Mostrando postagens com marcador disputa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador disputa. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Ciência da fé . . . e fé na ciência


Em todas as sociedades modernas, as crenças estão mais vivas do que nunca. Mas isso não é um paradoxo, um contra-fluxo na corrente racional vitoriosa do conhecimento humano? Não se convencionou que crença e ciência não combinam, são como óleo e água? Os dogmas milenares que orientam a fé de cristãos, judeus, muçulmanos ou budistas são todos muito respeitáveis, mas em pleno século 21 não são apenas anacronismos deslocados do mundo da razão e da tecnologia? Não. A novidade é que não existe paradoxo. Existe, sim, o reconhecimento dos limites dos dois campos da percepção humana dos fenômenos naturais.

UM EMBATE ANTIGO

Extrapolando da fala de Jó ("se vou para o oriente, lá Ele não está; se vou para o ocidente, não O encontro. Quando Ele está em ação no norte, não o enxergo; quando vai para o sul, nem sombra Dele eu vejo!" Jó 23.8-9), parece que não podemos ver Deus em nosso próprio mundo... Ele precisa se manifestar de formas incabíveis e fora da nossa realidade. Assim, a Ciência e Deus foram colocados em cantos opostos da sala: cada coisa que se conhece vai para para o lado da Ciência, deixando o lado divino cada vez menos povoado. Será que Deus só prevalece na ignorância, mesmo tendo provido até a própria pessoa para nos ensinar?

Não passa um mês sem que saiam dos laboratórios explicações cabais sobre o que se pensava ser algo sobrenatural. O túnel de luz que as pessoas que estiveram em coma contam ter visto parecia misterioso e insondável. Esse túnel seria uma entrada entreaberta para a eternidade, que se deixava examinar de esguelha por alguém que estava prestes a abandonar o mundo material. Mas essa e outras experiências sensoriais que se têm à beira da morte são todas reações mensuráveis e previsíveis do cérebro humano. A revelação dos bastidores torna os mistérios da vida e da morte menos espantosos? Não. Nada. Hoje soa arrogante e tola a reação dos orgulhosos astrofísicos nos anos 80, quando os satélites mandavam para a Terra sinais que confirmavam a teoria do Big Bang, a súbita explosão original que deu origem à matéria, à energia e às leis que regem a interação entre ambas: "Agora que a física já explicou como surgiu o universo, não há mais lugar para Deus". Tem chumbo trocado: quem pode imaginar uma reação mais tosca e pedestre do que dizer que a Lua perdeu o romantismo para os namorados depois que os astronautas americanos colocaram suas botas por lá?

Claro que o núcleo duro da melhor ciência despreza a noção de Deus. A Ciência é questionadora, busca mecanismos racionais de explicar o mundo, e logicamente Deus não pode ser racional. Da mesma maneira, os metafísicos de todos os sabores e cores não enxergam utilidade alguma no método científico. O cenário atual que emana do córtex cerebral da humanidade - pelo menos da sua porção que se manifesta conectada na internet - é o de que, apesar dos avanços cada vez mais espetaculares da ciência, permanecem intactas as emoções humanas, as sensações de tremor diante do infinitamente pequeno ou do infinitamente grande. Por mais que se explique com crescente precisão como funciona o mundo natural, persiste para a maioria das pessoas a crença de que existe algo mais poderoso ainda... algo desconhecido... e [lógico!] portanto divino.

CIÊNCIA NA FÉ

Há nessa persistência, por ironia, uma explicação científica, estudada a fundo pelos cientistas. A fé, assim como as religiões criadas sobre ela, persiste por ser um componente primordial da evolução humana. Em algum momento durante a última Era do Gelo, que terminou 12000 anos atrás, o Homem desenvolveu o pensamento simbólico. Interessou-se em saber que tipo de força existia por trás dos fenômenos naturais. Começou a enterrar os mortos e a enfeitar seus túmulos com flores. No papel de única espécie capaz de antecipar a própria morte, o ser humano precisou vislumbrar entidades maiores e mais poderosas do que ele para conseguir suportar essa certeza. Muitos biólogos evolucionistas acreditam que as religiões – e tudo o que elas envolvem como instituições organizadas – surgiram como uma superadaptação do homem ao meio ambiente e prosperaram por conferir vantagens a seus praticantes. A crença no sobrenatural ajudou a convivência do grupo e, portanto, seria a gênese da civilização. O biólogo americano David Sloan Wilson, da Universidade Binghamton, autor do livro "A Catedral de Darwin: Evolução, Religião e a Natureza da Sociedade", avalia que o impulso religioso se desenvolveu cedo na história dos hominídeos porque ele ajudava a criar grupos mais coesos, em que florescia o sentimento de fraternidade e solidariedade. "A crença foi uma arma poderosa na luta contra adversários menos unidos e menos organizados", disse Wilson.  

A mais impressionante indicação de que a necessidade de cultuar um Deus está estampada na evolução humana encontra-se numa pesquisa realizada pelo biólogo molecular americano Dean Hamer, chefe do setor de estrutura genética do National Cancer Institute, e publicada em seu livro "The God Gene: How Faith is Hardwired into Our Genes" (O Gene de Deus: Como a Fé Está Embutida em Nossos Genes). Hamer afirma ter localizado no ser humano o gene responsável pela espiritualidade. Esse gene também teria a função de produzir os neurotransmissores que regulam o temperamento e o ânimo das pessoas. Segundo o livro do biólogo, as pesquisas arqueológicas e antropológicas mostram que diversos tipos de ancestrais humanos conviviam antes da Idade do Gelo, há cerca de 30 mil anos. Quando as geleiras cederam, apenas um tipo predominava, os Cro-Magnon. Eles organizavam-se em famílias, puniam o incesto, enterravam seus mortos, enfeitavam os túmulos, pintavam as paredes das cavernas por deleite estético ... e espiritual! Os sentimentos profundos de espiritualidade seriam resultado de uma descarga de elementos químicos cerebrais controlados por nosso DNA. O cientista diz que a brutal aceleração da competição por recursos escassos e a luta pela sobrevivência em condições climáticas adversas selecionaram os hominídeos de tal forma que restaram apenas aqueles que desenvolveram a capacidade de acreditar. Em quê? Acreditar que aqueles tempos duros iriam passar. Acreditar que uma força superior iria trazer de volta as temperaturas amenas. Já os religiosos enxergam nesse salto evolutivo a interferência direta de Deus nos destinos da humanidade... sem nenhuma ferramenta como DNA, cultura, etc para isso.

A concepção de que a espiritualidade está gravada no genoma humano encontra eco numa das mais antigas religiões, o budismo. Seus adeptos acreditam que todo ser humano herda uma semente espiritual da pessoa que ela foi na encarnação anterior. Essa semente se combinaria a outras duas, herdadas dos pais, para formar suas características físicas e espirituais. Estudos anteriores ao de Hamer também conduzem à noção de que a espiritualidade está entranhada nos genes. No fim dos anos 1970, numa pesquisa que se tornou célebre, cientistas da Universidade de Minnesota estudaram 53 pares de gêmeos univitelinos, ou seja, gerados do mesmo óvulo e com DNA idêntico, e 31 pares de gêmeos bivitelinos, gerados de óvulos diferentes. Todos os gêmeos haviam sido separados após o nascimento e criados a distância. Como se esperava, os gêmeos com DNA idêntico, mesmo privados da convivência mútua, apresentavam traços de personalidade, comportamento e hábitos muito semelhantes. Os gêmeos idênticos eram duas vezes mais propensos a cultivar a espiritualidade no mesmo grau de seu irmão do que os gêmeos bivitelinos. Já quando se analisava a tendência a praticar uma religião, os gêmeos idênticos apresentavam significativas diferenças entre si – sinal de que o hábito de rezar e freqüentar igrejas ou templos é adquirido culturalmente.

FÉ NA CIÊNCIA

O fato de a espiritualidade acompanhar o homem em sua evolução é, provavelmente, o motivo pelo qual o conceito de Deus surge em todas as sociedades humanas desde tempos imemoriais, mesmo entre as mais isoladas. Já o divórcio entre a fé religiosa e a ciência, que hoje se encontra na ordem do dia, é um fenômeno recente. Até o fim do século 18, a Igreja Católica, assim como se confundia com o Estado, legitimando o poder monárquico com a bênção do poder divino, andava de braços dados com a ciência.

Por exemplo, o célebre Isaac Newton (1673-1727), matemático e físico inglês criador do cálculo moderno, da lei de gravitação e com contribuições históricas na ótica, era um homem bastante religioso.  E não apenas isso: ele empregava sua ciência também na análise de temas religiosos. Recentemente, a Biblioteca Nacional de Israel apresentou ao mundo manuscritos atribuídos a Isaac Newton, nos quais ele calcula a data aproximada do apocalipse. O material traz também detalhes precisos de um antigo templo em Jerusalém e interpreta passagens da Bíblia. Em um dos manuscritos, por meio dos textos do livro de Daniel, ele chega à conclusão de que o mundo deve acabar por volta do ano de 2060. "Ele pode acabar além desta data, mas não há razão para acabar antes", escreveu. Em outro documento, o cientista interpreta as profecias que contam sobre o retorno dos judeus à Terra Prometida antes do final do mundo. Segundo ele, se verá "a ruína das nações más, o fim do choro e de todos os problemas, e o retorno dos judeus ao seu próspero reino".

O cisma (separação) ideológico entre fé e ciência começou no séc. 18 com o Iluminismo, movimento surgido na França que pregava o uso da razão para explicar o mundo e o universo. O Iluminismo desafiava o papel da religião na sociedade e propunha uma nova ordem social, na qual os interesses humanos estivessem no centro das decisões. Só no século 19, quando o inglês Charles Darwin deixou o mundo atônito com sua teoria da evolução das espécies, que negava a Criação bíblica, as divergências entre o mundo da ciência e o da religião assumiram contornos de guerra cultural. Essa guerra persiste até hoje...

Hoje se vive um equilíbrio precário entre ciência e fé. Nos Estados Unidos, apenas 3% dos cientistas mais respeitados, aqueles que pertencem aos quadros da National Academy of Sciences, acreditam em Deus. Biólogos, como o inglês Richard Dawkins, e filósofos, como o americano Daniel Dennett, escrevem livros e artigos tentando desqualificar a religião como um mal que anestesia as sociedades e as priva das virtudes da razão. Os religiosos contra-atacam ao insistir, por exemplo, que as escolas públicas americanas deixem de ensinar as teorias de Darwin e as substituam pelos ensinamentos da Bíblia. Há também personagens ilustres que tentam contemporizar, como o biólogo americano Francis Collins, que se declara cristão e diz que ciência e religião não se misturam e que se podem cultivar ambas.

COMO ANDA O PLACAR DO JOGO

O Brasil é terreno fértil também para as manifestações acessórias da espiritualidade, como superstições, manias, crença em amuletos, na astrologia e no feng shui. Esse é o território do artista que adiciona uma letra ao nome, do torcedor de futebol que veste uma camisa especial para assistir ao jogo de seu time e dos jovens que usam no pescoço pingentes religiosos. Essas manifestações não têm comprovação empírica de que funcionem, dependem puramente da fé que se deposita nelas. O sociólogo Antônio Flávio Pierucci, da Universidade de São Paulo, autor do livro "A Magia", tem uma explicação para a devoção às superstições e às manias no dias de hoje. Diz ele: "A mente humana se sente desconfortável com o acaso, ela busca explicações para todas as coisas. Daí nasceram os conceitos de sorte e de azar. Se o acaso ocorre a nosso favor, temos sorte; se ele acontece contra nós, o classificamos de azar".

Biblicamente, Fé, conforme o livro de Efésios 2.8-10, é algo que Deus colocou no ser humano ao criá-lo e que se desenvolve através do permanente relacionamento entre filho e Pai divino. Aparentemente, isso jamais poderia ser feito através de Seleção Natural, genes, neurotransmissores ou da cultura humana, precisa ser SEM EXPLICAÇÂO. Fé, de acordo com os livros de Hebreus e Tiago, "é a convicção do que não se vê" e está associado a fazer a vontade de Deus. Não é meramente uma declaração de crença em um ser superior, e sim uma atitude constante de adoração a esse Deus em que se crê como Salvador e Senhor. Conforme a Bíblia, "sem fé é impossível agradar a Deus" (Hb 11.6)... e agradar a Deus não poderia ser jamais uma questão de sobrevivência ou qualidade de vida?

NA FÉ E NA CIÊNCIA

"O que Deus fazia antes de criar o Céu e a Terra? Fazia o Inferno para os que duvidam." Essa era a resposta dos bispos católicos ao tempo de Santo Agostinho (354-430). Agostinho condenava a resposta. Qual a certa? "Deus não fazia nada." Mas como o todo-poderoso se dava ao luxo de passar o tempo fazendo nada? Agostinho: "Deus não passava o tempo fazendo nada porque o tempo não existia. Deus criou o tempo." É espantoso. Dezesseis séculos depois, as melhores cabeças científicas saíram-se com a teoria do Big Bang para explicar o surgimento do universo e tudo o que ele significa - inclusive o tempo. O físico inglês Stephen Hawking rejeita a sobreposição de ciência e religião. Em seu livro Uma Breve História do Tempo, porém, Hawking é agostiniano ao sugerir que o tempo teve começo - ou não teria uma história.

MUNDOS DISTANTES

Devido ao cisma entre ciência e religião, muita gente (hoje) até acredita que o propósito da Ciência é principalmente destruir a Fé. Na verdade, hoje observa-se que ambas trabalham em "salas distintas". A Ciência se pergunta "como as coisas funcionam" e a fé explica "o motivo de elas serem assim". A razão de ser da Fé é fazer o contato entre o Homem e Deus, atribuir significados ao mundo. A Bíblia diz que o Homem existe para servir a Deus. A Ciência se descreve o Homem.

Fundamentalmente, a ciência se ocupa de achar razões ou teorias (isto é, meios lógicos) para os fenômenos naturais. Como se sabe se uma razão ou teoria está certa? A comprovação científica ocorre com o tempo, não é imediata: Albert Einstein construiu a teoria da relatividade nos anos de 1900 para explicar deformações da trajetória da luz, mas as evidências só apareceram nos anos de 1950. Além disso, uma "verdade científica" precisa extrapolar o fenômeno e prever outros eventos, ainda não observados. No caso de Einstein, sua teoria se ajustou perfeitamente (nas descrições e nas medidas) a observações feitas sobre a radioatividade, muitos anos depois. Newton explicou a forma como os corpos caem na Terra, mas ele mesmo percebeu que sua teoria era capaz de explicar os movimentos da Lua, dos planetas e até de galáxias inteiras.

A Fé por outro lado afirma que há causas não previsíveis para os fenômenos, resultado da intenção ou vontade de seres espirituais. E ela não se propõe a explicar fenômenos. Pela Fé, as profecias feitas no Antigo Testamento seriam ainda esperadas e os ensinamentos colocados na Bíblia não são fruto de observações do passado, mas destinados a tempos futuros, que o próprio autor desconhecia. A Ciência simplesmente não obtém medidas dessas entidades, então não as inclui em suas teorias (pelo menos desde o séc. 18), descrevendo e fazendo previsões acerca do MUNDO OBSERVÁVEL. Cientificamente, nem haverá como contestar a imensa maioria das coisas na Bíblia, a menos que alguém obtenha medidas de Deus ou dos anjos. Como provar que uma profecia não irá se cumprir? Como provar que um morto não ressuscitou ou que cegos não foram curados?

Alguns pesquisadores entretanto ainda se agarram aos temas bíblicos. Afinal, muito do que a Bíblia diz que existiu teria deixado resquícios. E, curiosamente, nesse ponto Ciência e Fé têm andado bastante amigas. Por exemplo, recentemente postamos aqui uma investigação sobre o local onde teria estado o Éden bíblico. As evidências apontam que tal lugar de fato existiu (mas não o prova), ainda que seu significado extrapole as poucas linhas sobre ele no Gênesis (Gn 2.8-15). Há indícios científicos fortes de que o Dilúvio narrado (Gn 7.10 - 8.14) equivale a uma grandiosa inundação no Oriente Médio em tempos remotos, mas que nunca existiu na Terra água suficiente para cobrir toda a superfície e, pior ainda, o topo das montanhas mais altas. Os mais ferrenhos dirão simplesmente, "é fé!". Outros porém, se perguntam o que Noé e sua família conheciam por mundo...

Ainda que a Fé seja explicável por genes, neurotransmissores e áreas cerebrais, isso a desbanca? É preciso que seja inexplicável para ter relação com o divino?

MITOS DO ALÉM, SEGUNDO A CIÊNCIA

Por curiosidade ou necessidade imanente de desbancar explicações fantasiosas, alguns cientistas se debruçam sobre fenômenos aos quais a religião também se dedica. Não havendo provas, não significa que é fé. Fantasias e mentiras também são carentes de provas... O que a ciência nomeia de  sonambulismo  ou esquizofrenia e trata com medicamentos antipsicóticos já foi chamado de possessão demoníaca ou ainda de xamanismo. Mas a Bíblia indica o que seria um transtorno mental? Não, e repare que também não há provas científicas contra a possessão demoníaca; há apenas a comprovação de que, em muitos casos, o diagnóstico religioso está muito errado. Nos tempos em que a religião era a única prática curativa, esse embate talvez fosse mais ferrenho.

Sempre há espaço para pesquisar curas e revelações divinas e, como mostrado acima, a própria FÉ é objeto da ciência. Aqui seguem algumas explicações de fenômenos (extrabíblicos, entenda-se bem) ligados a diversas religiosidades e para os quais há explicações científicas coerente. Ainda que essas não possam invalidar as estórias contadas...

QUASE MORTE - relatos que alimentam mitos e interpretações místicas, são feitos por pessoas dadas como mortas mas que, de modo espontâneo ou com a ajuda da medicina, voltaram à vida. Muitas se referem a túneis de luz ou à sensação de flutuar no ar, de modo a ver do alto o próprio corpo.

Enquanto fazia exames numa paciente epilética, o neurologista suíço Olaf Blanke, do Hospital Universitário de Genebra, descobriu que a estimulação de determinada área do cérebro provocava na paciente a sensação de abandonar o próprio corpo e flutuar pela sala. O ponto em questão é o giro angular direito, parte do cérebro localizada no lobo parietal. Essa região é responsável pela percepção espacial que se tem do próprio corpo e do ambiente em torno. Ao estimular o giro angular com pequenas descargas elétricas, Blanke afetou a forma como o cérebro da paciente decodificava a percepção do espaço e dela própria, quebrando a unidade que existe entre o eu e o corpo. Dessa maneira, a paciente se sentia como se estivesse a flutuar no teto, enquanto seu corpo permanecia na cama.

SENTIR A PRESENÇA DE ESPÍRITOS - comportamento de pessoas em êxtase religioso, sob a ação de alucinógenos e também visto comumente em esquizofrênicos paranóides ou catatônicos. Ao estimular com eletrodos o giro angular esquerdo de uma paciente, Olaf Blanke percebeu que ela virava a cabeça como se procurasse alguém dentro da sala. "Quando se desligava a corrente elétrica, a presença estranha sumia". Para o neurologista, o estímulo no giro angular esquerdo criou uma disfunção no circuito neural que levou a paciente à ilusão de uma projeção "torta" do próprio corpo, que ela interpretou como um fantasma. 

LUZ NO FIM DO TÚNEL - depois de ser ressuscitado, o doente conta ter visto um túnel com uma intensa luz na outra ponta. A neurocientista Susan Blackmore, da Universidade do Oeste da Inglaterra, em Bristol, atribui o relato à ilusão provocada pela falta de oxigênio no cérebro, típica de uma parada cardíaca. As células do córtex visual responsáveis pela visão central são mais numerosas que as da visão periférica e, por isso, vêem a imagem com maior brilho. Para a cientista, essa diferença de luminosidade causa a impressão de existir um túnel com luz intensa no seu final. "É algo puramente biológico que as pessoas tendem a ver como místico" - disse Susan - "Drogas como LSD, quetamina e mescalina podem produzir o mesmo efeito em algumas pessoas."

CORPO PARALISADO AO DESPERTAR - quando atingimos o estado de sono profundo, ocorre uma mudança química nas regiões do cérebro responsáveis pela atividade muscular. O objetivo é paralisar os músculos para evitar que os movimentos dos sonhos sejam reproduzidos na vida real. Algumas pessoas acabam despertando durante esse período, com os músculos ainda paralisados. "A sensação é desesperadora e a pessoa sente dificuldade para respirar. Não é incomum ela associar esse evento a experiências espirituais, místicas, demoníacas e até mesmo a encontros com aliens", explica Susan Blackmore. 

---------------------------------

PODE LER QUE A GENTE DEIXA. SE ELES DEIXARAM...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Roubando e agredindo na teologia

- Presta atenção, fracote: o mais santo desse pedaço sou eu.
Se andar bonzinho demais, te encho de porrada.

Esse texto foi espremido de um fruto amargo de Vera Siqueira. Ficou um suco estranho, mas torcemos para que o tempo algum dia o torne em algo saboroso.

"[Muitos] Dias atrás, ele teve um sonho: éramos agredidos na Marcha para Jesus, e para nos defender nos colocávamos de joelhos e começávamos a louvar. Hoje parte do sonho se tornou realidade. Tudo começou, como sempre, com o pessoal se encontrando na saída do metrô Tiradentes. Levamos 6 faixas, 5 dos anos anteriores e uma feita especialmente para essa marcha:

O Brasil não precisa de apóstolos ou patriarcas, com suas fórmulas mágicas e sua Teologia da Prosperidade, que envergonha o Evangelho de Cristo e são são contrárias à realidade dos que sofrem. Chega de vergonha, o Amor e a graça de Deus nos basta. - Mt 6.33

Dividimo-nos em dois grupos: metade ficou no início da marcha, e metade se postou mais adiante, onde aguardaria a chegada dos trios. Por volta de dez horas, como sempre, a metade que ficou se aproximou do primeiro trio-elétrico, onde estavam os astros gospel. E estendemos nossa primeira faixa.

Eu segurava uma faixa ainda enrolada, quando a agarraram e a arrancaram dos meus braços, chegando a me machucar. Era um homem forte, um segurança do evento, que saiu no meio da multidão. Comecei a gritar “fui roubada”, sob o olhar assustado dos fiéis que presenciavam a cena. Outros seguranças se aproximaram e tentaram levar outra faixa, essa já aberta, e eu e os meninos “grudamos” na faixa, enquanto gritava “socorro” repetidas vezes, na ânsia de chamar a atenção de todos e não sermos agredidos. Deu certo, havia uma base policial próxima e os policiais foram ao nosso socorro. Resultado: os policiais apreenderam duas faixas e nos aconselharam a ficar ali, para nossa segurança.

Porém, fui tomada de enorme ira santa, e confesso que fui bastante imprudente (só agora vejo isso). Deixei a base e fui me esgueirando na multidão, a fim de chegar na frente do trio dos astros gospel. Foi bem difícil caminhar contra a multidão, mas enfim cheguei e fiquei cara-a-cara com a pastorada famosa. Sem as faixas, sem ter como comunicar minha mensagem, fiz o que estava ao meu alcance: aquele gesto, com um polegar em pé na outra mão, e os demais dedos fazendo um semi-círculo (para bom entendedor…). Fiquei de costas para a multidão, e de frente com o trio. A bispa até se fez de piedosa, e fez um coração com as mãos, estilo Wagner Love, para mim. E eu, fazendo incessantemente aquele gesto peculiar. Os demais astros viam minha manifestação, mas fingiam nada ver.

Enquanto fazia o gesto e andava de costas, ou melhor, era empurrada de costas pelo cordão humano de brutamontes do evento, ainda por cima o brutamontes que estava na minha frente resolveu me retaliar à sua maneira. A cada passo, ele levantava propositalmente seu joelho, que parava nada delicadamente na minha coxa. E, ao pisar, seu pezinho de fada despencava em cima do meu. Porém, o gostinho de ver aqueles astros gospel tendo que aturar meu gesto me fez perder totalmente a noção de dor. Uma hora até tentei revidar, levantando também meu joelho e atingindo-o com a mesma ignorância, mas aí ele gritou: “você está querendo se machucar”. Entendi o recado, parei de “joelhar”, mas continuei sendo “joelhada” e “pisada”.

Mas não apenas os astros gospel puderam ver meu singelo gesto. Uma repórter se aproximou e perguntou se eu estava protestando. Disse que sim, e ela disse que queria depois falar comigo. Então me deu um bloco, onde escrevi meu celular. Na mesma hora, um brutamontes surgiu do além e arrancou a folha da repórter. Do jeito que ele fez, e no ângulo em que eu estava, achei que ele a tivesse agredido, então por instinto agarrei o braço dele e gritei para ele soltar ela. Quando ele se virou, achei mesmo que ia levar uns sopapos. Mas Deus me livrou. Continuei no meu gestual básico, e então outro brutamontes ainda maior chegou gritando: “pára de fazer esse gesto, senão você vai ser presa”. Continuei o gesto e o cara veio para cima, me agarrou pelo braço com pouco afeto, me arrastou para fora da pista e voltou para o seu lugar. “Ué, você não ia me prender?”

Como não estava presa, voltei com muita dificuldade para a frente do trio, e depois para o outro lado da pista, já que não tinha mais o que fazer ali. Por sorte (ou providência divina), estava justamente onde parte do nosso grupo estava, no caso o Josef, e com ele estavam as outras três faixas. Subimos num canteiro e estendemos a faixa de 2Pe 2.3.

Aí aquela repórter se aproximou de mim e perguntou sobre o porquê de estarmos ali. Falamos um pouco, e do nada apareceram os brutamontes de novo, e arrancaram a faixa das nossas mãos. Na ânsia e na violência, acabaram atingindo um deles mesmos com a vara da faixa, parecia o Pedrão dando uma espadada na orelha do soldado. Assim, nossas três outras faixas foram roubadas, porém ainda tínhamos os panfletos. Então passamos a distribui-los na multidão.

Depois disso, voltamos para a base policial. Os policiais, diga-se de passagem, foram muito cuidadosos para conosco. Eles nos levaram e nos trouxeram ao 2º. DP, onde não pôde ser feito o B.O. por não haver identificação dos agressores. Pela primeira vez, andei de camburão.

Então, de volta à Marcha, pegamos um saco e resolvemos ajudar também, e conseguimos lotar um saco em muito pouco tempo, tamanha a quantidade de papéis, garrafas plásticas e sacos de salgadinhos que encontramos pelo caminho. E então fomos embora.

Sem dúvidas, o tratamento que recebemos foi premeditado, planejado pela organização do evento gospel. Nossas faixas não ficaram abertas nem dez minutos, antes de serem brutalmente arrancadas de nossas mãos. Não tiveram medo de agredir mulheres, nem na frente dos fiéis que marchavam. Só não fizeram coisa pior porque a polícia estava ali, presente.

O que relatei acima foi o que aconteceu comigo e fatos nos quais eu estava presente. Cada participante teve suas próprias experiências, por isso é importante visitar todos os blogs e ler todos os relatos. Em todos, porém, uma característica básica: a intolerância, que gera a violência. E violência entre pessoas que dizem estar ali para marchar para Jesus!

No final, sobraram as duas faixas, aquelas que foram apreendidas no início pelos policiais. As demais, devem estar queimando em alguma fogueira santa gospel, com nossos nomes nas bocas de sapo ungidas. Porém, se não deixaram que a multidão lesse as faixas, pelo menos alguns tiveram acesso aos nossos panfletos, fora os que puderam assistir às cenas de violência. Nossa oração é para que Deus possa usar tudo isso para que o Espírito Santo abra os olhos de alguns para a busca do Verdadeiro Evangelho, que é puro e simples como Jesus vivia. E, se tivermos que apanhar no ano que vem, sem problemas. O importante é que nós diminuamos, e que Cristo cresça.

Voltemos ao Evangelho Puro e Simples! O $how tem que Parar.
"

Parece um relato policial, mas tem algumas coisas aqui que você provavelmente entenderá muito bem. Em primeiro lugar é um texto sobre grupos rivais se batendo na Marcha para Jesus. A própria marcha já tem um simbolismo de guerra, pelo menos para quem assiste: é a reunião de muitos simpatizantes evangélicos de Cristo (outros segmentos cristãos estão de fora) para andar pela cidade fazendo barulho e mostrar a todos fora daquele grupo quão numerosos eles são. Ficar contra eles certamente não seria seguro, fisicamente falando. Mas então a marcha do exército descompassou, mostrou que havia ordenanças internas combatendo ali no desfile mesmo: de um lado, os "poderosos" sobre trios elétricos e com centenas atrás de si endossando a sua versão de Jesus. Do outro lado, um grupo pequeno, sem voz pública e heróico, armado de idéias em faixas e dispostos a apanhar para mostrar a todos a sua versão de Jesus. O próprio Filho do Homem foi bem mais modesto: conseguiu só 12 para endossá-Lo, dos quais só 1,5 ficou até o final (João e Pedro ficaram, mas Pedro insistiu em dizer que não estava) e 1 outro que seguiu outra liderança, também ali mesmo. Como tradicionalmente ocorre num conflito, a polícia e os seguranças fizeram seu papel de defender os poderosos contra os pequenos insubordinados, arrancando faixas, dando cotoveladas e joelhadas; mas por outro lado impedindo que um grupo praticasse a mais santa barbárie contra o outro.

A grosso modo o texto é um grito por justiça como o da criança que chega para a mãe, mostra o irmão e  aponta o machucado dizendo  "ele é malvado, veja o que fez comigo". Diferente da criança, no entanto, esse texto detalha como os "agredidos" foram parar na confusão e o que fizeram que os "agressores" não gostaram. É o que se chama tecnicamente de "situação de risco premeditada": quando você escolhe andar por um lugar perigoso, desdenha de regras de segurança ou insulta alguém maior do que você, está SE colocando em risco. Aqui, os "agredidos" fizeram gestos ofensivos (pelo menos eu entendi que o objetivo era ofender) e levaram placas questionando a "santidade" do movimento. A criança puxando a barra da saia da mãe fala sem parar das faixas, mostra fotos delas, conta como foram destruídas. "Foram as faixas! Foram as faixas! Faixas que falam da Graça de Deus!". O que SOMOS LEVADOS a concluir é que os "agressores" são contra a Graça divina. E por estarem na Marcha para Jesus, ainda são hipócritas. Gente ruim mesmo, que não deve ser ouvida.

Manipular alguém mais poderoso que você para que ele se vingue sobre os seus inimigos... Provavelmente você já fez isso, quando pequeno (e talvez ainda faça, sendo grande). Os Fariseus da época de Jesus levavam casos "decididos" para Jesus julgar, a fim de manipular a opinião pública. Herodes não queria matar João Batista para não desagradar o povo que ele governava, mas Herodias e Salomé manipularam a audiência patrícia¹ para que exigissem isso dele. Aqui, a criança tenta manipular os leitores, que são a "mãe" capaz de rechaçar as idéias da "pastorada" e fazer com que caiam na vergonha por não serem mais ouvidos. Na Marcha, as faixas e panfletos também tinham essa intensão. Ora, entre os reclamantes e entre os defensores da  teologia da prosperidade, quem não é ouvido certamente também não é abençoado.

Manipular Deus é a grande tentação, coisa que vários tentaram e não conseguiram. De forma geral, Jesus dava respostas tão inesperadas aos casos apresentados para o Seu julgamento que até hoje as pessoas escrevem livros sobre as razões lógico-espirituais para que ele fizesse as escolhas que fez. Seria muito difícil tomar decisões baseadas na personalidade Dele, e talvez por isso existam tantas subdivisões do Cristianismo. Todos querem imitar a pessoa de Jesus, mas sentem-se sem chão ao SE verem incapazes disso. Resta criar um código lógico de leis que mostre o que Jesus faria em todos os casos; a isso damos o nome de teologia. Teologia é theos (deus) + logos (conhecimento), é o conhecimento de deus, o que nos permite prever "o que Deus faria se...". As crianças fazem mãe-logia e pai-logia quando correm pedindo a intervenção da mãe num conflito e não a do pai. Talvez o pai não acreditasse na estória...

Hoje existem algumas teologias famosas. A teologia da prosperidade diz que a sua prosperidade nas ações é o reflexo de fazer ou não o que Deus faria. Se você fizer o que ele faria, será bem sucedido, caso contrário será fracassado. É um conceito antigo e que justifica os monarcas: na Idade Média, um acusado podia ser convocado a jurar e depois segurar um ferro em brasa. Se ele não se queimasse, então Deus estava mostrando que ele falava a verdade. A teologia da libertação diz que a função do evangelho é destruir toda desigualdade, então você faz a vontade de Deus usando suas ações contra as injustiças. Temos a teologia das manifestações, onde a sua proximidade de Deus se mostra através da demonstração de poderes super-humanos como derrubar pessoas, fazer chover ou parar a chuva, paralisar este ou aquele com uma palavra, etc. E depois vem a teologia da graça, onde você pode fazer o que quiser sempre contando com a graça gratuita e de graça de Deus. Vai longe essa lista, sem que nenhuma delas se arrisque a prever as ações de Jesus. Dizer que Jesus tomava vinho quando todo o protestantismo americano deve a sua expansão ao combate do alcoolismo pela pregação da mora e dos bons costumes, então, é sacrilégio! Enquanto você pensa no significado místico-religioso-espiritual e filosófico disso, talvez pense como eu que Ele simplesmente não era previsível.

A teologia da prosperidade (TP) naturalmente é bem aceita por quem dispõe de muitos recursos, porque os justifica. Se Deus compactuar contigo então você será bem sucedido [de preferência financeiramente]... Reclamando contra ela, espero que os "reclamantes" não estejam esperando ter sucesso em seu protesto! O que Jesus faria nesse combate de idéias? Vou arriscar um palpite teológico. Falhando e tendo Deus junto deles, os "agredidos" estarão mostrando que a TP é mentira; se a "pastorada agressora" tem sucesso e Deus junto a si, mostram que a TP é verdade. Contra qual filho Deus ficaria? Para ficar com ambos, talvez cada um consiga exatamente o que defende: de um lado a prosperidade, do outro a batalha. Como no caso dos amigos de Jó, a única verdade disso tudo é a presença de Deus, nem nessa idéia nem naquela, mas simplesmente com as pessoas. Um pai abraçando junto todos os filhos brigões.

No caso de Jó, Elifaz, Bildade e Zofar, quatro brigões dos tempos antigos, Ele simplesmente interrompeu a contenda e perguntou "Quem vocês pensam que são para dizerem o que Eu penso ?"

---------------------------------------------

¹ Roma era um reino imenso, que compreendia muitos países e ia desde as terras da Espanha até onde hoje é a Rússia, com o governo sediado na cidade de Roma e depois também em Constantinopla. Na sociedade romana havia uma distinção social bem evidente. Os "patrícios" (literalmente: da pátria), que GOZAVAM plenamente da lei romana e eram basicamente as famílias nobres da Itália; e os "plebeus" que estavam SUJEITOS à lei romana e eram pobres, mestiços ou nascidos nas províncias dominadas. Quando Roma anexava um território, primeiramente colocava o governo sob a responsabilidade de um "patrício" - no caso Pôncio Pilatos e sua família - depois produzia um governo de filhos da nobreza local levados para serem educados em Roma. Herodes era o nome/sobrenome de uma família real da Galiléia, cujos costumes e companhia do rei davam a entender que ele não recebera a educação judaica tradicional (fariseu, saduceu, essênio ou zelote), mas sim uma educação romana. Na época de Jesus, governava Herodes Antipas (20 a.C. - 39 d.C.).

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Irreality show

- Hoje eu é o dia, preciso estar muito sincero!


Nesses dias, vendo a programação na TV, percebi qu boa parte das notícias, comentários, propagandas e até seriados eram, na verdade, frutos Reality Shows acontecendo em muitos canais. Porque as pessoas gostam disso? A idéia é antiga, ela vem desde os tempos em que as pessoas apostavam em lutadores. Na TV norte-americana ela chegou nos anos 60, em forma de programas de calouros como "Jeopardy!" e "Wheel of Fortune", de forma a promover uma competição “ao vivo” entre as pessoas. Ao vivo” dá credibilidade à competição, faz a audiência acreditar que os “guerreiros” estão realmente disputando, faz as pessoas APOSTAREM nesse ou naquele, faz elas se sentirem participando de algo angustiante, com a segurança de realmente não estar lá.

Apostar é algo bem interessante. Apostar cria ansiedade e estresse, mas qualquer indicativo de ganho reforça uma sonhada capacidade das pessoas de PREVER RESULTADOS ou pelo menos JULGAR CORRETAMENTE as pessoas. Bom, evidentemente ninguém pode prever o futuro, nem ter certeza de julgamentos. Mas se aquele “guerreiro” com aparência ruim tem maus resultados, ou se aquele que parece bom moço tem sucesso, então nos sentimos os grandes conhecedores. Isso nos exalta para nós mesmos, realça a nossa natureza. Daí as pessoas apostarem em minúsculos detalhes da orelha do gado, num formato particular do peixe, nos números da loteria baseando-se nos resultados anteriores, no sorteio do bicho baseando-se num sonho, no sucesso desse ou daquele casal na televisão. Gostamos de apostar e defender nossos métodos arbitrários de conhecer o futuro. Até as igrejas brigam pelos modos que têm de aplicar o Evangelho, apostando naquilo que Jesus mais gosta. Os outros obviamente serão punidos depois!

E quão interessante é ver as ações das pessoas sem sentir na pele as conseqüências delas! Quando Jesus estava sendo julgado perante o Sinédrio, haviam muitas pessoas lá. Até Pedro foi. O Sinédrio não precisava da opinião delas, nem se importava com isso, mas elas estavam lá PARA VER. Jesus já era alguém conhecido em Jerusalém. Todos estavam curiosos sobre as conseqüências de ser Jesus, sobre os sentimentos dele, mas se alguém lhes oferecesse experimentar isso na pele, uma resposta provável seria “Não o conheço!”. Hoje, as pessoas passam horas vendo a exibição de quem morreu, qual família foi destruída, qual animal foi massacrado, quem está disputando um prêmio. “Se fosse eu, faria diferente!” Realmente parece que somos nós lá, não parece? Mas isso se trata apenas de uma fantasia. Não somos nós, os caminhos por onde Deus dirige nossos passos não é aquele, e na verdade as fantasias podem até atrair nossos olhos mais do que o mundo real.

Mas voltemos aos shows, eles continuam! São escolhidas pessoas que não se conhecem (mas que se parecem com quem observa), junta-se elas num lugar onde nenhuma delas iria ou pensa ir, suprime-se suas atividades normais (alguém ali trabalha ou fala com a família?) e impõe coisas que elas nunca fariam (ex. dormir em 15 dentro de um carro ou propagandear algum produto muitas vezes por dia), adiciona-se a famosa competição (sem competição ninguém aposta) e chamamos isso de “reallity show”, ou show-da-realidade. Mas cadê a realidade?

Do outro lado da telinha, as pessoas também fazem seu show: agem seriamente no serviço e desleixadamente em casa (ou o contrário), falam alto no ônibus e ficam silenciosas na igreja, fogem de credores e apresentam a imagem mais austera uns para os outros, arrumam a casa antes de receber um amigo, colocam roupas bonitas para “sair” mas usam roupas comuns em dias comuns na mesma rua, choram escondido as palavras que esbravejaram para alguém. O que as pessoas mostram de si umas para as outras não é a realidade: está mais para “o que as pessoas pensam que os outros gostariam de ver”, e os outros também mostram “o que eu penso que as pessoas pensam que eu gostaria de ver”. Máscara de um para combinar com a máscara do outro.

Porque fazem isso? Talvez para manipular as apostas, simplesmente - todos querem ser favoritos nas apostas dos outros. Quando expectadores e “guerreiros” se misturam, você vota a favor de um camarada bonito e interessante e vota contra um camarada feio e mal-educado. E não faz isso pensando em beneficiar ele com sua escolha, mas em parecer sábio e ter algo belo ao seu redor para iludir os olhos, mesmo que para isso você deixe o real lá fora atrás de um muro alto e cercas eletrificadas.

Nos tempos de Jesus não era diferente. Cada casta judia tinha sua forma de se enaltecer. Os fariseus seguiam cada vírgula da lei, ainda que não atentassem para o propósito dela. E a aliança com os romanos garantia que eles estavam mais certos do que os demais... Os saduceus eram bons por descenderem dos antigos levitas (2Sm 15.24). Os zelotes eram bons porque sua bravura desafiava os invasores romanos. Os essênios eram bons porque apartavam-se do mundo e seguiam o voto nazarita. Os romanos confiavam no poderio militar para garantir que seu sangue era melhor que o dos outros. Os gentios se entregavam ao Deus que desse melhores resultados, enaltecendo cada um a sua descendência de um povo divino que herdara a Terra dos pais no Olimpo. Com tanta gente boa, claro que eles disputavam espaço no paraíso [terreno]. Então chega Jesus, reconhecido como O Messias e Ele mesmo diz a todos que o Reino de Deus seria dado às crianças e aos pobres de espírito?

Jesus não tinha porque fazer apostas. Ele não estava nem um pouco iludido com sonhos de riqueza (por isso andava entre os mendicantes), autoridade sobre as pessoas (que os fariseus e romanos tinham), boa imagem pública (que os publicanos e prostitutas certamente não tinham), a santidade de profetas (João o chamou de Filho de Deus, depois mandou perguntar se era ele mesmo) ou até as promessas pessoais de seus seguidores. O jovem rico disse que não matava, não furtava, era fiel e sempre falava a verdade. “Que mais me falta?” Jesus lhe apontou seus tesouros, que não estavam junto Dele (Mt 19.16-22). Pedro disse que nunca negaria seu mestre. Jesus respondeu que ele faria isso antes do amanhecer (Mt 26.31-34). Os escribas e fariseus levaram uma culpada para que Ele a “julgasse”. Jesus a inocentou, porque os “juízes” também seriam condenados ... e daí foram embora (Jo 8.1-11). Uma mulher samaritana fracassada nos relacionamentos Lhe falou que os samaritanos eram indignos aos olhos dos judeus. Jesus era judeu e lhe disse que ela estava prestes a receber um dom divino (Jo 4.7-29). Ele podia ver sob as suas máscaras de "bom" e de "mau", sob aquilo que tentavam mostrar.

Ele sempre tentava lhes abrir os olhos com a delicadeza de parábolas que, no fim, diziam ser todos imerecedores do Seu própio Reino, e ainda assim as pessoas o seguiam. Para Ele, nada significavam as máscaras, antes era melhor que as tirassem, pois Ele mesmo era a verdade. E acrescentava que o amor de Deus era concedido apenas pela graça Dele, nada mais.

Jesus não prometeu o Reino ao mais fiel, ao melhor seguidor da Lei, ao mais austero, mais sábio ou de melhor imagem pública. Bem pelo contrário, Ele Se fez ser chamado de criminoso, mentiroso, ignorante e execrável. De todos os milhares que O seguiam, apenas e mãe e 3 outros (dos quais só 1 era dos apóstolos escolhidos) ficaram junto da cruz quando o fracasso das apostas num Messias era óbvio. Os demais partiram para outras apostas que acharam mais rentáveis. Pedro, seu braço direito, foi assistir de longe. Talvez apenas o aparecimento Dele após morto tenha garantido que homens além de João continuassem acreditando nas promessas feitas. E você acha que Ele não sabia disso?

Que tal experimentar a vida de verdade, na pele mesmo? Que tal deixar de tentar garimpar o Reino que Jesus não enterrou? Não se iluda em mostrar para si mesmo, para a igreja ou para Jesus aquilo que você não é. Talvez te faça ser bem-visto, até receber um tapinha nas costas, mas com Ele simplesmente não funciona. No fim Ele vai sentar uma criança qualquer no colo e dizer que dela, e não seu, é o Reino de Deus. Ele tomará um ignorante (possível tradução de “pobre de espírito”) e dará o reino a ele, não a você. A criança tem humildade no coração, assim como o ignorante, e nenhum dos dois fez por merecer o Reino. Ganham o que nem sequer pediram, e o Pai dá porque compraz a Ele fazer isso. Ele dá de graça, para quem nada tem a oferecer em troca, sem disputa, sem aposta, sem merecimento, sem nada forjado. Sem show algum.

Basta pedir.