suposto mapa astrológico de Jesus
Faz tempo que não escrevo, e devo agradecer essa volta, entre outras pessoas, ao bom humor de Leandro Karnal. Numa entrevista, ele se pôs a discutir com Rogério Vilela sobre o signo de Jesus. Eu dei tanta risada daquilo que dediquei um tempo ao assunto.
Antes que algum astrólogo se zangue comigo, deixo claro que isso aqui é uma brincadeira. Não sou astrólogo, não uso astrologia para nada em minha vida, não leio nem horóscopo de jornal. Mas sei um tanto de astronomia e gosto o suficiente de história para já ter explorado (como até Azimov já fez) a tradução de um sistema que não é geocêntrico (a Terra não é - mais - o centro do Universo) para uma interpretação geocêntrica dele (sempre olhamos o Universo a partir da Terra). Colocar Jesus nesse jogo pareceu divertido, interessante e depois assustador.
1º PASSO: TESTAR O SISTEMA
Como não entendo de astrologia, fiz o básico. Descrevi detalhes da minha personalidade para um software astrológico analisar e comparar com minha data, hora e local de nascimento. Ele achou compatibilidades muito boas. No dia seguinte (pensando em vícios de sistema), inseri a mesma personalidade (ctrl C + ctrl V) e os dados de nascimento do meu pai. Não somos nem um pouco parecidos, mas as compatibilidades foram ainda melhores. Acredito que meu pai seja mais eu do que eu! Outro dia e eu inseri novamente minha personalidade, com os dados de nascimento de minha esposa. Outra compatibilidade fantástica, e também não somos parecidos. Então coloquei os dados do meu cachorro e BAM! Outro igual a mim. Bastou para entender que quaisquer dados de nascimento seriam aplicáveis a qualquer pessoa. Na verdade, a pior compatibilidade com meu mapa astral era eu mesmo.
Mas eu estava usando errado a ferramenta. Ainda que de forma vaga, a astrologia associa a posição do objetos do sistema solar com um fundo de 12 constelações. O alinhamento Terra-Sol-Peixes no nascimento, por exemplo, criaria uma pessoa com responsabilidade pelo grupo¹. Terra-Sol-Áries daria preferência pela liderança. Terra-Sol-Capricórnio produziria disciplina e paciência, e assim por diante. Então seria justo tomar previsões e comparar com a personalidade, história de vida, etc, e não buscar SE existe compatibilidade. Pelo que vi, sempre há. Mas não seria essa a vez em que eu usaria um horóscopo: queria fazer Jesus usar ele. Perdão.
A literatura sobre Jesus é variada. Seria possível traçar vários 'Jesuses' dependendo de quem escreveu sobre Ele, sem contar que há fontes islâmicas reunindo materiais rejeitados no Ocidente, o que cria uma dificuldade terrível. Por isso, fiz a escolha de utilizar os evangelhos de Marcos e Lucas. Marcos traz o evangelho mais antigo e sucinto, cujos detalhes são copiados pelos demais. É quase um cronograma do que Jesus fez, como se fossem anotações num caderninho. Ou lembranças ditadas de um velho bispo em Alexandria.. Lucas, um dos escribas de Paulo, por outro lado, passeou pela Samaria recolhendo fragmentos da vida de Jesus. Lucas não viu nada do que narra, nem tampouco Paulo. Ele aprendeu de Paulo, leu materiais já circulantes, mas teve o trabalho de passar em cada cidadela para juntar estórias. Embora ruim com a materialidade, ele dá um material mais rico para a personalidade de Jesus: sonhador, compassivo, corajoso, líder, atento mais à atualidade do que aos planos ou passado, reinterpretador de tradições, homem de emoções intensas e senso de responsabilidade pelos demais. Fatos de Marcos, personalidade descrita por Lucas. Claro que o resultado poderia ser muito diferente com outras escolhas de material, mas acredito que essa opção foi bem embasada.
A análise de Lucas (segundo a astrologia) sugeria fortemente o Sol em Peixes no nascimento. A hora do nascimento torna-se importante para avaliar o Ascendente, ou constelação aparecendo no horizonte leste no momento do nascimento, que seria um filtro entre você e as outras pessoas. Terra-Sol-Peixes com ascendente Libras, por exemplo produzira alguém que se responsabiliza pela igualdade entre todos. Um ascendente Áries faria alguém com desejo por ser um bom governante. Outros detalhes estão na posição dos planetas. Júpiter indicaria ideais, Saturno indicaria apoios necessários, Marte as questões inegociáveis, a Lua suas fragilidades emocionais e assim por diante. Por isso, saber a hora exata e o local de nascimento dizem ao astrólogo como fazer um mapa psicológico seu. E as mudanças, conjunções etc durante a sua vida contariam de forma aproximada/intimista a sua história. Uma conjunção da Lua com Vênus (isso é comum, felizmente), por exemplo, indicaria episódios de significado amoroso.
Como não funcionou partir da personalidade no meu software, fui no sentido contrário. Coloquei dados de nascimento de pessoas conhecidas, pedindo 10 previsões sobre a vida de cada uma. Estavam ali atores, escritores, pessoas públicas de vida bastante conhecida para mim. Finalmente, houve previsões bem distintas. Dentre as 10 feitas para cada um, na média 8 eram corretas, 1 errada e 1 uma eu não saberia confirmar ou refutar. Entrei eu também nessa lista. Então fiquei interessado: partindo da personalidade, tudo serve. Mas, partindo do nascimento, encontrei uma incidência boa de previsões corretas, inclusive quanto aos momentos para os quais foram previstas, com no máximo 1 mês de erro!
2º PASSO - O NATAL
Como disse antes, Karnal me fez querer jogar a Jesus no colo da astrologia. Mas havia um problema: os detalhes do nascimento de Jesus são incertos, não há datas nos evangelhos e algumas referências históricas são impossíveis. Por exemplo, o Censo de Quirino (pelo qual José teria ido de Nazaré a Belém) não bate com o governo de Herodes I, que teria poder e apoio para ordenar a matança das crianças. Além disso, nenhum documento romano cita esse acontecimento, mesmo num sistema tão burocrático que podemos detalhar 2000 anos depois a composição e sucessões de seu Senado. O Evangelho mais antigo é de 40 anos após a Crucificação, de autoria de alguém que conheceu Pedro (não Jesus); o mais detalhado é de uns 80 anos depois, num período de guerras e instabilidades, quando inclusive Jerusalém havia sido devastada pelos Romanos e o evangelista nada relatou sobre isso. Hoje, há certo consenso de que Jesus teria nascido por volta de 6 a.C. e morrido num ponto comum do governo de Pôncio Pilatos e do sumo sacerdote Caifás, o que seria por 30 d.C. Jesus teria, então, pela sua morte, uns 36 anos. Junto com a imprecisão de 2 calendários sendo usados juntos - o solar, de Roma, e o lunar, dos Judeus - dá uma margem boa de aceitação.
Pedi então ao programa para criar centenas de mapas astrológicos com início em 7 a.C. até 1 a.C., com o nascimento localizado em Belém, e usei uma IA para vasculhar eles atrás de quais se adequariam melhor com os fatos narrados por Marcos (evangelho mais antigo) e os dados de personalidade fornecidos por Lucas. O alinhamento Terra-Sol-Peixes foi altamente pontuado. Dentre os que continham esse alinhamento, dois mapas foram altamente concordantes com o que foi pedido (mas nenhum em sua totalidade). Para começar, nenhum apontava uma estrela se super-destacando, mas ambos apontavam conjunções planetárias triplas que certamente chamariam a atenção durante a noite. Como se fosse uma estrela muito luminosa? Talvez. As previsões de mudança para longe de casa, religiosidade, perseguição, disputa e sofrimento se alinhavam com a vida de Jesus. Num dos dois mapas astrológicos candidatos, o nascimento de Jesus ocorreria em nov/7 a.C.; no outro, em 17/04/6 a.C. (surpreendente perto da Páscoa Judaica, de 30/mar a 02/abr desse ano). Para o primeiro, havia uma questão climática problema: nessa época, Israel é bem frio e chuvoso. Os rebanhos ficam em estábulos e isso não condiz com uma grávida viajando por aí nem pastores ao relento durante a noite. Para a 2ª data, vários fatores eram favoráveis:
1. Pastores no campo à noite (Lucas). Abril está dentro do período quente e seco, de pastoreio ao ar livre.
2. Herodes I ainda era vivo (Mateus/Lucas). Ele somente morreria em 4 a.C.
3. Personalidade de Jesus (segundo Lucas) parcialmente compatível: guiada pela misericórdia e preocupação com o coletivo.
4. Conjunção de Júpiter, Saturno e Marte de 6 a.C. alinhados com Peixes. Isso produziria um aspecto de "líder, inspirador e defensor do seu grupo". Jesus tem essa imagem, em Lucas.
O Censo de Quirino (Lucas 2:2) em 6 d.C., somente 10 anos depois, não condizia com o relato. Mas, em questões de datas, já observei que Lucas não é boa referência. João, que apresenta personagens e acontecimentos em sua maioria diferentes dos demais evangelhos, segue uma cronologia melhor que a de Lucas, por assim dizer, pelo menos indicando uma sequencia correta de estações do ano.
3º PASSO - AVALIAR QUANTO UM SISTEMA DETALHADO DE PREVISÕES PODE ESTAR CORRETO.
Sempre na incerteza, usei o software para gerar um questionário com previsões precisas a partir da minha data e local de nascimento. Claro, eu faria o mesmo com Jesus nascido em Belém em 17/04/6 a.C. O índice de acertos foi bem alto, novamente: de 10 previsões com data, 9 estavam corretas, 1 era ambígua (eu não me lembrava ou podia ser aplicado a varias situações distintas).
Aplicando finalmente essa metodologia a Jesus, fiquei com isso:
~12 anos de idade (6 d.C.)
1. Júpiter sobre Sol natal (i.e. Peixes) = ano de expansão, oportunidades, viagens, reconhecimento, otimismo.
2. Júpiter sobre Lua natal = expansão emocional, mudança de casa, gravidez, ou novo círculo social.
3. Júpiter sobre Meio do Céu = expansão profissional, promoção, novo emprego, ou reconhecimento público.
4. Júpiter sobre Ascendente = expansão pessoal, mudança de imagem, novo começo, sensação de renascimento.
Lembremos que a órbita de Júpiter é de 12 anos terrestres, mais ou menos. Por isso as repetições do nascimento. Esse parecia ser o grande ano de Jesus. O Evangelho da Infância de Tomé (apócrifo) encerra justamente a sua narrativa nesta faixa dos 12 anos, quando um Judeu deixa de ser criança, mostrando episódios de prodígios, discussões com mestres e a transição para a juventude. Ali, Jesus aparece extremamente precoce, inteligente e, por vezes, voluntarioso ou misterioso com seus poderes. Lucas (2:41-52) conta que, aos 12 anos, Jesus foi com os pais a Jerusalém para a festa da Páscoa. Nessa ocasião ele se perdeu do grupo de peregrinos e foi encontrado 3 dias depois no Templo, ensinando para os mestres da Lei. Um jovem peregrino esquecido numa cidade cheia de gente, que prefere ir ao Templo debater idéias do que se preocupar em encontrar seu grupo. Se Lucas estava certo, algo de fato aconteceu. E seria difícil pensar que os familiares dele achassem isso corriqueiro. Voltando a Nazaré, depois dessa Páscoa, Jesus seria sagrado adulto e poderia falar por si mesmo nas sinagogas. As previsões, claro, são de uma carreira profissional, não descrita nem mesmo na narrativa de Lucas.
José também desaparece da narrativa, o que nos leve a pensar que a 'evolução profissional' de Jesus talvez fosse trabalhar com o pai, ou por conta própria, fazendo obras (não apenas marcenaria) em construções.
~27–29 anos
5. Saturno sobre Lua natal (i.e. Peixes também). Reavaliação emocional. Mudança de lar, fim de ciclo familiar ou necessidade de cuidar de alguém.
Incerto. Assim como sabemos que José some das narrativas de Marcos e Lucas, seu primo João Batista, pouco mais velho, devia começar a vida como profeta em Jerusalém. Essa data pode coincidir com o afastamento do primo ou com a morte do pai, o que levaria um pobre a procurar trabalho em lugares mais distantes.
~29–30 anos
6. Saturno sobre Ascendente (i.e. Áries, segundo a narração de Mc e Lc). Mudança na forma como se apresenta ao mundo. Nova imagem, novo papel social.
7. Saturno sobre Sol natal (i.e. Peixes, lembrando que a órbita de Saturno vale por 29,5 anos terrestres). Período de amadurecimento forçado. Responsabilidades novas, possível crise de identidade ou redefinição de propósito.
8. Saturno sobre Saturno natal. Sensação de "prestar contas" com a vida. Decisões estruturais.
Este parece ter sido o início do curto ministério de Jesus (23 d.C.), a partir de Seu re-encontro com João Batista em Jerusalém. Nada é falado sobre Jesus antes de Seu ministério, o que significa que Ele não era uma pessoa em evidência. Havia frequentes profetas na Galiléia, Samaria e Judéia, mas Jesus não era alguém de quem se falasse. Lucas teria observado isso, se acontecesse. João, por outro lado, era alguém notado: seu enfrentamento ao rei Herodes Antipas (filho de Herodes I), a prisão e decapitação certamente mostraram a Jesus um mundo perigoso para quem se destaca. Mas talvez a ligação com o primo o tenha inspirado de alguma forma para o lado da contravenção ao sistema religioso. Jesus começa a pregar entre os pescadores do lado oeste do lago de Genesaré. Ali ele reuniu seus 12 seguidores mais próximos.
~36–38 anos
8. Saturno sobre Meio do Céu. Reestruturação profissional. Mudança de carreira, demissão, ou reconhecimento tardio.
Jesus parece ter morrido aos 36-37 anos. Demissão e mudança de carreira seriam um eufemismos terríveis! O reconhecimento tardio ocorreria com os discípulos logo após a Ressurreição, especialmente se lembrarmos a conversão de Tomé/Dídimo (Jo 20:24–29).
~40-42 anos
9. Urano sobre Vênus natal = tensão em relacionamentos, término, traição, ou redefinição de valores afetivos.
10. Urano sobre Marte natal = aumento de energia, impulsividade, conflitos. Vontade de lutar por liberdade.
O Jesus de 41 anos estaria noutro plano, mas seu legado aqui em 35 d.C. devia encontrar os Cristãos se reunindo no Templo, sob a autoridade de Pedro. As traições e términos afetivos poderiam estar ligados ao movimento de perseguição do Sinédrio, em que talvez muitas comunidades tenham sido denunciadas. Vontade de lutar por liberdade está perfeitamente alinhado com a cisão inevitável do Judaísmo.
~42-45 anos
11. Urano sobre Sol natal = vontade súbita de mudar tudo, ruptura com situação antiga, decisão impulsiva, renascimento.
12. Urano sobre Lua natal = instabilidade emocional, mudança de casa, fim de relacionamento ou necessidade de espaço.
13. Netuno sobre Sol natal = crise de identidade, sensação de dissolução, busca espiritual, confusão sobre propósito.
14. Netuno sobre Lua natal = sensibilidade extrema, sonhos vívidos, intuição forte, ou fuga da realidade.
15. Netuno sobre Vênus natal = idealização amorosa, paixão platônica, desilusão, ou entrega espiritual.
Jesus aos 42-45 anos.. Para qualquer outra pessoa, seria hilário ou assombroso pensar isso depois da morte. Mas Ele era o Filho ressuscitado, parte do Pai e do Espírito Santo imortais. Para Ele faz sentido! Renascimento é extremamente sugestivo, mas pode ser simbólico. Em 37 d.C., pouco depois da morte e Ressurreição de Jesus (bom, não sabemos quando foi essa última, mas a falta de relatos sugere pouco tempo entre ambas), o Cristianismo certamente estava se estruturando. Pedro fazia milagres. Havia discípulos como Ananias, na Síria, prontos a acolher fugitivos. Paulo estaria por volta da sua famosa viagem entre Jerusalém e Damasco/Síria, quando uma luz o cegou e Estevão estaria dando seu inflamado testemunho, que Lucas registrou. Seria esse o início do Cristianismo fora do Templo, fora de Israel inclusive, começando a separar-se do Judaísmo. Os apóstolos haviam se dividido, Tomé talvez estivesse a caminho da Índia.
"Sensibilidade extrema", "impulsividade" e "fuga da realidade" dão algo para se pensar. Profecias vãs? Estresse e paranóia? Idealismo sobre um reino de Deus que não havia se cumprido ainda? Mateus apresentou Jesus como um Messias, um ser divino que viria para derrubar Roma armado de todos os poderes celestiais. João trouxe um sábio amoroso que misturava os mundos material e espiritual, que dava significados à realidade comum. Mas nenhum Evangelho existia ainda, e Paulo estaria perto de começar a escrever sua cristologia bem greco-romana de busca pela perfeição. De qualquer forma, não havia mais o Messias curando, multiplicando alimentos, ressuscitando mortos. Não havia mais o Cristianismo de convivência diária da beira do lago, ou de andanças pela Samaria. Alguns grupos organizados principalmente por Paulo se dedicavam a compartilhar, a doar de cada um para todos os demais, mas ele mesmo perceberia que isso era difícil de manter. Os profetas tendem a ser tõ mais visíveis quanto forem exóticas as suas previsões, e não faltaram movimentos messiânicos pós-Jesus.
Desilusão? Paixão platônica? De fato, os apaixonados por Jesus só poderiam fazer isso de forma platônica. Idealizada, sem a presença real do mestre. Não deve ter sido simples para os discípulos ficarem sozinhos. Mas, como no famoso livro "When the prophecy fails"², reestruturações são possíveis. Embora se falasse de ressurreição, muitos estavam morrendo e não voltando. Talvez fosse a crise do credo, que precisaria existir e continuar, mas agora com pessoas diversas falando pelo Messias, e não mais Ele próprio. Embora a fé antiga, pé na margem do lago, estivesse fadada a morrer, surgia um proselitismo que faria o Cristianismo expandir por toda volta do Mediterrâneo em pouco menos de 200 anos. No séc. 3, já haveriam templos dedicados a Jesus, apesar de uma crescente perseguição do Estado Romano. E muitos do Estado também já se aliavam ao novo culto, que misturava em proporções variadas de Zeus, Javé, Mithra e Jesus. A entrega espiritual e os conflitos seriam inevitáveis.
~40-50 anos
16. Plutão sobre Sol natal = transformação profunda, perda de poder, renascimento, ou confronto com sombras.
17. Plutão sobre Lua natal = crise emocional intensa, luto, fim de ciclo, ou transformação da vida familiar.
18. Plutão sobre Vênus natal = obsessão amorosa, relacionamento intenso que transforma ou destrói, ciúme, poder, paixão.
19. Plutão sobre Saturno natal = reestruturação forçada, fim de uma estrutura de vida, reconstrução a partir do zero.
Aos 45 anos de Jesus, por volta de 39-40 d.C., Paulo devia andar pela Síria elaborando seus primeiros materiais, que levaria a Pedro junto com um discípulo chamado João Marcos. Jesus não seria mais um homem andando sobre a Terra, como Pedro contava, mas uma filosofia, um ideal moral e psicológico a ser alcançado. O Jesus de Paulo não era homem, era o Cristo justo, perfeito, fonte de toda Graça.
Um tanto longe da teologia, quem lê essas previsões 'plutônicas' fica com a idéia de um Jesus derrotado, curtindo a amargura de seu fim como líder, como símbolo, e resgatado por um amor poderoso, consumidor e desafiador. Fica sinceramente difícil interpretar a partir daqui: lendo as previsões, parece que Jesus deixou a Trindade, perdeu o Reino e foi morar sozinho com sua grande paixão, que tinha poder sobre Ele. Uma alternativa (nossa única) é trazer isso aqui para baixo, como fizemos até agora. Não temos informações sobre Maria os seus irmãos de Jesus, mas sabemos que os discípulos começaram suas peregrinações. De alguma forma, assumiram missões obsessivas, de paixão e ciúme. Cristãos já então disputavam espaço com outros Cristãos por carregarem tradições diferentes, que somente seriam unificadas muito mais tarde, e não por meios tranquilos. Quanto ao fim do Reino, de tudo, não há como negar que o Cristianismo mudou. E mudaria ainda mais em 64 d.C. com Roma assumindo a perseguição tanto a Cristãos como Judeus.
A mudança nos é paradoxalmente ensinada como continuidade, mas penso que o mapa astrológico fala diferente sobre isso. Nos tempos de Jesus, havia um mestre (no sentido de 'ensinador') andando pelas comunidades pobres, de vez enquanto jantando com ricos, mas essencialmente ensinando as pessoas como fazer o que era certo. Não para serem ricas ou poderosas, nem mesmo para serem levadas ao Céu, mas porque aquilo era o que Deus esperava delas. Parecia o 'jeito bom de se viver' e ele não incluía sequer as regras judaicas, mas somente amor e fé: os conflitos de Jesus com os Fariseus eram justamente por isso. A morte de Jesus trocou essa orientação de mãos: ela foi para Pedro, talvez um dos mais brutos em sua juventude, foi para Paulo, o pensador grego, foi para líderes comunitários escondidos das autoridades, bispos, chefes nomeados pelo Estado, chefes nomeando o Estado. Desde Pedro e Paulo, as regras judaicas entraram na Igreja Cristã como se uma crença fosse a continuidade da outra (e temos a Bíblia com Velho e Novo Testamentos encadernados juntos - no caso da Protestante, com 400 anos entre um e outro), até que conviver não fosse mais possível. Não era isso que Jesus fazia. Ele não via Seu grupo como mais que Seu grupo. Não deixava de falar em Sinagogas, não deixava de ir ao Templo, não evitava pisar as terras de Gregos ou jantar com Romanos. Seu grupo não tinha fronteiras geográficas, nem de nascimento, nem de qualquer coisa exceto a capacidade de estar junto.
Por isso, talvez 39-40 d.C. representasse realmente um fim do Cristianismo-de-Jesus e o começo do Cristianismo-Religião. O fim de um grupo que seguia o mestre e o começo de algo que evolui sozinho, com muitos mestres, distanciado de resolver problemas práticos com base em 'amor e fé' para estabelecer regras que diriam quem pode estar no grupo, e sem se propor a resolver problemas reais. O grupo pelo grupo, porque Jesus mandou e disse que mandaria ao Inferno (literalmente o Hades grego) quem ficasse de fora. Podemos dizer que o medo do Inferno se tornou uma força motriz da Igreja, embora Pedro e Paulo não tivessem razões para fazer essa inclusão. Confronto com sombras!
Resta entender melhor esse amor 'plutônico', forte, ciumento, possessivo. Como disse antes, isso tudo é um exercício imaginativo. Seria tentador pensar no recomeço do Cristianismo como a formação de comunidades com regras próprias. Em suas cartas, Paulo diversas vezes repreende as comunidades fundadas por ele mesmo porque se desviaram dos ensinamentos, criaram divisões, toleraram imoralidades de pessoas com poder social, privilegiaram os mais ricos, foram exibicionistas (Corinto), professaram falsos ensinamentos e legalismos (Galácia), preguiça (Tessalônica), mentira, ira, roubos, crença em rituais purificadores (Éfeso e Colossos), regras de pureza e disputas internas (Roma e Filipos). Esse panorama mostra uma igreja inicial já dividida e certamente bem distante do 'amor e fé' de Jesus. Hoje, não duvido que uma mesma igreja, ou todas, se adequem a todas as repreensões de Paulo. Um amor pelos fiéis que é forte, mas doentio, ciumento e destruidor a ponto de que os 'desigrejados' são o grupo Cristão em crescimento mais virtuoso.
Esse exercício de ajustar uma história a uma previsão é chamado de storytelling. Basicamente, inventar uma estória convincente. Como disse no começo, as previsões de pessoas diferentes com nascimentos diferentes podem se ajustar perfeitamente, porque tentamos harmonizar duas informações distintas: uma previsão vaga (sem nomes, eventos, datas ou lugares específicos) com a biografia de alguém. Somente procurei fazer isso da forma que fosse menos fantasiosa possível, mas sempre tem fantasia envolvida. A parte assustadora disso tudo é que há boa margem de exatidão e temos previsões compatíveis com a vida do Jesus-humano, nascido em 17/04/6 a.C. (8 de 19, não são tantas assim), mas também muitas (11 de 19) que se adequam com o Jesus-Cristo, a figura idolatrada imaginária e ideal que guia a Igreja. Estaria Jesus diluído nisso tudo, depois de tanto tempo? Agora não parece tão bonito. E, não sendo previsões do Cristo mas de Jesus (se pensarmos em alguém que não está morto), o que se esperaria disso? Onde esse moço tem andado? Namorando pelo Cosmos?
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¹ A constelação de Peixes é composta, segundo descrições que remontam ao séc. 9, como um grupo de pelo menos 10 estrelas. A mais próxima delas está a 45 anos-luz (LY) do Sol, 5 estão a cerca de 100-170 LY, 3 estão a 280-350 LY e 1 está a 400 LY. São distâncias tão variáveis que não há como pensar em alguma interação gravitacional que mantenha elas todas 'agrupadas' mais do que agruparia toda a Via Láctea. Ou seja, são estrelas de grupos diferentes que, simplesmente pela imaginação dos antigos, foram juntadas na figura de dois peixes. E o peixe, sem nenhum significado fora da Terra (ou da água) tem seu simbolismo qualitativo como animal de cardume, comida, fruto da água, fartura, etc, dependendo da cultura. No Cristianismo, até ganha o significado de Ichthys (Iesous CHristos THeou), figura usada pelos Cristãos antigos como código, além de Jesus ter iniciado seu ministério junto a pescadores do lago de Genesaré (mar da Galiléia).
² "When Prophecy Fails" (1956), de Leon Festinger, Henry Riecken e Stanley Schachter. O livro conta sobre uma seita apocalíptica estadounidense liderada por Dorothy Martin, que receberia mensagens telepáticas de alienígenas do planeta "Clarion". Pelas mensagens, a Terra seria destruída por uma grande enchente precisamente em 21 de dezembro de 1954, sendo os fiéis resgatados à meia-noite por discos voadores. Nessa noite, a hora marcada passou, nenhum disco voador apareceu e o mundo não acabou. Mas, em vez de admitirem que estavam errados ou abandonarem a crença (o que geraria uma dor cognitiva insuportável por terem largado empregos e bens), os membros começaram a re-significar. Uma "nova mensagem" informou que Deus havia poupado o mundo por causa da luz e fé daquele pequeno grupo, que passou pregar e recrutar outras pessoas com muito mais intensidade. A seita se dispersou com o adoecimento e morte de sua líder, entre os anos 1980-90.

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