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terça-feira, 18 de junho de 2019

Por cima das muralhas de Jericó

metade 1, esquerda acima - túmulo de Tuthankhamon/Egito. 1323 a.C.; metade 1 esquerda abaixo - ilustração das carruagens Maryannu em Jericó, 1550 a.C. (repare nas rodas); metade 1 direita - organização da cidade antiga e suas muralhas, séc. 16 a.C.; metade 2 esquerda - ruínas da torre de Jericó; metade 2 direita acima - uma das fontes de Jericó; metade 2 direita abaixo - Jericó nos dias atuais.

Artigo escrito por Art Ramos e publicado em 19/set/2016

A montanha Tell es-Sultan (Colina do Sultão) se levanta no meio das férteis planícies agrícolas envolta do Mar Morto, perto da sua margem norte. Trata-se de uma colina oval com 250 m em sua parte mais longa e uns 150 m na parte mais estreita, subindo até os 200 m de altura. O lugar já teve diversos nomes, sendo mais conhecido aquele que é mais antigo: Jericó.

A lendária cidade é lembrada pela história no livro de Josué, a respeito de sua destruição pelos israelitas. Escavações arqueológicas revelaram que Jericó foi um dos primeiros assentamentos humanos no Oriente Médio, datando de 9000 a.C. Essa cidade também teve a parede protetora mais antiga do mundo e torres de pedra ainda mais antigas que a parede. A razão para tal antiguidade são as várias nascentes, dentro e perto da cidade, formando uma espécie de oásis que fornece até hoje água suficiente para sustentar uma grande população. Nessa matéria, vamos cobrir o assentamento de Jericó desde seus primórdios até a batalha relatada na Bíblia.

PRIMEIRO ASSENTAMENTO

Jericó começou como um acampamento de caçadores-coletores da cultura Natufiana¹, em 10000 a.C. Os assentamentos permanentes começaram quando o frio e a seca causados pela última Era do Gelo terminaram, por volta de 9600 a.C. Jericó já era uma pequena aldeia antes da invenção da cerâmica², que usava a água da fonte Ein as-Sultan (mais tarde chamada Fonte de Elias. Por volta de 9400 a.C., o assentamento cresceu para 70 casas. Eram moradias circulares com 5 m de diâmetro, feitas de argila e palha.

O MURO DE JERICÓ

Evidências arqueológicas revelam que, em 8000 a.C., Jericó cresceu para 40.000 m² (200 x 200m) e foi cercada por um muro de pedras com 3,6 m de altura e 1,8 m de largura na base. No centro da cidade havia uma torre de pedras de 8,5 m de altura e 9 m de largura na base. A torre tinha uma escada interna com 22 degraus. As únicas torres do mundo mais antigas do que esta foram encontradas em Tell Qaramel, na Síria. Acredita-se que a parede protegia a cidade das águas das inundações nos rios próximos. A torre era uma aparato cerimonial. Viviam em Jericó umas 3000 pessoas. Os habitantes aprenderam a cultivar trigo, cevada e leguminosas, usando irrigação por canais para levar água das fontes até suas plantações. Como não haviam criadouros de animais, imagina-se que praticassem a caça de animais selvagens.

O SEGUNDO ASSENTAMENTO

Depois de alguns séculos, por volta de 7000 a.C., Jericó foi ocupada por um povo invasor que absorveu os habitantes originais em sua cultura. Ainda era uma vila Neolítica. Este novo assentamento ampliou o leque plantas cultivadas e apareceram criadouros de ovelhas. Os prédios da cidade agora eram retangulares, feitos com tijolos de barro. Cada edifício consistia em várias salas em torno de um pátio central. Os quartos tinham chão de tijolos e o pátio tinha chão de barro. Outros avanços incluíam ferramentas como pontas de flechas, foices, buris (usados ​​como cinzéis), raspadores e machados. Também foram encontradas pedras de amolar, martelos e machados de pedra. Haviam pratos e taças esculpidos em pedra calcária.

Essa nova cultura conservava as cabeças dos parentes falecidos, rebocando os crânios com barro, conchas e pintando os traços da pessoa sobre essa argamassa toda. Os crânios eram mantidos em casa, talvez como algo sagrado, enquanto o resto do corpo era enterrado. Eles viveram em Jericó até 6000 a.C., quando a cidade foi misteriosamente abandonada. Ela ficou assim, deserta, pelos próximos 1000 anos.

IDADE DO BRONZE

A partir de 6000 a.C., novos assentamentos foram estabelecidos em Jericó periodicamente. Ainda eram vilas Neolíticas, mas há evidências de que já produziam cerâmica. Tornou-se uma cidade murada novamente por volta de 3000 a.C. Evidências mostram que as paredes foram reconstruídas muitas vezes, a maior versão delas em 2600 a.C. feita pelos Amorreus. Por volta de 2300 a.C., a cidade foi novamente desabitada.

Os Cananeus chegaram em 1900 a.C. e transformaram a cidade em uma metrópole entre 1700 e 1550 a.C. Haviam aristocratas utilizando carruagens Maryannu, inventadas no império Hitita a leste e comercializadas ao longo dos rios até o Egito, a oeste. Essas carruagens (e mais particularmente suas rodas de metal) foram encontradas na parte norte da cidade - eram um veículo típico da nobreza. Toda a área próxima a Jericó foi urbanizada. Haviam então duas paredes ao redor da cidade, que ficava no alto de uma montanha, feitas com de tijolos de barro. A parede externa ficava no topo de uma base de pedra. Embora essas construções fossem impressionassem em tamanho, ainda mais para quem vinha das terras baixas envolta, elas não eram estáveis.

Por volta de 1573 a.C., um grande terremoto destruiu a cidade. Madeira carbonizada encontrada no local sugere que os restos da cidade foram queimados. Largos suprimentos de grãos enterrados também sugerem que ela não foi capturada numa guerra, mas simplesmente incendiou-se como Sodoma e Gomorra (que aliás são próximas dali) ou foi incendiada posteriormente, como se para “limpar o terreno”. O local permaneceu desocupado até o final do século 9 a.C., época do império de Davi e Salomão, quando foi reconstruída.

OS ISRAELITAS E A BATALHA DE JERICÓ

De acordo com a Bíblia, por volta de 1400 a.C. (séc. 14 a.C.), Jericó foi a primeira cidade atacada pelos israelitas vindos do Egito, depois que eles cruzaram o rio Jordão e entraram em Canaã. O muro de Jericó foi destruído quando os israelitas andaram em volta dele por 7 dias carregando a Arca da Aliança. No sétimo dia, Josué ordenou a seu povo que tocassem as trombetas feitas de chifre de carneiro e gritassem, até que as paredes finalmente caíssem. As escavações do local revelam uma rede de muros desmoronados que datam do final do século 17 a.C. ou início do século 16 a.C., portanto bem antes da invasão dos Hebreus.

A causa mais provável do colapso das muralhas foi um terremoto. Descrições extra-bíblicas de destruição na região após terremotos (1267 d.C. e 1927 d.C.) correspondem muito bem às ruínas de paredes desmoronadas como a Bíblia relata. Em cada um desses eventos, as falésias acima do rio Jordão caíram no rio e represaram-no temporariamente, ao que seguiu-se uma avalanche de água e destroços carregando tudo rio abaixo até o Mar Morto. Estudiosos acreditam que a história da Bíblia é uma espécie de alegoria, contada sobre ruínas que os Hebreus encontraram já desabitadas. O texto bíblico de fato foi escrito após 722 a.C., no reinado do rei Josias, muito depois do evento que narram. Essa descrição de batalha foi usada pelos reis para reivindicar o território de Israel.

QUESTÕES QUE AINDA NÃO SE EXPLICAM BEM

As evidências sobre Jericó apontam para uma destruição por terremoto, mas algumas peças também se dão bem ao relato Bíblico, e outras são contra ambos. Em Jericó, as escavações ali revelaram largos depósitos de grãos simplesmente deixados para trás, o que condiz com a destruição da cidade por terremoto, mas o incêndio da cidade é difícil de explicar. Há depósitos subterrâneos de betume na região (o betume é inflamável e muito difícil de apagar), ao que se atribui o incêndio das antigas Sodoma de Gomorra, na margem do Mar Morto, mas Jericó em especial ocupava o topo de uma montanha de rochas.

A Bíblia fala de uma invasão “punitiva”, sem saque senão do que fosse de metal (não foram encontradas preciosidades de metal), sem cerco da cidade até que se rendesse por fome, e sem pilhagem dos alimentos, o que não era tradicional. Segundo o relato Bíblico,

A cidade e tudo quanto havia nela queimaram a fogo; tão-somente a prata e o ouro, e os vasos de metal e de ferro, deram para o tesouro da casa do Senhor. (Josué 6.24)

Por outro lado, tanto a teoria do terremoto quanto a Bíblia são patentes quanto à destruição da cidade. Isto é, diz-se que não sobraram habitantes morando em Jericó após o séc. 16 a.C., o que era algo comum na longa história da cidade. Mas ao escavar o cemitério a noroeste de Jericó, foram encontrados diversos amuletos egípcios, bastante usados na região para selar correspondências e escritos. Neles se liam os nomes dos faraós da rica 18ª Dinastia (época em que o Egito expandiu seus domínios sobre o Oriente Médio) como Tuthmosis III (1504-1450 a.C.), rainha Hatshepsut (1503-1483 a.C.) e Amenhotep III (1386-1349 a.C.). São faraós anteriores à migração dos Hyksos³, mas também posteriores à chegada dos Hebreus em Canaã e, ainda, posteriores à destruição de Jericó.

Dessa forma, só podemos pensar que após a tal devastação da cidade, seja por terremoto ou pelos Hebreus, Jericó continuou habitada (e fazendo comércio com o Egito) pelo menos até a chegada dos Hyksos. Isso pode significar que a “queda” de Jericó não foi um único evento, de uma noite ou uma semana, mas uma sucessão de catástrofes dos sécs. 16 a 14 a.C., entre terremotos, invasões oportunistas e pequenas batalhas, que foram condensadas de forma fantástica na narrativa bíblica.

Segundo a Bíblia, Jericó permaneceu abandonada até que Hiel, o betelita, se estabeleceu lá no século 9 a.C. A partir de então, a cidade tornou-se um povoado judeu como muitos outros próximos de Jerusalém. 

E, saindo eles de Jericó, seguiu-o grande multidão. E eis que dois cegos, assentados junto do caminho, ouvindo que Jesus passava, clamaram, dizendo: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós! E a multidão os repreendia, para que se calassem; eles, porém, cada vez clamavam mais, dizendo: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós! Jesus, parando, chamou-os, e disse: ‘Que quereis que vos faça?’
Disseram-lhe eles: ‘Senhor, que os nossos olhos sejam abertos.’ Então Jesus, movido de íntima compaixão, tocou-lhes nos olhos, e logo seus olhos viram; e eles o seguiram. (Mateus 20.29-34)

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¹ Os Natufianos foram um povo que inaugurou a vida sedentária na Palestina. Formavam pequenas aldeias permanentes, erguidas geralmente com casebres de pedra, domesticavam cães e faziam cultivo de cereais selvagens da região. Toda sua cultura parecia girar em torno do trabalho com cereais, produzindo moinhos, pedras de bater e recipientes para um tipo de cerveja primitiva. Curiosamente, os Natufianos não criavam animais para alimentação, de forma que se instalavam em lugares naturalmente frequentados pelos animais selvagens.

² Na história humana, os povos Neolíticos são aqueles capazes de lapidar ferramentas como pontas de flecha, lanças, pedras de amolar e pedras de moinho. A produção de cerâmica é considerada uma aquisição tecnológica que anuncia o fim do tempo Neolítico, pois trata-se de uma invenção significando que o povo em questão já é capaz de controlar o fogo e fabricar seus próprios instrumentos, independente do que encontram à disposição na natureza. A cerâmica também vem sempre junto com a criação de rituais funerários, arte de pinturas e símbolos nacionais como bandeiras e deuses.

³ Os Hyksos foram um povo semita (do Oriente Médio) que habitou a região costeira do Egito entre os séc. 18 a 16 a.C. Eles construíam cidades poderosas como Avaris, mercante marítima e exportadora de vinhos valiosos. O Egito então era repartido entre diversas famílias nobres controlando largas porções de terras ao longo do Nilo, com os vários reinos separados pelas cachoeiras no rio. Os Hyksos foram repelidos do Egito quando a 18ª dinastia de Thebas ganhou poder e dominou as demais famílias reais, além de espalhar seus exércitos para o Oriente Médio. Sua migração populacional do Egito para a Palestina corresponde a uma mudança cultural drástica, que se associa com algumas descrições do Êxodo Bíblico. Canaã teve as cidades convertidas para a cultura hebraica, mas é muito questionável se isso foi um processo rápido e violento ou se foi uma transição lenta, mais comercial do que militar e sob a tutela política do Egito.

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PEDRAS DESMORONADAS NO CAMINHO

O Êxodo fora da novela, loungecba.blogspot.com, abr/2017.

domingo, 2 de setembro de 2012

Onde foi parar o Paraíso

Jardin do Éden, Jan Brueghel & Peter Paul Rubens, 1617
Qual brasileiro reparou nas aves das árvores?

Gn 2.8. E plantou o SENHOR Deus um jardim no Éden, do lado oriental; e pôs ali o homem que tinha formado. E o SENHOR Deus fez brotar da terra toda a árvore agradável à vista, e boa para comida; e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal. E saía um rio do Éden para regar o jardim; e dali se dividia e se tornava em quatro braços. O nome do primeiro é Pisom; este é o que rodeia toda a terra de Havilá, onde há ouro. E o ouro dessa terra é bom; ali há o bdélio, e a pedra sardônica. E o nome do segundo rio é Giom; este é o que rodeia toda a terra de Cuxe. E o nome do terceiro rio é Hiddekel [Tigre]; este é o que vai para o lado oriental da Assíria; e o quarto rio é o Eufrates. E tomou o SENHOR Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar.

bdélio: resina aromática obtida da planta Commiphora wightii, ou Guggul, semelhante à mirra; essa resina é amplamente extraída e comercializada até hoje no Paquistão e Índia.

pedra sardônica: termo obscuro que provavelmente se refere ao ônix, um cristal de óxido de silício (quartzo) cuja cor pode variar do negro ao castanho avermelhado.

Por alguma razão bem difícil de entender, desde que Adão e Eva foram expulsos do Éden, ou jardim de Deus, têm havido grandes tentativas para retornar. A razão mais provável para isso é constatar que o homem convive com o mal, sofre com as injustiças e dificuldades da vida, acabando por imaginar um lugar livre de tudo isso. Logo no início da Bíblia está ela bem ali descrita: Éden, o lugar perfeito, antes de todo mal. Quem não gostaria de ir para lá? Jesus menciona que “Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também” (Jo 14.2-3). Não há referências se isso seria o Éden, onde o Senhor passeava no horário da brisa, mas o fato de Deus ter colocado querubins com espada para guardar o Éden do retorno de Adão queria dizer algo. Ele sabia que Sua criação tentaria voltar!

Há forte conotação espiritual do início de Gênesis, onde o homem escolhe experimentar o bem e o mal ao invés de seguir as instruções de Deus. Essa ruptura é delimitada com a expulsão de Adão e Eva do Éden, onde o homem só poderia viver sem experimentar do bem e do mal, onde só ficaria se escolhesse confiar plena- e infantilmente em Deus ao invés de testar por si mesmo, sem saber sequer que estava nu. No entanto, o texto bíblico não fala de um Éden espiritual, mas localiza-o geograficamente no encontro de rios bem conhecidos da humanidade, nas fronteiras do império assírio (que se formou em cerca de 2500 a.C.) e onde sabe-se que povos habitam desde muitos milênios. Ali perto se obtinham bdélio (produto de comércio abundante) e ouro (obtido da mineração)... ou seja, havia pessoas habitando o local.

A busca para localizar o local exato do Jardim do Éden bíblico e os quatro rios quase rivaliza com a busca para a localização da lendária Atlântida, de Platão. A Bíblia diz que um único rio flui “para fora" do Éden e, em seguida, faz algo que a maioria dos rios não faz: dividide-se em quatro rios distintos. Quase todos os rios começam a partir de uma única fonte (ex. uma montanha) ou são alimentados por fontes múltiplas (afluentes). Este padrão observado na natureza é exatamente o oposto do que a Bíblia descreve sobre o rio do Éden. Por essa razão, ninguém foi capaz de olhar para os mapas modernos das regiões mencionadas em Gênesis e descobrir exatamente onde o Jardim do Éden era. Apenas um dentre os 4 rios é conhecido pelo mesmo nome nos tempos modernos. O Eufrates nasce nas montanhas da Turquia e termina juntando-se ao rio Tigre (o animal tigre é a tradução de Hiddekel) perto da região de fronteira com o Iraque / Kuwait. Nessa região floresceram os povos da antiga Suméria (5000-2300 a.C.), depois a Assíria (2500-600 a.C., relatada no texto bíblico), abrigando o reino babilônico e o reino persa (650 a.C - 1500 d.C.). Essa sempre foi uma região desejada pelos povos, pela fertilidade das terras!

Figura mostrando as áreas férteis (em verde) e desérticas (em amarelo) na região conhecida como Mesopotâmia (literalmente: entre os rios).

DOIS LUGARES POSSÍVEIS

Especulou-se que o Éden estava localizado em algum lugar na Turquia, onde estão as cabeceiras atuais dos rios Tigre e Eufrates. Outros propuseram que a outra extremidade do rio Eufrates, onde se encontra com o Tigre, pode ser a verdadeira localização. Se fosse possível localizar os outros dois rios na região, seria uma reivindicação que o Jardim do Éden estava perto do Kuwait de hoje.

Os rios Tigre e Eufrates se originam muito próximos um do outro, em terreno montanhoso. A posição do Éden pode então ser a região montanhosa onde esses rios nascem ou [mais provavelmente] onde os rios se juntam para formar um só lençol d’água. A 1ª opção deixaria o Éden nas montanhas da Turquia, a 2ª o colocaria perto do Golfo de Aqaba.

O Eufrates sempre foi muito conhecido e habitado, mas nem o Pison, nem o Giom são mencionados novamente na Bíblia. O rio Hiddekel é citado pelo profeta Daniel:

Dn 10.4. E no dia vinte e quatro do primeiro mês eu estava à borda do grande rio Hiddequel.

Esta referência de Daniel foi feita durante o cativeiro babilônico, o que colocaria Daniel em algum lugar na área do atual Iraque, perto do Golfo de Aqaba. Mas a área geográfica conhecida como "Assíria" não é tão fácil de definir: embora o governo Assírio tenha ficado centrado perto de Nínive, o império se estendeu para o que também é atualmente Síria e Palestina. A proximidade entre o Éden e a Assíria é evidenciada de certa forma por Ezequiel, que compara os cedros no jardim de Deus aos da Assíria (Ez 31).

EM BUSCA DE HAVILÁ

Quanto aos demais rios, faltam Pisom e Giom. A Bíblia diz: "Pisom : este é o que rodeia toda a terra de Havilá, onde há ouro". Há um rio-fóssil que se estende desde as montanhas do oeste da Arábia Saudita em direção Kuwait, terminando no Golfo de Aqaba. Esse rio seco é facilmente detectado por imagens de satélite, e hoje sabe-se que ali houve realmente um rio, de fluxo bastante lento a partir das montanhas a leste do Mar Vermelho. Tal rio secou com as mudanças do terreno e clima ocorridas em 3500-2000 a.C., mas pode ter sustentado a vida em Havilá (atual Arábia Saudita) no tempo em que a estória de Gênesis foi gerada.

Provável curso do rio Pison

A terra de Havillah (hoje desértica) é citada como tendo sido parte da habitação dos Amalequitas e é entendida como sendo literalmente as montanhas Hijaz, onde há depósitos de ouro e até hoje crescem as plantas de onde se extrai o bdélio. Milênios atrás, a pluviosidade na região devia ser bem maior, dados os vários rios fósseis encontrados ali. Possivelmente, Havihah (que literalmente significa “círculo”) era uma palavra mais genérica para “terras montanhosas”, onde andavam os Amalequitas, uma tribo nômade e feroz até nomeada por Balaão como “a mais antiga da terra” (Nm 24.20).


A Bíblia diz que um evento geológico aconteceu 101 anos após o dilúvio: A "Terra foi dividida". A descrição sugere o que foi, provavelmente, atividade tectônica / vulcânica nos dias de Abraão, com a destruição de Sodoma e Gomorra “em uma fornalha” (Gn 19:28). As imagens de satélite do Mar Morto indicam que, noutros tempos, esse mar simplesmente fez parte do curso do rio Jordão.

Quando a serra onde o Pison nascia foi dividida por uma fratura tectônica (ainda em atividade), os ventos úmidos cessaram, a terra se elevou e as águas do rio secaram. Os Amalekitas eram vistos como inimigos terríveis dos hebreus e foram dizimados nas guerras empreendidas por Davi e Salomão. Provelmente essa tribo nômade e detentora de grandes territórios perdurou em pequenos bandos ainda até o reinado de Ezequias, sendo então extinta (1Cr 4.43). 

Se este era realmente o rio Pison, a Turquia e suas proximidades está descartada como localização do Éden. Mas o problema não termina aí: falta o rio Giom, “o que rodeia toda a terra de Cuxe”. A Bíblia do Rei James (séc. 17) traduziu Cuxe (ou Gush) como Etiópia, uma região do extremo oeste Africano. E então muitos passaram anos procurando um rio africano que se unisse aos rios desaguando em Aqaba. De fato, o mesmo nome Cush foi usado pelo povo etíope (mencionado diversas vezes na Bíblia, como uma raça poderosa) e por um povo norte da arábia, que convivia com os assírios. Eis a confusão!

Os hebreus entraram em contato com os dois povos Cush em momentos muito distintos, sem usar nomes diferentes para eles, de forma que provavelmente se referiram a eles de acordo com o contato que tinham ou a proximidade do reino mais rico em cada época. Nos tempos de Moisés, o poder estava centralizado nas mãos da Assíria, então as referências provavelmente eram ao Cush árabe. Já nos tempos do cativeiro babilônico até a época de Roma, a Etiópia era uma potência militar, então certamente a referência era ao Cush africano (onde governou a linhagem da rainha Candace - Atos 8.27). Por isso, há motivos para se crer que a Bíblia do Rei James erra ao chamar de Etiópia o reino Cush perto de onde estaria o Éden; certamente o lugar mais correto seria a península árabe, bem mais perto de Aqaba que a Etiópia.

O arqueólogo Juris Zarins e outros até sugeriram que a região de Gush ou Kush deve ser corretamente nomeada como Kashshu e, ainda, que se refere aos Kashshitas, um povo que, em cerca de 1500 a.C. conquistou a Mesopotâmia e prevaleceu até cerca de 900 a.C. Segundo eles, “na época em que os Kashshites controlavam a Mesopotâmia, a nação de Israel estava sendo formada. Os hebreus certamente deve ter encontrado e aprendido as tradições da Mesopotâmia, seus mitos e contos. Eles devem ter ouvido as palavras Éden e Adão".

A teoria proposta por Zarins finalmente indica que o Giom é o rio Karun, que até hoje nasce nas partes altas do Irã e flui para sudoeste, em direção ao golfo de Aqaba.


O posicionamento do Éden é um conto de rica complexidade, começando 30 milênios antes do nascimento de Cristo. Ele fala sobre mudanças climáticas de úmido para árido a úmido outra vez, migrações dos povos em busca de locais de caça e terras para o plantio. Nessa história parecem ter papel fundamental os antigos Ubaids pré-históricos, que construíram cidades, sumérios que inventaram a escrita e os assírios que absorveram a escrita suméria, bem como a sua lenda de uma terra exuberantemente linda, que eles chamaram Dilmun. Finalmente, havia Kashshitas na Mesopotâmia, contemporâneos dos israelitas, que participaram da formação do Estado de Israel.

MIGRANDO ATRÁS DE COMIDA

Em cerca de 30.000 a.C., a transição do Neandertal para o homem moderno deve ter acontecido ao longo da costa oriental do Mediterrâneo, mar Egeu e o Iraque. Naquela época, as calotas polares eram muito maiores e o mar era cerca de 120 metros mais baixo. O Golfo Pérsico então era terra seca assim como todo o caminho até o Estreito de Hormuz. Essa terra provavelmente era irrigada pelo Tigre, Eufrates e ainda Giom, Pison e seus afluentes da Península Arábica e do Irã. Parece razoável que os homens primitivos tenham chamado de paraíso uma terra excelentemente fértil e rica em caça, localizada onde Golfo está agora.

Entre 30.000 e 6000 a.C., o clima mudou. As chuvas diminuíram drasticamente, muitos rios desapareceram e a população paleolítica recuou até a área conhecida por nós como o "Crescente Fértil" (norte ao longo do Tigre e do Eufrates, para o oeste em direção ao litoral úmido do Mediterrâneo, ao sul do Nilo), e também para o leste, até o vale do rio Indus.

Por volta de 6000-5000 a.C., as chuvas voltaram à região do Golfo. O leste e nordeste da Arábia Saudita e Irã tornaram-se verdes e férteis novamente. Populações caçadoras voltaram para onde os quatro rios agora corriam. Ossos de animais encontrados ali indicam que neste período havia caça de cervos abundante. As milhares de ferramentas de pedra encontradas indicam uso intensivo da terra e populações relativamente grandes em aldeias. Essas ferramentas são encontradas até mesmo no terreno conhecido como Rub al-Khali, hoje uma área desértica da Arábia Saudita. E assim, cerca de 6000-5000 a.C. a terra era novamente um paraíso favorecido por uma natureza-Deus tão generosa que grandes populações podiam viver de caça, pesca e coleta. A noção mais antiga de um paraíso bíblico reside justamente aí, na possibilidade de habitar a terra e encontrar sem esforço o seu sustento.

Algo novo, entretanto, surgiu nessa época: a agricultura. “Não foi do-dia-para-a-noite, um processo muito gradual, não um evento", Zarins enfatiza. O movimento cresceu ao longo da costa do Mediterrâneo, Irã e Iraque, com grupos de caçadores-coletores aderindo lentamente à moradia fixa e ao cultivo. Como tudo se deu antes da escrita, quase não há registro dos transtornos causados e as perguntas sobre valores tradicionais, estilos de vida e deslocamentos de clãs ou tribos. Zarins postula que isso deve ter sido mais dramático do que a Revolução Industrial. “O que aconteceria a um caçador quando seus vizinhos mudassem as formas de viver ou quando ele encontrasse agricultores fixados em seu território?. E se as tribos de caçadores não pudessem lidar com essa revolução? Poderiam morrer ou juntar aos agricultores mas, o que quer que tenha acontecido, eles teriam sido ofendidos em suas tradições mais sólidas."

ÉDEN, ADÃO E O NASCIMENTO DA ESCRITA

A crise se deu quando caçadores-coletores foram confrontados com homens tecnicamente mais talentosos, que souberam reproduzir e criar animais, fazer cerâmica. Quem eram essas pessoas? Zarins acredita que eles eram um grupo do sul da Mesopotâmia chamado de Ubaid, fundadores do mais antigo assentamento do sul da Mesopotâmia - Eridu - em cerca de 5000 a.C. (mais ou menos nos tempos de Noé). Apesar de Eridu e outras cidades como Ur (de onde saiu Abraão!) e Uruk terem sido descobertos há um século, a presença dos Ubaids ao longo da costa do Kuwait e da Arábia Saudita tem vista reconhecida há pouco mais de uma década, quando vestígios de seus assentamentos, túmulos e potes apareceram.

A palavra EDIN apareceu primeiro na Suméria, na região da Mesopotâmia, que produziu a primeira língua escrita do mundo, 3000 anos após o surgimento da cultura Ubaid. Em sumério a palavra "ÉDEN" significa "planície fértil". "ADÃO" também existia na escrita cuneiforme, significando algo como "assentamento na planície". Nomes sumérios como Ur e Uruk, derivam de um povo pré-sumérios que já tinha nomeado os rios, cidades e até alguns comércios específicos, como o oleiro. O assiriologista Benno Landsberger defende nesse ponto a cultura Ubaid que deve ter existido na foz de Aqaba.

"O Jardim e toda a história do Éden, quando finalmente escrita, poderiam ser vistos como o ponto de vista dos caçadores", Zarins afirma. "Foi o resultado da tensão entre os dois grupos, a colisão de dois modos de vida. Adão e Eva eram herdeiros da generosidade natural de Deus. Eles tinham tudo que precisavam. Mas eles pecaram e foram expulsos. Como eles pecaram? Ao desafiar Deus com seu trabalho manual. Ao fazê-lo, eles representavam os agricultores, os que insistiam em domar a terra com suas próprias mãos, confiando em seu conhecimento e suas competências próprias em vez de Sua graça”.

Não havia historiadores para registrar a tensão, mas o evento não passou despercebido. Tornou-se uma parte da memória coletiva e finalmente ele foi escrito em forma altamente condensada, o Gênesis. Mais tarde, Moisés adicionaria leis e o relato da história hebraica. Depois ainda, Esdras reformaria a passagem para reviver no povo banido de Israel os antigos costumes e a cultura hebraica. Repare que antes de Gn 2.4a há uma descrição da criação... depois de Gn 2.4b há outra descrição! Mas como aconteceu que um povo decidiu perpetuar um mito tornando seus próprios ancestrais em pecadores? Pode ser que os Ubaids -conhecidos por terem navegado pela costa leste da Arábia e colonizado lá - tenham sido absorvidos por povos caçadores-coletores durante a elevação do nível do mar (e conseqüente submersão do Éden no Golfo Pérsico). A evasão das terras foi chamada de expulsão! Os anciãos certamente encontraram conforto na fantasia dos bons velhos tempos, quando a vida era mais doce, mais simples, mais idílico.

SURGE EVA, A "SENHORA DA COSTELA"

O nome de Eva não aparece na Suméria. Segundo o Gênesis, Eva foi criada a partir de uma costela de Adão, que foi feito da terra. Por que uma costela? Em um famoso poema sumério traduzido e analisado ​​pelo estudioso Samuel Noah Kramer, há um relato de como Enki o deus da água provocou a ira da Deusa Mãe Ninhursag comendo oito plantas mágicas que ela havia criado. A Deusa Mãe colocou a maldição da morte sobre Enki e desapareceu, para que não se arrependesse. Quando Enki adoeceu e oito de seus "órgãos" falharam, Ninhursag voltou. Ela convocou oito divindades de cura, uma para cada órgão doente. A palavra suméria para "costela" é "TI", que também pode significar "tornar vivo" Então, a divindade de cura que trabalhou na costela de Enki foi chamada de "Nin-ti" e, num bom jogo de palavras, tornou-se tanto a "senhora da costela" e a "senhora que dá a vida". Este trocadilho sumério não se traduz para o hebraico, em que as palavras para "costela" e "fazer viver" são bastante diferentes. Mas a costela em si foi para o relato bíblico e de repente o nome "Eva" ou "mãe de todos os viventes" poderia ser pronunciado como “a senhora da costela”.

LEMBRANÇAS DO PARAÍSO

Os laços hebreus com mitos sumérios são muito claros. Zarins acredita que, embora os hebreus tinham estreita associação com o Egito, suas primeiras raízes espirituais estavam na Mesopotâmia. "Abraão viajou para o Egito, José viajou para o Egito, a história do Êxodo todo se deu no Egito, mas não há nada de egípcio nos primeiros capítulos de Gênesis", ressalta. "Todos esses relatos antigos estão ligados à Mesopotâmia. Abraão de fato veio de Ur dos Caldeus, ou simplesmente Sumérios. Os escritores de Gênesis quiseram vincular-se com essa história, então tomaram fontes literárias da maior civilização que conheciam, na Mesopotâmia. Ao fazer isso eles se voltaram para o Éden, fazendo de Adão um homem. E uma história de coisas que ocorreram em milênios foi compactada em poucos capítulos".

Muito antes de Gênesis ser escrito, Zarins acredita que o Éden físico já havia desaparecido sob as águas do Golfo. "Os sumérios sempre alegaram que seus antepassados ​​vieram do mar, e eu acredito que eles literalmente vieram", diz Zarins. "Eles se retiraram para o norte da Mesopotâmia quando as águas invadiam do Golfo, onde viviam havia milênios". Seu "Éden" original tinha ido embora, mas a mitologia preservou uma terra de fartura, de vida eterna e paz, que sobreviveu na mente coletiva e em uma área geográfica específica.

Quando o arqueólogo Austen Henry Layard decifrou tabuletas de argila com escrita cuneiforme em Nínive, uma fortaleza assíria no Iraque de hoje, encontrou textos sobre o tráfego de pessoas e bens. Para seu espanto, achou também relatos sobre o Éden, Adão e a "senhora da costela", além de um grande dilúvio e um herói chamado Gilgamesh, em sua busca pela Árvore da Vida. Havia até uma serpente. Gilgamesh partiu da Suméria para a área do Golfo, onde acreditava que iria encontrar uma planta que lhe daria a vida eterna. "O que ele descobriu pode ser coral, que na antiguidade era um símbolo de vida eterna", explica Zarins. "E depois de seus trabalhos ele foi dormir. Uma serpente apareceu e lhe roubou a vida eterna (seu coral?). As descrições de Dilmun são de uma área naturalmente rica, onde as sociedades poderiam existir na vontade e generosidade de Deus, em um belo cenário".

Uma última pergunta deve ser feita. Por que, quando os israelitas aceitaram as histórias antigas da Mesopotâmia, da Arábia, com toda sua carga de lutas, mudanças climáticas, tradições, porque afinal escolheram a palavra Éden, em vez de Dilmun? "Talvez eles nunca tenham ouvido a palavra Dilmun", diz Zarins.

A melhor suposição é que houve uma ruptura linguística no tempo de Alexandre o Grande. O cuneiforme  foi substituída pela escrita alfabética dos gregos, um sistema muito mais eficiente. O poder passou do Oriente para o Ocidente, Grécia e Roma. As histórias antigas desapareceram na obscuridade, porque o poder vai para aqueles que detêm a cultura. Até a descoberta das tabuletas em Nínive, as histórias em cuneiforme estavam mortas. O nome e o conceito do Éden não foram transmitidos através da língua suméria, mas através da língua hebraico-helenística, que renomeou Dilmun para Éden.

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Juris Zarins (1945- ) é arqueólogo alemão professor da Universidade Estadual do Missouri. Nos anos 1970 ele serviu o exército no Oriente Médio, onde se especializou em estudos lingüísticos e tribos nômades, tendo descoberto a cidade de Ubar em 1992, uma das mais antigas da humanidade. A teoria de Zarins pareceu pela primeira vez no Smithsonian Magazine, volume 18, nº 2, de maio de 1987.


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