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domingo, 17 de junho de 2018

Criacionismo

detalhe do teto da Capela Sistina (do papa Sixtus IV), pintado por Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni em 1510, onde aparecem Adão e Deus

Um tópico interessante sobre o Brasil (e outros lugares) é o que alguns já chamaram de “superficialidade tecnológica”. Em poucas palavras, esse termo significa fazer uso de ferramentas ou instrumentos sem ter a menor noção de como eles funcionam. Significa usar um computador sem saber o que é um software, ou energia elétrica. O conceito surgiu para ser aplicado em tecnologia, mas serve bem a outras áreas. Por exemplo, os povos europeus que os romanos dominaram eram “tecnologicamente superficiais” quanto às suas construções. Desde a queda de Roma Ocidental (480 d.C.) até por volta do ano 1000, os europeus habitaram ruínas e adoraram estátuas, pinturas, etc como obras de deuses de um outro mundo. Para eles, o latim era um “idioma mágico” (Harry Potter que o diga). Em questões de fé, ser “tecnologicamente superficial” significa, por exemplo, crer que a Bíblia e tudo que ela contém são eventos imediatamente acontecidos (ex. ontem), dentro da própria congregação onde você está ou ainda gravados no papel pelo próprio Deus. Quem já não viu bíblias abertas sobre pedestais, talvez jamais folheadas, como se para emanar algum poder? Quem já não presenciou alguém furioso numa encenação de Páscoa, tentando defender Joaquim-vestido-de-Jesus contra um centurião romano com espada de papelão e capacete de plástico?

A situação fica ainda mais curiosa quando ciência e fé se misturam. E isso não é tão difícil, pois muitos textos bíblicos tratam do cotidiano das pessoas entre talvez 2000 a.C. e o final do séc. 1 d.C. O livro de Levítico proíbe o consumo de “animais imundos” como frutos do mar e porcos. Será que Deus estava raivoso quando criou esses seres? Ou podemos pensar que os 100 Km montanhosos que separam Jerusalém do mar demorassem um tempo para ser percorridos, o suficiente para transformar ouriços e ostras em algo com cheiro muito suspeito. Quanto aos porcos, são famosos transmissores de parasitas humanos. Não duvido que Deus inserisse algumas medidas “sanitárias” para proteger Seu povo das pestilências, como fez com respeito à lepra. E também não duvido que tais medidas possam ser uma fortuita obra humana, associadas a uma revelação divina¹. Seria hilário tentar viver, hoje, estritamente segundo as regras de 1400 a.C., data provável da compilação do Pentateuco segundo Moisés².

Mas a Ciência produz ferramentas para o conforto e para responder questões filosóficas. O uso de agricultura, ao mesmo tempo que proveu mais alimentos para as comunidades, colocou dúvidas sobre a participação divina nos frutos e cereais. Se o cereal não fosse plantado por homens, ele não nasceria! O texto de Levítico conclama ao Senhor todo cereal ou fruto que nasce sem ter sido plantado. Lá por volta de 1000 - 800 a.C. o autor de Eclesiastes também escrevia:

Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da mulher grávida, assim também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas. (Eclesiastes 11.5)

Hoje, invalidamos a 1ª parte dessa sentença. Seria pecaminoso ver a previsão do tempo ou fazer ultrassons pré-natais? O escritor bíblico mentiu? Descobrimos todas as obras de Deus? Não, não e não. O vento era imprevisível na época de Eclesiastes, mas Jesus já cobrava dos homens os seus conhecimentos sobre a agricultura. De forma semelhante, poderíamos seguir para o Gênesis e ver o que Moisés supostamente falou a Criação. 

O RELATO

“Supostamente” não é por falta de fé no texto bíblico: trata-se de um autor desconhecido, que não deve ter assistido (em 3ª pessoa, como observador externo) Deus criando o mundo. Tradicionalmente, diz-se que o texto é de Moisés, que viveu(ram) (ver O Êxodo fora da novela) por volta de 1400 a.C. Mas sabemos, pelo estilo e outros registros, que foi redigido em seu formato final no reinado do rei Josias de Judá, após seus sábios/sacerdotes organizarem manuscritos que encontraram dentro do Templo (ver História do nome de Deus). E temos, daí, um relato onde Deus faz o 1º homem do barro, faz a 1ª mulher de sua carne e, depois de Lhe desobedecerem pela 1ª vez, o Mau invadiu-os e a toda Criação. Deus os tira do Éden para colocar em uma terra onde teriam de trabalhar pelo seu sustento, onde se reproduziram e geraram os 50 bilhões de pessoas que já viveram, além dos quase 8 bilhões atualmente vivos.

Devemos, entretanto, lembrar que, além da criação do Homem a partir do barro, faziam parte da cosmologia do VT a Terra ser plana como uma moeda, o Sol e a Lua girarem ao redor dela (Josué 10.12,13) e o céu azul ser um imenso oceano (Gênesis 1.7).

A EVIDÊNCIA

A versão científica é radicalmente diferente. Nesta, o homem atual resulta da mistura e extinção de vários outros “humanos”. Trata-se de uma espécie única desde os últimos 100 mil anos, que divergiu dos primatas mais próximos há 3.5 milhões de anos. Espécie única significa que os outros “humanos” morreram até o último indivíduo ou que uma espécie se misturou irreversivelmente com a outra. Os famosos Neandertais, por exemplo, viviam na Europa e tinham crânio e corpo maiores que o homem atual, com pernas bem mais curtas. Essa espécie “humana” usava ferramentas, mas desapareceu (não deixou mais esqueletos) desde 40 mil anos atrás. Comparações de DNA antigo extraído de esqueletos sugerem que se fundiram à espécie Homo sapiens sapiens atual. Ao mesmo tempo, amostras de lugares diferentes indicam que os homens como os conhecemos dominaram o sul do Saara há 3.5 milhões de anos, enquanto outras espécies semelhantes dominaram a Europa e o sul da África na mesma época. É isso que significa divergir evolutivamente: duas raças semelhantes e equivalentemente poderosas dizimam seus concorrentes, cada qual no seu território. Os “homo” sul-saarianos aprenderam a usar ferramentas; os da Europa e do sul africano tornaram-se respectivamente pequenos e ágeis puladores de árvores ou intimidadores macacos terrestres de 300 Kg. “Tornaram-se” também não pode parecer algo mágico - significa que as raças foram divergindo e, passo a passo, uma poderosa dizimou outra um pouco menos dotada.

CIÊNCIA OU BÍBLIA

As evidências da(s) Criação(ões) Bíblica e Científica também são muito diferentes. O texto Bíblico provém talvez de Moisés, ou de uma fonte muito mais antiga. Historicamente, podemos inferir que venha do Egito, onde os hebreus passaram por uma grande modernização cultural. Se bem que o Éden é posicionado, biblicamente, no Mar Vermelho ou no Golfo Pérsico. São relatos orais que, alguma hora, foram transcritos no papel e re-copiados desde então. Na melhor hipótese, podemos supor que sejam fruto de uma revelação divina a um profeta. Já o texto científico tem sua base em um caminhar-para-trás no tempo a partir de suposições testáveis feitas sobre de esqueletos antigos que fornecem anatomia, idade, posição geográfica e restos de DNA. Como ambas são bem diferentes, muita gente já teve de escolher entre uma e outra. Especialmente porque isso tem implicações, e a mais notável é o papel de Jesus nesse mundo.

JUIZ JESUS

Tanto a Ciência quanto o relato bíblico merecem credibilidade. A Ciência, pela metodologia com que investiga, buscando sempre o que é mais correto. O relato bíblico, pelas fontes de que dispõe, isso é, a revelação do próprio Criador passada oralmente e depois escrita, de geração em geração. Quando ambos discordam, temos o clássico dilema policial de acreditar nas evidências ou nas testemunhas. Jesus, ou pelo menos o que os evangelistas escreveram Dele, dá sinais de concordar com o VT. Mas sempre podemos pensar que os evangelistas eram, eles próprios, judeus que tinham a Criação Bíblica como seu conhecimento de base. Em nenhum momento Jesus foi interrogado explicitamente sobre o início do mundo, ou falou abertamente sobre esse assunto, então o que nos resta é analisar figuras de linguagem da narrativa de terceiros.

Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo. … Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante. (1ª Coríntios 15.21-45)

Além dos profetas, a palavra de Jesus é o testemunho com maior credibilidade que temos. Ele cita Abel, filho de Adão, como um profeta, o que está registrado nos textos de Mateus (Mateus 23.34-36) e Lucas (Lucas 11.49-51). Não podemos imaginar que Jesus tivesse um entendimento limitado ou restrito pela cultura do Seu tempo! Segundo Paulo, Jesus veio à terra para desfazer o castigo da mortalidade imposto sobre Adão e Eva, quando desobedeceram a Deus. Se não temos um Adão e uma Eva (como diz o Gênesis humano científico), então sobre o que Paulo está falando? Ainda que possamos supor que Paulo misturava a iluminação divina com seu conhecimento do 1ª século, Jesus faz uma referência a Adão que não podemos ignorar.

Por outro lado, está bem claro que todos os Cristãos são mortais. Não sabemos sobre João, mas todos os demais apóstolos morreram. Inclusive Pedro, famoso por presenciar milagres. Jesus, então, apesar de ter ressuscitado fisicamente algumas pessoas, incluindo a Si próprio, veio à terra para preparar o Reino de Deus (Mateus 12.28), assinalar o perdão dos homens (Mateus 12.31) e anunciar a Ressurreição ao final dos tempos (Mateus 22:28-30). Ele anunciou um re-nascimento após a morte, que não é exatamente reverter a mortalidade de Adão, mas fazer algo inexistente antes. A mortalidade de todos os demais seres viventes, castigados junto com Adão, não foi sequer abordada por Jesus.

Lembremos que, no VT, o pecado de um pesava sobre o destino de todos. O homem puro teria vida longa, enquanto o pecador morreria, matado por Deus ou outros homens. Sempre terminava com a morte sendo o fim completo e definitivo. No tempo dos gregos (330 - 130 a.C.), introduziu-se o conceito do Hades, um mundo sombrio onde os mortos ficavam depositados, aguardando por toda eternidade. Embora Paulo, o grego, tenha se esforçado em anunciar Adão e Jesus como o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim da Humanidade, precisamos avaliar seriamente se isso era uma revelação dada a ele ou parte de sua retórica figurativa, uma vez que Jesus não colocou tais termos. De fato, a única referência criacionista de Jesus, ainda sob a palavra de Seus narradores Mateus e Lucas, é citar Abel como um profeta (coisa que o VT mesmo não faz).

UMA NÃO-CONCLUSÃO

É significativo que Jesus não tenha abordado esse tema; talvez não fosse uma questão na moda em Sua época, mas seria algo que muitos hoje gostariam de Lhe perguntar. Talvez valha a fala de Jesus: “Quem me constituiu juiz ou árbitro entre vós?” (Lucas 12.14). A misteriosa Carta aos Hebreus diz que não se chega a Deus senão por meio da fé (Hebreus 11.6), o que significa, raciocinando, que provavelmente Deus se faz invisível à Ciência. Ao contrário do que clamam alguns argumentos Criacionistas de que os cientistas são ateus, muitos se debruçam sobre Seu rastro, como mostram as freqüentes notícias eufóricas sobre alguém ter descoberto a “assinatura matemática”, "química" ou “cósmica” de Deus.

Ser “teologicamente superficial”, aqui, significa não se questionar sobre a Criação, aceitar passivamente a opinião mais vantajosa. Cerca de 40% dos estadounidenses acredita na Criação a partir do barro. Outros 40% acreditam numa evolução guiada pela mão divina e, finalmente, 20% fica puramente na Ciência. Entre os escolares brasileiros, cerca de 30% acreditam na Criação a partir do barro, contra 40% que aceitam alguma forma de evolução do Homem (assustadores 30% são indecisos, talvez tentando conciliar as duas teorias). Mas é possível conciliá-las? Sem ferir gravemente a uma delas, somente pensando uma revelação feita a um profeta, na medida do conhecimento da época (2000 a.C., pelo menos), onde Adão e Abel tenham sido, para além da alegoria, pessoas reais, talvez líderes de clãs em algum lugar próximo ao Golfo Pérsico. Esse seria o limite de alcance do relato, ainda que não o início de tudo, mais ou menos como quando alguém lhe pergunta sobre sua lembrança mais antiga.

JESUS SEM ADÃO?

E quanto ao papel de Jesus como Salvador, de um Homem que não surgiu pecando? Talvez devêssemos, aí mesmo, nos perguntar porque os homens se admitem pecadores, carregadores de uma culpa congênita. Lembremos que essa culpa era irremediável (e pouco representativa) no VT. Apesar disso, mesmo os mais seguidores da Lei permaneciam suspeitos da própria pureza (Isaías 6.5).

Segundo Jesus, o pecado reside em (I) não amar a Deus acima de todas as coisas; (II) não amar ao próximo e a si mesmo igualmente (Mateus 22.36-40, 1ª João 4.21). Parecem condições simples, mas são muito abrangentes. Do fim para o começo, “amar ao próximo” significa ter seu prazer no bem estar, na felicidade e no crescimento do outro. É uma construção social de outras espécies também, e pode-se citar muitos animais que defendem o seu grupo às próprias custas. Nos humanos, essa atitude pode ser inata ou não, e fica mais fraca especialmente em grupos grandes. Pode-se até imaginar uma gama de crianças e adultos, homens e mulheres, ricos e pobres, que entra facilmente em pecado II (ou seja, que escolhe pelo dano ao próximo) a menos que seja ensinada não fazer isso.

Paulo falava sobre a Lei ser uma condenação (Romanos 3.19-24). Mas alguém pode aprender a amar o próximo? A parábola do semeador mesmo adverte que apenas uma parte aprende o Evangelho. E isso é talvez diferente de crer em Jesus, pois é uma regra moral (eu posso crer em Jesus e cometer crimes contra meu próximo). Depois de amar inatamente³, imitar o amor de Jesus é, ainda que muitas vezes impossível ou difícil, segundo nos instrui a parábola, o melhor caminho para escapar ao pecado II. Contemos com a interferência divina para isso!

Amar a Deus acima de tudo significa ter prazer proporcionado por Deus, não por meios naturais. Significa que Deus te faz feliz mais do que outras coisas. Pode significar rir de felicidade quando tudo ao seu redor desaba, mas também cria a pergunta: o que é o “estímulo Deus”?

Havendo uma ordem diretiva do Senhor, “amar a Deus” significa obedecer ela. Mas, lembrando, ordens psicóticas têm também essa característica diretiva e com obediência. De fato, a referência religiosa em pessoas delirantes é tão comum que motivou investigações sobre a conexão de religião e insanidade. Apesar disso, em João 3.1-10 o próprio Jesus fala para Nicodemus, fariseu renomado, sobre aquele que é 'nascido de novo' ter instruções diretamente de Deus*.

Não havendo uma ordem diretiva, “amar a Deus” pode significar não desobedecer regras objetivas. Há muitas delas em Êxodo e Levítico, inclusive muitas que criam o pecado II através da punição ou morte de quem faz ou se recusa a fazer algo. Tolerar o prejuízo causado por alguém, ainda que seja socialmente injusto, não parece menos amoroso com o próximo de que matá-lo a pedradas. Jesus mesmo argumentou pelo produto maior das ordens ou da Lei, de forma que elas evitassem o pecado II. Assim, é preciso pensar além do texto, e às vezes flexibilizá-lo muito para não criar outros pecados. Boa parte da literatura rabínica se dedica justamente a isso.

“Amar a Deus” não é uma faculdade animal (pelo menos não parece ser, apesar do "Tudo o que tem vida louve o Senhor" de Salmos 150.6), mas é uma ação muito antiga entre os humanos. Todas as culturas tiveram ou têm seus deuses. Mas não se trata necessariamente do Senhor dos Exércitos de 1000 a.C., YHWH ou o Pai de Jesus. Nesse caso, “amar a Deus” pode depender completamente de entender Jesus como Seu representante, algo ensinado por Ele e não conhecido de outra forma (o que de fato constitui o Cristianismo como religião independente do Judaísmo).

O BOM PASTOR

Resumindo, a colocação “simples” de Jesus sobre o pecado não inclui um Pecado Original, herdado de Adão. Na verdade, ela permite que algumas pessoas escapem naturalmente ao pecado II de não amar ao próximo, mas tornam improvável que alguém escape ao pecado I sem ser um Seu seguidor. Jesus só não arrebanha para Si alguns dentre aqueles que ouvem Deus diretamente, como os profetas.

Independentemente de Adão, a obra de Jesus se concentra sobre livrar os homens do pecado I, o que apenas destoa das teologias mais difundidas. Ele não deixa claro porque precisaria morrer, mas afirma que era seu destino e que salvaria os homens. A conexão entre as duas coisas é teórica, e foi onde Paulo colocou seu ponto. Embora frequentemente se argumente que, sem Adão, não haveria um Pecado Original pelo qual precisasse haver um sacrifício, temos a exposição de Jesus feita na festa de Hanukkah**:

Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas. Mas o mercenário, e o que não é pastor, de quem não são as ovelhas, vê vir o lobo, e deixa as ovelhas, e foge; e o lobo as arrebata e dispersa as ovelhas. Ora, o mercenário foge, porque é mercenário, e não tem cuidado das ovelhas. Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido. Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas. Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor. (João 10.11-16)

Imagens pastoris eram comuns na Judéía e Grécia mas, ao se referir como “o Bom Pastor”, Jesus se apropriou de um símbolo forte dos gregos, associado com Hermes o Salvador. Esse símbolo era usado desde 500 a.C., amplamente conhecido na Judéia e Roma. Isto é, não dá para dizer que Jesus o criou. O texto de João é muito pobre de alegorias, dando a entender que isso também não era uma parábola. Jesus falou claramente em dar sua vida (pois ninguém poderia tomá-la) e depois a recuperar conforme Ele mesmo quisesse. Ele não fala em pagar pelos pecados de Adão, mas que dar Sua vida era a tarefa Dele junto ao Pai. E talvez a ligação com Adão seja só vista por Paulo.

Na simbologia grega, o Bom Pastor dava sua vida para salvar as ovelhas do ataque dos lobos; além do peixe, esse o Bom Pastor (que já era usado na Grécia e Roma) logo se tornou o principal símbolo Cristão. Resta saber a que lobo Jesus se referia; normalmente esse inimigo é identificado com o Diabo.

EU SOU O CAMINHO

É importante que cada povo sinta-se vinculado a sua terra. Geralmente, esse vínculo é feito por mitos da Criação que trazem elementos do povo em questão associados ao surgimento da própria terra. No Cristianismo e no Islamismo, isso se complica pelo fato de serem religiões que valorizam sua exportação a outras terras e povos.

No Islã, o laço com a terra inicial (Meca) é mantido pela obrigatoriedade das peregrinações - embora grande parte do mundo islâmico seja composta por pobres com pouca probabilidade de viajarem até o Oriente Médio. O Catolicismo contornou essa dificuldade criando peregrinações a muitos lugares santos espalhados pelo mundo, mas principalmente na Europa. No Protestantismo, a aversão aos ícones retirou não só as imagens e pinturas dos templos, transformando-os em prédios puramente funcionais, como uma empresa, mas também destituiu de valor todos os lugares sagrados.

Apesar disso, especialmente entre os Protestantes fortaleceu-se a noção da Criação a partir do barro, como relatado no Gênesis, a ponto de pessoas rejeitarem sumária e coletivamente as evidências históricas e científicas em contrário. Num estado de “superficialidade tecnológica”, tudo depende das influências sociais sobre cada pessoa. Afora os artifícios retóricos e desqualificadores de criacionistas e cientificistas, como dito no início desse texto, ambas as teorias - a Criacionista e a Científica - têm seus valores e metodologias diferentes, cabendo inevitavelmente a cada um escolher entre elas, uma vez que sua conciliação é difícil. Como uma velha árvore não guarda vestígios da semente onde germinou, estamos muito longe no tempo desde a Criação para obter algo mais que teorias.

Analisando o principal dilema da teoria Científica, que é a perda do papel de Jesus sem o pecado de Adão, acabamos vendo que Jesus é, dentro do sistema criado por ele próprio, essencial do contato entre os homens e Deus, com ou sem Adão. Ainda que tenhamos antepassados vivendo há milhões de anos que viveu no sul do Saara, não há como chegar a Deus sem a intervenção de Jesus, mesmo se estivermos entre as almas puras e boas que nasceram e permaneceram amando ao próximo.

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¹ Diversos teólogos, desde o séc. 1 d.C., já defenderam Deus como o sentido da razão humana. Esse é justamente o ponto de João 1.1. Os teólogos gregos como Cerinthus separavam Deus, Jesus e a Razão. João afirmava que todos eram uma única identidade, tendo sido seguido nessa filosofia por Policarpo (69-156 d.C.) e Irineu (130-202 d.C.). Segundo eles, e também em parte segundo o livro de Provérbios, o conhecimento em si é uma obra divina, que brota não da experiência humana, mas da concessão de Deus.

² A experiência de Arnold Stephen Jacobs em 2006 talvez seja de grande valia sobre isso. Ele passou 1 ano seguindo à risca o texto bíblico, tal como está escrito. Você pode ler o livro dele, uma reportagem ou uma entrevista dele aqui.

³ Uma observação curiosa sobre esse amor inato, primal e puro aparece no Pastor de Hermas.

* Alguns pesquisadores cognitivistas já consideraram a religiosidade como doença mental. Embora a motivação religiosa de delírios seja comum, o comportamento religiosamente motivado também é, podendo ser encontrado em 35 a 85% das pessoas, sem que isso se reflita na ocorrência de psicopatologias. Também, não há maior interferência da religiosidade com uma patologia mental (ex. Ansiedade) do que com outra (ex. Esquizofrenia). Entre os poucos estudos que abordam de forma metodológica essa ligação de religiosidade e psicopatologias, aparece como indicativo de doenças mentais o entendimento não convencional (ou incomum) de contextos religiosos, como por exemplo, no Cristianismo, receber mensagens de Deus através do rádio/televisão ou sentir-se ordenado a sacrificar alguém para agradá-Lo.

** Em 330 a.C., a Judéia e grande parte do mundo foram anexados ao Império Macedônio por Alexandre o Grande. Alexandre só viveu 12 anos após seus feitos, mas deixou imensos territórios para serem governados por seus generais. Esses generais estabeleceram linhagens reais que logo entraram em guerra umas com as outras, pelo controle de terras. A Judéia ficou inicialmente sob o domínio dos reis greco-egípcios Ptolomai (as famosas Cleópatras são dessa linhagem), enquanto a Síria e territórios a leste ficaram sob os Seleucos. Até cerca de 200 a.C., os Ptolomai deram liberdade de culto aos judeus. No entanto, Antíoco III o Grande, dos Seleucos, expandiu seu território, derrotou Ptolomeu V, e anexou a Judéia. Ele iniciou um período de forte pressão para que os costumes e a religião nativos fossem abandonados em favor dos costumes gregos. Seu filho Antíoco IV Epiphanes (175 a.C.), em especial, saqueou o 2º Templo e destituiu o sacerdócio judeu, o que iniciou a revolta dos Macabeus em 167 a.C. A revolta foi liderada pelo sacerdote Matatias e seus 5 filhos. O 2º líder da revolta, Judas Macabeu, obteve êxito em retomar Jerusalém e o Templo.

Judas e seus irmãos disseram então: Eis que nossos inimigos estão aniquilados; subamos agora a purificar e consagrar de novo os lugares santos. Reunido todo o exército, subiram à montanha de Sião. Contemplaram a desolação dos lugares santos, o altar profanado, as portas queimadas, os átrios cheios de arbustos que tinham nascido como num bosque ou sobre as colinas, os aposentos demolidos. Rasgando suas vestes, eles se lamentaram muito e cobriram as cabeças com cinza, prostraram-se com o rosto por terra, tocaram as trombetas e ergueram clamores ao céu. Então Judas encarregou alguns homens de combater os soldados da cidadela, enquanto purificavam o templo. (1ª Macabeus 4.36-41)

Essa re-dedicação do Templo passou a ser comemorada, nos anos seguintes, com a festa de Hannukah. Tradicionalmente, a festa prossegue por 9 dias, até que todas as velas do Menorah tenham sido acesas, uma por dia.

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TEXTOS CHATOS DEMAIS PARA SEREM LIDOS

Good Shepherd - wikipedia
Hanukkah - wikipedia
Kriophoros - wikipedia
Moss S, Defying Darwin, The Guardian, 17fev2009
Oliveira GS, Estudantes e a evolução biológica: conhecimento e aceitação no Brasil e Itália, tese de doutorado na Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, 2015
Pettit J, God or meaningless morality, notsodeepthoughts.org
Sanderson S, Vandenberg B, Paese P, Authentic religious experience or insanity?, Journal of Clinical Psychology 55(5):607-616, 1999
Valério M, A falsa inerrância científica bíblica, evo.bio.br, jan2004

terça-feira, 23 de abril de 2013

O QUE DEUS FAZIA ANTES DE NOÉ - A DESCENDÊNCIA DE ADÃO

Após cuidar de Adão e Eva no jardim que chamou de Éden, Deus baniu de lá o 1º casal, que passou a gerar descendência sobre a terra, povoando-a. Fora do jardim, contudo, o Senhor não se afastou deles. A última fala de Deus à família dos patriarcas se dá justamente quando Caim o enfureceu, depois chorando porque seria morto por quem o encontrasse. Deus o protegeu com um sinal e ele afastou-se de onde fosse visto:

O SENHOR, porém, disse-lhe: "Portanto qualquer que matar a Caim, sete vezes será castigado". E pôs o SENHOR um sinal em Caim, para que o não ferisse qualquer que o achasse. E saiu Caim de diante da face do SENHOR, e habitou na terra de Node, do lado oriental do Éden. (Gn 4.15-16)

Segundo a Bíblia, não menos de 1500 anos se passaram desde que Deus falou a Caim (entre 9000 e 7600 a.C.), até que Ele novamente se manifestou a Noé:

Então disse Deus a Noé: "O fim de toda a carne é vindo perante a minha face; porque a terra está cheia de violência; e eis que os desfarei com a terra. Faze para ti uma arca da madeira ... " (Gn 6.13-14)

Primeiro, é necessário dizer que os livros do Pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) dão fortes indícios de terem sido escritos por uma única pessoa, que provavelmente foi Moisés (~ 1600 a.C.). Nesse caso, ele relatou no Gênesis eventos que devem ter ocorrido por volta de 8000 a.C., ou seja, 64 séculos antes. Muito disso estava na tradição oral dos judeus, como longas histórias sobre a sua descendência e figuras do passado, além do que Moisés pode ter contado efetivamente com a ajuda divina nessa tarefa de escrever o que as pessoas lembravam. O fato de ele não ter escrito detalhadamente sobre a vida de muitos revela tão somente que Moisés sabia pouco sobre eles, não que tenham tido vidas curtas (e os únicos dados que ele deu de alguns foi o seu tempo de vida excepcionalmente grande) ou tenham sido pessoas pouco importantes. Muito menos que Deus tenha se esquecido deles!

Não se vendem dois passarinhos por um ceitil? e nenhum deles cairá em terra sem a vontade de vosso Pai. E até mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois; mais valeis vós do que muitos passarinhos. (Mt 10.29-31; Lc 12.7)

Nessa passagem, Jesus conta que Deus se preocupa mesmo com os pequenos e desprezados. Não cuidaria de todos nós? Não cuidaria das 24 gerações entre Adão e Moisés? Mesmo que o patriarca escritor não tenha se lembrado deles, ou não tivesse de onde tirar informações sobre eles, foram 24 famílias sobre a Terra construindo o povo que deus chamaria de Seu. Assim, alguns deles tiveram detalhes sobre a sua vida registrados por Moisés, outros simplesmente não. Por exemplo, a Bíblia não cita os nomes das mulheres nos casais, embora alguns livros apócrifos mais antigos falem sobre isso. Também, o livro de Gênesis sempre comenta que os patriarcas tiveram muitos filhos e filhas, mas somente nomeia um deles, que provavelmente havia se tornado o líder tribal. Dessa forma, o que o Gênesis oferece não é uma genealogia como a entendemos (com primos, tios, etc), e sim uma “dinastia” de chefes tribais. É uma viagem à mais remota antigüidade humana, em uma terra (e literalmente com esse nome) onde as pessoas estavam começando a habitar, sem instrumentos, armas, ferramentas ou quaisquer utensílios que não os feitos pelas suas próprias mãos a partir dos recursos naturais, e cujos registros que restaram não falam ainda das pessoas como um todo, mas apenas dos líderes que Deus proveu para comandá-los.

SETE ou SETH

Era por volta do ano 7400 a.C., iniciando o período que a história conhece como Neolítico, uma época de sociedades tribais cuja principal tecnologia consistia no uso de madeira e pedras. O filho tardio de Adão e Eva foi concebido depois da fuga de Caim, quando Adão já somava cerca de 130 anos (ele viveu até os 930 anos, ou 930 A.M., de Anno Mundi):

E tornou Adão a conhecer a sua mulher; e ela deu à luz um filho, e chamou o seu nome Sete; porque, disse ela, “Deus me deu outro filho em lugar de Abel; porquanto Caim o matou”. (Gn 4.25)

Uma vez que a linhagem de Caim foi destruída, a Bíblia considera Sete o herdeiro da linhagem de Adão até os últimos dias. Algumas versões trazem “Deus plantou uma nova semente”, que é um trocadilho com o nome de Sete, palavra que significa “plantar” algo na terra. Talvez fosse mesmo uma referência ao começo da agricultura entre os homens.

No apócrifo chamado Livro dos Jubileus, Sete casa-se em 231 A.M. com Azura, sua irmã 5 anos mais velha. Desse casamento Deus proveria o nascimento de Enos.

A semente plantada por Deus foi boa - Sete viveu até os 912 anos. Os muçulmanos acreditam que a tumba de Sete está preservada até hoje em Al-Nabi Shayth (que significa O Profeta Sete), no Líbano. Em seu livro “Antiguidades”, o historiador romano Josephus fala sobre monumentos deixados por Sete; entretanto, os historiadores posteriores desqualificam cada um deles, concluindo que qualquer resquício de antes do dilúvio tenha sido soterrado.

ENOS

Nessa 3ª geração desde Adão, nasceu aquele que o nome significa “homem mortal”, mesmo que ele tenha vivido não menos que 905 anos.

Há bem pouca informação sobre esse descendente de Adão (que continuou vivo para assistir muitas gerações suas). Sete tinha 105 anos quando Enos nasceu. Na Bíblia, após o nascimento de Enos “então se começou a invocar o nome do SENHOR” (Gn 4.26). Isso significa que houve um reavivamento espiritual ou que os homens começaram a dividir-se segundo os que criam no Senhor e os que veneravam outros deuses ou ídolos (Gn 31.19). De fato, a palavra hebraica para “começar” aqui é “huchal”, que pode significar “profanar”.

No Livro dos Jubileus, Enos casou-se com sua irmã No'am e deles Deus proveu o nascimento de Cainã em 325 A.M., quando Enos chegava aos 95 anos.

QUENAN ou CAINÃ

A 4ª geração desde Adão começa em 7260 a.C. (325 A.M.), com um curioso personagem de nome significando “artífice” ou “artesão”. Mais tarde, esse nome seria usado principalmente pelas pessoas que moldavam ferro (ex. blacksmith, em inglês). Mas não havia ainda o manejo do ferro... isso requer certa tecnologia com minerais, fornos e ferramentas que só apareceria por volta de 1300 a.C. Mesmo a fundição de bronze ainda estava longe, e só aconteceria lá por 3500 a.C. Então, talvez o nome do ancestral bíblico se referisse a uma ocupação na fabricação de utensílios com qualquer outro material, peles, madeiras, etc.

A linhagem de Adão era de homens excepcionalmente longevos, característica provida por Deus: Cainã teria vivido também até os 910 anos. De acordo com o Livro dos Jubileus, ele seguiu o costume e casou-se com sua irmã Mualeleth. Desse casal nasceu Maalael, concebido aos 70 anos do patriarca.

MAALAEL

A cidade mais antiga que se conhece é Ugarit, no extremo noroeste da Síria, junto ao Mediterrâneo. A cidade foi fundada em cerca de 6000 a.C. por navegantes egípcios, provavelmente. Entre o pouco que restou de Ugarit, está uma placa de pedra que fala sobre o culto ao pai celestial El, figura que representava uma espécie de patriarca dos povos nômades e - admire-se - era identificado como “o leão”, ou “senhor dos leões”. A semelhança com o nome “El-Shadday” não é coincidência, se lembrarmos que Abraão era originário do povo cananeu e, portanto, da terra que hoje chamamos de Síria.

Com Maalael, vemos pela primeira vez a inclusão do sufixo -el no nome, como em Isra-el, lembrando também a vinculação ao Pai celestial. Essa ligação do líder tribal ao Senhor indica que por volta de 7200 a.C. havia um culto (ao Senhor) entre o povo e o patriarca era visto como uma espécie de sacerdote. Uma vez que a Bíblia descreve cuidadosamente a dinastia dos líderes, é de supor-se que esses patriarcas não permaneciam como líderes até a morte (quase todos morreram bem próximo ao Grande Dilúvio em ~6000 a.C.), mas eram substituídos por seus filhos talvez perto dos 70 anos, quando se casavam.

Segundo a Bíblia, Maalael viveu 895 anos, compartilhando então a velhice com todos os seus antecessores, incluindo o próprio Adão. O Livro dos Jubileus acrescenta que ele deposou a prima Diná, de quem nasceu seu sucessor Jared, quando tinha 65 anos. Em outro livro apócrifo, foi na casa de Maalael que Enoque (seu neto) recebeu a visão do apocalipse, a qual foi interpretada por Maalael (Enoque 83.6).

JAREDE

A 6ª geração de Adão começou quando a humanidade contava 460 anos, segundo o relato bíblico. Como seus antecessores, Jarede viveu seus 962 anos, casando-se então com Beraka (segundo o Livro dos Jubileus), de quem nasceria o profeta Enoque, quando ele tinha 162 anos (pode se tratar então de um filho homem sobrevivente, ou talvez um nascido após muitas filhas).

Seu nome significa “descendente” pois, segundo Enoque, quando ele nasceu os anjos vieram ao monte Hermon para unirem-se às filhas dos homens.

Viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram. … Havia naqueles dias gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens e delas geraram filhos; estes eram os valentes que houve na antiguidade, os homens de fama. (Gn 6.2-4)

Naqueles dias, quando os filhos dos homens se multiplicaram, aconteceu que lhes nasceram filhas muito belas. E os anjos, os filhos do céu, viram-nas e desejaram-nas, e eles disseram uns aos outros "Venham, vamos escolher esposas para nós entre as filhas dos homens, para nos gerarem filhos". Semyaz, sendo seu líder, disse-lhes: "Eu temo que talvez vocês não vão consentir que este ato seja feito, e só me tornarei responsável por este grande pecado". Mas todos eles responderam-lhe: "Vamos todos fazer um juramento que ligue todos entre nós por uma maldição a não abandonarmos este propósito". Então, todos eles juraram juntos e ligaram-se um ao outro pela maldição. E eles eram duzentos ao todo, e desceram para Ardos, que é o ápice da montanha de Hermon. E eles chamavam o monte Armon, porque ali juraram e amarraram um ao outro por uma maldição. E os seus nomes são os seguintes: Semyaz, o líder do Arakeb, Rame'el, Tam'el, Ram'el, Dan'el, Ezeqel, Baraqyal, As'el, Armaros, Batar'el , Anan'el, Zaqe'el, Sasomaspwe'el, Kestar'el, Tur'el, Yamayol e Arazyal. Estes são seus chefes de dezenas e de todos os outros com eles (Enoque 6)

Na Bíblia, a união dos anjos com as filhas dos homens resultou em Deus decidindo que a vida humana duraria apenas 120 anos.

Então disse o SENHOR: Não contenderá o meu Espírito para sempre com o homem; porque ele também é carne; porém os seus dias serão cento e vinte anos. (Gn 6.3)

No entanto, muitas gerações super-longevas ainda passariam antes que isso acontecesse. Até a geração de José, senhor do Egito (por volta de 5800 a.C.), nenhum patriarca viveu menos de 120 anos.

ENOQUE

Apontado como profeta, Enoque foi o patriarca que menos tempo viveu, chegando apenas aos 365 anos. No entanto, o final de sua vida foi diverso da de todos os demais.

E viveu Enoque sessenta e cinco anos, e gerou a Matusalém. E andou Enoque com Deus, depois que gerou a Matusalém, trezentos anos, e gerou filhos e filhas. E foram todos os dias de Enoque trezentos e sessenta e cinco anos. E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou. (Gn 5.21-24)

Diversas interpretações foram dadas ao texto, porém a palavra para “tomou” nas primeiras traduções gregas do hebraico original levam “metatithemi” (μετατίθημι), que literalmente é “levar de um lugar para outro”. Essa visão é reafirmada na Carta aos Hebreus:

Pela fé Enoque foi transladado para não ver a morte, e não foi achado, porque Deus o transladara; visto como antes da sua trasladação alcançou testemunho de que agradara a Deus. (Hb 11.5)

Em outras palavras, a vida breve de Enoque se deve a uma glorificação e tomada dele para os Céus por volta de 6600 a.C., como se deu com Elias. Essa glorificação de Enoque fez dele uma figura principal do misticismo judaico no 1º milénio a.C., pois acreditava-se que Enoque tivesse tido acesso ainda em vida a conhecimentos dos anjos. Boa parte desse credo paralelo foi registrado no Livro de Enoque ou simplesmente 1º Livro de Enoque, onde Enoque recebe diversas visões sobre o Paraíso, o mundo espiritual e o Apocalipse. O Livro de Enoque era amplamente difundido entre os judeus, e prova disso é a citação de uma passagem sua por Judas Tadeu:

E destes [os que proclamam doutrinas sobre o que não conhecem] profetizou também Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos; para fazer juízo contra todos e condenar dentre eles todos os ímpios, por todas as suas obras de impiedade, que impiamente cometeram, e por todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra ele. (Jd 1.14-15)

Segundo o Livro dos Jubileus, a esposa de Enoque chamava-se Edna. Talvez grande parte da lenda ao redor de Enoque venha da confusão com um Enoque anterior, o filho de Caim:

E conheceu Caim a sua mulher, e ela concebeu, e deu à luz a Enoque; e ele edificou uma cidade, e chamou o nome da cidade conforme o nome de seu filho Enoque; e a Enoque nasceu Irade, e Irade gerou a Meujael, e Meujael gerou a Metusael e Metusael gerou a Lameque. E tomou Lameque para si duas mulheres; o nome de uma era Ada, e o nome da outra, Zilá. E Ada deu à luz a Jabal; este foi o pai dos que habitam em tendas e têm gado. E o nome do seu irmão era Jubal; este foi o pai de todos os que tocam harpa e órgão. E Zilá também deu à luz a Tubalcaim, mestre de toda a obra de cobre e ferro; e a irmã de Tubalcaim foi Noema. (Gn 4.17-22)

Alguns estudiosos vêem na linhagem de Caim uma mensagem embutida, pois a Bíblia primeiro fala da fuga dele para o Oriente e depois repentinamente sua linhagem surge, mais ou menos sem explicação. Os nomes dos personagens são sugestivos: Lameque é “servo de Deus”; Ada é “poente”; Zilá é “sombra”; Jabal é “pastor”; Jubal é “músico”; Tubalcaim é “ferreiro” e Noema é “beleza”. Assim, a passagem poderia ser “O servo de Deus tomou duas esposas, a luz e a escuridão. A luz trouxe o pastor, que era o pai dos moradores das tendas, e pastores, e seu irmão era o músico, que era o pai dos harpistas e gaiteiros. Mas a escuridão trouxe o ferreiro, mestre do bronze e do ferro, e sua irmã era o prazer.

No ano de 7000 a.C., isso sugere uma mudança tecnológica drástica na vida das pessoas, que trocavam a vida nos campos pelas cidades.

MATUSALÉM

Chegamos ao ano 6780 a.C. com a 8ª geração desde Adão, para encontrar o homem que mais viveu na história da humanidade, segundo a Bíblia. Matusalém nasceu quando Adão e todos os patriarcas anteriores ainda eram vivos (e Adão contava apenas 687 anos), porém sua vida se estendeu para além da morte de todos eles. Curiosamente todas essa geração morreu por volta de 7000 a.C., mas Matusalém permaneceu vivo até 6000 a.C., época do Grande Dilúvio. Ele ultrapassou inclusive a morte de seu herdeiro, nascido quando Matusalém tinha 187 anos.

Pela segunda vez, um patriarca gerou seu herdeiro em idade muito além dos 70 anos, o que pode indicar a morte prematura de outros herdeiros ou uma sucessão de mulheres. Matusalém significa “homem com lança”, o que sugere uma época de conflitos e favorece justamente a 1ª hipótese. No livro dos Jubileus, sua esposa tinha o mesmo nome de sua mãe, o que talvez indicasse um nome de família real, como Cleópatra.

Placas de argila encontradas na cidade suméria de Shuruppak (~3000 a.C.) falam do Grande Dilúvio e um grande rei (Ubaratutu), filho de um profeta, que teria vivido desde os tempos longínquos até aquela data.

LAMEQUE

A 9ª geração encontra Matusalém gerando seu sucessor Lameque aos 187 anos. Esse nome entretanto não aparece uma única vez na Bíblia, assim como Enoque. O Lameque filho de Caim lembra sua maldição:

E disse Lameque a suas mulheres Ada e Zilá: Ouvi a minha voz; vós, mulheres de Lameque, escutai as minhas palavras; porque eu matei um homem por me ferir, e um jovem por me pisar. Porque sete vezes Caim será castigado; mas Lameque setenta vezes sete. (Gn 4.23-24)

A linhagem de Caim extinguiu-se com a grande inundação que houve nas terras da Ásia Menor. O filho de Matusalém nasceu em 7100 a.C., bem distante da linhagem de Caim (mas também chamando-se “servo do Senhor”, o que sinaliza outra vez a função do patriarca como sacerdote) e viveria ainda até os 777 anos. Com 182 anos ele geraria Noé, mais uma vez provavelmente o restante de vários herdeiros anteriores.

Lameque foi o primeiro a assistir a morte dos patriarcas: até os seus 100 anos de idade, ele viu morrerem todas as gerações anteriores (sinal do final dos tempo?) com excessão única de seu pai, que viveria ainda depois da sua morte. Segundo a Bíblia, somente a dinastia de Noé (seu filho) sobreviveu ao Dilúvio.

NOÉ

E viveu Lameque 182 anos, e gerou um filho, a quem chamou Noé, dizendo: Este nos consolará acerca de nossas obras e do trabalho de nossas mãos, por causa da terra que o SENHOR amaldiçoou. (Gn 5.28-30)

Assim começa a 10ª geração, a última antes do Dilúvio. A Bíblia enfatiza que apenas Noé, de toda a sua geração, foi capaz de agradar ao Senhor. Novamente, isso talvez o colocasse como uma espécie de sacerdote.

E viu o SENHOR que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente. Então arrependeu-se o SENHOR de haver feito o homem sobre a terra e pesou-lhe em seu coração. E disse o SENHOR: Destruirei o homem que criei de sobre a face da terra, desde o homem até ao animal, até ao réptil, e até à ave dos céus; porque me arrependo de os haver feito. Noé, porém, achou graça aos olhos do SENHOR. (Gn 6.5-8)

A terra, porém, estava corrompida diante da face de Deus; e encheu-se a terra de violência. E viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque toda a carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra. (Gn 6:11-12)

Os antecessores de Noé não foram destruídos pelo Dilúvio, mas de alguma forma o Senhor esperou que eles morressem pela própria idade, e o mesmo se deu com até com Matusalém. Como se nenhum dos patriarcas devesse ver a destruição da terra... Na Bíblia, o plano de destruição da aparece logo após os anjos unirem às filhas dos homens e, mesmo que a ordem cronológica aí não seja clara, parece que isso deixou Deus furioso. De fato, quase tudo desde Caim até Noé parece simplesmente uma descrição de dinastia, uma série de líderes artesãos, guerreiros, etc, e sem dúvida sacerdotes do Senhor. Não se tratava da descendência de Caim, mas de Sete... Por isso, quando Deus resolveu destruir a tudo que tinha criado, aquilo que tanto o havia agradado no Início, Ele simplesmente esperou que os patriarcas morressem de velhos. Então a quem Deus desejava destruir?

A Bíblia quase não dá indícios de onde estaria o mal a que o texto se refere. No entanto, parece que ele não estava nos descendentes de Sete. Tudo o que sabemos é que, após um “silêncio” de mais de 1500 anos, o Senhor voltou a falar a Noé, para instruí-lo em 6000 a.C. sobre a construção da arca que salvaria sua família. Ele não esteve tão quieto quanto nos possa parecer, mas sem dúvida esteve sendo o Senhor que todos poderiam esperar: tolerante e cuidador. Pelo menos com os que que o seguiram...

SE DUVIDA VAI LER LÁ Ó
A linhagem de Adão (em Anno Mundi)

domingo, 2 de setembro de 2012

Onde foi parar o Paraíso

Jardin do Éden, Jan Brueghel & Peter Paul Rubens, 1617
Qual brasileiro reparou nas aves das árvores?

Gn 2.8. E plantou o SENHOR Deus um jardim no Éden, do lado oriental; e pôs ali o homem que tinha formado. E o SENHOR Deus fez brotar da terra toda a árvore agradável à vista, e boa para comida; e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal. E saía um rio do Éden para regar o jardim; e dali se dividia e se tornava em quatro braços. O nome do primeiro é Pisom; este é o que rodeia toda a terra de Havilá, onde há ouro. E o ouro dessa terra é bom; ali há o bdélio, e a pedra sardônica. E o nome do segundo rio é Giom; este é o que rodeia toda a terra de Cuxe. E o nome do terceiro rio é Hiddekel [Tigre]; este é o que vai para o lado oriental da Assíria; e o quarto rio é o Eufrates. E tomou o SENHOR Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar.

bdélio: resina aromática obtida da planta Commiphora wightii, ou Guggul, semelhante à mirra; essa resina é amplamente extraída e comercializada até hoje no Paquistão e Índia.

pedra sardônica: termo obscuro que provavelmente se refere ao ônix, um cristal de óxido de silício (quartzo) cuja cor pode variar do negro ao castanho avermelhado.

Por alguma razão bem difícil de entender, desde que Adão e Eva foram expulsos do Éden, ou jardim de Deus, têm havido grandes tentativas para retornar. A razão mais provável para isso é constatar que o homem convive com o mal, sofre com as injustiças e dificuldades da vida, acabando por imaginar um lugar livre de tudo isso. Logo no início da Bíblia está ela bem ali descrita: Éden, o lugar perfeito, antes de todo mal. Quem não gostaria de ir para lá? Jesus menciona que “Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também” (Jo 14.2-3). Não há referências se isso seria o Éden, onde o Senhor passeava no horário da brisa, mas o fato de Deus ter colocado querubins com espada para guardar o Éden do retorno de Adão queria dizer algo. Ele sabia que Sua criação tentaria voltar!

Há forte conotação espiritual do início de Gênesis, onde o homem escolhe experimentar o bem e o mal ao invés de seguir as instruções de Deus. Essa ruptura é delimitada com a expulsão de Adão e Eva do Éden, onde o homem só poderia viver sem experimentar do bem e do mal, onde só ficaria se escolhesse confiar plena- e infantilmente em Deus ao invés de testar por si mesmo, sem saber sequer que estava nu. No entanto, o texto bíblico não fala de um Éden espiritual, mas localiza-o geograficamente no encontro de rios bem conhecidos da humanidade, nas fronteiras do império assírio (que se formou em cerca de 2500 a.C.) e onde sabe-se que povos habitam desde muitos milênios. Ali perto se obtinham bdélio (produto de comércio abundante) e ouro (obtido da mineração)... ou seja, havia pessoas habitando o local.

A busca para localizar o local exato do Jardim do Éden bíblico e os quatro rios quase rivaliza com a busca para a localização da lendária Atlântida, de Platão. A Bíblia diz que um único rio flui “para fora" do Éden e, em seguida, faz algo que a maioria dos rios não faz: dividide-se em quatro rios distintos. Quase todos os rios começam a partir de uma única fonte (ex. uma montanha) ou são alimentados por fontes múltiplas (afluentes). Este padrão observado na natureza é exatamente o oposto do que a Bíblia descreve sobre o rio do Éden. Por essa razão, ninguém foi capaz de olhar para os mapas modernos das regiões mencionadas em Gênesis e descobrir exatamente onde o Jardim do Éden era. Apenas um dentre os 4 rios é conhecido pelo mesmo nome nos tempos modernos. O Eufrates nasce nas montanhas da Turquia e termina juntando-se ao rio Tigre (o animal tigre é a tradução de Hiddekel) perto da região de fronteira com o Iraque / Kuwait. Nessa região floresceram os povos da antiga Suméria (5000-2300 a.C.), depois a Assíria (2500-600 a.C., relatada no texto bíblico), abrigando o reino babilônico e o reino persa (650 a.C - 1500 d.C.). Essa sempre foi uma região desejada pelos povos, pela fertilidade das terras!

Figura mostrando as áreas férteis (em verde) e desérticas (em amarelo) na região conhecida como Mesopotâmia (literalmente: entre os rios).

DOIS LUGARES POSSÍVEIS

Especulou-se que o Éden estava localizado em algum lugar na Turquia, onde estão as cabeceiras atuais dos rios Tigre e Eufrates. Outros propuseram que a outra extremidade do rio Eufrates, onde se encontra com o Tigre, pode ser a verdadeira localização. Se fosse possível localizar os outros dois rios na região, seria uma reivindicação que o Jardim do Éden estava perto do Kuwait de hoje.

Os rios Tigre e Eufrates se originam muito próximos um do outro, em terreno montanhoso. A posição do Éden pode então ser a região montanhosa onde esses rios nascem ou [mais provavelmente] onde os rios se juntam para formar um só lençol d’água. A 1ª opção deixaria o Éden nas montanhas da Turquia, a 2ª o colocaria perto do Golfo de Aqaba.

O Eufrates sempre foi muito conhecido e habitado, mas nem o Pison, nem o Giom são mencionados novamente na Bíblia. O rio Hiddekel é citado pelo profeta Daniel:

Dn 10.4. E no dia vinte e quatro do primeiro mês eu estava à borda do grande rio Hiddequel.

Esta referência de Daniel foi feita durante o cativeiro babilônico, o que colocaria Daniel em algum lugar na área do atual Iraque, perto do Golfo de Aqaba. Mas a área geográfica conhecida como "Assíria" não é tão fácil de definir: embora o governo Assírio tenha ficado centrado perto de Nínive, o império se estendeu para o que também é atualmente Síria e Palestina. A proximidade entre o Éden e a Assíria é evidenciada de certa forma por Ezequiel, que compara os cedros no jardim de Deus aos da Assíria (Ez 31).

EM BUSCA DE HAVILÁ

Quanto aos demais rios, faltam Pisom e Giom. A Bíblia diz: "Pisom : este é o que rodeia toda a terra de Havilá, onde há ouro". Há um rio-fóssil que se estende desde as montanhas do oeste da Arábia Saudita em direção Kuwait, terminando no Golfo de Aqaba. Esse rio seco é facilmente detectado por imagens de satélite, e hoje sabe-se que ali houve realmente um rio, de fluxo bastante lento a partir das montanhas a leste do Mar Vermelho. Tal rio secou com as mudanças do terreno e clima ocorridas em 3500-2000 a.C., mas pode ter sustentado a vida em Havilá (atual Arábia Saudita) no tempo em que a estória de Gênesis foi gerada.

Provável curso do rio Pison

A terra de Havillah (hoje desértica) é citada como tendo sido parte da habitação dos Amalequitas e é entendida como sendo literalmente as montanhas Hijaz, onde há depósitos de ouro e até hoje crescem as plantas de onde se extrai o bdélio. Milênios atrás, a pluviosidade na região devia ser bem maior, dados os vários rios fósseis encontrados ali. Possivelmente, Havihah (que literalmente significa “círculo”) era uma palavra mais genérica para “terras montanhosas”, onde andavam os Amalequitas, uma tribo nômade e feroz até nomeada por Balaão como “a mais antiga da terra” (Nm 24.20).


A Bíblia diz que um evento geológico aconteceu 101 anos após o dilúvio: A "Terra foi dividida". A descrição sugere o que foi, provavelmente, atividade tectônica / vulcânica nos dias de Abraão, com a destruição de Sodoma e Gomorra “em uma fornalha” (Gn 19:28). As imagens de satélite do Mar Morto indicam que, noutros tempos, esse mar simplesmente fez parte do curso do rio Jordão.

Quando a serra onde o Pison nascia foi dividida por uma fratura tectônica (ainda em atividade), os ventos úmidos cessaram, a terra se elevou e as águas do rio secaram. Os Amalekitas eram vistos como inimigos terríveis dos hebreus e foram dizimados nas guerras empreendidas por Davi e Salomão. Provelmente essa tribo nômade e detentora de grandes territórios perdurou em pequenos bandos ainda até o reinado de Ezequias, sendo então extinta (1Cr 4.43). 

Se este era realmente o rio Pison, a Turquia e suas proximidades está descartada como localização do Éden. Mas o problema não termina aí: falta o rio Giom, “o que rodeia toda a terra de Cuxe”. A Bíblia do Rei James (séc. 17) traduziu Cuxe (ou Gush) como Etiópia, uma região do extremo oeste Africano. E então muitos passaram anos procurando um rio africano que se unisse aos rios desaguando em Aqaba. De fato, o mesmo nome Cush foi usado pelo povo etíope (mencionado diversas vezes na Bíblia, como uma raça poderosa) e por um povo norte da arábia, que convivia com os assírios. Eis a confusão!

Os hebreus entraram em contato com os dois povos Cush em momentos muito distintos, sem usar nomes diferentes para eles, de forma que provavelmente se referiram a eles de acordo com o contato que tinham ou a proximidade do reino mais rico em cada época. Nos tempos de Moisés, o poder estava centralizado nas mãos da Assíria, então as referências provavelmente eram ao Cush árabe. Já nos tempos do cativeiro babilônico até a época de Roma, a Etiópia era uma potência militar, então certamente a referência era ao Cush africano (onde governou a linhagem da rainha Candace - Atos 8.27). Por isso, há motivos para se crer que a Bíblia do Rei James erra ao chamar de Etiópia o reino Cush perto de onde estaria o Éden; certamente o lugar mais correto seria a península árabe, bem mais perto de Aqaba que a Etiópia.

O arqueólogo Juris Zarins e outros até sugeriram que a região de Gush ou Kush deve ser corretamente nomeada como Kashshu e, ainda, que se refere aos Kashshitas, um povo que, em cerca de 1500 a.C. conquistou a Mesopotâmia e prevaleceu até cerca de 900 a.C. Segundo eles, “na época em que os Kashshites controlavam a Mesopotâmia, a nação de Israel estava sendo formada. Os hebreus certamente deve ter encontrado e aprendido as tradições da Mesopotâmia, seus mitos e contos. Eles devem ter ouvido as palavras Éden e Adão".

A teoria proposta por Zarins finalmente indica que o Giom é o rio Karun, que até hoje nasce nas partes altas do Irã e flui para sudoeste, em direção ao golfo de Aqaba.


O posicionamento do Éden é um conto de rica complexidade, começando 30 milênios antes do nascimento de Cristo. Ele fala sobre mudanças climáticas de úmido para árido a úmido outra vez, migrações dos povos em busca de locais de caça e terras para o plantio. Nessa história parecem ter papel fundamental os antigos Ubaids pré-históricos, que construíram cidades, sumérios que inventaram a escrita e os assírios que absorveram a escrita suméria, bem como a sua lenda de uma terra exuberantemente linda, que eles chamaram Dilmun. Finalmente, havia Kashshitas na Mesopotâmia, contemporâneos dos israelitas, que participaram da formação do Estado de Israel.

MIGRANDO ATRÁS DE COMIDA

Em cerca de 30.000 a.C., a transição do Neandertal para o homem moderno deve ter acontecido ao longo da costa oriental do Mediterrâneo, mar Egeu e o Iraque. Naquela época, as calotas polares eram muito maiores e o mar era cerca de 120 metros mais baixo. O Golfo Pérsico então era terra seca assim como todo o caminho até o Estreito de Hormuz. Essa terra provavelmente era irrigada pelo Tigre, Eufrates e ainda Giom, Pison e seus afluentes da Península Arábica e do Irã. Parece razoável que os homens primitivos tenham chamado de paraíso uma terra excelentemente fértil e rica em caça, localizada onde Golfo está agora.

Entre 30.000 e 6000 a.C., o clima mudou. As chuvas diminuíram drasticamente, muitos rios desapareceram e a população paleolítica recuou até a área conhecida por nós como o "Crescente Fértil" (norte ao longo do Tigre e do Eufrates, para o oeste em direção ao litoral úmido do Mediterrâneo, ao sul do Nilo), e também para o leste, até o vale do rio Indus.

Por volta de 6000-5000 a.C., as chuvas voltaram à região do Golfo. O leste e nordeste da Arábia Saudita e Irã tornaram-se verdes e férteis novamente. Populações caçadoras voltaram para onde os quatro rios agora corriam. Ossos de animais encontrados ali indicam que neste período havia caça de cervos abundante. As milhares de ferramentas de pedra encontradas indicam uso intensivo da terra e populações relativamente grandes em aldeias. Essas ferramentas são encontradas até mesmo no terreno conhecido como Rub al-Khali, hoje uma área desértica da Arábia Saudita. E assim, cerca de 6000-5000 a.C. a terra era novamente um paraíso favorecido por uma natureza-Deus tão generosa que grandes populações podiam viver de caça, pesca e coleta. A noção mais antiga de um paraíso bíblico reside justamente aí, na possibilidade de habitar a terra e encontrar sem esforço o seu sustento.

Algo novo, entretanto, surgiu nessa época: a agricultura. “Não foi do-dia-para-a-noite, um processo muito gradual, não um evento", Zarins enfatiza. O movimento cresceu ao longo da costa do Mediterrâneo, Irã e Iraque, com grupos de caçadores-coletores aderindo lentamente à moradia fixa e ao cultivo. Como tudo se deu antes da escrita, quase não há registro dos transtornos causados e as perguntas sobre valores tradicionais, estilos de vida e deslocamentos de clãs ou tribos. Zarins postula que isso deve ter sido mais dramático do que a Revolução Industrial. “O que aconteceria a um caçador quando seus vizinhos mudassem as formas de viver ou quando ele encontrasse agricultores fixados em seu território?. E se as tribos de caçadores não pudessem lidar com essa revolução? Poderiam morrer ou juntar aos agricultores mas, o que quer que tenha acontecido, eles teriam sido ofendidos em suas tradições mais sólidas."

ÉDEN, ADÃO E O NASCIMENTO DA ESCRITA

A crise se deu quando caçadores-coletores foram confrontados com homens tecnicamente mais talentosos, que souberam reproduzir e criar animais, fazer cerâmica. Quem eram essas pessoas? Zarins acredita que eles eram um grupo do sul da Mesopotâmia chamado de Ubaid, fundadores do mais antigo assentamento do sul da Mesopotâmia - Eridu - em cerca de 5000 a.C. (mais ou menos nos tempos de Noé). Apesar de Eridu e outras cidades como Ur (de onde saiu Abraão!) e Uruk terem sido descobertos há um século, a presença dos Ubaids ao longo da costa do Kuwait e da Arábia Saudita tem vista reconhecida há pouco mais de uma década, quando vestígios de seus assentamentos, túmulos e potes apareceram.

A palavra EDIN apareceu primeiro na Suméria, na região da Mesopotâmia, que produziu a primeira língua escrita do mundo, 3000 anos após o surgimento da cultura Ubaid. Em sumério a palavra "ÉDEN" significa "planície fértil". "ADÃO" também existia na escrita cuneiforme, significando algo como "assentamento na planície". Nomes sumérios como Ur e Uruk, derivam de um povo pré-sumérios que já tinha nomeado os rios, cidades e até alguns comércios específicos, como o oleiro. O assiriologista Benno Landsberger defende nesse ponto a cultura Ubaid que deve ter existido na foz de Aqaba.

"O Jardim e toda a história do Éden, quando finalmente escrita, poderiam ser vistos como o ponto de vista dos caçadores", Zarins afirma. "Foi o resultado da tensão entre os dois grupos, a colisão de dois modos de vida. Adão e Eva eram herdeiros da generosidade natural de Deus. Eles tinham tudo que precisavam. Mas eles pecaram e foram expulsos. Como eles pecaram? Ao desafiar Deus com seu trabalho manual. Ao fazê-lo, eles representavam os agricultores, os que insistiam em domar a terra com suas próprias mãos, confiando em seu conhecimento e suas competências próprias em vez de Sua graça”.

Não havia historiadores para registrar a tensão, mas o evento não passou despercebido. Tornou-se uma parte da memória coletiva e finalmente ele foi escrito em forma altamente condensada, o Gênesis. Mais tarde, Moisés adicionaria leis e o relato da história hebraica. Depois ainda, Esdras reformaria a passagem para reviver no povo banido de Israel os antigos costumes e a cultura hebraica. Repare que antes de Gn 2.4a há uma descrição da criação... depois de Gn 2.4b há outra descrição! Mas como aconteceu que um povo decidiu perpetuar um mito tornando seus próprios ancestrais em pecadores? Pode ser que os Ubaids -conhecidos por terem navegado pela costa leste da Arábia e colonizado lá - tenham sido absorvidos por povos caçadores-coletores durante a elevação do nível do mar (e conseqüente submersão do Éden no Golfo Pérsico). A evasão das terras foi chamada de expulsão! Os anciãos certamente encontraram conforto na fantasia dos bons velhos tempos, quando a vida era mais doce, mais simples, mais idílico.

SURGE EVA, A "SENHORA DA COSTELA"

O nome de Eva não aparece na Suméria. Segundo o Gênesis, Eva foi criada a partir de uma costela de Adão, que foi feito da terra. Por que uma costela? Em um famoso poema sumério traduzido e analisado ​​pelo estudioso Samuel Noah Kramer, há um relato de como Enki o deus da água provocou a ira da Deusa Mãe Ninhursag comendo oito plantas mágicas que ela havia criado. A Deusa Mãe colocou a maldição da morte sobre Enki e desapareceu, para que não se arrependesse. Quando Enki adoeceu e oito de seus "órgãos" falharam, Ninhursag voltou. Ela convocou oito divindades de cura, uma para cada órgão doente. A palavra suméria para "costela" é "TI", que também pode significar "tornar vivo" Então, a divindade de cura que trabalhou na costela de Enki foi chamada de "Nin-ti" e, num bom jogo de palavras, tornou-se tanto a "senhora da costela" e a "senhora que dá a vida". Este trocadilho sumério não se traduz para o hebraico, em que as palavras para "costela" e "fazer viver" são bastante diferentes. Mas a costela em si foi para o relato bíblico e de repente o nome "Eva" ou "mãe de todos os viventes" poderia ser pronunciado como “a senhora da costela”.

LEMBRANÇAS DO PARAÍSO

Os laços hebreus com mitos sumérios são muito claros. Zarins acredita que, embora os hebreus tinham estreita associação com o Egito, suas primeiras raízes espirituais estavam na Mesopotâmia. "Abraão viajou para o Egito, José viajou para o Egito, a história do Êxodo todo se deu no Egito, mas não há nada de egípcio nos primeiros capítulos de Gênesis", ressalta. "Todos esses relatos antigos estão ligados à Mesopotâmia. Abraão de fato veio de Ur dos Caldeus, ou simplesmente Sumérios. Os escritores de Gênesis quiseram vincular-se com essa história, então tomaram fontes literárias da maior civilização que conheciam, na Mesopotâmia. Ao fazer isso eles se voltaram para o Éden, fazendo de Adão um homem. E uma história de coisas que ocorreram em milênios foi compactada em poucos capítulos".

Muito antes de Gênesis ser escrito, Zarins acredita que o Éden físico já havia desaparecido sob as águas do Golfo. "Os sumérios sempre alegaram que seus antepassados ​​vieram do mar, e eu acredito que eles literalmente vieram", diz Zarins. "Eles se retiraram para o norte da Mesopotâmia quando as águas invadiam do Golfo, onde viviam havia milênios". Seu "Éden" original tinha ido embora, mas a mitologia preservou uma terra de fartura, de vida eterna e paz, que sobreviveu na mente coletiva e em uma área geográfica específica.

Quando o arqueólogo Austen Henry Layard decifrou tabuletas de argila com escrita cuneiforme em Nínive, uma fortaleza assíria no Iraque de hoje, encontrou textos sobre o tráfego de pessoas e bens. Para seu espanto, achou também relatos sobre o Éden, Adão e a "senhora da costela", além de um grande dilúvio e um herói chamado Gilgamesh, em sua busca pela Árvore da Vida. Havia até uma serpente. Gilgamesh partiu da Suméria para a área do Golfo, onde acreditava que iria encontrar uma planta que lhe daria a vida eterna. "O que ele descobriu pode ser coral, que na antiguidade era um símbolo de vida eterna", explica Zarins. "E depois de seus trabalhos ele foi dormir. Uma serpente apareceu e lhe roubou a vida eterna (seu coral?). As descrições de Dilmun são de uma área naturalmente rica, onde as sociedades poderiam existir na vontade e generosidade de Deus, em um belo cenário".

Uma última pergunta deve ser feita. Por que, quando os israelitas aceitaram as histórias antigas da Mesopotâmia, da Arábia, com toda sua carga de lutas, mudanças climáticas, tradições, porque afinal escolheram a palavra Éden, em vez de Dilmun? "Talvez eles nunca tenham ouvido a palavra Dilmun", diz Zarins.

A melhor suposição é que houve uma ruptura linguística no tempo de Alexandre o Grande. O cuneiforme  foi substituída pela escrita alfabética dos gregos, um sistema muito mais eficiente. O poder passou do Oriente para o Ocidente, Grécia e Roma. As histórias antigas desapareceram na obscuridade, porque o poder vai para aqueles que detêm a cultura. Até a descoberta das tabuletas em Nínive, as histórias em cuneiforme estavam mortas. O nome e o conceito do Éden não foram transmitidos através da língua suméria, mas através da língua hebraico-helenística, que renomeou Dilmun para Éden.

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Juris Zarins (1945- ) é arqueólogo alemão professor da Universidade Estadual do Missouri. Nos anos 1970 ele serviu o exército no Oriente Médio, onde se especializou em estudos lingüísticos e tribos nômades, tendo descoberto a cidade de Ubar em 1992, uma das mais antigas da humanidade. A teoria de Zarins pareceu pela primeira vez no Smithsonian Magazine, volume 18, nº 2, de maio de 1987.


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