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quinta-feira, 7 de março de 2019

A ignorância e a bênção (Sobre ter sido EVANGÉLICO parte 3)

Pentecostes, do pintor Jesus Mafa, em Camarões, 1973 

Esse texto é uma continuação de A igreja do medo e A santa cultura

Para quem perdeu o começo, essa é a transcrição de um longo desabafo nas redes sociais, que expõe a situação da 1ª geração filha de pais Evangélicos nascida no séc. 21. Alguns dos comentários que se seguiram também foram recolhidos aqui, com correções de ordem gramatical. O texto postado originalmente foi preservado na íntegra.

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Sobre ter sido EVANGÉLICO e como isso f*d@# minha cabeça

Júlio Victor, 14jan2019

13 - Lendo cada vez mais a Bíblia que entendi que as coisas não faziam sentido entre o livro e a igreja. Nisso me tornei o rebelde, questionador e combativo de rolê por LER a BÍBLIA.

#A Conhecimento pra eles é algo tóxico, por isso eles são fechados pra isso. Quanto mais se sabe, mais se questiona. Eles abominam.

#B Eu questionava pra mim porque a religião que faz bem ao outro é do diabo só pq não é igual a minha; e como Deus queria julgar pessoas se elas não tinham tido acesso à palavra. O pastor uma vez disse que essas pessoas não seriam julgadas da mesma forma, porém pra mim era injusto. Questões do feminino (sempre me defini como feminista), questões da ciência que o povo insistia em desfazer (como a da evolução). E como se não bastasse tudo isso, eu ainda me sentia muito f#ck&ng culpada por estar questionando, porque "os teus pensamentos são mais altos que os meus pensamentos" e eu não teria mesmo como entender. Fora os outros milhares de questionamentos que eu tinha, mas não vou falar porque ficaria um livro de 500 páginas.

#C A prática da Igreja Católica criticada pelos Evangélicos, de não ter livre acesso à Bíblia, e a posição privilegiada do padre em sua interpretação, está aí sendo reproduzida.

14 - Detalhe, livro ou literatura alguma na igreja eram incentivados. Na maioria das vezes era demonizado mesmo e era comum ter amigos que até seus 18 anos não tinham lido um livro inteiro (nem a Bíblia).

#A Toda vez que eu peço um livro pra minha mãe, ela manda eu ir ler a Bíblia.

#B Eu fui fazer um trabalho sobre contos de fadas em artes, na 2ª Série, e foi uma polêmica doida na igreja.

#C Eu sempre amei ler, desde criança. Lembro quando era criança com a febre Harry Potter. Um primo da igreja fez terrorismo, disse que era do demônio. Morria de medo. Um pouquinho maior, com uns 12 anos, comecei a ler emprestado e escondido dos meus pais. Minha mãe, quando descobriu, me deu a coleção toda de presente! Ainda bem que tive uma mãe mais aberta, muitos colegas meus da igreja não tiveram isso.

#D Realmente tem Igrejas que não incentivam a leitura, mas no meu caso foi ao contrário. A Fé e a Igreja abriram minha mente. Cheguei na Igreja com 20 anos. Nunca tinha lido um livro completo. A partir da necessidade de ler a Bíblia e conhecer mais sobre a minha nova Fé, entendia que precisa ler Livros (a princípio relacionados com a minha Fé) e depois o desejo de conhecer mais fez eu ir para o seminário. Fui e me formei, o seminário puxou a Filosofia, entendia que precisava continuar estudando, a filosofia acabou puxando a Antropologia. Fiz a Graduação, mas ainda entendo que preciso continuar estudando... É isso que continuo fazendo: passei a Seleção do Mestrado. Tudo começou com a sede de conhecimento que a Igreja despertou e ainda me ajudou custear a Faculdade de Teologia e Filosofia. A Graduação de Antropologia fiz na UFF.

15 - E digo mais, TEOLOGIA nessa igreja era abominável. Eu sei que em várias outras igrejas não era.

#A Na minha, teologia é "permitida", mas fazem todo um terrorismo de que "afasta as pessoas da fé, blá blá blá", ou seja, é algo que na prática só é acessível aos pastores e quem decide procurar por si só.

#B Passei um tempão sendo agnóstica, até descobrir a teologia. E é exatamente por isso que cogito seriamente mudar de denominação. Tenho a ligeira impressão de que é por isso que fazem tanto medo sobre o assunto: estão mais preocupados com números de fiéis enchendo os bancos (e em muitos casos, até dízimo enchendo o bolso) do que compromisso com a verdade.

#C Na igreja que eu congrego, os pastores nos incentivam a estudar sempre a Palavra, estudar teologia, mas com moderação pra não virarmos fanáticos, mas sábios!

22 - Minha mãe brigava comigo por jogar Diablo, RPG, Magic, YuGuiOh, ver Dragon Ball ou qualquer desenho que tivesse chifres, monstros ou qualquer coisa do tipo. Me deixava de castigo e realmente me impedia de me divertir pela ORDEM ALIENANTE da Igreja.

#A A igreja disse para minha mãe que Pokemon Go tá fazendo os jovens fazerem coisas erradas. Perguntei que coisas e ela “Ah, num sei”. Tentou queimar meus ursos de pelúcia porque recebeu pelo WhatsApp que espíritos possuem a pelúcia. E ficou com paranóia de tomar Coca Cola em março e abril porque falaram no WhatsApp que uma irmã teve a visão de que quem tomasse Coca feita nestes meses seria possuído.

#B Já tive problemas parecidos com minha mãe. Meus livros de RPG eu tive que tirar de casa e deixei na casa de um amigo. A mãe dele também era evangélica, mas não mexia no quarto dele. Numa faxina, achou os livros e colocou no fogo.

#C Eu já fui Cristã, era evangélica, hoje não tenho religião. Acredito que possa existir um Deus, só não o demônio. Meu pai é evangélico, raramente vai para a igreja, porém ama c%g%r regras espirituais, e implica comigo por ter saído da igreja. Numa dessas c%g%d%s, um dia, ele foi ao meu quarto pra arrumar a cortina, e viu um livro com o título "Passaporte para o inferno", da Celhia de Lavarène, e já foi dizendo "Que livro é esse? Tira esse livro daqui, livro de maldição, continua mesmo lendo isso pra trazer maldição pra dentro dessa casa". Eu quase morri de raiva e de rir, porque o livro conta a história de uma mulher que trabalhava pela ONU resgatando meninas que se tornaram escravas sexuais.

#D Uma vez, na escola dominical da Maranata, eu disse que amava o Mickey. A professora da classe disse que eu só podia amar a Deus e que o Mickey era um demônio, porque ele não era parecido com nenhum animal. Eu fiquei triste. Tinha 5 anos. Com 6 anos eu descobri que ele era um ratinho.

23 - Isso me fez ter uma infância onde eu me divertia escondido, estudava escondido, era meio IDADE MÉDIA.

#A Minha mãe tinha neuras como essa. Certa vez me proibiu de assistir Chiquititas porque ouviu um pregador dizer que nesse "Chiquititas" simbolizava "Anjos decaídos"... Eu não faço ideia de onde ele tirou isso. Só sei que ela acatou imediatamente e fez da minha vida um inferno, a partir daí.

32 - O que salvou minha vida pra sair da igreja foi o podcast irmãos.com, que inclusive recomendo até hoje. Ele que me mostrou a vida em outras igrejas, a teologia, os tabus, a desconstrução e entendimento bíblico através do CONHECIMENTO. Foi ótimo. Ouvia escondido também.

#A São os caras que gravam pra galera do Missão na Íntegra do Pr. Ariovaldo, Pr. Paulo Borges Jr., Pr Ed René... Muito legal mesmo os podcast dos caras.

35 - Tudo na igreja é dividido entre a dicotomia: IGREJA e MUNDO. As coisas do mundo são de satanás e devem ser abominadas de TAL maneira que você se aliena e acaba caindo em FAKE NEWS.

#A Não aguento mais! Vivo em uma casa onde minha mãe é evangélica e meu pai nunca vai, mas vive com hipocrisias citando partes da Bíblia onde falam sobre respeito de filho com seu pai. Não posso fazer coisas que não são da igreja, escutar músicas que não são da igreja, vestir roupas que o Espírito Santo vá se entristecer, assistir coisas que não sirvam pra "edificação" ou sair pra lugares em que Deus não habite. Com meus 11 anos, morria de medo de tudo, medo do arrebatamento, medo de Deus me matar porque não estava sendo santa o suficiente. Aos meus 16 anos, me revoltei totalmente após ver que a hipocrisia reinava não apenas na minha casa, mas na própria igreja. Já fui chamada de várias coisas pela minha própria mãe apenas por não seguir os dogmas dela. Esses dias, com 17 anos, fui escondida em uma festa. Quando cheguei, minha mãe cortou todas as minhas costas com uma corda, enquanto ela gritava comigo que o meu lugar era na igreja, e não sendo uma prostituta mundana. A pouco tempo descobri que estou com uma forte anemia, avisei a minha mãe e ela veio me falar que era castigo de Deus por eu não obedecer. Literalmente, não aguento mais ir contra meus ideais.

#B Isso me faz lembrar que, na minha igreja, diziam que as crianças de até 11 ou 12 iriam pro céu com certeza, por inocência. A partir de 12 ou 13, a pessoa já iria precisar se vigiar para se manter no Espírito Santo. Depois dos meus 9 anos, eu ficava pensando em me matar para ir pro céu, porque eu sabia que eu não iria conseguir me manter na igreja depois. Só que também diziam que suicida ia pro inferno, então acabei nem fazendo.

36 - Por exemplo, a gente não comia a maionese Hellmann’s pois significava HOMENS DO INFERNO. Tiraram do C@ essa própria burrice, né?

#A Isso porque não deviam conhecer a teoria de que "'Cola Cola lido de trás pra frente é Alô Diabo" (na logo realmente parece, mas f&d*-s#).

#B Santa burrice. "Hellmann's" nem é inglês. Mesmo se fosse, "MAN" tem um "N" só! Posso estar errado, mas tá muito mais pro alemão "homem (Mann) claro (Helles)", isto é, "maionese do branquelo".

37 - Não podia ter ORKUT também, pois o significado da palavra era alguma coisa relacionada ao demônio lá, sei lá, mentira né.

38 - Mais tarde eu descobri que não podia usar Orkut porque lá tinha uma comunidade de ex-membros onde eles jogavam os podres e o conhecimento pro alto. Certamente se alguém caísse naquela comunidade, sairia da igreja facinho. MANIPULAÇÃO.

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Depois de ler os vários testemunhos de leitores do Júlio Victor, imagino que muitos riram e ao mesmo tempo reconheceram alguma esquisitice com a qual teve contato. Esse misticismo, as revelações e profecias de fato estão sendo fartamente distribuídas em Congregações Evangélicas não só no Brasil, mas em todo lugar onde há o Cristianismo misturado com baixa escolaridade. E não era tão diferente no Oriente Médio por onde Paulo e os evangelistas andaram.

Cristianismo & Bíblia

Eu gostaria de nomear 3 pontos com relação a isso. O primeiro é que a Bíblia se propõe - e sobretudo para o Novo Testamento isso precisa ser efetivo - a ser o cerne do Cristianismo. Isto é, sem doutrina do Novo Testamento, como falamos em um Cristianismo? Faço essa observação principalmente pelo largo emprego do Velho Testamento e fontes extra-bíblicas, tais como textos de religiosos, mídia, etc no funcionamento atual das igrejas brasileiras. Arrisco dizer que boa parte dos Cristãos sequer saberia enumerar os livros ou personagens do Novo Testamento.

O segundo ponto, que enfraquece o primeiro, é a permissão bíblica quanto a uma variabilidade de interpretações. Já houve muitas guerras entre Cristãos por causa disso. Há pontos teológicos contrários no Velho e no Novo Testamento, como por exemplo a graça divina por perfeição comportamental do homem ou como favor imerecido. Sendo Cristão, sou levado a escolher o último, do Novo Testamento. O teólogo estadounidense Wayne Grudem escreveu: “Existem apenas duas causas possíveis para as discordâncias [sobre Deus]: (1) Por um lado, pode ser que estejamos buscando fazer afirmações onde a própria Escritura está em silêncio. Em tais casos, devemos estar mais do que prontos para admitir que Deus não nos deu a resposta para nossa busca e permite as diferenças dentro da igreja. (2) Por outro lado, é possível que tenhamos cometido erros em nossa interpretação das Escrituras.

Sim, há discrepâncias quanto às narrativas dos Evangelhos! Por exemplo, sobre a última ceia: foi uma pregação sobre pão e vinho, como pintado por Leonardo da Vinci - vide Paulo, Marcos e Lucas, todos colegas de viagem - ou uma lição sobre humildade na lavagem dos pés de Pedro - vide João? E também sobre o que Jesus fez depois de ressuscitado: um mandamento sobre pregar a todas as nações, sem (Mateus 28.19) ou com superpoderes (Marcos 16.15-18), aparecendo para jantar e iluminar (Lucas 24.36-45), ou assando peixes para dar as últimas instruções a Pedro (João 21.11-17)?). Paulo, doutrinador registrado das primeiras congregações, dava bastante liberdade aos cultos¹, desde que compreendessem Jesus como perdão dos pecados e conexão entre do Homem com Deus. Como o Protestantismo sempre prezou pelo contato entre os crentes e a Bíblia, devemos estar respeitosamente preparados para tratar com muitas concepções.

O terceiro ponto é a presença, desde o início do Cristianismo, de visões e instruções espirituais aos crentes. Paulo afirma que seu conhecimento do Evangelho não veio por homens, mas pelo próprio Cristo (Gálatas 1.11,12). Ele recomenda examinar as informações espirituais e comparar com o ensino que ele dera as igrejas (mas elas não dispunham de 4 evangelhos e várias tantas cartas apostólicas em mãos, para perguntar "todos esses?"). Se pensarmos em uma fonte comum para todos os textos - inspirados, mas redigidos por homens - e as visões ou inspirações dadas diretamente pelo Espírito Santo, vamos ter de refletir um tanto antes de dizer qual é melhor, no caso de uma discordância. A meditação é válida e recomendada pelo mais sábio dos sábios, o rei Salomão (séc. 10 a.C.). Não podemos simplesmente desprezar as experiências Pentecostais com o divino, ainda mais porque elas pregam uma ação prática de Deus sobre os homens, mas devemos avaliar elas junto dos textos bíblicos antes de simplesmente sair reproduzindo.

Informantes e desinformados

Depois disso, há algo nas conversas dos leitores do Júlio Victor que chama muito a atenção. São as fontes de informação como Whatsapp, 'ouviu uma irmã dizer', etc. É surpreendente a facilidade com que os Evangélicos brasileiros aceitam novas informações religiosas, sendo "meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente" (Efésios 4.14). Não é saudável acreditar em tudo, especialmente em assuntos de fé, que tratam do que não se vê.

Do lado bom da escala de validade das informações podemos colocar em primeiro as Escrituras; depois as obras teológicas de grandes fundadores das igrejas (ex. Lutero, Calvino, Armínio, Santo Agostinho, etc)³; num ponto intermediário estão as pregações e os veículos de mídia oficiais com grande abrangência; e noutro extremo (ruim) ficam os boatos circulando, sem discussão teológica nem nada, e ainda abaixo disso os tabus não comentados, porém praticados. Precisamos nos sustentar nas obras melhores, favorecendo o material de alta qualidade e filtrando severamente as coisas de baixa qualidade (ex. boatos). Mas o acesso a um e outro estão ligados ao nível de escolaridade das pessoas. Lembremos que Paulo, altamente intelectualizado, deixou uma série de cartas normativas das igrejas, enquanto Pedro, pescador, deixou apenas uma tradição.

O grande problema com as fontes de informação de baixo valor é a sua falta de confiabilidade, falta de experimentação ou reflexão, e abundância de achismos tidos como verdade. O célebre Umberto Eco dizia, sobre isso, que a internet elevou todos os discursantes a um mesmo patamar: "Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel". Talvez não seja só a internet que faça isso, pois muitas conversas repletas de invencionices ganham facilmente valor no universo Evangélico/Pentecostal se vierem associadas às expressões "eis que te digo" ou "Deus mandou te dizer".

A valorização de ensino espiritual ou extra-bíblico (que é algo legitimamente Cristão) e também o desconhecimento da Bíblia, em especial do Novo Testamento, ajudam muito que os blá-blá-blás ganhem força. O jornalista Leonardo Sakamoto, em um artigo, emendou que, ao igualarmos todas as fontes de informação, fazemos com que pesquisas científicas sérias e, no caso, estruturas teológicas centenárias ou construídas por renomados estudioso sejam "derrubadas" pela “verdade” mais conveniente ou mais chamativa.

Ninguém espera que um novo Cristão, ou alguém recém introduzido na Congregação, tenha o entendimento de obras teológicas. Nem mesmo das filosofias que Paulo discute em suas cartas para as igrejas. Mas as pessoas com esse conhecimento devem existir (pode até ser apenas o pastor, numa primeira fase) e devem fazer esse trabalho de "digerir e ensinar" para os demais, para que a congregação cresça em sabedoria. Era isso que Jesus fazia em suas parábolas e foi isso que Paulo fez em suas cartas. Quantos Cristãos tiveram acesso ou conhecem as obras teológicas dos fundadores de suas igrejas? Bem poucos.

Raríssimos Evangélicos brasileiros saberiam dizer o que foi a Reforma Protestante². A maioria se alimenta das informações em sermões e publicações internas (um nível de qualidade mediano) ou de boatos e tabus (nível de qualidade ruim), porque os "doutores na fé" não fazem seu trabalho de educadores da congregação. Enquanto as igrejas Evangélicas deixarem cada um escolher o seu material de estudo ou até investirem nos piores meios, pois são mais fáceis de veicular, alimentaremos uma turba de ignorantes que facilmente ajoelha para orar por qualquer coisa ou toma pedras nas mãos para executar alguém. Não é nem de longe a sabedoria e amor que Paulo aconselhava.

Tentando entender essa busca dos Evangélicos pela revelação extra-bíblica, R. Menezes anotou algumas razões que devem ser lembradas: (1) Influência de elementos paganizados do catolicismo romano; (2) Influência de elementos litúrgicos afro-indígenas; (3) Influência da renovação carismática, subsequentemente dos pentecostais; (4) Analfabetismo total e funcional da nação; (5) Maioria feminina nas congregações; (6) A busca de uma identidade e posicionamento social dos crentes, sobretudo nas classes mais pobres; (7) A busca por soluções imediatas. Eu até adicionaria a estratégia ansiogênica de pregação Evangélica. Isto é, prega-se o perigo iminente do Arrebatamento, do Apocalipse e do mal que anda ao redor, ao invés de apresentar Cristo na solução dos problemas sociais e cotidianos.

A diferença de uma coisa e outra está no fato de que, pregando o perigo iminente, deixamos as pessoas desesperadas por identificar o mal, sem ter uma solução para ele. O mal então pode ser apontado em qualquer um, no título de um livro, num vidro de maionese. Ao não mostrarmos a atitude Cristã na solução de problemas, deixamos ainda as pessoas sem saber “o que fazer com Cristo”. Muitos Cristãos só lembram Dele no culto.

O que fazemos e o que desfazemos

Outro ponto complexo é a exposição às “tentações mundanas”. Mesmo grupos claramente aderentes ao que H. R. Niebhur chama de “a igreja contra a cultura” estão imersos no mundo não Evangélico, não Protestante, e não Cristão. Ao manter os jovens dentro de uma bolha cultural Cristã (imperfeita), acabamos por não deixar aos jovens a opção de serem Cristãos. Simplesmente porque se torna cultural e não opcional.

É quase como enaltecer alguém por ter nascido rico ou pobre, saudável ou doente. Nenhum destes foi escolhido! Além disso, Jesus e Paulo não se opuseram a estrutura culturais mesmo vivendo em sociedades formadas por Judeus Essênios, Judeus Fariseus, Romanos, Gregos, Sírios, etc. A oposição que vemos em Jesus é justamente contra os Fariseus, então líderes espirituais de grande parcela dos Judeus e do próprio templo onde Ele, Paulo e Pedro congregavam. Evidentemente que o Cristianismo traz a premissa de uma Salvação única, um caminho único para satisfazer a Deus e se aproximar Dele, mas esse caminho não é tão estrito (pelo menos a Bíblia traz e permite diversas interpretações) nem é apresentado como algo que deva ser enfiado goela abaixo dos crentes.

Por incrível que pareça, as igrejas em todo o mundo fizeram opções erradas quanto ao que olham em seus fieis. Seria difícil dizer quando isso começou, mas provavelmente foi quando as congregações passaram a conviver (já não como irmãs, antes eram inimigas mortais) e disputar as almas ao redor de si. No 1° mundo, onde as pessoas tem muito mais do que precisam, as necessidades das pessoas tornaram-se desejos e caprichos; a igreja escolhida então é aquela que realiza esses caprichos, para os quais a alma humana é geniosa e prodigiosamente inventiva. No 3° mundo, onde as pessoas vivem com necessidades que provavelmente jamais serão satisfeitas, como segurança, saúde, etc, a igreja escolhida é aquela que se atreve a prometer isso. Mas sempre foram promessas eleitoreiras, mentirosas, do tipo "Deus vai te prover isso", que jogam sobre Ele todo o trabalho a ser feito. E as igrejas com isso?

Para um e outro caso, a ignorância das Escrituras é algo muito lucrativo (e tentador). Nada de ortodoxias, Jesus não era mais ortodoxo que seu pitoresco primo João [batista] vestido com pele de camelo e comendo gafanhotos na beira do Jordão. Mas você já viu alguma igreja que rompesse com a estrutura social ocidental e implantasse residências comuns, onde todos repartem os gastos? Parece estranho, e não digo que seja necessário, mas esse é o modelo "comunista" apresentado no livro de Atos. Não muito diferente do que é praticado tradicionalmente em algumas comunidades no Oriente Médio.

Outra: Jesus fez diversos milagres, mas muito raramente de forma coletiva. O que havia, de modo coletivo, era seu ensino sobre o Reino de Deus (paz, felicidade e justiça, nas palavras de Paulo) e discussões sociais, as vezes com com base em parábolas. Muitas igrejas fazem isso, e muito mais ainda nem sabem do que estou falando. As mais midiáticas, mega-congregações com dezenas de milhares de pessoas que nem se conhecem, estão bem longe das discussões sobre problemas sociais. É como se a idéia principal do Cristianismo tivesse se perdido, e agora o conceito fosse um fast food com brinquedo por só 40% a mais. Só que ninguém vive um fastfood.

Cristãos e mal falados

Com o Cristianismo funcionando segundo a Bíblia já existem muitas criticas, imagine sem ela. Uma dessas críticas é a forte oposição entre o conceito de Deus no Velho Testamento (isto é, uma entidade favorável a matança de estrangeiros, escravismo e ferrenha ao seguimento estrito de normas) e no Novo Testamento (um símbolo de amor, piedade, pacifismo e fé). Não dá para questionar essas diferenças, apesar de falas atribuídas a Jesus indicando que há uma continuidade. Mas essa mudança (e já coloquei antes que, como Cristão, fico com a proposta de Jesus) não justifica fazermos uma nova transformação do Evangelho de modo que ele atenda a interesses comerciais e militares. Não justifica as Cruzadas, nem a Inquisição, nem tampouco o misticismo da Teologia da Prosperidade. O mal uso do nome de Deus sempre pesará contra os Cristãos.

Pesa contra nós, ainda, a persistência em idéias para as quais a Ciência oferece respostas diferentes da Bíblia (a Ciência não estuda Deus, ok?). Isso é bastante sério no que se refere à juventude Cristã. O texto do Novo Testamento tem quase 2000 anos, o do Velho Testamento chega aos 3500 anos. é bastante óbvio que qualquer noção tecnológica ou de entendimento do Cosmos apresentado na Bíblia pode ser classificada como História, a menos que seja de fato uma revelação divina. Só para citar, o Gênesis coloca o que chamamos de Terra como algo plano, que separa as águas abaixo do mundo (de onde vem, de alguma forma, os rios, lagos e mares) e as águas acima do mundo (que tornam o céu azul e de onde vem as chuvas). Sem problemas para o pessoal de Ur dos Caldeus, mas inconcebível nos dias em que lemos isso por um sinal de internet transmitido através de satélites orbitando o planeta. A insistência apesar de provas em contrário é teimosia, não fé.

Não faltam grandes mentes dentro do Cristianismo para nos instruir³, a começar por Paulo quando recomenda ocuparmos a mente com "tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, excelente ou digno de louvor" (Filipenses 4.8). Mas Paulo foi um peregrino, incumbido de arrebanhar gregos bem educados, aos quais faltava uma filosofia de fé. Jesus, por outro lado, andou entre os mais incultos de Roma, desafiando autoridades que lideravam por medo. Hoje, temos uma igreja formada por pessoas que vão desde analfabetas até ensinadores, ricos e pobres, uma juventude que supera seus pais em escolaridade e que se alimenta de dados coletivos. E se cremos em um Senhor que prima pela verdade, passamos por tolos ao bradar teorias arcaicas como sendo verdades.

As Escrituras tem muito material humano antigo, de pessoas bravas, que viveram, acreditaram em algo e o deixaram para ser reproduzido no futuro, até nos. Será que realmente é tão difícil apresentar o Espírito Santo agindo nos dias de hoje? Não morremos mais de lepra, nem precisamos assistir o sofrimento de epilépticos e esquizofrênicos sem ter o que fazer. Nossos demônios são outros, mas há muita gente desassistida para as quais é muito raro ver a Igreja mover algo.

Restringir os jovens (e os adultos também) dentro de "mundinhos gospel" parece o certo a se fazer, mas pode ser péssimo para sua formação. A igreja produz, mas não é detentora das artes, nem da literatura, nem da música. O filósofo alemão G. W. F. Hegel, no início do séc. 19, ao ver as grandes transformações ideológicas que o mundo sofria (era a época dos impérios comerciais na África e na Ásia), em muitos de seus trabalhos, discutia que não é possível formar uma razão saudável a partir de um mundo limitado, enviesado. Por isso, é absolutamente normal que os jovens queiram explorar sua cultura, aprender sobre o mundo, e provavelmente nem todos voltarão para a Igreja. Mas aqueles que voltarem (e talvez tragam outros consigo), é importante que o façam por terem conhecido a Jesus, por conhecerem de verdade o Cristianismo, e não porque nunca viram nada além disso. Lembremos da célebre parábola do Filho Pródigo, contrastando aquele que experimentou o mundo - e reconheceu o amor do pai - com aquele que sempre esteve sob cuidados (Lucas 15.11-32).

Que esses jovens interpretem sabiamente Harry Potter, Nietzsche, o Islã e tudo mais que habita o mundo. Tragam novas idéias, novas discussões (Jesus nunca se absteve de discutir), que falem bem da Igreja para os de fora sem serem chamados de arcaicos ou ignorantes. Que possamos ser bem vistos e recebidos como era a Igreja Primitiva.

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¹ O termo “culto” pode até não estar certo quanto à Igreja Primitiva. É descrito que Jesus e os apóstolos se reuniam no Pórtico de Salomão, uma área de acesso do Templo de Herodes, que era o mais importante local de culto Judeu. Os encontros de Cristãos relatados no livro de Atos estão mais para ocorrendo em residências comuns, com muitas pessoas, de diversas famílias, todos sentando-se na mesma mesa para “dividir o pão”, refeitoriamente falando. Além disso, o registro arqueológico mais antigo do que poderíamos chamar de “templo Cristão” é uma casa modificada em Dura-Europos, na Síria, datando do séc. 3 d.C. Ver A invisibilidade Cristã.

² Os Protestantes Históricos e Pentecostais se dividiram no início do séc. 20, uns defendendo as visões e ensinos espirituais, o outro grupo os negando. O movimento Evangélico surgiu no meio do séc. 18, liderado pelos Metodistas, como um movimento transdenominacional reunindo elementos do Protestantismo Histórico do Pentecostal. Esse movimento pregava o uso da Bíblia (e não a tradição ou as obras teológicas) como fundamento da pregação e dos costumes Cristãos. Tanto Evangélicos como não Evangélicos são frutos da Reforma Protestante, no séc. 16, quando foram questionados alguns pilares da Igreja Católica Romana, tais como a hierarquia religiosa, o culto aos santos, a transmutação dos elementos na Ceia e o não acesso das pessoas à Bíblia. Em outras palavras, todos os Evangélicos são Protestantes. Ver Cristãos transitando.

Os Católicos defendem a tradição eclesiástica herdada supostamente do grupo de Pedro, em Roma. Segundo eles, a Bíblia não seria clara sobre muitas questões (e não é), além de haver divergências sobre quais são os livros inspirados por Deus e quanto deles é inspiração. Se considerarmos que os grupos originais de Cristãos eram pessoas ajudando umas às outras, sem nenhum material escrito (só houve algum após 80 d.C., quando os Cristãos já estavam disseminados ao redor do Mediterrâneo), eles tem razão em confiar numa “tradição apostólica”.

³ Santo Agostinho nos ensinou a resistir as tentações, os missionários de Alexandria ensinaram com tratar culturas diversas das nossas, São Francisco ensinou a pôr o amor em prática, Lutero ensinou a necessidade de se pautar na Bíblia, John Wesley mostrou quem precisa ouvir sobre Jesus.

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A leitura foi desaconselhada por bons motivos

Do Christians need only the Bible?, catholicnewsagency.com.
Klinge D, 3 reasons why the Bible is the only book we really need, dawnklinge.com, 26/abr/2017.
Luke, The false reality – why Christianity requires ignorance, new.exchristian.net, 16/abr/2017.
Sakamoto L, O culto à ignorância passará o cristianismo como principal crença do Brasil, blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br, 6/mar/2016.
Witherington B., Ignorance is Bliss? Biblical Illiteracy in the West, 25/ago/2007.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Ciência da fé . . . e fé na ciência


Em todas as sociedades modernas, as crenças estão mais vivas do que nunca. Mas isso não é um paradoxo, um contra-fluxo na corrente racional vitoriosa do conhecimento humano? Não se convencionou que crença e ciência não combinam, são como óleo e água? Os dogmas milenares que orientam a fé de cristãos, judeus, muçulmanos ou budistas são todos muito respeitáveis, mas em pleno século 21 não são apenas anacronismos deslocados do mundo da razão e da tecnologia? Não. A novidade é que não existe paradoxo. Existe, sim, o reconhecimento dos limites dos dois campos da percepção humana dos fenômenos naturais.

UM EMBATE ANTIGO

Extrapolando da fala de Jó ("se vou para o oriente, lá Ele não está; se vou para o ocidente, não O encontro. Quando Ele está em ação no norte, não o enxergo; quando vai para o sul, nem sombra Dele eu vejo!" Jó 23.8-9), parece que não podemos ver Deus em nosso próprio mundo... Ele precisa se manifestar de formas incabíveis e fora da nossa realidade. Assim, a Ciência e Deus foram colocados em cantos opostos da sala: cada coisa que se conhece vai para para o lado da Ciência, deixando o lado divino cada vez menos povoado. Será que Deus só prevalece na ignorância, mesmo tendo provido até a própria pessoa para nos ensinar?

Não passa um mês sem que saiam dos laboratórios explicações cabais sobre o que se pensava ser algo sobrenatural. O túnel de luz que as pessoas que estiveram em coma contam ter visto parecia misterioso e insondável. Esse túnel seria uma entrada entreaberta para a eternidade, que se deixava examinar de esguelha por alguém que estava prestes a abandonar o mundo material. Mas essa e outras experiências sensoriais que se têm à beira da morte são todas reações mensuráveis e previsíveis do cérebro humano. A revelação dos bastidores torna os mistérios da vida e da morte menos espantosos? Não. Nada. Hoje soa arrogante e tola a reação dos orgulhosos astrofísicos nos anos 80, quando os satélites mandavam para a Terra sinais que confirmavam a teoria do Big Bang, a súbita explosão original que deu origem à matéria, à energia e às leis que regem a interação entre ambas: "Agora que a física já explicou como surgiu o universo, não há mais lugar para Deus". Tem chumbo trocado: quem pode imaginar uma reação mais tosca e pedestre do que dizer que a Lua perdeu o romantismo para os namorados depois que os astronautas americanos colocaram suas botas por lá?

Claro que o núcleo duro da melhor ciência despreza a noção de Deus. A Ciência é questionadora, busca mecanismos racionais de explicar o mundo, e logicamente Deus não pode ser racional. Da mesma maneira, os metafísicos de todos os sabores e cores não enxergam utilidade alguma no método científico. O cenário atual que emana do córtex cerebral da humanidade - pelo menos da sua porção que se manifesta conectada na internet - é o de que, apesar dos avanços cada vez mais espetaculares da ciência, permanecem intactas as emoções humanas, as sensações de tremor diante do infinitamente pequeno ou do infinitamente grande. Por mais que se explique com crescente precisão como funciona o mundo natural, persiste para a maioria das pessoas a crença de que existe algo mais poderoso ainda... algo desconhecido... e [lógico!] portanto divino.

CIÊNCIA NA FÉ

Há nessa persistência, por ironia, uma explicação científica, estudada a fundo pelos cientistas. A fé, assim como as religiões criadas sobre ela, persiste por ser um componente primordial da evolução humana. Em algum momento durante a última Era do Gelo, que terminou 12000 anos atrás, o Homem desenvolveu o pensamento simbólico. Interessou-se em saber que tipo de força existia por trás dos fenômenos naturais. Começou a enterrar os mortos e a enfeitar seus túmulos com flores. No papel de única espécie capaz de antecipar a própria morte, o ser humano precisou vislumbrar entidades maiores e mais poderosas do que ele para conseguir suportar essa certeza. Muitos biólogos evolucionistas acreditam que as religiões – e tudo o que elas envolvem como instituições organizadas – surgiram como uma superadaptação do homem ao meio ambiente e prosperaram por conferir vantagens a seus praticantes. A crença no sobrenatural ajudou a convivência do grupo e, portanto, seria a gênese da civilização. O biólogo americano David Sloan Wilson, da Universidade Binghamton, autor do livro "A Catedral de Darwin: Evolução, Religião e a Natureza da Sociedade", avalia que o impulso religioso se desenvolveu cedo na história dos hominídeos porque ele ajudava a criar grupos mais coesos, em que florescia o sentimento de fraternidade e solidariedade. "A crença foi uma arma poderosa na luta contra adversários menos unidos e menos organizados", disse Wilson.  

A mais impressionante indicação de que a necessidade de cultuar um Deus está estampada na evolução humana encontra-se numa pesquisa realizada pelo biólogo molecular americano Dean Hamer, chefe do setor de estrutura genética do National Cancer Institute, e publicada em seu livro "The God Gene: How Faith is Hardwired into Our Genes" (O Gene de Deus: Como a Fé Está Embutida em Nossos Genes). Hamer afirma ter localizado no ser humano o gene responsável pela espiritualidade. Esse gene também teria a função de produzir os neurotransmissores que regulam o temperamento e o ânimo das pessoas. Segundo o livro do biólogo, as pesquisas arqueológicas e antropológicas mostram que diversos tipos de ancestrais humanos conviviam antes da Idade do Gelo, há cerca de 30 mil anos. Quando as geleiras cederam, apenas um tipo predominava, os Cro-Magnon. Eles organizavam-se em famílias, puniam o incesto, enterravam seus mortos, enfeitavam os túmulos, pintavam as paredes das cavernas por deleite estético ... e espiritual! Os sentimentos profundos de espiritualidade seriam resultado de uma descarga de elementos químicos cerebrais controlados por nosso DNA. O cientista diz que a brutal aceleração da competição por recursos escassos e a luta pela sobrevivência em condições climáticas adversas selecionaram os hominídeos de tal forma que restaram apenas aqueles que desenvolveram a capacidade de acreditar. Em quê? Acreditar que aqueles tempos duros iriam passar. Acreditar que uma força superior iria trazer de volta as temperaturas amenas. Já os religiosos enxergam nesse salto evolutivo a interferência direta de Deus nos destinos da humanidade... sem nenhuma ferramenta como DNA, cultura, etc para isso.

A concepção de que a espiritualidade está gravada no genoma humano encontra eco numa das mais antigas religiões, o budismo. Seus adeptos acreditam que todo ser humano herda uma semente espiritual da pessoa que ela foi na encarnação anterior. Essa semente se combinaria a outras duas, herdadas dos pais, para formar suas características físicas e espirituais. Estudos anteriores ao de Hamer também conduzem à noção de que a espiritualidade está entranhada nos genes. No fim dos anos 1970, numa pesquisa que se tornou célebre, cientistas da Universidade de Minnesota estudaram 53 pares de gêmeos univitelinos, ou seja, gerados do mesmo óvulo e com DNA idêntico, e 31 pares de gêmeos bivitelinos, gerados de óvulos diferentes. Todos os gêmeos haviam sido separados após o nascimento e criados a distância. Como se esperava, os gêmeos com DNA idêntico, mesmo privados da convivência mútua, apresentavam traços de personalidade, comportamento e hábitos muito semelhantes. Os gêmeos idênticos eram duas vezes mais propensos a cultivar a espiritualidade no mesmo grau de seu irmão do que os gêmeos bivitelinos. Já quando se analisava a tendência a praticar uma religião, os gêmeos idênticos apresentavam significativas diferenças entre si – sinal de que o hábito de rezar e freqüentar igrejas ou templos é adquirido culturalmente.

FÉ NA CIÊNCIA

O fato de a espiritualidade acompanhar o homem em sua evolução é, provavelmente, o motivo pelo qual o conceito de Deus surge em todas as sociedades humanas desde tempos imemoriais, mesmo entre as mais isoladas. Já o divórcio entre a fé religiosa e a ciência, que hoje se encontra na ordem do dia, é um fenômeno recente. Até o fim do século 18, a Igreja Católica, assim como se confundia com o Estado, legitimando o poder monárquico com a bênção do poder divino, andava de braços dados com a ciência.

Por exemplo, o célebre Isaac Newton (1673-1727), matemático e físico inglês criador do cálculo moderno, da lei de gravitação e com contribuições históricas na ótica, era um homem bastante religioso.  E não apenas isso: ele empregava sua ciência também na análise de temas religiosos. Recentemente, a Biblioteca Nacional de Israel apresentou ao mundo manuscritos atribuídos a Isaac Newton, nos quais ele calcula a data aproximada do apocalipse. O material traz também detalhes precisos de um antigo templo em Jerusalém e interpreta passagens da Bíblia. Em um dos manuscritos, por meio dos textos do livro de Daniel, ele chega à conclusão de que o mundo deve acabar por volta do ano de 2060. "Ele pode acabar além desta data, mas não há razão para acabar antes", escreveu. Em outro documento, o cientista interpreta as profecias que contam sobre o retorno dos judeus à Terra Prometida antes do final do mundo. Segundo ele, se verá "a ruína das nações más, o fim do choro e de todos os problemas, e o retorno dos judeus ao seu próspero reino".

O cisma (separação) ideológico entre fé e ciência começou no séc. 18 com o Iluminismo, movimento surgido na França que pregava o uso da razão para explicar o mundo e o universo. O Iluminismo desafiava o papel da religião na sociedade e propunha uma nova ordem social, na qual os interesses humanos estivessem no centro das decisões. Só no século 19, quando o inglês Charles Darwin deixou o mundo atônito com sua teoria da evolução das espécies, que negava a Criação bíblica, as divergências entre o mundo da ciência e o da religião assumiram contornos de guerra cultural. Essa guerra persiste até hoje...

Hoje se vive um equilíbrio precário entre ciência e fé. Nos Estados Unidos, apenas 3% dos cientistas mais respeitados, aqueles que pertencem aos quadros da National Academy of Sciences, acreditam em Deus. Biólogos, como o inglês Richard Dawkins, e filósofos, como o americano Daniel Dennett, escrevem livros e artigos tentando desqualificar a religião como um mal que anestesia as sociedades e as priva das virtudes da razão. Os religiosos contra-atacam ao insistir, por exemplo, que as escolas públicas americanas deixem de ensinar as teorias de Darwin e as substituam pelos ensinamentos da Bíblia. Há também personagens ilustres que tentam contemporizar, como o biólogo americano Francis Collins, que se declara cristão e diz que ciência e religião não se misturam e que se podem cultivar ambas.

COMO ANDA O PLACAR DO JOGO

O Brasil é terreno fértil também para as manifestações acessórias da espiritualidade, como superstições, manias, crença em amuletos, na astrologia e no feng shui. Esse é o território do artista que adiciona uma letra ao nome, do torcedor de futebol que veste uma camisa especial para assistir ao jogo de seu time e dos jovens que usam no pescoço pingentes religiosos. Essas manifestações não têm comprovação empírica de que funcionem, dependem puramente da fé que se deposita nelas. O sociólogo Antônio Flávio Pierucci, da Universidade de São Paulo, autor do livro "A Magia", tem uma explicação para a devoção às superstições e às manias no dias de hoje. Diz ele: "A mente humana se sente desconfortável com o acaso, ela busca explicações para todas as coisas. Daí nasceram os conceitos de sorte e de azar. Se o acaso ocorre a nosso favor, temos sorte; se ele acontece contra nós, o classificamos de azar".

Biblicamente, Fé, conforme o livro de Efésios 2.8-10, é algo que Deus colocou no ser humano ao criá-lo e que se desenvolve através do permanente relacionamento entre filho e Pai divino. Aparentemente, isso jamais poderia ser feito através de Seleção Natural, genes, neurotransmissores ou da cultura humana, precisa ser SEM EXPLICAÇÂO. Fé, de acordo com os livros de Hebreus e Tiago, "é a convicção do que não se vê" e está associado a fazer a vontade de Deus. Não é meramente uma declaração de crença em um ser superior, e sim uma atitude constante de adoração a esse Deus em que se crê como Salvador e Senhor. Conforme a Bíblia, "sem fé é impossível agradar a Deus" (Hb 11.6)... e agradar a Deus não poderia ser jamais uma questão de sobrevivência ou qualidade de vida?

NA FÉ E NA CIÊNCIA

"O que Deus fazia antes de criar o Céu e a Terra? Fazia o Inferno para os que duvidam." Essa era a resposta dos bispos católicos ao tempo de Santo Agostinho (354-430). Agostinho condenava a resposta. Qual a certa? "Deus não fazia nada." Mas como o todo-poderoso se dava ao luxo de passar o tempo fazendo nada? Agostinho: "Deus não passava o tempo fazendo nada porque o tempo não existia. Deus criou o tempo." É espantoso. Dezesseis séculos depois, as melhores cabeças científicas saíram-se com a teoria do Big Bang para explicar o surgimento do universo e tudo o que ele significa - inclusive o tempo. O físico inglês Stephen Hawking rejeita a sobreposição de ciência e religião. Em seu livro Uma Breve História do Tempo, porém, Hawking é agostiniano ao sugerir que o tempo teve começo - ou não teria uma história.

MUNDOS DISTANTES

Devido ao cisma entre ciência e religião, muita gente (hoje) até acredita que o propósito da Ciência é principalmente destruir a Fé. Na verdade, hoje observa-se que ambas trabalham em "salas distintas". A Ciência se pergunta "como as coisas funcionam" e a fé explica "o motivo de elas serem assim". A razão de ser da Fé é fazer o contato entre o Homem e Deus, atribuir significados ao mundo. A Bíblia diz que o Homem existe para servir a Deus. A Ciência se descreve o Homem.

Fundamentalmente, a ciência se ocupa de achar razões ou teorias (isto é, meios lógicos) para os fenômenos naturais. Como se sabe se uma razão ou teoria está certa? A comprovação científica ocorre com o tempo, não é imediata: Albert Einstein construiu a teoria da relatividade nos anos de 1900 para explicar deformações da trajetória da luz, mas as evidências só apareceram nos anos de 1950. Além disso, uma "verdade científica" precisa extrapolar o fenômeno e prever outros eventos, ainda não observados. No caso de Einstein, sua teoria se ajustou perfeitamente (nas descrições e nas medidas) a observações feitas sobre a radioatividade, muitos anos depois. Newton explicou a forma como os corpos caem na Terra, mas ele mesmo percebeu que sua teoria era capaz de explicar os movimentos da Lua, dos planetas e até de galáxias inteiras.

A Fé por outro lado afirma que há causas não previsíveis para os fenômenos, resultado da intenção ou vontade de seres espirituais. E ela não se propõe a explicar fenômenos. Pela Fé, as profecias feitas no Antigo Testamento seriam ainda esperadas e os ensinamentos colocados na Bíblia não são fruto de observações do passado, mas destinados a tempos futuros, que o próprio autor desconhecia. A Ciência simplesmente não obtém medidas dessas entidades, então não as inclui em suas teorias (pelo menos desde o séc. 18), descrevendo e fazendo previsões acerca do MUNDO OBSERVÁVEL. Cientificamente, nem haverá como contestar a imensa maioria das coisas na Bíblia, a menos que alguém obtenha medidas de Deus ou dos anjos. Como provar que uma profecia não irá se cumprir? Como provar que um morto não ressuscitou ou que cegos não foram curados?

Alguns pesquisadores entretanto ainda se agarram aos temas bíblicos. Afinal, muito do que a Bíblia diz que existiu teria deixado resquícios. E, curiosamente, nesse ponto Ciência e Fé têm andado bastante amigas. Por exemplo, recentemente postamos aqui uma investigação sobre o local onde teria estado o Éden bíblico. As evidências apontam que tal lugar de fato existiu (mas não o prova), ainda que seu significado extrapole as poucas linhas sobre ele no Gênesis (Gn 2.8-15). Há indícios científicos fortes de que o Dilúvio narrado (Gn 7.10 - 8.14) equivale a uma grandiosa inundação no Oriente Médio em tempos remotos, mas que nunca existiu na Terra água suficiente para cobrir toda a superfície e, pior ainda, o topo das montanhas mais altas. Os mais ferrenhos dirão simplesmente, "é fé!". Outros porém, se perguntam o que Noé e sua família conheciam por mundo...

Ainda que a Fé seja explicável por genes, neurotransmissores e áreas cerebrais, isso a desbanca? É preciso que seja inexplicável para ter relação com o divino?

MITOS DO ALÉM, SEGUNDO A CIÊNCIA

Por curiosidade ou necessidade imanente de desbancar explicações fantasiosas, alguns cientistas se debruçam sobre fenômenos aos quais a religião também se dedica. Não havendo provas, não significa que é fé. Fantasias e mentiras também são carentes de provas... O que a ciência nomeia de  sonambulismo  ou esquizofrenia e trata com medicamentos antipsicóticos já foi chamado de possessão demoníaca ou ainda de xamanismo. Mas a Bíblia indica o que seria um transtorno mental? Não, e repare que também não há provas científicas contra a possessão demoníaca; há apenas a comprovação de que, em muitos casos, o diagnóstico religioso está muito errado. Nos tempos em que a religião era a única prática curativa, esse embate talvez fosse mais ferrenho.

Sempre há espaço para pesquisar curas e revelações divinas e, como mostrado acima, a própria FÉ é objeto da ciência. Aqui seguem algumas explicações de fenômenos (extrabíblicos, entenda-se bem) ligados a diversas religiosidades e para os quais há explicações científicas coerente. Ainda que essas não possam invalidar as estórias contadas...

QUASE MORTE - relatos que alimentam mitos e interpretações místicas, são feitos por pessoas dadas como mortas mas que, de modo espontâneo ou com a ajuda da medicina, voltaram à vida. Muitas se referem a túneis de luz ou à sensação de flutuar no ar, de modo a ver do alto o próprio corpo.

Enquanto fazia exames numa paciente epilética, o neurologista suíço Olaf Blanke, do Hospital Universitário de Genebra, descobriu que a estimulação de determinada área do cérebro provocava na paciente a sensação de abandonar o próprio corpo e flutuar pela sala. O ponto em questão é o giro angular direito, parte do cérebro localizada no lobo parietal. Essa região é responsável pela percepção espacial que se tem do próprio corpo e do ambiente em torno. Ao estimular o giro angular com pequenas descargas elétricas, Blanke afetou a forma como o cérebro da paciente decodificava a percepção do espaço e dela própria, quebrando a unidade que existe entre o eu e o corpo. Dessa maneira, a paciente se sentia como se estivesse a flutuar no teto, enquanto seu corpo permanecia na cama.

SENTIR A PRESENÇA DE ESPÍRITOS - comportamento de pessoas em êxtase religioso, sob a ação de alucinógenos e também visto comumente em esquizofrênicos paranóides ou catatônicos. Ao estimular com eletrodos o giro angular esquerdo de uma paciente, Olaf Blanke percebeu que ela virava a cabeça como se procurasse alguém dentro da sala. "Quando se desligava a corrente elétrica, a presença estranha sumia". Para o neurologista, o estímulo no giro angular esquerdo criou uma disfunção no circuito neural que levou a paciente à ilusão de uma projeção "torta" do próprio corpo, que ela interpretou como um fantasma. 

LUZ NO FIM DO TÚNEL - depois de ser ressuscitado, o doente conta ter visto um túnel com uma intensa luz na outra ponta. A neurocientista Susan Blackmore, da Universidade do Oeste da Inglaterra, em Bristol, atribui o relato à ilusão provocada pela falta de oxigênio no cérebro, típica de uma parada cardíaca. As células do córtex visual responsáveis pela visão central são mais numerosas que as da visão periférica e, por isso, vêem a imagem com maior brilho. Para a cientista, essa diferença de luminosidade causa a impressão de existir um túnel com luz intensa no seu final. "É algo puramente biológico que as pessoas tendem a ver como místico" - disse Susan - "Drogas como LSD, quetamina e mescalina podem produzir o mesmo efeito em algumas pessoas."

CORPO PARALISADO AO DESPERTAR - quando atingimos o estado de sono profundo, ocorre uma mudança química nas regiões do cérebro responsáveis pela atividade muscular. O objetivo é paralisar os músculos para evitar que os movimentos dos sonhos sejam reproduzidos na vida real. Algumas pessoas acabam despertando durante esse período, com os músculos ainda paralisados. "A sensação é desesperadora e a pessoa sente dificuldade para respirar. Não é incomum ela associar esse evento a experiências espirituais, místicas, demoníacas e até mesmo a encontros com aliens", explica Susan Blackmore. 

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PODE LER QUE A GENTE DEIXA. SE ELES DEIXARAM...

domingo, 2 de setembro de 2012

Onde foi parar o Paraíso

Jardin do Éden, Jan Brueghel & Peter Paul Rubens, 1617
Qual brasileiro reparou nas aves das árvores?

Gn 2.8. E plantou o SENHOR Deus um jardim no Éden, do lado oriental; e pôs ali o homem que tinha formado. E o SENHOR Deus fez brotar da terra toda a árvore agradável à vista, e boa para comida; e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal. E saía um rio do Éden para regar o jardim; e dali se dividia e se tornava em quatro braços. O nome do primeiro é Pisom; este é o que rodeia toda a terra de Havilá, onde há ouro. E o ouro dessa terra é bom; ali há o bdélio, e a pedra sardônica. E o nome do segundo rio é Giom; este é o que rodeia toda a terra de Cuxe. E o nome do terceiro rio é Hiddekel [Tigre]; este é o que vai para o lado oriental da Assíria; e o quarto rio é o Eufrates. E tomou o SENHOR Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar.

bdélio: resina aromática obtida da planta Commiphora wightii, ou Guggul, semelhante à mirra; essa resina é amplamente extraída e comercializada até hoje no Paquistão e Índia.

pedra sardônica: termo obscuro que provavelmente se refere ao ônix, um cristal de óxido de silício (quartzo) cuja cor pode variar do negro ao castanho avermelhado.

Por alguma razão bem difícil de entender, desde que Adão e Eva foram expulsos do Éden, ou jardim de Deus, têm havido grandes tentativas para retornar. A razão mais provável para isso é constatar que o homem convive com o mal, sofre com as injustiças e dificuldades da vida, acabando por imaginar um lugar livre de tudo isso. Logo no início da Bíblia está ela bem ali descrita: Éden, o lugar perfeito, antes de todo mal. Quem não gostaria de ir para lá? Jesus menciona que “Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também” (Jo 14.2-3). Não há referências se isso seria o Éden, onde o Senhor passeava no horário da brisa, mas o fato de Deus ter colocado querubins com espada para guardar o Éden do retorno de Adão queria dizer algo. Ele sabia que Sua criação tentaria voltar!

Há forte conotação espiritual do início de Gênesis, onde o homem escolhe experimentar o bem e o mal ao invés de seguir as instruções de Deus. Essa ruptura é delimitada com a expulsão de Adão e Eva do Éden, onde o homem só poderia viver sem experimentar do bem e do mal, onde só ficaria se escolhesse confiar plena- e infantilmente em Deus ao invés de testar por si mesmo, sem saber sequer que estava nu. No entanto, o texto bíblico não fala de um Éden espiritual, mas localiza-o geograficamente no encontro de rios bem conhecidos da humanidade, nas fronteiras do império assírio (que se formou em cerca de 2500 a.C.) e onde sabe-se que povos habitam desde muitos milênios. Ali perto se obtinham bdélio (produto de comércio abundante) e ouro (obtido da mineração)... ou seja, havia pessoas habitando o local.

A busca para localizar o local exato do Jardim do Éden bíblico e os quatro rios quase rivaliza com a busca para a localização da lendária Atlântida, de Platão. A Bíblia diz que um único rio flui “para fora" do Éden e, em seguida, faz algo que a maioria dos rios não faz: dividide-se em quatro rios distintos. Quase todos os rios começam a partir de uma única fonte (ex. uma montanha) ou são alimentados por fontes múltiplas (afluentes). Este padrão observado na natureza é exatamente o oposto do que a Bíblia descreve sobre o rio do Éden. Por essa razão, ninguém foi capaz de olhar para os mapas modernos das regiões mencionadas em Gênesis e descobrir exatamente onde o Jardim do Éden era. Apenas um dentre os 4 rios é conhecido pelo mesmo nome nos tempos modernos. O Eufrates nasce nas montanhas da Turquia e termina juntando-se ao rio Tigre (o animal tigre é a tradução de Hiddekel) perto da região de fronteira com o Iraque / Kuwait. Nessa região floresceram os povos da antiga Suméria (5000-2300 a.C.), depois a Assíria (2500-600 a.C., relatada no texto bíblico), abrigando o reino babilônico e o reino persa (650 a.C - 1500 d.C.). Essa sempre foi uma região desejada pelos povos, pela fertilidade das terras!

Figura mostrando as áreas férteis (em verde) e desérticas (em amarelo) na região conhecida como Mesopotâmia (literalmente: entre os rios).

DOIS LUGARES POSSÍVEIS

Especulou-se que o Éden estava localizado em algum lugar na Turquia, onde estão as cabeceiras atuais dos rios Tigre e Eufrates. Outros propuseram que a outra extremidade do rio Eufrates, onde se encontra com o Tigre, pode ser a verdadeira localização. Se fosse possível localizar os outros dois rios na região, seria uma reivindicação que o Jardim do Éden estava perto do Kuwait de hoje.

Os rios Tigre e Eufrates se originam muito próximos um do outro, em terreno montanhoso. A posição do Éden pode então ser a região montanhosa onde esses rios nascem ou [mais provavelmente] onde os rios se juntam para formar um só lençol d’água. A 1ª opção deixaria o Éden nas montanhas da Turquia, a 2ª o colocaria perto do Golfo de Aqaba.

O Eufrates sempre foi muito conhecido e habitado, mas nem o Pison, nem o Giom são mencionados novamente na Bíblia. O rio Hiddekel é citado pelo profeta Daniel:

Dn 10.4. E no dia vinte e quatro do primeiro mês eu estava à borda do grande rio Hiddequel.

Esta referência de Daniel foi feita durante o cativeiro babilônico, o que colocaria Daniel em algum lugar na área do atual Iraque, perto do Golfo de Aqaba. Mas a área geográfica conhecida como "Assíria" não é tão fácil de definir: embora o governo Assírio tenha ficado centrado perto de Nínive, o império se estendeu para o que também é atualmente Síria e Palestina. A proximidade entre o Éden e a Assíria é evidenciada de certa forma por Ezequiel, que compara os cedros no jardim de Deus aos da Assíria (Ez 31).

EM BUSCA DE HAVILÁ

Quanto aos demais rios, faltam Pisom e Giom. A Bíblia diz: "Pisom : este é o que rodeia toda a terra de Havilá, onde há ouro". Há um rio-fóssil que se estende desde as montanhas do oeste da Arábia Saudita em direção Kuwait, terminando no Golfo de Aqaba. Esse rio seco é facilmente detectado por imagens de satélite, e hoje sabe-se que ali houve realmente um rio, de fluxo bastante lento a partir das montanhas a leste do Mar Vermelho. Tal rio secou com as mudanças do terreno e clima ocorridas em 3500-2000 a.C., mas pode ter sustentado a vida em Havilá (atual Arábia Saudita) no tempo em que a estória de Gênesis foi gerada.

Provável curso do rio Pison

A terra de Havillah (hoje desértica) é citada como tendo sido parte da habitação dos Amalequitas e é entendida como sendo literalmente as montanhas Hijaz, onde há depósitos de ouro e até hoje crescem as plantas de onde se extrai o bdélio. Milênios atrás, a pluviosidade na região devia ser bem maior, dados os vários rios fósseis encontrados ali. Possivelmente, Havihah (que literalmente significa “círculo”) era uma palavra mais genérica para “terras montanhosas”, onde andavam os Amalequitas, uma tribo nômade e feroz até nomeada por Balaão como “a mais antiga da terra” (Nm 24.20).


A Bíblia diz que um evento geológico aconteceu 101 anos após o dilúvio: A "Terra foi dividida". A descrição sugere o que foi, provavelmente, atividade tectônica / vulcânica nos dias de Abraão, com a destruição de Sodoma e Gomorra “em uma fornalha” (Gn 19:28). As imagens de satélite do Mar Morto indicam que, noutros tempos, esse mar simplesmente fez parte do curso do rio Jordão.

Quando a serra onde o Pison nascia foi dividida por uma fratura tectônica (ainda em atividade), os ventos úmidos cessaram, a terra se elevou e as águas do rio secaram. Os Amalekitas eram vistos como inimigos terríveis dos hebreus e foram dizimados nas guerras empreendidas por Davi e Salomão. Provelmente essa tribo nômade e detentora de grandes territórios perdurou em pequenos bandos ainda até o reinado de Ezequias, sendo então extinta (1Cr 4.43). 

Se este era realmente o rio Pison, a Turquia e suas proximidades está descartada como localização do Éden. Mas o problema não termina aí: falta o rio Giom, “o que rodeia toda a terra de Cuxe”. A Bíblia do Rei James (séc. 17) traduziu Cuxe (ou Gush) como Etiópia, uma região do extremo oeste Africano. E então muitos passaram anos procurando um rio africano que se unisse aos rios desaguando em Aqaba. De fato, o mesmo nome Cush foi usado pelo povo etíope (mencionado diversas vezes na Bíblia, como uma raça poderosa) e por um povo norte da arábia, que convivia com os assírios. Eis a confusão!

Os hebreus entraram em contato com os dois povos Cush em momentos muito distintos, sem usar nomes diferentes para eles, de forma que provavelmente se referiram a eles de acordo com o contato que tinham ou a proximidade do reino mais rico em cada época. Nos tempos de Moisés, o poder estava centralizado nas mãos da Assíria, então as referências provavelmente eram ao Cush árabe. Já nos tempos do cativeiro babilônico até a época de Roma, a Etiópia era uma potência militar, então certamente a referência era ao Cush africano (onde governou a linhagem da rainha Candace - Atos 8.27). Por isso, há motivos para se crer que a Bíblia do Rei James erra ao chamar de Etiópia o reino Cush perto de onde estaria o Éden; certamente o lugar mais correto seria a península árabe, bem mais perto de Aqaba que a Etiópia.

O arqueólogo Juris Zarins e outros até sugeriram que a região de Gush ou Kush deve ser corretamente nomeada como Kashshu e, ainda, que se refere aos Kashshitas, um povo que, em cerca de 1500 a.C. conquistou a Mesopotâmia e prevaleceu até cerca de 900 a.C. Segundo eles, “na época em que os Kashshites controlavam a Mesopotâmia, a nação de Israel estava sendo formada. Os hebreus certamente deve ter encontrado e aprendido as tradições da Mesopotâmia, seus mitos e contos. Eles devem ter ouvido as palavras Éden e Adão".

A teoria proposta por Zarins finalmente indica que o Giom é o rio Karun, que até hoje nasce nas partes altas do Irã e flui para sudoeste, em direção ao golfo de Aqaba.


O posicionamento do Éden é um conto de rica complexidade, começando 30 milênios antes do nascimento de Cristo. Ele fala sobre mudanças climáticas de úmido para árido a úmido outra vez, migrações dos povos em busca de locais de caça e terras para o plantio. Nessa história parecem ter papel fundamental os antigos Ubaids pré-históricos, que construíram cidades, sumérios que inventaram a escrita e os assírios que absorveram a escrita suméria, bem como a sua lenda de uma terra exuberantemente linda, que eles chamaram Dilmun. Finalmente, havia Kashshitas na Mesopotâmia, contemporâneos dos israelitas, que participaram da formação do Estado de Israel.

MIGRANDO ATRÁS DE COMIDA

Em cerca de 30.000 a.C., a transição do Neandertal para o homem moderno deve ter acontecido ao longo da costa oriental do Mediterrâneo, mar Egeu e o Iraque. Naquela época, as calotas polares eram muito maiores e o mar era cerca de 120 metros mais baixo. O Golfo Pérsico então era terra seca assim como todo o caminho até o Estreito de Hormuz. Essa terra provavelmente era irrigada pelo Tigre, Eufrates e ainda Giom, Pison e seus afluentes da Península Arábica e do Irã. Parece razoável que os homens primitivos tenham chamado de paraíso uma terra excelentemente fértil e rica em caça, localizada onde Golfo está agora.

Entre 30.000 e 6000 a.C., o clima mudou. As chuvas diminuíram drasticamente, muitos rios desapareceram e a população paleolítica recuou até a área conhecida por nós como o "Crescente Fértil" (norte ao longo do Tigre e do Eufrates, para o oeste em direção ao litoral úmido do Mediterrâneo, ao sul do Nilo), e também para o leste, até o vale do rio Indus.

Por volta de 6000-5000 a.C., as chuvas voltaram à região do Golfo. O leste e nordeste da Arábia Saudita e Irã tornaram-se verdes e férteis novamente. Populações caçadoras voltaram para onde os quatro rios agora corriam. Ossos de animais encontrados ali indicam que neste período havia caça de cervos abundante. As milhares de ferramentas de pedra encontradas indicam uso intensivo da terra e populações relativamente grandes em aldeias. Essas ferramentas são encontradas até mesmo no terreno conhecido como Rub al-Khali, hoje uma área desértica da Arábia Saudita. E assim, cerca de 6000-5000 a.C. a terra era novamente um paraíso favorecido por uma natureza-Deus tão generosa que grandes populações podiam viver de caça, pesca e coleta. A noção mais antiga de um paraíso bíblico reside justamente aí, na possibilidade de habitar a terra e encontrar sem esforço o seu sustento.

Algo novo, entretanto, surgiu nessa época: a agricultura. “Não foi do-dia-para-a-noite, um processo muito gradual, não um evento", Zarins enfatiza. O movimento cresceu ao longo da costa do Mediterrâneo, Irã e Iraque, com grupos de caçadores-coletores aderindo lentamente à moradia fixa e ao cultivo. Como tudo se deu antes da escrita, quase não há registro dos transtornos causados e as perguntas sobre valores tradicionais, estilos de vida e deslocamentos de clãs ou tribos. Zarins postula que isso deve ter sido mais dramático do que a Revolução Industrial. “O que aconteceria a um caçador quando seus vizinhos mudassem as formas de viver ou quando ele encontrasse agricultores fixados em seu território?. E se as tribos de caçadores não pudessem lidar com essa revolução? Poderiam morrer ou juntar aos agricultores mas, o que quer que tenha acontecido, eles teriam sido ofendidos em suas tradições mais sólidas."

ÉDEN, ADÃO E O NASCIMENTO DA ESCRITA

A crise se deu quando caçadores-coletores foram confrontados com homens tecnicamente mais talentosos, que souberam reproduzir e criar animais, fazer cerâmica. Quem eram essas pessoas? Zarins acredita que eles eram um grupo do sul da Mesopotâmia chamado de Ubaid, fundadores do mais antigo assentamento do sul da Mesopotâmia - Eridu - em cerca de 5000 a.C. (mais ou menos nos tempos de Noé). Apesar de Eridu e outras cidades como Ur (de onde saiu Abraão!) e Uruk terem sido descobertos há um século, a presença dos Ubaids ao longo da costa do Kuwait e da Arábia Saudita tem vista reconhecida há pouco mais de uma década, quando vestígios de seus assentamentos, túmulos e potes apareceram.

A palavra EDIN apareceu primeiro na Suméria, na região da Mesopotâmia, que produziu a primeira língua escrita do mundo, 3000 anos após o surgimento da cultura Ubaid. Em sumério a palavra "ÉDEN" significa "planície fértil". "ADÃO" também existia na escrita cuneiforme, significando algo como "assentamento na planície". Nomes sumérios como Ur e Uruk, derivam de um povo pré-sumérios que já tinha nomeado os rios, cidades e até alguns comércios específicos, como o oleiro. O assiriologista Benno Landsberger defende nesse ponto a cultura Ubaid que deve ter existido na foz de Aqaba.

"O Jardim e toda a história do Éden, quando finalmente escrita, poderiam ser vistos como o ponto de vista dos caçadores", Zarins afirma. "Foi o resultado da tensão entre os dois grupos, a colisão de dois modos de vida. Adão e Eva eram herdeiros da generosidade natural de Deus. Eles tinham tudo que precisavam. Mas eles pecaram e foram expulsos. Como eles pecaram? Ao desafiar Deus com seu trabalho manual. Ao fazê-lo, eles representavam os agricultores, os que insistiam em domar a terra com suas próprias mãos, confiando em seu conhecimento e suas competências próprias em vez de Sua graça”.

Não havia historiadores para registrar a tensão, mas o evento não passou despercebido. Tornou-se uma parte da memória coletiva e finalmente ele foi escrito em forma altamente condensada, o Gênesis. Mais tarde, Moisés adicionaria leis e o relato da história hebraica. Depois ainda, Esdras reformaria a passagem para reviver no povo banido de Israel os antigos costumes e a cultura hebraica. Repare que antes de Gn 2.4a há uma descrição da criação... depois de Gn 2.4b há outra descrição! Mas como aconteceu que um povo decidiu perpetuar um mito tornando seus próprios ancestrais em pecadores? Pode ser que os Ubaids -conhecidos por terem navegado pela costa leste da Arábia e colonizado lá - tenham sido absorvidos por povos caçadores-coletores durante a elevação do nível do mar (e conseqüente submersão do Éden no Golfo Pérsico). A evasão das terras foi chamada de expulsão! Os anciãos certamente encontraram conforto na fantasia dos bons velhos tempos, quando a vida era mais doce, mais simples, mais idílico.

SURGE EVA, A "SENHORA DA COSTELA"

O nome de Eva não aparece na Suméria. Segundo o Gênesis, Eva foi criada a partir de uma costela de Adão, que foi feito da terra. Por que uma costela? Em um famoso poema sumério traduzido e analisado ​​pelo estudioso Samuel Noah Kramer, há um relato de como Enki o deus da água provocou a ira da Deusa Mãe Ninhursag comendo oito plantas mágicas que ela havia criado. A Deusa Mãe colocou a maldição da morte sobre Enki e desapareceu, para que não se arrependesse. Quando Enki adoeceu e oito de seus "órgãos" falharam, Ninhursag voltou. Ela convocou oito divindades de cura, uma para cada órgão doente. A palavra suméria para "costela" é "TI", que também pode significar "tornar vivo" Então, a divindade de cura que trabalhou na costela de Enki foi chamada de "Nin-ti" e, num bom jogo de palavras, tornou-se tanto a "senhora da costela" e a "senhora que dá a vida". Este trocadilho sumério não se traduz para o hebraico, em que as palavras para "costela" e "fazer viver" são bastante diferentes. Mas a costela em si foi para o relato bíblico e de repente o nome "Eva" ou "mãe de todos os viventes" poderia ser pronunciado como “a senhora da costela”.

LEMBRANÇAS DO PARAÍSO

Os laços hebreus com mitos sumérios são muito claros. Zarins acredita que, embora os hebreus tinham estreita associação com o Egito, suas primeiras raízes espirituais estavam na Mesopotâmia. "Abraão viajou para o Egito, José viajou para o Egito, a história do Êxodo todo se deu no Egito, mas não há nada de egípcio nos primeiros capítulos de Gênesis", ressalta. "Todos esses relatos antigos estão ligados à Mesopotâmia. Abraão de fato veio de Ur dos Caldeus, ou simplesmente Sumérios. Os escritores de Gênesis quiseram vincular-se com essa história, então tomaram fontes literárias da maior civilização que conheciam, na Mesopotâmia. Ao fazer isso eles se voltaram para o Éden, fazendo de Adão um homem. E uma história de coisas que ocorreram em milênios foi compactada em poucos capítulos".

Muito antes de Gênesis ser escrito, Zarins acredita que o Éden físico já havia desaparecido sob as águas do Golfo. "Os sumérios sempre alegaram que seus antepassados ​​vieram do mar, e eu acredito que eles literalmente vieram", diz Zarins. "Eles se retiraram para o norte da Mesopotâmia quando as águas invadiam do Golfo, onde viviam havia milênios". Seu "Éden" original tinha ido embora, mas a mitologia preservou uma terra de fartura, de vida eterna e paz, que sobreviveu na mente coletiva e em uma área geográfica específica.

Quando o arqueólogo Austen Henry Layard decifrou tabuletas de argila com escrita cuneiforme em Nínive, uma fortaleza assíria no Iraque de hoje, encontrou textos sobre o tráfego de pessoas e bens. Para seu espanto, achou também relatos sobre o Éden, Adão e a "senhora da costela", além de um grande dilúvio e um herói chamado Gilgamesh, em sua busca pela Árvore da Vida. Havia até uma serpente. Gilgamesh partiu da Suméria para a área do Golfo, onde acreditava que iria encontrar uma planta que lhe daria a vida eterna. "O que ele descobriu pode ser coral, que na antiguidade era um símbolo de vida eterna", explica Zarins. "E depois de seus trabalhos ele foi dormir. Uma serpente apareceu e lhe roubou a vida eterna (seu coral?). As descrições de Dilmun são de uma área naturalmente rica, onde as sociedades poderiam existir na vontade e generosidade de Deus, em um belo cenário".

Uma última pergunta deve ser feita. Por que, quando os israelitas aceitaram as histórias antigas da Mesopotâmia, da Arábia, com toda sua carga de lutas, mudanças climáticas, tradições, porque afinal escolheram a palavra Éden, em vez de Dilmun? "Talvez eles nunca tenham ouvido a palavra Dilmun", diz Zarins.

A melhor suposição é que houve uma ruptura linguística no tempo de Alexandre o Grande. O cuneiforme  foi substituída pela escrita alfabética dos gregos, um sistema muito mais eficiente. O poder passou do Oriente para o Ocidente, Grécia e Roma. As histórias antigas desapareceram na obscuridade, porque o poder vai para aqueles que detêm a cultura. Até a descoberta das tabuletas em Nínive, as histórias em cuneiforme estavam mortas. O nome e o conceito do Éden não foram transmitidos através da língua suméria, mas através da língua hebraico-helenística, que renomeou Dilmun para Éden.

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Juris Zarins (1945- ) é arqueólogo alemão professor da Universidade Estadual do Missouri. Nos anos 1970 ele serviu o exército no Oriente Médio, onde se especializou em estudos lingüísticos e tribos nômades, tendo descoberto a cidade de Ubar em 1992, uma das mais antigas da humanidade. A teoria de Zarins pareceu pela primeira vez no Smithsonian Magazine, volume 18, nº 2, de maio de 1987.


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