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quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Ciência da fé . . . e fé na ciência


Em todas as sociedades modernas, as crenças estão mais vivas do que nunca. Mas isso não é um paradoxo, um contra-fluxo na corrente racional vitoriosa do conhecimento humano? Não se convencionou que crença e ciência não combinam, são como óleo e água? Os dogmas milenares que orientam a fé de cristãos, judeus, muçulmanos ou budistas são todos muito respeitáveis, mas em pleno século 21 não são apenas anacronismos deslocados do mundo da razão e da tecnologia? Não. A novidade é que não existe paradoxo. Existe, sim, o reconhecimento dos limites dos dois campos da percepção humana dos fenômenos naturais.

UM EMBATE ANTIGO

Extrapolando da fala de Jó ("se vou para o oriente, lá Ele não está; se vou para o ocidente, não O encontro. Quando Ele está em ação no norte, não o enxergo; quando vai para o sul, nem sombra Dele eu vejo!" Jó 23.8-9), parece que não podemos ver Deus em nosso próprio mundo... Ele precisa se manifestar de formas incabíveis e fora da nossa realidade. Assim, a Ciência e Deus foram colocados em cantos opostos da sala: cada coisa que se conhece vai para para o lado da Ciência, deixando o lado divino cada vez menos povoado. Será que Deus só prevalece na ignorância, mesmo tendo provido até a própria pessoa para nos ensinar?

Não passa um mês sem que saiam dos laboratórios explicações cabais sobre o que se pensava ser algo sobrenatural. O túnel de luz que as pessoas que estiveram em coma contam ter visto parecia misterioso e insondável. Esse túnel seria uma entrada entreaberta para a eternidade, que se deixava examinar de esguelha por alguém que estava prestes a abandonar o mundo material. Mas essa e outras experiências sensoriais que se têm à beira da morte são todas reações mensuráveis e previsíveis do cérebro humano. A revelação dos bastidores torna os mistérios da vida e da morte menos espantosos? Não. Nada. Hoje soa arrogante e tola a reação dos orgulhosos astrofísicos nos anos 80, quando os satélites mandavam para a Terra sinais que confirmavam a teoria do Big Bang, a súbita explosão original que deu origem à matéria, à energia e às leis que regem a interação entre ambas: "Agora que a física já explicou como surgiu o universo, não há mais lugar para Deus". Tem chumbo trocado: quem pode imaginar uma reação mais tosca e pedestre do que dizer que a Lua perdeu o romantismo para os namorados depois que os astronautas americanos colocaram suas botas por lá?

Claro que o núcleo duro da melhor ciência despreza a noção de Deus. A Ciência é questionadora, busca mecanismos racionais de explicar o mundo, e logicamente Deus não pode ser racional. Da mesma maneira, os metafísicos de todos os sabores e cores não enxergam utilidade alguma no método científico. O cenário atual que emana do córtex cerebral da humanidade - pelo menos da sua porção que se manifesta conectada na internet - é o de que, apesar dos avanços cada vez mais espetaculares da ciência, permanecem intactas as emoções humanas, as sensações de tremor diante do infinitamente pequeno ou do infinitamente grande. Por mais que se explique com crescente precisão como funciona o mundo natural, persiste para a maioria das pessoas a crença de que existe algo mais poderoso ainda... algo desconhecido... e [lógico!] portanto divino.

CIÊNCIA NA FÉ

Há nessa persistência, por ironia, uma explicação científica, estudada a fundo pelos cientistas. A fé, assim como as religiões criadas sobre ela, persiste por ser um componente primordial da evolução humana. Em algum momento durante a última Era do Gelo, que terminou 12000 anos atrás, o Homem desenvolveu o pensamento simbólico. Interessou-se em saber que tipo de força existia por trás dos fenômenos naturais. Começou a enterrar os mortos e a enfeitar seus túmulos com flores. No papel de única espécie capaz de antecipar a própria morte, o ser humano precisou vislumbrar entidades maiores e mais poderosas do que ele para conseguir suportar essa certeza. Muitos biólogos evolucionistas acreditam que as religiões – e tudo o que elas envolvem como instituições organizadas – surgiram como uma superadaptação do homem ao meio ambiente e prosperaram por conferir vantagens a seus praticantes. A crença no sobrenatural ajudou a convivência do grupo e, portanto, seria a gênese da civilização. O biólogo americano David Sloan Wilson, da Universidade Binghamton, autor do livro "A Catedral de Darwin: Evolução, Religião e a Natureza da Sociedade", avalia que o impulso religioso se desenvolveu cedo na história dos hominídeos porque ele ajudava a criar grupos mais coesos, em que florescia o sentimento de fraternidade e solidariedade. "A crença foi uma arma poderosa na luta contra adversários menos unidos e menos organizados", disse Wilson.  

A mais impressionante indicação de que a necessidade de cultuar um Deus está estampada na evolução humana encontra-se numa pesquisa realizada pelo biólogo molecular americano Dean Hamer, chefe do setor de estrutura genética do National Cancer Institute, e publicada em seu livro "The God Gene: How Faith is Hardwired into Our Genes" (O Gene de Deus: Como a Fé Está Embutida em Nossos Genes). Hamer afirma ter localizado no ser humano o gene responsável pela espiritualidade. Esse gene também teria a função de produzir os neurotransmissores que regulam o temperamento e o ânimo das pessoas. Segundo o livro do biólogo, as pesquisas arqueológicas e antropológicas mostram que diversos tipos de ancestrais humanos conviviam antes da Idade do Gelo, há cerca de 30 mil anos. Quando as geleiras cederam, apenas um tipo predominava, os Cro-Magnon. Eles organizavam-se em famílias, puniam o incesto, enterravam seus mortos, enfeitavam os túmulos, pintavam as paredes das cavernas por deleite estético ... e espiritual! Os sentimentos profundos de espiritualidade seriam resultado de uma descarga de elementos químicos cerebrais controlados por nosso DNA. O cientista diz que a brutal aceleração da competição por recursos escassos e a luta pela sobrevivência em condições climáticas adversas selecionaram os hominídeos de tal forma que restaram apenas aqueles que desenvolveram a capacidade de acreditar. Em quê? Acreditar que aqueles tempos duros iriam passar. Acreditar que uma força superior iria trazer de volta as temperaturas amenas. Já os religiosos enxergam nesse salto evolutivo a interferência direta de Deus nos destinos da humanidade... sem nenhuma ferramenta como DNA, cultura, etc para isso.

A concepção de que a espiritualidade está gravada no genoma humano encontra eco numa das mais antigas religiões, o budismo. Seus adeptos acreditam que todo ser humano herda uma semente espiritual da pessoa que ela foi na encarnação anterior. Essa semente se combinaria a outras duas, herdadas dos pais, para formar suas características físicas e espirituais. Estudos anteriores ao de Hamer também conduzem à noção de que a espiritualidade está entranhada nos genes. No fim dos anos 1970, numa pesquisa que se tornou célebre, cientistas da Universidade de Minnesota estudaram 53 pares de gêmeos univitelinos, ou seja, gerados do mesmo óvulo e com DNA idêntico, e 31 pares de gêmeos bivitelinos, gerados de óvulos diferentes. Todos os gêmeos haviam sido separados após o nascimento e criados a distância. Como se esperava, os gêmeos com DNA idêntico, mesmo privados da convivência mútua, apresentavam traços de personalidade, comportamento e hábitos muito semelhantes. Os gêmeos idênticos eram duas vezes mais propensos a cultivar a espiritualidade no mesmo grau de seu irmão do que os gêmeos bivitelinos. Já quando se analisava a tendência a praticar uma religião, os gêmeos idênticos apresentavam significativas diferenças entre si – sinal de que o hábito de rezar e freqüentar igrejas ou templos é adquirido culturalmente.

FÉ NA CIÊNCIA

O fato de a espiritualidade acompanhar o homem em sua evolução é, provavelmente, o motivo pelo qual o conceito de Deus surge em todas as sociedades humanas desde tempos imemoriais, mesmo entre as mais isoladas. Já o divórcio entre a fé religiosa e a ciência, que hoje se encontra na ordem do dia, é um fenômeno recente. Até o fim do século 18, a Igreja Católica, assim como se confundia com o Estado, legitimando o poder monárquico com a bênção do poder divino, andava de braços dados com a ciência.

Por exemplo, o célebre Isaac Newton (1673-1727), matemático e físico inglês criador do cálculo moderno, da lei de gravitação e com contribuições históricas na ótica, era um homem bastante religioso.  E não apenas isso: ele empregava sua ciência também na análise de temas religiosos. Recentemente, a Biblioteca Nacional de Israel apresentou ao mundo manuscritos atribuídos a Isaac Newton, nos quais ele calcula a data aproximada do apocalipse. O material traz também detalhes precisos de um antigo templo em Jerusalém e interpreta passagens da Bíblia. Em um dos manuscritos, por meio dos textos do livro de Daniel, ele chega à conclusão de que o mundo deve acabar por volta do ano de 2060. "Ele pode acabar além desta data, mas não há razão para acabar antes", escreveu. Em outro documento, o cientista interpreta as profecias que contam sobre o retorno dos judeus à Terra Prometida antes do final do mundo. Segundo ele, se verá "a ruína das nações más, o fim do choro e de todos os problemas, e o retorno dos judeus ao seu próspero reino".

O cisma (separação) ideológico entre fé e ciência começou no séc. 18 com o Iluminismo, movimento surgido na França que pregava o uso da razão para explicar o mundo e o universo. O Iluminismo desafiava o papel da religião na sociedade e propunha uma nova ordem social, na qual os interesses humanos estivessem no centro das decisões. Só no século 19, quando o inglês Charles Darwin deixou o mundo atônito com sua teoria da evolução das espécies, que negava a Criação bíblica, as divergências entre o mundo da ciência e o da religião assumiram contornos de guerra cultural. Essa guerra persiste até hoje...

Hoje se vive um equilíbrio precário entre ciência e fé. Nos Estados Unidos, apenas 3% dos cientistas mais respeitados, aqueles que pertencem aos quadros da National Academy of Sciences, acreditam em Deus. Biólogos, como o inglês Richard Dawkins, e filósofos, como o americano Daniel Dennett, escrevem livros e artigos tentando desqualificar a religião como um mal que anestesia as sociedades e as priva das virtudes da razão. Os religiosos contra-atacam ao insistir, por exemplo, que as escolas públicas americanas deixem de ensinar as teorias de Darwin e as substituam pelos ensinamentos da Bíblia. Há também personagens ilustres que tentam contemporizar, como o biólogo americano Francis Collins, que se declara cristão e diz que ciência e religião não se misturam e que se podem cultivar ambas.

COMO ANDA O PLACAR DO JOGO

O Brasil é terreno fértil também para as manifestações acessórias da espiritualidade, como superstições, manias, crença em amuletos, na astrologia e no feng shui. Esse é o território do artista que adiciona uma letra ao nome, do torcedor de futebol que veste uma camisa especial para assistir ao jogo de seu time e dos jovens que usam no pescoço pingentes religiosos. Essas manifestações não têm comprovação empírica de que funcionem, dependem puramente da fé que se deposita nelas. O sociólogo Antônio Flávio Pierucci, da Universidade de São Paulo, autor do livro "A Magia", tem uma explicação para a devoção às superstições e às manias no dias de hoje. Diz ele: "A mente humana se sente desconfortável com o acaso, ela busca explicações para todas as coisas. Daí nasceram os conceitos de sorte e de azar. Se o acaso ocorre a nosso favor, temos sorte; se ele acontece contra nós, o classificamos de azar".

Biblicamente, Fé, conforme o livro de Efésios 2.8-10, é algo que Deus colocou no ser humano ao criá-lo e que se desenvolve através do permanente relacionamento entre filho e Pai divino. Aparentemente, isso jamais poderia ser feito através de Seleção Natural, genes, neurotransmissores ou da cultura humana, precisa ser SEM EXPLICAÇÂO. Fé, de acordo com os livros de Hebreus e Tiago, "é a convicção do que não se vê" e está associado a fazer a vontade de Deus. Não é meramente uma declaração de crença em um ser superior, e sim uma atitude constante de adoração a esse Deus em que se crê como Salvador e Senhor. Conforme a Bíblia, "sem fé é impossível agradar a Deus" (Hb 11.6)... e agradar a Deus não poderia ser jamais uma questão de sobrevivência ou qualidade de vida?

NA FÉ E NA CIÊNCIA

"O que Deus fazia antes de criar o Céu e a Terra? Fazia o Inferno para os que duvidam." Essa era a resposta dos bispos católicos ao tempo de Santo Agostinho (354-430). Agostinho condenava a resposta. Qual a certa? "Deus não fazia nada." Mas como o todo-poderoso se dava ao luxo de passar o tempo fazendo nada? Agostinho: "Deus não passava o tempo fazendo nada porque o tempo não existia. Deus criou o tempo." É espantoso. Dezesseis séculos depois, as melhores cabeças científicas saíram-se com a teoria do Big Bang para explicar o surgimento do universo e tudo o que ele significa - inclusive o tempo. O físico inglês Stephen Hawking rejeita a sobreposição de ciência e religião. Em seu livro Uma Breve História do Tempo, porém, Hawking é agostiniano ao sugerir que o tempo teve começo - ou não teria uma história.

MUNDOS DISTANTES

Devido ao cisma entre ciência e religião, muita gente (hoje) até acredita que o propósito da Ciência é principalmente destruir a Fé. Na verdade, hoje observa-se que ambas trabalham em "salas distintas". A Ciência se pergunta "como as coisas funcionam" e a fé explica "o motivo de elas serem assim". A razão de ser da Fé é fazer o contato entre o Homem e Deus, atribuir significados ao mundo. A Bíblia diz que o Homem existe para servir a Deus. A Ciência se descreve o Homem.

Fundamentalmente, a ciência se ocupa de achar razões ou teorias (isto é, meios lógicos) para os fenômenos naturais. Como se sabe se uma razão ou teoria está certa? A comprovação científica ocorre com o tempo, não é imediata: Albert Einstein construiu a teoria da relatividade nos anos de 1900 para explicar deformações da trajetória da luz, mas as evidências só apareceram nos anos de 1950. Além disso, uma "verdade científica" precisa extrapolar o fenômeno e prever outros eventos, ainda não observados. No caso de Einstein, sua teoria se ajustou perfeitamente (nas descrições e nas medidas) a observações feitas sobre a radioatividade, muitos anos depois. Newton explicou a forma como os corpos caem na Terra, mas ele mesmo percebeu que sua teoria era capaz de explicar os movimentos da Lua, dos planetas e até de galáxias inteiras.

A Fé por outro lado afirma que há causas não previsíveis para os fenômenos, resultado da intenção ou vontade de seres espirituais. E ela não se propõe a explicar fenômenos. Pela Fé, as profecias feitas no Antigo Testamento seriam ainda esperadas e os ensinamentos colocados na Bíblia não são fruto de observações do passado, mas destinados a tempos futuros, que o próprio autor desconhecia. A Ciência simplesmente não obtém medidas dessas entidades, então não as inclui em suas teorias (pelo menos desde o séc. 18), descrevendo e fazendo previsões acerca do MUNDO OBSERVÁVEL. Cientificamente, nem haverá como contestar a imensa maioria das coisas na Bíblia, a menos que alguém obtenha medidas de Deus ou dos anjos. Como provar que uma profecia não irá se cumprir? Como provar que um morto não ressuscitou ou que cegos não foram curados?

Alguns pesquisadores entretanto ainda se agarram aos temas bíblicos. Afinal, muito do que a Bíblia diz que existiu teria deixado resquícios. E, curiosamente, nesse ponto Ciência e Fé têm andado bastante amigas. Por exemplo, recentemente postamos aqui uma investigação sobre o local onde teria estado o Éden bíblico. As evidências apontam que tal lugar de fato existiu (mas não o prova), ainda que seu significado extrapole as poucas linhas sobre ele no Gênesis (Gn 2.8-15). Há indícios científicos fortes de que o Dilúvio narrado (Gn 7.10 - 8.14) equivale a uma grandiosa inundação no Oriente Médio em tempos remotos, mas que nunca existiu na Terra água suficiente para cobrir toda a superfície e, pior ainda, o topo das montanhas mais altas. Os mais ferrenhos dirão simplesmente, "é fé!". Outros porém, se perguntam o que Noé e sua família conheciam por mundo...

Ainda que a Fé seja explicável por genes, neurotransmissores e áreas cerebrais, isso a desbanca? É preciso que seja inexplicável para ter relação com o divino?

MITOS DO ALÉM, SEGUNDO A CIÊNCIA

Por curiosidade ou necessidade imanente de desbancar explicações fantasiosas, alguns cientistas se debruçam sobre fenômenos aos quais a religião também se dedica. Não havendo provas, não significa que é fé. Fantasias e mentiras também são carentes de provas... O que a ciência nomeia de  sonambulismo  ou esquizofrenia e trata com medicamentos antipsicóticos já foi chamado de possessão demoníaca ou ainda de xamanismo. Mas a Bíblia indica o que seria um transtorno mental? Não, e repare que também não há provas científicas contra a possessão demoníaca; há apenas a comprovação de que, em muitos casos, o diagnóstico religioso está muito errado. Nos tempos em que a religião era a única prática curativa, esse embate talvez fosse mais ferrenho.

Sempre há espaço para pesquisar curas e revelações divinas e, como mostrado acima, a própria FÉ é objeto da ciência. Aqui seguem algumas explicações de fenômenos (extrabíblicos, entenda-se bem) ligados a diversas religiosidades e para os quais há explicações científicas coerente. Ainda que essas não possam invalidar as estórias contadas...

QUASE MORTE - relatos que alimentam mitos e interpretações místicas, são feitos por pessoas dadas como mortas mas que, de modo espontâneo ou com a ajuda da medicina, voltaram à vida. Muitas se referem a túneis de luz ou à sensação de flutuar no ar, de modo a ver do alto o próprio corpo.

Enquanto fazia exames numa paciente epilética, o neurologista suíço Olaf Blanke, do Hospital Universitário de Genebra, descobriu que a estimulação de determinada área do cérebro provocava na paciente a sensação de abandonar o próprio corpo e flutuar pela sala. O ponto em questão é o giro angular direito, parte do cérebro localizada no lobo parietal. Essa região é responsável pela percepção espacial que se tem do próprio corpo e do ambiente em torno. Ao estimular o giro angular com pequenas descargas elétricas, Blanke afetou a forma como o cérebro da paciente decodificava a percepção do espaço e dela própria, quebrando a unidade que existe entre o eu e o corpo. Dessa maneira, a paciente se sentia como se estivesse a flutuar no teto, enquanto seu corpo permanecia na cama.

SENTIR A PRESENÇA DE ESPÍRITOS - comportamento de pessoas em êxtase religioso, sob a ação de alucinógenos e também visto comumente em esquizofrênicos paranóides ou catatônicos. Ao estimular com eletrodos o giro angular esquerdo de uma paciente, Olaf Blanke percebeu que ela virava a cabeça como se procurasse alguém dentro da sala. "Quando se desligava a corrente elétrica, a presença estranha sumia". Para o neurologista, o estímulo no giro angular esquerdo criou uma disfunção no circuito neural que levou a paciente à ilusão de uma projeção "torta" do próprio corpo, que ela interpretou como um fantasma. 

LUZ NO FIM DO TÚNEL - depois de ser ressuscitado, o doente conta ter visto um túnel com uma intensa luz na outra ponta. A neurocientista Susan Blackmore, da Universidade do Oeste da Inglaterra, em Bristol, atribui o relato à ilusão provocada pela falta de oxigênio no cérebro, típica de uma parada cardíaca. As células do córtex visual responsáveis pela visão central são mais numerosas que as da visão periférica e, por isso, vêem a imagem com maior brilho. Para a cientista, essa diferença de luminosidade causa a impressão de existir um túnel com luz intensa no seu final. "É algo puramente biológico que as pessoas tendem a ver como místico" - disse Susan - "Drogas como LSD, quetamina e mescalina podem produzir o mesmo efeito em algumas pessoas."

CORPO PARALISADO AO DESPERTAR - quando atingimos o estado de sono profundo, ocorre uma mudança química nas regiões do cérebro responsáveis pela atividade muscular. O objetivo é paralisar os músculos para evitar que os movimentos dos sonhos sejam reproduzidos na vida real. Algumas pessoas acabam despertando durante esse período, com os músculos ainda paralisados. "A sensação é desesperadora e a pessoa sente dificuldade para respirar. Não é incomum ela associar esse evento a experiências espirituais, místicas, demoníacas e até mesmo a encontros com aliens", explica Susan Blackmore. 

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PODE LER QUE A GENTE DEIXA. SE ELES DEIXARAM...

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Deus NÃO é avô

Cena famosa de "O Grande Ditador",
onde Chaplin brinca com uma bola representando o mundo

Segue um texto de Jason A. Van Bemmel, depois de carcomido e remexido em tonel de carvalho centenário. Impresso, ele pode virar um lindo guardanapo.

"Certamente que os homens de classe baixa são vaidade, e os homens de ordem elevada são mentira; pesados em balanças, eles juntos são mais leves do que o vento. Não confieis na opressão, nem vos ensoberbeçais na rapina; se as vossas riquezas aumentam, não ponhais nelas o coração. Deus falou uma vez; duas coisas aprendi: que o poder pertence a Deus; a Ti também, Senhor, pertence a misericórdia; pois retribuirás a cada um segundo a sua obra." (Sl 62.9-12)

Você se lembra de quando descobriu que seu pai não era todo-poderoso? Quando era menino, eu realmente achava que meu pai podia fazer qualquer coisa. Meu pai é bastante habilidoso e grande (mais de 1,98 m), e para um garoto de 6 anos, ele se parecia com o Super Homem. No entanto, como todos vocês, eu tive que enfrentar a dura e lenta constatação de que meu pai não era, de fato, onipotente, até que, quando adolescente, passei a imaginar se o meu pai podia realmente fazer alguma coisa certa. O superman ficou mais velho!

Algumas pessoas (mesmo aquelas que se intitulam "cristãs") acham que as nossas típicas experiências da infância com nossos pais terrenos é um modelo para aquilo que deve acontecer em relação a nossa visão de Deus ao longo do tempo, à medida que amadurecemos em nossa fé. As crises e os conflitos vêm, razão pela qual devemos ver que um mundo cheio de maldade é incompatível com um Deus todo-poderoso e completamente bom. Uma vez que todos nós acreditamos que Deus é bom, devemos então abandonar a idéia de que Deus é todo-poderoso em favor de um Deus que se parece muito mais como nossos pais limitados e falíveis.

Entretanto, a Bíblia não nos dá qualquer espaço para uma visão tão pálida de Deus. Bom ao contrário, na verdade, Escritura após Escritura, Deus brilha com esplendor como o grande e glorioso Rei do Universo. "Porque para Deus não haverá impossíveis", a Bíblia proclama corajosamente e repetidas vezes (ver Lc 1.37 e Mc 10.27). "Eis que a mão do SENHOR não está encolhida, para que não possa salvar”, Deus relembra o seu povo duvidoso em Isaías 59. "Ninguém há como o SENHOR, nosso Deus”, nos é dito repetidas vezes. E a Bíblia explica exatamente o que isso significa: "Ninguém é como Deus em majestade, em santidade, na soberania e na fidelidade dos pactos (mantendo suas promessas absolutamente)".

DOIS ENCONTROS COM A SOBERANIA

Uma forma de analisar a soberania absoluta de Deus é através dos olhos de duas pessoas que estiveram cara a cara com Ele de maneiras diferentes: Jó e Nabucodonosor. Jó era um homem [de Deus] justo, que viu a soberania de Deus em ação nos seus momentos de provações. Nabucodonosor foi um imperador  [também de Deus] orgulhoso que aprendeu a lição da soberania de Deus da maneira mais difícil, por ser destituído de seu poder e de sua sanidade por Deus.

Imagine ser tão fiel a Deus a ponto de Deus perceber e começar a se gabar de você. Deus estava tão orgulhoso da justiça de Jó que Ele se gabou de Jó com Satanás. Em resposta à aprovação de Deus sobre Jó, Satanás fez um trato com Deus e conseguiu permissão para testá-lo severamente. Contudo, não perca o ponto aqui: Satanás teve que obter autorização de Deus antes que pudesse tocar em Jó. Deus está no controle, inclusive das atividades de Satanás contra o Seu povo.

No ponto mais profundo de seu desespero, Jó desejou nunca ter nascido e questionou as razões de Deus por enviar tais provações à sua vida. Embora Jó nunca tenha pecado contra Deus em acusá-Lo de injustiça, ele quis saber dos motivos que Deus teria para prová-lo de forma tão severa (de uma forma que pareceu a Jó como uma severa punição). Jó não entendia porque seus filhos morreram, porque perdeu toda a sua riqueza ou porque seu corpo estava coberto de chagas. Ele não tinha respostas, e seus amigos foram de pouca ajuda, mas ele sabia que a mão de Deus devia estar por trás daquelas suas horas escuras. E ele estava certo.

Sobre as perguntas de Jó, Deus proferiu suas próprias perguntas. Em uma furiosa tempestade, a voz de Deus surge para desafiar Jó e para relembrá-lo de quem é quem no universo. “Onde estavas tu", Deus começou, "quando eu lançava os fundamentos da terra?" Em outras palavras: "Quem exatamente você pensa que é para questionar Deus?”.

No final das contas, a resposta de Jó a Deus foi simples, profunda e a única verdade que todos nós precisamos saber, em última análise: "Bem sei que tudo podes, e nenhum dos Teus planos pode ser frustrado. Eu Te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos Te vêem. Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza.” (Jó 42). Jó tinha aprendido que Deus era Deus, e isso foi o bastante para ele.

Ao contrário de Jó, Nabucodonosor não era um servo de Deus, justo e humilde. Na verdade, ele era um governante arrogante que construiu um ídolo de 27 metros de si mesmo e ordenou que todos se curvassem e o adorassem. Ele se achou merecedor do lugar de Deus. No entanto, este pecador só precisava, tanto quanto o justo servo de Deus, saber a verdade sobre quem realmente estava no trono e era digno de adoração. Então Deus deu ao Rei Nabucodonosor um sonho.

No sonho, tal como interpretado por Daniel, Nabucodonosor soube que ele estaria, em breve, despojado de toda a sua dignidade e sanidade, e iria viver como um animal selvagem no deserto. Nabucodonosor, havia se tornado orgulhoso e achava que sozinho era responsável pelo grande reino que havia construído. Ao olhar para fora sobre a gloriosa Babilônia, ele proclamou: "Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei para a casa real, com o meu grandioso poder e para a glória da minha majestade?” (Dn 4.30). Bem contrariamente a isso, o Salmo 62 fecha com a máxima "retribuirás a cada um segundo a sua obra"... Você pode trabalhar, pode investir tempo e poder, mas o resultado será DADO a você pelo Senhor. Sempre é Ele quem comanda.

Depois que Deus humilhou Nabucodonosor, seu coração foi mudado e ele reconheceu que somente Deus é soberano sobre as questões das nações. Nabucodonosor proclamou:

Pois seu domínio é sempiterno, e cujo reino é de geração em geração. Todos os moradores da terra são por Ele reputados em nada; e, segundo a Sua vontade, Ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem Lhe possa deter a mão, nem Lhe dizer: Que fazes?” (Dn 4.34-35)

Através da vida e exemplo de Jó, aprendemos que Deus é soberano sobre o nosso sofrimento. Todo sofrimento vem da mão de Deus e serve aos Seus propósitos últimos, embora o sofrimento possa vir através de uma variedade de causas secundárias (doença, desastres naturais, opressão demoníaca, pecado, etc.). Através da vida e exemplo de Nabucodonosor, aprendemos que Deus também é soberano sobre as nações e os governantes do mundo. Ele levanta reis e presidentes e os usa para a Sua vontade, muitas vezes para abençoar uma nação e, muitas vezes para trazer juízo e destruição. Mais uma vez, Deus usa as causas secundárias (eleições, revoluções, etc.), mas a mão por trás de tudo isso é a Sua, e a Sua somente.

SOBERANO SOBRE TUDO

A completa soberania de Deus sobre todas as coisas é um dos principais temas da Bíblia. Repetida em toda Escritura, ela é ensinada explicitamente em vários lugares, em vários tempos e repetida em exemplos. Quando os homens chegaram a Jesus e pediram sinais dos céus, Ele realmente deve ter pensado "mais ainda?". "Uma geração má e adúltera pede um sinal, e nenhum sinal lhe será dado, senão o sinal do profeta Jonas" (Mt 16.4), isto é, o INEXPLICÁVEL fato de ainda estarem vivos. Algumas vezes a mão de Deus é mais visível e algumas vezes mais escondida. No entanto, Sua mão está sempre atuando e Sua vontade é sempre realizada. Na verdade, toda a história da Bíblia é a história da atividade soberana de Deus no mundo.

Em Gênesis, Deus ensina que é soberano sobre a criação, sobre o julgamento (vide o Dilúvio, Babel, Sodoma e Gomorra) e a eleição (a chamada de Abraão, a escolha de Jacó sobre Esaú).  Em Êxodo Ele mostra que é soberano sobre a libertação do seu povo e atenta até para seus padrões morais (os 10 Mandamentos). Em Levítico e Números, Deus mostra soberania sobre a organização do seu povo e sobre a adoração corporativa. Em Deuteronômio, Ele enfatiza Seu direito absoluto para abençoar e amaldiçoar conforme os padrões da Sua aliança, ou do Seu Pacto na Lei. Com Josué, Deus ensina sua soberania nas vitórias improváveis e derrotas "misteriosas" do Seu povo (a batalha em Ai). Em Juízes, Ele mostra o poder e o controle sobre a opressão e livramento do Seu povo, que teimava em não ser Seu! Em Ruth, Ele nos ensina a soberania sobre os estrangeiros e evoca a linhagem do Messias no local mais improvável! Os livros de Samuel, Reis e Crônicas mostram a mão de Deus continuamente construindo a história de Israel, para abençoar e amaldiçoar como Ele prometeu fazer em Deuteronômio... E assim segue pelos profetas avisados de cataclismas, invasões, guerras, salvadores do Egito ou salvos de leões, avisando reis intransigentes de sua loucura presente ou futura, com Jesus ensinando sobre um Reino acima dos homens, um soldado romano de repente pregando o Evangelho por todo o mundo e até as revelações de João em Apocalipse.

Assim como Ezequiel, João se assustou ao ter descortinado perante si o plano de Deus já feito... e em pleno andamento! Quem poderá deter a Sua mão?

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O evangelho dos desconstrutores


Texto original furtado copiosamente do Ministério Sementes de Cristo. Mantenha sigilo.

2Tm 3.1-5Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos. Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te. 

O amor que temos por nós mesmos é uma de nossas causas de impedimento para amarmos ao próximo e a Deus. Todo o pecado procede do amor egoísta que temos por nós mesmos. Não que esse amor seja de todo ruim: Jesus mandou que amássemos ao próximo como a nós mesmos, sem excluir nenhum dos dois. Mas quando reforçamos o amor a nós mesmos, somos recompensados de forma previsível, o que é ser recompensado DUAS vezes; uma pela recompensa do amor que nos protege, outra porque essa ação diz que somos SENHORES de nós mesmos. Amar ao próximo, por outro lado, não traz recompensa. Se traz, é um "amor com anzol", que na verdade é amor a nós mesmos. Amar ao outro só por ele mesmo só pode ser recompensado por Deus. Isso exige nossa fé, e o nosso EU não é lá dos melhores, que se satisfaça com a fé.

Quando seguimos a Jesus e andamos com Ele, deixamos de lado o amor próprio e passamos a amar ao outro, ai passamos a amar a Deus. Nossos objetivos não existem mais e passamos apenas a termos como objetivo salvar vidas e almas, anunciando a Jesus o Salvador, falando de seu amor e demonstrando este amor. Simplificando, não complicando ainda mais a vida das pessoas.

Jesus certa vez contou que aquele que se exalta SERÁ humilhado. Em seguida olhou os fariseus e os acusou de fechar o Reino dos Céus aos homens e a si mesmos em suas complicações, que só desviam os homens da vontade de Deus acerca do amor e santidade (Mt 23.12-13).

NÃO NOS CABE SER ACUSADORES, mas sim restauradores de pessoas. Jesus não veio acusar ou punir, mas sim ensinar e remediar. Certamente não podemos resolver todos os problemas do mundo, mas precisamos fazer a nossa parte com fé que Jesus fará a Dele, transformando os corações e os convertendo em amor. O amor Dele é grande e inexaurível, grande o suficiente para contaminar as pessoas para que deixem de amar a si mesmo para amar ao outro, se alegrar com a alegria do outro e chorar com a tristeza do outro. Nossos problemas, ainda que sejam problemas, ficam em segundo plano SE passamos a tentar a ajudar a que o próximo resolva o seu com Cristo.

Loucura? Sim, Ele mesmo anunciou que o seu ministério seria chamado loucura perante os homens.

Nossas angustias somem, porque damos ânimo a angustiados. Ele nos convocou a essa tarefa. Nossas verdades desaparecem, para que a verdade da palavra Dele brilhe diante dos olhos do próximo. Nossos desejos são satisfazer desejos, nossas ações são para edificar e não destruir. Nossos passos são pequenos, mas caminham numa única direção. Não construímos barreiras: nós destruímos muros.

Não somos fortes, porque na nossa fraqueza é que somos sólidos em Cristo. Tentamos ser firmes, mais vacilamos e nos arrependemos, por não sermos consumidos em nossas falhas, mais agradecidos pela misericórdia derramada.

O amor próprio é o que o mundo ensina e cobra. Mas esse amor próprio nos destrói e nos afasta de Deus. Por nos amarmos, ACHAMOS QUE SOMOS MERECEDORES DE ALGUMA COISA. Não somos! Achamos que somos justos. E nem passamos perto de saber o que é justiça! Achamos que podemos agradar a Deus e achamos que o decepcionamos. Sempre buscamos os nossos interesses e furamos fila, deixando os interesses dos outros para depois. Primeiro eu, depois eu, depois eu e aí QUEM SABE os outros. Se aparecer algo bom, “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Egoísmo... Somos muito egoístas e ainda achamos que somos amantes de Deus e do próximo. PODEMOS CONQUISTAR O AMOR DELE  SE NÃO TEMOS SEQUER O NOSSO AMOR?

Quem somos? Nada somos sem o Espírito de Deus em nós! Portanto devemos nos deixar sermos guiados e pendermos para o lado do vento que vem dos céus. Soprado do trono do Rei, que nos dá animo e nos impulsiona a praticarmos as boas obras.

Por isto somos apenas pó. Mais quando o nosso Rei Jesus dá ordem, a poeira do pó se junta e se cola e dá liga, então participamos do corpo de Cristo e ninguém pode ser contra nós, por que o Rei está agindo através de nós. E o Rei só age através de nós, se estivermos dispostos a amar como Ele nos amou. Ai podemos dizer que, em nós também está consumado, pois já não vivemos em nós mesmos mais Cristo em nós vive.

Somos diferentes, mais o amor nos une e por isto sabemos respeitar as nossas diferenças que convergem para o que é perfeito. Em Cristo. Somos moldados até que tenhamos nos tornado sem mácula, quando nos deixamos ser lavados pelo sangue do cordeiro então, por meio de água e pela palavra estamos prontos para adentrar ao reino que nos está preparado desde a fundação do mundo. Pois foi nos dada uma marca que é Cristo. E não é uma marca para vermos, mas para mostrarmos aos demais. Essa marca não nos pode ser tirada, ainda que tentem arrancá-la, ela não sai, porque nada pode nos separar do amor que está Nele.

Obrigado meu Rei, por me amar primeiro para que eu soubesse que o amor é bom e poderoso.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Ser ou crescer, eis a questão


Ser "nascido de Deus" significa que uma semente  foi colocada em nós, um princípio da vida eterna. Essa é a doutrina que, como indiquei num estudo anterior, torna completamente IMPOSSÍVEL aceitar o ensino acerca do "Deixe correr e deixe com Deus". É-nos dito que, porque esta semente da nova vida está em nós, não podemos continuarem pecado. A verdade é afirmada categoricamente. É-nos dito que nada podemos fazer, senão entregar-nos ao Senhor. Temos de compreender que Ele colocou um princípio de vida, uma semente, em nós, e que não podemos continuar praticando o pecado porque a semente está em nós; quer dizer, somos nascidos de Deus. Este princípio de vida que Ele colocou em nós tem poder, tem força, muda tudo (e muda mesmo?).

Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. (2 Coríntios 5.17).

Aquela outra idéia segundo a qual o cristão permanece sendo o que sempre foi, mas agora repousa no poder de Deus - idéia colocada nos termos da ilustração do atiçador de chama* - é também uma negação deste ensino acerca da semente. O cristão não é simplesmente alguém que tomou uma decisão, que decidiu seguir a Cristo e fazer isso ou aquilo. Ele o faz, porém o que o leva a fazê-lo é que esta semente da vida eterna foi colocada nele, que ele é nascido de Deus. Há nesse homem algo que é maior do que o homem todo, e este é o novo princípio que vai governar a totalidade da sua vida. Posto que é assim, ele não pode continuar vivendo como vivia. Diz a Bíblia que a princípio ele é apenas um bebê, uma criança, em Cristo. Portanto, surge a questão: como esse bebê pode crescer, como essa criança pode desenvolver-se? Ou, coloquemos a interrogação noutra forma - como é que este princípio de vida, poder e vigor pode ser alimentado, nutrido e desenvolvido e assim fortalecer-se cada vez mais?

A melhor maneira de responder essa pergunta é seguir a linha da analogia sugerida pela terminologia utilizada nas Escrituras. A necessidade óbvia é de comida e bebida. De que é que o bebê recém-nascido necessita acima de tudo? Alimento e água. Necessita de nutrição. Se o bebê há de desenvolver-se, vindo a ser criança, adolescente, homem, precisa de sustento. O bebê recém-nascido é dependente e fraco, e nada pode fazer em seu próprio benefício. Mas virá o dia em que ele terá força, vigor e poder, e será capaz de fazer coisas para si e para outros. O alimento e a água produzem esta mudança. Na vida cristã é exatamente a mesma coisa; e este é um modo como nos tornamos fortes "no Senhor e na força do seu poder".

Como cristãos, recebemos força e poder da semente da vida que é colocada em nós. Todavia a semente terá que crescer e desenvolver-se, e nós temos que tomar medidas, providenciando para que a vida de Deus a nós dada cresça, se desenvolva e constantemente seja cada vez mais forte.

Para mostrar como isso acontece, devemos resumir o ensino que trata deste problema em quase toda parte da Bíblia. Começo falando de comida e bebida porque estas vêm em primeiro lugar. Como as obtemos? O nosso Senhor responde pessoalmente em Jo 6.35:

Aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede". Comida e bebida satisfazem a fome e a sede.

Em Cristo as encontramos, indo a Ele, e perseverando em ir a Ele. "Aquele que vem" - que persevera em vir a Mim - "não terá fome, e quem crê" - quem persevera em crer -"nunca terá sede." No mesmo capítulo, no versículo 53, lemos:

Jesus pois lhes disse: na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo (ou por causa do) Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim.

Aí temos ensino profundo e místico. Certos ouvintes reagiram e disseram: "Duro é este discurso; quem o pode ouvir?" "Do que é que Ele está falando? Como nos pode dar este a sua carne a comer?". Tropeçaram nisso. Na verdade, a passagem nos diz que "muitos dos seus discípulos tornaram para trás, e já não andavam com ele". Não puderam entender as palavras do Senhor e, na verdade, ofenderam-se com elas.

Portanto, estas palavras chegam a nós como uma prova. A nossa reação a estas palavras proclama exatamente o que somos e onde estamos. Nada mais glorioso e maravilhoso jamais foi oferecido aos seres humanos e, todavia, é possível às pessoas rejeitar a mensagem e ter profunda aversão por ela. Parecia que todos O estavam abandonando, pelo que o nosso Senhor voltou-Se para os discípulos e disse: "Quereis vós também retirar-vos?" Pedro, sem entender plenamente o que estava falando, disse: "Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. E nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho de Deus".

Então, que quer dizer isso? Diz o nosso Senhor que as Suas palavras são espírito, não carne. Ele não está falando de coisas materiais. Está falando de maneira espiritual. Ele está utilizando uma analogia aqui. O que Ele quer dizer, e diz, é: o Pai Me enviou, e Eu vivo por causa do Pai. Vivo pelo Pai, e recebo Minha força, Minha nutrição e Meu poder do Pai. Isto faz parte do que a encarnação envolve. Jesus não tinha deixado de ser o Filho de Deus, mas tinha assumido a natureza humana. Agora estava vivendo a Sua vida como homem, com a natureza humana. Não estava vivendo em termos da Sua divindade; esta continuava nEle, porém Ele não vivia por ela. Estava vivendo uma vida de completa dependência do Seu Pai. Por isso orava com tanta regularidade. Diz Ele: Eu vivo pelo Pai; isto é, do Pai Eu retiro a Minha força, a Minha nutrição, tudo que é Meu. E Ele diz que, de igual maneira, o homem que verdadeiramente crê em Mim, vive por causa de Mim.

Ele Se expressa em termos de comer Sua carne e beber Seu sangue; o que realmente significa assumi-Lo como Senhor, crer nEle como Ele é em toda a Sua plenitude, e daí por diante viver uma vida determinada, dirigida e governada por esta fé nEle, por esta rendição a Ele, por esta confiança nEle e na força do Seu poder. O Senhor fala disso dramaticamente, naqueles termos, a fim de que possamos ver que se trata de algo que eu e você temos de fazer de maneira total e completa. Não basta que digamos: "Sim, eu creio no Senhor Jesus Cristo, cri nEle num dado momento e, desde aquele momento, tenho sido sempre cristão".

A verdadeira fé em Cristo leva a "comer a carne e beber o sangue", quer dizer, realmente comer e beber, mastigar, engolir, assimilar, fazer disso uma parte do seu ser, compreendendo que Ele é o seu Pão da vida. "Eu sou o pão da vida", diz Ele. Ele Se contrasta com o maná do deserto, que era apenas um tipo e uma figura - algo dado para manter o bem estar físico - e, contudo, um grandioso tipo do que Ele ia fazer quando viesse. "Eu sou o pão da vida... se alguém comer deste pão, viverá para sempre", diz Ele. Todo aquele que comer de Mim jamais morrerá, neste sentido espiritual, porque está recebendo vida, torna-se "participante da natureza divina", alimenta-se de um maná celestial. Ele está se alimentando de Mim, está vivendo em Mim, está vivendo por Mim, está vivendo porque Eu Sou o que Sou e realizei a obra que o Pai Me deu.

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* Não tenho idéia do que o autor se referia ao fazer essa analogia, nem pude encontrá-la noutro lugar. Se alguém souber, por favor escreva!

Texto modificado um tantinho só (supostamente para melhor) do texto de D. Martyn Lloyd-Jones em http://www.martynlloyd-jones.com/2010/07/uma-semente-d-martyn-lloyd-jones.html.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Aculturados?


texto de Augustus Nicodemus Lopes

O relacionamento dos cristãos com a cultura na qual estão inseridos sempre representou um grande desafio para eles. Opções como amoldar-se, rejeitar a cultura, idolatrá-la ou tentar redimi-la têm encontrado adeptos em todo lugar e época. Em nosso país, com uma cultura tão rica, variada e envolvente, o desafio parece ainda maior nos dias atuais. Como aqueles que crêem em Jesus Cristo e adotam os valores bíblicos quanto à família, trabalho, lazer, conhecimento e as pessoas em geral podem se relacionar com esta cultura (dentro da qual foram criados)?

Existem muitas definições disponíveis e parecidas de cultura. No geral, define-se como o conjunto de valores, crenças e práticas de uma sociedade em particular, que inclui artes, religião, ética, costumes, maneira de ser, divertir-se, organizar-se, etc. Os cristãos acrescentam um item a mais a qualquer definição de cultura, que é a sua contaminação. Não existe cultura neutra, isenta, pura e inocente. [Nem mesmo a tal "cultura de igreja", ou pior, a "cultura gospel"] Ela reflete a situação moral e espiritual das pessoas que a compõem, ou seja, uma mistura de coisas boas decorrentes da imagem de Deus no ser humano e da graça comum, e coisas pecaminosas resultantes da depravação e corrupção do coração humano. Toda cultura, portanto, por mais civilizada que seja, traz valores pecaminosos, crenças equivocadas, práticas iníquas que se refletem na arte, música, literatura, cinema, religiões, costumes e tudo mais que a compõe.

Deste ponto de vista, a definição de cultura é bem próxima à definição que a Bíblia dá de "mundo," a saber, aquele sistema de valores, crenças, práticas e a maneira de viver das pessoas sem Deus. Poderíamos dizer que “mundo” compreende os traços da cultura humana que refletem a sua decadência moral e espiritual e seu antagonismo contra Deus. De acordo com o apóstolo João, as paixões carnais, a cobiça e a arrogância do homem marcam o mundo. Como tal, o mundo é frontalmente inimigo de Deus e os cristãos não devem amá-lo:

1João 2:15-16 - Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo.

Tiago vai na mesma linha:

Tiago 4:4 - Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.

Escrevendo aos romanos, Paulo os orienta a não se moldarem ao presente século - um conceito escatológico do mundo presente, debaixo da lei e do pecado e caminhando para seu fim:

Romanos 12:2 - E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.

O próprio Jesus ensinou que o mundo o odeia e odeia aqueles que são seus dicípulos, pois não são do mundo:

João 15:18-19Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia.

Não é de se estranhar, portanto, que aqueles cristãos que levam a Bíblia a sério sempre tiveram uma atitude, no mínimo, cautelosa em relação à cultura, por perceberem nela traços da corrupção humana - ou seja, do mundo.

Ao mesmo tempo em que a Bíblia define o mundo de maneira negativa, ela admite que existem coisas boas na sociedade em decorrência do homem ainda manter a imagem de Deus – em que pese a Queda – e em decorrência de Deus agir na humanidade em geral de maneira graciosa. Deus concede às pessoas, sendo elas cristãs ou não, capacidade, habilidades, perspicácia, criatividade, talentos naturais para as artes em geral, para a música – enfim, aquilo que chamamos de graça comum. É interessante que os primeiros instrumentos musicais mencionados na Bíblia aparecem no contexto da descendência de Caim (Gênesis 4:21) bem como os primeiros ferreiros (4:22) e fazedores de tendas (4:20). Paulo conhecia e citou vários autores da sua época, que certamente não eram cristãos (Epimênides, Tt 1:12; Menander, 1Cor 15:32; Aratus, Atos 17:28). Jesus participou de festas de casamento (João 2) e Paulo não desencorajou os crentes de Corinto a participar de refeições com seus amigos pagãos, a não ser em alguns casos de consciência (1Co 10:27-28).

Portanto, a grande questão sempre foi aquela do limite – onde eu risco a linha de separação? Até que ponto os cristãos podem desfrutar deste mundo, até onde podem se amoldar à cultura deste mundo e fazer parte dela?

Dá para ver porque ao longo da história a Igreja cristã foi considerada algumas vezes como obscurantista, reacionária, um gueto contra-cultural. Nem sempre os seus inimigos perceberam que os cristãos, boa parte do tempo, estavam reagindo ao mundo, àquilo que existe de pecaminoso na cultura, e não à cultura em si. Quando missionários cristãos lutam contra a prática indígena de matar crianças, eles não estão querendo acabar com a cultura dos índios, mas redimi-la dos traços que o pecado deixou nela. Eles estão lutando contra o mundo. Quando cristãos criticam Darwin, não estão necessariamente deixando de reconhecer sua contribuição para nosso conhecimento dos processos naturais, mas estão se posicionando contra a filosofia naturalista que controlou seu pensamento. Quando torcem o nariz para Jacques Derrida, não estão negando sua correta percepção das ambigüidades na linguagem, mas sua conclusão de que não existe sentido num texto. Gosto de Jorge Amado, mas abomino seu gosto pela pornografia.

Por ignorarem ou desprezarem a presença contaminadora do mundo na cultura é que alguns evangélicos identificam a cultura como a expressão mais pura e autêntica da humanidade. Assim, atenuam – e até negam – a diferença entre graça comum e graça salvadora, entre revelação natural e revelação especial. Evangelizar não é mais chamar as pessoas ao arrependimento de seus pecados – refletidos inclusive em suas produções culturais, poéticas, artísticas e musicais – mas em afirmar a cultura dos povos em todos os seus aspectos. O Reino de Deus é identificado com a cultura. Não há espaço para transformação, redenção, mudança e transformação – fazê-lo seria mexer com a identidade cultural dos povos, a sua maneira de ser e existir, algo que com certeza deixaria antropólogos de cabelo em pé.

A contextualização sempre foi um desafio para os missionários e teólogos cristãos. De que maneira apresentar e viver o Evangelho em diferentes culturas? Pessoalmente, acredito que há princípios universais que transcendem as culturas. Eles são verdadeiros em qualquer lugar e em qualquer época. Adultério, por exemplo, é sempre adultério. Pregar o Evangelho numa cultura onde o adultério é visto como normal significa identificá-lo como pecado e lutar contra ele, buscando redimir os adúlteros e adúlteras e restaurar os padrões bíblicos do casamento e da família. Enfim, redimir e transformar a cultura, fazê-la refletir os princípios do Reino de Deus.

Nem sempre isto é fácil e possível de se fazer rapidamente. Missionários às tribos africanas onde a poligamia é vista como normal que o digam. O caminho possível tem sido tolerar a poligamia dos primeiros convertidos, para não causar um problema social grave com a despedida das esposas. Mas à segunda geração já é ensinada o padrão bíblico da monogamia.

É preciso reconhecer que nem sempre os cristãos conseguiram perceber a distinção entre mundo e cultura. Historicamente, grupos cristãos têm sido contra a ciência, a arte, a música e a literatura em geral, sem fazer qualquer distinção. Todavia, estes grupos fundamentalistas não representam a postura cristã para com a cultura e nem refletem o ensino bíblico quanto ao assunto. Os reformados, em particular, caracteristicamente sempre se mostraram sensíveis às artes e viam nelas uma manifestação da graça comum de Deus à humanidade. Apreciavam a pintura, a música, a poesia e a literatura. Entre eles, temos os puritanos. Cabe aqui a descrição que C. S. Lewis fez deles:

Devemos imaginar estes puritanos como o extremo oposto daqueles que se dizem puritanos hoje. Imaginemo-los jovens, intensamente fortes, intelectuais, progressistas, muito atuais. Eles não eram avessos a bebidas com álcool; mesmo à cerveja, mas os bispos eram a sua aversão. Puritanos fumavam (na época não sabiam dos efeitos danosos do fumo), bebiam (com moderação), caçavam, praticavam esportes, usavam roupas coloridas, faziam amor com suas esposas, tudo isto para a glória de Deus, o qual os colocou em posição de liberdade. (...) [Os puritanos eram] jovens, vorazes, intelectuais progressistas, muito elegantes e atualizados ... [e] ... não havia animosidade entre os puritanos e humanistas. Eles eram freqüentemente as mesmas pessoas, e quase sempre o mesmo tipo de pessoa: os jovens no movimento, os impacientes progressistas exigindo uma “limpeza purificadora”.

O grande desafio que Jesus e os apóstolos deixaram para os cristãos foi exatamente este, de estar no mundo, ser enviado ao mundo, mas não ser dele (Jo 17:14-18). Implica em não se conformar com o presente século, mas renovar-se diariamente (Rm 12:1-3), de não ir embora amando o presente século, como Demas (2Tm 4:10). É ser sal e luz.Para os que deixam de levar em conta a presença da corrupção humana na cultura, os poetas, músicos, artistas e cientistas se tornam em sacerdotes, a produção deles em sacramento e costurar e tecer em evangelização.

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Repetido, escutado e copiado à mão (com erros) do original bem melhorzinho em http://tempora-mores.blogspot.com/2011/02/quando-cultura-vira-evangelho.html

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Deus criou o mal?


À primeira vista pode parecer que, se Deus criou todas as coisas, então deve também ter criado o mal. Entretanto, há aqui um pressuposto que deve ser esclarecido. O mal não é uma “coisa”, como uma pedra ou a eletricidade. Você não pode ter um pote de mal! Mas o mal é algo que acontece, como o ato de correr. O mal não tem uma existência própria, mas na verdade, é a ausência do bem. Por exemplo, os buracos são reais, mas somente existem em outra coisa. À ausência de terra, damos o nome de buraco, mas o buraco não pode ser separado da terra. Quando Deus criou todas as coisas, é verdade que tudo o que existia era bom. Uma das boas coisas criadas por Deus foram criaturas que tinham a liberdade em escolher o bem. Para que tivessem uma real escolha, Deus deveria permitir a existência de algo além do bem para escolher. Então Deus permitiu que esses anjos livres e humanos escolhessem o bem ou o não-bem (mal). Quando um mau relacionamento existe entre duas coisas boas, a isso chamamos de mal, mas não se torna uma “coisa” que exige ter sido criada por Deus.

Examine o exemplo de Jó em Jó capítulos 1 e 2. Satanás quis destruir Jó, e Deus permitiu que Satanás fizesse tudo, exceto matá-lo. Deus permitiu que isto acontecesse para provar a Satanás que Jó era reto porque amava a Deus, e não porque Deus o tinha tão ricamente abençoado. Deus é soberano, e no controle máximo de tudo o que acontece. Satanás nada pode fazer a não ser que tenha a “permissão” de Deus. Deus não criou o mal, mas Ele permite o mal. Se Deus não houvesse permitido a possibilidade do mal, tanto a espécie humana quanto os anjos estariam servindo a Deus por obrigação, não por escolha. Ele não quis “robôs” que simplesmente fizessem o que Ele gostaria que fizessem por causa de sua “programação”. 

A resposta que a Bíblia nos dá é: Deus tem um propósito perfeitamente bom para a existência do mal. A Bíblia não só ensina que Deus sabe de todas as coisas, mas que Ele determinou, com precisão, o Seu plano para toda a história do universo. Deus detalhadamente determinou a existência e história para cada criatura desde antes da criação. Ele escreveu a história do mundo para a Sua glória, de sorte que tudo ocorre de acordo com o Seu perfeito plano e nada acontece sem ser previamente decretado por Deus. Em Isaías 46:9-10, Deus apresenta como evidência de Sua divindade o fato de que Ele tem determinado e declarado o fim desde o início. Ele diz: “...Eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim... o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade” (Isaías 46:10).

Não existe um átomo sequer em todo o universo que não esteja a cada momento sendo sustentado e guiado por Deus. Em Colossenses 1:16-17, Paulo diz: “...Tudo foi criado por meio dele e para Ele... Nele, tudo subsiste.Hebreus 1:3 explicitamente diz que Ele “sustenta todas as coisas pela palavra do Seu poder.”

Vimos então que Deus tem planejado e determinado o percurso de toda a criação (incluindo Satanás e todas as suas ações, como sua queda e as tentações que ele apresenta a nós, seres humanos). O mal que existe hoje não ocorre por acidente, mas porque Deus tem determinado em Seu perfeito plano que deveria ser assim. Isto pode ser surpreendente ou até vergonhoso para muitos, mas para Deus, não. Ele diz: “Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas" (Isaías 45:7). É notável que neste versículo Ele até usa o verbo mais forte (bara no Hebraico é a mesma palavra usada em Gênesis 1:1) para referir-se ao Seu envolvimento intencional com o mal. De fato, Ele até apresenta isto como evidência de Sua divindade, em contraste com os ídolos que são incapazes de fazer bem ou mal (Isaías 41:23).

O inspirado profeta Jeremias apresenta a pergunta retórica: “Quem é aquele que diz, e assim acontece, quando o Senhor o não mande? Acaso, não procede do Altíssimo tanto o mal como o bem?” (Lamentações 3:37-38). É claro que a resposta esperada é que nada de bom ou mau ocorre sem que proceda de Deus. Semelhantemente, o profeta Amós pergunta: “Sucederá algum mal à cidade, sem que o SENHOR o tenha feito?” (Amós 3:6). 

Basicamente, não há uma resposta a estas perguntas que possamos compreender totalmente. Como seres humanos limitados, jamais poderemos compreender inteiramente um Deus infinito (Romanos 11:33-34). Às vezes pensamos que compreendemos por que Deus faz determinada coisa, e mais tarde descobrimos que era para um propósito diferente daquele que havíamos pensado. Deus vê as coisas sob uma perspectiva eterna. Nós vemos as coisas sob uma perspectiva terrena. Infelizmente, por natureza, preferimos a nossa própria concepção de Deus àquela do Deus verdadeiro.

Concluindo, a Bíblia ensina claramente que tudo que Deus criou era “muito bom” (Gênesis 1:31). Semelhantemente, a Bíblia termina descrevendo em Apocalipse 21 e 22 um período futuro quando tudo voltará a ser muito bom. Apocalipse 21:4 diz: “E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras cousas passaram.” Isto significa que quase toda a Bíblia, de Gênesis 3 a Apocalipse 20, trata do tempo quando o mal existe. Este é o tempo em que nós vivemos. Entretanto, é confortador, mesmo quando entendemos pouco do propósito de Deus para o mal, saber que tudo começou “muito bom” e há de terminar assim também!

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sábado, 18 de junho de 2011

Olhando bem...


"A lâmpada do corpo é o olho: se teu olho for límpido, ficarás todo cheio de luz. Mas se teu olho for ruim, ficarás todo em trevas. Se, pois, a luz em ti é trevas, quão grandes serão as trevas!” (Mt 6:22-23)

Nossa alma tem cinco janelas: as mãos, os ouvidos, o nariz, a boca e os olhos. E ainda possui uma Caixa de ferramentas (os olhos) e uma Caixa de brinquedos (o olhar). Refletiremos sobre cada uma dessas janelas e, nessa primeira reflexão, começaremos com um olhar muito especial: o olhar de Deus contemplando a criação.

E tudo começou com um jeito de olhar: Deus viu que era bom, que era tudo muito bom. Deus criou um jardim. Um jardim belo! Jardim que é o destino do homem, que é o destino do universo. Terminado seu trabalho em seis dias, Deus entregou-se àquilo para que o trabalho havia sido feito: contemplar a beleza do que está diante dos olhos. Os olhos contemplaram o jardim e experimentam o êxtase da beleza! “E viu Deus que era muito bom…”: os olhos divinos brincavam com o jardim (Gn 1).

Como estamos olhando para aquilo que Deus criou? Como é meu olhar diante das coisas que eu faço? O que eu faço nos meus dias?

Ver é muito complicado. Isso é estranho, porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física ótica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso ao afirmar: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei isso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos sinto-me como Moisés, diante da sarça ardente: está ali uma epifania do Sagrado. Mas uma mulher, minha vizinha, decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa: ele sujava o chão, dava muito trabalho para sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza das flores atapetando o chão. Só viam o lixo.

A poeta Adélia Prado diz: “Deus, de vez em quando, me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra. E Carlos Drummond de Andrade viu uma pedra e não viu uma pedra: a pedra que ele viu virou poema".

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. “Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios”, escreveu Alberto Caeiro/Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Necessita de aprendizado. Nietzsche sabia disso e afirmou que “a primeira tarefa da educação era ensinar a ver”.

Há uma passagem no Novo Testamento, verdadeiro poema, que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus Ressuscitado. Dirigiam-se a Emaús. Eles, porém, não o reconheciam até que um gesto fé-los subitamente reconhecerem-no: ao partir do pão “os seus olhos se abriram” (Lc 24.13-35).

Vinícius de Moraes vive experiência semelhante no “Operário em Construção”: “De forma que, certo dia, ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado que tudo naquela mesa – garrafa, prato, facão – era ele quem fazia, ele, um humilde operário, um operário em construção”.

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na Caixa de Ferramentas são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas – e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer.

Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não vivem o prazer de ver… Mas quando os olhos estão na Caixa dos Brinquedos eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo. Os olhos que moram na Caixa de Ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na Caixa dos Brinquedos são os olhos das crianças.

Para ter olhos brincalhões é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse ter aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo, fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente:

A mim ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas…

Mateus também nos conta que

Mt 18:1. Naquela mesma hora chegaram os discípulos ao pé de Jesus, dizendo: Quem é o maior no reino dos céus? E Jesus, chamando um menino, o pôs no meio deles, e disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus. Portanto, aquele que se tornar humilde como este menino, esse é o maior no reino dos céus. E qualquer que receber em meu nome um menino, tal como este, a mim me recebe. ... Vede, não desprezeis algum destes pequeninos, porque eu vos digo que os seus anjos nos céus sempre vêem a face de meu Pai que está nos céus.

A diferença está no olhar. Não são olhos bonitos que nos encantam, mas o que realmente nos cativa são os olhares. Olhares são a extrema fineza dos olhos. Olhares suaves, fixos, acolhedores, belos e iluminados. Olhares que têm o poder de ressuscitar, devolver a luz para quem, tantas vezes, esqueceu o quanto a vida vale a pena ser vivida. Nascemos para aprender a olhar de um jeito certo.

Quando criança, pedimos toda a atenção, o chorar da criança é por não ter ninguém olhando por ela. Quantos medos surgem por não se ter “olhares à sua volta”. Quando adolescentes, somos tentados a querer todos os olhares e atenção, caso contrário nos revoltamos com o mundo e nos sentimos os mais abandonados e mal-entendidos que possam existir. O jovem é aquele que volta seu olhar para o mundo das possibilidades. O sonhar do jovem é seu mais precioso paraíso. Quer realizar, transformar, construir, quer que os olhares possam se alimentar de suas ousadias. O adulto quer ser importante aos olhos de alguém especial. Não quer fazer parte apenas da multidão que passa, ele quer ser destacado por um olhar especial.

Os idosos, com uma alegria nostálgica, lembram de tudo o que viram, e em tão bela idade sabem ver o que lhes acontece sem nenhuma pressa. Aprenderão a saborear a beleza e o sentido da vida. Isso é algo que ninguém rouba. É propriedade de quem aprende a amar e a olhar de um jeito certo. Jeito que nos faz felizes e realizados.

Olhares simples nos devolvem o sentido da vida. Olhares encharcados de acolhida nos retiram da indiferença de, por medo da vida, muitas vezes insistir em ficar com olhos vendados, mesmos estando eles, os olhos, abertos. Olhos abertos, mas olhares escondidos.

O jeito de Jesus escolher os Apóstolos foi o olhar: sentiram-se amados e o seguiram, para sempre. Nosso jeito de olhar somente deveria ser um: o olhar maravilhado, iluminado pelo amor.

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terça-feira, 16 de novembro de 2010

Contra o sistema do mundo

por Jacilene Santos da Silva


O termo “mundo” dentro do contexto do estudo designa a maneira de viver indiferente e oposta aos preceitos de Deus. Essa maneira de viver surgiu logo após a queda do homem e foi por causa dessa infeliz circunstância que todos os descendentes de Adão tornaram-se internamente portadores de uma natureza pecaminosa e extremamente opositora a Deus.

Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Romanos 5:12).

Agora que já temos um conceito e uma visão bíblica, vamos analisar três pontos importantes relacionados a esse tema, todos à luz das Santas Escrituras:

1- Os atrativos do mundo

Digo, porém: andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne” (Gálatas 5:16).

Temos que ter em mente que quando o cristão se deixa enganar pelas propostas desse mundo, torna-se escravo de um sistema maligno que rouba, mata e destrói. Lembramos, então, o que aconteceu com o filho pródigo, que desprezou o amor do pai e a vida abençoada no lar e resolveu seguir os atrativos do mundo a fim de desfrutar os seus prazeres. Todavia, após perder toda a sua riqueza, se tornou um miserável. Então, decidiu retornar ao conforto do lar, e foi festivamente recebido pelo pai, que lhe restitui tudo o que no mundo ele havia perdido (Lucas 15:11-32).

Todo servo fiel deve evitar esse tipo de experiência. Devemos sempre procurar ter prazer nas leis do Senhor e nelas meditar dia e noite, ou seja, sermos servos que procurem sempre glorificar a Deus em espírito e em verdade.

2- O mundo e os filhos de Deus

Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia” (João 15:19).

Sabemos que antes do nosso nascimento já tínhamos sido predestinados à salvação, mas nem todos nós já nascemos em uma família cristã ou tivemos desde criança um acompanhamento adequado nessa área. Ou seja, muitos desfrutaram dos prazeres mundanos. Assim, como fomos resgatados do mundo, outros eleitos precisam ser resgatados desse sistema de vida. E essa deve ser a relação dos filhos de Deus com o mundo: não viver de acordo com ele, mas sempre ter em mente o resgate dos eleitos. Ou seja, vivermos uma vida santa diante de Deus e dos homens para que possamos ser exemplos para as pessoas que vivem no mundo. Além disso, não devemos negligenciar a evangelização, para que, quando for o tempo de Deus, nos tornemos um instrumento nas mãos divinas, e que através de nós os eleitos de Deus sejam resgatados.

3- Os elementos que identificam “o homem do mundo”

Porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo” (1 João 2:16).

A Palavra de Deus nos alerta contra as concupiscência da carne, dos olhos e contra a soberba. Vamos agora analisar esses três pontos separadamente:

a) A concupiscência da carne:

Engloba desejos impuros, vícios e prazeres sensuais. A Bíblia exorta-nos a fugir de toda e qualquer impureza (1 Coríntios 6:18). O crente deve estar ciente de que ele é templo do Espírito Santo e, portanto, deve viver uma vida piedosa e consagrada a Deus. Fugir da imoralidade é dever do crente.

Os vícios também são considerados concupiscência da carne, pois servem para saciar a sede da mesma. Então, devemos viver longe deles.

b) A concupiscência dos olhos:

Sabemos que o homem torna-se cativo daquilo que ele vê. Para que isto não seja prejudicial é preciso que o crente esteja sempre vigiando e orando, assim se fortalecendo para não ser atraído pelos desejos pecaminosos dos olhos.

Um exemplo bastante conhecido é o exemplo de Acã, que viu dentre os despojos dos inimigos de Deus uma capa babilônica, desejou-a, trouxe-a para si e por conseqüência morreu com toda sua família. Temos que ter muito cuidado com isso, pois o que parece simples pode levar a um fim trágico.

c) A soberba da vida:

O homem que vive de acordo com o mundo tem a falsa idéia de que é possível se igualar a Deus. Ele tenta a todo custo viver à parte de seu Criador, buscando sua exaltação através de riquezas, títulos e posições, com o intuito de ser honrado por isso. A Palavra de Deus nos assevera que isto não vem de Deus, mas do mundo. A Bíblia nos ensina que o propósito de um servo é glorificar o nome de Deus e que devemos sempre buscar Seu reino e Sua justiça.

O autêntico crente, que pratica os princípios do Cristianismo bíblico, não deve adequar-se ao presente sistema mundano. Fomos chamados a viver uma vida santa, separada deste mundo, com objetivos infinitamente mais nobres, que são glorificar a Deus e desfrutar de Seus bens.