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domingo, 1 de março de 2020

A Igreja e seus apetrechos

Quadro de Bosch Jeroen van Aken, mais conhecido como Hieronymus Bosch (1450 - 1516), o Jardim das Delícias Terrenas - Céu, Terra e Inferno (pintado por volta de 1500). Os dois painéis laterais se dobram, fechando a pintura como uma janela. Do lado esquerdo, Deus anda entre Adão e Eva. No centro, as pessoas estão nuas, em ações muito curiosas como deitar dentro de uma ostra, viver numa redoma ou dentro de um fruto gigante, etc. No lado direito há a escuridão e muitos demônios ou animais bizarros, geralmente comendo as pessoas.

Existem múltiplos níveis em que a religião influencia o comportamento das pessoas, por isso se trata de um assunto importante. Há o nível moral, a organização social, etc. Mas não é isso que pretendo discutir aqui, ainda. Antes, acredito ser necessário pensar no funcionamento da religião, em especial, do Cristianismo. Sobre isso, há muito tempo, não me lembro onde, li que "a morte de Cristo foi teologicamente muito mais importante que Sua vida". Não deixa de ser assombroso pensar que o Cristianismo pode depender muito pouco de Jesus.

Basicamente, as pessoas clamam a Jesus por auxílio em suas questões humanas: saúde, vida ou morte, trabalho, dinheiro, conflitos. Paulo descreveu Jesus como um "novo Adão" (1ª Coríntios 15), resgatando o bem-querer de Deus pela Humanidade. Mas esse bem-querer resgatado não incluiu o fornecimento abundante de alimentos sem trabalho, a imunidade a doenças, nem a vida eterna. Por isso mesmo, por ainda termos de carpir o sustento, tratar e resistir a enfermidades, envelhecer e morrer, os Cristãos clamam a Jesus por Seu auxílio.

Jesus viveu, morreu, ressuscitou e ascendeu aos Céus fazem uns 2 mil anos. Como então chegar até Jesus? Como atrair Sua atenção e favor? A Bíblia nos ensina que podemos falar ao Divino sem restrições de formato ou lugar, apenas conhecendo-o "em espírito e verdade" (João 4.23,24). Mas alguns elementos sempre foram preferidos para essa comunicação. O batismo, o sacerdote e o espaço sagrado sempre foram necessidades humanas para chegar ao Divino.

BATISMO

O Judaísmo e o Islã praticam a circuncisão dos homens como ritual de iniciação. No Judaísmo, existe também um banho ritual em fonte ou piscina cheia com água das chuvas. O Catolicismo usa este banho ritual, apenas, em crianças, como ritual de consagração. No Protestantismo, assim como no Judaísmo, é requerido que o iniciado seja capaz de compreender os juramentos que profere.

No Catolicismo, o Batismo é irreversível e uma consagração da criança a Deus, pelo resto da vida e após ela. O batismo garante um lugar nos Céus após a morte, com penitência pelos pecados ou não. Mas esse ritual também significou a aliança de monarcas com a Igreja, no passado. Por aliança, entendamos o rei se tornar administrador de terras ou países pertencentes, desde então e por direito, ao Papa¹.

No Protestantismo, trata-se de uma cerimônia onde é firmado um pacto com Jesus. Implicitamente, também costuma significar aceitar a Igreja como reguladora das suas ações, pois muitas igrejas rejeitam o batismo feito pelas demais. Afastar-se do comando da Igreja, a partir de então, torna o fiel um "desviado", uma ovelha perdida a cujo resgate vale todo esforço. No séc. 20, o Batismo assumiu, dentro do Pentecostalismo, uma 2ª versão, o chamado “batismo pelo Espírito Santo”. Esta tem a função de uma aceitação do fiel por Deus, demonstrada por meio do êxtase religioso, choro, murmuração de palavras incompreensíveis e exaltação de Jesus em alta voz (às vezes com auxílio de megafone e caixa de som em volume máximo)².

Em alguns sistemas, o Batismo pode significar a aceitação do fiel em uma comunidade ou no interior dos espaços religiosos sagrados. No Judaísmo, o Mikveh ou banho ritual também tem uma função de purificação, sendo repetido diversas vezes, após a menstruação, após o sexo, após tocar em objetos ou frequentar lugares considerados impuros. Os impuros ou não batizados devem permanecer fora dos círculos de leitura e discussão, que podem ocorrer também fora das sinagogas. No Islã, a permissão de entrar na mesquita para participar das orações é vedada aos Muçulmanos, ou seja, aqueles que já passaram por circuncisão e declaração pública de sua fé em Allah. No Cristianismo, o acesso e participação dos cultos é livre, mas não há permissão de participar da Santa Ceia, cerimônia que Jesus instruiu os apóstolos a fazerem para lembrar seu comprometimento com Ele, em especial com Seu sacrifício.

Existem muitas divergências sobre quem pode batizar. João Batista praticava seu banho ritual de limpeza nas margens do rio Jordão, mas com uma função muito mais poderosa e permanente do que as limpezas usuais. Foi uma cerimônia pela qual Jesus passou. O livro de Atos fala de um dos seguidores de Paulo batizando um eunuco (Atos 8.27-39), o que significava sua designação como Cristão, mas o próprio Paulo afirma ter batizado muito poucos (Crispo, Gaio e a família de Estéfanas, segundo 1ª Coríntios 1.14-16). Livros dos sécs. 1 e 2, como a Didache, parecem instruir sobre juramentos para as solenidades de Batismo. Não há a citação explícita de que um sacerdote precise fazer a cerimônia mas, sendo João a referência mais antiga e havendo o comprometimento com a Igreja, chegamos a esse entendimento. Tradicionalmente, nobres e homens ricos foram batizados por patentes igualmente altas de dentro da Igreja.

SACERDOTE

O sacerdote representa, desde muito tempo atrás, a "voz de Deus". Nas religiões antigas, o sacerdote incorporava o deus, era empoderado por ele e recebia informações privilegiadas sobre o Universo e o futuro. Era o sacerdote quem coroava os reis, e às vezes os derrubava também (vide Samuel e Saul).

Desde a invasão de Israel por Nabucodonosor II (597 a.C.), essa função foi diminuída, pois o grande rei se tornara, no fim, servo de outro rei, com outra religião. Coisa bem paralela ocorreu com os sacerdotes Judeus, quando se estruturou o Sinédrio: os sacerdotes de outras cidades eram subordinados aos sacerdotes de Israel, e todos eles ao sumo-sacerdote. Na época do 2º Templo não pareciam haver templos concorrentes ao templo de Israel, como Shiló havia sido, por exemplo.

Entre estruturas de poder, costumam acontecer disputas. Durante o governo grego na Judéia, os embates entre sacerdotes Judeus e os representantes da família de Seleuco chegaram mesmo a esvaziar por décadas o Templo Reconstruído. O governo Romano, por outro lado, criou laços entre o clero e os reis a partir da ampliação e reforma do Templo por Herodes o Grande. A família de Anás, sumo sacerdote, ficou a partir de então, atada com a representação do Império. Apesar de todo o conflito que havia entre os Judeus e a lei de divindade dos imperadores Romanos, não foi, como sabemos, o corpo de Fariseus e Saduceus ligados ao Sinédrio que movimentou as revoltas contra Roma na metade do séc. 1.

De acordo com sua herança greco-romano-judaica, a igreja Cristã se consolidou numa única estrutura, em escala imperial, com a aliança aos nobres de Roma e ao imperador Constantino, no séc. 4. O sacerdote passou a ser, antes de tudo, a voz da igreja, que era a voz de Deus. Investido de santidade e até poderes sobrenaturais, segundo a crença medieval, os sacerdotes se curvavam a santidades e poderes ainda maiores, ditados pela hierarquia religiosa. Diversos papas e reis chegaram a ser consagrados seres divinos, como os anjos³.

Embora vinculado duplamente a Deus e a Igreja, o sacerdote geralmente tem como crivo de sua ordenação justamente que seja capaz de combinar as duas direções. Quando não o pode fazer, é afastado das funções pela Igreja, a quem jamais cabe questionar; assim como, por tabela, aos poderes políticos.

Podemos ficar felizes com essa posição unificadora da Igreja enquanto lidamos com Estados zelosos da sua população e cultura. No mundo regido pelo capital e mão de obra, entretanto, não faltam exemplos de governos totalitários e defensores de uma minoria aproveitadora, aos quais, infelizmente, a Igreja tem o mal hábito de se associar. Isso se deu largamente no massacre dos povos indígenas pelos Espanhóis em busca de ouro e prata, na exploração dos povos e terras do Oeste Africano, nos governos Fascistas da Europa e, mais recentemente, nas ditaduras militares da América Latina*.

Algumas ordens religiosas não se opõem a atribuição de poderes sobrenaturais ao sacerdote. Como tal aproximação de Deus pode, de fato, tirar o controle da Igreja sobre ele, quase sem exceção essa atribuição sobrenatural recai sobre sacerdotes já mortos ou sobre os líderes máximos de suas ordens religiosas. O sacerdote morto que produz milagres, além de validar a preferência de Deus por seu grupo (coisa que o vivo também faz), ainda permite que outros sacerdotes interpretem suas palavras, necessidades, oferendas, etc. Nesse ponto chegamos em que Jesus, morto, é muito mais útil a uma igreja com múltiplos líderes do que um Jesus vivo capaz de questioná-los (e sabemos que Jesus era bom nisso)**.

A tradição Greco-romana sobrepujou o Judaísmo nos entendimentos sobre a morte: embora venerassem os túmulos de sacerdotes e profetas, os Judeus tinham repulsa às tumbas como locais sagrados. Os necromantes eram proscritos desde os idos do Velho Testamento (até o séc. 3 a.C.). Já os Gregos e Romanos viam nas tumbas os poderes protetores de antepassados cujos ossos estavam ali. Logo no séc. 4 já haviam tumbas sagradas no Cristianismo, algumas delas sendo de Jesus, Paulo e Pedro, sem falar dos mártires.

ESPAÇO SAGRADO

No Judaísmo, o espaço sagrado de oração é entendido como a reunião de pelo menos 10 Judeus, não necessariamente dentro de uma Sinagoga (e não há espaço substituto do Templo de Jerusalém, há muito perdido). Na época do 2º Templo, os Judeus tinham o espaço do Templo como mais próximo de Deus. Isso não fazia com que apenas orassem nas cercanias do prédio, mas aquele era um lugar mais provável de ser ouvido por Deus. Também era o lugar de fazer agradecimentos pelos pedidos e proteção. No Islã, isso é colocado de forma objetivamente matemática: uma oração na mesquita Al-Aqsa (junto ao espaço onde ficava o Templo, em Jerusalém) equivale a 250 orações em qualquer outro lugar; na mesquita an-Nabawi (Medina), construída por Maomé, uma oração equivale a 1.000 orações. Na mesquita sagrada de Meca, uma oração contém a recompensa de 100.000 orações.

No Velho Testamento, são várias as alusões a espaços puros ou profanos usados para os cultos. Havia os altos dos montes, usados para o culto de Baal, deus dos relâmpagos; os bosques e outeiros usados para o culto de Asherah, a deusa das colheitas; e havia a tenda nômade usada para o culto de JHWH, deus único e supremo, inimigo de toda crendice nos demais***. A tenda era o logradouro da Arca, que depois foi transferida ao Templo de Salomão. Com a destruição do Templo, a Arca foi perdida, mas a construção já havia absorvido o sentido sagrado do objeto original. Em parte, a localização era especial: o local onde Abraão fizera seu pacto com Deus. Reconstruído, o Templo passou a ser sagrado. Seu local é sagrado para Judeus e Muçulmanos até hoje, quase 2000 anos após ser demolido pelas catapultas romanas.

No Cristianismo, os espaços sagrados não são vedados aos não-Cristãos, mas isso ocorre em diversas religiões. Esse acesso livre faz parte da aceitação Cristã a "todo aquele que vier", segundo vemos no livro de Atos. Mas ela encontra barreiras, como veremos a seguir, nos preceitos Neo-judaicos de pureza.

Hoje, a maior parte do mundo Ocidental se declara Cristã. Isso liberou muitas das barreiras de acesso ao espaço Cristão. Não há mais Hunos, Vikings ou Celtas para conquistar os espaços Cristãos. Mas se examinarmos a crença medieval sobre tais espaços, eles eram considerados mortais a duendes, espíritos, bruxas e até vampiros, pelo simples fato de que estes não eram Cristãos. Nas invasões da Normandia pelos Vikings, a catedral de Notre Dame foi o abrigo Cristão predileto. Na derrota de Constantinopla pelos Turcos, em 1483, os Romanos refugiaram-se na catedral de Santa Sophia, e não no palácio imperial, pela crença de que aquele espaço seria nocivo aos Islâmicos. Mais recentemente, não são poucos os contos de pessoas expulsas de igrejas não pelos anjos ou uma força invisível, mas pelo sacerdote e os fiéis, na medida em que foram considerados impuros para aquele espaço. Por outro lado, nobres e ricos beneficiadores da Igreja não raro tiveram suas tumbas bem sob o altar, em sinal de sua santidade eterna, ainda que em vida fossem guerreiros, caçadores, mercadores de escravos, etc.

No Cristianismo, o que torna o espaço sagrado especial é a realização dos cultos ali. Mas é possível que o lugar sagrado seja também depósito de algum ícone, como a tenda onde ficava a Arca. Diversas igrejas Cristãs são guardadoras de fragmentos da Coroa de Espinhos, da Cruz, de ossos dos personagens dos Evangelhos, de corpos de pessoas abençoadas. Os mártires Cristãos, religiosos evangelizadores e nobres que lutaram pela Igreja na época das Cruzadas sempre produziram os ícones mais famosos. Os mártires sem nome, cumpridores do preceito de morrer pela fé, enterrados em locais comunitários, foram uma obsessão Cristã nos sécs. 4 a 10, mais ou menos como o profeta desconhecido que é citado no Velho Testamento. Tumbas coletivas facilmente se transformavam em templos de ossadas. No séc. 16, com a destruição de ícones Católicos que Reforma Protestante provocou, algumas dessas tumbas na Europa até ganharam o adorno precioso dos esqueletos com jóias e roupas finas. Alguns desses esqueletos adornados foram postos em tronos ou amarrados em posições de bênção ou oração, curiosamente dando a origem a proto-divindades que jamais existiram, e para as quais foi necessário inventar uma história terrena &.

No lado Protestante, a repulsa aos sinais mundanos do sagrado sofreu um forte revés com os movimentos de Avivamento na Inglaterra, nos EUA e mais recentemente no Brasil. Os templos Protestantes, embora também sagrados, são muito mais "oficiosos" que os Católicos: não há movimentação ali fora dos cultos, nem há pinturas ou esculturas que lembram o sagrado. Às vezes, a arquitetura do prédio é menos única do que a de uma loja de eletrodomésticos. Isso, claro, devota todos os atributos sobrenaturais ao momento de celebração, presidido pelo pastor.

Sem muito raciocinar, podemos supor que tal pessoa desfruta de uma santidade, ou proximidade de Deus, excepcionais, que precisa compensar a quase ausência de outras conexões com o sagrado. Tal condição lhes é exigida da Igreja enquanto instituição, e também praticada pelos fiéis ao pedirem para o pastor (assim como também ao padre) bênçãos especiais, orações de intercessão, etc. Em casos mais extravagantes, dentro do Protestantismo Neopentecostal, temos líderes religiosos sagrados per se, operadores de milagres em sucessão no centro de imensos auditórios, sendo transmitidos todo dia a todo o globo pela televisão%.

REMEXENDO A CAIXA

As figuras do Batismo, Sacerdote e Espaço Sagrado são orientadores poderosos de como a sociedade se atrela ao sagrado. O primeiro como reconhecimento social e via de acesso aos espaços e rituais, o segundo como mediador entre Deus e os homens, o terceiro como demonstrador social do poder religioso.

No Cristianismo, o Batismo nos revela divisões internas e baixa aceitação de uma comunidade pela outra, apesar do grande fluxo de pessoas entre elas. Jesus, embora tenha sido batizado por João antes de iniciar seu ministério, não dedicou (segundo os Evangelhos) nenhuma linha de seu tempo a esse sacramento. Paulo, segundo ele mesmo, pouco fez também. Ao que parece, Ele não favoreceu uma quebra quanto ao Judaísmo, mas insistiu na ideia de uma reforma ou transição gradual, que só ocorreu pelo arrebatamento de muitos Judeus durante a expansão Cristã.

Os sacerdotes revelam uma estruturação vertical da Igreja, coisa que Jesus, como discidente do Sistema, jamais teria. Segundo João Evangelista, em sua última reunião com os discípulos, Jesus teria dado uma lição sobre humildade ao lavar os pés de Pedro.

Embora o sacerdote tenha mantido, e talvez muito mais em alguns grupos do que em outros, a função de intercessor e voz de Deus, hoje ele se enquadra como "funcionário" de uma organização sagrada, que por sua vez se vincula ao poder político. Essa estrutura torna muito difícil que um sacerdote atual desafie governos, mesmo por comando divino ou em defesa das igualdades e pelo amor que Jesus pregava (ver Cristianismo da pobreza). Na verdade, um critério dentro das igrejas para avaliar sua importância sempre foi a medição mais monetária possível de quanto cada comunidade arrecada.

Os espaços religiosos, por fim, descaradamente refletem o poderio econômico da Igreja, além de serem territórios de exclusão e afirmação de poder. Não há como equiparar isso com a preferência de Jesus pelas pessoas com quem mantinha intimidade: nem mesmo os Fariseus questionadores ou Romanos mal vistos eram excluídos dos círculos onde Ele expunha seus ensinos. Ao se juntar a "publicamos e pecadores", Jesus acabava por ceifar o orgulho separatista daqueles que eram Seus. Mais na Igreja Protestante do que noutras vertentes (hoje), os grupos religiosos invertem o mandamento de cada superior servir ao seu inferior, o que afasta a religião da vida cotidiana, colocando o sagrado sob comando desse ou daquele grupo.

Quase 2000 anos de história fizeram a Igreja assumir uma postura pouco ou nada compatível com os ensinamentos de Jesus, ao ponto de vermos intervenções em políticas (e não em favor dos pobres que herdarão o Reino dos Céus), manipulações financeiras em larga escala e até exaltação de governos temíveis. Seria difícil pensar em como a Igreja moderna poderia retornar aos ideais sobre os quais foi construída (pensando que essa fosse uma decisão institucional), sem que isso a fizesse, novamente, uma instituição proscrita. Ouso suspeitar que os fiéis a quem Jesus pregava o amor ao próximo, e que por fim bradaram "Crucifica-o!", também não acolheriam essa mudança.

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² Atos 2 se refere a um evento miraculoso de falar e ser compreendido em várias línguas, assim como realizar profecias. Neste evento, os apóstolos falaram em diversas línguas porque tinham a seu redor uma platéia que falava grego, latim, aramaico, árabe, etc. Recentemente, pronunciar palavras incompreensíveis tem sido entendido como uma réplica desse evento.

³ O gráfico abaixo mostra o nº de papas que morreram em cada século e quantos deles foram aclamados santos, ou divinos, iniciando-se por Simão Pedro, que andou com Jesus.


A imensa maioria dos papas canonizados teve reinados extremamente curtos, de 1 ou 2 anos apenas. Do gráfico, fica claro que a “romanização” da Igreja pelo imperador Constantino I foi importante nesse processo de produzir papas sagrados e, até a queda de Roma Ocidental (aprox. ano 500 d.C.), quase todos os papas mortos foram aclamados como seres celestiais. Após isso, essa ascensão de autoridades religiosas aos Céus entrou em lento declínio, até a época das Cruzadas. Destacam-se o surgimento do Islã, a 4ª Cruzada e a Contra-reforma. O Islã, como sistema de governo baseado no Islamismo, iniciou-se em Meca/Arábia Saudita com Maomé (571-632 d.C.) e logo expandiu-se com grandes conquistas militares a partir do Oriente Médio. A 4ª Cruzada foi caracterizada como um retorno dos exércitos Cristãos que foram dos impérios Europeus para o Oriente Médio e, na volta, saquearam Constantinopla, centro medieval do Cristianismo. A Contra-reforma foi um movimento lançado pela Igreja Católica logo após a descoberta das Américas e a Reforma Protestante. Nesse movimento, a Igreja empenhou a conquista de territórios na América e os tesouros assim conseguidos para fortalecer os reinos Europeus que mantivessem sua lealdade ao papa.


* Sobre o extermínio indígena na América Latina, a Igreja teve o papel horrível de estimular e abençoar os conquistadores Espanhóis, pelo simples motivo que a Espanha era fiel a Roma mesmo durante os movimentos da Reforma Protestante. Em troca dessa fidelidade, a Igreja santificava as conquistas Espanholas e Portuguesas na América e África, sem se importar com os habitantes desses locais. Na verdade, pela lógica vigente no séc. 16, o indígena precisava ser catequizado, conhecer a Cristo. Convertido, ele deveria servir como escravo dos conquistadores, que arrendaram a terra indígena da Igreja, que a recebeu como direito a partir de Pedro, quando Jesus o apontou como cabeça da Igreja. O indígena não convertido era um pagão e, portanto, inimigo de Cristo, que deveria ser morto.

Quando os Espanhóis chegaram no Peru, encontraram uma civilização Inca dividida em impérios rivais. Eles se aproveitaram dessa divisão intervindo nas guerras entre os Incas: ajudava-se um rei a derrotar o outro, depois matava-se o primeiro. Esse foi o caso histórico do rei Atahualpa (1502-1533), governante de Quito que lutou contra seu próprio irmão, rei de Cuzco. Atahualpa derrotou o irmão em batalha e seguiu para Cusco com 80 mil soldados. No caminho, passariam por Cajamarca, onde estavam sediados os Espanhóis. Francisco Pizarro, líder dos conquistadores, negociou um tratado de paz com Atahualpa, que deveria ser celebrado naquela cidade.

Atahualpa levou poucos homens para dentro da cidade, sendo recebido pelo padre Vicente Valverde, que lhe ofereceu um livro de orações em latim e exigiu sua conversão ao Cristianismo, bem como de todo o exército. Atahualpa era analfabeto, quanto mais em latim, e talvez nem soubesse o que era um livro. Ao recusar-se, o rei inca ainda atirou o livro ao chão, o que constituiu motivo para ser declarado maldito e seus homens imediatamente alvejados pelos espanhóis. O rei foi aprisionado e, ao longo de 1 ano, foram exigidos de seus homens diversos resgates em ouro por ele. Parte desse ouro era devido, inclusive, à Igreja.

Atahualpa foi condenado à morte e acabou aceitando ser batizado. Porém, após o batismo, ele foi sumariamente enforcado por Pizarro. O batismo também significava, para os Espanhóis e religiosos, que Atahualpa dava seu reino à Igreja. Seu irmão Túpac Hualpa foi chamado a substituí-lo no trono de Cusco, mas foi envenenado logo depois. Em 1535, Valverde foi nomeado Bispo e Inquisidor de Cuzco. Acabou expulso em 1541 quando as tropas de Pizarro foram dizimadas por outro líder conquistador e, refugiando-se na ilha Puná, foi morto pelos nativos.

** Até onde os Evangelhos permitem inferir sobre Jesus, ele não desafiava abertamente o Judaísmo. Suas pregações acontecerem, várias vezes, em sinagogas e no Templo. O mesmo se deu com algumas das primeiras reuniões Cristãs. Por outro lado, era nítido que Jesus desafiava os mais nobres dos Fariseus (como seu primo João Batista fizera ao rei Herodes Antipas) e quebrava normativas sagradas dos Judeus. O complô do Sinédrio para prender e condenar Jesus - um julgamento no meio da noite, com testemunhas falsas, sem uma acusação sólida - desviando das regras Judaicas, também mostra que Ele não estava separado dos direitos atribuídos aos Judeus.

*** No texto Crônica de uma morte anunciada, o autor Paulo Brabo lança uma interessante pergunta. Deus estabeleceu, no Velho Testamento, uma tenda onde seria adorado no local que Ele desejasse. Os homens queriam um Templo, local fixo e solene. Mas Jesus, muito tempo depois, também não se deteve para ensinar ou orar em um único local, nem mesmo no Templo. Será que o objetivo de Deus é mesmo uma igreja fixa, alta e monumental?

& Um dos mais trágicos e bizarros exemplos desses santos fabricados talvez seja D. Sebastião I, rei de Portugal entre 1554 e 1578. Tratava-se, obviamente, de um rei verdadeiro, mas ele desapareceu durante uma batalha no Marrocos, contra o sultão Abd Al-Malik I. Nos anos seguintes, cresceu em Portugal a lenda de que o rei havia tornado-se um espírito celestial ou algo semelhante, com toda uma estrutura de culto ao redor dele. Em especial, os escravos marroquinos levados para o Brasil nessa época implantaram aqui o culto a D. Sebastião. Em 1816, houve a descrição de cultos a D. Sebastião no sudeste do país. Em Pernambuco, Silvestre José dos Santos, conhecido como “Mestre Quiou”, liderou um movimento sebastianista na Serra do rodeador, que terminou com um massacre por tropas do governo imperial. Em 1836, João Antônio dos Santos e seu irmão João Ferreira dos Santos lideraram outro grupo sebastianista, em Pedra Bonita, que tentou ressuscitar D. Sebastião com o sacrifício de dezenas de crianças. O ataque das forças imperiais também massacrou os adultos que pertenciam ao culto. Entre 1893 e 1897, o Arraial de Canudos também manteve o culto de D. Sebastião, liderado por Antônio Conselheiro. Tanto a formação quanto a destruição de Canudos são detalhadas no romance “Os Sertões”, de Euclides da cunha.

% Alguns nomes famosos (pelo aparecimento espetacular na mídia e pelas fortunas também) são Benny Hinn, Kerney Thomas, Robert Tilton, Temitope Balogun (T.B.) Joshua, Peter Popoff, Todd Bentley, Joel Osteen, Josh Duggar, etc.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

O Cristianismo em sua juventude

"Cristo e o jovem rico", pintura de Heinrich Hofmann, 1889

Esse texto é grandemente baseado nos capítulos iniciais do livro “The rise of Christianity” (O crescimento do Cristianismo), que o sociólogo estadounidense Rodney William Stark publicou em 1996. Ele é um antigo professor-celeridade da Washington University e seu livro é bastante famoso e recomendado a qualquer um interessado na história Cristã. Mas o interesse nele vem justamente de dois textos anteriores, “A invisibilidade Cristã” e “A velha e a nova igrejas”. O primeiro deles fala sobre o estranho fato de que os mais antigos artefatos Cristãos (e estamos falando de qualquer imagem, mesmo desenhos em paredes) são de pouco antes de a religião ser legalizada em Roma, uns 250 anos após Jesus. O segundo texto traz uma avaliação de como funcionava a igreja primitiva.

De alguma forma, tudo parece ter mudado no contexto Cristão desde que a religião foi adotada pelo imperador Constantino e legalizada pelo Edito de Milão em fev/313 d.C. Após isso, em menos de 1 século, os Cristãos passaram de grupo perseguido a dominadores políticos em Roma. O preço pago por tal sucesso foi praticamente o abandono dos ensinamentos de Jesus em favor de uma ritualística e uma santificação dos ricos e poderosos. É como se o jovem rico dispensasse Cristo, porque Esse Tal não tinha como segui-lo, e então fundasse a sua igreja de ricos. Essa mudança de funcionamento do Cristianismo entre o que lemos no livro de Atos para o que se tornou o Cristianismo Imperial é - ou deveria ser - desconcertante para a maioria dos que lêem sobre a história Cristã, pois tudo se deu em 200 anos ou menos. Não se espera mudanças rápidas em grupos religiosos, ainda mais num grupo nascente.

Em seu livro, Stark apresenta uma teoria mais contínua sobre o surgimento do Cristianismo, comparando as denominações tradicionais (ex. Católicos, Presbiterianos, Metodistas) com grupos mais dissidentes (ex. Assembléia de Deus, Nazarenos, Testemunhas de Jeová), grupos nascentes (ex. Igreja da Unificação¹) e grupos se estabelecendo como tradicionais (ex. Mórmons).

CONTAGENS IMAGINÁRIAS

Um problema que ele levanta, quanto ao número de pessoas em certo grupo, é a discrepância entre evidências e relatos. Era muito comum na Antigüidade (e hoje em dia também) relatar grandes números para fazer alguns movimentos ou acontecimentos parecerem mais grandiosos do que realmente eram. Heródoto que o diga! Ele cita, como exemplo, uma matéria de revista que alardeava haver 10 mil Hare-Krishnas² em Toronto/Canadá no meio dos anos 1980. Seria um número impressionante de seguidores de uma religião geograficamente tão distante. Um censo mais rigoroso, entretanto, averiguou que só haviam 80 praticantes na cidade.

Da mesma forma, ele chama a atenção para a fantástica conversão de 5000 homens descrita em Atos 4.4, após a pregação de Pedro e João no Pórtico de Salomão, uma das entradas do Templo. Seria muito difícil simplesmente colocar essa quantidade de pessoas dentro do Templo. Além disso, tal conversão em massa rapidamente transformaria o Cristianismo na religião dominante em Jerusalém, o que não aconteceu³. Stark avalia diversos relatos de historiadores antigos e estima a existência de uns 1000 Cristãos na 1ª geração, ou seja, aqueles que foram ensinados pelos próprios apóstolos.

OS VESTÍGIOS CRISTÃOS

Essa quantidade de pessoas, sendo cidadãos comuns, produziria uma quantidade muito pequena de vestígios tão duráveis que pudessem ser encontrados após 2 mil anos. Seria preciso uma população de pelo menos 100 mil devotos para produzir tantos vestígios que pudéssemos saber de sua existência, tanto tempo depois. Para Stark, esse número de Cristãos deve ter sido alcançado por volta de 180 d.C., que é a data do “aparecimento arqueológico” dos Cristãos.

A misteriosa ausência de rastros dos Cristãos, para ele, se deve simplesmente à destruição das provas materiais ao longo do tempo e ao pequeno nº de convertidos nos 1os séculos da nova religião. Mas, mesmo assim, atingir a marca de 100 mil crentes em menos de 2 séculos é impressionante.

A EXPLOSÃO DOS CRISTÃOS

Sabemos que a vertiginosa expansão Cristã se deve à semeadura de igrejas por Paulo, João Marcos (evangelista), Lucas (evangelista), Silas, Tito, Barnabé e vários outros da 1ª geração. Considerando que apenas os relatos de Paulo e Lucas nos chegaram, provavelmente havia muitos outros grandes patriarcas, dos quais nunca ouvimos falar. Pedro, por exemplo, foi um grande líder Cristão sobre o qual pouco se fala fora dos evangelhos. Stark comenta que, considerando o provável grande número de comunidades independentes fundadas e distribuindo por elas os 1000 crentes da 1ª geração, deviam ser comunidades bem pequenas. Tão pequenas que podiam se reunir em casas comuns, o que seria mais um argumento para não terem deixado construções específicas, como um templo.

Stark então projeta uma curva de crescimento que levaria os Cristãos até 100 mil no ano de 180 d.C. Ele mostra que, supondo um modelo em que cada convertido arrebanha uns tantos outros, temos um aumento exponencial do nº de Cristãos e não há muita incerteza possível quanto a esse ritmo de crescimento, que deve ter sido de uns 40%/década ou 3,4%/ano. Esse número é muito compatível com o início do Mormonismo*.

Apesar disso, em todo crescimento exponencial, o início sempre é bem lento. Com os dados de população de Roma em mãos, ele avalia que, em sua fase inicial, o Cristianismo passou praticamente despercebido. Mesmo havendo os extermínios em massa na Judéia e em Roma no séc. 1, eles produziram pouco ou nenhum impacto no Império. Por volta do ano 200 d.C., nem sequer 1% da população romana era aderente. Por outro lado, em 250 d.C. os Cristãos chegavam a 2% do total e saltaram para 10,5% até 300 d.C. Isso chamou rapidamente a atenção, o que levou o próprio imperador a se filiar a eles por volta de 300 d.C., quando marcavam incríveis 56% da população.

Stark fortalece suas estimativas com a contagem de nomes Cristãos no Egito nessa mesma época. As porcentagens extremamente parecidas de Cristãos nas populações Egípcia e Romana mostram que as conversões Cristãs não estavam centradas em grandes pregadores num ou noutro local, mas fluíam ao sabor do próprio crescimento populacional.

NÃO TÃO POBRES ASSIM

O artigo em questão é valioso porque analisa a fundo os motivos da expansão rápida dos Cristãos, ligando-os às transformações que ocorreram na Igreja durante esses primeiros séculos.

O autor faz uma distinção sociológica entre cultos estrangeiros (ex. Hare Krishna, nos EUA), seitas e denominações estáveis. Os cultos estrangeiros requerem um nível de educação mais alto dos adeptos, que precisam buscar longe suas informações e motivações, uma vez que interagem pouco com o ambiente social ao seu redor. As seitas  (ex. Assembléia de Deus, Nazarenos, Testemunhas de Jeová), por outro lado, são grupos dissidentes dentro de uma religião estabelecida, mantendo níveis altos de tensão com seus pares. Essa tensão substitui ganhos pessoais por demonstrações de fé, por isso tais religiões são o abrigo de pessoas mais pobres e menos educadas. As denominações estáveis (ex. Católicos, Presbiterianos, Metodistas) têm um nível mínimo de tensão, por isso são politicamente ativas e a conformação socioeconômica dos fiéis é a mesma do local que ocupam. Segundo Stark, a categoria de uma religião pode variar ao longo de sua história.

O Mormonismo, por exemplo, surgiu como uma seita na Inglaterra (o movimento reavivacionista) e emigrou como um culto estrangeiro para os EUA. Apesar de altamente centrado no ambiente estadounidense, o Mormonismo trazia elementos culturais nativos que eram estranhos a boa parte da população urbana. E o ponto crucial dessa cisão foi a elaboração do Livro de Mórmon, que os separou dos demais Cristãos. Com a criação do Livro, o profeta Joseph Smith teve a adesão da parcela mais rica e educada da população, o que promoveu seu crescimento até a situação de uma denominação estável.

Stark propõe um mesmo modelo para o Cristianismo, tendo este nascido como uma seita dos Judeus e, entre a 1ª e a 2ª geração de Cristãos, tendo evoluído para culto estrangeiro em Roma. OS Cristãos inicialmente se reuniam no Templo, e a cisão definitiva foi a elaboração dos Evangelhos no final do séc. 1. Paulo certamente teve muito a ver com isso**. Nesse modo de crescimento, o autor aponta o histórico enorme de Cristãos perdoados, mesmo durante as perseguições mais severas, como indicador de que as famílias mais ricas e poderosas de Roma estavam aderindo à nova religião. A adesão do imperador no início do século 4 seria apenas uma decorrência do poder político que os Cristãos estavam angariando.

Segundo ele, o Protestantismo surgiu como seita dentro do Catolicismo, mas rapidamente evoluiu para um culto em separado quando surgiram as traduções da Bíblia. Os Pentecostais também, nesse atual ponto da história, constituem uma seita dentro do Protestantismo tradicional.

A adesão de famílias ricas ao Cristianismo teria sido propiciada pelo fornecimento de novas motivações espirituais, que os deuses greco-romanos não mais proviam, além possibilidade de consagração e hierarquia. Obviamente a nova religião precisava de patronos nas cidades onde chegava e os comerciante ricos estariam ávidos por essa posição. Stark relembra as instruções do livro de Atos sobre a venda de propriedades, coisa que os plebeus não possuíam. O acolhimento dos pobres, segundo ensinado por Jesus e pregado por Paulo, levou à formação de hierarquias eclesiáticas (que justificam a desigualdade) ao invés de uma distribuição de renda, como Jesus e Paulo desejavam.

O MODO DE CRESCIMENTO DO CRISTIANISMO

Os adeptos do Cristianismo, segundo Stark, foram principalmente os moradores das cidades romanas. Até mesmo as rotas por onde a nova fé se espalhou no Império seguem as estradas conectando zonas urbanas. Nas cidades, o enfraquecimento dos deuses greco-romanos em favor do culto Cristão lembra bastante a mudança dos deuses Egípcios de formas naturais (ex. Anúbis, o chacal, ou Rá, o sol) para formas humanas (ex. Osíris e Isis). De modo semelhante, os deuses greco-romanos pouco tinham a ensinar sobre uma sociedade estável, com conflitos humanos, e isso abriu espaço para os ensinamentos Cristãos. De forma análoga, o termo “paganus” significa, de fato, “caipira” ou “camponês”. Pouco tempo após a adoção do Cristianismo pelo império, os não-Cristãos já eram chamados de “pagãos”, o que denotaria sua condição ligada ao campo.

Ao estudar a adesão de novos membros aos Moonies¹, assim como a cultos hindus dentro dos EUA, Stark mostra que os novos convertidos são essencialmente amigos próximos ou parentes de contato frequente dos membros mais antigos. Essa forma de crescimento se adéqua bem ao crescimento exponencial, com cada fiel recrutando novos membros, quando há estruturas de poder envolvidas. Isto é, alguém poderoso converte seus subordinados, que fazem o mesmo ladeira abaixo. Mais um ponto a favor do início do Cristianismo entre as famílias mais ricas de Roma.

O ENVELHECIMENTO DO CRISTIANISMO

Se a teoria de Stark sobre a formação do Cristianismo estiver correta, a vida simples e comunal ensinada por Jesus não prosseguiu além dos apóstolos e a 1ª geração de Cristãos. Devo admitir que ela é bem tentadora para explicar como se desenvolveu rapidamente uma estrutura eclesiástica tão logo o Cristianismo foi legalizado: na verdade tal estrutura já existia, apenas estava fora das documentações romanas.

Na medida em que os Cristianismo se consolidava em Roma Ocidental, e depois em Bizâncio ou Roma Oriental, a tensão cultural entre Cristãos e os demais romanos diminuiu muito. As estruturas de poder eclesiástico se conformaram ao poder político e vice-versa, até ser impossível diferenciar um do outro. No meio da Idade Média, lá pelo séc. 10, tanto cléricos quanto nobres possuíam exércitos e terras; ambos se misturavam nas mesmas cortes e as pessoas transitavam entre a condição de nobreza e a hierarquia da Igreja.

Após o santo Batismo, um duque podia rapidamente ser alçado à condição de cardeal ou mesmo a santo reverenciado. Com os camponeses, obviamente nada disso acontecia. Na medida em que os pagãos passavam a ser uma minoria populacional, as conversões tornavam-se mais raras e atreladas a fortes interesses políticos ou bélicos. Stark afirma que o Mormonismo está entrando nessa fase tardia

Quanto ao Cristianismo, o enfraquecimento de seu apelo emocional é sensível pelo aumento dos Ateus e Agnósticos em muitos países tradicionalmente Cristãos, ao passo que nas partes menos educadas do mundo, as seitas internas minam o aspecto tradicional da religião, introduzindo alterações doutrinárias que são majoritariamente vistas entre os Pentecostais.

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¹ A Igreja da Unificação surgiu através do coreano Sun Myung Moon, nos anos 1970. Seu grupo mistura o Cristianismo com a tradição Oriental, apresentando a necessidade de um guia presencial para levar a humanidade de volta à perfeição e ao Paraíso. Jesus teria iniciado esse processo, sendo agora substituído por Moon como sua nova aparição. Os seguidores são chamados de Moonies (mu-ni-es), um de seus escritos sagrados é o Princípio Divino, uma re-interpretação oriental da Criação, Queda do Homem e da História do Cristianismo, escrito por Moon logo após a 2ª Guerra.

² O movimento Hare Krishna é uma vertente do hinduísmo surgida no séc. 16, que usa como textos sagrados o Bhagavad Gita e o Bhagavata Purana. Praticam o culto a Krishna, 8ª forma humana do deus Vishnu e representativo de seu amor, além de mantras para meditação e yoga. Popularizou-se na América durante o movimento Hippie.

³ Embora o Cristianismo tenha Crescido rapidamente na Síria e Turquia, estima-se que uma das cidades com maior porcentagem de Cristãos nos primeiros séculos tenha sido, incrivelmente, a capital do Império Romano.

* Os Mórmons ou Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias é considerada uma seita Cristã e surgiu com o profeta estadounidense Joseph Smith no início do séc. 19. Smith é o autor do Livro de Mórmon, que junto com o Velho e o Novo Testamento compõe as escrituras Mórmons. O livro traz, entretanto, uma outra versão das duas demais escrituras. Um certo Jared e seu irmão (cujo nome foi propositalmente omitido) fugiram da Torre de Babel em 2500 a.C. e navegaram até a América, onde foram visitados por Jesus (ainda não material) e estabeleceram um reino promissor. No ano 600 a.C., pouco antes da destruição de Jerusalém pelos Babilônios, um homem chamado Nehi levou sua família até o Golfo Pérsico e depois ao redor da África e através do Atlântico, onde encontrou vestígios do reino de Jared e iniciou sua própria colônia americana, que durou até 130 a.C. Os registros de seu povo foram guardados pelo profeta americano Mórmon (385 d.C). Após o período dos mártires, no Oriente Médio, a Igreja então se corrompeu. O profeta Mórmon, entretanto, apareceu como anjo Moroni para o profeta Joseph Smith, para revelar onde guardara suas escrituras, que serviram de base para o Livro. Os mórmons são conhecidos por terem feito grandes peregrinações no território estadounidense, em busca de sua terra prometida, até se fixarem na região que hoje é o estado de Utah. Eles essencialmente não se casam com não convertidos e mantém grupos patriarcais, onde os homens são aconselhados a possuírem várias esposas.

** Pareceria estranho falar de uma participação de Paulo nos Evangelhos. Mas as cartas de Paulo são, incrivelmente, anteriores à elaboração escrita dos Evangelhos. Dos seguidores nomeados de Jesus, apenas Mateus e João deixaram obras escritas que nos chegaram. As demais versões - Marcos e Lucas - são justamente de companheiros de Paulo em suas viagens. E, mais curioso ainda, a última ceia descrita por Mateus e Lucas coincide com a descrição de Paulo, mas não com a de João.

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Não deixe de ler o original:

STARK, Rodney. The rise of Christianity: A sociologist reconsiders history. Princeton University Press, 1996.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

O Evangelho da culpa



Um lembrete fortuito.

Continuou Jesus: "Digo-lhes a verdade: Nenhum profeta é aceito em sua terra. Asseguro-lhes que havia muitas viúvas em Israel no tempo de Elias, quando o céu foi fechado por três anos e meio, e houve uma grande fome em toda a terra. Contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, senão a uma viúva de Sarepta, na região de Sidom.Também havia muitos leprosos em Israel no tempo de Eliseu, o profeta; todavia, nenhum deles foi purificado: somente Naamã, o sírio". Todos os que estavam na sinagoga ficaram furiosos quando ouviram isso. Levantaram-se, expulsaram-no da cidade e o levaram até ao topo da colina sobre a qual fora construída a cidade, a fim de atirá-lo precipício abaixo. Mas Jesus virou para eles e disse: “Bem sabia o quão malignos eram vocês”, e precipitou vários no precipício.
….

Na sinagoga de Cafarnaum havia um homem possesso de um demônio, de um espírito imundo. Ele gritou com toda a força: "Ah! que queres conosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir? Sei quem tu és: o Santo de Deus!" Jesus o repreendeu, e disse: "Homem impuro, que abriga o demônio. Atirem-no fora desse lugar e do meu povo". Então expulsaram o homem diante de todos, e saiu da sinagoga sem nunca mais voltar. Todos ficaram admirados, e diziam uns aos outros: "Que palavra é esta? Aos homens dá ordens com autoridade e poder, e eles obedecem!

Estando Jesus numa das cidades, passou um homem coberto de lepra. Quando viu a Jesus, prostrou-se com o rosto em terra e rogou-lhe: "Se quiseres, podes purificar-me". Jesus afastou o homem e repreendeu-lhe, dizendo: "Bem disse Moisés que os impuros ficassem longe do povo. Quero que vá embora e amargure-se pelo seu pecado!" E imediatamente o homem o deixou. Então Jesus lhe ordenou: "Não conte isso a ninguém; não apareça ao sacerdote sacerdote até que esteja puro, para que sirva de testemunho".
...

Certo dia, quando ele ensinava, estavam sentados ali fariseus e mestres da lei, procedentes de todos os povoados da Galiléia, da Judéia e de Jerusalém. E o poder do Senhor estava com ele para falar. Vieram alguns homens trazendo um paralítico numa maca e tentaram fazê-lo entrar na casa, para colocá-lo diante de Jesus. Não conseguindo fazer isso, por causa da multidão, subiram ao terraço e o baixaram em sua maca, através de uma abertura, até o meio da multidão, bem em frente de Jesus. Vendo o que faziam, Jesus disse: "Homem, os seus pecados estão expostos na sua doença. Peça perdão por eles e volte quando estiverem sarados". Os fariseus e os mestres da lei começaram a pensar: "Quem é esse com tamanha sabedoria? Quem poderia inspirar ele, a não ser somente Deus?"
...

Certo sábado, enquanto Jesus passava pelas lavouras de cereal, seus discípulos tiveram fome, mas Jesus impediu que colhessem as espigas com as mãos, perguntando: "Por que vocês estão fazendo o que não é permitido no sábado?" E então lhes disse: "O Filho do homem é obedecedor do sábado. Meu Pai descansou, e eu também descansarei".
...

Jesus fez também a seguinte comparação: "Pode um cego guiar outro cego? Não cairão os dois no buraco? O discípulo não está acima do seu mestre, mas todo aquele que for bem preparado será como o seu mestre. Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão e não lhe instrui sobre como sarar-se? Você pode dizer ao seu irmão: ‘Irmão, deixe-me tirar o cisco do seu olho’, se você for uma pessoa pura. "Nenhuma árvore boa dá fruto ruim, se estiver em boa terra. Toda árvore é reconhecida por suas raízes. Ninguém colhe figos em árvores que tenham nascido de espinheiros, nem uvas em videiras nascidas de ervas daninhas.

E estava ali certa mulher que havia doze anos vinha sofrendo de uma hemorragia e gastara tudo o que tinha com os médicos; mas ninguém pudera curá-la. Ela chegou por trás dele, tocou na borda de seu manto, e imediatamente cessou sua hemorragia. "Quem tocou em mim?", perguntou Jesus. Como todos negassem, Pedro disse: "Mestre, a multidão se aglomera e te comprime". Mas Jesus disse: "Alguém tocou em mim; eu sei que de mim saiu poder. Afastai essa multidão, porque não convém que o Filho do Homem seja tocado por pecadores". Então a mulher, vendo que passara despercebida, saiu e desapareceu na multidão. Então ele lhe disse: "Ficai longe dos filhos do pecado, pois sua culpa é grande pelos males que lhes afligem".

Começou uma discussão entre os discípulos, acerca de qual deles seria o maior. Jesus, conhecendo os seus pensamentos, chamou-os para o seu a seu lado. Então lhes disse: "Quem me recebe está me recebendo aquele que me enviou. Mas aquele que não estiver perto de mim, para esses eu reservarei choro e ranger de dentes. E será ele o menor dentre os homens". Disse João: "Mestre, vimos um homem expulsando demônios em teu nome e procuramos impedi-lo, porque ele não era um dos nossos." "Fizeste bem", disse Jesus, "pois quem não um dentre vocês, é contra vocês".
… 

Era-lhe necessário passar por Samaria. Assim, chegou a uma cidade de Samaria, chamada Sicar, perto das terras que Jacó dera a seu filho José. Havia ali o poço de Jacó. Jesus, cansado da viagem, sentou-se à beira do poço. Isto se deu por volta do meio-dia. Nisso veio uma mulher samaritana tirar água. Disse-lhe Jesus: "Dê-me um pouco de água". (Os seus discípulos tinham ido à cidade comprar comida.) A mulher samaritana lhe perguntou: "Como o senhor, sendo judeu, pede a mim, uma samaritana, água para beber?" (Pois os judeus não se dão bem com os samaritanos.) 

Jesus lhe respondeu: "Se você conhecesse o dom de Deus e quem lhe está pedindo água, você lhe teria pedido e ele lhe teria dado água viva". Disse a mulher: "O senhor não tem com que tirar a água, e o poço é fundo. Onde pode conseguir essa água viva? Acaso o senhor é maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, do qual ele mesmo bebeu, bem como seus filhos e seu gado?" Jesus respondeu: "Quem beber desta água terá sede outra vez, mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. E estará em sua fronte estampado e será conhecido por todos que esse é portador de água da vida. Quanto àqueles que não forem reconhecidos como tais, ficai longe deles."

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Obs: Se você leu até aqui, estes trechos da Bíblia NVI foram alterados.

domingo, 28 de setembro de 2014

Se Deus convive com o Mal


Disse Félix:
_ Quando considero o erro, a vilania, a imundície do mundo e a pouca devoção, caridade e amor que as gentes têm a Deus, parece-me que Deus não está no mundo, porque quando o Sol está no ar, ilumina o ar e a terra, aquecendo o ar, a água e a terra. Portanto, se o Deus da glória, que é caridade e resplendor, pureza de toda pureza, caridade e fonte de vida, está no mundo, como pode o mundo estar nesse estado tão conturbado?

Disse o Eremita:
_ Em uma alta montanha estava um homem que sentia muito frio por causa da neve que havia naquele monte. Aquele homem viu o fogo em outro monte e se surpreendeu porque o fogo que via não o aquecia e a neve onde estava o esfriava, e teve uma louca maneira de se assombrar.


(Ramon Lull, Félix o El Libre de meravelles, 1288)

Uma questão comumente colocada aos cristãos é: ‘Se Deus é bom, talvez ele não seja poderoso o suficiente para para lidar com o mal e a injustiça no mundo, que todos podemos ver. Se Ele é poderoso o suficiente para parar toda ação errada, então Ele deve ser um Deus mal que não faz nada a respeito. Seria Ele um deus não tão poderoso ou um deus mal? E se for ambos, porque o chamamos de Deus?’ A Bíblia mostra que essa questão é antiga:

Porque males sem número me têm rodeado; as minhas iniqüidades me prenderam de modo que não posso olhar para cima. São mais numerosas do que os cabelos da minha cabeça; assim desfalece o meu coração. (Salmos 40.12).

Por que dura a minha dor continuamente, e a minha ferida me dói, e já não admite cura? Serias tu para mim como coisa mentirosa e como águas inconstantes?’ (Jeremias 15.18)

Os antigos sofreram com o mal como sofremos hoje e não deixaram de se perguntar: ‘Porque Deus permite o mal?’. Mais criticamente, é comum que ateus usem a lógica de um Deus bom e onipotente que não acaba com o Mal como uma prova da inexistência de Deus. No entanto, essa lógica traz embutida a premissa (não necessariamente verdadeira) de que um deus onipotente e bom terminaria com a existência do Mal, ou garantiria uma eternidade de prazeres a todos os homens.

O livro de Gênesis diz que Deus desejou criar o mundo e os homens, mas não os fez da forma como são hoje. Ele os fez bons e perfeitos, e permaneceram nesse estado por muito tempo até que tudo mudou, e dessa forma o homem tem um papel como iniciador do mal que lhe aflige. Mas a Bíblia também diz que esse estado de imperfeição é passageiro, e que o mundo retornará à sua perfeição:

E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas. E o que estava assentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. (Apocalipse 21.4-5)

Uma vez que o homem deve passar por esse estágio intermediário entre a perfeição inicial e a perfeição final, devemos saber que não foi esse o plano de Deus e portanto não julgá-lo pela nossa convivência com o Mal.

Sem pretender responder a essa questão milenar mas apenas pensando em fomentar um pouco de pensamento crítico sobre a religião, abaixo seguem algumas teorias. Foram tomadas as principais correntes de pensamento que se desenvolveram sobre os motivos pelos quais Deus permite o sofrimento dos homens (o que chamamos de 'o Mal'), mesmo sendo um Deus poderoso e bom. De qualquer forma, podemos saber que Deus não é injusto ao fazer o homem passar por esse período de tribulação porque Ele mesmo esteve sobre essa terra e provou o sofrimento humano, na pessoa de Jesus.

1. Não sabemos ou não saberemos o propósito disso até que nos seja revelado (talvez no outro mundo).

Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos. Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. (1ª Coríntios 13.9-12)

No livro de Jó, por exemplo, encontramos uma situação em que um homem e todos os seus próximos são afligidos por mortes, pestilências, ataques, etc (o que chamamos de males) gerados por Satanás e com o consentimento de Deus. Os homens aos redor de Jó, assim como o próprio Jó, se questionam sobre as causas daquilo, procurando inutilmente nas ações humanas uma resposta. Em última instância, a causa dos males que se abatiam sobre Jó era sua fidelidade a Deus! Se havia algum propósito nos acontecimentos, era de que Deus ensinasse algo a Satanás, porém nenhum dos dois era visto pelos homens que discutem sobre a natureza e o porquê daquele mal em particular.

Como sugere o livro de Jó, talvez o Mal seja apenas reflexo de um embate entre seres espirituais cujas razões e propósitos não nos são compreensíveis. Essa não é uma situação animadora, mas o fato de não gostarmos dela não indica que seja falsa. Podemos aceitar os males, sofrer, consolarmos uns aos outros ou nos questionar mutuamente, mas a origem e o propósito disso talvez estejam definitivamente fora do nosso alcance. A não resposta satisfatória a uma pergunta milenar talvez sugira algo assim.

2. Livre-arbítrio

Conforme defendido Santo Agostinho de Hippona (séc 4) pelo filósofo atual Alvin Carl Platinga, o livre-arbítrio pressupõe que os homens sejam livres para fazer o que desejam, mesmo que isso os afaste do plano divino. Dessa forma, o Mal resulta da vontade humana de se afastar da perfeição de Deus. Ao exercer o seu livre-arbítrio e desejar fazer o contrário do que Deus disse, Adão escolheu o Mal. E ao separar-se de Deus, o homem também permitiu que o Mal entrasse no mundo, de forma que a Natureza tornou-se inimiga de si mesma e da humanidade. Em diversas religiões, a ação maléfica da Natureza é atribuída à presença de demônios no mundo.

Portanto, da mesma forma como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, assim também a morte veio a todos os homens, porque todos pecaram; pois antes de ser dada a lei, o pecado já estava no mundo. Mas o pecado não é levado em conta quando não existe lei
. (Romanos 5.12-13)

Curiosamente, o texto bíblico como um todo parece ora afirmar o livre arbítrio (por ex. Saul foi punido por executar a tarefa do profeta Samuel, que era oferecer sacrifícios), ora colocar-se contra ele (afinal Jó sofreu sem ofender a Deus e Paulo afirma a tendência natural do homem para fazer o mal). Logicamente falando, se os homens tendem ao mal e não sabem discernir seus próprios caminhos, o livre arbítrio não parece mais vantajoso que o acaso e seria estranho supor que Deus se importasse tanto com isso.

Além disso, o Mal em si geralmente restringe a liberdade de escolha das pessoas. Por exemplo, ao matar uma criança, um assassino a impede de exercer muitas ações no futuro. Não faz, assim, sentido em permitir (pelo argumento do livre-arbítrio) um Mal que sufoca o livre-arbítrio das pessoas. Ainda, Deus poderia fazer o mundo funcionar de formas que as decisões ‘boas’ fossem imensamente prazerosas e as ‘ruins’ fossem imediatamente punidas, de forma que o livre-arbítrio se convertesse em um treinamento efetivo. As demoras em punição e recompensa fazem o efeito disciplinadpr dessa estratégia parecer muito duvidoso.

3. Deus é indiferente ao Mal e não faz nada para nos proteger ou para nos prejudicar.

Essa teoria já foi defendida por Epicuro no séc. 3 a.C. (se bem que associada a um sistema politeísta vigente na Grécia) e atualmente é defendida pelo filósofo Paul Draper. É uma posição confortável à filosofia, uma vez que ela não exige grandes explicações e é muito mais simples do que a teoria concorrente, de que Deus está presente na vida humana e não é indiferente ao Mal (na verdade essa é a razão de todo o questionamento). No entanto, essa teoria encontra forte oposição no conteúdo bíblico, a começar da expulsão do Homem no Gênesis.

O argumento de Paul Draper reside justamente no número fabulosamente alto de almas que Deus deveria julgar e acomodar desde o ‘início’ do que chamaríamos de espécie humana: 50 bilhões de crianças, 50 bilhões de adultos e 300 bilhões de fetos. O comentário de Jesus sobre isso é bem sucinto:

Não se perturbe o coração de vocês. Creiam em Deus; creiam também em mim. Na casa de meu Pai há muitos aposentos; se não fosse assim, eu lhes teria dito. Vou preparar-lhes lugar. E se eu for e lhes preparar lugar, voltarei e os levarei para mim, para que vocês estejam onde eu estiver. Vocês conhecem o caminho para onde vou. (João 14.1-4)

Santo Agostinho de Hippona descrevia o Mal simplesmente como a ausência de Deus, assim como a escuridão é a ausência de luz e a doença é a ausência de saúde. Não possuindo existência o Mal, Deus não poderia ser culpado por sua ocorrência. Isso no entanto não resolve o problema, apenas mudando-o para ‘porque Deus se abstém de ajudar todas as pessoas?’.

4. Deus faz uso do Mal para disciplinar as pessoas e ensiná-las. O sofrimento das pessoas faz parte da força motriz para que se aproximem Dele e O sigam.

Meu filho, não despreze a disciplina do Senhor nem se magoe com a sua repreensão, pois o Senhor disciplina a quem ama, assim como o pai faz ao filho de quem deseja o bem. (Provérbios 3.11-12)

Quem recusa a disciplina faz pouco caso de si mesmo, mas quem ouve a repreensão obtém entendimento. (Provérbios 15.32)

Mas ele me disse: "Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza". Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim. (2ª Coríntios 12.9)

C.S. Lewis argumentou, certa vez, que os homem sabem da existência do Mal pelo afastamento daquilo que é bom, e portanto o Mal nos presenteia sempre com o conhecimento do que é Deus. A grande complexidade dessa resposta está no fato de que as pessoas têm concepções distintas do que é o Mal, e dessa forma do que é Deus. A dificuldade está justamente em conciliar as diversas noções ‘naturais’ de Deus com um ser único e independente. Paulo, de forma semelhante, argumenta que os que crêem não experimentam o sofrimento como aqueles que não crêem:

Não quero, porém, irmãos, que sejais ignorantes acerca dos que já dormem, para que não vos entristeçais, como os demais, que não têm esperança. (1ª Tessalonicenses 4.13)

Existe sempre a possibilidade de que Deus se aproveite do Mal para nos sussurrar conforto e garantir assim que nos lembremos Dele, e assim Ele permitiria a existência do Mal porque prefere o nosso caráter aperfeiçoado ao nosso conforto. Na Bíblia, diversas vezes aparece a imagem de Deus associado ao crisol, instrumento usado pelos ourives para purificar o ouro através do fogo:

O crisol é para a prata e o forno é para o ouro, mas o Senhor prova o coração. (Provérbios 17.3)

E voltarei contra ti a minha mão, e purificarei inteiramente as tuas escórias; e tirar-te-ei toda a impureza. (Isaías 1.25)

"Vejam, eu enviarei o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim. E então, de repente, o Senhor que vocês buscam virá para o seu templo; o mensageiro da aliança, aquele que vocês desejam, virá", diz o Senhor dos Exércitos. Mas quem suportará o dia da sua vinda? Quem ficará de pé quando ele aparecer? Porque ele será como o fogo do ourives e como o sabão do lavandeiro. Ele se sentará como um refinador e purificador de prata; purificará os levitas e os refinará como ouro e prata. Assim trarão ao Senhor ofertas com justiça. Então as ofertas de Judá e de Jerusalém serão agradáveis ao Senhor, como nos dias passados, como nos tempos antigos. (Malaquias 3.1-4)

O filósofo Richard Swinburne argumenta, quanto a isso, de que não faz sentido haver bens melhores que serão conseguidos através dos males terrenos se esses bens não forem conhecidos. Entretanto, os bens do Reino de Deus são declarados abertamente: na verdade, Jesus os coloca como o tesouro mais precioso pelo qual alguém daria tudo o que possui (e que de fato custará esse tanto):

Também o reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem achou e escondeu; e, pelo gozo dele, vai, vende tudo quanto tem, e compra aquele campo. Outrossim o reino dos céus é semelhante ao homem, negociante, que busca boas pérolas; E, encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo quanto tinha, e comprou-a. (Mateus 13.44-46)

Bem-aventurados aqueles servos, os quais, quando o Senhor vier, achar vigiando! Em verdade vos digo que se cingirá, e os fará assentar à mesa e, chegando-se, os servirá. E, se vier na segunda vigília, e se vier na terceira vigília, e os achar assim, bem-aventurados são os tais servos. (Lucas 12.37-38)

Outra argumentação, desta vez do filósofo John Hick, coloca que as qualidades desenvolvidas pelas pessoas que sofrem são úteis justamente para resistir ao Mal. Dessa forma, na ausência do Mal elas se tornam desnecessárias e o Mal acaba justificando a si mesmo e por si mesmo. Porém, Hick desconsidera o papel do ensino de uma pessoa para outra. Por exemplo, os Salmos são orações escritas em grande parte por Davi enquanto sofria perseguição pelo exército de Saul. Ainda que as provações de Davi não sejam o que o tornou um homem exemplar perante Deus e os homens, os ensinamentos deixados por ele 3000 anos atrás ainda hoje são muito influentes sobre a vida das pessoas. Em outras palavras, o sofrimento de uns poderia certamente criar sabedoria que melhorasse a vida de outros.

5. Deus usa pequenos males para evitar a ocorrência de grandes males.

Naturalmente, há uma possibilidade de isso nos conduzir de volta ao Mal como forma de ensino. Mas isso deixa em aberto a questão de porque Ele usa o sofrimento para prevenir sofrimento.O filósofo Stephen Maitzen acrescenta que o fato de os bens do Reino de Deus serem maiores que os males terrenos diminui a importância dos males, mas não os justifica.

E o que dizer de grandes tragédias como aviões caindo, tsunamis e terremotos? Essas ocorrências não parecem pequenos males para as populações que as vivenciam. A única e sempre efetiva forma de parar todo sofrimento é a morte, que obviamente não é sempre usada.

No séc. 2, Santo Irineu de Lyon defendeu que os males sobre a humanidade geralmente trazem prejuízo ao Espírito Humano e, além disso, seria esperado que tais males recaíssem principalmente sobre as pessoas mais afastadas de Deus. No entanto, tais pessoas gozam de toda proteção que a riqueza pode lhes proporcionar, enquanto os mais afetados por catástrofes e males de causa incontrolável são justamente os pobres e mais religiosos.

Jesus garante que os males sobrevêm sobre todos, justos e injustos.

E, naquele mesmo tempo, estavam presentes ali alguns que lhe falavam dos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com os seus sacrifícios. E, respondendo Jesus, disse-lhes: ‘Cuidais vós que esses galileus foram mais pecadores do que todos os galileus, por terem padecido tais coisas? Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis. E aqueles dezoito, sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, cuidais que foram mais culpados do que todos quantos homens habitam em Jerusalém? Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis.’ (Lucas 13.1-5)

Ele mesmo cita dois grandes males (o assassinato de muitos por ordem de Pilatos e a queda da torre de Siloé), afirmando que não vieram sobre os piores homens. O que diferencia os homens é o arrependimento em face do Mal, que dessa forma se torna um meio de os homens se livrarem de um mal maior, que é a morte do espírito.

As pessoas que acreditam em karma entendem que não há sofrimento no mundo que não seja merecido por um sofrimento causado a outro numa vida passada (a qual nunca é possível avaliar). Entretanto, o real problema do Mal está no sofrimento causado a pessoas inocentes. Os Cristão podem crer num mal que ocorra como prevenção a algo pior, mas o nosso conceito de ‘mal’ é realmente algo limitado à história de vida pessoal e/ou ao momento presente e, assim, não temos como realmente distinguir um ‘mal causado para bem maior’ de um ‘mal injustificado’, vide os diálogos dos amigos de Jó. Dessa forma, o argumento que que um mal maior pode ‘disciplinar’ ou ‘prevenir’ um mal maior fica difícil de aceitar, dada a incapacidade humana. A menos, é claro, que lembremos da fé nas escrituras…

Além disso, o fato de ‘pequenos males’ serem em prol de um bem maior suporta que os Cristãos se filiem ao mal presente e o ajudem, em prol do que Deus planejaria. Infelizmente, não são poucas as pessoas a tomar esse ponto de vista.

6. Deus faz uso do Mal para atingir seus objetivos, que são maiores do que os nossos.

Por exemplo, a redenção dos homens requeria que Jesus fosse morto por homens maus. Assim, Deus permitiu que tais homens existissem a fim de que os homens fossem redimidos.

Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos. (João 15.13)

Pois os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês, nem os seus caminhos são os meus caminhos, declara o Senhor. Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os meus caminhos são mais altos do que os seus caminhos e os meus pensamentos mais altos do que os seus pensamentos. (Isaías 55.8-9)

Em bem mais de uma ocasião na Bíblia as pessoas são afligidas por males que não sabem de onde vêm (como por exemplo os habitantes do mundo durante o Dilúvio, ou os egípcios durante as pragas narradas no Êxodo), às quais o Senhor declara abertamente ser Ele a causa, em razão de algum motivo determinado por Ele mesmo.

Eu sou o Senhor, e não há nenhum outro; além de mim não há Deus. Eu o fortalecerei, ainda que você não tenha me admitido, de forma que do nascente ao poente saibam todos que não há ninguém além de mim. Eu sou o Senhor, e não há nenhum outro. Eu formo a luz e crio as trevas, promovo a paz e causo a desgraça; eu, o Senhor, faço todas essas coisas. (Isaías 45.5-7)

Em seu coração o homem planeja o seu caminho, mas o Senhor determina os seus passos. (Provérbios 16.9)

Os passos do homem são dirigidos pelo Senhor. Como poderia alguém discernir o seu próprio caminho? (Provérbios 20.24)

Dessa forma, o bem e o mal pelos quais cada homem passa são, de certa forma, previstos e conduzidos pelo Senhor. Isso está bem de acordo com um Deus onipotente e onisciente, mas fica difícil de sustentar frente a um sistema de punições de ações cometidas. Porque alguém seria culpado de decisões que lhe foram imputadas por poderes superiores? Essa visão do Mal como um mero instrumento de Deus também é compartilhada pelos Testemunhas de Jeová e pelo Islã.

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VALE LER ISSO TAMBÉM

Josh McDowell Ministry, Why does a good God allow evil to exist?

Norman Geisler, If God Exists, Why Is There Evil?, Billy Graham Evangelistic Association, May 8, 2007

Slick M, If God is all powerful and loving, why is there suffering in the world?, Christian apologetics & research ministry

Wikipedia, Problem of Evil

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Temperos e Destemperos no reinado de Davi

Gustave Doré - o fim de Absalão

Davi foi um rei icônico entre os judeus. Após ser ungido pelo profeta Samuel para tomar o trono de Saul, o pequeno pastor/músico de cabelos vermelhos derrotou o gigante Golias, compôs boa parte dos Salmos, assumiu o reinado após anos sendo perseguido no deserto, tomou a fortaleza dos jebusitas e a converteu em capital de Israel, submeteu todos os povos ao redor, estruturou a monarquia em Hebron e deixou para seu filho Salomão a missão de construir o Templo de Deus. Ele é citado como exemplo no restante do Velho Testamento e mesmo no Novo Testamento, 1000 anos depois. Sua linhagem de reis terminou por desaparecer, mas Jesus foi um seu descendente.

Ao tornar-se rei, Davi garantiu de forma generosa a sua linhagem. Como era costume, o rei possuía muitas concubinas dentre os clãs poderosos (além de sua esposa, normalmente filha de outro rei). No 1º Livro de Crônicas dos reis de Israel, são descritos 19 príncipes nascidos de Davi. E a menos que as regras da genética fossem muito diferentes no tempo dele, é provável que houvesse o mesmo número de FILHAS NÃO NOMEADAS. São cerca de 40 filhos... dos quais apenas uma das mulheres é apontada.

Os filhos de Davi:

1) o primogênito Amon, filho de Aquinoã de Jezrael
2) Daniel, de Abigail, de Carmelo;
3) Absalão, filho de Maaca, filha de Tolmai, rei de Gessur;
4) Adonias, filho de Agit;
5) Safatias, de Abital;
6) Jetraão, de Egla, mulher de Davi;
7) Simaa, de Betsué, filha de Amniel
8) Sobab, de Betsué;
9) Natã, de Betsué;
10) Salomão, de Betsué;
11) Jebaar
12) Elisama
13) Elifalet
14) Noge
15) Nefeg
16) Jafia
17) Elisama
18) Eliada
19) Elifelet

e... Tamar, filha de Maaca. É bastante curioso que o nome de Tamar seja o único dentre as princesas que permaneceu nas escrituras. Porque só ela? Onde foram parar as outras? Não podemos dizer com certeza, mas Tamar era curiosamente o nome de uma divindade da Caldéia, povo com o qual os hebreus eram aparentados. A Tamar caldéia era uma deusa da fertilidade, não tão diferente do significado de Tamar em hebraico: palmeira do amor. Quem ler o Cântico dos Cânticos / Cantares de Salomão certamente verá Tamar aparecer de formas muito sensuais ali... Talvez sempre 1as filhas sempre fossem chamadas Tamar. Tamar também era a polêmica nora de Judá que havia gerado uma cisão na linhagem dos patriarcas de Israel (Gênesis 38).

Bom, a Tamar de Davi também foi protagonista de uma história de paixão e guerra. Por ela se apaixonou o primogênito Amon, que fingiu-se doente, foi cuidado por ela e a violentou, enchendo de ódio a família do rei Tolmai. Mais tarde, Amon seria morto à traição pelos servos de Absalão, irmão de Tamar.

A Bíblia recorda Absalão como tendo uma personalidade digna do tirânico rei John, de Robin Hood: absolutamente necessitado da atenção de todos. Após matar o primogênito de Davi, Absalão foge para Gesur, reino de sua mãe, onde permaneceu por 3 anos até que se findasse o luto de Davi. Então ele e o general Joab (homem da mais alta confiança de Davi) conseguem uma habilidosa atriz para encenar o luto diante de Davi e fazer com que o rei jurasse proteção a Absalão contra o povo de Israel.

Salva-me, ó rei, salva-me! ... Ai de mim, disse ela, sou uma viúva. Meu marido morreu. Tua serva tinha dois filhos. Brigaram no campo, e não havendo quem os separasse, um deles feriu o outro e matou-o. E eis que agora se levanta contra a tua serva toda a família, dizendo-lhe: dá-nos o fratricida, para o matarmos em castigo do sangue do irmão que ele matou, e exterminaremos o herdeiro. Querem assim apagar a última brasa que me resta, de modo que não se conserve de meu marido nem nome, nem posteridade na terra. ... Sobre mim, e não sobre a casa de meu pai recaia a culpa; o rei e o seu trono serão inocentes. ... Queira o rei lembrar-se do Senhor, seu Deus, para que o vingador do sangue não agrave a desgraça, matando o meu filho!

E após a garantia de proteção do rei... eis a emenda:

Permite que a tua serva diga uma palavra ao rei, meu senhor? ... Por que, pois, pensas fazer o mesmo contra o povo do Senhor? Pronunciando essa sentença, o rei se confessa culpado, pelo fato de não se lembrar daquele que desterrou. Quando morremos, somos como a água que não mais se pode recolher, uma vez derramada por terra. Deus não faz voltar uma alma. Cuide, pois, o rei, que o banido não fique mais exilado longe dele. Se eu vim falar desse assunto ao rei, foi porque o povo me aterrou. A tua serva disse: falarei ao rei: talvez o rei faça o que eu lhe pedir. Sim, o rei me ouvirá e livrar-me-á da mão do homem que procura excluir-nos, a mim o meu filho, da herança do Senhor. Que o rei se digne pronunciar uma palavra de paz, porque o rei, meu senhor, é como um anjo de Deus para discernir o bem do mal. Que o senhor, teu Deus, seja contigo! (2 Samuel 14.1-21)

Dessa forma Absalão foi readmitido na fortaleza de Jerusalém, mas não ainda na presença do rei. Uma vez em lá, ele teve 3 filhos (não nomeados) e uma filha chamada... Tamar! Absalão, entretanto, não conhecia a gratidão. De volta à citadela, ele reivindicava seu lugar à mesa real:

Por que vim eu de Gessur? Seria melhor ter ficado lá. Quero ser admitido à presença do rei; se sou culpado, que me matem! (2 Samuel 14.32)

A entrevista de Absalão foi pedida por ninguém menos que o respeitado general Joab. Em sua dor de não ser notado, Absalão decidiu atrair a atenção do general mandando incendiar os campos dele...

Pela intercessão de Joab, Davi aceitou Absalão novamente à sua mesa. Com Amon morto, agora ele estava mais próximo do trono e não pretendia submeter-se ao governo do irmão. Absalão começou a arquitetar a substituição prematura do pai, e ao mesmo tempo garantir que o trono ficasse com ele e nenhum dos outros 17 irmãos. Colocou-se por 4 anos à entrada da cidade, abençoando quem viesse falar ao rei e informando que o rei não o receberia. Entretanto, se ele mesmo fosse rei, tudo seria diferente! Qualquer semelhança com as campanhas políticas atuais não é mera coincidência.

Após esses anos de campanha, Absalão havia reunido muitos seguidores e organizou simpatizantes nos clãs de Israel para que o louvassem como rei de Hebron quando ele fosse à antiga capital. Naturalmente, ele também convenceu o rei da necessidade de fazer essa peregrinação com muitos homens. Deus foi testemunha.

Deixa-me ir a Hebron para cumprir ali uma promessa que fiz ao Senhor. Quando o teu servo estava em Gessur, fez este voto: se Senhor me reconduzir a Jerusalém, irei prestar-lhe culto em Hebron. (2 Samuel 15.7-8)

O TRONO ATRAI A CULPA E OS INTERESSEIROS

Como o rei John de Robin Hood, Absalão reuniu ao seu redor pessoas orgulhosas que trocassem sua fidelidade a Davi (até então o escolhido de Deus) por altos cargos na corte. Entre eles estava Aquitofel, conselheiro de guerra. Mais tarde, quando seu prestígio fosse perdido, ele se mataria. Mas Davi também não estava imune aos interesseiros: quando Absalão reuniu um exército e marchou para Jerusalém, Davi fugiu e logo veio ao seu encontro Siba, antigo servo da casa de Saul, que havia abandonado seu amo Mefiboset e, jurando que Mefiboset se unira a Absalão, conseguiu que Davi lhe garantisse as riquezas que haviam pertencido a Saul.

Quando assumiu o trono, Davi interrompeu a linhagem de Saul e usurpou seu trono. Ok, houve ação divina nisso, mas Davi entendia os homens, não a DeusDavi; ele se culpava pelo ocorrido. Abandonou Jerusalém em pranto, sendo inclusive apedrejado e amaldiçoado por Semei, neto de Saul.

[Semei] Atirava pedras contra o rei Davi e contra todos os seus servos, embora todo o exército e todos os guerreiros valentes se encontrassem à direita e à esquerda do rei. E o amaldiçoava, dizendo: Vai-te, vai-te embora, homem sanguinário e celerado. O Senhor faz cair sobre ti todo o sangue da casa de Saul, cujo trono usurpaste; o Senhor entregou o reino ao teu filho Absalão. Eis-te oprimido de males, homem sanguinário que és! (2 Samuel 16.6-8)

Que nos importa, filho de Sarvia?, respondeu Davi. Deixa-o amaldiçoar. Se o Senhor lhe ordenou que me amaldiçoasse, quem poderia dizer-lhe: por que fazes isso? ... Vede: se meu filho, fruto de minhas entranhas, conspira contra a minha vida, quanto mais agora esse benjaminita? Deixai-o amaldiçoar, se o Senhor lho ordenou.Talvez o Senhor considere a minha aflição e me dê agora bens por esses ultrajes. Davi e seus homens retomaram o seu caminho, mas Semei ia ao longo da montanha, ao lado dele, vomitando injúrias, atirando-lhe pedras e espalhando poeira pelo ar. (2 Samuel 16.10-13)

Seu maior tesouro, a Arca da Aliança, Davi mandou que deixassem em Jerusalém enquanto vagava com seus mais fiéis pelos ribeiros que conduziam para longe da cidade-fortaleza.

A REBELIÃO MAL-FADADA

Os que permaneceram no palácio de Davi foram os que ele mandou ficarem lá. Entre estes estavam suas concubinas, os levitas que guardavam a Arca, e Cusai, conselheiro de guerra. Absalão conhecia o renome de Cusai e o recrutaria. Ele deveria invalidar os conselhos de Aquitofel e garantir que Absalão não capturasse/matasse o pai. Além disso, Cusai enviava mensagens a Davi através dos sacerdotes e dos camponeses. Absalão era rei, mas todos permaneciam fiéis a Davi!

Necessitado que era da adoração de todos (e não de Deus), Absalão montou uma tenda nas partes altas do palácio, onde violentava as concubinas de seu pai à vista de todo o povo. Levado por Cusai (pois Aquitofel se suicidara), Absalão partiu à guerra contra o pai, em terreno perigoso, contra combatentes experientes e famosos, liderados ainda por um traidor. Onde isso levaria?

AMOR DE PAI, MAS NÃO DE AMIGO

Saiu, pois, o povo ao campo, a encontrar-se com Israel, e deu-se a batalha no bosque de Efraim. E ali foi ferido o povo de Israel, diante dos servos de Davi; e naquele mesmo dia houve ali uma grande derrota de vinte mil. Porque ali se derramou a batalha sobre a face de toda aquela terra; e foram mais os do povo que o bosque consumiu do que os que a espada consumiu naquele dia. (2 Samuel 18:6-8)

Em 969 a.C., o clima no Oriente Médio era mais úmido do que nos dias de hoje. A Bíblia relata montes onde se plantavam oliveiras, vinhas e figos, e onde cresciam cedros (pinheiros) e carvalhos. A exploração de madeiras durante a dominação romana e as guerras na Idade Média contribuíram muito para o processo de desertificação, mas ela ocorreria de qualquer forma, com o rebaixamento dos terrenos na região. Aparentemente, a floresta de Efraim (um terreno bastante acidentado) era perigosa o suficiente para que simplesmente muitos morressem tentando passar por ela.

Absalão ficou preso em um carvalho, o que não seria fácil de ocorrer em uma mata aberta, pois os carvalhos são árvores altas. Em mata fechada, entretanto, as trepadeiras estão por toda parte. E esse foi o fim do pretenso rei de Jerusalém: enroscado na mata, foi encontrado por Joab, o mesmo general que o havia ajudado a retornar para junto do pai e reaver sua posição no palácio. Embora nenhum servo de Davi tenha se permitido tocar no príncipe – e Davi havia ordenado isso – Joab não demorou a matar Absalão com as lanças que carregava. Mandou então que o atirassem em uma cova e cobrissem com pedras.

Seguro na terra de Maanaim, Davi chorou amargamente a perda do filho que desejava matá-lo.

E eis que vinha Cusai; e disse: Anunciar-se-á ao rei meu senhor que hoje o SENHOR te vingou da mão de todos os que se levantaram contra ti. Então disse o rei: Vai bem com o jovem, com Absalão? E disse Cusai: Sejam como aquele jovem os inimigos do rei meu senhor, e todos os que se levantam contra ti para mal. Então o rei se perturbou, e subiu à sala que estava por cima da porta, e chorou; e andando, dizia assim: Meu filho Absalão, meu filho, meu filho, Absalão! Quem me dera que eu morrera por ti, Absalão, meu filho, meu filho! (2 Samuel 18:31-33)

Jesus advertira sobre a diferença entre o joio – que produz para si mesmo - e o generoso trigo.