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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

A santa cultura (Sobre ter sido EVANGÉLICO parte 2)

Os Amish, um tema frequente do pintor estadounidense Kenneth Dewaard

Esse texto é uma continuação de A igreja do medo

Para quem perdeu o começo, essa é a transcrição de um longo desabafo nas redes sociais, que faz um bom retrato da 1ª geração da igreja nascida no séc. 21. Alguns dos comentários que se seguiram também foram recolhidos aqui, com correções de ordem gramatical. O texto postado originalmente foi preservado na íntegra.

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Sobre ter sido EVANGÉLICO e como isso f*d@# minha cabeça

Júlio Victor, 14jan2019

6 - Eu ficava com medo depois disso pois eu já tinha me apaixonado por Red Hot Chili Peppers e Angra, logo, eu tava carimbado pro inferno pois escutava isso todo dia, toda hora. Escondido, claro, Mas ainda bem que insisti nessa rebeldia, ou não estaria aqui hoje.

#A Evanescence era praticamente Gospel, muitas letras falavam de Deus. Amy Lee até já declarou ser Cristã, hehehe.

#B Eu gostava de Nelly Furtado, Red Hot, Katty Perry e no fundo eu também gostava de Lady Gaga demais, mas tinha medo de ouvir. Quando a música ficava na minha cabeça era horrível. Música "do mundo" colocava demônios na nossa vida, segundo a pregação da pastora Sarah Sheeva, que esteve na minha igreja e me deixou perturbada por anos (na época eu tinha na faixa de 12-13 anos).

#C O rock fez eu parar de ser religiosa.. Comecei a curtir rock muito cedo, com uns 10/11 anos.. Na época, meus parentes criticavam muito: ‘Ahh isso não é coisa de Deus, ahh essas músicas vai fazer você ir para o inferno..’ Eu sempre me perguntava: poxa mas por uma música eu vou para o inferno?? Isso não fazia sentido. Comecei a me questionar se ser Cristã ainda valia a pena. Depois que comecei a realmente questionar outras questões como hipocrisia, intolerância religiosa, principalmente A HISTÓRIA DO CRISTIANISMO, isso fez ainda mais eu parar de ser Cristã. Conheci a filosofia, li sobre bastante coisa, hoje em dia sou atéia. Minha família não aceita, mas sigo a minha vida normalmente..

7 - Eu comecei a tocar CLARINETE, troquei por uma guitarra e comecei a ser visto como rebelde por ter escolhido um instrumento tão agressivo. Eu não podia tocar com distorção, nem um drivezin, que me censuravam.

#A Se você conhecer o Rodolfo Abrantes, irá ver que esse evangelho que cega, manipula e mata as pessoas é um evangelho distorcido.

#B Para ele ter virado Cristão, foi motivado por algo (alguém, neste caso Deus) e fez com que ele mudasse muitas coisas pelas quais ele acreditava... Enfim, o fato é que Deus não se limita a religião, mas é importante encontrar uma igreja QUE SEGUE O QUE DE FATO ESTÁ NA BÍBLIA, para ter comunhão com outros pecadores que buscam se parecer com Jesus, e assim mudar muitos pensamentos já dados.

8 - Isso chegou ao ponto de TEREM uma VISÃO onde DEUS FALAVA que era para eu ir para um novo instrumento, esse era o VIOLÃO. Os caras inventaram, falaram em nome de Deus pra atender uma nóia deles.

#A Esse papo de visões é uma forma de conferir falsa autoridade e santidade à algum discurso humano qualquer.

#B Tem coisas que eu gosto e tem coisas que não gosto. Eu gosto de ouvir um bom samba, músicas eruditas e cantos gregorianos. Sou evangélica e nem por isso desprezo as demais religiões. Com meus pais que eram católicos (já morreram), eu aprendi: ouça o que o padre fala e depois reflita naquilo que é bom para você. Hoje sou protestante, há mais de 40 anos. Continuo fazendo a mesma coisa: ouço o pastor, depois tiro minha conclusões. O que é bom eu guardo, o que não é eu deixo fora.

#C Esse Deus dá um monte de visões sobre coisas fúteis. Quando se olha em escala mundial, na hora de resolver fome e guerra, só se escuta os grilos.

#D Quem nunca foi abordado por alguém que disse Jesus, em pessoa, tinha falado com ele? Que era pra você fazer tal coisa? Engraçado que, segundo eles, o que você faz incomoda tanto a Deus que ele vai falar com eles, ao invés de falar diretamente com você. Afinal, a gente tá lá dentro da igreja. Se é o nosso comportamento que tá incomodando Deus, porque ele fala com toda a igreja sobre isso, menos com você?

9 - Ainda sobre música, uma vez no grupo de CRIANÇAS me ouviram cantar e uma professora disse que eu não cantava bem o suficiente para Deus. Ela pediu para eu cantar mais baixo. Desde então, eu não cantava. Só fui fazer isso com meus 20 anos.

#A Aconteceu isso com o meu pai… Ele ainda vive na igreja, ele prega a palavra de Deus, mas se nega a todo custo cantar algum louvor quando tá dirigindo o culto. Ou entrar em um coral para acompanhar minha mãe.

#B Tenho uma história parecida. Na 2ª série tinha uma garota que cantava muito bem e a professora fazia ela cantar na frente da sala. Eu tava conversando com meu melhor amigo numa dessas, e a maldita professora fez eu ir cantar na frente da sala. Depois dessa vergonha, ela disse na frente da sala toda: "Pra você atingir o talento de fulana ainda falta muito". Imagina uma criança de 7 anos ouvindo isso na frente da turma toda! Detalhe: eu sempre amei cantar, mas depois disso perdi a coragem de cantar na frente de outros e até hoje não consigo aceitar quando alguém fala que eu canto bem. Mas é claro que essa professora estava totalmente errada, porque Deus não escolhe ninguém por causa de talento; ele capacita os escolhidos dele, se é isso que eles desejam.

10 - Por isso que tenho dificuldade para cantar e cada música que lanço é um desafio comigo mesmo, com esse trauma de não ser bom o suficiente por ter demorado a desenvolver. Eu dou o meu melhor, mas sou limitado por conta disso até hoje.

#A Queria poder te dizer que Deus é um Deus livre e de amor. No entanto, eu posso ser quem eu sou, sem castigos, não é o certo a se pensar?! Mas, meu irmão, as coisas são bem diferentes! Se você falta à igreja e às vezes compartilha o porquê, muitos nem se importam, julgam como menos ou mentira: "não pode ir a igreja por isso, mas tava em tal local". O que estraga Jesus Cristo são seus seguidores malucos e sem um pingo de sanidade. Sou Cristã, curto ir ao culto, mas não gosto de ser questionada por seres errantes igual á mim o porquê de eu ter faltado e ter ido em outro local, ou porque não fui. A pessoa vai quando a alma sentir vontade.

#B Mas a estrutura das igrejas, hoje (a maioria delas), é de exatamente não possibilitar que as pessoas que estão aprendendo, conhecendo Deus/Jesus tenham intimidade com Ele. Existe uma cultura dentro da igreja, que é ensinada a anos, de tornar as pessoas dependentes de homens, religiosos e suas visões, e suas unções, suas bênçãos... É preciso entender que muita coisa acontece porque existe uma 'cultura religiosa' e não porque isso envolve apenas a atitude de uma pessoa. Coisas que esse Júlio Victor relatou não aconteceram porque ele 'não buscou intimidade com Deus' ou 'olhou só para homens', mas aconteceram por causa dessa cultura religiosa que está acabando com a fé das pessoas que realmente querem ter intimidade com Deus. Estas pessoas são rejeitadas pela igreja. A gente precisa perceber que até esse nosso discurso de culpabilizar a pessoa por ela ter 'seguido homens' é exatamente um discurso dessa cultura, porque impede a gente de perceber o quanto a igreja precisa mudar, como um todo.

11 - Não era permitido compor, apenas músicas inspiradas por Deus que eram tocadas. Eu lembro de compor vários hinos que nunca mostrei para ninguém e essa era uma grande frustração minha.

#A Oxi, por acaso usar o dom de compor não é ser inspirado por Deus? Inspiração só vale quando a pessoa sai se debatendo e falando bizarrices? (Dúvida séria)

#B Não podia compor? Os hinos usados na igreja nasciam em árvores ou desciam do céu?

#C Ele disse que as músicas só podiam ser "inspiradas por Deus". Provavelmente, somente os doutrinadores podiam compor as músicas para ter um controle melhor sobre o que toda a igreja iria ouvir. Quando esses mostravam uma composição nova, diziam que havia sido inspirada por Deus.

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Como Helmut Richard Niebhur escreveu, a igreja se voltar contra a cultura dos homens (profana e poluída pelo pecado ou por Satanás) é uma abordagem possível dessa relação igreja-sociedade. Então, fazendo seu papel de purificadoras do gênero humano, algumas congregações tentam banir todo traço de cultura profana da vida dos seus membros. É o caso do Júlio Victor, mas não uma situação rara.

Os Amishes nos Estados Unidos são um exemplo altamente midiatizado de cultura baseada na igreja. Eles vivem em grupamentos formados por pessoas da mesma religião, casando-se e relacionando-se apenas entre si. São mini-sociedades rurais que pareceriam bem familiares a um colono do séc. 18. Seus hábitos são próprios, assim como sua língua, vestimenta, e eles limitam (mais em algumas comunidades do que em outras) o contato dos membros com o mundo exterior. É até difícil identificar um Amish com o estadunidense do séc. 21.

Saindo um pouco de Cristianismo, encontramos outros grupos assim em comunidades esotéricas New Age¹ espalhadas pelo mundo a partir dos anos 1960. Uma bastante famosa no Brasil é Alto Paraíso, em Goiás. O movimento New Age é caracterizado pela pluralidade de crenças, o que impede que restrinjam o contato dos membros com outras religiões, mas a formação dessas comunidades em áreas muito distantes dos centros urbanos é um meio de isolarem-se. Ali dentro da comunidade, estabelece-se um núcleo cultural tão diverso que Alto Paraíso (na verdade uma coleção de pequenas vilas em um lugar com muitas belezas naturais) se tornou um roteiro turístico tão curioso quanto seria uma aldeia do Alto Xingu ou o Oriente Médio.

Os Judeus eram esse grupo culturalmente diverso quando se mudaram do Baixo Egito para Canaã, por isso redigiram uma série de restrições culturais e punições aos contatos com Gentios. Os Amonitas, Amalekitas e Moabitas, vizinhos do rio Jordão, eram os principais alvos dessa restrição cultural - pessoas podiam morrer, e morreram, por se relacionarem com eles. E assim se justificam hoje as reclamações do Júlio Victor, por leis dos Hebreus de 1400 a.C. trazidas do passado nos livros de Levíticos e Deuteronômio. Posteriormente, os Judeus também lutaram contra a cultura Grega (séc. 2 a.C.) e contra a cultura Romana (séc. 1 d.C.). A lembrança amarga dos Gregos foi imortalizada nos livros de 1ª e 2ª Macabeus (só presentes nas Bíblias Católicas e Ortodoxas), enquanto a recordação azeda dos Romanos foi deixada em segmentos do Novo Testamento². Com a diferença de que, uma vez conquistados pelos estrangeiros, os Judeus não podiam simplesmente se isolar deles.

Como o Júlio relata, é comum as comunidades Protestantes criarem um isolamento cultural para se defender do que foi poluído pelo Diabo (os Judeus Essênios e os Católicos Cátaros não eram muito diferentes). Mas, a menos que formem suas próprias vilas como os Amishes, expurgar a cultura mundana dos fiéis não apenas é difícil (as pessoas continuam estudando, crescendo, trabalhando no meio profano), como também deixa um vácuo cultural que precisa ser preenchido. A alternativa cultural da igreja Evangélica é muito ruim: músicas, rituais, vestimentas, jargões, livros e filmes produzidos por ela mesma.

Quer dizer, não estamos falando de um processo cultural verdadeiro, com escritores, pintores e músicos populares enraizados na mentalidade Evangélica, preferidos pelos demais e selecionados ao longo do tempo. A maior parte do material cultural Evangélico no Brasil foi produzido a partir dos anos 1980 via tradução de coisas estadunidenses do início do séc. 20. Não há uma raiz brasileira, nem tempo suficiente para um crescimento de símbolos culturais. Ao invés disso, há pastores lapidando ao próprio tino os detalhes culturais, sacralizando sua origem e impondo-os como norma. A fuga dos jovens não apenas é esperada - faz parte do seu processo de formação de identidade - como provável, pela cultura "pequena" oferecida em troca da cultura mundana.

O Congresso Internacional de Evangelização Mundial, realizado em 1974 em Lausanne, Suíça, produziu um consenso (entre 4000 líderes Evangélicos de 150 países) de que o Evangelho é ferramenta de transformação das pessoas, tanto espiritual quanto culturalmente. Dessa forma, ao invés de separar o profano e o religioso, como a Igreja faz desde os tempos de Paulo, seria mais útil transformar de modo racional os elementos culturais que se opõem ao Evangelho. Violência, idolatria e prostituição ritual seriam os 1os alvos dessa transformação, ou seja, elementos culturais sobre os quais a Igreja deveria dedicar todo seu tempo. No Brasil, há algumas ações de bravura nesse sentido, mas de fato vemos cidades ricas em congregações e chafurdadas nos maus caminhos.

A Injustiça Social (ex. escravidão, exploração de seres humanos) e a Poligamia (comum em regiões da África e do Sudeste Asiático) foram propostas como um tema de tolerância limitada (por uma geração), uma vez que organizam as vidas de pessoas. Ou seja, a Igreja deveria educar os filhos dos atuais detentores do poder para que essa injustiça fosse revertida nas décadas seguintes. É importante dizer que houve muito mais ações dos Católicos nesse sentido, movidos pelo Concílio Vaticano II em 1962-1965, do que pelos Evangélicos. As ações sociais Evangélicas atualmente se concentram na Educação Superior e Média (instituições privadas, deixemos claro), Comunidades Terapêuticas de atendimento a dependentes químicos (também privadas, muitas vezes destituídas de equipe adequada e tratamentos modernos) e administração de Entidades Filantrópicas como orfanatos, creches e hospitais de pequeno porte. Apesar da recente e progressiva participação de líderes Evangélicos no cenário político do Brasil, quase nenhuma transformação social adveio disso.

Os costumes como separação de homens e mulheres, alimentação, vestimentas, higiene pessoal, entre outros, foram considerados fora do interesse da Igreja, se não proporcionarem malefícios evidentes aos homens. Acho que caberia muito bem colocar a música aqui, desde o gênero até os instrumentos, para o grosso do que o Brasileiro consome e produz nesse ramo. Mas é justamente aqui onde a maioria das igrejas Evangélicas brasileiras gasta suas energias! Claro que é o elemento cultural mais fácil de atingir, mas também o mais supérfluo e mais 'governado' pelas forças no topo da lista. Não admira que vejamos pouca mudança social movida pela Igreja e muito desagrado por parte dessa geração inaugurando o novo século.

Abaixo ainda desses elementos superficiais da cultura, a Comissão de Lausanne e seu 'Relatório de Willowbank' deixou inscritos temas teológicos controversos, isto é, sobre os quais o Evangelho não parece claro, como estrutura política da Igreja, interpretação de profecias (bíblicas) e significados de eventos. Novamente, vemos uma intensa ação das congregações em doutrinar seus membros quanto a isso.. Lembrando o Pastor de Hermas, é como se tentassem construir uma torre pensando nos tapetes e quadros do interior, ao invés da fundação e entrelaçamento das vigas. Nesse meio tempo, o vento sopra e jovens interessados na Igreja, como Júlio e seus comentaristas, são levados a procurar abrigo noutras paragens.

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¹ O movimento New Age é um legítimo representante do Pós-modernismo, que se vale da quebra de fronteiras. Dentro desse movimento, encontramos elementos culturais Hindus, Árabes, Cristãos, Gregos, Judeus, Ciganos, Nórdicos, etc misturados em proporções muito variadas de acordo com a comunidade. Tipicamente, as comunidades New Age se formam da reunião de egressos das diversas culturas tradicionais e fundam suas próprias religiões sincréticas, mas se beneficiam do respeito ao pluralismo de crenças.

² No relato de Mateus 25.31-46, Jesus figura os justos e os condenados no Juízo Final respectivamente como ovelhas e cabritos. A figuração não passa despercebida: Jerusalém estava em crise com Roma, faltando 40 anos para receber ordens de ser varrida do mapa, junto com sua população. As ovelhas eram animais sagrados para os Judeus (sinal do sacrifício feito por Moisés em sua partida do Egito) e as cabras eram animais sagrados para os Romanos (sinal do renascimento da Terra, pelas mãos da deusa Deméter). Também João [evangelista], como profeta na ilha de Patmos, aponta a Besta aparecendo em um lugar com 7 colinas e vários reis a governarem num período curto (Apocalipse 19.9,10). 'Cidade das 7 colinas' era o apelido de Roma no mundo antigo e, a partir do ano 64 d.C., uma crise política levou ao trono e matou rapidamente 6 imperadores (68-96 d.C.), logo após Nero.

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Para ler somente na igreja

Bernardo J, Os evangélicos e as grandes questões sociais, gospelmais.com.br, 4/out/2013
Coelho T, A hora e a vez do partor-sargento, Revista Piauí, 5/mar/2018
Ferreira F, O Cristão e a cultura, Voltemos ao evangelho, 11/fev/2013
Niebhur HR, Cristo e cultura, Série encontro e diálogos v. 3, Ed. Civilização Brasileira S.A., 1967
O evangelho e a cultura, Relatório da reunião de consulta realizada em Willowbank, Somerset Bridge, Bermudas, jan/1978
Veloso F, Transformação social a partir da igreja, comunhao.com.br, 1/abr/2018

sábado, 24 de setembro de 2011

Góspel de ontem


do original de Antognoni Misael

Janires Magalhães Manso foi um cantor de música gospel com início de carreira no fim da década de 1970. Fundou a banda Rebanhão em São Paulo, no ano de 1979. Um ano depois se mudou para o Rio de Janeiro, onde formou um novo grupo, mas que permaneceu com o mesmo nome. Após gravar quatro discos com o Rebanhão, Janires deixou a banda em 1984 e foi para Belo Horizonte, lugar onde conheceu um novo time de músicos e juntamente com eles formou a Banda Azul. Depois de duas gravações com a Banda Azul, Janires morreu em um catastrófico acidente automobilístico, quando voltava do Rio de Janeiro para Belo Horizonte, no ano de 1988.

Sempre que dou uma pesquisada na nossa música cristã de hoje em busca de algo novo tenho sempre a impressão de encontrar “mais do mesmo”. É sério! Não bastasse as centenas de comunidades ‘estilo louvor’, os famosos globais da Som Livre, a panelinha da MK – na ressalva, claro, da turma alternativa que se mantém na linha do Elo, Logos, VPC, João Alexandre, Jorge Camargo e todos dessa vertente – sinto bastante falta de gente criativa, irreverente e de peito aberto para enfrentar as engrenagens desse mundão. Então parei um pouco e pude me perguntar “onde estão os ‘Janires’ de hoje”?

Não sei vocês, mas sinto muita falta de artistas evangélicos que formem opinião pra essa imensa juventude do “gospel”; que provoquem a cabeça e mentalidade juvenil promovendo nessa gente uma adoração com entendimento. Noto que é tão comum ver muitos ‘fãs’ lotando shows e gravações de DVD’s da turma gospel, mas que, quando confrontadas com a dura realidade da Igreja e do Brasil, apenas reproduzem os atos e discursos “proféticos” dos seus ícones sem que se portem de forma inteligente diante do mundo e das pessoas. Então quando ouço os discos do Grupo Rebanhão e/ou Banda Azul (ambas de idealizadas por Janires) tenho a sensação de que retrocedemos.

Volto a me perguntar: “onde estão os ‘Janires’ de hoje”? Onde estão os que ironizam os políticos corruptos e os edônicos comerciais da TV? Onde estão os que parodiam os filmes e imbecilizam as novelas? Cadê os ‘Janires’ que falam das realidades, de sonhos, fracassos, frustrações, do pecado e da miséria, mas sem nunca esquecer de revelar o fulgurante contraste da estonteante luz, a indizível graça e a paz de Jesus Cristo? Gente, chega de ‘astro Gospel’ fazendo arquivo confidencial no Faustão e recebendo homenagem no Raul Gil!

Recordo que o Janires não era bem visto pelo “clero” evangélico da época. Era rejeitado pela roupa, cabelo, jeito de falar e seu estilo de música. Certa vez ao promover um evento em praça pública em São Paulo no intuito de tocar um rock pra evangelizar a turma descrente, foi surpreendido pelas lideranças de algumas igrejas evangélicas as quais (sob inspiração da ditadura) proibiram que seus membros presenciassem aquele louvor em via pública.

Gente, quando julgamos pela aparência perdemos a oportunidade de nos surpreender com a essência das pessoas – os que julgavam o Janires realmente não o conheciam – ele era um exemplo vivo de cristão autêntico.

Num congresso de louvor que estive presente na cidade de Campina Grande-PB, ouvi do grande Paulão (do Grupo Logos) a curiosa história do dia em que o encontrou em um evento evangélico. Ele descreveu que viu um cara que se vestia bem diferente, roupa meio jogada, parecendo um hippie, com uma mochila de lado, sentado na escadaria do prédio e lendo um livro; ao achar aquela aparência fora dos padrões da época relutou em não julgar, e quando foi notado pelo próprio Janires, este rapidamente se levantou, ofereceu a paz do Senhor e um forte abraço. Paulão revelou que nos olhos daquele jovem via-se alegria e amor pelas pessoas; e aquele livro que o Janires atenciosamente lia na escada era uma Bíblia bastante gastada e cheia de anotações.

Janires era intenso. Em plena época de ditadura no Brasil, não se conformava com a repressão militar e as injustiças. Quando integrante do Rebanhão, mostrou sua crítica em “Casa no céu”: “Lá não terá vizinho reclamando o aumento da gasolina”, “Lá não terá buraco no meio da rua”, “Lá não terá trombadinha nem trombadão desrespeitando os 80km/h fugindo da poluição”. Às vezes direcionava sua insatisfação aos próprios evangélicos. Na música “Etc e tal” disse: “Embaixo da ponte as pessoas roubando e matando… em cima da ponte…crentes tranquilamente se achando no direito de ficar descontentes com Deus, não comprou carro novo não”… Na sua composição mais conhecida, “Baião”, fez uma análise da situação social do planeta: “Sem Jesus Cristo é impossível se viver nesse mundão, até parece que as pessoas estão morando no sertão, é faca com faca, é bala com bala, metralhadoras e canhões, até parece que a faculdade só tá formando lampiões… e o dinheiro anda mais curto do que perna de cobra”…

Pelo que li e ouvi daqueles que viveram próximo Janires, descobri que ele não andava ansioso com a vida, não se apegava a fama e a bens materiais. Quando morreu, ficou de legado apenas algumas roupas e seus equipamentos musicais. Um ex-integrante do Rebanhão, Paulo Marotta, confidenciou o seguinte :

Janires não era um homem comum. Ele não se preocupava em casar, constituir família, arrumar um bom emprego, comprar isso ou aquilo, essas coisas que têm tanta importância para nós. Vivia do que produzia. Sua música, seu artesanato: camisetas e impressos em silk-screen. Frequentemente recebia ofertas, às vezes muito boas, mas sempre achava alguém que precisasse mais do que ele daquele dinheiro. Assim como recebia, dava generosamente”.

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Só porque você ficou, curioso a partir desse momento tem na aba e-música a rádio Rebanhão. Vai ver!

site BACANA sobre música cristã
http://artedechocar.blogspot.com

site com a discografia do Rebanhão
http://bandarebanhao.blogspot.com/p/discografia.html

domingo, 14 de agosto de 2011

Música Góspel não é Música Cristã



O mundo atual é, acima de tudo, multimídia: há fotos, vídeos, música onde quer que se vá. Acreditem, já houve um tempo em que a fotografia decorria de saber manusear uma câmera, revelar o filme e finalmente ter um papel-retrato para exibir. Levava-se a foto para um conhecido ver, álbuns eram coisas muito íntimas, que se exibia para a família e amigos mais chegados. 

Também houve um tempo em que os vídeos eram fotografias trocadas tão rápido que nosso cérebro intuía o movimento. Então, havia um templo especial para ver essas coisas, e chamava-se cinema. Não o cinema como arte, mas o cinema como local onde se viam os filmes com pipoca e uma boa companhia.

Por estranho que pareça, a música já teve seu pudor, também. Muito tempo atrás, havia um músico que era responsável por fazer música. Se quisessem ouvir música, as pessoas precisavam ir até o músico! Dependendo da disponibilidade desse profissional, muitos passavam anos aprendendo tocar instrumentos, para levar a música às (suas) casas.

Mas então, como disse a Galadriel de Tolkien, “O mundo mudou...”. O rádio roubou a música e deu-a aos pobres, para toda casa, para todo andante. É facil ouvir a expressão “24 horas de música”, o que quer dizer que estarão tocando mesmo se ninguém estiver ouvindo! A televisão roubou vídeo e levou-o parta a sala da família - a cadeira do cinema virou a poltrona da sala, onde você pode roncar deliciosamente enquanto um ganhador do óscar de melhor filme é exibido. A fotografia foi roubada pelo CCD e o monitor. O arrojado componente eletrônico permitiu jogar fora o filme e enviar a fotografia pelos fios elétricos e ondas de rádio, para ser mostrada pelo comparsa vídeo do outro lado. Sem nenhum papel, nem álbum...

Por essa disseminação indiscriminada do que era valioso antes, cogitou-se que a música das igrejas pudesse ser usada para pregar a palavra de Deus. Jesus nada cantou ou tocou que merecesse ser registrado - antes conviveu com as pessoas ensinando o que era certo - mas a Bíblia traz muita música. Davi era músico de Saul, os Salmos são canções. Daí pensa-se que ouvir a palavra de Deus cantada talvez seja significativo para conquistar os corações. Dessa forma foi que as músicas cantadas para o louvor de Deus foram levadas aos gentios...

Soltas no mundo, as músicas de louvor produziram um dilema: as pessoas não vão à igreja (ou vêm à Igreja?) pela música, mas oferecem a música à Deus. A música não é o objetivo, mas sim um sacrifício, uma espécie de incenso sonoro. Logo, como a música mostraria o Reino de Deus a alguém que já não pisasse as terras Dele? Repare o quanto se fala em música de “louvor e adoração”. Isso é o que chamaria de Música Cristã - uma música produzida pelos cristãos, para Deus. Claro, ela pode ser feita para ensinar a palavra de Deus, mas apenas a palavra falada (ou cantada?), não a palavra praticada que Jesus ensinou.

Alguns irão concordar comigo (e me defendam, então!) que de alguma forma, fez-se um frankenstein mecânico similar à Música Cristã e chamou-se ele de Música Gospel. Trata-se de uma música que copia trechos da boa e velha bíblia, mas que se canta aos ouvidos de judeus, gregos e troianos. Canta-se da mesma forma que se canta um “New York, New York”, um “Bessame Mucho” ou um “Parabéns pra você”, ou seja, para ouvir as palmas no final. Se a Música Cristã pretende adorar Aquele Indivíduo que lavou os pés poeirentos dos próprios discípulos, a Música Gospel precisa ser cantada com terno de lantejoulas, vestido decotado esvoaçante, num palco com jatos de fogo e telão atrás, para que a platéia dê o seu melhor, para que aplauda mais. Oferece-se a música à platéia, ao cristão que copia os MP3s do camarada, que tem um pôster dele no quarto e uma camiseta autografada. A platéia oferece suas palmas ao músico.

Não digo que artistas não sejam cristãos: quem tiver talento, pode ser artista e também cristão. Não é fácil, mas é simples como usar sapato e chapéu. O artista é conhecido como aquele que expressa a beleza. Na música, isso significa apresentar algo que se aproxime do interior das pessoas, tomando-as diretamente pelo ouvido. O artista precisa buscar a beleza, que lhe é fundamental. Já o cristão é conhecido como aquele que mostra o Reino de Deus (em outras palavras, temor a Deus e amor ao próximo). A beleza não lhe é fundamental, mas esses dois predicados são.

Defendam-me de novo, mas não há artistas tomando o nome de cristãos sem mostrar o Reino a quem quer que seja? A beleza faz o artista, mas não é dizendo versículos que se faz o cristão. Isso serve para vender música, fazer o show... enfim, fazer arte. Da mesma forma, parece que há por aí cristãos tomando o nome de artistas sem mostrar beleza alguma que atraia um público não-cristão. Bom saber que são crentes, mas pregar a palavra aos que já a conhecem é bem fácil. Atingir o povo que precisa conhecer a Deus certamente não é o que fazem, com a música que são capazes de produzir. Não estou desmerecendo cristãos ou artistas, mas dizendo que são coisas que não se mesclam, assim como ninguém usa chapéu nos pés ou calçado na cabeça. Mas é possível ter ambos? Naturalmente.

Então, que espécie de música um cristão deveria ouvir? Numa ânsia que temos por regras explícitas, com os modernos “faça isso”, “não faça aquilo”, muita gente passa horas debruçado sobre o Evangelho tentando extrair dali a cor da roupa, o tipo de música, se a comida deve ter carne ou não, se essa carne pode ser de soja, se vinho é lícito ou proibido. Para isso foi feito o Evangelho, para lhe dar regras de comportamento? A mensagem é simples: honrar a Deus com todo o seu entendimento e todas as suas forças (isso é, sacrificar a si mesmo inteiro por Ele), amar ao próximo e a ti mesmo (isso subentende apresentar o Deus bondoso ao próximo fazendo por ele semelhante do que Jesus fez). Obviamente isso não define a questão da música, mas dá toda resposta que você possa entender.

ver Comida Cristã

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Aculturados?


texto de Augustus Nicodemus Lopes

O relacionamento dos cristãos com a cultura na qual estão inseridos sempre representou um grande desafio para eles. Opções como amoldar-se, rejeitar a cultura, idolatrá-la ou tentar redimi-la têm encontrado adeptos em todo lugar e época. Em nosso país, com uma cultura tão rica, variada e envolvente, o desafio parece ainda maior nos dias atuais. Como aqueles que crêem em Jesus Cristo e adotam os valores bíblicos quanto à família, trabalho, lazer, conhecimento e as pessoas em geral podem se relacionar com esta cultura (dentro da qual foram criados)?

Existem muitas definições disponíveis e parecidas de cultura. No geral, define-se como o conjunto de valores, crenças e práticas de uma sociedade em particular, que inclui artes, religião, ética, costumes, maneira de ser, divertir-se, organizar-se, etc. Os cristãos acrescentam um item a mais a qualquer definição de cultura, que é a sua contaminação. Não existe cultura neutra, isenta, pura e inocente. [Nem mesmo a tal "cultura de igreja", ou pior, a "cultura gospel"] Ela reflete a situação moral e espiritual das pessoas que a compõem, ou seja, uma mistura de coisas boas decorrentes da imagem de Deus no ser humano e da graça comum, e coisas pecaminosas resultantes da depravação e corrupção do coração humano. Toda cultura, portanto, por mais civilizada que seja, traz valores pecaminosos, crenças equivocadas, práticas iníquas que se refletem na arte, música, literatura, cinema, religiões, costumes e tudo mais que a compõe.

Deste ponto de vista, a definição de cultura é bem próxima à definição que a Bíblia dá de "mundo," a saber, aquele sistema de valores, crenças, práticas e a maneira de viver das pessoas sem Deus. Poderíamos dizer que “mundo” compreende os traços da cultura humana que refletem a sua decadência moral e espiritual e seu antagonismo contra Deus. De acordo com o apóstolo João, as paixões carnais, a cobiça e a arrogância do homem marcam o mundo. Como tal, o mundo é frontalmente inimigo de Deus e os cristãos não devem amá-lo:

1João 2:15-16 - Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo.

Tiago vai na mesma linha:

Tiago 4:4 - Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.

Escrevendo aos romanos, Paulo os orienta a não se moldarem ao presente século - um conceito escatológico do mundo presente, debaixo da lei e do pecado e caminhando para seu fim:

Romanos 12:2 - E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.

O próprio Jesus ensinou que o mundo o odeia e odeia aqueles que são seus dicípulos, pois não são do mundo:

João 15:18-19Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia.

Não é de se estranhar, portanto, que aqueles cristãos que levam a Bíblia a sério sempre tiveram uma atitude, no mínimo, cautelosa em relação à cultura, por perceberem nela traços da corrupção humana - ou seja, do mundo.

Ao mesmo tempo em que a Bíblia define o mundo de maneira negativa, ela admite que existem coisas boas na sociedade em decorrência do homem ainda manter a imagem de Deus – em que pese a Queda – e em decorrência de Deus agir na humanidade em geral de maneira graciosa. Deus concede às pessoas, sendo elas cristãs ou não, capacidade, habilidades, perspicácia, criatividade, talentos naturais para as artes em geral, para a música – enfim, aquilo que chamamos de graça comum. É interessante que os primeiros instrumentos musicais mencionados na Bíblia aparecem no contexto da descendência de Caim (Gênesis 4:21) bem como os primeiros ferreiros (4:22) e fazedores de tendas (4:20). Paulo conhecia e citou vários autores da sua época, que certamente não eram cristãos (Epimênides, Tt 1:12; Menander, 1Cor 15:32; Aratus, Atos 17:28). Jesus participou de festas de casamento (João 2) e Paulo não desencorajou os crentes de Corinto a participar de refeições com seus amigos pagãos, a não ser em alguns casos de consciência (1Co 10:27-28).

Portanto, a grande questão sempre foi aquela do limite – onde eu risco a linha de separação? Até que ponto os cristãos podem desfrutar deste mundo, até onde podem se amoldar à cultura deste mundo e fazer parte dela?

Dá para ver porque ao longo da história a Igreja cristã foi considerada algumas vezes como obscurantista, reacionária, um gueto contra-cultural. Nem sempre os seus inimigos perceberam que os cristãos, boa parte do tempo, estavam reagindo ao mundo, àquilo que existe de pecaminoso na cultura, e não à cultura em si. Quando missionários cristãos lutam contra a prática indígena de matar crianças, eles não estão querendo acabar com a cultura dos índios, mas redimi-la dos traços que o pecado deixou nela. Eles estão lutando contra o mundo. Quando cristãos criticam Darwin, não estão necessariamente deixando de reconhecer sua contribuição para nosso conhecimento dos processos naturais, mas estão se posicionando contra a filosofia naturalista que controlou seu pensamento. Quando torcem o nariz para Jacques Derrida, não estão negando sua correta percepção das ambigüidades na linguagem, mas sua conclusão de que não existe sentido num texto. Gosto de Jorge Amado, mas abomino seu gosto pela pornografia.

Por ignorarem ou desprezarem a presença contaminadora do mundo na cultura é que alguns evangélicos identificam a cultura como a expressão mais pura e autêntica da humanidade. Assim, atenuam – e até negam – a diferença entre graça comum e graça salvadora, entre revelação natural e revelação especial. Evangelizar não é mais chamar as pessoas ao arrependimento de seus pecados – refletidos inclusive em suas produções culturais, poéticas, artísticas e musicais – mas em afirmar a cultura dos povos em todos os seus aspectos. O Reino de Deus é identificado com a cultura. Não há espaço para transformação, redenção, mudança e transformação – fazê-lo seria mexer com a identidade cultural dos povos, a sua maneira de ser e existir, algo que com certeza deixaria antropólogos de cabelo em pé.

A contextualização sempre foi um desafio para os missionários e teólogos cristãos. De que maneira apresentar e viver o Evangelho em diferentes culturas? Pessoalmente, acredito que há princípios universais que transcendem as culturas. Eles são verdadeiros em qualquer lugar e em qualquer época. Adultério, por exemplo, é sempre adultério. Pregar o Evangelho numa cultura onde o adultério é visto como normal significa identificá-lo como pecado e lutar contra ele, buscando redimir os adúlteros e adúlteras e restaurar os padrões bíblicos do casamento e da família. Enfim, redimir e transformar a cultura, fazê-la refletir os princípios do Reino de Deus.

Nem sempre isto é fácil e possível de se fazer rapidamente. Missionários às tribos africanas onde a poligamia é vista como normal que o digam. O caminho possível tem sido tolerar a poligamia dos primeiros convertidos, para não causar um problema social grave com a despedida das esposas. Mas à segunda geração já é ensinada o padrão bíblico da monogamia.

É preciso reconhecer que nem sempre os cristãos conseguiram perceber a distinção entre mundo e cultura. Historicamente, grupos cristãos têm sido contra a ciência, a arte, a música e a literatura em geral, sem fazer qualquer distinção. Todavia, estes grupos fundamentalistas não representam a postura cristã para com a cultura e nem refletem o ensino bíblico quanto ao assunto. Os reformados, em particular, caracteristicamente sempre se mostraram sensíveis às artes e viam nelas uma manifestação da graça comum de Deus à humanidade. Apreciavam a pintura, a música, a poesia e a literatura. Entre eles, temos os puritanos. Cabe aqui a descrição que C. S. Lewis fez deles:

Devemos imaginar estes puritanos como o extremo oposto daqueles que se dizem puritanos hoje. Imaginemo-los jovens, intensamente fortes, intelectuais, progressistas, muito atuais. Eles não eram avessos a bebidas com álcool; mesmo à cerveja, mas os bispos eram a sua aversão. Puritanos fumavam (na época não sabiam dos efeitos danosos do fumo), bebiam (com moderação), caçavam, praticavam esportes, usavam roupas coloridas, faziam amor com suas esposas, tudo isto para a glória de Deus, o qual os colocou em posição de liberdade. (...) [Os puritanos eram] jovens, vorazes, intelectuais progressistas, muito elegantes e atualizados ... [e] ... não havia animosidade entre os puritanos e humanistas. Eles eram freqüentemente as mesmas pessoas, e quase sempre o mesmo tipo de pessoa: os jovens no movimento, os impacientes progressistas exigindo uma “limpeza purificadora”.

O grande desafio que Jesus e os apóstolos deixaram para os cristãos foi exatamente este, de estar no mundo, ser enviado ao mundo, mas não ser dele (Jo 17:14-18). Implica em não se conformar com o presente século, mas renovar-se diariamente (Rm 12:1-3), de não ir embora amando o presente século, como Demas (2Tm 4:10). É ser sal e luz.Para os que deixam de levar em conta a presença da corrupção humana na cultura, os poetas, músicos, artistas e cientistas se tornam em sacerdotes, a produção deles em sacramento e costurar e tecer em evangelização.

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Repetido, escutado e copiado à mão (com erros) do original bem melhorzinho em http://tempora-mores.blogspot.com/2011/02/quando-cultura-vira-evangelho.html

domingo, 29 de maio de 2011

No saleiro



Desde muito cedo em nossa caminhada dentro de ambientes “evangélicos” somos ensinados e condicionados a termos um perfil de leitura, onde as nossas bibliografias acabam indicadas ou direcionadas de acordo com o perfil doutrinário de nossas denominações. Isso quando há leitura - em nosso país, intrução e estudo são exceção, não regra. Preconceituosamente, todas as leituras que não se enquadram com o perfil da doutrina da denominação ao qual freqüentamos, logo são caracterizadas como diabólicas e inválidas para nossa formação espiritual.

Grande maioria das leituras que encontramos em livrarias evangélicas é escrita por autores sensacionalistas que escrevem seus compêndios baseados em suas experiências pessoais e astrais, criando uma “orgia religiosa” que é misto de xamanismo, espiritismo e cristianismo, onde não se sabe no final quem é quem ou o que” [vide qualquer livraria evangélica]. São poucos os autores que podemos afirmar serem confiáveis como leitura qualificada e equilibrada. Destes poucos a que me referi, podemos citar menos ainda “autores nacionais” de confiança, que não sejam meros plágios de “teólogos americanizados”, ou divulgadores de doutrinas e filosofias pessoais.

Dentro disso, a formação intelectual “evangélica” acaba por se tornar pobre e destituída de intelectualidade e inteligência, caminhando sempre em direção a uma espiritualidade sensitiva sem base e quase sempre descontextualizada. Entenda-se com pouca ou nenhuma aplicação social prática, o que é de uma marca das igrejas de muitos lugares. Fala-se em Jesus e pregação, mas os cristãos acabam conhecidos por baterem nas portas, andarem com bíblias debaixo do braço e serem abstêmios de álcool. Nossa participação social como grupo? Nenhuma. E isso, mesmo com o livro de Tiago sendo duro como é.

Nessa ignorância que buscamos, temos explicadas uma série de barbáries que presenciamos todos os dias em nossas comunidades. Não havendo um limite determinado de forma coerente, damos espaço para os megalomaníacos assumirem a frente e definindo limites a seu próprio gosto e propósitos.

Creio que o “povo Evangélico” precisa urgentemente ser revolucionado na formação de seu pensamento para escapar desse cativeiro intelectual, do que vemos e ouvimos. Muitas vezes se fala em “deixar aquilo que é DO MUNDO”, mas imaginamos que podemos fazer por nós mesmos algo destituído de mundaneidade. Basta ver os shows gospel, o estrelato de alguns artistas cristãos e o vendaval de produtos “de Deus” para não achar o que nos diferencie de qualquer outro grupo social.

O cativeiro intelectual a que somos submetidos (e que é interessante a lideres perfil ditatorial) também é uma forma de domínio silencioso. Ela se apóia em nossa preguiça natural de pensar, de resolver os problemas com as ferramentas que a Bíblia nos dá. Ignorando toda outra interpretação possível, muitas vezes tomamos este ou aquele verso interessante e nos tornamos “senhores da Lei”, como aqueles a quem Jesus ensinava com parábolas. Se delegamos a alguém a capacidade de interpretar as escrituras, tornamo-nos dependentes de algum outro para chegar a Deus. Alguém que serviria de ponte, quando Jesus mesmo afirmou que somente através Dele se chega ao Pai. Queremos milagres, mas não pedimos que o Espírito Santo nos instrua sobre os ensinos de Deus? Bem escreveu Salomão:

Pv 3.1. Filho meu, não te esqueças da minha lei, e o teu coração guarde os meus mandamentos. Porque eles aumentarão os teus dias e te acrescentarão anos de vida e paz. Não te desamparem a benignidade e a fidelidade; ata-as ao teu pescoço; escreve-as na tábua do teu coração. E acharás graça e bom entendimento aos olhos de Deus e do homem. Confia no SENHOR de todo o teu coração, e não te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas.

Os guetos eram lugares onde minorias se reuniam, era um lugar onde se criava grupos separados com culturas e costumes aparte das outras sociedades vizinhas. A princípio, a “Cultura de Gueto” evangélica parece ser positiva e é muito incentivada dentro de nossas congregações. Somos ensinados a “não ter comunhão com o mundo”, sendo esse o pressuposto de uma falsa “santidade farisaica” que Jesus combateu a feios nomes. Se somos o “sal do mundo”, incentiva-se que o saleiro permaneça entupido, com o sal salgando-se a si mesmo. Qual o nosso papel social?

Buscar na Bíblia a solução de problemas corriqueiros pode não ser simples. Afinal, não é um livro de culinária, nem de marcenaria ou manual de eletrodoméstico. E também não é um ensino de política ou de aplicação da sua força de trabalho. Não é mesmo, exceto pelos relatos da intervenção de Deus na vida de gente tão atrapalhada quanto qualquer cristão atual. A Bíblia não tem a complexidade literária de Sheakespeare, nem a musicalidade de Pixinguinha, mas ela revela como um e outro foram formados, acredite, pelo mesmo Deus. Seria válido interpretar Sheakespeare pela Bíblia? Eis que Salomão dizia: “reconhece-o em todos os teus caminhos”... E dizer que o mundo não segue as leis divinas seria destruir o seu valor.

Creio que chegamos a um ponto onde a cultura está a empurrar o cristianismo em novas direções. Cristãos fazem música, filmes, comentários e moda. Mas em que se baseiam, além da Bíblia e sua auto-engenhosidade? Hoje há cristãos em blogs, há cristãos no twitter, na rádio, na TV, na padaria, no mercado, no ônibus, e talvez desconfiemos uns dos outros mais do que de um qualquer. Somos de guetos diferentes, inimigos pela fé que nos coloca aos pés de um mesmo senhor? 

Somos humanos, a cultura cristã reflete a cultura humana. Talvez a tão falada e temida secularização não seja nada mais do que um desafio a nos convidar a sair de nossos casulos, buscando com o que possamos “salgar” a sociedade ao invés de sermos invadidos lentamente por ela. Lutar para achar o ensinamento cristão (de fé e amor, para começar) dentro de nós já será um grande desafio...

Vamos tentar seguir Jesus, que não fugou do mundo como os fariseus, mas levou o que tinha do Seu mundo para o meio de toda sorte de gente. E talvez um dia a cultura humana venha a refletir a cultura cristã.

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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Cristão fazendo arte



"Uma vez eu fiquei com muita inveja dos católicos. Por quê? Ah! Porque as coisas deles são tão bonitas! Entre numa igreja católica, que coisa mais linda! Aquela arquitetura, as pinturas, os vitrais, os rituais, os trajes. É tudo tão legal e bonito! O papa e aquele chapéu grande! Os franciscanos com aqueles roupões marrons e cordinhas na cintura... Também existem os mistérios! A Opus Dei, a biblioteca do Vaticano e tantas coisas bacanas! Não estou falando que nada disso tenha algum valor espiritual que vá colocar os católicos na frente da fila pra entrar no céu. Não é isso. O legal é ver como os católicos contribuíram para a cultura geral. Daí eu olho pro povo evangélico num esforço de reconhecer alguma coisa bacana assim e não consigo encontrar nada. Talvez seja minha própria ignorância. Você conhece algo?

Me sinto um pouco deprimido quando olho pros católicos e vejo em seu arraial de artistas como Caravaggio, Michelangelo, Leonardo e todos aqueles artistas renascentistas. Posso ver obras como o teto da Capela Sistina e a escultura de Davi, os profetas de Aleijadinho. Enfim... Quando olho pro povo evangélico, parece que tenho que me limitar à música (porque é difícil evangélico fazer outra arte além da música) onde encontro artistas como... Cassiane. Nada contra a Cassiane! Mas eu acho que deu pra entender o que eu quis dizer. Parece que no meio evangélico a arte é um meio de atração ao invés de ser a simples expressão daquilo que o artista sente. O problema é que não se entende o poder que a simples expressão do sentimento tem. Quando se tem todo o amor de Deus na vida e reconhecemos seu sacrifício, a arte, pura e simples, é um testemunho muito forte! São motivos especiais e relevantes. Enquanto os católicos fazem pinturas magistrais, nós fazemos música que rimam "Jesus" com "Cruz" com "Pus" e colocamos fogo, chuva, vento, todas essas palavrinhas no meio.

Arte não é marketing pra trazer visitantes pra igreja. Onde estão os pintores, escultores, poetas e escritores evangélicos? Como deve ser a arte do cristão? Acho que foi Francis Schaeffer que disse que a arte cristã deve ser algo como no movimento naturalista, onde a natureza é representada de forma pura e fiel, enaltecendo assim a criação de Deus, e por conseqüência, o próprio Deus. Faz sentido, mas eu acho que a galera pode pirar e fazer coisas diferentes também né? Ou não?"

Se alguém pudesse definir: a arte cristã é assim e assim, baseado em tais e tais pontos da Bíblia, acho que nenhum artista se sentiria inspirado. Por outro lado, se dizemos que isso ou aquilo não são coisas cristãs, quantos artistas não "jogamos fora" do nosso meio! Simplesmente não temos o direito de fazer tal coisa, muito menos recebemos qualquer chamado para fazer isso. Jesus não mandou selecionar as pessoas que melhor se enquadrassem para segui-lo, Ele buscou se misturar às pessoas (não à arte, ou qualquer tipo de manifestação cultural) e chamá-las para deixar o que tinham de valioso e buscar o reino de Deus. No caso do rico, isso era vender tudo e ir atrás Dele. No caso do pescador, significava deixar os barcos e ir atrás Dele. No caso da adúltera, importava deixar a culpa e ir atrás Dele. Talvez ao artista isso signifique deixar o motivo que o rege (seja beleza, seja admiração, seja a inovação) e buscar a Ele. Note que é e sempre foi um chamamento às pessoas, não ao que fazem. Claro, pecar contra o amor a Deus, ao seu próximo ou a si mesmo não é algo que se possa fazer e ao mesmo tempo segui-Lo.

Já ouvi dizer que Deus é o artista supremo. Se pensarmos um pouco, Ele deixou o que tinha de mais valioso: seu próprio filho, sua vida entre os homens, para que nós fôssemos chamados a segui-Lo. Isso não significou pôr fim à arte, mas simplesmente dar um motivo a ela. Não a arte para ser bela, para ser admirada, mas para seguir a Jesus. Se isso significa atrair as pessoas, ensinar-lha algo com uma música, que seja abençoada. Talvez signifique mostrar às pessoas uma visão do paraíso, ou de como fizeram as pessoas de que a Bíblia trata, ou mesmo os horrores do pecado numa tela. Sejam abençoadas essas artes por isso! Talvez seja um poema que fale do amor divino, ou da dor (Jó, Davi e Asaph falaram muito sobre a dor). Quem sabe uma escultura, para mostrar algo nas pessoas que elas não conheciam... Enfim, a arte precisa cristã ter um propósito, não necessariamente uma forma. Uma fotografia de um dia especial pode ser tão cristã como a estátua de Davi.

Historicamente, os templos Protestantes não levam nenhuma escultura ou pintura. Não que seja anti-cristão uma pintura retratando Jesus, muito pelo contrário! Infelizmente as pessoas (na sua simplicidade e ignorância) já foram levadas a adorar essas figuras, ao invés de adorar a Deus. Isso sim é pecado, tentar enquadrar Deus em uma forma, uma imaginação sua. É aquela velha estória de você apontar para algo e a pessoa se interessar não pelo o que você aponta, mas pelo seu dedo. Para evitar a tentação, ficamos sem as belas esculturas e pinturas nos templos.

Há quem pense inevitavelmente em uma arte cristã retratando cenas bíblicas. Na Idade Média, quando haviam muitos iletrados (hoje não, hoje todos lêem muito), a Igreja Católica usou a arte para evangelizar. Havia paredes de mosteiros com cenas pintadas retratando as passagens bíblicas, enquanto alguém falava e contava sobre elas. Esse era um propósito cristão, e ter propósito (de amor) é algo ensinado por Jesus! Não sei sobre os propósitos de Aleijadinho, da Vinci, etc, mas sempre penso neles artistas cristãos. E também Van Gogh, que retratou as pessoas como viviam, com a beleza que Deus lhes deu e que ele pôde ver para contar aos outros. Deus sabe sobre os propósitos de cada artista e, se Ele for lembrado aos nossos olhos e ouvidos por algo que eles façam, será essa obra abençoada pelo bem que fará às pessoas.

Talvez isso possa ser, afinal, uma arte cristã. Claro que o artista pode (e deve) expressar o que tem no coração, mas enganoso é o coração e nem tudo o que um artista faça (artista cristão ou não) seria arte cristã somente por vir do seu coração. É arte humana, e também é arte. Não é pecado um artista fazer arte não-cristã. Só não é tão belo como seria ele transformar a si próprio e aos outros com sua arte, mostrando-lhes a Deus. Talvez não vejam, só Deus pode de fato quebrantar um coração, mas o artista pode fazer a sua parte, para começar, no próprio coração.

domingo, 7 de novembro de 2010

O cristão e a arte


L'Ultima Cena, pintura de Leonardo da Vinci para o duque Lodovico Sforza, 1495-1497

Arte é algo tão amplo, que a vemos todos os dias, seja num grafitti na porta de uma escola, seja nas músicas que ouvimos por aí, enfim, há arte em tudo. Mas pode Deus operar em nossas vidas através de uma arte que não seja propriamente cristã? Qual o papel das artes na vida de um cristão?

É óbvio que podemos revelar a glória de Deus seja através de um grafitti, uma dança contemporânea, uma música que não seja explicitamente cristã. Existem gotas da glória de Deus espalhadas por todo o universo e isso, certamente, nos inclui. Como não ouvir Mozart, Bach sem pensar em dons? Dons que Deus nos dá para que possamos usá-los, não somente pensando num caráter utilitarista: "vou fazer arte por causa disto" ou "ah, não, só faço arte para ganhar almas." Podemos aprender muitas coisas com os não-cristãos, ainda mais artistas como Lenine, Chico Buarque, Djavan, Machado de Assis, Clarice Lispector, entre muitos outros. O pior é ver dentro das igrejas uma sub-arte, ouvindo por aí que a música feita/cantada no louvor congregacional não é arte, não pode ser arte, distinguindo totalmente uma da outra.

Em Tito 1:15 diz: Todas as coisas são puras para os puros; todavia, para os impuros e descrentes, nada é puro. E também em João 17: 14-15: Eu lhes tenho dado a tua palavra, e o mundo os odiou, porque eles não são do mundo, como também eu não sou. Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal.

Nesses excertos da Bíblia podemos entender que não é o que entra que contamina o homem, mas sim o que sai e o mais importante é aquilo que está dentro de nós. A Escritura diz que todas as áreas da nossa vida, mesmo aquelas que parecem menos puras ou menos espirituais, devem glorificar a Deus. No entanto, quando falamos da questão mais artística da coisa, muitos cristãos acham difícil apreciar a arte que lida com a vida diária, principalmente se essa não apresenta uma conclusão evidentemente espiritual.

Podemos exemplificar esse problema naquilo que é conhecido como música cristã/gospel. A música gospel é a única categoria musical reconhecida na indústria fonográfica que é definida inteiramente pelo conteúdo lírico e não pelo estilo musical. Por exemplo, quando há alguns festivais de música e algum cantor gospel ganha nessa categoria, não é definido se ele canta Samba, Rock ou Jazz. Não, não, ele canta música gospel.

Quando a arte tenta incutir alguma coisa na nossa cabeça, acaba virando uma arte ruim. Por exemplo, vários artistas foram contratados na época da Revolução Russa para impregnar na mente das pessoas o Comunismo, logo, a arte nesse caso, foi usada de uma forma ruim. Assim que os cristão pensam em arte como algo para ganhar o mundo para Cristo, cria-se uma expectativa irrealista das artes, onde os artistas são pressionados injustamente. Espera-se automaticamente que os compositores componham "músicas cristãs". Mas, o que constitui de fato a música cristã? Esse compositores são incentivados a ignorar as coisas comuns da vida porque essas não oferecem a oportunidade de testemunho, são como pessoas que só conseguem conversar sobre "o quanto o Senhor tem sido bom", mas não conseguem agregar Deus, por exemplo, no tempo, na economia, política, sistema educacional do país etc.

A fé em Cristo deve nos dar uma nova visão sobre o mundo, mesmo nas coisas mais simples da vida. Poxa, se um poeta quiser falar sobre o nariz, deixe que fale, oras. A arte feita por cristãos deve refletir essa vida por completo. Temos uma tendência dualista em dizer que somente as coisas do espírito importam, claro que importam e muito; mas não vivemos só isso na nossa vida.

Viva Cristo, viva a arte!

Nesse texto, me baseei muito no capítulo 4 da obra de Steve Turner, "Cristianismo Criativo?" e nas aulas que o Rev. Christian está lecionando para nós na ED.

Fernanda Marques

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Curas, curas e mais curas

enviado de http://solomon1.com/a/2010/30/curas-curas-e-mais-curas/#more-3278


Farei uma confissão: Ouço programas evangélicos, quando estou no transito sou acompanhado por algum pastor neopentecostal. A “memória 2” do som do meu carro é só de rádios evangélicas. Hoje isso soa como confissão de pecado. Esses programas são mal feitos, a maior parte do tempo é utilizado para a oferta com o fim de “permancer no ar e continuar sendo uma benção”.


Meus amigos não entendem porque eu faço isso, mas todo drogado é assim, ele sabe que faz mal, mas…

Com esse (péssimo) hábito ouço muitas pregações sobre sucesso, testemunhos de vitória financeira (“você pode tudo”) e cura. Mas é cura de dor nas costas, no braço, na unha… Eles não curam síndrome de Down, Alzheimer e nem vão ao GRAAC (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer). Por que? O deus que cura dor nas costas não cura câncer? Estranho, no mínimo estranho.

Karl Marx acertou, a religião é mesmo “o ópio do povo”. É isso que o povo quer, algo que anestesie a vida, quando o efeito dessa anestesia acabar (e acaba rápido) aplica-se outra e assim vai. Não se fala em coisas difíceis e derrotas, apenas em vitórias. Curas, curas e curas. Quem oferecer mais ganha mais oferta e fica mais tempo no rádio.

A função da religião não é fazer com que as pessoas se sintam bem. Então o que Deus nos dá? Amor? Sim, Deus nos ama, mas não deseja domesticar animais de estimação, dando alimento e carinho, antes ele deseja maturidade, pessoas livres que respondam a ele com liberdade.

E paz? Sim, Deus nos concede uma paz sem igual, porém não é paz que se dá quando deixamos de falar do que é ruim e doloroso. Há pessoas de todos os tipos ao nosso redor, crianças e pais, jovens e adultos, pessoas que estão sendo cruelmente maltratadas e violentadas, afligidas e desprezadas. Qualquer pregação sobre paz que dá as costas a estas situações é uma tremenda farsa.

Curioso esse fascínio pelas curas, desde os tempos de Jesus isso acontece. Jesus curou, operou milagres e maravilhas, mas quando pregou sobre a vida no reino de Deus ele não disse que os felizes eram os curandeiros nem os curados, quando Jesus falou sobre a vida feliz ele disse:

Felizes são os humildes de espírito, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os limpos de coração, os pacificadores, os perseguidos (Mt 5). Esses são felizes porque experimentam salvação, esses são felizes porque são sal da terra e luz do mundo.

Ser cristão não tem haver com cura nem prosperidade, ser cristão é cuidar do próximo é saber se relacionar com as pessoas vendo nelas a expressão de Deus (Mt 25: 34-45).

Na bíblia quem disse “tudo isso te darei se, prostrado, me adorares” foi Satanás. “Tô” fora.