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segunda-feira, 18 de maio de 2020

A FÉ VAI TE CURAR - QUANDO? E COMO?


“Nas vilas, os doentes eram trazidos a Ele”, ilustração de James Joseph Jacques Tissot feita entre 1886 e 1894. (Marcos 6.55,56)


Como um representante da organização social em tempos remotos, a religião e o poder real sempre ofereceram soluções a tudo que afligisse o ser humano. Sacerdotes e reis sempre foram "culpados" pela fertilidade das terras, produção agrícola, doenças do gado e das pessoas, chuvas e ataques de gafanhotos. Na Bíblia, por exemplo, temos:

E houve nos dias de Davi uma fome de três anos consecutivos; e Davi consultou ao SENHOR, e o SENHOR lhe disse: É por causa de Saul e da sua casa sanguinária, porque matou os gibeonitas. Então chamou o rei aos gibeonitas, e lhes falou ... ‘Que quereis que eu vos faça? E que satisfação vos darei, para que abençoeis a herança do Senhor?’ … E disseram ao rei: ‘O homem que nos destruiu, e intentou contra nós de modo que fôssemos assolados, sem que pudéssemos subsistir em termo algum de Israel, de seus filhos se nos dêem sete homens, para que os enforquemos ao Senhor em Gibeá de Saul, o eleito do Senhor’. E disse o rei: ‘Eu os darei’. (2ª Samuel 21.1-6)

Saul havia traído um juramento de paz aos Gibeonitas, o que foi castigado com a fome de Israel anos após sua morte. Para se livrar da maldição, Davi deveria conseguir o perdão dos Gibeonitas. Esse tipo de punição perante uma quebra de juramento ou mal comportamento aparece muitas vezes no folclore Europeu, e mesmo nas lendas brasileiras. Recorro novamente a um trecho de “O Senhor dos Anéis”, de Tolkien, famoso folclorista Europeu :

Quando Aragorn chegou junto à Pedra de Erech, perguntou: “Perjuros, porque viestes?”
“Viemos para cumprir o nosso juramento e ter paz” – respondeu uma voz da noite, vinda de muito longe.” [Eram as vozes dos mortos, condenados por desobedecerem seu juramento ao 1º rei, antepassado distante de Aragorn]
Então Aragorn disse: “O momento chegou, finalmente. Agora irei para Pelargir no Anduin e vós seguir-me-eis. E quando esta terra estiver liberta dos servos de Sauron, considerarei o juramento cumprido e vós tereis paz e partireis para sempre, pois eu sou Elessar, herdeiro de Isildur de Gondor.”

Durante o domínio de Israel pelos Gregos e depois pelos Romanos, a figura do rei como mediador entre o povo e Deus perdeu muita credibilidade. Afinal, eram reis comprometidos com uma nação estrangeira - Israel esperava um Messias, um novo rei. Ao invés de descrever os pecados que trariam maldições para toda nação, os sacerdotes Judeus então atribuíam as moléstias, pobreza, etc ao comportamento pecaminoso dos homens. Cada um seria culpado dos seus males, e por isso os doentes e pobres não eram apenas pessoas desfavorecidas; estavam sendo castigadas por seus comportamentos.

Aqueles que Ele abençoa herdarão a terra, e aqueles que forem por ele amaldiçoados serão desarraigados. Os passos de um homem bom são confirmados pelo Senhor, e deleita-se no seu caminho. Ainda que caia, não ficará prostrado, pois o Senhor o sustém com a sua mão. Fui moço, e agora sou velho; mas nunca vi desamparado o justo, nem a sua semente a mendigar o pão. Compadece-se sempre, e empresta, e a sua semente é abençoada. Aparta-te do mal e faze o bem; e terás morada para sempre. (Salmos 37.22-27)

Naquele mesmo tempo, estavam presentes ali alguns que lhe falavam dos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com os seus sacrifícios. E, respondendo Jesus, disse-lhes: ‘Cuidais vós que esses galileus foram mais pecadores do que todos os galileus, por terem padecido tais coisas?’ (Lucas 13.1,2)

A maior parte dos habitantes de Jerusalém morreu no ano 70 d.C., todos os apóstolos morreram de forma terrível, um número enorme de Cristãos morreu antes do séc. 4. Quanto a padecer sem morrer rápido, existem hoje 500 milhões de pessoas vivendo com menos de $2 por dia, imensa maioria delas na África Central. Algumas décadas atrás, esse número chegava em 2 bilhões de pessoas e grande parte desses miseráveis estavam também na Índia e Sudeste Asiático. Seriam as transformações econômicas do leste asiático um sinal da obtenção de graça perante Jesus? Seriam os povos centro-africanos muito pecadores para que Jesus se importe com eles?

Um problema frequente entre as populações pobres é sua falta de estrutura sanitária e médica. Enquanto nos países mais ricos é comum as pessoas terem água limpíssima nas torneiras e fazerem exames de tomografia e ressonância magnética, nos países mais pobres a maioria da população não tem esgoto, nem acesso a termômetros ou antibióticos. Quando não existe uma medicina científica que seja acessível às pessoas, existe a medicina religiosa. Não há um degrau separando esta daquela: ambas estão em maior ou menor grau em todas as culturas, no entendimento e busca de todas as pessoas. Entre os mais ricos predomina a medicina científica, pela qual podem pagar, enquanto entre os mais pobres predomina a medicina religiosa, que se paga com a fé.

A CURA CRISTÃ

Não há um equilíbrio simples. A falta de dinheiro é fácil de entender, mas a medicina religiosa está acessível tanto a ricos como pobres. Na medicina científica, as doenças (hoje) são causadas por parasitas ou mal-funcionamento de órgãos, glândulas, etc. Curar as doenças então significa eliminar os parasitas ou reajustar o funcionamento de um corpo-máquina complexo, na medida do que a tecnologia permite. Na medicina religiosa, quase independentemente da religião, as doenças são punições de ordem espiritual; uma hepatite não é diferente de uma fratura. Curar significa, como nos trechos acima, obter um perdão.

A medicina religiosa é muito antiga em todas as culturas, mas nem sempre foi a única medicina disponível. Entre os indígenas brasileiros, o curandeiro e o sacerdote são a mesma pessoa. As benzedeiras ainda são legítimos representantes desses curandeiros religiosos. Mas o afastamento das figuras religiosas, em comunidades grandes, deu margem a um conhecimento de ervas e práticas curativas (muitas vezes chamadas de ‘simpatias’) que, muitas vezes, embasou a busca por substâncias curativas reconhecidas pela medicina científica. Basta lembrar que o ácido salicílico, primeiro anti-inflamatório, é um componente das folhas do salgueiro europeu, usado na Idade Média para tratar febres. Dessa medicina “mundana” nasceu e evoluiu a ciência médica.

A Igreja sempre foi orientada a cuidar dos pobres e enfermos, dado o exemplo de Jesus como curandeiro. Nesse sentido, desde Roma as comunidades religiosas se dedicaram a um trabalho de assistência social. Não havia distinção entre os pobres, famintos e doentes: o cuidado a todos era provido através de oração, abrigo, cobertores e alimentação. Boa parte dos primeiros hospitais nasceram em rotas de peregrinação até ícones Cristãos, geralmente lugares bíblicos ou tumbas de antigos religiosos para onde as pessoas iam em busca de curas. Os primeiros hospitais foram fundados no séc. 10, durante as Cruzadas, porém o mais antigo médico associado a um hospital Cristão data do séc. 16, na Inglaterra. Essa já era uma inovação compatível com a secularização dos tratamentos, pois os reis ingleses da época estavam em disputa por poder com o Papa.

No mundo Judaico-Cristão, a noção de saúde/enfermidade se confundia com a noção de pureza. Os primeiros ‘centros de tratamento’, nos tempos de Moisés (aprox. 1400 a.C.) foram comunidades de doentes infecciosos, formadas para evitar o alastramento de pragas nas grandes povoações. Apesar desse isolamento forçado, os leprosos da Antiguidade (e dava-se o nome de lepra a muitas enfermidades diferentes) ainda eram tratados como castigos divinos. Mas, caso você chegasse muito perto de um castigado, seria feito impuro (independentemente de ter pecado) e acabaria castigado também. O Templo de Jerusalém, na época Romana, ocupava todo o topo do Monte Moriá e possuía cantos específicos para os doentes, aos quais não era permitido entrar nos lugares mais sagrados. Nesse sentido, Jesus agiu contra as expectativas dos Judeus ao visitar doentes e recebê-los. Essa prática de cura pelo toque de um religioso abençoado foi incorporada pela Igreja Paulina:

[Os Doze, enviados aos pares] expulsavam muitos demônios, e ungiam muitos enfermos com óleo, e os curavam. (Marcos 6.13)

E a multidão dos que criam no Senhor, tanto homens como mulheres, crescia cada vez mais. De sorte que transportavam os enfermos para as ruas, e os punham em leitos e em camilhas para que ao menos a sombra de Pedro, quando este passasse, cobrisse alguns deles. (Atos 5.14,15)

Ao longo da história, muitos religiosos Cristãos foram associados a um poder de cura. Ao contrário do relato de Atos, no entanto, quase em sua totalidade foram pessoas que padeceram de condições ou doenças semelhantes às curas póstumas que lhes foram atribuídas. Alguns dos poucos nomes com o dom de cura atribuído em vida foram Hermione (séc. 1, Ásia Menor), Cosme e Damião (séc. 3, Síria, sabiam preparar remédios e não cobravam por seus tratamentos), Spyridon (sécs. 3-4, Chipre), Panteleimon (sécs. 3-4, Turquia, curava através de orações), Sampson (séc. 5, Roma, curou o imperador Justiniano), Agapitus (início do séc. 11, Ucrânia, também sabia combinar ervas para produzir remédios), Pimen (séc. 12, Ucrânia), Francisco de Assis (séc. 13, Itália), Benedito o negro (séc. 16. Itália) e Lucas (séc. 19, Criméia-Rússia, oftalmologista).

Para quem estava fora do alcance dessas figuras milagrosas, a cura de doenças podia ser alcançada apenas pela purificação no contato com ícones sagrados, lugares santos, etc e não por uma intercessão coletiva em favor do doente. Apenas recentemente essa forma coordenada de oração - fora da liturgia comum dos cultos - ganhou destaque, em grande parte devido ao movimento Pentecostal (séc. 19).

A BUSCA DE CURAS NAS IGREJAS

O Brasil é contado como o 3º país com maior porcentagem de população religiosamente ativa, e também um com índices graves de problemas de saúde infantis e crônicos, típicos de outras terras com más condições sanitárias e/ou baixo acesso a tratamentos médicos.

Os Neopentecostais, em especial, são grupos de igrejas com grande destaque nas intercessões por cura. São igrejas dissidentes de outros grupos evangélicos que surgiram nas últimas duas ou três décadas, como a Universal do Reino de Deus, Renascer em Cristo, Jardim de Deus no Brasil e Casa da Bênção. Essas igrejas vêm atuando, consideravelmente, no campo da saúde, prometendo curas e amparo emocional.

Os fiéis dessas igrejas são principalmente pessoas de nível socioeconômico baixo e pouca escolaridade. Tal público é em grande parte absorvido da Igreja Católica, que não oferece a intervenção/re-significação na vida dos fiéis, nem a introdução numa hierarquia religiosa, como as Neopentecostais fazem. Para uma população menos instruída, é fácil aceitar a característica mágica da cura nas igrejas, pois já há uma visão mitológica do serviço médico. Não há, de fato, uma distinção entre os médicos e magos conhecedores de poções mágicas que curam ou aliviam sintomas (vacinas, pomadas, gotinhas etc.); os medicamentos são gotinhas que “o doutor mandou tomar”, assim como o pastor que manda tomar água do rio Jordão, o padre que benze com água benta ou o médium que fluidifica água. Se o mundo tecnológico não provê explicações acessíveis, as pessoas se tornam habitantes de um mundo mágico - por falar nisso, você tem idéia de como funciona um celular ou uma doença mental? A falta de entendimento científico certamente equipara a medicina, tratamentos alternativos e a religião.

A explicação religiosa das doenças não diferencia hepatite e fraturas, mas oferece um significado e um entendimento que permite ação. Uma tradicional benzedeira brasileira, por exemplo, pode atribuir um resfriado constante ou da perda do emprego a um “mau olhado”; e isso define um inimigo contra quem lutar. O paciente pode identificar possíveis pessoas que o teriam “enfeitiçado” e usar os recursos religiosos contra isso, além de uma prática curativa e alguma ação social, como evitar tal pessoa. Nas igrejas Pentecostais brasileiras, inimigos comuns são entidades da Umbanda, o Catolicismo e uma “vida em pecado”.

Para os fiéis, o Catolicismo representa um culto a ídolos e a Umbanda, Candomblé e Kardecismo cultuam e abrigam o demônio. Como são geralmente evadidos do Catolicismo, a Umbanda aparece como principal religião concorrente, Não raro, nos cultos Pentecostais são apresentadas pessoas possessas por “exus”. O Catolicismo é identificado sobretudo com a proximidade a imagens de adoração ou velas, bastante comuns em casas e famílias antigas. A “vida em pecado” geralmente é apontada à semelhança do profeta Natã avisando Davi (2ª Samuel 12) e cabe ao fiel “confessar”, quase no estilo Católico, o que seria motivo de seu castigo por Deus.

As duas primeiras explicações (Umbanda e Catolicismo) são reforçadoras do ideal de banir práticas das outras religiões da vida do fiel. Algumas denominações Pentecostais chegam ao ponto de evitar mesmo o contato com pessoas e mídia que não seja “abençoada”. Para o fiel, não se trata de avaliar a eficácia da cura prometida, pois chegar à cura é uma questão de quão empenhado ele mesmo pode ser, quanto consegue banir os representantes de outras religiões e ser puro. Para a medicina científica, por outro lado, é prometida a cura através de um comprimido - isso não depende do paciente e a falha no processo é uma falha da terapia.

A especialização da medicina científica ainda aponta para uma fragmentação do homem, que não é compreendida pelas pessoas. Parece muito mais natural (e lógica) a busca de uma purificação, o afastamento de um inimigo, uma bênção. O não adoecimento também demonstra, a toda a maioria que está sã, um certo grau de proteção e a noção de “corpo fechado”. O fiel batizado, correto, tem o corpo fechado para o mal, podendo até ser atacado, mas, se tiver a “verdadeira fé”, não será atingido. Esse viés também cria um “acobertamento” de enfermidades que podem denunciar uma “vida incorreta”. Pastores e padres, em especial, costumam ser atendidos com níveis graves de depressão, após meses ou anos lutando com o que eles assinalam como “falta de fé”.

A causa das doenças também pode ser atribuída à submissão aos prazeres carnais. Por outro lado, podem surgir re-interpretações para episódios de doenças, principalmente quando atingem pastores. Nesses casos, a doença passa a ser vista como uma provação a ser enfrentada ou um ataque do demônio para fazer calar aquele que leva a palavra de Deus. A doença do pastor, então, seria “um mecanismo do inimigo” para atingir um forte opositor na “guerra santa”.

Muitas igrejas mantém resquícios de uma lógica biológica-científica e apoiam campanhas de aplicação de flúor, verificação de pressão arterial, glicemia etc. Porém, os afetados pelo Mal tradicionalmente apresentam sintomas que chegam a ser caracterizados como “dez sinais de possessão”: nervosismo, dores de cabeça constantes, insônia, medo, desmaios ou ataques, desejo de suicídio, doenças cujas causas os médicos não descobrem, impotência, visões de vultos ou audição de vozes, vícios e depressão. Não é preciso vasculhar muito a literatura psiquiátrica para perceber que TODOS esses indícios, assim como seu conjunto, são indicativos de um quadro ansioso-depressivo, o mais comum em clínicas de psicológicas e psiquiátricas, que representa quase metade dos atendimentos e afeta, em algum momento da vida, 20-30% de todos os adultos no mundo.

Nessa ocupação do nicho de saúde pela medicina científica, psicologia/psiquiatria e a medicina religiosa, no Brasil frequentemente há a desvalorização de um tratador pelo outro. Especialmente no que diz respeito à saúde mental, psiquiatras e psicólogos raramente trabalham em conjunto. O mesmo pode-se dizer de médicos e pastores ou de psicólogos/psiquiatras e pastores. Em alguns casos, o pastor costuma dizer que “não resolve” ir ao médico ou fazer exames. Se o fiel crê que Deus quer salvá-lo, Ele fará isso, mesmo sem a ajuda médica. Os sinais de aflição dão uma idéia ainda mais clara de que temos profissionais de lógicas diferentes abordando os mesmos problemas.

Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta. (Tiago 2,26)

Embora seja tradicional pensar em um duelo de concepções sobre a saúde no sentido "a minha é correta e a sua é superstição", os seres vivos - e não só os humanos - funcionam numa lógica de vários níveis de informação sobrepostos. Aqui, temos os níveis biológico, psicológico e espiritual. Tiago alerta sobre as obras de amor que precisam ser feitas, para que o Espírito se manifeste. Em semelhante, não há como pensar em seres humanos sem corpo, sem espírito e sem um interferindo com o outro. Mais recentemente, ao mesmo tempo em que alguns pastores negam a eficácia da medicina científica como tratamento, outros muitos se graduaram como profissionais de áreas científicas, no interesse de suas comunidades.

A função da Igreja institucional e hierárquica, aqui, é relevante: embora seja o fiel quem deve se “acertar com Deus” e sejam convocadas reuniões de oração por cura, é muito mais frequente no meio Pentecostal que a cura seja provida pela oração, bênção ou toque do pastor e de nenhum outro. Qualquer semelhança com os poucos santos Católicos manifestando o dom de cura não é coincidência. A equiparação à imagem de Cristo curando quando nenhum dos discípulos pôde é recorrente, e por isso mesmo o pastor deve ser não apenas puro e correto, mas o mais puro e correto dentre todos, indo além de uma função como exemplo ou ofício sacerdotal. Essa relação com o pastor como líder, guia e representante de Jesus faz com que grande parte dos fiéis se afaste da igreja quando há troca de pastores, a menos que a troca seja explicitada como decorrente do mais grave pecado e vilania do pastor antigo.

SOBRE AS CURAS RELIGIOSAS

[Deus] nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica. (2ª Coríntios 3.6)

A Bíblia mostra muitas curas religiosas, mas parece uma exacerbação grande das idéias de Paulo acreditar numa invulnerabilidade através da fé, pois ele mesmo descreve a presença de um médico em seu grupo (Lucas) e o adoecimento de Trófimo, seu companheiro de viagem (2ª Timóteo 4.20). 

Fora da esfera de que a doença é “uma responsabilidade do fiel, consequência de seus pecados”, sempre foi bastante comum dos grupos Cristãos a prática de oração pelos doentes, além de cuidados básicos como alimentação e abrigo.

Também fugindo da tradição de que as curas são obtidas pelo toque de alguém abençoado ou pela presença em um lugar santo, mesmo que seja a presença de um intercessor, recentemente diversos pesquisadores estudaram a influência de intercessões sobre a melhora de pacientes internados.

Abaixo faço uma exposição detalhada desses estudos, com links para o acesso aos trabalhos individuais. Esses trabalhos avaliaram principalmente pacientes de cirurgia cardíaca, em que são comuns as intercorrências pós-cirurgia. Alguns resultados são importantes de ser discutidos. Primeiro, os efeitos da oração coletiva beneficiam poucos pacientes 5-25%), sendo esses principalmente os de menor gravidade. Segundo, não há um efeito quantitativo da oração, isto é, 1 pessoa orando não produz menos efeito do que 15. Essa conclusão dificulta muito a avaliação dos efeitos de orações no contexto hospitalar, pois em todos os trabalhos, pelo menos 90% dos pacientes estadounidenses acredita ter alguém orando por sua recuperação. Por outro lado, também torna difícil esperar resultados melhores do que os obtidos atualmente. Terceiro, o efeito da oração intercessória pode ser retroativo, isto é, literalmente agir no passado. Elucubrações mentais muito engraçadas foram feitas no sentido de tentar explicar isso.

Nenhum dos estudos avaliou o papel melhorador de uma pessoa com alegado dom de cura. Aparentemente, essas figuras sempre foram participantes fundamentais das igrejas relacionadas a curas. Busquei por relatos sobre a avaliação criteriosa de pessoas assim, sem muito sucesso. Em geral, os mesmos que colecionam relatos de sucesso também têm muitos relatos de insucesso, atribuídos pelos seguidores a uma fé insuficiente do paciente ou de alguém no seu entorno. A pessoa é curada quando há fé suficiente, comprovada pela obtenção da cura; em outras palavras, a cura ocorre quando se é curado, com 100% de certeza.

Especialmente para as pessoas que crêem num sinergismo de Deus e dos homens no processo de curar, a insistência em tratamentos sem resultado pode ser uma prova de fé. Infelizmente, podendo ser necessárias muitas tentativas de cura antes de um resultado favorável, que viria após a demonstração de fé necessária, se torna especialmente difícil avaliar a eficiência de qualquer processo de cura. Muitas vezes, o resultado dessa insistência é a morte do paciente, entendida também como cura.

Então, como avaliar cientificamente se há religiosos capazes de promover curas? O teste empírico mais óbvio seria examinar pacientes antes e depois da cura, comprovar o desaparecimento sobrenatural de uma causa para doenças. No entanto, esse teste quase que imediatamente "mancha" a fé no curador, o que costuma ser um critério exigido para o sucesso. E quantos curadores se deixam avaliar dessa forma? Não encontrei nenhum relato em trabalhos científicos.

Alguns pesquisadores tentaram contornar tal dificuldade avaliando a saúde de comunidades religiosas em comparação com a população em geral. Obviamente, temos o problema de que não há como esperar o dom de cura de todos os líderes religiosos. Mas podemos esperar uma proximidade maior com pessoas "curativas" nas comunidades religiosas, se é que isso tem algo a ver com a Igreja. Nos EUA, quando se contabilizaram a ocorrência de infartos e AVCs entre 40 mil pessoas hospitalizadas, aqueles com maior frequência em igrejas mostraram menos casos de AVCs, especialmente idosos homens brancos e mulheres negras. Mas, antes de pensarmos em uma escolha sexual e racial a respeito de quem Deus cura, esses são justamente os grupos mais atingidos. Eles se beneficiaram muito do afastamento de bebidas, cigarro, glutonaria, assim como de ambientes violentos.

Por fim, até as doenças psicossomáticas ligadas a ansiedade e depressão, em que as igrejas tanto de dedicam curar (pois carregam os sinais de possessão demoníaca), são problemáticas. O único grande estudo médico a abordar essa questão (nos pacientes cardiopatas, para variar) justamente colocou um ponto perigoso, que é o de a expectativa de receber orações criar ansiedade. Nesses pacientes, a expectativa de contar com orações produziu piora dos seus quadros.

Comparadas com tratamentos atuais de psicologia e psiquiatria, as melhoras para transtornos mentais oferecidas pela igreja são muito pequenas. Na verdade, apenas são melhores que nada e costumam ser serviços gratuitos, aos quais muitos podem recorrer. Lembram, por isso, a atenção de alimento, cobertores e abrigo oferecida aos doentes na Idade Média.

RESUMINDO A MISSA

O que tentei trazer aqui, baseado em pesquisas científicas de alto calibre, foi uma apreciação de como a fé está ligada com a saúde das pessoas. Observamos que há o relato Bíblico de curas; que há um conceito de saúde diferente do científico, explorado pelas igrejas sobretudo entre as populações menos instruídas; que não existe algo quantitativo nas orações coletivas, 1 pessoa orando é tão efetivo quanto muitos; que há pouco benefício real dessas orações, pelo menos para os pacientes cardiopatas; que as comunidades religiosas fazem um papel interessante de evitar hábitos ruins que comprometem a saúde dos mais velhos.

No entanto, mostrei também que há uma dificuldade metodológica grande em avaliar as curas religiosas. Recentemente, esse tema se tornou mais importante pela recusa, em todo o mundo, de comunidades em seguir recomendações científicas de saúde. Em quase todas as situações, os religiosos afirmaram que suas reuniões eram mais protetoras do que as leis de isolamento social. A menos que estejamos com moléstias transmissíveis atingindo (e que não seja de forma grave) sobre menos de 10% dos membros das comunidades, posso afirmar agora que uma coisa não se equipara com a outra.

Não há, provavelmente, um modo de verificar o quanto a sua oração por um doente é funcional. Eu prefiro não pecar pela falta.. E não há modos éticos de avaliar os poderes curativos de pessoas que aguentam ser tais como Jesus, Pedro e João. Comparando os modelos teológicos em que "Deus cura por sua própria vontade" e "Deus cura mediante nossas orações", há uma evidência do tamanho de uns 15% em favor da 2ª alternativa.

Por isso, há de se pensar que a oferta de medicina científica pelas comunidades religiosas, ao preço mais baixo que puderem, seria o modo de unir a força vinculadora da fé com práticas terapêuticas realmente efetivas. Infelizmente, no mundo todo, perecer ou ser curado de uma doença tem muito mais relação com o acesso a medicina científica do que com a prática de oração.

Como disse Tiago, o Espírito há de se manifestar pela oração e pelas obras juntos.

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ESTUDOS INÚTEIS REFERENCIADOS AQUI

Abercrombie A, A biblical response to mental illness and suicide: what should we conclude…, Biblical Counseling Institute, abr/2013.

British Broadcasting Channel (BBC), Developments in patient care, Bitesize.

CERQUEIRA-SANTOS, Elder; KOLLER, Sílvia Helena; PEREIRA, Maria Teresa Lisboa Nobre. Religião, saúde e cura: um estudo entre neopentecostais. Psicologia: ciência e profissão, v. 24, n. 3, p. 82-91, 2004.

HESS, Denise. Faith healing and the palliative care team. Journal of social work in end-of-life & palliative care, v. 9, n. 2-3, p. 180-190, 2013.



Roser M, Ortiz-Ospina E, Global extreme poverty, ourworldindata.org, 2019.

SILVA, CAB; VASCONCELLOS, MP. Da doença ao milagre: etnografia de soluções terapêuticas entre evangélicos na cidade de Boa Vista, Roraima. Saúde e sociedade, v. 22, n. 4, p. 1036-1044, 2013.


Tolkien JRR, O senhor dos anéis - O retorno do rei, 1955, versão digital por Cláudia Tressoldi, issuu.com

Zebrun CK, Stefanar JY, Saints who were physicians and hearlers, Department of Christian Education - Orthodox Church in America, 2018.

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apêndice
GRANDES ESTUDOS SOBRE A INFLUÊNCIA DE INTERCESSÃO RELIGIOSA

O 1º grande estudo foi Statistical inquiries into the efficacy of prayer, de Francis Galton, publicado no Fortnightly Review v. 12, p 125-35, 1872. Ele coletou as idades de morte de 6473 homens que ultrapassaram os 30 anos (era uma época sem antibióticos) e não morreram de acidentes. Separando-os entre religiosos e não religiosos, famosos ou desconhecidos, Galton observou que, em todos os casos, a expectativa de vida era de aprox. 66-68 anos. Entre várias discussões, Galton observou que mesmo os admirados e religiosos não gozavam de sobrevida maior. Logo, a interferência das orações no máximo atingiria os 1os anos de vida ou a ocorrência inesperada de acidentes.

O trabalho de Galton foi uma exposição qualitativa. Apenas muitos anos depois, alguém efetivamente quantificou os efeitos da oração intercessória. Randolph C. Byrd publicou "Positive Therapeutic effect of intercessory prayer in a coronary care unit population, South Med J, v. 81, p. 7, 1988", onde ele tomou 336 pacientes de uma unidade hospitalar para cirurgias cardíacas. Metade dos pacientes foi sorteada para receber orações diárias por sua melhora. Para isso foram recrutados Cristãos praticantes (segundo eles mesmos e seus líderes) de várias comunidades Protestantes e Católicas. Os "orantes" recebiam os nomes dos pacientes, o conhecimento de que passariam por cirurgia cardíaca e nada mais. No momento de alta dos pacientes, seus prontuários foram coletados e estudados.

A maioria dos pacientes era portador de cardiomegalia, angina, histórico de infarto e edema pulmonar. Algumas coisas não foram afetadas pelas orações intercessórias: nº de dias na UTI, nº de dias internado, nº de medicações, taquicardia (16%), presença de angina (10%), mortalidade (8%), pressão arterial e medicações usadas para controlar a pressão. Mas Byrd encontrou algumas coisas mudadas: falha cardíaca congestiva após a cirurgia (4 vs. 10%), uso de diuréticos para reduzir a pressão arterial (3 vs. 8%), ocorrência de pneumonia e uso de antibióticos (2 vs. 8%) e necessidade de intubação (0 vs. 6%). Comparando o resultado geral dos procedimentos, 79% tiveram bons resultados, enquanto 18% tiveram maus resultados. Byrd ressaltou que todas as alterações no grupo que recebeu orações foram associadas a melhoras, e as mesmas podem ser contabilizadas como beneficiando cerca de 5% dos pacientes. Como ele mesmo enfatizou, não houve como limitar as orações dos próprios pacientes ou de familiares, em qualquer um dos grupos. Pensando no padrão das famílias estadounidenses (casal + 2 filhos), é provável que cada paciente do grupo “sem oradores” contasse, na verdade, com 4 pessoas orando por si, enquanto cada um do grupo “com oradores” contasse com 5. Essa pequena diferença talvez respondesse pelo resultado de Byrd.

Um outro estudo significativo veio da famosa Clínica Mayo, uma versão bem avantajada do Hospital Albert Einstein brasileiro (Aviles JM, Whelan SE, Hernke DA, et al., Intercessory prayer and cardiovascular disease progression in a coronary care unit population: a randomized controlled trial, Mayo Clinic Proceedings v. 76, n. 12, p. 1192–1198, 2001). Aqui, 799 pacientes com problemas cardíacos atendidos por uma unidade hospitalar foram monitorados por 26 semanas. Metade deles, por sorteio, foi designada para um grupo de 215 intercessores recrutados em comunidades religiosas locais. Cada um dos intercessores orou ao menos semanalmente por 4 a 7 pacientes, sobre os quais foram fornecidos de início dados como nome, idade e resumo do diagnóstico. No final das 26 semanas, o histórico dos pacientes foi comparado. Lembrando o trabalho de Byrd, isso significava 4 a 6 intercessores por pacientes do grupo recebendo orações, além, talvez, dos próprios pacientes e seus familiares.

A maioria dos pacientes havia sido admitida no hospital por infarto do miocárdio, além de um histórico de alto colesterol plasmático e hipertensão. Considerando eventos como morte (8,5%), infarto (0,3%), intervenção vascular (5%), internação (19%) e atendimentos de emergência (8,3%) durante as 26 semanas, não foram detectadas diferenças significativas entre os grupos com e sem intercessores. Apenas 10 a 15% dos pacientes recebendo orações pareceu ter se beneficiado disso, considerando cada um dos ítens avaliados; no geral, o efeito se perdia por completo. Separando os pacientes de baixo e alto risco, os de baixo risco tiveram aprox. 50% sendo beneficiados pelas orações, enquanto os de alto risco tiveram 0 a 10% beneficiados, dependendo do critério. No final, a Clínica Mayo concluiu que os efeitos da intercessão religiosa, se existiam, eram pequenos e só conseguiam favorecer os pacientes em melhores condições. A Clínica avaliou como um problema do estudo a variedade de intercessores, a variedade de crenças dos pacientes e o não seguimento dos intercessores (orações semanais vs orações diárias), coisa que Byrd havia feito.

Um estudo realmente interessante foi publicado por Leibovici L - Effects of remote, retroactive intercessory prayer on outcomes in patients with bloodstream infection: randomised controlled trial, British Medical Journal, v. 323, n. 7327, p. 1450–1451, 2001. Uma lista de 3393 pacientes com infecção sanguíneas de um hospital de Israel foi sorteada para formar 2 grupos. Um deles deveria receber orações de um religioso, o outro não; o critério de comparação seria morte, ocorrência de febre e o tempo de internação. A oração foi feita sobre um livro com os nomes dos pacientes. O detalhe é que os pacientes já haviam deixado o hospital 4 a 10 anos atrás! Como Deus não estaria limitado ao tempo, essa intercessão deveria fazer com que as pessoas tivessem melhoras no passado.

A maioria dos pacientes havia contraído infecção urinária (ou outros tipos, como infecção pulmonar) enquanto estava internada no hospital, então todos os casos se tratavam de infecções acompanhadas desde o início. Curioso como isso pode soar, Leibovici encontrou os pacientes com maiores tempos de internação (> 15 dias) permanecendo menos tempo internados quando recebiam oração (no futuro). Para mais de 75% dos pacientes, porém, não houve efeito algum.

Em 2005, Krucoff MW et al. publicaram "Music, imagery, touch, and prayer as adjuncts to interventional cardiac care: the Monitoring and Actualisation of Noetic Trainings (MANTRA) II randomised study", Lancet, v. 366, n. 9481, p. 211–217. Nesse trabalho estadunidense, bem semelhante ao de Byrd, novamente houve o recurso a 748 pacientes passando por cirurgia cardíaca. A maioria já sofrera um infarto e era portador de diabetes. Metade deles teve dados como nome, idade e diagnóstico secretamente passados a 12 grupos de religiosos locais, sendo esses Cristãos, Islâmicos, Judeus ou Budistas. Cada paciente recebeu orações por 5-30 dias, dependendo da rotina das comunidades religiosas. Os históricos dos pacientes ao longo de 2 anos foram comparados.

Krucoff recolheu alguns dados interessantes. Por exemplo, 89% dos pacientes acreditava que algum amigo ou familiar estivesse orando por ele. Nos 1os 6 meses após a cirurgia, não houve diferença entre os grupos na ocorrência de algum evento cardiovascular (37%), algum evento grave (25%), re-internação (34%) ou morte (3,5%). Ao final dos 2 anos de seguimento, considerando as diferenças entre os grupos, a maior delas foi na re-internação (25% dos pacientes foram beneficiados por orações) e a menor foi na ocorrência de mortes (nenhum benefício). Estatisticamente, nem a maior foi significativa. Como no caso do estudo de Byrd, aqui pode ter ocorrido o mascaramento de efeitos dos grupos de oração pela presença (grande) de orações de familiares e amigos, embora quantitativamente esse estudo tenha provido um número considerável de "orantes" para cada paciente.

O mais atual desses grandes estudos sobre o efeito de intercessão espiritual foi Benson H, et al., "Study of the Therapeutic Effects of Intercessory Prayer (STEP) in cardiac bypass patients: a multicenter randomized trial of uncertainty and certainty of receiving intercessory prayer". American Heart Journal, v. 15, n.4, p. 934-942, 2006. Ele reuniu pacientes de cirurgia cardíaca de quase todas as grandes instituições hospitalares na costa leste dos EUA. Embora os pacientes fossem de fés variadas (ou mesmo ateus/agnósticos), eles foram atribuídos a grupos de oração Cristãos. Os 1802 pacientes participantes foram sorteados entre 3 grupos, mas apenas o grupo 3 recebeu aviso de que receberia orações. Essas, entretanto, foram feitas somente após o período de avaliação (30 d). Os grupos 1 e 2 não receberam qualquer aviso. No grupo 1 não houve orações (a não ser de amigos e parentes); no grupo 2 houve orações feitas por 3 grupos de religiosos (2 Católicos e 1 Protestante) que recebiam diariamente os nomes de pacientes, durante 14 dias. Cada lista tinha a instrução de orar pelo sucesso na cirurgia, com boa e rápida recuperação após ela.

Como sempre, a maioria dos pacientes eram hipertensos, com histórico de infarto e diabetes. 80% tinha afiliação religiosa, sendo 60% Protestantes. Cada grupo diário de "orantes" tinha 10-58 pessoas, reunidas de 1 a 4 vezes por dia. Pelo menos 95% dos pacientes acreditava que haveria alguém orando por eles durante a cirurgia. Benson encontrou que 58,6% dos pacientes avisados sobre as orações (grupo 3) teve alguma complicação no período de análise. Nos grupos não avisados (1 e 2, com e sem oração), ambos tiveram intercorrências em 50% dos pacientes. Nos 3 grupos, essas intercorrências foram principalmente complicações cardíacas (31%) e pulmonares (23%). Nenhum dos problemas de saúde avaliados foi estatisticamente diferente entre os grupos com e sem oração: as principais diferenças foram a ocorrência de diabetes e falência renal (20% menor no grupo com oração) e doença obstrutiva pulmonar (20% maior no grupo com oração). A principal conclusão do estudo acabou sendo sobre o grupo avisado das orações, que teve 20% mais ocorrência de todos os problemas de saúde avaliados. Benson atribuiu isso a um efeito de ansiedade, tendo o cuidado de comparar os grupos 1 e 3, para evitar o efeito retroativo das orações, conforme observado por Leibovici.

OBISESAN, Thomas et al., Frequency of attendance at religious services, cardiovascular disease, metabolic risk factors and dietary intake in Americans: an age-stratified exploratory analysis, The International Journal of Psychiatry in Medicine, v. 36, n. 4, p. 435-448, 2006 chegou a entrevistar quase 40 mil pessoas nos EUA e relacionar a ocorrência de infartos e AVCs (as principais causas não infecciosas de morte) com a frequência em serviços religiosos. Os resultados foram interessantes.

Na população acima de 60 anos, mais propensa a morrer dessas causas, não houve qualquer relação entre infartos e a frequência religiosa; mas houve 25% menos relatos de AVCs. Isso foi especialmente válido para homens brancos (40% menos AVCs) e mulheres negras (66% menos AVCs).

Entre as causas "mundanas" mais sugeridas para essa diferença, claro, estavam a adoção de estilos de vida mais saudáveis entre os religiosos (menos fumo, menos bebida, menos associação com violência) e a evitação de depressão/ansiedade pelo convívio social e atribuição de significados lógicos para as ocorrências diárias. E isso não era mentira: quando foi introduzida a probabilidade menor de ocorrência desses problemas, estruturalmente em homens brancos e mulheres negras, desapareceu por completo o efeito protetor da frequência às igrejas.

Um estudo significativo avaliou ainda as intervenções religiosas não sobre as doenças diretamente, mas sobre os níveis de ansiedade e depressão de doentes. GONÇALVES, Juliane PB et al. Religious and spiritual interventions in mental health care: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled clinical trials. Psychological medicine, v. 45, n. 14, p. 2937-2949, 2015 reuniu dados sobre o tratamento de 3150 pacientes, a maioria deles usuários de drogas, pacientes de ansiedade e cardiopatas. Metade deles passou por intervenções religiosas que incluíram psicoterapia de bases religiosas, recursos audiovisuais como leituras e músicas, serviços pastorais e formas de meditação, geralmente por 1 a 6 semanas. Todos os pacientes incluídos tiveram seus níveis de ansiedade e depressão monitorados por escalas clínicas.

Cerca de 60% dos pacientes teve melhora dos sintomas de ansiedade (contra 40% que não teve benefício), o que é pouco significativo. No quesito sintomas de depressão, apenas cerca de 20% dos pacientes de beneficiou das intervenções. Comparando-se esse resultado com parâmetros clínicos de terapia psicológico-psiquiátrica atuais, onde 90-95% dos pacientes de ansiedade e 70% dos pacientes de depressão obtém melhoras, trata-se de uma eficácia muito fraca. O principal benefício dessa abordagem, então, estaria na forte vinculação dos pacientes aos serviços religiosos e seu baixo custo.

domingo, 24 de julho de 2016

Obrigado, Jesus! (Porta dos Fundos deu a idéia)




Recentemente, esse vídeo foi muito criticado pelas comunidades religiosas. Respeitando tanto quem o fez como quem sentiu-se ofendido, eu gostaria de aplicar uma metodologia que vi no livro de Gabriel Jorge Castellá, para fazer uma análise dele.

1. Quem ofende? Aquele que emite o insulto ou quem o recebe? Não há ofensa até que aquele que recebe o impropério o avalie como tal. Por conseguinte, o insulto não ofende nem irrita. É uma pessoa quem se ofende ou se irrita diante da suposta ofensa.

Nesse caso, obviamente deveríamos nos perguntar porque os Cristãos sentiram-se ofendidos com o vídeo. Nele, Jesus (em tom de repreensão) diz que não teve participação em uma cura e, pior, foi responsável por uma morte vã, desnecessária. A ofensa vem pela noção, crença disseminada e ensino de que Jesus é o responsável por todas as curas e, às vezes, até cura a todos que pedem sua ajuda. Qual cristão nunca viu alguém ser repreendido por não alcançar a cura de seus males, o fim de seus problemas? Afinal, se os problemas persistem, é porque ele não clamou a Deus, não tem fé suficiente ou carrega algum pecado muito terrível. Jesus, assim, costuma ter a função de uma entidade que cura a todos ou, pelo menos, aqueles que merecem sua atenção. Os Cristãos sentiram-se ofendidos ao ver um suposto Jesus (e assim dotado de autoridade máxima sobre Sua natureza) dizendo que estão todos enganados. O Jesus de Porta dos Fundos quase diz explicitamente que não se importa com a pessoa sendo operada.

Jesus certamente fez muitas curas. Curou quando a lei dos Fariseus não permitia, curou até involuntariamente (quando a mulher com hemorragia o tocou - ver Marcos 5.30), à distância (quando um certo centurião de Cafarnaum pediu ajuda para seu servo - ver Lucas 7.2-10) e ainda deixou o poder de cura para seus servos (Atos 5.16-16). Mas ele não curou a todos (pois o aleijado em Bethesda devia ter muitos colegas), e não dá explicação alguma para isso. Jó nos mostra que mesmo os queridos de Deus adoecem gravemente, e o falecimento de Lázaro (amigo íntimo de Jesus) mostra que isso também se aplica aos queridos do Messias. Lucas (que era médico) nos aponta que sim, havia medicina antes de seguir a Jesus. E também havia a cura de não crentes, pois o famoso hipócrates (citado a té hoje nos juramentos médicos e como definidor dos princípios farmacêuticos) viveu no séc. 5 a.C., entre os gregos. Mesmo nos tempos de Jesus, Ele curou certa vez 10 leprosos dos quais apenas 1 se mostrou crente (Lucas 17.12-18). Os fármacos celtas (a exemplo folhas de salgueiro, de onde se originou o uso do ác. acetilsalicílico), árabes (como a mirra, levada em presente a Jesus) e chineses (a a exemplo o ópio, de onde até há pouco tempo se extraía a morfina) também datam de tempos muito anteriores ao Cristianismo.

Então, toda cura pode ser atribuída a Jesus? Provavelmente não, a menos que reformemos nosso entendimento religioso e pensemos num Deus distribuindo curas independentemente do credo, feitos, etc, basicamente segundo uma vontade que não nos é compreensível. Jesus curou a todos que se apresentaram a ele? Praticamente sim, mas não a todos. Curou não judeus, não crentes, etc, mas deixou que outros continuassem doentes (em Bethesda) e até queridos seus morressem de enfermidades. Como Deus, seu critério de cura também não nos parece compreensível. Por outro lado, o Jesus bíblico parecia se importar sempre com as pessoas, muito mais do que seus seguidores até, seja qual fosse o destino delas¹.

Voltando ao que pretendia dizer, o Jesus de Porta dos Fundos se torna ofensivo porque contradiz um Jesus aprendido / ensinado aos Cristãos. Mas esse Jesus aprendido / ensinado também não é exatamente o Jesus bíblico, e sim uma figura moldada para ser atraente a todos, em especial aos que precisam de ajuda por conta de uma enfermidade. Claro que o Jesus de Porta dos Fundos também está longe do Jesus bíblico ao desdenhar das pessoas, mas seria difícil esperar algo diferente de qualquer tipo de humor que não se pauta no Cristianismo.

2. O porque e o para quê do insulto. Toda pessoa que insulta age dessa maneira porque se sentiu ferida, maltratada, desprezada, desonrada ou ofendida por esse “vil”, “desprezível” ou “incompetente malfeitor” destinatário do insulto. 

Claro que o interesse do vídeo em questão parece ser muito mais o humor e a atenção da audiência do que uma resposta a alguma provocação. Mas o humor em questão se faz justamente porque muitas pessoas (e daí essa abordagem da religião) se sentem de fato ofendidas pelos comportamentos Cristãos. São essas as pessoas que se vêem representadas no vídeo. Em especial, sentem-se ofendidas intelectualmente: como se pode atribuir uma cura a Jesus quando o médico estudou, aprimorou-se para chegar a essa cura? Quando há toda uma infra-estrutura, profissionais e medicamentos que foram usados para chegar-se? Para não falar da história de vida da paciente, se mantinha-se saudável, se cultivava bons hábitos. No final, havendo a morte da paciente, é o médico/enfermeiro o culpado. O vídeo inverte toda essa situação atribuindo a cura ao médico, e a morte a Jesus.

Como a Bíblia não é muito clara em questões da saúde (apesar de Deus ensinar noções valiosas de higiene e sanidade aos Judeus, enquanto peregrinavam com Moisés pelo deserto), talvez seja útil tomar uma reflexão bíblica sobre a participação do homem em sua Prosperidade. Decerto curar-se de uma enfermidade pode ser incluído na noção de Prosperidade.

Se não for o Senhor o construtor da casa, será inútil trabalhar na construção. Se não é o Senhor que vigia a cidade, será inútil a sentinela montar guarda. Será inútil levantar cedo e dormir tarde, trabalhando arduamente por alimento. O Senhor concede o sono* àqueles a quem ama. (Salmos 127.1,2) [*em algumas traduções: durante o sono]

Como é feliz quem teme ao Senhor, quem anda em seus caminhos! Você comerá do fruto do seu trabalho, e será feliz e próspero. (Salmos 128.1,2)

Esses dois trechos foram escolhidos por tratarem-se de ensinos sapienciais dos palácios do tempo de Salomão. O 1º deles atribui claramente a Deus o sucesso dos empreendimentos e trabalhos humanos. O 2º deles coloca como recompensa de amar a Deus o simples fato de ter o fruto do seu trabalho. Aplicando isso ao vídeo, de fato não haveria cura se não fosse pelo trabalho do médico, medicamentos, etc. E ao mesmo tempo tais esforços seriam em vão sem a ajuda de Deus. Estritamente, Deus instituiu uma retribuição de 10% sobre os ganhos para aqueles que reconhecessem a sua providência. Não algo espiritual, mas 10% em espécie (ouro, animais, colheita, etc) para a provisão de Seus sacerdotes e templos. Assim, de certa forma, 90% dos ganhos de cada um eram retribuição de seu próprio suor, assim como se poderia pensar que 90% da cura (aqui interpretada como fruto do trabalho médico) seria retribuição dos esforços da equipe, infra-estrutura, cuidados da paciente com a própria saúde ao longo da vida, etc. Agradecimentos (e pagamentos) a tudo isso são usuais e praticados, mas seria interessante lembrar ao menos aos crentes dos 10% referentes à ajuda referida no Salmo 127. Como nada pode existir como apenas 90% de si… Exceto os mais ateus (talvez como o Jesus de Porta dos Fundos), ninguém se recusará a um agradecimento de 10%.

Por menos religiosos que sejam tais vídeos, sempre são uma boa expressão de crenças e visões sobre os Cristãos. Para agir com verdade e sabedoria, sempre vale a pena entender o que é dito e o porque dizem isso. Além de umas boas risadas, é claro.

Aquele que cobre uma ofensa promove amor, mas quem a lança em rosto separa bons amigos. (Provérbios 17.9)

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¹ Claro que Jesus (o verdadeiro) não matou ninguém e, ao contrário, até trouxe alguns de volta à vida. Mas Ele também prometeu morte pior que a Dele a quem O seguisse (João 15.18-21), o que de fato inaugurou a Era dos Mártires. Dessa forma, em sua preocupação com as pessoas Ele parecia colocar a morte em 2º plano, como se fosse algo menos importante do que seguir a Ele.

TIRADO DO PROFUNDO DA MANGA

Castellá GJ, 20 formas sadias de responder ao insulto, ed. Paulus, 2006.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Sabbath Matters - a questão do Sábado



O título acima é uma brincadeira com a peça Stabat Mater (mãe que fica junto) de Pe. Antônio Vivaldi, convertida em algo como "O Sábado Importa". Você pode clicar AQUI para ouvir a peça enquanto lê.

PRECISA-SE DE UMA PISCINA

Tudo começou no tempo do rei Ezequias (séc. 8 a.C.), quando foram feitas várias obras para garantir o fornecimento de água a Jerusalém. Uma pequena represa foi feita fora das muralhas da cidade para armazenar as águas das chuvas e chamaram-na “Açude superior”, porque se comunicava por aqueduto e um canal cortado na rocha com um tanque mais abaixo, dentro da cidade.

O rei da Assíria enviou ao rei Ezequias, em Jerusalém, seu general, seu oficial principal e seu comandante de campo com um grande exército. Eles subiram a Jerusalém e pararam no aqueduto do açude superior, na estrada que leva ao campo do Lavandeiro. (2ª Reis 18.17)

Tratava-se de uma trilha descendo pela lateral da muralha da cidade. O mesmo local é mencionado pelo profeta Isaías muito tempo depois, durante a conquista de Judá pelos exércitos dos Caldeus:

Saiam, você [Isaías] e seu filho Sear-Jasube, e vão encontrar-se com [o rei de Judá] Acaz no final do aqueduto do açude Superior, na estrada que vai para o campo do Lavandeiro. (Isaías 7.3)

Isaías viu a destruição do Templo de Salomão em 587 a.C., após um longo cerco, quando Babilônia conquistou Canaã. Duas gerações depois, após a libertação dos cativos, Dario I da Pérsia ordenou a reconstrução do Templo (~516 a.C.). Como parte de sua política para “apagar” as marcas deixadas pela linhagem de Nabucodonosor, o novo Templo ficou ainda maior do que o primeiro.

"A glória deste novo templo será maior do que a do antigo", diz o Senhor dos Exércitos. "E neste lugar estabelecerei a paz", declara o Senhor dos Exércitos. (Ageu 2.9)

Após a invasão grega nos tempos de Alexandre, o Grande (~330 a.C.), os sacerdotes do templo passaram a ser de linhagem grega. Um desses sacerdotes, Simão II, o Justo (~200 a.C., 3º Livro dos Macabeus 2.1) mandou que um outro tanque alimentado pelo Açude Superior fosse construído mais abaixo, encrustado na rocha, mas dessa vez fora das muralhas da cidade. Talvez essa fosse uma medida para prover um ponto de água aos gregos dissidentes da fé judaica. Nesse tempo, em que a religião judaica chegou a ser banida, um altar a Zeus foi construído no Templo, onde havia o sacrifício de porcos. O novo tanque provavelmente foi dedicado ao deus da cura Asclepius (o mesmo patrono da medicina) e certamente as águas do tanque eram consideradas curativas. Para os gregos e judeus, com o tempo tornou-se um ponto de busca dos enfermos, ao qual se chegava descendo 13 m por uma escadaria esculpida na rocha. Um local apertado, em cujos degraus onde deviam acumular-se leprosos e aleijados de toda a região.

Em 167 a.C., uma revolta dos judeus recuperou o controle do Templo para a sua fé. Os reis Hasmoneus, como se chamavam, tornaram Israel mais ou menos independente do império grego ao redor e Jerusalém voltou a ser uma cidade sagrada dos judeus. Quando os romanos chegaram e tomaram toda a região em 63 a.C., o Templo sofreu poucos danos. Herodes I, o Grande, foi o primeiro rei romano a governar a Judéia. Ele ordenou extensas reparações no Templo, de forma a conquistar a admiração dos judeus. Após restaurado, o Templo até ficou conhecido como Templo de Herodes. Seu filho, Herodes Antipas, governava a Judéía quando Jesus nasceu. 

Jesus visitou o tanque fora das muralhas, então chamado Betesda², quando esteve em Jerusalém para a comemoração do Purim ou da Páscoa¹. Betesda significava “Casa da piedade” ou “Casa da desgraça”, sendo um lugar onde os proscritos se ajuntavam.

Há em Jerusalém, perto da porta das Ovelhas, um tanque que, em aramaico, é chamado Betesda, tendo cinco entradas em volta. Ali costumava ficar grande número de pessoas doentes e inválidas: cegos, mancos e paralíticos. Eles esperavam um movimento nas águas. De vez em quando descia um anjo do Senhor e agitava as águas. O primeiro que entrasse no tanque, depois de agitada as águas, era curado de qualquer doença que tivesse. (João 5.2-4)

A tradição do anjo é bastante estranha ao judaísmo tradicional, mas é facilmente compreensível num contexto pagão ou que misturasse elementos judaicos e gregos. A frase usada por Jesus ao ver o homem paralítico “Queres ser curado?” mostra que ele conhecia o funcionamento daquele lugar. A frase registrada por João é ὑγιὴς γενέσθαι (hygies genesthai; Queres ser limpo?). Trata-se de uma frase abundante nos textos sobre o deus Asclépio, como uma invocação de seus poderes de “limpeza”, mas que também se aproximava muito ao conceito mosaico de “limpar uma maldição”.

Digam o seguinte aos israelitas: Quando um homem tiver um fluxo que sai do corpo, o fluxo é impuro. … Quando sarar de seu fluxo, contará sete dias para a sua purificação; lavará as suas roupas e se banhará em água corrente, e ficará puro. (Levítico 15.13)

Purifica-me [Deus] com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e mais branco do que a neve serei. (Salmos 51.7)

O Batismo e a “Lavagem dos pés” dos discípulos não deixam de ser rituais de purificação semelhantes, bem conhecidos dos Judeus e de Jesus. No entanto, ali naqueles degraus apertados da piscina de Betesda, o Messias não mandou que o homem paralítico se banhasse, nem ordenou que qualquer discípulo o ajudasse a fazer isso.

O único indício que temos de haverem outras pessoas ali é a fala do homem paralítico "Senhor, não tenho ninguém que me ajude a entrar no tanque quando a água é agitada. Enquanto estou tentando entrar, outro chega antes de mim" (João 5.7), que mostra uma competição "entre os necessitados" e ainda a crença dele a respeito da "limpeza" a que Jesus se referia. Em outras palavras, nem mesmo esse homem reconheceu Jesus como alguém que promovia curas e milagres. Jesus e o narrador (João) nada falam sobre quaisquer outras pessoas nesse cenário.

O QUE VOCÊ DISSE MESMO?

Então Jesus lhe disse: "Levante-se! Pegue a sua maca e ande". Imediatamente o homem ficou curado, pegou a maca e começou a andar. Isso aconteceu num sábado. (João 5.8,9)

Essa cura escandalizou tanto os Fariseus quanto o fato de ter sido realizada em um Sábado. Primeiro, era um sinal indelével da associação entre Jesus e o Altíssimo, sem passar pelas castas farisaicas, algo como um “santo fora da Igreja”. Uma nova prova escancarada seria fornecida com a ressurreição de Lázaro. Além disso, a Lei proibia qualquer coisa que se fizesse num Sábado, pois até Deus havia descansado nesse dia. A terra devia descansar, assim como os animais, escravos, servos e todo homem ou mulher. Antes mesmo da Lei, o maná vinha em dobro na 6ª feira para que os judeus não precisassem recolhe-lo no Sábado. Para uma cura ocorrida nesse dia, a Lei estabelecia que a pessoa deixasse seus pertences para trás e fosse para casa, ou permanecesse no mesmo lugar até o fim do dia. Não era aceitável carregar a maca ou cama.

Mais tarde, no serviço religioso do Templo de Herodes, após encontrar o homem e ser questionado pelas pessoas sobre o que ocorreu, Jesus ainda arrematou:

"Meu Pai continua trabalhando até hoje, e eu também estou trabalhando". (João 5.17)

Essa frase despertou o ódio dos judeus (João escreve assim), de forma que passaram a ver em Jesus uma grave afronta a sua religiosidade, muito mais do que alguém capaz de curar. Ele ao mesmo tempo violava a Lei, afirmava que Deus trabalhava no dia do Seu descanso, chamava-o intimamente de Pai e deixava uma testemunha para que todos a vissem, inclusive no Templo. Seria o equivalente, talvez, de alguém testemunhando um irrevogável milagre feitos pelo nosso famoso Inri Cristo (originalmente Álvaro Thais). Jesus declarava abertamente (e provavelmente no Templo e nas sinagogas) que as Escrituras falavam sobre Ele. Voltando à Galiléia, temos Jesus um tempo depois envolvido na Multiplicação dos Pães. No final do ano, quando Ele regressaria a Jerusalém para a Festa dos Tabernáculos, a fama de seu feito ainda percorria a região e Ele preferia não andar junto de seus seguidores.

A Festa dos Tabernáculos ocorre em Outubro, cerca de 6 meses depois. Por ocasião da Festa, os judeus deveriam habitar por 1 semana em tendas comuns, construídas nas ruas, a partir de árvores e folhas. É uma lembrança dos tempos nômades, que João marca apenas esta vez, apesar de ser uma festa anual.

Diga ainda aos israelitas: No décimo quinto dia deste sétimo mês começa a Festa das Cabanas do Senhor, que dura sete dias. … No primeiro dia vocês apanharão os melhores frutos das árvores, folhagem de tamareira, galhos frondosos e salgueiros, e se alegrarão perante o Senhor, o Deus de vocês, durante sete dias. Comemorem essa festa do Senhor durante sete dias todos os anos. Este é um decreto perpétuo para as suas gerações; comemorem-na no sétimo mês. Morem em tendas durante sete dias; todos os israelitas de nascimento morarão em tendas, para que os descendentes de vocês saibam que eu fiz os israelitas morarem em tendas quando os tirei da terra do Egito. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês". (Levítico 23.40-43)

Era sem dúvida uma ocasião de comunhão entre os judeus e Jesus não passaria despercebido.

UM MESSIAS NOTÓRIO

Na festa, os judeus o estavam esperando e perguntavam: "Onde está aquele homem?". Entre a multidão havia muitos boatos a respeito dele. Alguns diziam: "É um bom homem". Outros respondiam: "Não, ele está enganando o povo". Mas ninguém falava dele em público, por medo dos judeus. Quando a festa estava na metade, Jesus subiu ao templo e começou a ensinar. (João 7.11-14)

Evidentemente que Lhe perguntaram sobre a cura no Sábado em Betesda. Jesus mesmo estava impressionado de apenas aquilo haver chamado tanta atenção, quando Ele já tinha atrás de si vários outros “sinais” (como João chama os milagres de Jesus). Certamente, eram tidos por boatos. Mas aquele, por outro lado, havia ferido a tradição religiosa bem perto do seu coração, num local judaico-pagão dado aos excluídos, bem ao lado do Templo. Ao invés de repetir o ousado “Meu pai trabalha e eu também”, seu argumento desta vez foi simples, afiado e (novamente) desafiador: Moisés também mandara circuncidar os garotos 8 dias após nascerem, mesmo sendo Sábado, pois a Circuncisão era anterior à Lei. Curar aquele homem exigira menos trabalho do que circuncidar, então quem violava o Sábado? “Não julguem apenas pela aparência, mas façam julgamentos justos" (João 7.24)

O apelo à razão era bem diferente do conceito de autoridade propagado pela elite dos Fariseus e Saduceus. Pior, esse apelo os invalidava e, por causa disso, organizava-se, já havia alguns meses, desde Betesda, um movimento para deter Jesus. Não pelo milagre da cura, mas pela representatividade social que Ele começava a ter em Jerusalém. Era um Galileu - sempre lembravam isso - portanto um homem destituído da “santidade” dos judeus; não era fariseu; não era educado nos pormenores da Lei de Moisés e nem na lei romana.

No último e mais importante dia da festa, Jesus levantou-se e disse em alta voz: "Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva". (João 7:37,38)

Essa fala, muito semelhante ao discurso com a mulher samaritana, foi seguida por grande contenda entre os judeus. Mandaram guardas para prender Jesus e mesmo esses se desculparam, ressaltando que ninguém falava como aquele homem.

"Será que vocês também foram enganados? ", perguntaram os fariseus. "Por acaso alguém das autoridades ou dos fariseus creu nele? Não! Mas essa ralé que nada entende da lei é maldita". (João 7.47-49)

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¹ Há bastante controvérsia sobre a festa relatada em João 5.1. O evangelista não explica de que festa se trata. Em João 7.1,2, Jesus volta de percorrer a Galiléia para a Festa dos Tabernáculos (Sukkot), festejada em Outubro. Em João 6.4, Jesus estava nas margens do mar de Genesaré e fica assinalada a Páscoa, comemorada em Abril, após o que Ele vai para a Galiléia. Em João 4.35, é relatado que faltam 4 meses para a colheita, o que colocaria Jesus no mês de Janeiro, seguindo depois para a Samaria. Como João nomeia as Páscoas, seria de se pensar que a festa de João 5.1 não seja uma delas, para a qual Jesus voltaria da Samaria. Entre Janeiro e a Páscoa em Abril, haveria a festa de Purim, comemorada em Março.

No entanto, essa lógica não considera que a festa de Purim é comemorada em todo lugar, não requerendo que os judeus fossem a Jerusalém. E seria difícil pensar que o Messias fosse para lá em Março, seguisse para a Galiléia e depois voltasse em Abril. Muitos estudiosos consideram ainda que João escreve que era “a festa dos judeus” e assim marcasse de um modo diferente essa Páscoa. Considerando que a festa de João 5.1 se tratasse de uma Páscoa, Jesus teria permanecido aproximadamente 3 anos e meio em seu ministério (ao invés de 2 anos e meio), algo semelhante às 119 semanas profetizadas por Daniel 9.24-27.

² Essa piscina ficou por muito tempo sem ser encontrada, o que fez ela ser vista, até meados dos anos de 1970, como uma lenda ou um erro de descrição do local. Lembrando que Jerusalém foi devastada pelos romanos no ano 70 d.C. e nem o Templo sobreviveu a isso, muitos cenários do VT e NT jamais foram encontrados. Quando encontraram Betesda, entretanto, logo acima dela estavam ruínas de uma igreja da época das Cruzadas (séc. 10) com uma pintura da cena do anjo tocando a água. Não há certeza se os cruzados conheciam a real natureza da piscina (haviam várias outras na região), mas é possível que Betesda ainda tenha servido como local sagrado (cristão) por algum tempo.

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LEIA DURANTE O BANHO

John 7:21 - Bible Hub
Ministério ensinando de Sião - A Festa dos Tabernáculos (Sucôt ou Cabanas)
Pool of Bethesda - wikipedia

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Porque Jesus curava no Sábado


Êxodo 20:8-11
Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR teu Deus. Não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o SENHOR o dia do sábado, e o santificou. 

E aconteceu que, no sábado segundo-primeiro, passou pelas searas, e os seus discípulos iam arrancando espigas e, esfregando-as com as mãos, as comiam. E alguns dos fariseus lhes disseram: Por que fazeis o que não é lícito fazer nos sábados? E Jesus, respondendo-lhes, disse: Nunca lestes o que fez Davi quando teve fome, ele e os que com ele estavam? Como entrou na casa de Deus, e tomou os pães da proposição, e os comeu, e deu também aos que estavam com ele, os quais não é lícito comer senão só aos sacerdotes? E dizia-lhes: O Filho do homem é Senhor até do sábado.

E aconteceu também noutro sábado, que entrou na sinagoga, e estava ensinando; e havia ali um homem que tinha a mão direita mirrada. E os escribas e fariseus observavam-no, se o curaria no sábado, para acharem de que o acusar.

Mas ele bem conhecia os seus pensamentos; e disse ao homem que tinha a mão mirrada: Levanta-te, e fica em pé no meio. E, levantando-se ele, ficou em pé. Então Jesus lhes disse: Uma coisa vos hei de perguntar: É lícito nos sábados fazer bem, ou fazer mal? salvar a vida, ou matar? E, olhando para todos em redor, disse ao homem: Estende a tua mão. E ele assim o fez, e a mão lhe foi restituída sã como a outra. 

MUITAS DÚVIDAS

Essas duas passagens aparentemente mostram um Deus que passa por cima das próprias ordens. Primeiro Ele fala a Moisés para nada fazer no sábado e estabelece o 4º Mandamento, e depois, encarnado em Jesus, diz ser Senhor do sábado, lembrando que Davi também havia quebrado as regras (1Sm 21.1-6)?

Algumas explicações disso apelas para que o conceito original dos Mandamentos era de Shabat, e não exatamente o sábado dos dias da semana. O Shabat é uma data de dedicação ao Senhor e oração, muito mais do que um dia repetitivo do calendário. Alguns Shabats são festas que duram até o mês inteiro e essa interpretação é motivo de discórdia até hoje entre diversas denominações. As mais tradicionalistas (ex. Adventistas do Sétimo Dia) fincam o pé na necessidade de nenhum ganho se obter do trabalho ao sábado da semana, outras mudam mesmo o sábado do mandamento para o domingo, produzindo frases curiosas como uma que li certa vez: “o sábado do Senhor é o domingo...”.

Talvez alguma confusão advenha do que entendemos por TRABALHO. Afinal, foi a palavra colocada na Bíblia em português. Em outras línguas aparece a palavra OBRA, às vezes. Como homens, dizemos que o nosso TRABALHO, a nossa OBRA é produzir o sustento. Com respeito a Deus, dizemos que o TRABALHO de Jesus, a sua OBRA é produzir fé, amor e salvação. Então, se eu não devo trabalhar no sábado, Jesus não deveria trabalhar no sábado. Até os fariseus ficaram confusos quanto a isso, e foram acuados pela pergunta de Jesus: “Uma coisa vos hei de perguntar: É lícito nos sábados fazer bem, ou fazer mal? salvar a vida, ou matar?

JESUS TRABALHAVA NO SÁBADO?

Algo muito interessante pode se observar tanto na atitude de Davi (que em 1Sm 21.9 sai carregando os pães das oferendas e até a espada de Golias) como de Jesus e seus discípulos: era obra ao Senhor ajudar as pessoas, muito mais do que qualquer outra coisa. E fazer uma obra ao Senhor era sempre lícito, ou deveria ser feito mesmo que não fosse lícito. Em outra passagem, Jesus justifica seu trabalho nos sábados dizendo que o Pai trabalhava até aos sábados, assim como Ele mesmo:

João 5.5. E estava ali um homem que, havia trinta e oito anos, se achava enfermo. E Jesus, vendo este deitado, e sabendo que estava neste estado havia muito tempo, disse-lhe: Queres ficar são? O enfermo respondeu-lhe: Senhor, não tenho homem algum que, quando a água é agitada, me ponha no tanque; mas, enquanto eu vou, desce outro antes de mim. Jesus disse-lhe: Levanta-te, toma o teu leito, e anda.

Logo aquele homem ficou são; e tomou o seu leito, e andava. E aquele dia era sábado.

Então os judeus disseram àquele que tinha sido curado: É sábado, não te é lícito levar o leitoEle respondeu-lhes: Aquele que me curou, ele próprio disse: Toma o teu leito, e anda. Perguntaram-lhe, pois: Quem é o homem que te disse: Toma o teu leito, e anda? E o que fora curado não sabia quem era; porque Jesus se havia retirado, em razão de naquele lugar haver grande multidão.

Depois Jesus encontrou-o no templo, e disse-lhe: Eis que já estás são; não peques mais, para que não te suceda alguma coisa pior. E aquele homem foi, e anunciou aos judeus que Jesus era o que o curara. E por esta causa os judeus perseguiram a Jesus, e procuravam matá-lo, porque fazia estas coisas no sábado. E Jesus lhes respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também

Onde está o Jesus que valoriza o sábado, para o tornar um dia sagrado? As palavras DITADAS a Moisés são bem fáceis de entender, como as que dizemos às crianças: “não farás nenhuma obra”. Talvez seja interessante perguntar o que Deus queria com isso. Com certeza podemos apenas hipotetizar sobre as intenções do Senhor, mas vamos lá. Como o 4º Mandamento se encaixa nas palavras de Jesus “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.” (Mt 22.37-40)?

Obedecer a Deus é uma forma de amá-Lo. Mas obedecer fazendo O QUÊ, exatamente? O Senhor falou em nenhuma OBRA, que em outras traduções aparece como TRABALHO. O TRABALHO deveria ser feito noutros dias da semana, não no sábado. Quem se beneficia do trabalho do homem é o próprio homem, conforme estabelecido por Deus:

Gn 3.17-19. … maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo. No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás.

O TRABALHO DE DEUS NÃO É O TRABALHO DOS HOMENS

Não vamos encontrar Deus arando a terra e, portanto, essa definição de trabalho usada por Ele mesmo talvez não se aplique à OBRA DIVINA. Alguém tem motivos para crer que o Espírito Santo descansa no sábado, deixando o mundo à própria mercê? Jesus mesmo garantiu que o Pai e Ele trabalhavam em todos os dias. Tomemos uma definição de trabalho presente no mais antigo livro da Bíblia:

Jó 6:12-14. É porventura a minha força a força da pedra? Ou é de bronze a minha carne? Não está em mim a minha ajuda? Ou desamparou-me a verdadeira sabedoria? Ao que está aflito devia o amigo mostrar compaixão, ainda àquele que deixasse o temor do Todo-Poderoso. 

Jó 29. Ah! quem me dera ser como eu fui nos meses passados, como nos dias em que Deus me guardava! … Porque eu livrava o miserável, que clamava, como também o órfão que não tinha quem o socorresse.

Jó era um que “ninguém na terra lhe havia em semelhante, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desviava do mal”. Ele nos deixa ver que o amor de Deus está ligado à compaixão, ao amor PELOS homens, e um amor que se manifesta nas OBRAS IMATERIAIS feitas de um homem para com outro. Trata-se de levantar o caído sem forças, livrar o órfão e o miserável (isso não singifica alimentá-los?)... Jesus coloca o amor acima de todas as virtudes, o amor a Deus e ao próximo.

O TRABALHO DE DEUS ESTÁ EM AMAR

Talvez seja útil perguntar: onde está o sagrado em nada fazer no sábado que o senhor mandou guardar? Está o amor a Deus em NADA fazer? Quando Moisés sobe ao monte, Deus lhe manda o 4º Mandamento sobre parar no 7º dia as obras de cada homem em benefício próprio. O sábado seria dia santo, que Deus abençoou e pelo qual os homens deveriam ser gratos. Mas chega Jó e conta então com sua noção de que o amor de Deus se expressa por ajudar os miseráveis, socorrer quem precisa de ajuda! Deus não interrompe seu amor aos sábados, nem Jesus o fez quando AJUDAVA os seus seguidores com seus ensinamentos e presença, nem quando AJUDAVA os doentes curando-os de seus males físicos e de sua falta de fé.

Ele trabalhava aos sábados, divinamente.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Curas, curas e mais curas

enviado de http://solomon1.com/a/2010/30/curas-curas-e-mais-curas/#more-3278


Farei uma confissão: Ouço programas evangélicos, quando estou no transito sou acompanhado por algum pastor neopentecostal. A “memória 2” do som do meu carro é só de rádios evangélicas. Hoje isso soa como confissão de pecado. Esses programas são mal feitos, a maior parte do tempo é utilizado para a oferta com o fim de “permancer no ar e continuar sendo uma benção”.


Meus amigos não entendem porque eu faço isso, mas todo drogado é assim, ele sabe que faz mal, mas…

Com esse (péssimo) hábito ouço muitas pregações sobre sucesso, testemunhos de vitória financeira (“você pode tudo”) e cura. Mas é cura de dor nas costas, no braço, na unha… Eles não curam síndrome de Down, Alzheimer e nem vão ao GRAAC (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer). Por que? O deus que cura dor nas costas não cura câncer? Estranho, no mínimo estranho.

Karl Marx acertou, a religião é mesmo “o ópio do povo”. É isso que o povo quer, algo que anestesie a vida, quando o efeito dessa anestesia acabar (e acaba rápido) aplica-se outra e assim vai. Não se fala em coisas difíceis e derrotas, apenas em vitórias. Curas, curas e curas. Quem oferecer mais ganha mais oferta e fica mais tempo no rádio.

A função da religião não é fazer com que as pessoas se sintam bem. Então o que Deus nos dá? Amor? Sim, Deus nos ama, mas não deseja domesticar animais de estimação, dando alimento e carinho, antes ele deseja maturidade, pessoas livres que respondam a ele com liberdade.

E paz? Sim, Deus nos concede uma paz sem igual, porém não é paz que se dá quando deixamos de falar do que é ruim e doloroso. Há pessoas de todos os tipos ao nosso redor, crianças e pais, jovens e adultos, pessoas que estão sendo cruelmente maltratadas e violentadas, afligidas e desprezadas. Qualquer pregação sobre paz que dá as costas a estas situações é uma tremenda farsa.

Curioso esse fascínio pelas curas, desde os tempos de Jesus isso acontece. Jesus curou, operou milagres e maravilhas, mas quando pregou sobre a vida no reino de Deus ele não disse que os felizes eram os curandeiros nem os curados, quando Jesus falou sobre a vida feliz ele disse:

Felizes são os humildes de espírito, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os limpos de coração, os pacificadores, os perseguidos (Mt 5). Esses são felizes porque experimentam salvação, esses são felizes porque são sal da terra e luz do mundo.

Ser cristão não tem haver com cura nem prosperidade, ser cristão é cuidar do próximo é saber se relacionar com as pessoas vendo nelas a expressão de Deus (Mt 25: 34-45).

Na bíblia quem disse “tudo isso te darei se, prostrado, me adorares” foi Satanás. “Tô” fora.