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sábado, 7 de setembro de 2019

Cristianismo com conservantes

Camp Zachary Taylor em Louisville, Kentucky/EUA, próximo à 1ª Guerra. Soldados Cristãos enforcando uma criança negra (provavelmente Cristã também). Resultado de algum crime racial, segundo a lei. Os sorrisos são pela santidade do ato. 

Recentemente, temos assistido ondas de Conservadorismo pelo mundo. Em uma pesquisa recente da Ipsos, 94% dos brasileiros disseram há menos de 1 ano que não se sentem representados por seus políticos. A crise econômica consumiu¹ o Brasil, então houve uma mudança notável nas atitudes políticas, sociais e religiosas. A mudança é particularmente evidente em questões de lei e ordem: hoje, mais brasileiros são a favor da legalização de execuções, menor idade penal e fim da liberdade condicional para indivíduos que cometem crimes hediondos.

Essa mudança para a direita foi acompanhada por um crescimento maciço nas igrejas evangélicas Históricas e Pentecostais, que constituem a maior parte do protestantismo brasileiro. A porcentagem de pessoas que se identificaram como evangélicas no Brasil cresceu de 6,6% em 1980 para 22,2% em 2010. A imensa maioria desses novos fiéis migra do Catolicismo para igrejas comandadas por televangelistas, mas um crescimento semelhante é observado entre os jovens que se declaram Ateus ou Agnósticos.

A opção pelo Conservadorismo então se deve a pelo menos duas causas simultâneas: a invasão do setor religioso pelas mega-congregações dos televangelistas e a crise econômica. Ambos são fortes impulsores culturais: as igrejas Neopentecostais se valem de mídia e estratégias empresariais de propaganda, incluindo inserção política. Ao introduzirem sua própria versão de cultura, chegam aos evangélicos de outras congregações e aos não-evangélicos através de discursos políticos, programas de TV, novelas, cinema, etc. A crise econômica, embora não seja novidade no Brasil, perturba muito o funcionamento das famílias e tradicionalmente abre caminho para a eleição de políticos Conservadores (ex. Getúlio Vargas, movimentos pró-militarismo, etc). Nesse momento, a crise encontra com candidatos ávidos pelo voto evangélico, fortemente regulado pelas congregações Neopentecostais.

Conservadores Cristãos

O Conservadorismo é uma filosofia que valoriza tradição, imperfeição humana, hierarquia e direitos de propriedade. Os conservadores apostam em organizações enraizadas na Idade Média, que justificam o favorecimento de uns em prejuízo de outros, como centralização estatal, hierarquias, corporativismo, militarismo, sacrifício de direitos pelo bem-estar social, senso de moral mais importante que os indivíduos. Trata-se de um conceito bastante volúvel: o Cristianismo foi considerado revolucionário pelos judeus do séc. 1, mas hoje se baseia em conceitos do séc. 19 e início do séc. 20 para se opor (como forma conservadora de ser) a filosofias liberais demais, como a Teologia da Libertação.

Sem dúvida podemos traçar uma linha de modificações evolutivas no Cristianismo, desde seu início. No séc. 1 eram reuniões às escondidas em casas ou no Templo, para falar sobre o amor ao próximo e um culto a Deus que independia de lugar físico. No séc. 3 representou a assimilação da mitologia hebraica por povos gentios, ao mesmo tempo em que os Cristãos deviam jurar sua fé, pois podiam ser presos e mortos. Nos séc. 4 e 5, tornou-se o ensino religioso da Europa e Oriente Médio, com templos e alianças políticas. Entre os sécs. 6 e 15, o Cristianismo assimilou tradições européias e gregas, ganhando ares diferentes em cada parte do mundo. Torturavam-se e queimavam-se os hereges, para vingar seus pecados ou riquezas negadas à Igreja. Houveram vertentes nórdicas, romana e bizantina, que chegaram a combater militarmente entre si. No séc. 15, o Cristianismo voltou à África e chegou às Américas. Nesse intervalo de tempo, lutava-se e morria-se para ganhar terras para Cristo (que era a mesma coisa que o rei), a despeito de matar todos ali. Nos sécs. 16 e 17 era importante interpretar corretamente a Bíblia, os dissidentes mereciam morrer. Ainda assim, proliferaram as misturas de Cristianismo com paganismos afro e europeus. Do séc. 18 em diante, o Cristianismo fez-se um oponente do Cientificismo, pois a verdade de Deus não combinava com as deduções lógicas dos homens: a Terra não podia ser redonda, não podia rodear o Sol, médicos eram profanos. No séc. 20, uniu-se a governos totalitários como controlador das populações, não faltando quem comandasse movimentos religiosos libertários. Um Cristão do séc. 1, pronto a despir-se de todo bem material e andar pelo mundo pregando o amor ao próximo e a divindade de Cristo não seria bem visto pelos televangelistas em seus salões imensos, fazendo exorcismos afro mediante transferência bancária.

Essa linha de modificações gerou continuamente Conservadores e Liberais, com o 1º grupo defendendo o estado anterior do Cristianismo e o 2º grupo o estado subsequente. Embora se tenda a valorizar o estado primal do Cristianismo, ele já foi perdido há muito. Atualmente e no Brasil, o Cristianismo encontra-se fendido entre Neopentecostais e Católicos. Boa parte da juventude de um e outro grupo migra lentamente para o Ateísmo, descontentes com um mundo religioso onde a Palavra e a Obra não se encaixam.

Os Católicos, estruturados entre a monarquia européia no séc. 9, sempre foram uma vertente Conservadora. Esse direcionamento mudou com o Concílio Vaticano II (1962-1965). A partir de então, Roma assumiu uma linha Liberal liderada por Xavier Plassat e Henri Burin des Roziers, que se dedicaram à defesa de grupos sem-terra. O arcebispo de Recife, Dom Helder Câmara, chegou a habitar uma casa modesta nas favelas da cidade para estar mais próximo das preocupações dos pobres. Mas o movimento Católico não foi em uníssono: na América Latina, o cerne da Igreja Católica se manteve Conservador e aliado aos governos ditatoriais, enquanto os mais Liberais como Gustavo Gutiérrez e Samuel Escobar (Peru), Leonardo Boff (Brasil), Juan Luis Segundo (Uruguay), Jon Sobrino (Espanha), René Padilla (Equador) e Orlando Enrique Costas (Porto Rico) se uniram para formar grupos de defesa dos mais pobres contra seus governos. Vários desse grupo foram perseguidos ou assassinados. Com o fim das ditaduras militares, a Igreja Católica voltou-se mais aos pobres e necessitados, mas já era tarde.

Os Neopentecostais se difundiram entre as camadas populares mais baixas a partir dos anos 1980, inicialmente como Liberais, mas ganhando logo os ares empresariais que levariam ao controle de redes de televisão e até partidos políticos. Seus atores no cenário público foram chamados “de Cristo”: “atletas de Cristo”, “artistas de Cristo”, “políticos de Cristo”, o que lhes empresta um título de credibilidade. Dedicaram-se a conquistar viciados em drogas, alcoólatras, doentes e mães solteiras que os Católicos haviam evitado, incluindo-os, bem curiosamente, dentro do Conservadorismo. Tendo a Igreja como forma de inclusão social, as classes mais pobres rapidamente aderiram a uma estrutura de governo que culpabiliza os menos favorecidos e pressiona seus semelhantes para a parte mais baixa da pirâmide de renda, onde a única “saída” é a inserção na Igreja. Da Igreja virá seu milagre financeiro, sua aprovação perante Deus.

A atuação dos Conservadores

"É o mesmo Deus que, na plenitude dos tempos, envia seu Filho para que, feito carne, venha libertar todos os homens, de todas as escravidões a que o pecado os sujeita: a fome, a miséria, a opressão e a ignorância, numa palavra, a injustiça que tem sua origem no egoísmo humano (Jo 8,32-34). Por isso, para nossa verdadeira libertação, todos os homens necessitam de profunda conversão para que chegue a nós o 'Reino de justiça, de amor e de paz'”. (Medellín - Colômbia, 1968)

Chama-nos a atenção este pequeno texto escrito pelos bispos na Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-americano em 1968. Mais de 50 anos depois, acontecimentos recentes retratam o uso da violência, da mentira e do medo de boatos como meios supostamente “indispensáveis” para garantir a liberdade do povo e a governabilidade.

Em sua quase totalidade, os Conservadores vêem Deus na moralidade, na “forma correta” de ser e de viver. Essa base não julga os líderes, corretos por definição, mas apenas aos mais baixos na escala. Não é diferente da posição dos Fariseus nos tempos de Jesus, dos Bizantinos, dos obreiros da Inquisição. A “forma correta”, hoje defendida como o diamante da teologia em algumas congregações, tem uma base muito política e organizadora da sociedade: se há regras precisas, há quem faça tais regras (geralmente por uma interpretação mais creditável da Bíblia), que esteja suficientemente próximo da casta dos Numes ou nobres, e que possua assim o controle ou guia do povo. Não são os Cristãos comuns, entretanto, nem os de sandália, sem capas e alforges que Jesus enviava: em todo tempo da Cristandade, pelo menos do séc. 4 em diante, os líderes do Cristianismo sempre foram das famílias mais ricas e poderosas. O Conservadorismo trabalha pela manutenção desses líderes, essenciais à ordem pública, que representam um compromisso em manter a sacralidade das propriedades, hierarquias, distinções e dinheiro. Não é uma questão de direito, mas de merecimento; e merecimento por onde Deus escolheu que você nascesse.

Essa forma de organizar o pensamento e a sociedade garante que o Reino de Deus não seja aquele Liberal, desvelado no Sermão da Montanha ou na lavagem dos pés dos seguidores, por Jesus, mas seja garantido ao “jovem rico” desde seu nascimento, que de outra forma não teria como alcançá-lo pelos meios de Cristo. Hoje, sobretudo no meio Neopentecostal, tanto televangelistas como seus mais confiáveis e mais influentes estão entre os grandes empresários brasileiros. Antes da Revolução Francesa, era de praxe que o alto clero Católico fosse de famílias nobres, possuidoras de grandes propriedades e até exércitos. O grande milagre da fé, então, se torna que os mais pobres e oprimidos se façam coniventes e apoiadores desse sistema, vendo Jesus como o filho humilde e benfazejo de Deus, porém herdeiro de todas as riquezas, que passeia por cidades de ouro e esmeraldas. Os pobres próximos a esse nobre o exaltam e obedecem, os ricos sentem-se aceitos em sua companhia, e ações contra ele tornam-se obra do Maligno.

Conservadorismo nos baixos níveis

A imensa maioria dos brasileiros Cristãos, sejam Católicos, Protestantes Tradicionais ou Neopentecostais, não faz a menor idéia de como ou porque um certo tipo de pregação chega a sua igreja, ao mesmo tempo que chega em centenas ou milhares de outras. Também desconhecem qualquer história do Cristianismo, transpondo o texto bíblico de 3 ou 2 mil anos atrás no Oriente Médio para o Brasil atual, como se fosse uma espécie de continuidade, um jornal de ontem. A situação mais comum é que se lhes tragam uma idéia, já garantida pela credibilidade do sacerdote, que está ligada a alguma imposição de Deus no Velho Testamento, uma visão profética ou uma necessidade premente nesses últimos dias da Terra. Às vezes, alguns testemunhos pessoais emocionados dão abertura para falar de assuntos como o pecado de roupas ou cabelos curtos (uma versão moderna do pecado de tecidos diferentes, de Levítico), da bebida (não está na Bíblia, mas na Confissão de Fé da igreja, o que é equivalente), de algum ícone demoníaco da Disney (certamente um sinal da besta) ou de uma novela que converte crianças em homossexuais (está lá, em Levítico).

No Brasil, não é comum que os Cristãos sirvam-se de literatura ou websites feitos para esse público. Aqui, o filtro de informações se faz principalmente por seleção de emissoras de TV aberta e os contatos em minúsculas mensagens, fotos comentadas ou vídeos repetidos exaustivamente nas redes sociais. Boa parte dos usuários dessas redes são analfabetos funcionais. No 1º mundo, entretanto, os canais pagos, jornais e websites Cristãos são poderosos formadores de opinião nesse público, geralmente atento aos pronunciamentos de irmãos empresários, artistas ou políticos.

As "notícias Conservadoras do evangelho" contam histórias sobre ativistas anti-aborto e as "conversões" de gays em heterossexuais, acontecimentos em Israel, escavações arqueológicas da Arca de Noé ou alguma cidade tomada pelos hebreus no livro de Josué. Direitos LGBT, aborto e legalização de drogas são regularmente enquadrados como ameaças ao modo de vida Cristão. Por exemplo, vários desses sites no Brasil fizeram campanha para o pregador e inflamatório Marco Feliciano presidir a comissão de direitos humanos no Congresso. Não pelo seu alinhamento com decisões históricas sobre direitos humanos na ONU ou Haia², mas por um posicionamento bastante inflexível e velhotestamentário sobre diversas questões.

O Instituto Lifeway costuma realizar pesquisas de opinião pública e trouxe algumas visões de religiosos sobre várias questões. Os Cristãos basicamente acreditam no Céu e que as pessoas por natureza são boas e cometem pequenos pecados (mas eles próprios apóiam medidas drásticas para manutenção da ordem). Também discordam quanto à existência do Inferno (essa é mais uma crenças dos Católicos), mas afirmam a fé Jesus como única forma de Salvação (embora, como discutido previamente, discordem radicalmente Dele acerca de quem herdará o Reino). Os Evangélicos, em especial, acreditam em uma Graça divina que é imerecida, mas precisa ser invocada pela pessoa através de sua filiação a uma igreja. A frequência ao templo (denominado Casa de Deus) é um indicativo da ligação entre a pessoa e Deus e, portanto, de Deus com a pessoa. Quanto à igreja ou o pastor como formadores de opinião, os Cristãos são variados: no Brasil, em especial, foi esmagador o peso do voto Cristão a favor de medidas conservadoras, mesmo que essas fossem contra a direção da Igreja (Católica).

50% dos Conservadores duvidam do aquecimento global, subindo para 85% entre os Evangélicos e indo a 93% entre os Conservadores Evangélicos (curiosamente, esse não é um tema abordado em sermões). 66% dos Conservadores não acredita na necessidade de medidas para preservar o ambiente, o que chega a 75% entre os sem formação superior. Esse público, de baixa formação técnica e Conservador compõe a maioria entre os Protestantes, chegando à quase totalidade entre os Neopentecostais. No Brasil, compõem também grande parte dos Católicos. Lembrando que os Conservadores de hoje já foram os Liberais dos anos 1980, os Liberais de hoje não ocupam nenhuma posição particular em relação ao Cristianismo (uma vez que os Cristãos fizeram uma opção pelo Conservadorismo, mesmo contra suas lideranças, no caso dos Católicos), mas de certa forma encontram-se em posição de serem repelidos.

Iniciativas como a Teologia da Libertação, hoje, encontrarão mais oponentes que nos tempos da Ditadura. Não apenas o Estado militarizado, filiado às necessidades de exploração do país por capitais estrangeiros (o que sempre gerou grandes ganhos entre os governantes, em qualquer parte do mundo); mas também a própria população explorada, pelos quais pretendiam lutar, que através da Igreja adere ao ideal de uma submissão que será eventualmente premiada pelos superiores. Como se o capital não fosse distribuído entre a população pelas regras vigentes, mas viesse talvez do Céu, de acordo com o merecimento de cada um. É a Teologia da Prosperidade evoluída.

Perspectivas


Trata-se de uma apaziguamento social não visto desde a Igreja e o Estado separam-se. No Leste Europeu e na América Latina, onde o Capitalismo não chegou a se intrometer seriamente e a economia basicamente gira em função de empresas estrangeiras, pode-se ganhar algum dinheiro em relação à situação atual. Mas se dependermos do empresariado interno, as Igrejas precisarão trabalhar bastante. Teremos perda completa das tecnologias nacionais e do patrimônio ambiental. É o modelo de “desenvolvimento” atualmente seguido pelos países subsaarianos, onde se vêem as mais altas desigualdades sociais do mundo. E o Estado, inerentemente corrupto (na América Latina isso chega a ser piada), agora partilhará tal corrupção com a Igreja. Nos últimos anos, as denúncias contra pastores lavando dinheiro de políticos têm anunciado isso.

Quanto ao Cristianismo, é uma perda pior do na Idade Média. Lá, eram povos pagãos aceitando um Cristianismo desejoso de dinheiro e poder. Embora a empresa “Igreja” só tenha a crescer nesse modelo, talvez chegue o dia em que Jesus vá à porta do jovem rico pedir-lhe entrada no seu reino. Mas já será o tempo de Ele mesmo ser escorraçado dali pelos novos Fariseus.

A despeito da escolha da foto, ela retrata o comportamento mais Conservador que pude pensar, dos estadounidenses vencedores da Guerra, esmagando os direitos da mesma minoria negra que lutou com eles e constituiu as oposições, na época, ao governo dos antepassados de Trump.

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¹ Como já analisava Karl Marx em seu antigo estudo sobre o Capitalismo, trata-se de um sistema instável. Ele se baseia em que trabalhadores pobres vendam sua mão de obra a empresários ricos. Esses trabalhadores no entanto são os consumidores das empresas e, à medida que empobrecem, também as empresas são danificadas. Atualmente, entra nesse jogo o sistema mundial de créditos, que suplementa o trabalhador com dinheiro virtual em troca de pagamentos parcelados. No fim, isso também sustenta as empresas, mas lembremos que é apenas um outra empresa, maior ainda, tirando lentamente as verbas de trabalhadores e empresas menores, que são seus consumidores. Em algum tempo, ela (ou o sistema de créditos) vai quebrar também.

² Cada país possui seu próprio sistema de leis. No entanto, essas leis podem ser usadas por governantes ou facções contra o próprio povo ou outros povos. Por isso, foi criado um tribunal internacional, baseado em diretivas universais de ética, para julgar líderes políticos. O tribunal de Hague ou Haia (Holanda) foi proposto na Conferência de Paz de Paris em 1919, após a 1ª Guerra. Sua criação no entanto se deu em 1937, pela Liga das Nações (https://www.hrw.org/tag/hague)

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Ao invés de ler, pergunte a posição do seu líder

Aragão J, Pesquisa mostra as heresias mais comuns nas igrejas modernas, Gospelprime.com, 29/out/2014
Augusti W, Padre Ticão, Os cristãos que tentam difamar a Teologia da Libertação e sua missão de paz, Cartacapital.com.br, 22/ago/2019
Castro FA, Precisamos falar sobre o (neo)conservadorismo no Brasil, Justificando.com, 6/nov/2018
Christian right - wikipedia
Conservatism - wikipedia
How the religious typology groups compare.., Pewforum.org, 24/ago/2018
Polimédio C, The rise of the Brazilian Evangelicals, Theatlantic.com, 24/jan/2018
Popovici AF, The Psychology of religious representations, Journal of Experiential Psychotherapy / Revista de PSICHOterapie Experientiala, v. 19, n. 4, 2016
Protestant pastors’ views on the Environment, Lifewayresearch.com, 2013
Souza JMA, Conservadorismo moderno: esboço para uma aproximação. Serviço Social & Sociedade, n. 122, p. 199-223, 2015
The Catholic religion in Brazil, Travel-brazil-selection.com
The Protestant religion in Brazil, Travel-brazil-selection.com
Willians A, Are you ready for the financial crisis of 2019?, Nytimes.com, 10/dez/2018

quinta-feira, 7 de março de 2019

A ignorância e a bênção (Sobre ter sido EVANGÉLICO parte 3)

Pentecostes, do pintor Jesus Mafa, em Camarões, 1973 

Esse texto é uma continuação de A igreja do medo e A santa cultura

Para quem perdeu o começo, essa é a transcrição de um longo desabafo nas redes sociais, que expõe a situação da 1ª geração filha de pais Evangélicos nascida no séc. 21. Alguns dos comentários que se seguiram também foram recolhidos aqui, com correções de ordem gramatical. O texto postado originalmente foi preservado na íntegra.

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Sobre ter sido EVANGÉLICO e como isso f*d@# minha cabeça

Júlio Victor, 14jan2019

13 - Lendo cada vez mais a Bíblia que entendi que as coisas não faziam sentido entre o livro e a igreja. Nisso me tornei o rebelde, questionador e combativo de rolê por LER a BÍBLIA.

#A Conhecimento pra eles é algo tóxico, por isso eles são fechados pra isso. Quanto mais se sabe, mais se questiona. Eles abominam.

#B Eu questionava pra mim porque a religião que faz bem ao outro é do diabo só pq não é igual a minha; e como Deus queria julgar pessoas se elas não tinham tido acesso à palavra. O pastor uma vez disse que essas pessoas não seriam julgadas da mesma forma, porém pra mim era injusto. Questões do feminino (sempre me defini como feminista), questões da ciência que o povo insistia em desfazer (como a da evolução). E como se não bastasse tudo isso, eu ainda me sentia muito f#ck&ng culpada por estar questionando, porque "os teus pensamentos são mais altos que os meus pensamentos" e eu não teria mesmo como entender. Fora os outros milhares de questionamentos que eu tinha, mas não vou falar porque ficaria um livro de 500 páginas.

#C A prática da Igreja Católica criticada pelos Evangélicos, de não ter livre acesso à Bíblia, e a posição privilegiada do padre em sua interpretação, está aí sendo reproduzida.

14 - Detalhe, livro ou literatura alguma na igreja eram incentivados. Na maioria das vezes era demonizado mesmo e era comum ter amigos que até seus 18 anos não tinham lido um livro inteiro (nem a Bíblia).

#A Toda vez que eu peço um livro pra minha mãe, ela manda eu ir ler a Bíblia.

#B Eu fui fazer um trabalho sobre contos de fadas em artes, na 2ª Série, e foi uma polêmica doida na igreja.

#C Eu sempre amei ler, desde criança. Lembro quando era criança com a febre Harry Potter. Um primo da igreja fez terrorismo, disse que era do demônio. Morria de medo. Um pouquinho maior, com uns 12 anos, comecei a ler emprestado e escondido dos meus pais. Minha mãe, quando descobriu, me deu a coleção toda de presente! Ainda bem que tive uma mãe mais aberta, muitos colegas meus da igreja não tiveram isso.

#D Realmente tem Igrejas que não incentivam a leitura, mas no meu caso foi ao contrário. A Fé e a Igreja abriram minha mente. Cheguei na Igreja com 20 anos. Nunca tinha lido um livro completo. A partir da necessidade de ler a Bíblia e conhecer mais sobre a minha nova Fé, entendia que precisa ler Livros (a princípio relacionados com a minha Fé) e depois o desejo de conhecer mais fez eu ir para o seminário. Fui e me formei, o seminário puxou a Filosofia, entendia que precisava continuar estudando, a filosofia acabou puxando a Antropologia. Fiz a Graduação, mas ainda entendo que preciso continuar estudando... É isso que continuo fazendo: passei a Seleção do Mestrado. Tudo começou com a sede de conhecimento que a Igreja despertou e ainda me ajudou custear a Faculdade de Teologia e Filosofia. A Graduação de Antropologia fiz na UFF.

15 - E digo mais, TEOLOGIA nessa igreja era abominável. Eu sei que em várias outras igrejas não era.

#A Na minha, teologia é "permitida", mas fazem todo um terrorismo de que "afasta as pessoas da fé, blá blá blá", ou seja, é algo que na prática só é acessível aos pastores e quem decide procurar por si só.

#B Passei um tempão sendo agnóstica, até descobrir a teologia. E é exatamente por isso que cogito seriamente mudar de denominação. Tenho a ligeira impressão de que é por isso que fazem tanto medo sobre o assunto: estão mais preocupados com números de fiéis enchendo os bancos (e em muitos casos, até dízimo enchendo o bolso) do que compromisso com a verdade.

#C Na igreja que eu congrego, os pastores nos incentivam a estudar sempre a Palavra, estudar teologia, mas com moderação pra não virarmos fanáticos, mas sábios!

22 - Minha mãe brigava comigo por jogar Diablo, RPG, Magic, YuGuiOh, ver Dragon Ball ou qualquer desenho que tivesse chifres, monstros ou qualquer coisa do tipo. Me deixava de castigo e realmente me impedia de me divertir pela ORDEM ALIENANTE da Igreja.

#A A igreja disse para minha mãe que Pokemon Go tá fazendo os jovens fazerem coisas erradas. Perguntei que coisas e ela “Ah, num sei”. Tentou queimar meus ursos de pelúcia porque recebeu pelo WhatsApp que espíritos possuem a pelúcia. E ficou com paranóia de tomar Coca Cola em março e abril porque falaram no WhatsApp que uma irmã teve a visão de que quem tomasse Coca feita nestes meses seria possuído.

#B Já tive problemas parecidos com minha mãe. Meus livros de RPG eu tive que tirar de casa e deixei na casa de um amigo. A mãe dele também era evangélica, mas não mexia no quarto dele. Numa faxina, achou os livros e colocou no fogo.

#C Eu já fui Cristã, era evangélica, hoje não tenho religião. Acredito que possa existir um Deus, só não o demônio. Meu pai é evangélico, raramente vai para a igreja, porém ama c%g%r regras espirituais, e implica comigo por ter saído da igreja. Numa dessas c%g%d%s, um dia, ele foi ao meu quarto pra arrumar a cortina, e viu um livro com o título "Passaporte para o inferno", da Celhia de Lavarène, e já foi dizendo "Que livro é esse? Tira esse livro daqui, livro de maldição, continua mesmo lendo isso pra trazer maldição pra dentro dessa casa". Eu quase morri de raiva e de rir, porque o livro conta a história de uma mulher que trabalhava pela ONU resgatando meninas que se tornaram escravas sexuais.

#D Uma vez, na escola dominical da Maranata, eu disse que amava o Mickey. A professora da classe disse que eu só podia amar a Deus e que o Mickey era um demônio, porque ele não era parecido com nenhum animal. Eu fiquei triste. Tinha 5 anos. Com 6 anos eu descobri que ele era um ratinho.

23 - Isso me fez ter uma infância onde eu me divertia escondido, estudava escondido, era meio IDADE MÉDIA.

#A Minha mãe tinha neuras como essa. Certa vez me proibiu de assistir Chiquititas porque ouviu um pregador dizer que nesse "Chiquititas" simbolizava "Anjos decaídos"... Eu não faço ideia de onde ele tirou isso. Só sei que ela acatou imediatamente e fez da minha vida um inferno, a partir daí.

32 - O que salvou minha vida pra sair da igreja foi o podcast irmãos.com, que inclusive recomendo até hoje. Ele que me mostrou a vida em outras igrejas, a teologia, os tabus, a desconstrução e entendimento bíblico através do CONHECIMENTO. Foi ótimo. Ouvia escondido também.

#A São os caras que gravam pra galera do Missão na Íntegra do Pr. Ariovaldo, Pr. Paulo Borges Jr., Pr Ed René... Muito legal mesmo os podcast dos caras.

35 - Tudo na igreja é dividido entre a dicotomia: IGREJA e MUNDO. As coisas do mundo são de satanás e devem ser abominadas de TAL maneira que você se aliena e acaba caindo em FAKE NEWS.

#A Não aguento mais! Vivo em uma casa onde minha mãe é evangélica e meu pai nunca vai, mas vive com hipocrisias citando partes da Bíblia onde falam sobre respeito de filho com seu pai. Não posso fazer coisas que não são da igreja, escutar músicas que não são da igreja, vestir roupas que o Espírito Santo vá se entristecer, assistir coisas que não sirvam pra "edificação" ou sair pra lugares em que Deus não habite. Com meus 11 anos, morria de medo de tudo, medo do arrebatamento, medo de Deus me matar porque não estava sendo santa o suficiente. Aos meus 16 anos, me revoltei totalmente após ver que a hipocrisia reinava não apenas na minha casa, mas na própria igreja. Já fui chamada de várias coisas pela minha própria mãe apenas por não seguir os dogmas dela. Esses dias, com 17 anos, fui escondida em uma festa. Quando cheguei, minha mãe cortou todas as minhas costas com uma corda, enquanto ela gritava comigo que o meu lugar era na igreja, e não sendo uma prostituta mundana. A pouco tempo descobri que estou com uma forte anemia, avisei a minha mãe e ela veio me falar que era castigo de Deus por eu não obedecer. Literalmente, não aguento mais ir contra meus ideais.

#B Isso me faz lembrar que, na minha igreja, diziam que as crianças de até 11 ou 12 iriam pro céu com certeza, por inocência. A partir de 12 ou 13, a pessoa já iria precisar se vigiar para se manter no Espírito Santo. Depois dos meus 9 anos, eu ficava pensando em me matar para ir pro céu, porque eu sabia que eu não iria conseguir me manter na igreja depois. Só que também diziam que suicida ia pro inferno, então acabei nem fazendo.

36 - Por exemplo, a gente não comia a maionese Hellmann’s pois significava HOMENS DO INFERNO. Tiraram do C@ essa própria burrice, né?

#A Isso porque não deviam conhecer a teoria de que "'Cola Cola lido de trás pra frente é Alô Diabo" (na logo realmente parece, mas f&d*-s#).

#B Santa burrice. "Hellmann's" nem é inglês. Mesmo se fosse, "MAN" tem um "N" só! Posso estar errado, mas tá muito mais pro alemão "homem (Mann) claro (Helles)", isto é, "maionese do branquelo".

37 - Não podia ter ORKUT também, pois o significado da palavra era alguma coisa relacionada ao demônio lá, sei lá, mentira né.

38 - Mais tarde eu descobri que não podia usar Orkut porque lá tinha uma comunidade de ex-membros onde eles jogavam os podres e o conhecimento pro alto. Certamente se alguém caísse naquela comunidade, sairia da igreja facinho. MANIPULAÇÃO.

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Depois de ler os vários testemunhos de leitores do Júlio Victor, imagino que muitos riram e ao mesmo tempo reconheceram alguma esquisitice com a qual teve contato. Esse misticismo, as revelações e profecias de fato estão sendo fartamente distribuídas em Congregações Evangélicas não só no Brasil, mas em todo lugar onde há o Cristianismo misturado com baixa escolaridade. E não era tão diferente no Oriente Médio por onde Paulo e os evangelistas andaram.

Cristianismo & Bíblia

Eu gostaria de nomear 3 pontos com relação a isso. O primeiro é que a Bíblia se propõe - e sobretudo para o Novo Testamento isso precisa ser efetivo - a ser o cerne do Cristianismo. Isto é, sem doutrina do Novo Testamento, como falamos em um Cristianismo? Faço essa observação principalmente pelo largo emprego do Velho Testamento e fontes extra-bíblicas, tais como textos de religiosos, mídia, etc no funcionamento atual das igrejas brasileiras. Arrisco dizer que boa parte dos Cristãos sequer saberia enumerar os livros ou personagens do Novo Testamento.

O segundo ponto, que enfraquece o primeiro, é a permissão bíblica quanto a uma variabilidade de interpretações. Já houve muitas guerras entre Cristãos por causa disso. Há pontos teológicos contrários no Velho e no Novo Testamento, como por exemplo a graça divina por perfeição comportamental do homem ou como favor imerecido. Sendo Cristão, sou levado a escolher o último, do Novo Testamento. O teólogo estadounidense Wayne Grudem escreveu: “Existem apenas duas causas possíveis para as discordâncias [sobre Deus]: (1) Por um lado, pode ser que estejamos buscando fazer afirmações onde a própria Escritura está em silêncio. Em tais casos, devemos estar mais do que prontos para admitir que Deus não nos deu a resposta para nossa busca e permite as diferenças dentro da igreja. (2) Por outro lado, é possível que tenhamos cometido erros em nossa interpretação das Escrituras.

Sim, há discrepâncias quanto às narrativas dos Evangelhos! Por exemplo, sobre a última ceia: foi uma pregação sobre pão e vinho, como pintado por Leonardo da Vinci - vide Paulo, Marcos e Lucas, todos colegas de viagem - ou uma lição sobre humildade na lavagem dos pés de Pedro - vide João? E também sobre o que Jesus fez depois de ressuscitado: um mandamento sobre pregar a todas as nações, sem (Mateus 28.19) ou com superpoderes (Marcos 16.15-18), aparecendo para jantar e iluminar (Lucas 24.36-45), ou assando peixes para dar as últimas instruções a Pedro (João 21.11-17)?). Paulo, doutrinador registrado das primeiras congregações, dava bastante liberdade aos cultos¹, desde que compreendessem Jesus como perdão dos pecados e conexão entre do Homem com Deus. Como o Protestantismo sempre prezou pelo contato entre os crentes e a Bíblia, devemos estar respeitosamente preparados para tratar com muitas concepções.

O terceiro ponto é a presença, desde o início do Cristianismo, de visões e instruções espirituais aos crentes. Paulo afirma que seu conhecimento do Evangelho não veio por homens, mas pelo próprio Cristo (Gálatas 1.11,12). Ele recomenda examinar as informações espirituais e comparar com o ensino que ele dera as igrejas (mas elas não dispunham de 4 evangelhos e várias tantas cartas apostólicas em mãos, para perguntar "todos esses?"). Se pensarmos em uma fonte comum para todos os textos - inspirados, mas redigidos por homens - e as visões ou inspirações dadas diretamente pelo Espírito Santo, vamos ter de refletir um tanto antes de dizer qual é melhor, no caso de uma discordância. A meditação é válida e recomendada pelo mais sábio dos sábios, o rei Salomão (séc. 10 a.C.). Não podemos simplesmente desprezar as experiências Pentecostais com o divino, ainda mais porque elas pregam uma ação prática de Deus sobre os homens, mas devemos avaliar elas junto dos textos bíblicos antes de simplesmente sair reproduzindo.

Informantes e desinformados

Depois disso, há algo nas conversas dos leitores do Júlio Victor que chama muito a atenção. São as fontes de informação como Whatsapp, 'ouviu uma irmã dizer', etc. É surpreendente a facilidade com que os Evangélicos brasileiros aceitam novas informações religiosas, sendo "meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente" (Efésios 4.14). Não é saudável acreditar em tudo, especialmente em assuntos de fé, que tratam do que não se vê.

Do lado bom da escala de validade das informações podemos colocar em primeiro as Escrituras; depois as obras teológicas de grandes fundadores das igrejas (ex. Lutero, Calvino, Armínio, Santo Agostinho, etc)³; num ponto intermediário estão as pregações e os veículos de mídia oficiais com grande abrangência; e noutro extremo (ruim) ficam os boatos circulando, sem discussão teológica nem nada, e ainda abaixo disso os tabus não comentados, porém praticados. Precisamos nos sustentar nas obras melhores, favorecendo o material de alta qualidade e filtrando severamente as coisas de baixa qualidade (ex. boatos). Mas o acesso a um e outro estão ligados ao nível de escolaridade das pessoas. Lembremos que Paulo, altamente intelectualizado, deixou uma série de cartas normativas das igrejas, enquanto Pedro, pescador, deixou apenas uma tradição.

O grande problema com as fontes de informação de baixo valor é a sua falta de confiabilidade, falta de experimentação ou reflexão, e abundância de achismos tidos como verdade. O célebre Umberto Eco dizia, sobre isso, que a internet elevou todos os discursantes a um mesmo patamar: "Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel". Talvez não seja só a internet que faça isso, pois muitas conversas repletas de invencionices ganham facilmente valor no universo Evangélico/Pentecostal se vierem associadas às expressões "eis que te digo" ou "Deus mandou te dizer".

A valorização de ensino espiritual ou extra-bíblico (que é algo legitimamente Cristão) e também o desconhecimento da Bíblia, em especial do Novo Testamento, ajudam muito que os blá-blá-blás ganhem força. O jornalista Leonardo Sakamoto, em um artigo, emendou que, ao igualarmos todas as fontes de informação, fazemos com que pesquisas científicas sérias e, no caso, estruturas teológicas centenárias ou construídas por renomados estudioso sejam "derrubadas" pela “verdade” mais conveniente ou mais chamativa.

Ninguém espera que um novo Cristão, ou alguém recém introduzido na Congregação, tenha o entendimento de obras teológicas. Nem mesmo das filosofias que Paulo discute em suas cartas para as igrejas. Mas as pessoas com esse conhecimento devem existir (pode até ser apenas o pastor, numa primeira fase) e devem fazer esse trabalho de "digerir e ensinar" para os demais, para que a congregação cresça em sabedoria. Era isso que Jesus fazia em suas parábolas e foi isso que Paulo fez em suas cartas. Quantos Cristãos tiveram acesso ou conhecem as obras teológicas dos fundadores de suas igrejas? Bem poucos.

Raríssimos Evangélicos brasileiros saberiam dizer o que foi a Reforma Protestante². A maioria se alimenta das informações em sermões e publicações internas (um nível de qualidade mediano) ou de boatos e tabus (nível de qualidade ruim), porque os "doutores na fé" não fazem seu trabalho de educadores da congregação. Enquanto as igrejas Evangélicas deixarem cada um escolher o seu material de estudo ou até investirem nos piores meios, pois são mais fáceis de veicular, alimentaremos uma turba de ignorantes que facilmente ajoelha para orar por qualquer coisa ou toma pedras nas mãos para executar alguém. Não é nem de longe a sabedoria e amor que Paulo aconselhava.

Tentando entender essa busca dos Evangélicos pela revelação extra-bíblica, R. Menezes anotou algumas razões que devem ser lembradas: (1) Influência de elementos paganizados do catolicismo romano; (2) Influência de elementos litúrgicos afro-indígenas; (3) Influência da renovação carismática, subsequentemente dos pentecostais; (4) Analfabetismo total e funcional da nação; (5) Maioria feminina nas congregações; (6) A busca de uma identidade e posicionamento social dos crentes, sobretudo nas classes mais pobres; (7) A busca por soluções imediatas. Eu até adicionaria a estratégia ansiogênica de pregação Evangélica. Isto é, prega-se o perigo iminente do Arrebatamento, do Apocalipse e do mal que anda ao redor, ao invés de apresentar Cristo na solução dos problemas sociais e cotidianos.

A diferença de uma coisa e outra está no fato de que, pregando o perigo iminente, deixamos as pessoas desesperadas por identificar o mal, sem ter uma solução para ele. O mal então pode ser apontado em qualquer um, no título de um livro, num vidro de maionese. Ao não mostrarmos a atitude Cristã na solução de problemas, deixamos ainda as pessoas sem saber “o que fazer com Cristo”. Muitos Cristãos só lembram Dele no culto.

O que fazemos e o que desfazemos

Outro ponto complexo é a exposição às “tentações mundanas”. Mesmo grupos claramente aderentes ao que H. R. Niebhur chama de “a igreja contra a cultura” estão imersos no mundo não Evangélico, não Protestante, e não Cristão. Ao manter os jovens dentro de uma bolha cultural Cristã (imperfeita), acabamos por não deixar aos jovens a opção de serem Cristãos. Simplesmente porque se torna cultural e não opcional.

É quase como enaltecer alguém por ter nascido rico ou pobre, saudável ou doente. Nenhum destes foi escolhido! Além disso, Jesus e Paulo não se opuseram a estrutura culturais mesmo vivendo em sociedades formadas por Judeus Essênios, Judeus Fariseus, Romanos, Gregos, Sírios, etc. A oposição que vemos em Jesus é justamente contra os Fariseus, então líderes espirituais de grande parcela dos Judeus e do próprio templo onde Ele, Paulo e Pedro congregavam. Evidentemente que o Cristianismo traz a premissa de uma Salvação única, um caminho único para satisfazer a Deus e se aproximar Dele, mas esse caminho não é tão estrito (pelo menos a Bíblia traz e permite diversas interpretações) nem é apresentado como algo que deva ser enfiado goela abaixo dos crentes.

Por incrível que pareça, as igrejas em todo o mundo fizeram opções erradas quanto ao que olham em seus fieis. Seria difícil dizer quando isso começou, mas provavelmente foi quando as congregações passaram a conviver (já não como irmãs, antes eram inimigas mortais) e disputar as almas ao redor de si. No 1° mundo, onde as pessoas tem muito mais do que precisam, as necessidades das pessoas tornaram-se desejos e caprichos; a igreja escolhida então é aquela que realiza esses caprichos, para os quais a alma humana é geniosa e prodigiosamente inventiva. No 3° mundo, onde as pessoas vivem com necessidades que provavelmente jamais serão satisfeitas, como segurança, saúde, etc, a igreja escolhida é aquela que se atreve a prometer isso. Mas sempre foram promessas eleitoreiras, mentirosas, do tipo "Deus vai te prover isso", que jogam sobre Ele todo o trabalho a ser feito. E as igrejas com isso?

Para um e outro caso, a ignorância das Escrituras é algo muito lucrativo (e tentador). Nada de ortodoxias, Jesus não era mais ortodoxo que seu pitoresco primo João [batista] vestido com pele de camelo e comendo gafanhotos na beira do Jordão. Mas você já viu alguma igreja que rompesse com a estrutura social ocidental e implantasse residências comuns, onde todos repartem os gastos? Parece estranho, e não digo que seja necessário, mas esse é o modelo "comunista" apresentado no livro de Atos. Não muito diferente do que é praticado tradicionalmente em algumas comunidades no Oriente Médio.

Outra: Jesus fez diversos milagres, mas muito raramente de forma coletiva. O que havia, de modo coletivo, era seu ensino sobre o Reino de Deus (paz, felicidade e justiça, nas palavras de Paulo) e discussões sociais, as vezes com com base em parábolas. Muitas igrejas fazem isso, e muito mais ainda nem sabem do que estou falando. As mais midiáticas, mega-congregações com dezenas de milhares de pessoas que nem se conhecem, estão bem longe das discussões sobre problemas sociais. É como se a idéia principal do Cristianismo tivesse se perdido, e agora o conceito fosse um fast food com brinquedo por só 40% a mais. Só que ninguém vive um fastfood.

Cristãos e mal falados

Com o Cristianismo funcionando segundo a Bíblia já existem muitas criticas, imagine sem ela. Uma dessas críticas é a forte oposição entre o conceito de Deus no Velho Testamento (isto é, uma entidade favorável a matança de estrangeiros, escravismo e ferrenha ao seguimento estrito de normas) e no Novo Testamento (um símbolo de amor, piedade, pacifismo e fé). Não dá para questionar essas diferenças, apesar de falas atribuídas a Jesus indicando que há uma continuidade. Mas essa mudança (e já coloquei antes que, como Cristão, fico com a proposta de Jesus) não justifica fazermos uma nova transformação do Evangelho de modo que ele atenda a interesses comerciais e militares. Não justifica as Cruzadas, nem a Inquisição, nem tampouco o misticismo da Teologia da Prosperidade. O mal uso do nome de Deus sempre pesará contra os Cristãos.

Pesa contra nós, ainda, a persistência em idéias para as quais a Ciência oferece respostas diferentes da Bíblia (a Ciência não estuda Deus, ok?). Isso é bastante sério no que se refere à juventude Cristã. O texto do Novo Testamento tem quase 2000 anos, o do Velho Testamento chega aos 3500 anos. é bastante óbvio que qualquer noção tecnológica ou de entendimento do Cosmos apresentado na Bíblia pode ser classificada como História, a menos que seja de fato uma revelação divina. Só para citar, o Gênesis coloca o que chamamos de Terra como algo plano, que separa as águas abaixo do mundo (de onde vem, de alguma forma, os rios, lagos e mares) e as águas acima do mundo (que tornam o céu azul e de onde vem as chuvas). Sem problemas para o pessoal de Ur dos Caldeus, mas inconcebível nos dias em que lemos isso por um sinal de internet transmitido através de satélites orbitando o planeta. A insistência apesar de provas em contrário é teimosia, não fé.

Não faltam grandes mentes dentro do Cristianismo para nos instruir³, a começar por Paulo quando recomenda ocuparmos a mente com "tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, excelente ou digno de louvor" (Filipenses 4.8). Mas Paulo foi um peregrino, incumbido de arrebanhar gregos bem educados, aos quais faltava uma filosofia de fé. Jesus, por outro lado, andou entre os mais incultos de Roma, desafiando autoridades que lideravam por medo. Hoje, temos uma igreja formada por pessoas que vão desde analfabetas até ensinadores, ricos e pobres, uma juventude que supera seus pais em escolaridade e que se alimenta de dados coletivos. E se cremos em um Senhor que prima pela verdade, passamos por tolos ao bradar teorias arcaicas como sendo verdades.

As Escrituras tem muito material humano antigo, de pessoas bravas, que viveram, acreditaram em algo e o deixaram para ser reproduzido no futuro, até nos. Será que realmente é tão difícil apresentar o Espírito Santo agindo nos dias de hoje? Não morremos mais de lepra, nem precisamos assistir o sofrimento de epilépticos e esquizofrênicos sem ter o que fazer. Nossos demônios são outros, mas há muita gente desassistida para as quais é muito raro ver a Igreja mover algo.

Restringir os jovens (e os adultos também) dentro de "mundinhos gospel" parece o certo a se fazer, mas pode ser péssimo para sua formação. A igreja produz, mas não é detentora das artes, nem da literatura, nem da música. O filósofo alemão G. W. F. Hegel, no início do séc. 19, ao ver as grandes transformações ideológicas que o mundo sofria (era a época dos impérios comerciais na África e na Ásia), em muitos de seus trabalhos, discutia que não é possível formar uma razão saudável a partir de um mundo limitado, enviesado. Por isso, é absolutamente normal que os jovens queiram explorar sua cultura, aprender sobre o mundo, e provavelmente nem todos voltarão para a Igreja. Mas aqueles que voltarem (e talvez tragam outros consigo), é importante que o façam por terem conhecido a Jesus, por conhecerem de verdade o Cristianismo, e não porque nunca viram nada além disso. Lembremos da célebre parábola do Filho Pródigo, contrastando aquele que experimentou o mundo - e reconheceu o amor do pai - com aquele que sempre esteve sob cuidados (Lucas 15.11-32).

Que esses jovens interpretem sabiamente Harry Potter, Nietzsche, o Islã e tudo mais que habita o mundo. Tragam novas idéias, novas discussões (Jesus nunca se absteve de discutir), que falem bem da Igreja para os de fora sem serem chamados de arcaicos ou ignorantes. Que possamos ser bem vistos e recebidos como era a Igreja Primitiva.

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¹ O termo “culto” pode até não estar certo quanto à Igreja Primitiva. É descrito que Jesus e os apóstolos se reuniam no Pórtico de Salomão, uma área de acesso do Templo de Herodes, que era o mais importante local de culto Judeu. Os encontros de Cristãos relatados no livro de Atos estão mais para ocorrendo em residências comuns, com muitas pessoas, de diversas famílias, todos sentando-se na mesma mesa para “dividir o pão”, refeitoriamente falando. Além disso, o registro arqueológico mais antigo do que poderíamos chamar de “templo Cristão” é uma casa modificada em Dura-Europos, na Síria, datando do séc. 3 d.C. Ver A invisibilidade Cristã.

² Os Protestantes Históricos e Pentecostais se dividiram no início do séc. 20, uns defendendo as visões e ensinos espirituais, o outro grupo os negando. O movimento Evangélico surgiu no meio do séc. 18, liderado pelos Metodistas, como um movimento transdenominacional reunindo elementos do Protestantismo Histórico do Pentecostal. Esse movimento pregava o uso da Bíblia (e não a tradição ou as obras teológicas) como fundamento da pregação e dos costumes Cristãos. Tanto Evangélicos como não Evangélicos são frutos da Reforma Protestante, no séc. 16, quando foram questionados alguns pilares da Igreja Católica Romana, tais como a hierarquia religiosa, o culto aos santos, a transmutação dos elementos na Ceia e o não acesso das pessoas à Bíblia. Em outras palavras, todos os Evangélicos são Protestantes. Ver Cristãos transitando.

Os Católicos defendem a tradição eclesiástica herdada supostamente do grupo de Pedro, em Roma. Segundo eles, a Bíblia não seria clara sobre muitas questões (e não é), além de haver divergências sobre quais são os livros inspirados por Deus e quanto deles é inspiração. Se considerarmos que os grupos originais de Cristãos eram pessoas ajudando umas às outras, sem nenhum material escrito (só houve algum após 80 d.C., quando os Cristãos já estavam disseminados ao redor do Mediterrâneo), eles tem razão em confiar numa “tradição apostólica”.

³ Santo Agostinho nos ensinou a resistir as tentações, os missionários de Alexandria ensinaram com tratar culturas diversas das nossas, São Francisco ensinou a pôr o amor em prática, Lutero ensinou a necessidade de se pautar na Bíblia, John Wesley mostrou quem precisa ouvir sobre Jesus.

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A leitura foi desaconselhada por bons motivos

Do Christians need only the Bible?, catholicnewsagency.com.
Klinge D, 3 reasons why the Bible is the only book we really need, dawnklinge.com, 26/abr/2017.
Luke, The false reality – why Christianity requires ignorance, new.exchristian.net, 16/abr/2017.
Sakamoto L, O culto à ignorância passará o cristianismo como principal crença do Brasil, blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br, 6/mar/2016.
Witherington B., Ignorance is Bliss? Biblical Illiteracy in the West, 25/ago/2007.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Jesus e a Teologia da Libertação


O Bom Samaritano - quadro de William Henry Margetson, 2012

Em 1962, o papa João XXIII convocou um Concílio do Vaticano. Ao longo da história Cristã, cada Concílio foi uma mudança de rumo histórica, abrangendo o entendimento de toda a Igreja. Os 1os Concílios foram no séc. 3 d.C., para estruturar o Cristianismo.. já essa reunião deveria discutir sobre as populações carentes ao redor do globo. Foram convocados 2.200 bispos, cujos discursos foram cuidadosamente gravados em fitas magnéticas. O Concílio durou até 1965, com várias participações do próprio papa nas discussões.

"O Concílio?" Ele disse enquanto se movia em direção a uma janela, gesticulando como se para abri-la. "Espero dele um pouco de ar fresco ... Devemos nos livrar da poeira imperial que se acumulou no trono de São Pedro desde Constantino". (João XXIII)

Um fruto direto dessa reunião histórica foi a Carta Encíclica orientando que os Católicos não tolerassem diferenças de dignidade entre as pessoas. Indiretamente, ela também gerou o que se chama hoje Teologia da Libertação. Trata-se de um entendimento da Igreja como instrumento de Deus contra as injustiças sociais. E ela exatamente “sacudiu o trono de São Pedro”, pois tirou sacerdotes de sob as asas dos ricos para desafiarem ditadores, o capitalismo e ajudarem os mais pobres "condenados a morrer lentamente, sem nenhuma misericórdia". Muitos religiosos adeptos foram presos ou mortos pelos movimentos militares na América Latina entre 1960 e 1980. Para vários, adeptos e contrários, era levar o ideal revolucionário de Karl Marx para dentro da Igreja, tanto que o papa Bento XVI mais tarde ordenaria a reclusão de todos os seguidores de Jon Sobrino¹.

Outras particularidades muito controversas da Teol. Lib. eram o entendimento de Jesus como uma figura estritamente humana enquanto aqui na Terra e a aceitação de que a fé Católica não seria a forma exclusiva de chegar à Salvação.

Dentro do Cristianismo, Salvação é a expectativa de um julgamento favorável de Deus após a morte. E, no Catolicismo em especial, acredita-se que a Salvação decorre primeiramente do batismo - quando o pecado original de Adão é removido mediante uma aliança com o sacrifício de Jesus - e, secundariamente, de uma reconciliação com Deus através da Confissão dos pecados ou pela Penitência². Esse entendimento é diferente em outras divisões do Cristianismo.

PREGAR NÃO É COMBATER

Ao argumentar em favor da Teol. Lib., Tissa Balasuriya’’’, do Sri Lanka, levantava a questão de “como o ensinamento tradicional e exclusivista de Igreja, a respeito da Salvação, pode ser conciliado com a obra salvadora de Cristo?” Seu argumento incluía a lembrança de que, muitas vezes, a Igreja empreendeu massacres e alianças com homens terríveis, fundamentada no fato de que os massacrados não eram Cristãos e, portanto, estavam destituídos de um lugar no Reino de Deus.

Voltando no tempo, porém, vemos que os não-cristãos também motivaram missionários Luteranos e Protestantes nos sécs. 18 e 19, os empreendimentos Jesuítas³ no séc. 16, as missões Beneditinas e Alexandrinas nos sécs. 4 e 5 e as viagens de Paulo no séc. 1, relatadas no livro de Atos e em suas cartas às igrejas. Mesmo as viagens dos apóstolos, não tão bem documentadas, foram movidas pelas palavras de Jesus após a Ressurreição: “Ide, pregai o evangelho a toda criatura, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado, para que creiam e sejam salvos, começando por Jerusalém” (Mateus 28.19-20, Marcos 16.15-16, Lucas 24.46-47). João, cuja obra é explicitamente didática, emenda ao final “este livro foi escrito para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em Seu nome” (João 20.30-31). Dessa forma, embora o aprendizado sobre Cristo não seja obviamente condenatório (aos que não aprendem), tanto os Evangelhos como a tradição Cristã sugerem fortemente que seja um passo necessário à Salvação. Como “pregai” tornou-se “matai” só pode ser explicado por interesses bem não-cristãos inseridos dentro da Cristandade.

Entendendo a Salvação como uma espécie de cura, a prerrogativa de "ide, pregai" se soma ao fato de que Jesus curou pessoas perguntando, primeiramente, a respeito de sua fé. A cura do servo do centurião, o paralítico, a mulher com fluxo de sangue, Bartimeu e mais dois cegos, a mulher cananéia, o menino epilético, quando os discípulos se desesperaram com as ondas no lago de Genesaré, ou com a falta de pão para as multidões, ou ainda com Pedro afundando: todos foram salvos ou curados mediante sua fé em Jesus. E, tendo os eventos finais da vida de Cristo e a crucificação ocorrido em Jerusalém, também é possível pensar que a Salvação iniciou-se a partir daí. Mas, assim como em vários outros assuntos, Jesus deixou uma lacuna quanto ao destino dos que nunca o conheceram. Há sugestões de julgar a todos segundo os preceitos Cristãos, independentemente de sua fé (João 12.48), aplicar as regras da fé de cada um (Mateus 7.2) e até evangelizar os mortos (João 5.25), mas são construções teológicas. Além disso, reparemos que o texto de Apocalipse fala em um grande julgamento no último dia, segundo as obras de cada um e não segundo a filiação religiosa (Apocalipse 20.12-13).

SOBRE ACEITAR OUTRAS TEOLOGIAS

Marcelo Barros''', falando sobre a Teol. Lib., é um dos que defendem absorção de teologias ou cristianismos populares dentro do Cristianismo. “Cristianismos populares” são versões sincréticas do Cristianismo dos colonizadores europeus do séc. 16, que por sua vez é um sincretismo de tradições gregas, romanas e judaicas. Na América Latina, África e Ásia, o Cristianismo europeu sofreu adaptações populares para reunir elementos católicos (mas às vezes protestantes) com crenças nativas/pagãs* indígenas, afro e depois espíritas, já no séc. 19. Um dos pontos centrais de tais credos é a repulsão à pressão colonizadora, militar e social, para a adoção do Cristianismo.

Os "Cristianismo populares" são versões da religião oficial mais palatáveis, descentralizadas e organizadas pelos pobres. Mas esse movimento produziu a adoração a santos (isso já ocorrera, séculos antes, na Europa, sendo absorvido pela Igreja Romana), locais, plantas e alimentos sagrados, fórmulas mágicas de oratória, energias, chás purificadores, etc. Uma expressão bem brasileira desse Cristianismo poli-sincrético são as benzedeiras, figuras locais (geralmente mulheres) que oferecem rezas, tratamentos espirituais, medicina tradicional, magia e intercessão por seus clientes.

Marcelo argumenta que, embora o Cristianismo romano nos pareça bastante estéril de magias e contatos de Deus com os homens, na verdade ele só parece assim quando visto através de lentes européias. Para os Judeus, por exemplo, cada lugar relatado nos Evangelhos traz a alma do seu povo; seja o poço de Jacó seu ancestral, a cidade trono-de-deus ou o rio com cuja água os profetas curavam. Para os Gregos, a sabedoria de Salomão e as visões de Paulo ou de João sempre foram a forma de os deuses falarem com os homens. Para os Romanos, a caridade e refeições comuns eram sinais sinceros de devoção, assim como as missões de Lucas, Paulo, Silas, Timóteo e Barnabé registradas em Atos eram a forma mais correta de demonstrar fidelidade a um Senhor.

No contexto latino-americano, porém, essas narrativas passam como estórias pouco significativas. Na tradição Yorubá que importamos do Congo, por exemplo, os deuses comumente se manifestam através de plantas que curam, alucinam ou matam. Na tradição indígena/cabocla, um líder espiritual é aquele capaz de desafiar e obter, pela força e coragem, a aliança com os deuses. A falta de lugares sagrados que se possam ver, plantas mágicas e sacerdotes guerreiros no Novo Testamento provavelmente foi o que produziu os sincretismos e até diversos cristos como o Bom Jesus da Lapa, Nosso Senhor do Bonfim, Jesus de Pirapora e um sem-número de Marias-mãe-de-Jesus, que incluem santas negras ou similares de Iemanjá. Mesmo no lado supostamente tradicional da Igreja, encontramos músicas e objetos abençoados/sagrados, pastores capazes de ordenar tarefas a Deus e os demônios, visionários, etc. O que Jesus falaria disso?

Sabemos que o Filho de Deus conhecia de perto a religião dos romanos, gregos, cananeus, samaritanos e o judaísmo tradicional (que já era bastante diversificado). Em sua breve passagem por território Cananeu, Jesus encontrou o que poderia ser um soldado romano insano habitando um lugar/cemitério de culto. Ao invés de abençoar/amaldiçoar aquele solo, Jesus se ocupou apenas do insano. Sobre os romanos e gregos Ele também nada disse, e se dirigiu a um romano não-crente apenas nos seus momentos finais. Jesus não foi ofensivo ou provocador nem mesmo com Pôncio Pilatos ou os soldados assistindo a Crucificação. Ele também não mostrou qualquer atitude favorável aos romanos. Em sua conversa com a Samaritana, Jesus se opôs à adoração confinada a um lugar sagrado, o que por tabela se estendia ao 2º Templo. Entre os mais criticados por Jesus estavam os líderes “templistas” do judaísmo tradicional. Mas Ele enaltecia a figura de João Batista, um líder profeta e andarilho dentro do mesmo judaísmo. Jesus ordenava o amor a Deus e aos homens, de forma indiferente a suas filiações religiosas. E, ao mesmo tempo, Jesus era profundamente Cristão ao afirmar-se como a verdade e a vida, sem a qual ninguém chega ao Pai (João 14.6). Em outras palavras, talvez possamos resumir a posição de Jesus como (1) não se importando com outras crenças e atrelando a Salvação ao (2) reconhecimento de Deus/Ele mesmo como Maior e (3) o amor aos homens.

Isso não é pouco. A posição de Jesus contraria as religiões não-cristãs e mesmo diversas vertentes do Cristianismo, apoiadas no culto a santos, espíritos, anjos e autoridades humanas. E, mesmo para as vertentes mais alinhadas, resta o cumprimento pessoal da posição (3) que pode requerer, como no caso do jovem rico, uma entrega total à questão religiosa. Apesar disso, a postura de Jesus não dá suporte a ofensas, guerras, Cruzadas e martírios (de si ou dos outros) pela fé. No Velho Testamento, a ideia judaica era de combate ferrenho aos outros cultos; após Jesus, Paulo pareceu se ater à estruturação do Cristianismo, mantendo como foco o papel centralizador e único de Jesus, propositalmente ignorando outras entidades:

Pois mesmo que haja os chamados deuses, quer no céu, quer na terra, como de fato há muitos "deuses" e muitos "senhores", para nós, porém, há um único Deus, o Pai, de quem vêm todas as coisas e para quem vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, por meio de quem vieram todas as coisas e por meio de quem vivemos. (1ª Coríntios 8.5-6)

Também, quando Marcelo Barros defende o culto de Cristo junto a Orixás, ou dentro da teologia Kanambe no Kênia, os 3 pontos de Jesus não são exatamente restritivos. E mesmo considerando as palavras do Velho Testamento, deduz-se que tal situação é mais provavelmente digna de evangelização e valorização do Jesus histórico, para que Deus seja reconhecido ali, do que digna de uma ação restritiva (Isaías 65.1-7). Mesmo que a teologia (não Cristã) de Isaías em nada possa ser tolerante com os ideais afro de interação com a Natureza ou os ideais caboclo-indígenas de autoridade sacerdotal, o julgamento parece ter sido evitado por Jesus. Marcelo e outros teólogos, como Frei Betto, defendem que o Jesus humano da Bíblia se distancia muito das figuras espirituais, idealizadas ou até imaginárias que serviram de base ao Cristianismo pré-alfabetização, cujo impacto foi essencialmente negativo sobre as camadas mais exploradas da sociedade. Afinal, um Jesus conhecedor de tudo, invencível, incorruptível, etc era por demais diferente dos homens que ouviam sobre Ele. Enquanto o Jesus ensinado parecia muito distante, o Jesus bíblico poderia ter sido tão mais bem recebido quanto o “bom pastor” descrito nos textos gregos e romanos do séc. 1 d.C.

O CRISTIANISMO EM MEIO A DISPUTAS

Jesus fez pouco em termos de criar uma nova tradição, não especificando regras de conduta, datas comemorativas, o funcionamento da Igreja, etc. Por isso, nos 40-50 anos que se seguiram à Crucificação, as pessoas Lhe atribuíram títulos como mestre, profeta, etc e o fizeram sancionar (no pós-morte) todas as múltiplas respostas possíveis para essas questões. Esse processo continua até hoje, em parte re-desenhando vertentes que se encaixam bem aos pré-requisitos de Jesus (mas não dispensam o comprometimento com o amor ao próximo), em parte incluindo dentro da Cristandade muitas pessoas - às vezes em situação de autoridade - virtualmente contrárias a esse amor. A Teol. Lib. vai um tanto no sentido revolucionário, quase Macabeu, de resgate desse amor pelo próximo dentro da Igreja. Um resgate que, talvez lembrando as palavras de Tissa Balasuryia e Marcelo Barros, dentre outros, passa por “consertar a imagem de Cristo” pregada entre os povos, entendendo a necessidade, mas sem a pretensão de que ela venha a ser acolhida por todos.

“O semeador saiu a semear. Enquanto lançava a semente, parte dela caiu à beira do caminho, e as aves vieram e a comeram. Parte dela caiu em terreno pedregoso, onde não havia muita terra; e logo brotou, porque a terra não era profunda. Mas quando saiu o sol, as plantas se queimaram e secaram, porque não tinham raiz. … Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça" (Mateus 13.3-9)

Não são poucos os defensores da Teol. Lib. que falam em favor de um Cristianismo com menos regras. Ivone Gebara''', por exemplo, argumenta sobre a liberalidade anunciada por Jesus quando se refere ao Espírito Santo como um "vento que sopra onde quer, do qual ouvimos a voz, mas não sabemos de onde vem e para onde vai" (João 3.8). Segundo ela, o Jesus das Escrituras era inteiramente imerso em sua cultura, sua história, seus problemas cotidianos e até a luta política de seu povo. "Christos" (Χριστός), do grego, significa "ungido, preparado"; Jesus de Nazaré era um home da periferia judaica; O Verbo era o poder criativo de Deus; e Jesus simplesmente era todos esses, e ainda um pregador itinerante sem importância para Roma. Se a Igreja agir como uma Torre de babel, impondo a mesma língua, os mesmos modos e um pode vertical, ela não age diferente dos poderosos e ricos desse mundo, que filtram todo conhecimento, autoridade e liberdade de um modo desigual, excludente, para favorecer a alguns e oprimir a muitos em nome de uma unidade e uniformidade.

De fato, se tomarmos os 3 pontos de Jesus sobre o que seria ser Cristão (e entendamos Cristão como um imitador de Jesus, não um submisso ou afiliado de qualquer outra coisa), são tantas as possibilidades girando em torno de colocar Jesus acima de tudo e amar ao próximo que podemos ter aí desde Cristãos profetas itinerantes até ricaços intelectuais, desde líderes populares hiper-ortodoxos até ícones femininos e cobradores. De fato, os seguidores de Jesus eram assim variados, mas dentro de um limite que o próprio Pedro nos ensinou a não ultrapassar, que é o de amar mais a si ou ao mundo do que a Cristo. Sem atar pesados fardos aos homens para ser vistos, enriquecer e ser honrados pelos homens (Mateus 23.3-7). Acho que era esse o recado.

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¹ Jon Sobrino é um jesuíta espanhol fixado em El Salvador, um pequeno país da América Central. Ordenando-se em 1969, ele se destacou como líder intelectual dentro da Teologia da Libertação, sendo seguido por expoentes como os padres Oscar Romero, Ignácio Ellacuría (mortos em El Salvador), Leonardo Boff e Frei Betto (Brasil). A reclusão ordenada em 2006 levou muitos outros seguidores de Jon Sobrino a produzirem documentos criticando fortemente a posição da Igreja Católica quanto aos pobres.

² Existem variações ao longo da história quanto ao significado exato da Confissão dos pecados e da Penitência. Por um lado, desde o Concílio de Trento (1545-1563), a Confissão é um sacramento e necessita da figura de um sacerdote. Por outro, entende-se que Deus não é dependente da ação sacerdotal e, assim, uma confissão ao próprio Deus pode ser aceita. Também existem muitas variações no tempo e regionais quanto ao significado da Penitência. O entendimento mais antigo, associado ao livro Pastor de Hermas (séc. 2 d.C.), é a vivência dócil de uma situação de sofrimento criada por Deus. Mas, ao longo da história Cristã, a Penitência foi entendida também como jejum, a doação de favores ou somas em dinheiro para a Igreja, o auto-banimento para uma vida de missionário em terras distantes, enclausuramento, auto-açoitamento, etc. No Catolicismo, a Penitência pode mesmo ser realizada após a morte, em uma dimensão espiritual diferente do Paraíso e do Inferno, conhecida como Purgatório.

³ A Sociedade de Jesus, ou Ordem Jesuíta, foi fundada em 1534 por Inácio (Íñigo) López de Loyola, abade e general espanhol na luta contra os franceses na fronteira sul dos dois países. Os Jesuítas foram inicialmente organizados de forma simplista e militar, para agirem como evangelistas no Oriente Médio. Depois, dispersaram-se nas colônias espanholas e portuguesas da Argentina, Brasil, México, Índia e China. Suas características marcantes são o voto de pobreza e o elevado nível educacional em argumentação teológica, culturas e línguas. A Sociedade sempre foi criticada por ações desvinculadas das monarquias européias. Nos sécs. 16 e 17, implantaram sistemas educacionais e médicos nas colônias, sendo convertidos a uma “ordem mendicante” no séc. 18. No final do séc. 19, a ordem foi re-ativada e, hoje, tem o papa Francisco I como um de seus membros.

* O nome Paganismo passou a ser usado no séc. 4 d.C. para se referir aos povos que pagavam tributos a Roma, então tornada um império Cristão. Era um termo pejorativo usado pela nobreza, designando principalmente as religiosidades Celtas, mas também Germânica, Grega, Árabe, etc. A partir do séc. 5 d.C., o termo foi efetivamente utilizado para designar alvos militares de Roma, cujo Estado tornou-se hilariamente dependente da hierarquia Cristã para manter sua unidade. Num contexto atual, Paganismo pode se referir a qualquer crença fundamentalmente diferente da majoritária. Na América Latina, aparecem sobretudo crenças Andinas e Amazônicas (geralmente associadas a espíritos ancestrais, forças da natureza, animais sagrados, a morte, etc), além das tradições afro, principalmente Yorubá.

''' Tissa Balasuriya (1924-2013) foi um padre e teólogo do Sri Lanka, país de maioria Budista, que teve amplo contato com as culturas portuguesa e inglesa implantadas nos tempos coloniais. A partir dos anos 1970, ele desvinculou-se de suas funções sacerdotais tradicionais para fundar e organizar centros de atenção humanitários. Marcelo Barros de Sousa (1944) é um monge beneditino, escritor e teólogo baiano. Ele dedica-se ao estudo dos diálogos do Cristianismo com outras religiões e é conhecido por suas ações entre os movimentos dos Sem-terra. Ivone Gebara (1944) é uma freira, filósofa e teóloga de Recife envolvida com causas ecológicas e feministas, em especial às ligadas á pobreza das populações marginais urbanas.

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COMPARSAS DOS REVOLUCIONÁRIOS

Balasuriya T, Questions to CDF regarding Jon Sobrino’s notification, in: Getting the poor down from the cross, EATWOT, 2007
Barros M, Jesus of Nazareth, spirit of compassion: elements of an afro-Brazilian christology, in: Getting the poor down from the cross, EATWOT, 2007
Brandon SGF, Salvation, Encyclopaedia Britannica
Edmonds SJ P, Faith in the Gospels, thinkingfaith.org, 13nov2012
Eufrásio J, Benzedeiras atraem pessoas de diversas religiões em busca de paz espititual, Correio Brasiliense, 29abr2018
Gebara I, Plural christologies, in: Getting the poor down from the cross, EATWOT, 2007
Jon Sobrino - wikipedia
João XXIII, Carta encíclica Pacem in Terris, parágrafo 89, 11abr1963
Lowe D, What caused the massive spread of Christianity, quora.com, 23abr2014
Mazzalongo M, What other religions teach about salvation, bibletalk.tv, 6dez2017
O gadareno e os porcos - loungecba.blogspot.com, 23fev2014
Religion library: South american, patheos.com
Westmoreland C, What did Jesus say about other religions, quora.com, 13set2016
Zimmermann A, Vatican II and Christ's governance of the church, lifeissues.net, jun2006

domingo, 10 de setembro de 2017

Como escapamos a Cristo

Quatro ensinamentos de Jesus que seus seguidores (quase) nunca tomam seriamente



Publicado originalmente em 19 de Junho de 2014, por Brandan Robertson em

Não é nenhum segredo que aqueles dentre nós que afirmam seguir Jesus continuamente não conseguem viver o modo de vida de nosso Rabi. Ser um discípulo de Jesus é uma jornada vitalícia para nos conformarmos na imagem e modo de vida que Jesus ensinou. No entanto, com muita frequência, os seguidores de Jesus escolhem ignorar descaradamente algumas das instruções mais claras de nosso rabino e obscurecer elas com teologia vaga para que possam sair do alcance Dele. Outras vezes, os seguidores de Jesus são ensinados com idéias explicitamente contrárias às palavras simples de Jesus e depois passam suas vidas obedecendo as instruções que receberam em vez dos mandamentos de Jesus.

Embora acabemos num lugar de desobediência, todos nós que afirmamos ser seguidores de Jesus lutamos para obedecer os mandamentos de nosso Senhor. Um dos períodos mais transformadores da minha fé foi quando gastei um tempo para reler os Evangelhos do Novo Testamento e me reencontrar com o próprio Jesus, nas suas próprias palavras. Ao estudar as palavras de Jesus, descobri que muito do que Ele pediu a nós como seus discípulos é incrivelmente claro e, no entanto, era muito novo para mim. Eu nunca tinha ouvido isso na igreja ou na escola dominical. Até realmente ouvi alguém ensinar exatamente o oposto das palavras de Cristo. Foi durante aquela estação da minha vida que eu fiz um inventário de como eu vivi, o que eu acreditava e alinhava com a pessoa e os ensinamentos de Cristo. Minha fé se transformou radicalmente para melhor.

Abaixo, criei uma pequena lista de 4 ensinamentos claros de Jesus que a maioria de nós evangélicos nunca ouviu, se recusa a reconhecer ou acredita exatamente no oposto. Espero que, relançando esses ensinamentos de Cristo, você se inspire, como eu, a retornar aos Evangelhos e remodelar sua fé e vida. Prepare-se e medite, porque o que Jesus diz é bastante ousado e potente. Isso abalará sua fé!

1. Jesus, não a Bíblia, é a Palavra viva e ativa de Deus que traz a vida*

Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, porque pensam que nelas vocês têm a vida eterna. E são as Escrituras que testemunham a meu respeito; contudo, vocês não querem vir a mim para terem vida. (João 5.39)

A vida cristã está fundamentalmente enraizada na realidade de que Jesus Cristo está vivo e ativo. Ele interage conosco no dia-a-dia e deseja que cultivemos um relacionamento íntimo com ele. Quanto mais em comunhão com o Espírito de Cristo, mais estamos expostos à vida e verdade, e mais somos capazes de compreender. No entanto, para muitos evangélicos, confiamos mais na Bíblia do que no Espírito vivo de Deus dentro de nós. Tememos que seguir o Espírito possa levar a confusão e subjetividade, e por isso arraigamos nossa fé na Bíblia. O problema é que uma fé que está enraizada somente na Escritura não é sustentável. Ele vai secar e murchar. Enquanto a Bíblia é um guia importante e autêntico para a fé e a prática cristãs, não é o fundamento ou o centro da nossa fé - Jesus é. E se realmente acreditamos que ele está vivo, também devemos ter fé de que interagir com ele produza a vida espiritual dentro de nós. Ele é a Palavra Viva a quem podemos pedir a qualquer coisa e esperar, na fé, para receber e ser respondido. Às vezes ele falará através da Escritura. Outras vezes ele falará através de nossos amigos e familiares. Outras vezes, ele encontrará formas únicas e especiais para se revelar a nós mesmos. Mas, para manter uma fé viva, não devemos fazer da Bíblia o nosso substituto da comunhão com a Palavra de Deus Viva. Estudar a Escritura é valioso, mas nada é tão valioso como cultivar um dia a dia com o Deus encarnado.

2. A única maneira de entrar no Reino dos Céus é realizando a vontade de Deus.

Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. (Mateus 7.21)

Certa ocasião, um perito na lei levantou-se para pôr Jesus à prova e lhe perguntou: "Mestre, o que preciso fazer para herdar a vida eterna? " "O que está escrito na Lei? ", respondeu Jesus. "Como você a lê? " Ele respondeu: " ‘Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todas as suas forças e de todo o seu entendimento’ e ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’". Disse Jesus: "Você respondeu corretamente. Faça isso, e viverá". (Lucas 10.25-28)

"Nós somos salvos pela fé sozinha, não os trabalhos!" Esta é uma frase protestante muito popular. A doutrina da sola fide foi desenvolvida pelos Reformadores em resposta aos ensinamentos corrompidos das Igrejas Católicas Romanas que surgiram no século 16, de que se poderia ganhar o favor de Deus e diminuir os anos no Inferno ou Purgatório, dando dinheiro para a Igreja ou fazendo atos de penitência.

A intenção da sola fide era muito boa - corrigir o erro de que nossa salvação poderia ser obtida ou que a graça de Deus poderia ser manipulada. Mas, como a maioria das doutrinas formuladas em resposta à doutrina de outro grupo, ela foi muito longe. Um dos ensinamentos mais claros em todos os quatro evangelhos é que o caminho para entrar no Reino de Deus é através da vida em obediência à Lei de Cristo. Jesus faz declarações muito claras que condenam aqueles que pensam que serão salvos porque acreditam nas coisas certas ou fazem os rituais religiosos certos. Ele responde a pessoas que acreditam que são religiosas e merecem o céu ao dizer que a religiosidade externa é detestável para Deus e a única coisa que Deus deseja é que eles exercitem sua fé obedecendo o mandamento de Deus - fazer justiça, amar a misericórdia e andar humildemente (Miquéias 6.8).

Jesus diz que se alguém afirma estar certo com Deus, mas não serve os pobres, os necessitados, os oprimidos, os marginalizados, os doentes e os pecadores, então não tem relação com Deus. Não importa o que eles proclamem com seus lábios. Não importa o quão religiosos eles possam aparecer. Jesus diz que aqueles que não obedecem não terão parte em seu Reino. Ele deixa muito claro que o caminho para "herdar a vida eterna" é através do amor a Deus e ao próximo. Não é surpreendente, então, quantos cristãos de hoje foram ensinados que a salvação vem através da crença correta em vez da prática correta? Esta é uma mensagem fundamentalmente contrária às palavras de Jesus. E ainda mais para o seu irmão Tiago, que diz: "Você vê que uma pessoa é justificada pelas obras e não apenas pela fé" (Tiago 2.24).

3. A condenação não é o estilo de Jesus.

"Eu não venho para condenar o mundo, mas para salvá-lo." (João 3.17)

"Eu também não te condeno. Vá e não peques mais." (João 8.11)

Vários pregadores evangélicos modernos passam muito tempo falando sobre as pessoas a quem Deus se opõe e quem Ele condena. Eles falam sobre mudar de uma posição de condenação para uma posição de Graça através da crença nas coisas certas sobre Jesus. Muitas vezes falam sobre aqueles que discordam ou vivem contrários à sua compreensão do que é "justo" como aqueles que Deus condena. Mas examinamos os ensinamentos e a vida de Jesus, encontramos que Ele não só levou amizade, mas amor e afirmação para algumas das pessoas mais vis e desprezadas pela sociedade. Ele até ofendia os líderes religiosos que as condenavam por seus pecados.

Na conversa de Jesus com o rabi Nicodemos em João 3, Cristo explica que é sua missão resgatar o mundo e não condenar. No caso em que uma mulher é pega no ato de adultério e é levada afora para ser apedrejada por oficiais religiosos (como a lei exigia), Jesus pára a condenação e proclama liberdade e perdão à mulher. É claro que Jesus não age através de condenação. Em vez disso, parece que Cristo se esforça para restaurar a humanidade das pessoas mais quebradas e perversas; que sua paixão é ver os fracos, doentes e quebrados se tornam fortes, saudáveis e inteiros em seu Reino. Ele gasta muito pouco tempo (quase nenhum) dizendo aos pecadores por que eles estão errados ou falando palavras de condenação, mas praticamente sempre mostra amor e estende Sua graça aos mais prejudicados.

Talvez nós evangélicos, conhecidos pela condenação de grupos dos quais discordamos, pudéssemos aprender algo de Jesus.

4. Você deveria se sacrificar e falar palavras de bênçãos para aqueles que não concordam com você. 

"Ame seus inimigos e abençoe aqueles que o perseguem" (Mateus 5.44)

Parece que toda semana há uma nova grande controvérsia dentro da Igreja. Na maioria das vezes, a situação gira em torno de um grupo de cristãos em desacordo com outro e, em seguida, estes vão à Internet para escrever mensagens caluniosas sobre o outro. Quando não há brigas declaradas, os Cristãos se envolvem em guerras culturais, trabalhando para derrotar aqueles de quem discordamos política e socialmente, pintando-os como monstros sem almas.

Mas essa resposta é absolutamente contrária ao caminho de Jesus. Ele chama Seus seguidores a amar as pessoas de quem eles discordam, a abençoar eles quando tudo o que realmente queremos fazer é maldizê-los. Não importa qual seja a situação ou o tipo de inimigo, os Cristãos são chamados a abençoar as pessoas que mais nos feriram. Isso inclui batalhas teológicas, desentendimentos políticos, guerras nacionais e conflitos pessoais. Os Cristãos são chamados a uma posição radical de não-violência e perdão, graça e até benção aos inimigos. Não há como contornar isso.

Quando os cristãos optam por ignorar esses ensinamentos claros, nossa hipocrisia é óbvia para o mundo todo. O famoso comediante ateu Bill Maher, certa vez, satirizou bem a recusa dos Cristãos em obedecer os ensinamentos de Jesus:

“Agora, por quase dois mil anos, os Cristãos folheiam a Bíblia para tentar descobrir como amar ao próximo pode significar odiar seu vizinho e como dar a outra face pode significar comprar armas, até lasers espaciais. ... Jesus tem falas como não pagar o mal com o mal e não se vingar de quem te incomoda. Realmente, está escrito nesse livro que você segura enquanto grita contra as pessoas gays.”

Pode ser difícil de digerir, mas Bill Maher está 100% correto. "Se você ignora todas as coisas que Jesus lhe mandou fazer, você não é cristão".

O objetivo deste texto é encorajar aqueles dentre nós que afirmam ser seguidores de Jesus a reexaminar como vivemos nossas vidas e praticamos nossa fé. É fácil ficar atrapalhado no fluxo dos acontecimentos e não reconhecer o quão longe estamos da praia, para onde nós fomos carregados. As palavras de Jesus são bastante claras, mas, muitas vezes, em nosso zelo por nossa fé, nos afastamos do básico. Eventualmente, acabamos vivendo de uma maneira que acreditamos que é honrar a Deus, mas é realmente contraditório com tudo o que Ele nos ensinou.

Nesta publicação, ofereci apenas quatro exemplos. Há centenas de ensinamentos contidos nos 4 Evangelhos. Ensinamentos que, se os observássemos, colocariam nossas vidas e o mundo de cabeça para baixo, para a glória de Deus e para o bem de todas as pessoas. O que a Igreja como um todo e os evangélicos em particular necessitam desesperadamente nesta Era é um retorno aos ensinamentos simples de Jesus. Precisamos estar dispostos a deixar de lado os debates teológicos e os meandros, nos concentrar em simplesmente ler, conformar e obedecer a vontade de Cristo, tanto como revelado nas Escrituras quanto como conduzido pelo seu Espírito. O mundo está desejando ansiosamente encontrar Jesus através de nós e por muito tempo nós estamos dando-lhes um truque barato que fazemos sob Seu nome. Mas é claro para todos que o Cristianismo hoje é quase totalmente separado dos ensinamentos de Jesus Cristo.**

Minha oração é que todos nos voltemos para o nosso Salvador ressuscitado e busquemos seguir de forma autônoma seus mandamentos. Estou convencido de que o caminho de Jesus é a única maneira de curar nosso mundo quebrado. Estou convencido de que toda a terra está gemendo enquanto espera que homens e mulheres tomem suas cruzes e sigam o caminho da redenção. Estou convencido de que quando aqueles de nós que nos chamamos de "Cristãos" se reorientarem em Jesus, o poder de Deus fluirá através de nós de uma maneira sem precedentes e milagrosa que trará a salvação até os confins da terra. Ah, como anseio por esse dia!

"Aqueles que não estão seguindo Jesus não são seus seguidores. É simples assim. Seguidores seguem, e aqueles que não seguem não são seguidores. Seguir Jesus significa seguir Jesus em uma sociedade onde a justiça governa, onde o amor forma tudo. Seguir Jesus significa tomar seu sonho e trabalhar para isso". (Scot McKnight)

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* Muitas críticas a esse texto surgiram depois que foi publicado. O cerne delas está em que ele aparentemente separa as Escrituras da Palavra de Deus ou de Jesus. De fato, uma fé baseada no Livro é uma filosofia de vida, não uma religião! Como ter uma vida religiosa trata-se de um debate teológico antigo e pertinente pois, rigorosamente falando, Jesus tratou de problemas ocorridos por volta de 30 d.C. Não somos mais chamados a apedrejar mulheres adúlteras, ou para escolher a quem pagar nossos impostos. As acusações de não-Cristãos não são mais infundadas. Temos mais de 2000 anos de história desde então, com acontecimentos lindos e pavorosos ligados à fé. Há os Cristãos que tentam achar formas de encaixar os acontecimentos relatados na Bíblia nos dias atuais, mas há também os que atentam para essa história as pessoas nela e usam ela como base para suas decisões. Não são menos Cristãos por isso! E se pensarmos que os 1os Cristãos não tinham de fato Escrituras além da Torá judaica, eles se baseavam muito em sonhos, visões e profecias para suas ações. Também não são menos Cristãos por isso! Embora os 3 grupos (vou chamá-los aqui de Escritura, História e Visionários) obviamente vejam problemas sérios uns nos outros e até não considerem Cristãos os dos outros grupos, o Cristianismo não pode se separar de Jesus a ponto de que nem ao menos levemos em conta aquele famoso dito “o que Jesus faria?”.

Todos os grupos têm pontos positivos e negativos quanto a isso. Os Escritura têm a base do que aconteceu com Jesus presente, mas noutra situação, noutro tempo. A Bíblia é útil se pudermos fazer extrapolações a partir dela, mas são extrapolações. Os História têm as autoridades eclesiásticas atuais para se apoiar, que possivelmente são pessoas sábias. Mas possivelmente também defendem interesses humanos, com visões humanas enviesadas. Os Visionários têm supostamente uma comunhão pessoal com o Espírito Santo e Ele dirá o que fazer. Acreditamos no Espírito Santo! Mas nada prova que ouvem a Ele e não qualquer outro Espírito, ou a si mesmos. Mártires e heróis foram guiados por visões, assim como loucos homicidas.

Não há uma solução simples. Nesse ponto, se nos dermos um tempo para examinar as Escrituras, a História e ouvir o que muitos chamam de Espírito-Santo-Em-Nós, é provável que tomemos boas decisões. Jesus, pelo menos, conhecia todas os três valores.

** Nós tendemos a ver a Igreja Primitiva ou Fundamental como algo puro, próxima de Jesus, algo ideal do qual estamos muito distantes. De fato, sempre houve essa imagem depreciatória da Igreja quanto a si mesma, e ela movimentou muitas revoluções internas. Mas a Igreja ideal, a igreja perfeita, é de fato ideal no sentido em que existe na idéia, no pensamento das pessoas. Jesus travou muitos embates “didáticos” com seus seguidores. Paulo, Pedro, Silas, Lucas, Barnabé, João e João Marcos estiveram envolvidos em milagres, mas não eram exatamente afinados quanto ao que punham em prática acerca da fé. A não ser pela força e violência, nunca houve tanta unidade assim dentro do Cristianismo, o que talvez revele que há muitas formas de proceder ainda dentro do que Jesus espera de nós.