complexo que, como vários personagens yorubá, parece ser o resultado de uma grande fusao de seres distintos. O Cristianismo fez isso com Jesus - sim, os Evangelhos e as cartas de Paulo concordam só parcialmente - e os Judeus fizeram isso com Moisés - um profeta, guerreiro, legislador e proibido de entrar em Canaã.

Numa cultura que não polarizava bem e mal, Exu era um viajante entre os mundos, capaz de levar mensagens entre deuses e humanos.

Em algumas tradições, ele era apresentado como o discípulo mais fiel do Criador, aquele que se sentou nas estradas para cobrar pagamentos ao seu mestre, e o único que teria aprendido a criar seres vivos.

Noutras versões, sua convivência com Oxalá é bem menos amistosa: Exu prega peças no Criador e chega a duelar com Ele pelo título de orixá mais velho.

Símbolo da virilidade, Exu teria sido parceiro (os itans sagrados não usam  "esposo", emboram falem assim de outros casais) de Oyá ou Iansã, a deusa guerreira conhecida por sua força de sedução, perigo e afronta violenta aos poderes. Em certas narrativas, Exu também desafia constantemente a autoridade, mas não como guerreiro e sim de forma astuta — como o Loki nórdico. Numa história, ele barganha com Xangô sua participação no banquete da realeza, ao lado de Yemanjá e Oxalá, em troca de inhames muito apreciados pela rainha. Noutra, ele enriquece recebendo oferendas pelas perdas em sua casa, incendiada secretamente por ele mesmo.

Exu assume ainda o papel de um sábio não convencional. Ele é uma figura que surge inesperadamente nas estradas e propõe enigmas com desfechos que explicam as coisas do mundo. Se Jesus usava parábolas para descrever o Reino de Deus, Exu sempre foi um personagem das estradas, conhecido apenas pelos viajantes. Às vezes, encontrava os mesmos viajantes indo numa direção e também na outra, sugerindo sua identificação com o desconhecido — seja o futuro à frente, seja o esquecimento do que ficou para trás. Seria bobagem tentar prever os caminhos de Exu.

Exu tambem representava a verdade absoluta, como Jesus. Mas havia diferenças: Jesus se autodenominava "a verdade e a vida", mas não o vemos desmascarando ninguém; a verdade, em Jesus, parece escapar por pequenos furos nas pessoas. Em confissões, às vezes. Exu, por sua vez, escancarava as verdades ocultas. Numa história famosa, ele provoca a briga de dois camponeses discutindo a cor do seu chapéu — que era preto de um lado e vermelho do outro. Para além da provocação, Exu desnudou a violência silenciosa por trás da aparente cordialidade. A verdade, para Exu, era para ser mostrada, a despeito das consequências. E isso costuma envolver lições de humildade, o que até Jesus aprovaria. Mesmo Oxalá, em sua nobre tarefa de criar o Ayé (mundo material), foi interrompido — e em algumas versões, impedido — por uma bebedeira com vinho de palma oferecido por Exu.

Exu e os mortos
Uma das identificações mais marcantes de Exu é sua relação com os mortos, ou melhor, com as almas (eguns). No Cristianismo formal, não há paralelo direto: no Catolicismo, fala-se em relíquias sagradas. Aparições de almas abençoadas são raríssimas. Na Bíblia, há o episódio da invocação do profeta Samuel por uma feiticeira a pedido do rei Saul, e a aparição de Moisés e Elias no monte Tabor. Mas diversas tradições africanas não têm o conceito de alma como no ocidente — quando alguém morre, simplesmente termina.

No Brasil, as tradições indígenas sobre espíritos que vagueiam durante a noite fortaleceram a versão de Exu como alguém capaz de convocar as almas para realizar tarefas. Oyá, sua parceira, aprendeu essa arte com ele, mas a empregava para levar os eguns para longe do Ayé (singular casal!).

Os iorubás temiam os mortos, que eram invocados por meio de oferendas a Exu para atrapalhar, adoecer ou enlouquecer inimigos. Muitas casas na Nigéria colonial tinham imagens de Exu do lado de fora para afastar esses espíritos — imagens com búzios, dentes pontiagudos, carranca e um grande pênis ereto, o que os missionários cristãos interpretaram como culto ao diabo. Tal qual as bruxas cozinhando remédios ou hereges fazendo cultos cristãos diferenciados.

Sincretismo brasileiro
No Catolicismo, as almas permanecem um tempo entre os vivos e outro no Purgatório. Enquanto entre os vivos, algumas almas podem instruí-los; outras, por meio de orações, podem promover milagres. Muitos santos católicos tornaram-se milagreiros após a morte.

Com essa referência, Exu assumiu no Brasil um lugar de controle das almas, notoriamente para causar problemas. Assim, tornou-se a entidade capaz de promover tanto o bem (iluminando caminhos, mostrando decisões favoráveis) quanto o mal (atraindo eguns). Por isso, é procurado por quem busca vingança e por quem é atormentado. Exu pode ser aplacado com oferendas!

De forma sincrética, Exu ganhou nomes diferentes conforme sua atuação: Exu Mirim (causa pequenos acidentes, semelhante ao Saci), Exu Tiriri (justiceiro), Exu Marabô (revelação e cura), Exu Tranca-ruas (guardião), Exu Caveira (manipulação e fala com os mortos), entre outros. Não difere muito da variedade de títulos de Nossa Senhora. Embora distintos, todos esses Exus mantiveram um estereótipo básico: figura masculina, capa preta ou vermelha, aparição preferencial à meia-noite, gargalhadas barulhentas, gosto por tabaco e cachaça. O Exu mais africano prefere a corrida (ninguém o vê), sangue, vestes de caçador (faca e porrete) misturadas a adereços de adivinho (búzios) e a exibição de um grande pênis ereto — seu símbolo de virilidade.

O Catolicismo associou a Exu um aspecto diabólico, enquanto o protestantismo o transformou em espírito obsessor (elemento do Espiritismo), comum em exorcismos públicos — o "espírito imundo" que Jesus expulsou de um jovem ou do morador dos sepulcros Gadarenos.

Mas basta olhar com atenção para perceber que o Exu do Candomblé não sai possuindo corpos de qualquer um; no máximo, um sacerdote iniciado e durante uma cerimônia. Para esses, Exu é um ser do fogo, o espírito que dá movimento, que impulsiona os acontecimentos, que exige a verdade.

Exu como representante do povo
Aspectos menos discutidos de Exu vêm do lado oriental do Atlântico. Associado às estradas e ao comércio, ele seria a divindade mais pobre, destinada a trabalhar como plebeu, enquanto outros orixás são honrados como senhores ou nobres. Num conto sobre o encontro de Oxalá e Exu, este último testa o Grande Orixá fazendo-o carregar sacos imundos de sal, carvão e dendê — e Oxalá obedece, previamente instruído a não recusar. Noutro conto, Exu cultiva inhames, como os mais pobres da Nigéria, mas não oferece seu produto à realeza; outra divindade vem comprá-los, e surpreendem-se ao encontrar Exu à mesa, mostrando que ele estava longe do círculo de convidados.

Esses itans revelam talvez uma das características mais humanas de Exu: fazer parte do povo, não da nobreza. É uma ordem social reconhecível desde a antiguidade: uns trabalham, outros são honrados. Exu representa os que trabalham, que recorrem aos orixás por ajuda, cura e proteção. A proximidade gera identificação e afeição. Não por acaso, Exu é visto como mediador entre homens e orixás — há até a premissa de "Exú primeiro".

Junto a disso, no Candomblé, é comum banir Exu dos locais de culto quando o ritual não é específico para ele. Não há banimentos semelhantes para Ogum, Yemanjá ou Oxóssi. Justifica-se por um itan controverso no qual Exu atrapalha a criação do mundo em vingança por não ter recebido oferendas de Oxalá. Deus travesso e desordeiro, Exu seria um elemento de caos, atrapalhando ou ajudando conforme sua vontade e as oferendas recebidas. Sem o "suborno" a Exu, oferendas a Ogum podem virar perdas, e as de Yemanjá, conflitos. Exu acaba outra vez representando algo que os homens conhecem bem nas relações de poder: a corrupção.

Num exemplo realista: Mário e Luidge são dois encanadores que disputam um terreno na justiça. Ambos apelam a Xangô, senhor da justiça, e a Exu, que faz a comunicação. Aquele que oferecer mais a Exu — não a Xangô — tende a vencer. É uma lógica aplicada apenas a Exu, não a outros orixás.

Mesmo sua atitude rebelde, que motiva o banimento ritual, é exótica. Sim, Exu atrapalhou a criação, impôs dificuldades a Oxalá, propôs enigmas e desafiou homens. Mas Xangô é um senhor da guerra irritadiço; Oyá, deusa das tempestades, poderia ser muito mais terrível. Yemanjá levantou ondas que fizeram todos os deuses se ajoelharem, só sendo parada por Oxalá. Se Exu faz a comunicação com os homens, não deveria estar presente? Não deveria falar através das pessoas em transe? O banimento possivelmente reflete a entrada no círculo do poder: nega-se a pobreza, a sujeira e o suor do trabalho. É preciso ser dedicado, não um beberrão festivo; ter poder, não carregar sacos. Exu não cabe aí. Seu espaço é lá fora, na rua, com o povo — não no palácio. E não no espaço sagrado.

Noutro pensamento curioso, questiona-se o aspecto humanóide de Exu: enquanto os orixás discutem dentro de casa, ele fica sentado à porta devorando ratos. Noutro itan, Exu (Bará) assume um apetite insaciável e devora outras divindades. Escreveu Pierre Verger:

"Exu é um Orixá ou um ebor asá [espírito inumano, por vezes com múltiplos olhos, braços ou cabeças] de múltiplos e contraditórios aspectos, o que torna difícil defini-lo de maneira coerente. De caráter irascível, ele gosta de suscitar dissensões e disputas, de provocar acidentes e calamidades públicas e privadas. É astucioso, grosseiro, vaidoso, indecente, a tal ponto que os primeiros missionários, assustados com essas características, compararam-no ao diabo, dele fazendo o símbolo de tudo o que é maldade, perversidade, abjeção, ódio, em oposição à bondade, à pureza, à elevação e ao amor de Deus. Entretanto, Exu possui o seu lado bom e, se é tratado com consideração, reage favoravelmente, mostrando-se serviçal e prestativo."

Há poucas referências yorubá a seres não humanóides. Yroco, a divindade-árvore; as Ya-mi ou feiticeiras da floresta, que eram parte humanas e parte aves; a família de Oxóssi, caçador das matas (ele teria vindo ao Ayé antes dos demais Orixás, antes de os homens serem feiros, junto com sua família). Sobre Exu, fala-se de ele ter uma lâmina na cabeça, que esconde com a trança.

Exu vs. Diabo cristão
Aqui, caimos em um tema recorrente de blogs e sites. Desviei desse tema repetitivo, deixando para o final, mas ele é inevitável.

A condição mais interessante de Exu talvez apareça nos países que foram  cristianizados entre os séculos XVI e XIX, como o Brasil. Aqui, assim como na África, Exu foi associado a algo libertário que não cabia nos moldes cristãos tradicionais. Sua sensualidade e agressividade, comparadas à castidade e ao "espírito acima da carne" pregados por Santo Agostinho, colocaram-no na categoria de representante de Satanás — justificativa para a colonização e submissão dos povos iorubás. Cultuar Exu era cultuar o Diabo Cristão.

Esse pareamento teve apoio. Para os conquistadores, justificava que a Igreja se afastasse dos escravizados. Não eram filhos de Deus. Para os que sofriam ou resistiam à colonização, era um modo de manter os brancos longe dos Orixás. Dificilmente um branco se aventuraria num terreiro com "diabos" na entrada. Isso não impedia ações policiais, mas afastava curiosos.

Muitas manifestações de Exu até ganharam ares "cristãos", com certos Exus se declarando "fulano do inferno" ou Pombogiras (Exus femininos) chamadas em cantigas de "mulher de Satanás". Obviamente, não faz sentido diabolizar Exu, já que não há paralelo real entre a cosmogonia yorubá e o Cristianismo.

Vertentes sincréticas chegam a representar Oxalá como um Jesus de braços abertos (sem a cruz) e Exus como diabinhos. No Pentecostalismo, Exu é "convidado frequente" em cultos, como possessão maligna a ser expulsa para validar o poder do pastor. É uma abordagem utilitarista, que reúne fiéis apresentando uma divindade rival como demônio. Na Europa, onde as religiões Afro são pouco significativas, o demônio usual dos cultos Pentecostais é Maomé ou o Alcorão.

O Jesus dos Evangelhos só esteve frente a frente com o diabo no deserto, e apenas na versão de Lucas. O diabo não aparece tentando pessoas no dia a dia, muito menos fazendo travessuras malévolas que possam ser evitadas com oferendas. Não é um convocador de espíritos nem guardião de lugares de culto. Simplesmente, diabo e Exu não são iguais, assim como Jesus e Oxalá não são. Não há entre Exu e Oxalá uma disputa pelos corações dos homens.

Exu permanece, em sua essência, o mensageiro entre mundos, o guardião das encruzilhadas, o senhor das possibilidades — tão humano quanto divino, tão temido quanto respeitado, e definitivamente muito mais complexo do que qualquer redução maniqueísta pode capturar.

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Ele esqueceu de ler
PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. Companhia das Letras, 2020.
VERGER, Pierre et al. Lendas africanas dos orixás. Corrupio, 1985.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Santo Antônio dos Exús

_ Trouxe pão. Você tem uma toalha?

    Existem sincretismos que fazem a gente pensar. Lá nos sécs. 18 e 19, quando não se sabia do Brasil que tinha a maior quantidade de pessoas escravizadas de todo o mundo, os Yorubás, Bantus, Malis e seus descendentes por aqui eram obrigados a disfarçar seus cultos em santos Católicos. Isso funcionava dos dois lados: os negros colocavam imagens Católicas nos locais de culto dos Orixás e Voduns, e atraíram brancos para suas práticas culturais. De outro vento, os religiosos Católicos usavam os santos bem quistos para converter negros; os mais ousados até camuflavam grupos afro contra a repressão escravagista.
 
    No imaginário Católico, um santo é alguém "tocado por Deus", homem ou mulher que passou para outro estágio da existência, capaz então de subjugar coisas mundanas como fome, doenças, dor ou morte. O santo pode. São Sebastião já morto curava cidades inteiras afligidas pela peste. Estar perto de um santo significa estar sob proteção, com suas circunstâncias de vida influenciadas por seu poder e a bênção divina. Algumas pessoas foram batizadas quando pequenos em nome de um santo, talvez com o nome dele, para estarem sempre protegidos. Muitas vezes, porém, aproximar-se do santo requereu algum sacrifício ou prova de fé, retribuídos sempre "em alta conta" pelo poder celestial.
 
    No lado Yorubá, o Orixá também é um ser espiritual, uma força da natureza com características muito humanas como sensibilidade a sabores, estética de roupas e músicas. Iansã é briguenta, senhora das tempestades, gosta de acarajé e vermelho. Estar próximo a um Orixá significa estar protegido por ele, mas também governado por suas preferências e, dependendo da tradição, incumbido de fornecer temporariamente seu corpo para que ele se manifeste fisicamente. Algumas pessoas nasceram destinadas a um Orixá, outras se aproximam deles mediante sacrifícios ou provas de fé, a serem pagos largamente pelos favores da entidade (para sua comunidade, não necessariamente para o indivíduo).
 
    Para obter os favores de Maria, mãe de Jesus inclusive no Alcorão, muitas casas ainda têm pequenos oratórios dentro ou fora da residência, que ficam iluminados à noite. Foram levantadas muitas igrejas "Notre Damme" ou Nossa Senhora de algum lugar. Na história do Brasil, o próprio movimento de independência foi abençoado pelo santuário de Nossa Senhora Aparecida, que daria proteção aos revolucionários. Por isso, Ela hoje tem o cargo de padroeira (não seria Madrinha?) do país. Padroeira significa protetora. E os nomes José, Maria, Marcos, Lucas, Paulo, Daniel, Paulo, etc sempre estiveram acima dos Enzos nas contagens do IBGE. Não só aqui, mas em todos os países de tradição Católica onde nasceram crianças dedicadas aos santos, para que sua vida tivesse algo a ver com eles e recebessem, do outro lado, a Sua proteção. Nos locais mais tradicionais, são feitos jejuns e festas dedicadas a tais seres que agem em nome de Deus enquanto vivos e/ou após a morte. Falaremos um pouco da festa de Santo Antônio.
 
    Essa festa, curiosamente, coincide com a festa de Exú no Candomblé. Sim, aquele Exú que as igrejas muitas vezes chamam por diabo. Não é legal essa associação. Nem é fácil buscar por Exú numa IA da vida sem receber isso. o Exú-diabo vem de missionários bem Cristãos que guiavam os caçadores de escravos em suas empreitadas na antiga Oyó. Se alguma entidade era invocada contra os caçadores (e os padres junto), devia ser um demônio. Exú era esse ser. O Candomblé brasileiro nunca existiu na África, ele nasceu da reunião de crenças monoteístas diferentes, buscando enquanto escravizados, do outro lado do Atlântico, o que podiam ter em comum. E nenhum deles tinha um diabo! Mas diversas tradições tinham uma espécie de Loki, ou deus travesso da noite, que inoportunamente se diverte com pequenas desgraças alheias. Esse Exú mais abrasileirado, talvez filho do Exú africano com os espíritos indígenas, sem dúvida poderia ser o Saci. Ambos têm seu lugar até hoje na mitologia sertaneja. Mas não é o Saci que se reverencia nos terreiros, e sim alguém que estranhamente é deixado do lado de fora das reuniões, como uma espécie de segurança. Não faltam canções sobre Exú na porteira ou na entrada da Kalunga (nõ a rede de papelarias, mas o espaço onde andam os espíritos).

    Louvam Exú, mas têm medo de Exú. Se você encontrar oferendas de Candomblé numa cidade, dentre todos os Orixás a quem se cultua, há boa chance de ser algo para conseguir os favores de Exú ou de sua versão feminina, a Pombogira. Exú é pop. Nas encruzilhadas, o "povo de santo" deixa bebidas (cachaça para Exú, champagne para Pombogira), velas pretas ou vermelhas, charutos ou cigarros, pimentas, farofa com dendê, talvez uma galinha preta (já vi frango, de cor indecifrável depois de assado) e enfeites vermelhos. Imagine se Santo Antônio, no seu dia de finalmente escapar do copo ou vaso onde o colocaram em tortura de cabeça para baixo dentro da água, tropeçasse em algo assim! Se você tropeçar também, não se assuste. Exú se agracia das oferendas e de respeito, mas não é bicho que morde.

    Já Santo Antônio, esse português que nasceu chamado Fernando, era um homem do séc. 13. Isso significa que ele viu camponeses e também cidades surgindo ao redor das antigos fortalezas de pedra, onde trabalhavam alfaiates, ferreiros, padeiros, contadores, banqueiros, etc. Para ter alguma prosperidade, você precisava nascer nobre, se meter em guerras como soldado para conquistar territórios, ou entrar para a Igreja. Nosso Fernando conseguiu ser aceito para os Agostinianos, monges que pegavam o afastamento de todos os prazeres carnais. Depois ele mudou para o bando dos Franciscanos, que pregavam a humildade e pobreza. Quando renunciou a sua identidade e tudo mais, ganhou o nome de Antônio. Foi na terra de São Francisco (Itália!) que ele pregou, confrontou e pacificou "hereges" como os Muçulmanos, que tinham reinos no sul da Espanha e Portugal. Sua última morada foi Pádua, onde se tornou confessor e as pessoas por ali começaram a anunciar visões do Céu após contarem seus pecados a ele. Morreu doente, Deus já o tem, mas os milagres continuaram a ser relatados. Em alguns anos, sua tumba virou local dos peregrinos Católicos.

    Pra variar muito dentro do Catolicismo, parece que Santo Antônio foi mais ativo morto do que vivo. A famosa Legenda Aurea, um livro antigo pouco popular que conta as histórias de santos mais antigos ainda, diz que ele "vendeu todos os seus bens, distribuiu-os aos pobres e levou uma vida eremítica. Teve, por isso, de suportar incontáveis tormentos da parte dos demônios". Ele teria falado a Jesus: "Onde você estava, bom Jesus? Onde estava? Por que não estava aqui desde o começo para me socorrer e curar minhas feridas?". Nesse livro, as façanhas Cristãs de Santo Antônio foram muitas. Viagens por desertos (portugueses, espanhóis ou italianos?), pratos de prata enfeitiçados, recomendações sobre "monges que ficam fora da sua cela" e "perdem a resolução que tomaram de viver em retiro", tentações que "vêm da natureza", do excesso de alimento, ou demônio. Ele seria um fervoroso um adepto do "Ore et laborum" beneditino, "Orar e trabalhar", que supostamente combatia os Arianos, que viveram muito antes dele. Só para dar uma idéia de que escreveram o que quiseram do amigo Antônio.
 
    Cá no Brasil, as estórias sobre Santo Antônio chegaram com os portugueses. Ajudador dos pobres, ele ficou associado à doação de pães (algo que um monge franciscano certamente faria). Vide Júlio Lancelotti. Ele até aparece retratado com montanhas de pães. Diz-se que ele ajudava moças da Itália a reunir dotes para seu casamento. Até ganhou fama uma estória onde certa moça achou o amor de sua vida ao atirar a imagem do santo pela janela e atingir um estranho que passava. Haha.

    As fogueiras eram uma tradição do verão pastoril italiano (e no Brasil é inverno, então está tudo certo) para retirar os carrapatos das cabras. Olha Antônio aí. Também era época boa para casamentos, com as noites quentes, os rebanhos grandes e os animais gordos. Nessa felicidade toda, Exú também poderia aprontar as suas... Se passou lá, não sei. Apenas aconteceu de ele (o santo) morrer numa época quente e de dias longos, e sua tumba ser frequentada. Lugar santo. Nada estranho para a época. Bem para o sul da Itália e do outro lado do mar, os Yorubrasileiros viam os dias diminuindo, até chegarem ao mínimo por volta de 23/junho. Era a estação mais seca do ano, quando o gado passava sede, as lavouras minguavam e o mato às vezes pegava fogo. Nada estranho atribuir a data a uma entidade do fogo e dos mortos, que ficava mais forte com as noites longas.. Exú! Aquele que anda entre os mundos, que leva os pedidos dos homens aos Orixás, que se coloca nas encruzilhadas para colher os pagamentos aos Orixás. Lá na antiga Oyó, hoje Nigéria, os praticantes da religião ancestral que sobraram celebram o dia de Exú em 24 de Dezembro, sua época mais seca do ano e também um equinócio, mas de verão. Calor pegando em época sem ar-condicionado, por aqui, o culto de Exú tropeçou em Santo Antônio.

    Fogueira daqui, era para o santo. Fogueira de lá, era de Exú. A interpretação dependia de quem fazia e de quem via. Se ninguém dissesse, quem saberia? Missa aqui, terreiro acolá, e o Exú precisava ficar escondido da polícia. Se pegasse, quebrava, batia, matava. Embaixo da mesa, às vezes tinha um Santo Antônio para ir para cima, e Exú para baixo, quando a polícia chegava. Se o lugar era aberto, Santo Antônio ficava lá direto. Até recebia as oferendas de Exú, pois era época de distribuir comida. Pães para o santo, farofa com dendê e pimenta para o orixá. Um que andava entre os mundos e outro que se metia entre os povos, arrumando uma forma de ajudar. Os pedidos para Exú costumam ser de orientação a respeito de questões difíceis, para o que os seres de outro mundo eram convocados. Nada mais cabível e compartilhável com um santo famoso pelas visões celestiais.

    Essa mistura que não é só o Brasil quem faz, mas todos os países latinos e inclusive os africanos (que receberam, alguma hora, um certo Santo Antônio). Os dias se coincidiram os santos se encontraram. Enquanto uns faziam homenagens para Exú, outros faziam para Antônio. Bem parecidas. Ambos de noite, com fogo e oferendas. Uns para receber conselhos nos sonhos e ter virilidade, outros para ver os céus em sonhos, ou se casar. Nalgum canto, na grande terra de mestiços que Dr. Guevara falava, penso que podem estar dando boas risadas disso.

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Tem pouca coisa mesmo

Dia de todos os santos - Educa Mais Brasil, 07/03/19.
 
Exu e Santo Antonio - O sincretismo, Diário da Região, 10/06/25
 
Legenda Aurea, Jacopo de Varazze. 
 
São Sebastião e Oxóssi no nordeste, lougecuiaba.blogspot.br, 09/06/24.
 
Santo Antônio, vaticannews.va, 06/2018.

quinta-feira, 27 de março de 2025

Cultura Woke

Antes que me processem, essa imagem é de autoria de Michael Junkroski e foi retirada da sua postagem "Woke Like Jesus". Adulterei ela para não deixar isso óbvio. Um parágrafo que gostei muito no texto foi "Acho que Jesus é uma lição sobre acordar e responder às injustiças do mundo. Ele nos arranca da visão nebulosa causada pelo sono em nossas vidas e nos empurra para um estado mais elevado, um no qual estamos dolorosamente cientes das diferenças de privilégio e compelidos a não reequilibrar o sistema, mas a inclinar a balança em favor dos pobres e desprivilegiados."

Cultura woke é o nome dado por Reacionários a uma suposta predominância de aporte a ideologias de minorias. Na prática, significa patrocinar mídia com temática antirracista, feminista e pró-LGBT ao invés de outros temas. Os "Wokes" seriam pessoas "acordadas", capazes de ver a manipulação a que estão sujeitas (por parte da cultura, da economia, do governo - é a ideia de um inimigo difuso na classe superior). Os Reacionários são pessoas desagradadas com os Wokes, engajadas em calar ou eliminar eles. Via homicídio, se necessário.

    A primeira questão, indo no sentido contrário, é sobre esse inimigo que não é uma pessoa. Ele existe? Estamos sendo traídos pelo governo? Pelos mais ricos? Pelas potências estrangeiras? Eu não sei se o nome "traído" se aplica aqui, porque em geral a sociedade gira ao redor de consumo, oferta de salários e ensino. Não há promessas (ok, toda propaganda é uma promessa), e sim produtos à venda.

    No caso de consumo cultural, é mais ou menos opcional consumir o que te é oferecido. Existem livros, existe a internet, existem atividades que não são controladas (no Brasil). Fazer o que todos fazem "porque todos fazem isso" é muito mentalidade de rebanho..

    No caso de consumo de produtos físicos (alimentos, aparelhos, etc), sim, estamos nas mãos de uma classe privilegiada. Isso desde o séc. 17 pelo menos. A "cultura Woke", aqui, deveria incentivar o consumo a partir de pequenos produtores, o que muitas vezes acontece. Mas nem sempre. Os pequenos produtores, inclusive, costumam estabilizar a economia nacional porque geram muito mais empregos/R$ lucrado que as grandes empresas. Não é simples para os mais pobres optar coisa alguma, geralmente buscam apenas o que é possível (e as grandes empresas oferecem produtos mais baratos, com muito menos gente sendo empregada para gerar eles). Mas existe uma parcela da população que tem essa possibilidade de optar quanto ao que consumir. Claro, isso faz conta de uma faixa de renda que vai descendo desde "os mais abastados" até certo ponto da "classe média". Em outras palavras, quanto ao consumo, não há Wokes pobres. Não tem como haver, por uma questão de sobrevivência. De certa forma, a "cultura Woke" depende da parte superior do Sistema Capitalista. Relacionemos isso, no meio religiosos, como MISERICÓRDIAdos ricosquanto as pobres.

    No caso da oferta de salários, de novo estamos, sim, mas mãos de quem tem o capital e comanda o Estado. Não tem muita saída a não ser favorecer políticos que estabeleçam regras protecionistas ao trabalhador. Se esses trabalhadores são  majoritariamente pretos, pobres, indígenas, etc depende de uma análise populacional e também de um acordo empresarial sobre "a quem interessa proteger". Essas pessoas precisarão ser pagas e não vai ser o Estado a lhes sustentar. Dentro da mentalidade Woke, importa proteger as minorias. Dentro da mentalidade empresarial, importa pagar quem consome. Em se tratando de minorias, elas vão ser importantes para a economia quando consumirem produtos diferenciados. Não antes. Então o argumento Woke, embora bem humano, fica enfraquecido na sua aplicabilidade. 

    No caso de ensino, chegamos a um ponto complicado. Não há ensino integral, onde tudo seja ensinado aos jovens. E muito do que é aprendido, não é aprendido na escola: há um ensino cultural doméstico, há um ensino cultural das comunidades onde o jovem se apresenta, há um ensino das redes sociais (não as chamo de comunidades), há um ensino encolhido pela própria pessoa. Todos  eles carregam vieses. Mas nem todos são passíveis de regras. A escola é. Ali, o ensino útil às classes mais pobres é a de ideologias de esquerda, destinadas a semear a guerra por direitos. A mentalidade Woke cabe bem nesses locais. Já o ensino útil às classes mais altas é anti-Woke, no sentido de adquirir conhecimentos técnicos necessários a ter postos de trabalho mais altos - que serão proporcionados ou financiados aqui e ali por seus pais. Lutar por direitos indígenas ou equidade racial se torna absoluta perda de tempo, quando você só precisa de um diploma para assumir a vice-presidência da empresa da família, ou para abrir seu próprio escritório em sociedade com o tio milionário. Essa diferença faz pensar em escolas-de-esquerda e escolas-de-direita. Entre as particulares, estão as de direita. Entre as estaduais, tudo muda dependendo de quem está no poder, fazendo um campo de guerra entre aqueles que eram o poder antes e os que são o poder agora. O nome Woke vem daí, de uma forma pejorativa atribuído para os defensores de minorias por aqueles que estão ganhando o poder agora.

    Existe um poder dos mais ricos contra o qual seria justo lutar? Se considerarmos que as famílias mais politicamente poderosas do Nordeste brasileiro são aparentadas com os donos das Capitanias Hereditárias do séc. 16, que financiavam a Coroa Portuguesa, esse poder está posto aqui, no Brasil. Mas ele é disputado, claro, com sobrenomes que "ascenderam" ao longo da história. Trata-se, essencialmente, de uma política controlada pelos mais ricos e que satisfaz os seus interesses. Leis trabalhistas, educação e saúde pública foram implementações DO ESTADO na medida em que se apostou em aumentar o consumo e a eficiência da mão de obra local. E sim, isso sempre funcionou a longo prazo; a curto prazo é dinheiro que poderia ser investido em benefícios agrícolas. E por isso, nem faz sentido falar em Wokes aqui: temos, na verdade, um poder político dividido entre os ricos industriais e os ricos rurais, com flutuações de acordo com o mercado mundial. Na época de expandir a agricultura, investiu-se em estradas. Na época de implementar indústrias, investiu-se em educação básica e vacinação geral. 

    Mas sim, os Wokes estão fazendo seu barulho em prol de políticas para inclusão, equidade, etc. E serão atendidos na medida em que os ricos industriais enxergarem neles um mercado consumidor. Atuações como o Black Money, Pink Money, etc têm talvez mais poderio sobre as decisões políticas dos industriais do que os sindicatos. Talvez estejamos apenas na época do Woke Money sem ter percebido isso, e daí valorizar essa cultura de apoio às minorias ou declarar guerra aberta a tudo o que eles defendem (vide Bolsonaro, Milei, Trump, Orban, etc) vai do novo fortalecimento de um "poder agrícola". Como representantes de um poder econômico derivado da exploração pura e simples de mão de obra para obter os produtos que exportam do país, os empresários/políticos dessa ala têm muitos motivos para defender trabalho escravo, fim de leis trabalhistas e privatização de todos os serviços (povo = lucro a obter). Isso ganha força com recentes movimentos Neofacistas, de supremacia e extermínio das minorias, de forma bem chamativa ocorrendo em países com tradição agropecuária, numa época em que o Leste Asiático desponta como pólo industrial.

    Somos apenas fornecedores de matéria-prima e mão-de-obra sacrificada para esse Novo Mundo. As lutas que  travamos aqui interessam bem pouco nesse cenário: pretos, pobres, indígenas, florestas, rios e jazidas são todos BENS NECESSITANDO DE COMPRADOR. Itens de extrativismo à venda. E os donos dos governos estão fazendo seus negócios. A "cultura Woke", pretendendo mostrar extermínios e maus tratos, não é somente indesejada nesse novo sistema. Ela é desprezível, porque FAZ O PRODUTO À VENDA PARECER FEIO. Quem quer consumir produtos associados à escravização de pessoas, ou à destruição de florestas milenares? Há de se empregar toda mídia comprável em desqualificar esse tipo de visão, de discussão, de abordagem da sociedade. Wokes devem ser calados. Wokes devem ser eliminados. A la Velho Oeste, vivos-ou-mortos.

OS INCOMODADOS

    Um ponto bastante curioso é: a quem a cultura Woke incomoda? Quero dizer, a quem desagrada dar visibilidade aos problemas dos LGBTs, negros, feministas, deficientes, etc? Já vimos que eles são um setor consumidor, e produzir para esse público pode ser um mercado rentável. No entanto, há críticas numerosas contra as abordagens voltadas a eles. Teria desaparecido a cultura não-Woke? Isso é, teria acabado a possibilidade de produzir livros, novelas, séries, quadrinhos, pinturas, matérias de jornais e revistas sem uma abordagem Woke? Se falamos de uma minoria Woke, isso nem faz sentido. Não poderiam conduzir o mercado. Se falamos em uma maioria Woke, há um público consumidor. Falar contra ele é basicamente reclamar de ser uma minoria não atendida pela cultura. O que colocaria os não-Woke como parte dos Woke (rindo sim). Mas os reclamantes existem, declaram-se vítimas de um sistema governamental que não lhes dá voz, um inimigo econômico-cultural coletivo que os priva de visibilidade. Nada mais Woke!

    A visibilidade que se pretende aqui é das pessoas anti-LGBT, anti-negros, anti-mulheres, anti-indígenas, etc. Chamamos estes de grupo de Reacionários, porque sempre se manifestam em oposição a alguém. Estamos falando de pessoas cuja atuação social se direciona a retirar direitos de outras pessoas. Por exemplo, retirar um banheiro destinado a pessoas Trans. Retirar uma cota em concurso público destinada a Indígenas. E vai.. Em suma, manter todas as desigualdades que até mesmo o Sistema Legislativo reconheceu e está trabalhando para consertar. Não sem mérito, trata-se de pessoas autodenomidadas conservadores. A quem interessa manter as desigualdades? Às minorias oprimidas não é.

    Às maiorias oprimidas, fica a questão de se entender como explorado ou embarcar na ONDA COACH de se comportar como explorador para "enganar o universo" e Ele te transformar magicamente em rico empresário. Na época da Escravidão, funcionava com os Capatazes ou Feitores (nenhum deles jamais deixou a condição de escravo), recrutados para oprimir seus iguais e, assim, ser superior.

CADÊ O JESUS?

    Até aqui, talvez o leitor já esteja se perguntando onde foi parar o Cristianismo. Lá no seu tempo de 2000 anos atrás, mais ou menos, Jesus se propunha justamente a "acordar" as pessoas. Não a respeito da dominação Romana (há quem fale que Roma promoveu o Cristianismo de um culto agrícola para a metrópole do mundo antigo), mas falando exatamente contra a religião ritual, institucionalizada, ditada por alguém poderoso. E que dava pouco ou nenhum valor à solidariedade / horizontalidade entre os fiéis. Na condição de um suposto profeta, Jesus era sim um Woke do seu tempo: alguém preocupado com questões como pobreza, fome, doenças, santificação por política (como os Saduceus e Fariseus que compunham a elite Judaica) e a crença de que as pessoas não podem se ajudar. Jesus virava a mesa - literalmente - para dizer que elas tinham o dever de se ajudar. Podemos inclusive voltar à pergunta lá de cima: a quem Jesus e seus seguidores Wokes incomodavam?

    Não eram os Romanos, ainda. Os Cristãos só viraram alvo de Roma após o grande incêndio de 64 d.C. e as revoltas contra o Império nessa mesma época - Jesus é de 40 anos antes. Quem apresentou queixas contra Jesus? Quem mandou Saulo / Paulo de Tarso em perseguição aos Cristãos 20 anos antes? Foram os líderes religiosos da Judéia, em geral com as costas quentes por meio de Roma. Eles eram militaristas, os protetores da moralidade, da ordem, dos bons costumes, da dependência das pessoas quanto às regras ditadas pelo Templo. Isso incluía recrutarem populares para fazer negócios na entrada do espaço sagrado (para a economia não quebrar) ou apedrejar outro popular até a morte. Dá para perceber uma semelhança com os Reacionários, ofendidos mortalmente pela valorização de minorias subjugadas pela Sociedade.

ABSURDUM EST

    Seria completamente absurdo pensar que um carpinteiro pobre de Nazaré, batizado por um revolucionário vestido em peles da beira do Jordão, merecesse mais atenção do que um douto. Um Saduceu versadom pormenores da lei, educado por anos juntoa mestres famosos, frequentador da elite local Romana, descendente das famílias que guardaram o Templo durante a invasão Grega em 300 a.C. A quem cabe a MISERICÓRDIA? Como ficaria a meritocracia?

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Prefira "ser Woke" a ter que ler isso:

Junkroski, M. "Woke like Jesus", postagem em Medium.com,  02/jan/2023.
Loungecba.blogspot.com, "Século 1 - 1ª parte", 28/mai/2016.
Loungecba.blogspot.com, "Os dois lados de uma Cleópatra", 29/jun/2018.
Vacari Neto, N. et al. "Desvendando o Pink money para empreendedores". International Journal of Scientific Management and Tourism, v. 10, n. 6, p. e1211-e1211, 2024.

sexta-feira, 7 de março de 2025

CARNAVALESCO MAN

Bob

Para começar, o título é uma homenagem ao extinto programa Casseta & Planeta, dos anos 1990. Ele (o título) se explica pela referência explícita ao Carnaval, ou talvez a um super-herói questionável que espalhava o Carnaval por onde passava, com raios de purpurina e gritinhos. Mas estamos aqui para conectar o Carnaval brasileiro ao Cristianismo. Mais especificamente, a idéia é falar sobre Evangelho, "a boa notícia". Sim, parece sempre muito estranho que chamemos de Evangelhos a 4 textos (Marcos, Mateus, Lucas, João, nessa ordem cronológica) que contam, de modo narrativo (e diverso) a vida e morte de Jesus. Não a trajetória do Jesus Messias de Paulo, quem escreve a maioria dos outros textos do Novo Testamento, mas o Jesus humano, nazareno, pobre, mortal, raivoso, sofrido, traído, duvidado. Marcos é a base, supostamente reproduzindo as falas de um Pedro velho, que ele [Marcos] anotou. Mateus é o sonho. Lucas é a pesquisa, aquilo que o povo fala. João é o outro lado da história. E tudo isso trazido aqui, com a temática do Carnaval. Que pedante!

Calma lá, leitor. Vou só tentar te convencer que o Carnaval é uma festa Cristã do Bob Espoja. Pepepeperaí...

Esse texto deve ser sua 6ª versão. Ou outra, não faz mal. Ele surgiu da idéia (talvez absurda, e aí os muitos apagamentos têm algo a testemunhar) de discutir o Carnaval enquanto uma grande salada de crenças. Algumas Cristãs! Salada porque essas crenças são diversas como queijo, rúcula, limão e tomates; e porque nos chegam juntas, na melhor das intenções, mas nem sempre de forma boa. Olha só..

No Carnaval, eu identifico pelo menos 3 tribos tomando seus rumos: vou chamar elas de foliões ou Bob Esponjas (a não analogia é difícil para os fãs do desenho), querendo fazer o que der na telha, com suas purpurinas, batuques, trombones, etc; os Lula Moluscos, que só querem ficar em casa maratonando seriados, talvez; e os Crentes ou Siriguejos, que se reúnem para orar, jejuar, enfim fazer o contra dos Bob Esponjas. A analogia com o desenho parece instrutiva. Se você nunca viu, está perdendo. E a questão aqui é justamente O QUE O CARNAVAL CULTUA?

A resposta mais óbvia, penso eu, é que são as pessoas quem cultuam. Não é a data em si, nem as folias, mas as pessoas. E por isso as reparti em três bandos ou personagens. Os nomes do famoso desenho infantil vieram como forma de caracterizar os personagens carnavalescos. Copiei de um podcast que me fez rir muito. Bob Esponja é um rapaz (esponja do fundo do mar, mas é a cara dessas de lavar louça) que trabalha numa lanchonete, metido em um terninho. Ele faz tudo lá, na verdade é só ele quem sabe as receitas. Ganha quase nada e está sempre rindo da vida, das pessoas, até do próprio pé. Lula Molusco é outro funcionário (uma lula), vizinho do Bob no trabalho e na moradia, que tem aquele bom humor de tia velha da repartição pública combinado com diretora de escola em TPM. Em casa, sozinho, ele fica feliz. Desde que o Bob não apareça. E finalmente, Siriguejo é o dono da lanchonete (ele é um caranguejo), o capitalista que tenta lucrar com tudo, grita o tempo todo, demite todos umas 2 vezes por dia, possui de tudo e evita se misturar com a plebe, especialmente se ninguém pagar por isso.

No bloco dos Bobs, os seguidores de Paulo colocariam a placa "um culto da carne", ou simplesmente "dos prazeres". Dá para entender que aqui está o pessoal com chapéus engraçados, purpurinas, confetes, que segue os trios ou faz suas festinhas regadas a muita bagunça. A idéia original do Carnaval lá na Antiguidade era essa, de dar uns dias ao povo para se divertir independentemente da lei. Vale dizer que a lei Romana era imposta a muitos povos não-Romanos. O Carnaval era exatamente uma folga-de-Roma, inclusive para os Romanos. Cultuar a liberdade nesses dias era e é certamente compreensível, diria qualquer dirigente do Império. Não mudou muito.

Mas eu quero explorar isso. E fora da denominação de Paulo, que seguia o Platonismo grego, ou seja, o Espírito (intelecto) e a Carne (corpo) como inimigos entre si. Eu jamais conheci um corpo sem espírito (que fosse vivo) ou um espírito sem corpo (que também fosse vivo), por isso acho a idéia bizarra. Não estou sozinho nessa opinião.

O culto do prazer, por mais estranho que pareça, é corporal (de beber, dançar, beijar, abraçar, ser igual aos outros) e também espiritual (de ter prazer ao beber, de ter prazer ao beijar, de ter prazer ao abraçar, de ter prazer em ser mais um). Basicamente, ter prazer. Nosso cérebro carnal é preparado para escolher comidas e bebidas por prazer, e estar vivo enquanto você faz as muitas coisas que faz. E o cérebro espiritual (seja lá o que isso for, mas você entendeu a idéia) está amalgamado, misturado na coisa carnal. Diriam vários filósofos: é necessário ter prazer no que se está fazendo. Supostamente fomos feito com essa diretriz .. pelo Criador. Mas "ter prazer" se tornou algo ruim, pelo viés Platonista. Esse tema é complexo.

Há prazer em comer, há prazer na cerveja com os amigos, mas também na música. Há prazer em dormir. Há prazer em estar com seus filhos, e com seus pais. Há prazer em ver a arte nas igrejas Cristãs, e também em dançar para Orixás ou para as forças da Natureza. Há prazer em plantar, em colher e em ajudar um amigo. Há prazer em não fazer nada. Acredito que Jesus falava sobre isso quando contou do Bom Samaritano, que ajudava sem nada receber (além de prazer). Há prazer em desafiar as autoridades, e todo adolescente conhece isso. Jesus e todos os mártires também desafiaram autoridades. Há prazer em pintar e em cantar, porque a criatividade é prazerosa. Os Druidas antigos lá na Grã-Bretanha nunca se repetiam em seus cânticos, poemas e feitiços. Mas há prazer também em fazer o que você já faz bastante. Jesus ensinou o prazer de ver seu próximo estar bem. Quem poderia ter aprendido? 

Dentro do bloco carnavalesco dos Bobs, vale dizer que muitos rumos são possíveis. Nem todo prazer seu é prazer do outro e, talvez, atentar para esse "prazer do outro" seja uma lição valiosa para todos que embarcam na folia, atrás dos prazeres de si. Há caminhos para isso verdadeiramente religiosos, seja você Cristão ou não. Valorizar o prazer vai muito na direção do ensino de Jesus ao mostrar que seu pagamento é a própria ação, mas ela precisa trazer bem ao outro. Não é um compromisso estranho, eu lhe garanto. Alguém (Lá encima? Aqui do lado?) te fez justamente para isso, se ser feliz e fazer feliz.

Não esqueçamos os Lula Moluscos, quietos e  rindo seu canto escuro. Não tan´to mas são aqueles que só querem o feriado, a folga, para gastarem um tempo sozinhos. A analogia com o personagem é porque o Lula Molusco nunca quis encher o saco de ninguém. Nem quis ir a festa alguma. O que tem de errado nisso?

Dentro do mundo Capitalista, não tem nada errado. Cada um cuida de si. O Si é mais importante que todos, aliás. No mundo Socialista, alguém perguntaria "como você está servindo a sua comunidade?". Sim, ficar no seu mundinho particular pode então não ser bem visto. Mas não tem problema, desde que você saiba o que faz. Eventualmente, ficar longe de todos pode inclusive ser saudável para alguém se regular, apaziguar os próprios demônios. Se os Bobs querem festejar, os Moluscos só querem estar fora da festa. Mas a pergunta aqui é a mesma: quem você está cultuando quando faz isso?

Uns diriam Ninguém (isso quase sempre é mentira), outros diriam "eu mesmo" (o que seria verdade se você fosse completamente original, mas geralmente não é), outros diriam "a minha liberdade". A tal da Liberdade tem até uma estátua gigante, com tocha na mão e tudo. Não é ruim cultuar a Liberdade, especialmente se você o faz com ética. Nesse último caso, eu até recomendaria você o fizesse em outras épocas do ano, ou se tornasse até arauto desse movimento, pois as pessoas sofrem muito por falta de liberdade.

A parte ruim da liberdade - e vale dizer isso - é que ela costuma ser individualista, como o Molusco. Você basicamente pode ser você mesmo, sem ferir os demais, quando está sozinho. A tolerância ao outro costuma cair por terra quando nos deixamos ser livres, e isso é sintomático de que estamos, no fundo, separados. Apenas pelo que não é liberdade - ou seja, pela força ou o interesse - é que conseguimos estar juntos. Muitas vezes, nem casais conseguem ser livres enquanto juntos, como se o mundo fosse composto de regras estritas sobre o que fazer e não fazer, uma espécie de Roma legislativa sem espaço para a criatividade ou liberdade que nos caracterizam como seres pensantes e sensientes.

A Liberdade é importante para a vida, precisa ser cultuada e experimentada não apenas na solidão dos quartos e apartamentos, mas como inspiração para os demais. A Liberdade levou Jesus a jantar com Fariseus, Publicanos, Plebeus, Centuriões, Juízes, etc. Um nome (Romano) que não havia ainda, mas caberia em Jesus, é "libertino". Do tipo que pega o trigo "sagrado" para dar a homens famintos, ou sai fazendo coisas em pleno Shabat. Muitos O repeliram (os Evangelhos certamente não têm muito a dizer desses encontros ruins, que certamente se deram), mas outros gostaram tanto daquele tipo libertino que se inspiraram Nele. E daí a liberdade no Carnaval, mesmo naqueles tempos de Roma, seja mais Cristã do que você já pensou. "A verdade vos libertará", dizia Ele. E dessa forma, o Molusco é só um carnavalesco retraído quando quer ficar sozinho. Com certeza outros se juntariam a ele para preparar suas requintadas comidas, fazer suas miniaturas, suas esculturas ou tocar o seu trompete.

Sem fugir demais, resta falar sobre o clã dos Siriguejos. É o pessoal que repudia os festejos Pagãos fazendo seus festejos Cristãos. Por Pagão vamos relembrar que foram os Europeus não Romanos (pagani), depois os Europeus não Cristãos, depois os povos originários de África e América que os Europeus invadiram. Não sei se o nome ainda cabe, já tem gente demais dentro dele, incluindo denominações Cristãs diferentes da minha. O pessoal mais Cristão é ensinado a repudiar o pessoal Pagão, embora talvez compre verduras deles.. No Carnaval, isso se traduz em uma. comemoração parecida, mas com Jesus no nome. Talvez você tenha pago por ela igual um Bob pagou no abadá do seu carro alegórico.

Os Siriguejos, aqui, são o pessoal reacionário, que faz questão de ser diferente. Sem preconceitos, mas trata-se de organizar acampamentos, vigílias, etc que não acontecem noutras épocas do ano. É sempre uma possibilidade, no feriado. Mas quem eles cultuam com isso? Jesus Carnavalesco? Que não seja a si mesmos.

Há o problema de ser uma ação reacionária, ou seja, dependendo do outro e direcionada para se afastar ou diferenciar dele. Isso quer dizer que ela fortalece uma comunidade às expensas de declarar quem é o inimigo comum. Os Bobs, claro. Não é necessariamente alguém que vamos apedrejar, mas com certeza alguém que não queremos ser.. Há episódios de Jesus agindo assim, como os conflitos com os religiosos (em todos os Evangelhos, e sendo justo Ele o fundador involuntário de uma religião), com os vendedores no Templo e na instrução para os seguidores não voltarem a uma cidade onde tivessem sido rejeitados. Ide, mas não voltardes.

Esse grupo que "rejeita o mundo", como o Paulo platonista ensinava fazer, pode dizer de si que são os verdadeiros cultuadores de Jesus. Mas só uma parte, porque Ele não gostava de caixinhas e se juntava até com aquelas pessoas de quem mandava ficar longe. Os Siriguejos são esses que ficam longe, que não se misturam. E nesse fragmento de Jesus, estar longe, entre os seus, é um sinal de pureza. São as mesmas pessoas que dizem alegres "Eu evangelizei a Dna Alberta", mas não diriam "A Dna Alberta fez um bolo delicioso e comemos juntos". Não estar junto da Dna Alberta, no caso, se alia com evangelizar ela somente porque traz embutida uma noção de superioridade. Nesse pedestal que Jesus nunca quis, eu sou Cristão separado PORQUE eu sou superior. Comemorar diferente no dia da festa dos Bob Esponjas é o equivalente de fazer uma festa em minha casa NO DIA DO SEU ANIVERSÁRIO, e te dizer "cada escolhe onde ir; aqui ficarão os mais legais".

Rejeitar o mundo não necessariamente é ruim. Os mais religiosos e os mais psicóticos geralmente rejeitam. A diferença está em isso ser reacionário (isto é, no dia da festa dos Bobs) ou constante. Há santidade em "tirar o mundo que nos cega" para ver além. Porém, como aquele que monta um problema matemático a partir de um problema real e depois não retorna para a realidade, se o caminho de volta foi perdido, com certeza não estamos em bom rumo.

Comunicar-se com a sua divindade é maravilhoso para que ele/ela/elo nos instrua, mas essa mensagem tem de voltar aqui. Ou seja, o desligamento do real precisa trazer um alívio prático para os sofrimentos, porque não há como esquecê-los. A volta dos ensinos espirituais, seja quando forem (e talvez o feriado mais pagão seja a data que resta), precisa trazer mudanças e instrução. Principalmente no sentido de dizer às pessoas o que Jesus repete nos ouvidos faz muito tempo: "Cuide das minhas ovelhas". O Siriguejo, em seu "retiro de Carnaval" com gente semelhante, de mesma crença e renda, talvez traga muito menos de lá do que o Molusco, que ficou em casa.

Isso não quer dizer seja um programa de Carnaval matar os Bobs, muito menos ficar longe deles. Menos ainda evangelizar eles. Diante de tendas Cristãs montadas nas ruas onde passam os bloquinhos de Carnaval, será que a Dna Alberta ficou feliz de receber você? Porque será que ela gastou tempo (e gás) te fazendo um bolo? Quão PRÓXIMO você estava dela? Será que você estava mais disponível  do que ela estava PRÓXIMA de você? 

O propósito desse texto nunca foi trazer respostas, mas colocar perguntas que, se te foram difíceis, se te fizeram pensar, talvez tenham te evangelizado.

domingo, 9 de junho de 2024

Sebastião e Oxóssi no nordeste



Sincretismos. Essa palavra tão acadêmica é usada para indicar que um conhecimento ou uma cultura foi traduzido (erroneamente) dentro de outra, literalmente dando aos elementos de um lado a funcionalidade dos elementos do outro lado. Mais ou menos como substituir o açúcar por sal, porque são bem parecidos.

Um exemplo atual e prático de sincretismo é o Dia-das-bruxas. A data de 31/10 é uma data religiosa do antigo calendário Celta (Gália/Espanha, séc. 3 a.C.), chamada Samhain, que coincide com o Dia-de-los-muertos no México (01/11) e o Dia-de-finados no Brasil (02/11), ou seja, uma data quando os vivos e seus antepassados mortos se encontram. Na época dos Celtas, isso significava os vivos levarem presentes ou comidas para ter uma 'reunião' com seus mortos. Mas na Europa cristianizada, se tornou levar flores para os cemitérios (que os Celtas não tinham). A data relacionada aos mortos foi seguida no Brasil, mas não a tradição de fazer festas para os mortos, como no México. Nos EUA, ficou sendo uma peregrinação das crianças (vestidos de mortos) até a porta das casas para exigir seus presentes. Alguma coisa restou de reconhecível.

Aqui, eu gostaria de falar de um duplo sincretismo. Quem sabe triplo. Um deles, relacionado ao santo Católico denominado Sebastião, que foi sincretizado dentro do Cristianismo mesmo. Depois, sobre o orixá Oxóssi, oriundo das tradições Yorubás na região do Congo/Nigéria, que foi miscigenado, no Brasil, ao personagem Católico. O resultado foi uma curiosa quimera, que vale ser desmontada pelo que suas partes dizem das nossas várias vertentes culturais.

OXÓSSI

Oxóssi (escrita brasileira de Òsoòsi) é um Orixá. Na Nigéria, durante o festival de Obatalá (Orixá criador), uma cabeça de pedra é regada a bebidas alcoólicas em homenagem a ele. Diz-se que é a cabeça do próprio Oxóssi, deixada para fora quando ele se fundiu à terra. A palavra já foi usada para designar grandes reis da cultura Yorubá, aqueles que unificaram um grande número de aldeias ou cidades. Mais tarde, foi usada para designar divindades do panteão religioso, normalmente envolvidas com rios, árvores, o céu, etc. Embora hoje existam em forma escrita os textos referentes aos orixás, são na verdade poemas originalmente transmitidos em forma oral, como as lendas gregas. Isso significa que há vários Oxóssi, mais ou menos como os vários Aquiles que Homero reuniu quando escreveu A Odisséia: cada ilha grega tinha o seu herói um pouco diferente.

Os poemas que mencionam essa divindade o nomeiam também como Ocantoxoxô, Erinlè ou Inlè, dando a entender que Oxóssi é um título de grande honra (ex. César = imperador ou Cleópatra = rainha) e não um nome próprio.

Os poemas sobre Oxóssi identificam-no como um homem das matas, conhecedor de trilhas e plantas medicinais. Por outro lado, também é referido como Odé, ou caçador. Sua figura se ajusta bem ao povo Pigmeu que ainda vive na região do Congo, Camarões, etc, mas, dadas as similaridades de ambiente, é difícil o imaginário brasileiro não identificar Oxóssi com um indígena da Mata Atlântica ou Amazônia. Um antigo Itan (poema histórico) diz que Oxóssi atendeu ao convite de Oxalá/Obatalá e veio do Orum (céu) para habitar o Aiê (terra) junto com todo seu povo, antes mesmo que Ele criasse os homens. Não há referências sobre quem seria tal povo, mas a mitologia brasileira faz referência a "espíritos das matas" como Pai-do-mato, Caipora, Boitatá, Cuca, etc. Mesmo a temida Matinta-perera, bruxa das matas (regiões norte e nordeste) que se disfarça como pássaro, vai em algumas linhas fazer tal semelhança parecer assombrosa.

Os Orixás têm pai e mãe. Oxóssi é filho de um curioso Orixá chamado Okò (= fazenda ou fazendeiro), que parece ter sido um jovem irresponsável, briguento e bebedor, que foi expulso da cidade de Irawo e passou tempos andando pelos campos. Em algum texto ele é referido como Olasi ou Olagbirin. Em sua vida campestre, Okò progrediu como plantador (ele é associado ao surgimento da agricultura), voltando à cidade para prover alimentos numa época de fome, e por isso foi chamado Orixá da Agricultura. Okò é venerado com objetos e comidas brancas (símbolo dos Orixás fun-fun ou criadores, como Oxalá) depositadas na base de grandes árvores de mogno [africano], mas também com tigelas de água onde esse conhecedor das plantas medicinais seria capaz de depositar remédios. Muitas dessas características foram passadas a Oxóssi.

A mãe de Oxóssi é Ìyá Apáòka / Iya Nbanba / Iya Mó, outro personagem curioso. Ela é uma das Iyá Mi Oxorongá, ou Mães-feiticeiras, junto com Ìyá Mepere e Ìyá Bokolo. As três (ou centenas delas) vieram do Orum e tinham afeição pelas árvores, mas usavam seus poderes contra os homens¹. Do alto de cada árvore, as feiticeiras, que se transformavam em pássaros, proferiam encantamentos para perturbar tanto homens como Orixás. Qualquer semelhança com a Matinta-perera é digna de ser pensada. Apaziguada ou enfeitiçada por uma preparação de Okò, Ìyá Apáòka teria traído suas companheiras apaixonando-se por Okò, de quem gerou um filho (de ovo?) chamado Erinlè ou somente Inlè. Ao contrário dos outros Orixás, diz-se que Erinlé não aceita sacrifícios de aves (!).

Contam os Itans que Erinlé ( = caçador de elefantes) cresceu como Odé e recebeu seu título de Oxóssi após matar com única flechada um pássaro enorme, enviado das Oxorongá para atormentar uma aldeia. Invulnerável pela magia que o cercava, o pássaro teria sido momentaneamente distraído por uma oferenda de sua mãe às Oxorongá (!). Por isso o símbolo de Oxóssi é um arco-e-flecha. Mais tarde, raptado por Ossain, Orixá das matas mais profundas, ele teria aprendido de seu raptor os segredos de todas as plantas.

O artefato que Oxóssi carrega nas suas representações é um arco-e-flecha de metal; de metal tanto o arco como a corda e a flecha. Logo, não se trata de algo funcional. Outros Orixás também levam ornamentos de metal: Okò (que leva um cajado e uma adaga), Ogum (Senhor-do-ferro, que leva uma espada) e Xangô (Senhor-da-justiça, que leva um machado). Esse simbolismo denota um tempo em que a metalurgia desenvolveu-se na planície do rio Níger, mais ou menos no séc. 9 d.C., até onde se sabe por volta do reinado de Oduduwa². Sendo Xangô frequentemente descrito como um rei, é provável que ele e vários outros Orixás, colocados como divindades, já tenham sido reis Yorubá.

Erinlé também é o nome de um rio Nigeriano que comunica um lago de planície com o caudaloso e longo rio Oxum. Não sem motivo, os Itans dão conta de que Oxóssi/Erinlé apaixonou-se por Oxum, a Dama-das-águas-doces, filha da própria rainha Iemanjá (Dama-das-águas-salgadas). Oxum foi o primeiro ser a enganá-lo, lambuzando-se de mel e rolando sobre as folhas da floresta. Apesar do enorme apetite sexual de Oxóssi (semelhante a Okò, que geralmente é representado com um grande pênis ereto), os dois não se suportavam e se separaram após produziram um filho de estória ainda mais curiosa que o pai, com natureza dual (masculino/feminino, terrestre/aquático).

A semelhança dos Orixás com elementos da paisagem Yorubá não é casual: todo o entorno das aldeias, florestas, árvores, rios, etc são entendidos como entidades, seres vivos aos quais os homens devem respeito e com os quais podem conversar ou mesmo duelar.

SÃO SEBASTIÃO

Trata-se de um santo Católico do período tardio de Roma, entre o auge militar do Império (séc. 1 a.C.) e sua fragmentação no séc. 5 d.C. São Sebastião viveu entre 255 e 288 d.C. Nessa época, o Cristianismo ainda estava em formação, com muitas doutrinas circulantes e considerável integração com outras religiões do Império.

A veneração a São Sebastião foi descrita em textos já de 354 d.C., pouco depois da permissão do Cristianismo em Roma (313 d.C.) e menos de 70 anos após seu assassinato. Ele foi fortemente cultuado na Europa durante a Alta Idade Média, entre a fragmentação de Roma Ocidental e as Cruzadas. Num escrito do séc. 14, especifica-se que São Sebastião veio da Gallia Narbonensis (sul da França) e foi treinado como soldado Romano em 283 d.C. em Milão/Itália. Teria chegado ao posto de capitão da Guarda Pretoriana (soldados que protegiam o imperador, como o Serviço Secreto dos EUA), sem revelar que era Cristão. Nesse tempo, os Cristãos se reuniam silenciosamente nas casas de membros do grupo, sendo seu culto proibido e passível de morte.

Como encarregado dos prisioneiros, ele interagia com esses e as autoridades, tendo inclusive convertido ao Cristianismo pelo menos 16 pessoas que acabaram sendo todas executadas como mártires. De fato, o livro Legenda Áurea, sobre a vida dos santos, descreve que, quando as pessoas eram tentadas a renegar Cristo em troca de salvar as próprias vidas no cárcere, Sebastião as convencia do contrário: "... os contratempos são efême­ros, e essa perseguição que agora sofremos, se é violenta hoje, amanhã terá desaparecido: uma hora a trouxe, uma hora vai levá-la. Mas as penas eternas renovam-se sem cessar, a vivacidade de suas chamas nunca diminui, para sempre punir. Estimulemos nosso amor ao martírio". Nesse meio tempo, uma mulher muda passou a falar. O pai de dois condenados, adoentado, ficou curado após destruir os ídolos que guardava. Centenas de pessoas teriam sido batizadas em plena época de perseguição, ao ouvirem seus testemunhos.

Descoberto como Cristão, um dia ele também foi condenado à morte. A execução [militar] se deu com Sebastião amarrado a uma árvore e "os arqueiros atiraram nele até que ficou tão cheio de flechas quanto um ouriço, e assim o deixaram lá, como morto". Mas as flechas não mataram Sebastião, que foi resgatado pela viúva (também canonizada) de um dos outros mártires. Ela o levou para sua casa e cuidou de seus ferimentos, até que ficasse bom.

Já recuperado, ao invés de fugir, Sebastião se posicionou em um lugar onde o imperador Diocleciano (quem o mandara executar antes) deveria passar e bradou publicamente contra o rei - bem aos modos de João Batista acusando Herodes I - por suas crueldades com os Cristãos. Outra vez foi preso. Agora, num segundo martírio, ele foi espancado até a morte e seu corpo foi atirado na fossa Romana de esgotos. Mais uma vez uma mulher o resgatou, enterrando-o no local onde hoje está a Basílica de São Sebastião ("próxima aos apóstolos"), após uma recomendação post mortem vinda do próprio Sebastião.

O Catolicismo tem como poderosos ou místicos os restos mortais, que sempre atraem peregrinos aos túmulos dos santos. Por isso, o Papa Eugênio II presenteou os ossos "curativos" de São Sebastião à abadia de Saint Denys, na França, "exportando" para lá o seu culto em 826 d.C. O crânio de Sebastião teria sido separado e levado para Ebersberg/sul da Alemanha em 934 d.C, onde também surgiu um centro de peregrinação. Lá está preservado, ainda hoje, um pedaço de osso revestido com ouro e prata.

A recuperação "da morte" foi atribuída a algum poder milagroso de cura, ao que o santo foi associado. De fato, a maioria dos milagres de São Sebastião sempre ocorreram em situações de cura, especialmente nas épocas de peste/epidemia. Por causa disso, São Sebastião ocupou um lugar importante na mídia medieval, constando como um dos santos mais retratados no período após a Peste Negra (aprox. 1348, quando cerca de metade da Europa foi dizimada).

Desde a Renascença (sécs. 14 a 16), quando os ideais de beleza Grega foram resgatados, São Sebastião passou a ser representado como um jovem torneado, amarrado, contorcido e seminu, com as tradicionais flechas cravadas no corpo. Embora essa não tenha sido sua causa mortis, pouco se fala do martírio posterior. Aqui no Brasil, no dia 20 de janeiro (de 1567), aniversário de sua morte, os portugueses expulsaram os franceses do Rio de Janeiro (então Guanabara), ao que a cidade adotou São Sebastião como padroeiro.

Curiosamente, a exposição sacra do corpo masculino fez circularem associações dele com o ideal de atleta ou soldado, além de manifestações eróticas.

VÁRIOS PORQUÊS

É bem conhecido que os cultos Afro no Brasil utilizaram pedras (Otás) e imagens Católicas como refúgio contra a perseguição, decorando os templos de Candomblé(s) com imagens de santo e nomeando seus Orixás como personagens Cristãos. Com o processo de "cristianização" da África em andamento, a Igreja Católica passou a ver os negros como "um povo a se converter" e não mais como "mercadoria sem alma". Assim, desde o séc. 17 surgiram confrarias ou irmandades destinadas a catequizar e proteger os negros catequizados, geralmente tornados devotos de algum santo negro como São Benedito ou Santo Elesbão. Por volta de 1830, as confrarias haviam se agigantado, reunindo tanto negros "misturados", isto é, que praticavam uma mistura de Catolicismo e Candomblé (o que viria a ser a Umbanda, no séc. 19), quanto aqueles que praticavam publicamente o Catolicismo e, no interior da confraria, o Candomblé. Essa foi a origem dos mais antigos terreiros de Candomblé no Brasil (Ilê Axé Iyá Nassô Oká - antiga Sociedade São Jorge do Engenho Velho; Ilê Iyá Omin Axé Iyá Massê - antiga Sociedade São Jorge do Gantois; Ilê Axé Opó Afonjá.- antigo Centro Cruz Santa do Axé Opó Afonjá; Terreiro Bate Folha - antiga Sociedade Beneficente Santa Bárbara do Bate Folha; Ilê Axé Oxumaré ou Casa de Oxumarê - antiga Sociedade Cultural Religiosa e Beneficente São Salvador). Nessa época, entre aqueles que misturavam elementos dos dois credos, Oxóssi foi 'disfarçado como' ou 'misturado a' São Sebastião.

A tradução do Orixá em Santo reúne elementos da diáspora africana (povos Yorubá trazidos para o Brasil), do Cristianismo Europeu (com figuras heróicas e santos Católicos), dos indígenas habitando o nordeste brasileiro e do imaginário caboclo, como se fosse um grande "cozido" de ideias. Sem a imposição do Catolicismo aos Yorubá escravizados, é muito improvável que tal associação acontecesse, e justamente essa escolha entre Orixás e santos merece ser entendida.

Contra a escolha de um representante Cristão para a fé nos Orixás, claramente estava a disparidade de contexto das divindades. No contexto Yorubá lá na África, havia Orixás deixando o mundo espiritual para habitar elementos naturais do Aiê, dos quais se tornam protetores e onde podem ser invocados. Seus lugares não são apenas sagrados, mas que também falam a respeito deles. Lembremos que Enrilé é um caçador de elefantes e também um rio. No contexto Cristão, os santos são pessoas realizando maravilhas só explicadas sobrenaturalmente, muitas vezes tais que só começam a ocorrer após a morte do santo, geralmente nas proximidades de sua tumba ou restos mortais, como se ele emanasse nesse mundo algum poder oriundo de Deus.

Não há elementos para pensar que Oxóssi seria melhor traduzido em São Sebastião do que em outros santos Católicos, como São Huberto de Liège, o caçador (656 - 727 d.C.), ou São João Gualberto (985 -1083 d.C), que viveu em uma mata no pé dos montes Apeninos. A escolha de São Sebastião pela presença de flechas nas imagens parece muito boba. Afinal, se Oxóssi é um Odé, São Sebastião conforme retratado popularmente está mais semelhante à caça do que ao caçador.

Pensando que provavelmente o leitor brasileiro nunca ouviu falar dos santos mencionados acima, a escolha de São Sebastião pode estar ligada ao imaginário local único do Brasil e mais único ainda na região no nordeste, onde o país foi colonizado primeiro. O aspecto nu pelo qual São Sebastião é conhecido lembra um indígena brasileiro, os mesmos Cariris, Caetés, Tupinambás e Tupiniquins com quem os caboclos e portugueses disputavam terras. Sobre ele pesa o imaginário de guerreiro geralmente associada a alguma peça de armadura (também compatível com São Jorge, São Miguel Arcanjo ou até mesmo alguns apóstolos de Jesus como Simão o zelote). Além disso, a eleição de São Sebastião em particular pode ter alguma ligação com a grande popularidade nordestina de Dom Sebastião I (1554 - 1578), um lendário rei de Portugal³. Nessa terra de engenhos de açúcar para onde desembarcaram muitos Yorubás, o rei português morto no norte da África pode ter tido sua imagem (mítica) misturada com a do santo Pretoriano de quem veio seu nome, favorecendo que ganhasse ares de cavaleiro ou guerreiro salvador.

Dom Sebastião foi associado à cavalaria medieval e muito propagandeado como esperança de libertador pelo célebre escritor luso-brasileiro Padre Antônio Vieira⁴. Ecos desse culto a Dom Sebastião foram vistos até mesmo no final do séc. 19 em episódios como a Pedra Bonita⁵. Nessa junção do Orixá africano com o indígena brasileiro e o cavaleiro mítico português, o santo Romano levou vantagem. Os dias votivos de São Sebastião e Oxóssi são ambos em 20 de janeiro, aniversário de morte do santo*.

Uma semelhança sensível entre os dois mundos, que também deve ter contribuído para que os brasileiros caboclos unissem um Orixá a um santo é que os Orixás são materialmente associados a seus elementos. Na África, Enrilé era associado com as matas ao redor do rio de mesmo nome mas, no Brasil, o conceito se diluiu e Oxóssi se tornou um indígena da Mata Geral. Qualquer mata, e mais particularmente a Mata Atlântica no litoral do nordeste. Os santos Católicos são geralmente associados a basílicas e templos contendo algum resto mortal do santo, peça de roupa, etc. Na Europa, São Sebastião ficou "repartido" entre o local em que foi enterrado originalmente e mais dois onde guardam pedaços seus (Itália, França e Alemanha). No Brasil, sem as basílicas, toda igreja ou casa com uma imagem do santo pode ser local de culto.

Se há o fácil acesso a pontos de culto encontrado no Candomblé, que permitiu a devoção a Orixás africanos acontecer no Brasil e Caribe, a devoção aos santos Católicos também pode ser muito significativa em locais pouco oficiais como capelas erigidas numa fazenda, numa casa, etc. Imagine-se o que pode ter ocorrido com uma imagem de São Sebastião, tradicionalmente seminu e portando alguma parte de armadura, se esta fosse instalada por portugueses em uma capela junto à mata, num local de adoração frequentado por caboclos brasileiros, muitos descendentes de Yorubás ou convivendo com descendentes deles, que tinham contato com indígenas e que ouviam, na cidade, sobre as façanhas de Dom Sebastião. Esse caldeirão onde todas as ideias se misturam pode ter "cozinhado" um Oxóssi - São Sebastião que ganharia seu nome dependendo de onde estivesse, se numa reunião de Candomblé ou numa procissão.

Com o tempo, os ambientes de Candomblé e Catolicismo brasileiros se distanciaram. A urbanização das populações contribuiu muito para isso. Os filhos de Oxóssi, hoje, tentam aproximar seus comportamentos da vida indígena, ideais de coragem, manipulação de ervas medicinais e provimento de alimentos. Em muitos casos, são filhos-de-santo (iniciados) que incorporam o Orixá nas cerimônias religiosas e estão condicionados a abster-se de algumas coisas chamadas "quizilas". No mundo Cristão, as experiências mais intensas estão associadas às igrejas evangélicas pentecostais, onde se fala da possessão pelo Espírito Santo, mas onde nenhum santo é cultuado. Dentro do universo Católico em específico, onde estão os devotos de São Sebastião, há quem participe do auxílio e pregação aos presos ou doentes (como Sebastião em seus tempos de Guarda Pretoriana), mais raramente desafiando governantes injustos (geralmente ditadores ou presidentes militares).

Entre os filhos de Oxóssi (ou qualquer outro Orixá), não há apelos à prática de nudez, mesmo em situações rituais. Tampouco há qualquer elemento gay nas incorporações desse Orixá. Também não há nudez ou elementos gays (seja lá o que isso for) nas manifestações de fé Católicas. Dessa forma, o apreço dos gays (masculinos) com São Sebastião não tem qualquer associação com a vida do santo, nem com suas formas de culto e provavelmente ocorre apenas via uma reação mais imatura à exposição do corpo masculino.

O milagre de cura de São Sebastião não se repetiu com ele mesmo, que morreu espancado. Sua popularidade na Europa foi construída através de contos sobre a influência benigna dele na cura de vários doentes ou até cidades inteiras. Por exemplo, o rei Gumbert da Lombardia (665 - 700 d.C.) supostamente conseguiu que a peste parasse de atacar suas terras após mandar erguer no ano de 680 um altar para São Sebastião na capital Ticinum, hoje Pávia / Itália. Há Orixás com poder de cura e Oxóssi é um deles, mas não existe uma "oração para Oxóssi" ou mesmo um ebó (oferenda) que possa ser feito para conseguir magicamente uma cura. Há, porém, preparações medicinais feitas pelo babalaô/ialorixá que devem, a fim de produzirem seu efeito, serem consagradas por exemplo a Oxóssi. Participar de um desses rituais de cura não é tão diferente de levantar um altar para o santo sobre seriam preparados os medicamentos.

Podemos finalizar afirmando que o equivalente de Oxóssi dentro do Cristianismo é São Sebastião por motivos bem particulares do nordeste do Brasil na época da colonização. O "Sebastoxóssi" produzido  daí não é cultuado nas igrejas Católicas nem nos terreiros de Candomblé, por serem religiões mais atreladas a sua fundação histórica. Mas trata-se de uma divindade presente na religiosidade mais popular e alheia às autoridades e bibliografias. E ele também é uma divindade reverenciada em muitos templos de Umbanda, de Jurema ou simplesmente um elemento de compreensão ou aceitação das divindades Afro dentro do universo Católico.

Nesse espaço, "Sebastoxóssi" funciona semelhantemente a um signo do zodíaco, um arquétipo de personalidade significando ser "confiante, expansivo, e também raivoso quando ameaçado ou traído". No Candomblé, além do arquétipo de personalidade existe a necessidade do "filho de Oxóssi" agradar seu Orixá patrono para ter sucesso, assim como ter "de nascença" certas fragilidades em relação às quizilas que o enfraquecem. Oxóssi é fragilizado por mel (vide Oxum), bebidas alcoólicas (vide Ossaim) e aves mortas (vide mamãe Apaoká). Dentro da Umbanda, vemos algo da devoção Católica de oferendar algo para obter certo resultado, ou mais especificamente realizar alguma "simpatia" ou "despacho" para se obter o favor do santo, além da tradicional devoção imposta por um dos pais que dedicou a criança ao santo, em geral em troca da cura de uma doença grave.

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notas de rodapé:

¹ Dentro do entendimento Yorubá da Natureza, as árvores possuem temperamentos específicos, podendo ser benéficas ou terríveis. Daí a necessidade de interagirem com as árvores e conseguir sua amizade. A árvore Orobó (Garcinia kola heckel) produz felicidade, justiça e vida longa; a araticuna da areia (Annona senegalensis) produz destruição de tudo que alguém gosta; o baobá (Adansonia sp.) propicia a realização dos desejos; o iroko ou gameleira branca é a árvore mais poderosa de todas (Milicia excelsa ou Ficus insipida) e pode fazer as pessoas sofrerem acidentes; o apaoká ou mogno (Khaya senegalensis) é capaz de matar.

² Oduduwa é referido também como um Orixá. Ele rivaliza com Oxalá nas tradições sobre a criação do mundo material. Em alguns Itans, Oxalá se embriaga com vinho de palmeira, dorme e Oduduwa vem em seu ligar para o Aiê e cria o mundo. A Oxalá resta a fabricação dos homens a partir do barro. Verger chegou a registrar um Itan onde Odudua é a esposa de Oxalá. Nos Itans particularmente transplantados para o Brasil com líderes religiosos escravizados, toda a Criação ocorre por obra de Oxalá e Oduduwa nem é mencionado.

³ Dom Sebastião I nasceu em 20 de janeiro e foi nomeado em homenagem ao santo executado naquele dia. Ele foi coroado rei de Portugal em 1574 e desapareceu no Marrocos, durante uma batalha do processo de conquista do norte da África por Portugal. Muito jovem para ter herdeiros, ele foi sucedido no trono por seu parente Felipe II, rei da Espanha, que unificou os dois países. Em Portugal e no Brasil, nutriu-se por muito tempo a crença de que Dom Sebastião retornaria um dia da África para resgatar seu reino. No Brasil, Dom Sebastião tornou-se protagonista de lendas sobre um "cavaleiro salvador" que duraram até o séc. 19.

⁴ Padre Antônio Vieira (1608-1697) foi um jesuíta português que fez muitas viagens entre o Brasil e Portugal, terminando por ser enterrado na Bahia. Tratava-se de um intelectual com alta produção de textos, sermões e livros que eram muito influentes não apenas na política, mas também entre a sociedade não religiosa. Ele fez parte do movimento Sebastianista nos dois países, defendendo os direitos indígenas entre a nobreza. Mais ao fim de sua vida, Vieira chegou a escrever profecias que descreviam Portugal como o Reino de que a Bíblia fala, situando essa 'terra abençoada por Deus' bem aqui no Brasil. Por se tratar de um escritor e orador muito influente, suas ideias acaloraram as disputas por poder entre a Coroa Portuguesa a Igreja no Brasil.

⁵ Pedra Bonita, na Serra do Catolé / Pernambuco, foi palco de um evento messiânico retratado por Ariano Suassuna em seu livro "A Pedra do Reino". Nesse local de muitas mortes, onde existem duas torres de rocha de 30 m de altura no meio do sertão, entre 1836 e1838 um grupo de adoradores de Dom Sebastião I elegeu para si um rei-sacerdote que anunciava que, havendo suficientes sacrifícios humanos, Dom Sebastião (aquele, da reconquista da África) voltaria à vida ali mesmo, como um cavaleiro medieval vestindo sua armadura, tornaria as pedras em torres do seu castelo e implantaria um reino de justiça na Terra.

* Uma curiosidade: na Bahia, Oxóssi é sincretizado com São Jorge, o cavaleiro turco. Seu dia votivo então é 23 de abril, início da primavera.
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Nem leia mesmo..
 
Ajisafe,  Oluwo Ifagboun. Òrìsà Oko, Templo Iledi Ifagboun Ajisafe, 16/06/2021.

Barcelos, Renata (Yemojagbemi Omitanmole Arike). 10 coisas para saber sobre orisa Oko na Africa yoruba. 2023.
 
de Varazze, Jacopo (arcebispo de Gênova, 1229-1298). Legenda áurea : vidas de santos. Ed. Companhia das Letras, 2003.
 
Hansley, Keith. The Great Pestilence of Ticinum in the 7th century. Thehistorianshut.com, 16//06/2021.
 
Ifágbòàlà, Oluwo. O conceito do culto à Òsóòsi em relação à Òrúnmìlà. Instituto de Pesquisa Yorùbá – egbé Ifá gidi gidi, 07/06/2017.
 
Marins, Luiz de Lourdes. Òrìsà dídá ayé: òbátálá e a criação do mundo iorubá. África, v. 31-32, p. 105-134, 2011/2012.
 
Ogumefu, Margaret Irene. Yoruba Legends. Ed. The Sheldon Press, 1929.
 
Òrisà Oko. Candomblé - O Mundo dos Orixás, 02/10/2014.
 
Prandi, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. Ed. Companhia das Letras, 2001.
 
Tabu no Candombé - continuação. Candomblé casa das águas, 04/10/2016.
 
Verger, Pierre Fatumbi. Orixás – Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo. Ed. Corrupio, 1981.
 
Verger, Pierre Fatumbi. Lendas Africanas dos Orixás. Ed. Carybé, 1997.
 
Yá Apaoká. Oloje Ikú Iké Obárainan, 04/10/2013.