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domingo, 6 de outubro de 2019

Salomão, Jesus e as leis

A Sabedoria de Salomão, do ilustrador James Tissot (1836-1902). No relato bíblico, há uma criança morta e duas mulheres disputam a criança que restou. O rei Salomão ordena que a criança seja repartida ao meio (o que felizmente não acontece), para saber qual delas se sacrificaria pelo filho.

As leis são formas de controle coletivo do comportamento das pessoas. Elas fazem com que as pessoas adiram aos hábitos, rituais e modos de agir determinados por um governo. Moisés instituiu leis sobre o povo judeu, as primeiras que a Bíblia ou o Tanakh (livro judeu da Lei) relatam. Mas há outras formas de governo, não amparadas na rigidez de uma lei, mas no aconselhamento que guia as atitudes das pessoas.

AS LEIS DE MOISÉS

Moisés é o primeiro legislador judaico documentado na Bíblia. Sua identidade é misteriosa, podendo ser uma pessoa real ou até a fusão de vários personagens como um sacerdote de Baal de quando os egípcios expulsaram os Hyksos de volta para a Palestina (1500 a.C.), um sacerdote do deus sol do faraó Akenathen (1350 a.C, pai do famoso Tutankhamon) e algum sacerdote midianita, povo de fora da Palestina que Moisés reconheceu como seu. O que sabemos é que tudo sobre ele foi bem re-composto pelos sacerdotes do rei Josias (649-609 a.C.) a partir de antigos escritos encontrados no 1º Templo e há muito perdidos, junto com o próprio templo (587 a.C.). O resultado foi algo como a lenda grega de Odisseu / Ulisses (que andou por todo mundo e participou de várias batalhas entre homens e entre deuses) ou um desenho de Shrek costurado com retalhos de muitos contos.

Fosse quem fosse, é certo Moisés que não foi o primeiro legislador com que os judeus tiveram contato. As estórias sobre Moisés trazem partes da lenda de Sargão, um poderoso rei Sumério de 2400-2300 a.C. Da mesma época vem o código de Urukagina, outro rei da região entre os rios Tigre e Eufrates, de onde partiu Abraão, supostamente o ancestral de todo povo judeu. Em outras palavras, Abraão e sua família eram conhecedores de um código de leis, que levaram para a Palestina. Muito tempo depois, a lei elaborada por Moisés ia bem além dos 10 Mandamentos, incluindo procedimentos religiosos, regras de higiene, vegetais que devem ser plantados e animais que podem ser criados ou caçados, questões rurais sobre o cercamento de terras, disputas entre autoridades, etc, os quais são detalhados nos livros de Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Ela traz diversos elementos de leis do 1º Império Babilônico (do qual faziam parte Ur e outras cidades lendárias). Tais leis compunham a história dos hebreus e dos povos ao seu redor (Cananeus), com os quais se casavam e disputavam terras.

Existe uma discussão bastante válida sobre essas similaridades serem devido a um parentesco das leis (a Babilônica é mais antiga e há o relato bíblico de parentesco dos povos), a influência cultural (pois se tratava de uma região mais avançada e rica que a Palestina) ou simplesmente resultarem de uma similaridade cultural (eram povos semitas, organizados em cidades-estado¹ baseadas na vida agro-pastoril de uma região com clima, animais e vegetação parecidos). A regra de Talião - vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, chicote por chicote - por exemplo está presente no código de Moisés (Êxodo 21.23-25 e Deuteronômio 19.21), assim como em muitos códigos de leis semitas, colocando uma equivalência entre o crime e a pena.

Por outro lado, as leis mosaicas favoreciam os homens em detrimento das mulheres, igualando uns e outros entre si; as leis babilônicas separavam a sociedade em castas segundo o nascimento - aos escravos não era assegurado nenhum direito. Tanto a lei mosaica como a babilônica são supostamente originadas dos deuses de cada povo, embora tratem de problemas rigorosamente mundanos. A lei babilônica estabelecia crimes civis como agressão, roubo, violação de propriedade, etc e crimes morais como adultério, desrespeito, etc. Já a lei mosaica punia também crimes contra a tradição cultural (ex. usar certos vegetais e peles), além de crimes religiosos como a falta com obrigações rituais, culto a outros deuses ou desrespeito a dias e locais sagrados. No entendimento de Moisés como sacerdote, toda ação humana se relacionava a Deus (fosse um roubo, o plantio de certo vegetal ou ações rituais) e todos deviam o culto religiosos; já no entendimento babilônico (politeísta), as leis vinham do deus Shamah (sim, o sol ou fogo) através do rei para estabelecer seu império político. Não importavam ao rei detalhes culturais ou religiosos.

Tanto em um código de leis como no outro, há uma estrutura básica de crime X > punição Y. Em casos de acusação sem provas, aparece crime X > juiz ou consulta divina > punição Y. Essa estrutura, embora às vezes apele para o julgamento divino de YHWH ou alguma divindade babilônica (geralmente o rio Eufrates), basicamente dispensa as divindades de intervir em favor dos homens e retira por completo o significado racional das leis. Por exemplo, em Levíticos 13 há todo um procedimento ritual a respeito da lepra, que consiste em como o sacerdote reconhecer os leprosos, afastar eles do acampamento e como permitir que voltem. A prática efetiva é menos complexa do que lavar o machucado e passar mertiolate, mas era uma determinação sagrada, imutável e inquestionável. Certamente era útil em se tratando de uma doença contagiosa e o Novo Testamento nos testemunha que as cidades judaicas, mesmo 15 séculos depois de Moisés, ainda tinham hordas de leprosos perambulando por fora de seus muros. E então apareceu Jesus².

A NÃO-LEI DE SALOMÃO

Salomão foi o 3º rei dos judeus, sucedendo Davi. Seu pai teve pelo menos 6 herdeiros de suas concubinas (que na verdade eram as princesas do territórios conquistados), além de diversos filhos não-herdeiros. Entre os herdeiros estavam Amon (de Ainoã, a 1ª esposa), Quileabe (de Abigail), Absalão (de Maaca), Adonias (de Hagite), Sefatias (de Abital) e Itreão (de Eglá) (2ª Samuel 3). Salomão era filho de uma concubina secundária, Bate Seba, que não era princesa de reino algum, mas um caso extra-conjugal de Davi, e nem mesmo era o filho mais velho dessa relação. Mas as guerras mataram os filhos de Davi, sempre enviados como representantes do rei, e também um filho matou ao outro, até que Salomão sucedeu ao trono, apontado pelo rei junto ao profeta Natã, o sacerdote Zadoque e o levita Benaia (1ª Reis 1.26). Em seu reinado, mesmo Salomão mandou matar seu meio-irmão Adonias, julgando que tentasse usurpar o trono (1ª Reis 2.23,24).

Salomão desfrutou de poder e riqueza ainda maior que Davi, pois representava uma união de várias nobrezas, sacerdotes e profetas, além de Israel estar posicionado na rota das caravanas. Elas viajavam entre o Mediterrâneo, os portos da Fenícia, Líbano e Síria, Egito, Mar Vermelho, Etiópia, Iêmen, Índia e China. Tratava-se de uma poderosa rota comercial por onde se transportava animais (como mulas, elefantes e camelos), marfim, madeira (cedros), peles, grãos, ouro, tecidos valiosos (como cânhamo e seda), temperos, perfumes, ópio e incenso. Os impostos nos mercados e portos das caravanas geravam riquezas imensas, o que fez Salomão estender colônias de judeus para o Egito, Etiópia e Iêmen, em acordos com os governantes dessas terras. Mas além da riqueza, Salomão ficou conhecido por sua sabedoria como governante, um presente concedido pelo próprio Deus, que afirmou que não houve nem haveria jamais ninguém mais sábio que ele (1ª Reis 3.9,10). Esta história também foi contada pelos sacerdotes do rei Josias, quase 4 séculos mais tarde, retirada de escritos em um templo (construído por Salomão*) que chegava perto de seu fim.

Salomão manteve uma equipe de estudiosos ou sábios, que tentaram reunir em escritos toda a sabedoria do seu mundo. Possivelmente ele tentou reproduzir algo que soubera do Egito (onde os nobres de Thebas eram finamente educados em escolas³). De fato, as relações políticas entre Israel e o Egito tinham se tornado muito mais intensas, a ponto de diversas vezes os exércitos egípcios terem retomado territórios de Israel que haviam sido perdidos para outros povos. Entre as relações de Salomão, ficou famosa a rainha de Sabá, uma terra de guerreiros provavelmente na Etiópia, com quem foram trocados presentes de imenso valor.

Salomão não fez grandes esforços para suprimir os cultos cananeus. Além de adorar a YHWH, deus de Salomão e Davi e a quem o rei dedicou seu Templo, o povo cultuava outras divindades como Baal, Moloque e Asherá, menos exigentes, a quem os cultos eram feitos no altos dos montes, vales profundos ou sob as árvores, respectivamente. Reis muito posteriores ainda lidaram com essa variedade religiosa em Israel. Como o culto ao Deus Único não era apenas um elemento repetido na lei de Moisés, mas o 1º ítem dos 10 Mandamentos gravados nas tábuas da Arca da Aliança, podemos inferir que a lei de Moisés já era bastante fraca no reinado de Salomão (apesar de a Arca estar guardada no Templo que ele construiu). Talvez 5 séculos já tivessem se passado! A lei seria reavivada mais tarde, porém há indícios de que Salomão pretendia uma transformação diferente em seu povo, o que foi provido pelo seu livro de Provérbios.

O Livro de Provérbios que temos hoje é, em grande parte, uma construção apócrifa. Ele começou a ser produzido no reinado de Salomão, copiando-se um texto famoso do faraó Amenemope (1001-992 a.C.) sobre o comportamento esperado dos nobres e juntando trechos discutidos exaustivamente e com a ajuda dos sábios Lemuel e Agur, de clãs do deserto. Essa coleção de instruções foi estendida pelos sábios do rei Ezequias (715-687 a.C.), o construtor, que versavam sobre o sábio, o tolo (que despreza a sabedoria) e o simples (ignorante a ser ensinado). Depois o livro ganhou textos dos sábios do rei Josias (640-609 a.C.), que encontraram o livro da Lei de Moisés em algum canto do Templo e adicionaram aos provérbios ensinamentos sobre temor a Javé, ardor no trabalho, modéstia, humildade, generosidade, misericórdia e honestidade. Mais tarde o livro ainda ganhou trechos dos sacerdotes que acompanhavam Esdras no estabelecimento do 2º Templo (aprox. 450 a.C.), os quais falavam em valorizar a Sabedoria como uma entidade, uma espécie de Espírito Santo que falava contra o mal, a soberba e a arrogância, o mau caminho e a boca perversa. Todos, apesar da composição diversificada, atribuíram seus escritos ao lendário rei Salomão.

Não é fácil ler os Provérbios, pois trata-se de pequenos trechos fragmentados e espalhados, talvez propositalmente, de forma que possam ser re-arranjados para se adaptar às mais diversas situações. A diferença da lei de Moisés está justamente aí: a flexibilidade. Moisés deixou um tratado de punições para os mais diversos crimes (que incluem mesmo plantar vegetais diferentes), de modo a deixar claro o que NÃO SE DEVE FAZER. Salomão por outro lado pretendeu criar um sistema de aconselhamento simples, de forma que o homem mais comum pudesse ser guiado para FAZER as melhores escolhas. Seu código ou programa inclui belas descrições dos sofrimentos humanos e das principais causas de sofrimento como riquezas, prazeres momentâneos e falsas esperanças.

A PROPOSTA DE JESUS

Jesus nasceu bem fora do ciclo das realezas da Judéia (terra dominada por Roma, onde ficava Judá, parte sul de Israel, repartida em 930 a.C., após o reinado de Salomão) e mesmo da Galiléia (parte norte), onde ficava a cidade de Nazaré. Jesus frequentava as sinagogas pequenas na planície pastoril da Galiléia, que conduzia à região de pesca e comércio ao redor do grande lago de Tiberíades, onde começava o rio Jordão. O Templo que ele conheceu nas peregrinações a Jerusalém era o 3º Templo, uma construção imensa de uns 50 anos e ocupando todo o topo de uma montanha, feito já na Era Romana a partir do 2º Templo, que foi erguido sobre as ruínas do Templo de Salomão. Uns 1000 anos haviam se passado desde esse rei construtor lendário, e também 600 anos desde que a Lei de Moisés fora reencontrada por outro rei construtor. Seu povo havia estado no exílio da Babilônia, tinha sido dominado pelos gregos após Alexandre o Grande, que esvaziaram o Templo por toda uma geração, e depois pelos romanos. Estes últimos implicavam com a infidelidade dos sacerdotes ao seu rei-deus Tiberius Caesar Divi Augusti Filius Augustus (reino 14 a 37 d.C.). Os sacerdotes se defendiam formando um tribunal, o Sinédrio, que julgava as questões de fé e costumes segundo a lei mosaica. Em paralelo a eles havia o rei Herodes Antipas, filho de Herodes o Grande, construtor do Templo, e também vassalo** de Roma.

Os escritos sobre Jesus são quase tão problemáticos quanto os sobre Salomão. Nenhum texto sobre Jesus foi produzido fora do contexto religioso, independente da pregação sobre o Messias. Existem 3 evangelhos sinóticos, isto é, alinhados: Mateus, Marcos e Lucas. Marcos parece ser o mais antigo deles. Um suposto documento Q teria dado origem a Mateus e Lucas, além de partes incluídas pelos próprios evangelistas, únicas de cada escrito. Lembremos que talvez Mateus tenha sido companheiro de Jesus em suas andanças, embora o livro de Mateus traga muitas coisas de Paulo (a quem sabemos a autoria, por seu caráter romano de escrita), que não esteve pessoalmente com Jesus, e com quem os outros 2 evangelistas andavam. O livro de João é tão autêntico quanto os demais em sua historicidade, João era chamado de “discípulo amado” pela sua relação próxima de Jesus, e no entanto bem pouco do livro de João se alinha com os demais evangelhos. Fica quase impossível destilar um Jesus a partir do material que temos sobre Ele, porque esse material apresenta personagens diferentes, dependendo do autor.

A relação de Jesus com a lei mosaica, no meio desses 4 intérpretes que viram e entenderam coisas diferentes, é no mínimo curiosa. Certas horas Jesus valoriza a Lei, cobrando seu seguimento àqueles que o acompanham. Outras vezes, Jesus se diz superior à lei e a reinterpreta por completo (o que só não parece absurdo de uma lei com inspiração divina sendo atualizada pelo Filho de Deus).

E Jesus, tomando a palavra, falou aos doutores da lei, e aos fariseus, dizendo: É lícito curar no sábado? (Lucas 14.3)

Jesus parece devoto a um Pai Celestial, advogando ora por Ele entre os homens que sofrem, ora perante Ele e pelos homens que sofrem. Ele parece interessado em retirar o sofrimento das pessoas, se elas tiverem fé e chegarem suficientemente perto Dele, o que João interpreta como “sinais” da divindade de Jesus - algo para ser visto e falado - e não uma prioridade Sua. Por suas transgressões ou re-interpretações da lei de Moisés, o Sinédrio trama contra Jesus (ao contrário de João Batista, que foi alvo de Herodes Antipas) e, após condená-lo à morte, nomeia homens para caçar seus seguidores. Estaria o Sinédrio sendo puritano e extirpando um baderneiro? Os evangelhos nos propõem que não; eles são chamados de “víboras” e aproveitadores do seu status social. A perseguição do Sinédrio aos Cristãos parecia exagerada, a menos que estes desafiassem seriamente a eles ou a Roma***.

Jesus cita leis de Moisés e várias partes do livro de Isaías, até hoje o mais popular dos profetas. Como frequentador das sinagogas e do Templo, após a reforma de Josias, sem dúvida Ele possuía conhecimento do sistema de leis antigo. Mas Jesus fazia releituras delas e, de forma inovadora, apresentava seus ensinos como “parábolas”. As parábolas e fábulas são pequenos contos, bastante usados no Oriente Médio e na Europa Medieval para transmitir valores morais. As estórias de Jesus tinham semelhança com a realidade ao seu redor, e cada uma delas poderia gerar (e gerou) longos estudos, embora Ele mesmo dissesse que ensinava assim para que os homens ouvissem e não compreendessem. Algumas parábolas são elaboradas, como a do Semeador, outras aparecem apenas como um pequeno parágrafo, bem ao jeito de um Provérbio.

Administrador desonesto (Lucas 16.1-9);
Amigo importuno (Lucas 11.5-8);
Bodas (Mateus 22.1-14);
Bom samaritano (Lucas 10.29-37);
Casa vazia (Mateus 12.43-45);
Coisas novas e velhas (Mateus 13.51-52);
Construtor de uma torre (Lucas 14.28-30);
Credor incompassivo (Mateus 18.23-35);
Dever dos servos (Lucas 17.7-10);
Dez virgens (Mateus 25.1-13);
Dois alicerces (Mateus 7.24-27);
Dois devedores (Lucas 7.40-43);
Dois filhos (Mateus 21.28-32);
Dracma perdida (Lucas 15.8-10);
Fariseu e publicano (Lucas 18.9-14);
Fermento (Mateus 13.33);
Figueira (Mateus 24.32-33);
Figueira estéril (Lucas 13.6-9);
Filho pródigo (Lucas 15.11-32);
Grande ceia (Lucas 14.15-24);
Jejum e casamento (Lucas 5.33-35);
Joio e trigo (Mateus 13.24-30,36-43);
Juiz iníquo (Lucas 18.1-8);
Lavradores maus (Mateus 21.33-46);
Meninos na praça (Mateus 11.16-19);
Ovelha perdida (Lucas 15.3-7);
Pai vigilante (Mateus 24.42-44);
Pedra rejeitada (Mateus 21.42-44);
Pérola de grande valor (Mateus 13.45-46);
Primeiros lugares (Lucas 14.7-11);
Rede (Mateus 13.47-50);
Rei que vai para a guerra (Lucas 14.31-32);
Remendo com pano novo (Lucas 5.36);
Rico e Lázaro (Lucas 16.19-31);
Rico sem juízo (Lucas 12.16-21);
Semeador (Mateus 13.3-9,18-23);
Semente (Marcos 4.26-29);
Semente de mostarda (Mateus 13.31-32);
Servo fiel (Mateus 24.45-51);
Servos vigilantes (Mc 13.33-37);
Talentos (Mateus 25.14-30);
Tesouro escondido (Mateus 13.44);
Trabalhadores da vinha (Mateus 20.1-16)

A parábola do Semeador até serviu de eixo para o famoso livro Pastor de Hermas, que foi um instrumento importante de evangelização nos 1os séculos. Por um lado, ela dá a idéia de que aproximar-se de Deus pode ser impedido pelo Diabo ou pelas seduções do mundo, problemas, dinheiro, etc. Por outro lado, ela dá a idéia de um cuidado repetitivo de Deus ao tentar ensinar sua mensagem, como um semeador que sempre volta ao campo. O ensino de Jesus prevê uma interação grande entre cada pessoa e seu ambiente, não é uma regra independente do contexto. Essa possibilidade de discussão e nova interpretação é um elemento significativo do ensino nos povos semitas, o que até coloca a rigidez da lei de Moisés como algo estranho a eles. Tal dualidade entre discutir/ensinar e obedecer cegamente aparece, no Novo Testamento, a todo momento - afinal, a lei do Estado não era a lei de Moisés, e o Sinédrio não poderia condenar quem quer que fosse sem a aprovação de Herodes e Roma (no tempo de Jesus, o poder romano era simbolizado pelo governador Pôncio Pilatos).

Essa metodologia de ensino de Jesus, que não foi levada seriamente nos séculos seguintes, se parecia muito mais aos Provérbios re-ordenáveis de Salomão do que aos aos estatutos detalhadíssimos de Moisés. Já em 49 d.C, o 1º Concílio Cristão - feito por seguidores presenciais como Pedro - já debatia permitir ou proibir a adesão dos gentios ao movimento religioso, o que não se encaixa de forma alguma nos métodos de ensino flexíveis propostos por Salomão e por Jesus. Reparemos que Jesus não se privou de ensinar a ricaços, fariseus, leprosos, samaritanos, romanos, publicanos, etc. Muitos deles nem eram judeus para seguir sequer os Mandamentos, mas ainda assim haveria uma interpretação pessoal a darem para as estórias que Jesus contava. E era por isso que as multidões o cercavam.

A TENTATIVA DE JOÃO

Quem chegou mais próximo a Jesus quanto ao ensino foi João. Porém, ele era muito menos criativo ou conhecedor dos homens. Talvez mais profeta e menos contador de estórias. O tal discípulo amado, quando tomou os milagres de Jesus tal qual uma ferramenta de ensino, dando para eles uma interpretação messiânica, mais ou menos os tornou em parábolas. Delas pode ser tirado um outro ensino, que não é seu conhecimento literal como texto.

Transformação de água em vinho (2:1-11);
Cura do filho do oficial romano (4:46-54);
Cura do paralítico na piscina de Bethesda (5:1-15);
Multiplicação dos pães (6:5-14);
Andar sobre a água (6:16-21);
Cura do cego de nascença (9:1-7);
Ressurreição de Lázaro (11:1-45)

João é enfático no caráter sobrenatural dos eventos que relata, e passa muito longe de tentar criar um sistema de leis. Seu objetivo é oferecer provas da divindade de Jesus. 

Não crês tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras. (João 14.10)

João registrou apenas uma parábola:

O que ceifa recebe galardão, e ajunta fruto para a vida eterna; para que, assim o que semeia como o que ceifa, ambos se regozijem. Porque nisto é verdadeiro o ditado, que um é o que semeia, e outro o que ceifa. (João 4.36,37)

No lugar onde Mateus apresenta as parábolas de Jesus, o evangelho de João, como em várias outras partes, apresenta Jesus refletindo sobre os acontecimentos. Isso é algo que Jesus faz muito no livro de João e raramente nos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas. João também não mostra nada semelhante ao Sermão da Montanha. Ao contrário dos outros evangelhos, não há uma receita mundana para a felicidade, mas sim Jesus discorrendo sobre as motivações de Deus. Compreender ao Senhor, para João, é mais importante do que tudo. João fala de alguém que realizava milagres, perdoava (8.3-11), se declarava a representação de Deus, era humilde (13.1-17), pregava o amor de uns pelos outros (15.12), estaria com seus discípulos apesar da morte (14.21). Nessa atribuição de intenção por parte de Deus (e dane-se a Lei), João chega próximo ao que Jesus ensinava.

Hoje, com os 4 evangelhos e mais as cartas de Paulo nas mãos, somos levados a cruzar muitas informações entre eles. Mas a comunidade para a qual João ensinava não tinha isso. Eles dependiam inteiramente de João para conhecer a Jesus e ele não lhes apresentava um conselheiro, mas a personalidade de um Deus vivo e o próprio Messias a quem deviam orar pela Salvação em um mundo que estava chegando ao seu fim. Lembremos que João também é o autor de Apocalipse ou Revelação.

Sendo um livro didático, na mais ajustada descrição, o evangelho de João compartilha com o leitor a interpretação da vida segundo Jesus. Pelo menos os pensamentos que ele põe na boca de Jesus. O Espírito Santo inspira uns e outros segundo Ele mesmo escolhe, e ninguém o controla (3.8); as pessoas comuns não o podem entender (3.11,12); os servos de Deus o adorarão independente de lugares sagrados (4.23,24); as obras de Deus não são interrompidas (5.17); a fé é o maior dos milagres (6.28-36); o pecado escraviza a vontade dos homens (8.39-47); os homens devem amar a Deus e uns aos outros, para serem filhos de Deus, que os liberta de sua escravidão (13,34,35).

O evangelho de João não é um guia abrangente como os Provérbios, nem direcionado às situações cotidianas como as parábolas de Jesus, mas um guia de conduta incrivelmente flexível, onde sabe-se o que Deus espera da conduta humana. Mas não há especificações exatas sobre ela. Como se, na expectativa do Reino de Deus, entre os que desejam aproximar-se do Senhor, a Lei fosse completamente obsoleta.

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¹ Uma cidade-estado é geralmente uma cidade cercada por muros, com a região agrícola fora dos muros. Nela não há um prefeito, mas um rei que governa uma área pequena, geralmente na margem de um rio, com sua própria língua, tradição e leis.

² Afora as curas milagrosas de Jesus, a cura da lepra, assim como de muitas outras parasitoses, só foi alcançada no séc. 20 com o desenvolvimento dos antibióticos. A grande inovação de Jesus, entretanto, foi o tratar com leprosos como se fossem qualquer pessoa. Na sociedade judaica, a lepra não era apenas uma moléstia contagiosa, mas também um sinal de impureza espiritual e maldição.

³ Num grau avançado de informação para sua época, os egípcios enviavam e recebiam rolos e tabuletas de correspondência de seus diversos territórios. Os faraós, então, muito antes de sentarem-se no trono, sabiam dos pormenores políticos e culturais de lugares tão distantes quanto a Palestina e a planície dos rios Tigre e Eufrates. As cartas de Amarna, por exemplo, dão relatórios da migração dos semitas desde que foram expulsos do Egito e em cada lugar onde desafiaram a autoridade do faraó.

* O Templo de Salomão ou 1º Templo foi destruído durante a tomada de Jerusalém pelo rei Nabucodonosor II (587 a.C.), do 2º Império Babilônico. As datas na Bíblia sugerem uma obra iniciada no fim do reinado de Salomão, para abrigar a Arca da Aliança. Ele empregou centenas de trabalhadores para produzir uma construção monumental, que levou 7 anos para ser terminada. Além do pagamento de muitos trabalhadores, o templo ainda usou materiais bastante valiosos (madeiras, tecidos caros, ouro e marfins) em sua confecção, o que acabou sendo um símbolo da era de prosperidade durante o reinado de Salomão. O Templo foi reconstruído quando os judeus voltaram da Babilônia e muitos séculos depois ele foi reformado/ampliado por Herodes o Grande, um vassalo de Roma, ao longo de 46 anos. Foi essa estrutura judaico-romana que Jesus visitou.

** A relação de vassalagem ou clientela implicava que um rei obedecia a outro. Havia a lei do rei maior (Tibérius), e a ela se emendavam os termos da lei do rei menor (Antipas). Não poucas vezes, os reis da Galiléia e da Judéia eram educados em ricas famílias romanas, para assegurar sua fidelidade cultural. Além do pagamento regular de impostos ao rei maior, o rei menor também abrigava legiões de patrulhamento, que serviam para garantir sua segurança em caso de ataque estrangeiro. As legiões no entanto não eram submissas a lei do rei menor, nem respeitavam os costumes das populações, o que fazia os habitantes terem grande repulsa por eles.

*** A impressão que temos a partir do Novo Testamento é de que o Cristianismo começou como uma série de pequenos grupos, com os quais os governos não teriam motivo de preocupação. Logo, qualquer ação contra os Cristãos parece motivada unicamente por um fundamentalismo acerca da lei de Moisés. O Concílio em 49 d.C. sobre os gentios serem aceitos como Cristãos sem tornarem-se judeus mostra que, embora pregada por judeus, a Cristandade chegou primeiramente aos gentios vivendo a leste da Síria. As muitas reações negativas a Paulo podem falar em contrário a uma passividade dos governos por onde ele andou quanto ao Cristianismo, mas em Israel é provável que a reação negativa acontecesse justamente porque o Cristianismo quebrava a separação de castas judeus vs. gentios. O Sinédrio não tinha autoridade sobre os gentios, e talvez assim perdesse seu poder sobre os judeus também.

Quanto a Roma, os judeus eram de certa forma proscritos por não aderirem ao culto dos césares. Os Cristãos também não aderiam a isso. As perseguições dos romanos a judeus e Cristãos após a destruição de Jerusalém (70 d.C.) sugerem, de certa forma, que Roma nem via diferença de uns e outros.

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PISTAS MUITO FALSAS, NÃO VÁ POR AQUI

Akhenaten - wikipedia
Code of Hammurabi - wikipedia
Code of Ur-Nammu - wikipedia
History of leprosy - wikipedia
Pink AW, Things omitted from John's gospel, biblehub.com
Urukagina - wikipedia

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Retornamos ao Velho Testamento?

"Armandinho", tira de Alexandre Beck, de 5/abr/2015

Uma curiosidade talvez pouco observada nas igrejas é a valorização do Velho Testamento (VT). Enquanto os Católicos modestamente se lembram que o VT existe, os Protestantes são muito afeitos a pregá-lo em seus cultos. E essa valorização é tanto maior quanto mais contemporânea for a filosofia da Igreja. Em muitas delas, parece que o VT já ultrapassou seu substituto mais Novo.

Seguindo a linha Igrejas Históricas > Pentecostais > Neopentecostais, o VT aparece cada vez mais nas pregações e práticas. Enquanto algumas Pentecostais adotam a última moda no séc. 19 (nascimento do Pentecostalismo!), outras descambam para regras Judaicas descritas por Paulo, o Fariseu. Chegam ao ponto de um arsenal do séc. 10 a.C. composto por cajados, água-do-rio-Jordão, tronos sagrados e arcas-da-aliança como objetos de veneração. Mais recentemente, foi erguido todo um Templo de Salomão¹ em São Paulo, feito com materiais sagrados da Terra Prometida. As mensagens pregadas também vão nessa linha: São Pedro e São Paulo para os Católicos, Daniel, Levítico e Deuteronômio para os Neopentecostais. Desafiando a roupagem antiga (alguns pastores chegam a usar barbas longas e o Quipá Judeu na cabeça), os Rabinos de hoje distam muito dos Fariseus do tempo de Jesus². Mas inovador mesmo é conciliar o VT com o Espírito Santo bradado nas congregações Pentecostais..

O VELHO VELHO

Os livros que compõem o VT, bem como sua ordem e nomes, diferem entre as denominações Cristãs. O VT Católico tem 46 livros; o Ortodoxo tem 51; o Protestante tem 39. Esses 39 livros comuns a todos os VTs Cristãos correspondem a 24 livros da Tanakh Judaica, com algumas diferenças de ordem e poucas diferenças no texto. São chamados “deuterocanônicos” aqueles livros que fazem parte dos VT Cristãos, sem estarem no Judaico, e justamente esses não aparecem no VT Protestante. Eles estão em algumas versões dos Anglicanos e Luteranos, que hoje são considerados Protestantes.

O VT e o Novo Testamento (NT) apresentam muito mais divergências do que pontos em comum. Para começar, a continuidade histórica entre um e outro, descrita nos livros dos Macabeus, não é aceita pela maioria da Cristandade. Trata-se de um período de lutas dentro de uma Israel invadida pelos Gregos e depois pelos Romanos, onde os principais líderes Judeus aliam-se aos traditoriamente aos dominadores ou sacrificam-se (literalmente) por sua tradição. Os Cristãos do séc. 4 jamais aceitaram uma Era de Mártires antes do Cristianismo, por isso deram para esse tempo inter-testamentário o sugestivo nome de Período do Silêncio (de Deus) e muitos removeram os livros dos Macabeus das suas Bíblias.

A Teologia sempre se ocupou de arrumar meios para concordar um e outro Testamentos. Por isso, a presença do VT na Bíblia Cristã representa muito mais uma alegação de continuidade do “povo de Deus” do que uma ligação histórica real. Não há dúvidas de que Jesus e seus seguidores liam a Torá Judaica, mas eles não apenas foram perseguidos e caçados pelos Judeus (devido às diferenças ideológicas) como fizeram mais aliados entre os Gregos, Turcos e Sírios do que jamais tiveram entre os Judeus. Mais tarde, o Islã também apelaria a essa “continuidade do povo de Deus” trazendo vários elementos Judaicos no Alcorão e até Jesus como um profeta, embora com uma ideologia também diferente de um e de outro, além da alegação de que todo o testemunho dos 1os Cristãos foi perdido e adulterado.

Enquanto o VT sumariamente apresenta um Deus que premia os puros, aqueles que seguem os preceitos e as leis*, o Novo Testamento traz um Deus não apenas humano e sensível à dor dos Seus filhos, mas anunciando o sofrimento de todos aqueles que O seguirem (alguém pegou a inversão, aí?). As ações humanas são simplesmente o reflexo de uma graça já alcançada sem mais pré-requisitos que a fé.

DEIXANDO O NOVO PARA TRÁS

Pareceria natural que a Igreja Cristã seguisse o NT, apelando ao VT por elementos históricos e profecias (se bem que muitas falas de Jesus e todo o Apocalipse já são bastante proféticos). De fato foi isso que aconteceu entre os Católicos e Ortodoxos, com pelo menos 1600 anos de intromissões filosóficas e históricas. Os Protestantes, que iniciaram seu movimento pelo séc. 16, começaram re-traduzindo a Bíblia a partir do Hebraico e Grego antigos para se “limparem” das possíveis alterações feitas pelos Católicos. Além disso, a maioria dos elementos históricos e tradicionais foram eliminados, ao ponto de que os templos Protestantes ficaram destituídos até mesmo das pinturas de cenas bíblicas.

O Pentecostalismo (1900s-até hoje) e o Neopentecostalismo (1970s-até hoje) foram paridos pelos Protestantes, como parte de um movimento de pregação leiga. Se o Espírito Santo pode dizer a cada um o que pregar, porque precisa ser alguém estudado em Teologia, ou mesmo que conheça o texto bíblico? Tanto um grupo como outro fazem apelos muito mais fortes ao poder divino aqui e agora, ao invés do estudo bíblico tradicional das Igrejas Históricas ou simplesmente Protestantes.

No Neopentecostalismo, as passagens bíblicas passaram a ser usadas para justificar a pregação (e não o contrário), esta geralmente afirmando que pode-se obter qualquer coisa de Deus, só não sendo o fiel atendido por falta de fé (na Igreja)**. Dado o discurso intelectual/filosófico de Paulo e a interpretação rasa da vida de Jesus pelos evangelistas (João é diferente), precisamos concordar que o VT se parece muito mais exato, fácil de entender. E também está mais vinculado aos procedimentos mundanos/carnais sobre o que as Igrejas Pentecostais e Neopentecostais se apoiam.

Através do VT, um pastor pode cobrar roupas, falas e ações da sua congregação. Como ele faria com um Jesus extremamente desobediente e libertário para distribuir graça? Numa época em que cada Cristão torna-se slogan vivo da sua Igreja (e elas são variadas como os grãos de areia da praia, no Neo/Pentecostalismo), inclusive na internet e na televisão, é preciso mostrar. Os valores de “amor a Deus” e “amor ao próximo” são infelizmente muito mais difíceis de retratar do que jargões como “estou na fé”, “está amarrado em nome de Jesus” ou o sucesso financeiro, simbolizado por carros, casas, empresas e roupas de grife. Os testemunhos de sucesso e cura, então, como negar tal poder de Deus?

Desde os anos 1980, o Catolicismo tem perdido espaço no cenário religioso brasileiro. E o grande responsável por isso tem sido a expansão rápida do Pentecostalismo e do Neopentecostalismo. Essa mudança, além da troca de ideologias, representa uma valorização crescente do VT nas igrejas. Por tradição, o Catolicismo preparou os brasileiros para uma postura passiva nos cultos. À medida que essas pessoas migram para igrejas Neo/Pentecostais, com mais participatividade, muitos assumem a função de pregadores leigos que são identificáveis pelo linguajar, roupas, ações. Essa "identidade Cristã" equivale mais ou menos aos homens puros do Templo na época de Jesus.

Não estamos falando de mestres, doutores, Saduceus ou Fariseus, mas dos homens preferidos que formavam a linha de frente gritando “Crucifica-o!” diante de Pôncio Pilatos. Homens corretos, honrados e reconhecidos pelos sacerdotes, que eram chamados a ler as Escrituras nas Sinagogas. As Igrejas Neo/Pentecostais em geral têm esse grupo seleto.

QUASE CRISTÃOS

O grupo são aqueles que proferem mensagens, testemunhos e visões confirmando a mensagem do pastor. São pessoas santas (ou seja, puras), elevadas por obras feitas em acordo com a Igreja. Para um Deus que usou até mulas falantes e um Messias que distribuía graça de graça, aos quatro ventos, o grupo seleto talvez pareça uma boa piada. O Jesus que fisgou seus seguidores entre homens incultos, de fé duvidosa, romanos e mulheres mal-vistas talvez premiasse esse grupinho “santo” com gargalhadas regadas de água feita em vinho. Mas não era assim entre os Judeus: os mais puros e corretos eram dignos de Deus, eram aqueles teoricamente protegidos (na verdade, os Romanos trucidaram todos que não tivessem alguma ligação com eles, em 70 d.C.). Por isso, não seria errado disparatar que a valorização do VT nas Igrejas Neo/Pentecostais está muito em acordo com uma fé Cristojudaica, ao invés de algo Cristão.

No VT, a base da fé era a Lei de Moisés, com preceitos bem específicos. Alguém que os violasse traria desgraça a todo o povo e deveria ser excluído ou morto. Haviam atenuantes muito poderosos, como o próprio Jesus salientava (ex. quando Davi e seus homens comeram os pães do Templo), além dos profetas itinerantes que construíram grande parte da tradição Judaica enfrentando e consagrando reis. Mas esses profetas desapareceram após o Exílio Babilônico, e nem Ageu, Zacarias, Malaquias, Ana, Simeão ou João Batista chegaram a gozar de uma fração do respeito devido a predecessores como Samuel, Natã, Elias, etc. Os últimos profetas tiveram de lidar com reis e sacerdotes mais duros, mais politicamente engajados e atrelados a uma rede de poderes fora do Templo.

No NT, “amar a Deus acima de todas as coisas” representa um compromisso religioso acima de toda autoridade, além de uma busca da imitação de Jesus. No Neo/Pentecostalismo poderia significar instruir-se diretamente com o Espírito Santo. Já “amar o próximo como a si mesmo” conduz, no seu extremo, a um comportamento de cuidado com o outro e busca de igualdade. Na prática, muitas vezes significa auto-sacrifício. A igualdade afrontava Fariseus e Saduceus, assim como era blasfêmia para os Católicos antes do séc. 18 e passou a ser um absurdo leviano para os Neo/Pentecostais mais recentes. O auto-sacrifício, valorizado pelos Católicos na Idade Média (e não depois), ressurgiu entre os Neo/Pentecostais de uma forma tremendamente empresarial: ninguém se sacrifica pelo próximo, isso viola a coletividade, o rótulo. O Cristão se sacrifica pela instituição Igreja, e assim alcança (o rótulo da) graça.

A Lei e a exclusão estão bem presentes nas Igrejas Protestantes atuais; na verdade é o principal motor da cisão de congregações e nascimento de novas denominações Neo/Pentecostais. Os atenuantes são raros, na falta de autoridades religiosas extra-congregação. Os profetas itinerantes existem, mas não com poder. O compromisso religioso foi devotado às Igrejas enquanto rótulos. A imitação de Jesus está fora de moda. O Espírito Santo não se atreve muito a falar fora do culto, salvo em sonhos e visões que são, na verdade, uma combinação do velho e pagão shamanismo (informações vagas recebidas espiritualmente) com o “pensamento positivo” de Schopenhauer***. Amar ao próximo só entre santos e olha lá. Cuidado com alguém e busca de igualdade, logo serão estipulados como crimes contra a meritocracia. Dessa forma, pela negação de quase tudo no Cristianismo bíblico e adoção de vários elementos do VT, será que o NT ainda nos é algo importante?

Os Católicos e Ortodoxos ainda usam o NT, porém com participação mais legislativa do que próxima ao público. Não podemos negar alguns movimentos bastante genuínos (como os Franciscanos) ou bastante controversos (como a Teologia da Libertação). Os Protestantes tradicionais, ao menos no Brasil, se fecharam em seus grupos, às vezes misturados a ou imitando organizações comerciais como a Maçonaria. Os Neo/Pentecostais envolveram-se na mesma estrutura de títulos e influências que caracterizava a Igreja Medieval.

Havendo um Templo de Salomão, estamos no aguardo das piscinas milagrosas e reinício dos sacrifícios animais para espiação.

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¹ O Templo era o centro de culto Judeu, onde o próprio Deus vinha à Terra. O primeiro Templo foi erguido por Salomão antes de 930 a.C. O Templo foi destruído na invasão de Jerusalém por Nabucodonosor em 587 a.C. Mais tarde, quando Ciro o Persa libertou os Judeus, eles reergueram o prédio em 515 a.C., que ficou conhecido como Segundo Templo. Em 167 a.C., durante a invasão dos Gregos, os sacerdotes foram mortos e o Templo foi profanado com uma estátua de Zeus, terminando por ser abandonado. Em 165 a.C., Judas Macabeu, 2º na linhagem que lutava contra o domínio estrangeiro, re-dedicou o Templo. Herodes o Grande, rei da Judéia subordinado a Roma, iniciou obras de expansão do Templo, que terminaram por volta de 19 a.C., quando o prédio ficou conhecido como Templo de Herodes. O edifício foi incendiado e demolido por Roma durante a rebelião da Judéia, em 70 d.C.

O Templo de Salomão brasileiro foi terminado em 2014, sendo a sede mundial da Igreja Universal do Reino de Deus, no bairro do Brás, em São Paulo. Sua construção seguiu as descrições bíblicas do 2º Templo, utilizando pedras vindas de Israel.

² O Judaísmo, como todas as religiões antigas, sofreu grandes transformações ao longo do tempo. Como religião organizada, o Judaísmo surgiu a partir de Moisés (aprox. 1400 a.C.), durante o deslocamento para o sul ao longo do Mar Vermelho, pelo sul das montanhas Sinai e depois para o norte pelo Golfo de Aqaba, na tenda-tabernáculo erguida pelo profeta. O Judaísmo desenvolveu-se mais ou menos em templos independentes, visitados e presididos por profetas itinerantes, em meio às várias religiões de Canaã, até o séc. 7 a.C. Pouco depois que o Judaísmo foi unificado pelos sábios do rei Josias (o que resultou na Torá, ou história), as terras foram tomadas por pelo rei Nabucodonosor, da Caldéia. O retorno dos Judeus sob o governo Persa marcou a organização dos Talmudes (tradição oral = Mishná + discussões dos anciãos = Guemará).

A partir da re-dedicação do Templo em 165 a.C., numa Judéia dominada pelos Gregos, os Judeus se dividiram em grandes clãs: Fariseus (fundamentalistas crentes no Talmude, contrários à adoção de costumes Gregos), Saduceus (fundamentalistas da Torá, rejeitavam o Talmude e eram abertos aos costumes Gregos) e Essênios (devotos de uma vida simples ao extremo e inspirada por visões, como João Batista).

Após a destruição de Jerusalém (70 d.C.), os Fariseus conduziram uma unificação dos Judeus dos diversos clãs, tornando-se muito menos rígidos em prol da preservação de sua cultura dentro do mundo Romano. Esse período dos Rabinos viu a organização de diversas “escolas” de estudiosos voltados a discutir, preservar e estudar os escritos antigos. A Tanakh (Bíblia Judaica) foi organizada até o séc. 5 d.C., quando passou a ser usada também como parte da Bíblia Cristã.

* Jó, Eclesiastes e Ezekiel argumentam contra isso. Jó se apresenta como modelo de pureza e perseverança, enquanto lhe são destinados sofrimentos e o tormento sentencioso dos “amigos”, que o estudam para estabelecer a causa das suas agruras. O Livro de Jó é sobretudo uma peça moral contra as fantasias que possamos fazer a respeito do julgamento de Deus. Eclesiastes, supostamente (mas provavelmente não) escrito pelo rei Salomão, traz uma visão pessimista sobre o quanto tudo é passageiro e pouco proveitoso ao homem. Sendo um livro moral, Eclesiastes anuncia que justos e injustos são agraciados com o que não mereceram, terminando todos com o mesmo fim. Ezekiel (622 a.C. - 570 a.C.) foi um dos profetas deportados na invasão de Jerusalém por Nabucodonosor (os outros foram Isaías, Jeremias e Daniel). Sendo o livro com mais referências geográficas e temporais da Bíblia, o texto filosófico de Ezekiel continuamente questiona Deus: “até quando o ímpio vai prosperar?”.

** Na verdade, o Judaísmo dos Fariseus e Saduceus, na época de Jesus, já se assemelhava ao Neopentecostalismo atual. Os Judeus estavam havia 3 séculos sob domínio estrangeiro e um homem tinha poucas possibilidades de ascensão social a menos que se aliasse aos governos estrangeiros, o que era vergonhoso segundo a lei Mosaica. Por outro lado, a mesma lei expressava que o justo prosperaria. Então, as classes dominantes - aliadas de uma forma ou outra aos estrangeiros - argumentavam por sua prosperidade através de uma pureza que João Batista e Jesus jogavam continuamente em seus rostos.

*** O filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) divulgou a idéia de que todo o mundo como o conhecemos é a expressão de uma confusa teia de vontades e pensamentos. Não necessariamente a matéria reflete o que alguém pensa, mas a forma como percebemos a matéria depende desse pensamento. Sua obra “Die Welt als Wille und Vorstellung” (O mundo como vontade e representação) divulgou a idéia de que era possível mudar completamente a nossa visão de mundo através de treinos mentalistas.

Essa filosofia se tornou muito popular no séc. 19, sendo deveras aproveitada por Phineas Parkhurst Quimby (1802 - 1866), um relojoeiro estadounidense que nos anos 1830-1840 ficou famoso por seu trabalho de indução mental terapêutica. Uma de suas aprendizes fundou a Igreja da Ciência Cristã em 1879, dando início a uma sacralização do Pensamento Positivo como forma de oração e, claramente falando, controle da intenção de Deus.

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Arthur Schopenhauer - wikipedia
Bible - wikipedia
Brown W, Early Judaism, Ancient History Encyclopedia, 25out2017
Hanukkah - wikipedia
Pharisees - wikipedia
Phineas Quimby - wikipedia
Old Testament - wikipedia
Oliveira CJ, Costa PC, A cristologia neopentecostal no Brasil pós-moderno: continuidade e ruptura, Tese de doutorado em Teologia na PUC-Rio, 2016
Second Temple - wikipedia
Solomon's Temple - wikipedia
Student G, O que é o Talmud?, chabad.org.br
Tirasarmandinho - facebook.com
Wilson RF, The route of the Exodus, jesuswalk.com

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Matem os infiéis!


Esse texto (em português) foi produzido por Guilherme Rosa Pinho em 2014, publicado no site Jus Navigandi. O texto original foi publicado como BULA AD EXTIRPANDA em 15/mai/1252, no governo de do papa Inocêncio IV (1243-1254). Trata-se de 39 leis (da Igreja!) a serem obedecidas pelos governos das cidades. Esse poder todo era garantido pela tradição da Igreja atrelada ao finado Império dos césares, mas também por meio de armas e ações sobre o comércio da Europa. Repare que há um distanciamento muito grande entre o projeto político da Igreja e os textos bíblicos, sejam do Velho ou do Novo Testamento (ver Provérbios 6.16-19). Sob a justificativa de uma pureza teológica contra outros grupos Cristãos, a Bula regulamenta todo tipo de acusações entre as pessoas, premia tais acusações com os bens do acusado/condenado, premia a própria organização da caça-aos-hereges com dinheiro e institui poder absoluto para os cléricos. Em especial, fica autorizado o uso de tortura na averiguação das acusações e a obrigação de que o acusado/condenado acusasse outros. Os próprios oficiais da Igreja são sentenciados a passar periodicamente por examinação da sua fidelidade.

Sem dúvida um ato político que definia o controle absoluto da Igreja Romana sobre as cidades, inquestionável e perigoso a quem pensar em duvidar dele, a Bula foi um dos documentos mais significativos da Inquisição, com reflexos na política internacional por vários séculos. A partir dela, nasceu um Reich (alusão ao nazismo e ao próprio Império Romano-Germânico da Idade Média) comandado pelo papa (líder Cristão!). Alguns trechos bastante significativos estão grifados, sendo aqueles que premiam diretamente a Igreja ou as pessoas pela condenação (e subsequente pena) de qualquer pessoa.

BULA AD EXTIRPANDA - tradução

Promulgação de Leis e Constituições que devem ser observadas por Magistrados e Oficiais seculares contra hereges, cúmplices e protetores deles.

Inocêncio Bispo, Servo dos Servos de Deus, aos Queridos filhos, Autoridades, ou Dirigentes, aos constituídos Conselhos, Comunidades das Cidades e de outros lugares pela Lombardia (norte da Itália), Romaniola (noroeste da Itália) e Marchia Tervisina (nordeste da Itália), Saudação e bênção Apostólica.

Propusemos nos esforçar junto a nossa incumbência de extirpar a erva daninha da depravação herética do meio do povo Cristão. Essa depravação brotou mais abundantemente que o usual nesses dias porque o inimigo do homem tão mais desejada e livremente a semeia por estes dias, e porque perniciosamente negligenciarmos que ela anda por aí desejando a morte da semente Católica. Porém os filhos da Igreja, e zeladores da fé Ortodoxa, que desejam, surjam e estejam conosco, deste modo agindo contra os operários da maldade. Para estes, editamos algumas Constituições para a extirpação da peste herética, que estão contidas regularmente mais abaixo, e que devem ser observadas com exata diligência por vós como fiéis defensores da mesma fé.

§1. Mandamos à vossa universalidade escritos apostólicos, de algum modo cada um levando inscritas as mesmas constituições a serem adicionadas em vossas Capitulações, para que em jamais sejam abolidas. Segundo elas, procedeis contra todo herege que se erga contra esta santa Igreja. Damos mandatos aos queridos filhos Prior Provincial e Irmãos Inquisidores para que sentenciem excomunhão e interdição da Ordem dos Pregadores na terra da depravação herética da Lombardia, Marchia Tervisina, e Romaniola. Que cada um de vós respondam por isso, tendo a apelação apenas efeito devolutivo (cláusula appelatione remota).

As Leis e Constituições são estas:

§2. A Autoridade, ou Dirigente que preside a Cidade ou a outro lugar até o presente, ou tiver que presidir por tempo no futuro, na Lombardia, Romaniola ou Marchia Tervisina, jurará precisamente e sem temor algum que atenderá as leis abaixo escritas contra a depravação herética, durante todo o seu governo, tanto canônicas quanto civis, tanto na Cidade ou no lugar de seu governo, quanto nas Terras sujeitas ao seu controle. Que acerca destas recebam juramentos de qualquer um que suceda a vós na Governança, ou no governo. Os que não quiserem prestar esses juramentos, assim como os que não tiverem firmeza neles, que de modo algum sejam tidos por Autoridade ou Dirigente. Ninguém os siga, se tiverem exibido o juramento apenas por causa da consequência a ser cumprida. Que se alguma Autoridade ou Dirigente não quiser observar todos esses juramentos ou os negligenciar, receba nota de perjúrio e desastre de perpétua infâmia, pena de duzentas marcas. Que na Comuna seja nomeado não menos que pérjuro e infame, protetor dos heréticos e suspeito de fé. Que seja despojado do ofício e da honra de seu governo e jamais receba qualquer dignidade ou ofício público.

§3. Também a mesma Autoridade ou Dirigente de qualquer Cidade ou lugar, no início de seu governo, em audiência pública reunida segundo o costume usual, submeta ao banno* da Cidade ou do lugar todos os hereges. E seja obrigado a confirmar, deste modo, o banno posto por seus predecessores. Para que nenhum herege habite, permaneça ou subsista na Cidade, ou em algum lugar da jurisdição, também todo aquele que encontra-lo livremente o capture e possa tomar todos os seus bens, salvo se os tirantes estiverem agindo sob ofício.

*Nota: banno era um órgão de poder feudal, encarregado de punir os infratores de leis. Essa punição podia ser alguma forma de ressarcimento, pedido de desculpas, retirada dos direitos civis, afastamento temporário ou permanente do local (daí o verbo “banir”) ou mesmo um castigo físico, até a morte, dependendo do crime cometido.

§4. Também a mesma Autoridade, ou Dirigente, até o terceiro dia após o início de seu governo, seja obrigado a instituir doze Homens probos e Católicos, e dois Notários, e dois Servidores, ou quantos forem necessários. Se os Conventos lá forem das Ordens deles mesmos e julgarem que devem ser escolhidos, entre eles pode estar o Diocesano, se presente estiver, e assim quiser, além de dois Irmãos Pregadores e dois Irmãos Menores indicados pelos seus Priores.

§5. Os escolhidos deste modo podem e devem capturar os hereges e retirar os bens deles, fazer que serem retirados por outros e cumprir estas coisas tanto na Cidade, quanto em toda jurisdição distrito. Os hereges devem ser conduzidos até a autoridade do Diocesano ou dos Vigários do mesmo.

§6. Seja obrigada a Autoridade ou Dirigente, às custas da Comuna, fazer serem conduzidos os hereges capturados para onde quer que o Diocesano ou os Vigários desejarem.

§7. Seja tida plena fé nos preditos Oficiais sobre todas estas coisas, que pertencem ao ofício deles, especialmente se prestado algum juramento. Não será admitida qualquer prova em contrário.

§8. Quando os Oficiais forem escolhidos, jurem que todas estas coisas serão executadas fielmente e que podem executá-las. Jurem que sempre dirão a pura verdade sobre elas e sejam mais obedientes naquelas que dizem respeito ao seu ofício.

§9. Os doze, os Servidores e Notários pré-taxados tenham poder pleno para prescrever as coisas que pertencem ao seu ofício, sob pena de serem levados ao banno.

§10. A Autoridade ou Dirigente fica obrigado a ter firmes e ratificados todos preceitos feitos por ocasião do ofício. Que eles exijam penas dos que não os observam.

§11. Se algum dano atingir os ditos Oficiais, as pessoas ou coisas usadas na execução dos ofícios, sejam plenamente indenizados pela comuna da Cidade ou do lugar.

§12. Nem os próprios Oficiais ou herdeiros deles possam questionar as coisas que os Oficiais tiverem feito ou que pertençam ao ofício deles. Somente será avaliado o que for visto como conveniente, segundo o mesmo Diocesano e Irmãos.

§13. O ofício dos mesmos dure somente por seis meses. Completos estes, seja obrigada a Autoridade sub-rogar outros segundo a forma prescrita, para os seis meses subsequentes.

§14. Sejam dados a cada um dos mesmos Oficiais dezoito Imperiais em pecúnia numerada, a partir da Câmara da comuna da Cidade ou do lugar, quando saírem para executar este ofício, em prol de qualquer cidade que seja. A Autoridade ou Dirigente seja obrigado dar-lhes isto até o terceiro dia, após terem retornado.

§15. Além disso, recebam a terça parte dos bens dos hereges que tiverem apoderado, e das multas para as quais os hereges forem condenados. Sejam satisfeitos com este salário.

§16. Que não sejam compelidos a nenhum outro ofício que impeça sua tarefa.

§17. Também nenhum Estatuto, já criado ou a criar, possa impedir o ofício deles.

§18. Se percebido pelo Diocesano e pelos Irmãos que alguém destes Oficiais, por causa da inaptidão ou inércia, ou alguma ocupação, ou excesso, deva ser removido, a Autoridade ou Dirigente seja obrigada a removê-lo e substituí-lo por outro da mesma ordem.

§19. Se algum deles for flagrado agindo contra a fé e sinceridade de seu ofício, em favor de alguma heresia, receba além da nota de perpétua infâmia, o nome de protetor dos hereges e seja punido pelo arbítrio do Diocesano do lugar, dos Irmãos e da Autoridade ou Dirigente. 

§20. Se os Oficiais, o Diocesano, o Vigário ou os Inquisidores indicados pela Sé Apostólica pedirem, a Autoridade envie seus soldados ou outros assessores, para que exerçam fielmente o ofício deles. Também qualquer um requisitado seja obrigado, tanto na cidade quanto na em qualquer distrito, a dar ajuda aos mesmos Oficiais ou aos seus companheiros, quando quiserem capturar, despojar ou inquirir hereges, quando quiserem entrar numa casa ou lugar, ou em qualquer passagem para capturar hereges. Recaia a quem negar ajuda a pena de vinte e cinco libras imperiais e punição pelo banno. Para o burgo* recaia a pena de cem libras imperiais e punição pelo banno. Para a Vila recaia a pena cinquenta libras Imperiais, a ser paga em pecúnia numerada.

*Nota: burgo era a cidade murada medieval. Tanto ela quanto as terras ao redor existiam sob controle de um nobre. Os comerciantes e agricultores eram considerados “inquilinos” e assim pagavam taxas, produtos ou serviços ao nobre responsável/senhor das terras.

§21. Aquele que retirar herege capturado dos que capturam, ou tiver tentado (retirar) aos que capturam, ou defender para que não seja capturado, ou impedir alguém de entrar alguma casa ou torre ou qualquer lugar a fim de que o herege não seja capturado ou não seja inquirido, conforme a Lei de Pádua, promulgada por Frederico, então Imperador, que seja relegado perpetuamente e todos os seus bens tomados. Que aquela casa na qual foram impedidos de entrar seja destruída até o fim, sem esperança de se a reedificar. Os bens que lá forem encontrados sejam do que a capturam. Se hereges tiverem sido encontrados ali, e então por causa desta proibição o burgo pague à Comuna duzentas libras, e a Vila cem libras, e os vizinhos tanto do Burgo quanto da Cidade cinquenta libras Imperiais, a menos que até o terceiro dia tenham conduzidos à Autoridade aqueles defensores dos hereges.

§22. Além disto, seja obrigada a Autoridade ou Dirigente, qualquer que seja, fazer com que todos hereges capturados sejam custodiados por Homens Católicos eleitos para isto pelo Diocesano, se estiver presente, e pelos Irmãos. Que sejam custodiados em cárcere seguro, detidos sozinhos, à parte de ladrões e de foras-da-lei (banidos), até que sobre eles se tiver definido. A violação desta acarretará expensas à Cidade ou ao Lugar.

§23. Se a qualquer momento alguns não hereges forem capturados no lugar de hereges, que os hereges sejam obrigados a apontar quem tiver feito este dolo, malícia e má fé. De acordo com a lei, que os culpados sejam punidos pelo banno e tenham todos os bens tomados.

§24. A Autoridade ou Dirigente seja obrigada a apresentar todos os hereges ao Diocesano, ao Vigário especial ou aos Inquisidores com bom e seguro acompanhamento em até quinze dias após terem sido capturados, para o exame que deve ser feito sobre a heresia deles.

§25. A Autoridade ou Dirigente deve receber os condenados de heresia pelo Diocesano, pelo Vigário ou pelos Inquisidores em menos de cinco dias, para que se observem as Constituições contra eles.

§26. A Autoridade ou Dirigente seja obrigada a forçar todos hereges capturados a confessar seus erros expressamente, assim como verdadeiramente ladrões, homicidas, surrupiadores dos sacramentos de Deus e da Fé Cristã. Que sejam eles também obrigados a acusar outros hereges que conhecem e os defensores deles, assim como os surrupiadores e os ladrões das coisas temporais são forçados a delatar, a acusar seus cúmplices e a confessar os malefícios que fizeram, até o limite da diminuição de membro e perigo de morte.

§27. Que a casa na qual for encontrado algum herege seja destruída até o fim, sem qualquer esperança de ser reedificada, a menos que o dono da casa tiver ajudado que eles fossem encontrados naquele lugar. Se o Dono daquela casa tiver outras casas contíguas àquela casa, todas aquelas casas sejam semelhantemente destruídas, e os bens que forem encontrados ali e nas casas aderentes sejam tomados e dados aos que os que tiraram, a menos que os que retiram estejam constituídos no ofício. E além disto, que o Dono daquela casa receba nome de perpétua infâmia, e pague à Comuna da Cidade ou do lugar cinquenta libras Imperiais em dinheiro numerado. Se não pagar, que seja lançado em cárcere perpétuo. Aquele burgo no qual forem capturados hereges deve pagar à Comuna da Cidade cem libras. A Vila deve pagar cinquenta libras. A vizinhança tanto do burgo quanto da Cidade deve pagar cinquenta libras Imperiais em dinheiro numerado.

§28. Qualquer um que for flagrado dando conselho, auxílio, ou favor a algum herege, além das outras penas, seja feito para sempre infame, proibido a ofícios públicos ou conselhos, proibido a escolher cargos, nem seja admitido para testemunho, não tenha testamento nem participe de testamentos, nem aceda à sucessão de hereditariedade. Além disto, ninguém seja forçado a responder para ele sobre qualquer negócio, mas seja ele forçado a responder para outros. Se por acaso for Juiz, sejam anuladas as sentenças dele e nenhuma causa seja levada até sua audiência. Se for Advogado, não seja admitido em questão alguma. Se for Tabelião, os documentos feitos por ele sejam anulados. Os que creem nos erros dos hereges, que sejam punidos tal como os hereges.

§29. Que a Autoridade ou Dirigente seja obrigada a anotar os nomes de todos os afamados de heresia ou passados pelo banno em quatro livretos. Um ficará na comuna da Cidade ou do Lugar, outro com o Diocesano, outro com os Irmãos Pregadores e o quarto com os Irmãos Menores. Que os nomes deles sejam recitados solenemente em reunião pública três vezes por ano.

§30. Que a Autoridade ou Dirigente seja obrigada a investigar os filhos e netos dos hereges, e também dos protetores deles. Que de modo algum sejam admitidos em qualquer ofício público.

§31. Além disso, sejam obrigados a Autoridade ou Dirigente a enviar um de seus Assessores, que o Diocesano tiver escolhido se estiver presente, ou os Inquisidores da Sé Apostólica. Este Assessor obrigará três ou mais homens de bom testemunho ou toda vizinhança a falarem se souberem de hereges no mesmo lugar, ou de bens deles, ou daqueles que celebram pequenos acordos ocultos, ou dos que se diferem do estilo de vida comum dos fiéis, ou de seus costumes. Eles indicarão os defensores ou protetores de hereges. Que a mesma Autoridade proceda contra os acusados segundo as leis de Frederico, então Imperador de Pádua*.

*Nota: É curiosa a alusão frequente à lei de Frederico II, que governou o Império Romano-Germânico de 1220 a 1250. Frederico foi excomungado em 1239, por disputar terras com a Igreja. Quando Inocêncio IV foi nomeado papa em 1243, ele mesmo negou o governo de Frederico, declarando-o um "amigo do sultão de Babilônia, com costumes de sarraceno, mantendo um harém guardado por eunucos; em suma, um herege".

§32. A Autoridade ou Dirigente seja obrigado a executar tudo com eficácia, nas condenações em dinheiro numerado, na destruição das casas, nas coisas encontradas ou ocupadas que devem ser tomadas e nas que devem ser divididas, em até dez dias após a acusação ter sido feita. Os que não puderem pagá-las, sejam submetidos ao banno em razão do malefício e, até que paguem, sejam retidos no cárcere. Seja indicado um dentre os Assessores, qualquer que o Diocesano ou o Vigário ou Inquisidores dos hereges tiverem querido, para fielmente cumprir por estas coisas.

§33. Que todas as condenações ou penas feitas por heresia não sejam relaxadas por conselho, nem junto à voz do povo, ou engenho, ou em qualquer tempo.

§34. A Autoridade ou Dirigente seja obrigada a dividir todos os bens dos hereges, os que forem tomados ou encontrados por Oficiais, e dividir as condenações cobradas. Uma parte seja da Comuna da Cidade, ou do lugar; outra seja dada aos Oficiais, para o interesse e conveniência do Ofício; outra deve ser reservada e colocada em lugar seguro, conforme parecer ao Diocesano e aos Inquisidores, e deve ser gasta pelo conselho deles mesmos em favor da fé, para extirpar hereges.

§35. Se alguém tentar destruir algo destes Estatutos ou Constituições, tentar diminuir, ou tentar mudar, sem autoridade especial da Sé Apostólica, a Autoridade, ou Dirigente seja obrigada a pública e perpetuamente acusá-lo como defensor dos hereges. Segundo a forma prescrita, ele seja cobrado em cinquenta libras Imperiais em dinheiro numerado. Se não puderem exigir dinheiro dele, seja submetido ao banno em razão do malefício, a menos que pague a dupla quantidade do dito dinheiro.

§36. A Autoridade ou Dirigente seja obrigada a investigar a Autoridade precedente mais próxima, o Dirigente e também os Assessores por até dez dias (do início) do seu governo, junto de três Homens Católicos e fiéis, escolhidos pelo Diocesano se estiver presente, os Irmãos Pregadores e Irmãos Menores. Sejam observados o que tiverem omitido dos Estatutos, Constituições e Leis contra hereges e os cúmplices deles. Se isso for encontrado, os culpados sejam punidos e obrigados a restituir com recursos próprios; não obstante se por alguma licença do Conselho forem livrados da sindicância.

§37. Jurarão os preditos três Homens que investigarão de boa fé tudo o que for ordenado.

§38. Seja obrigada a Autoridade ou Dirigente de qualquer Cidade ou lugar a destruir ou apagar até o fim dos Estatutos ou dos Capitulares comuns as coisas que contradizem estas Constituições ou estes Estatutos e Leis. No início e no meio de seu governo, estes Estatutos, Constituições e Leis serão lidos solenemente em reunião pública e também em outros lugares fora de sua Cidade ou Lugar, como for conveniente ao Diocesano, aos Inquisidores e aos Irmãos Superiores.

§39. Todos estes Estatutos, Constituições e Leis e outros quais criados contra hereges e contra os cúmplices deles devem ser contidos em quatro volumes de igual teor: um dos quais esteja no Estatuário comum de qualquer Cidade, outro com o Diocesano, outro com os Frades Pregadores, outro com os Frades Menores. Que sejam conservados a fim de que não possam em algo ser violados por falsários.

Dado em Perúsia (estado Romano vizinho à capital) nos Idos de Maio, no nono Ano do nosso Pontificado.

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RODAPÉ

Frederico II - wikipedia

domingo, 25 de setembro de 2016

Edito de Milão - texto completo

Os imperadores do Ocidente e do Oriente

Há muito tempo consideramos que a liberdade de culto não deve ser negada, mas que ao pensamento dos homens deve ser concedido o direito de cuidar de coisas espirituais de acordo como cada um escolher pessoalmente. Portanto, já emitimos ordens de que os Cristãos devem guardar e manter a fé de sua própria confissão e adoração. Mas nessas ordens, pelo qual esse direito foi concedido às pessoas acima mencionadas, muitas e diversas condições claramente pareciam ter sido adicionadas e pode, talvez, ser o caso de algumas dessas pessoas em pouco tempo tornarem-se relutantes em praticar a sua religião e observâncias.

Assim, quando eu, Constantino Augusto, e eu, Licínio Augusto, por sorte encontramos um ao outro em Milão, e tivemos a oportunidade de analisar os assuntos sobre vantagens e bem-estar da comunidade, chegamos à resolução que - como outros assuntos que nos pareceram ser benéficos para a grande maioria, e de fato como o primeiro e mais importante entre essas questões - devemos regular as condições em que o respeito e reverência para com a Divindade dependem. O nosso objetivo, a saber, é conceder tanto aos cristãos como a todos os homens a liberdade de escolha na forma de culto como desejarem, a fim de que, independentemente da Divindade, as coisas celestiais possam ser capazes de favorecer a nós e a todas as pessoas que vivem sob a nossa autoridade. Pelo raciocínio estrito e profundo, resolvemos sobre esta política: a nenhum homem dever ser negado o direito de seguir e escolher a forma de culto dos Cristãos. Todo homem deve ter o direito de dar a sua mente a adoração que ele mesmo achar adequada para si, a fim de que a Divindade [para cujo culto nós livremente prestamos o nosso serviço] possa nos proporcionar seu cuidado habitual e bondade em todas as coisas.

Foi bom significar por um escrito que este era o nosso prazer, de modo que, com a remoção completa de todas as condições em nossas antigas cartas enviadas a Vossa Excelência sobre os Cristãos, também deve ser removido tudo o que parecia ser inteiramente errado e estranho à nossa clemência. De agora em diante, de forma livre e incondicionalmente, todos os que têm o pensamento e propósito de manter o culto dos Cristãos deve fazê-lo sem qualquer lei ou impedimento. Essas coisas nós resolvemos explicar tão profundamente quanto possível a você, nosso servo fiel, a fim de que você possa saber que demos a estes mesmos Cristãos o direito pleno e absoluto de cuidar de sua própria forma de adoração. Além disso, veja que esta concessão foi feita a eles incondicionalmente por nós. Vossa Excelência vai entender que o mesmo direito também foi concedido a outros que desejam seguir a sua própria forma de adoração. Tal concessão se encaixa claramente à paz dos nossos tempos - para que todos sejam iguais e possam ter o direito de escolher e valorizar as formas de culto como preferirem. Isso tem sido feito por nós a fim de que nenhum rito ou forma de culto sofra qualquer diminuição em nossas mãos.

Além disso, nós também resolvemos questões que dizem respeito às construções onde os Cristãos se reuniam. Anteriormente, esses lugares foram objeto de uma regra diferente em carta enviada a Vossa Excelência. Porém, nós agora estabelecemos que se qualquer pessoa tiver adquirido tais lugares, seja da nossa tesouraria ou de outro lugar, deverão restaurá-los para os Cristãos sem receber pagamento ou fazer qualquer pedido de compensação, guardando para si toda a negligência e reclamação. Além disso, se qualquer pessoa tiver se apossado de tais lugares como presente recebido, devem restaurá-los o mais rapidamente possível aos Cristãos. Com esta condição, se os compradores das construções ou aqueles que as receberam por doação proferirem qualquer petição à nossa generosidade, eles devem abordar o prefeito do distrito em que as construções estão, de modo que também possam receber alguma consideração. Todas as  propriedades devem ser entregues de imediato aos Cristãos em causa, sem demora.

Além disso, uma vez que estes mesmos Cristãos não só possuíam os lugares onde se reuniam, mas também outros lugares, que não pertencem a indivíduos entre eles, mas que faziam parte dos direitos do seu Corpo Cristão - isto é, uma entidade coletiva - você tem ordens para a execução da lei que temos estabelecido acima, de que todos esses lugares devem ser restaurados sem qualquer dúvida alguma aos Cristãos - isto é, ao seu Corpo Corporativo. É claro que o método até aqui mencionado seja novamente observado e, portanto, aqueles que restaurarem esses lugares sem receber pagamento podem, como já mencionado, esperar indenização a ser dada por nossa generosidade.

Em todas as coisas você deve se esforçar, com o melhor de seu poder, para a pessoa coletiva dos Cristãos, para que nossos pedidos sejam executados o mais rápido possível, a fim de que aqui, bem como em outros assuntos, seja dada consideração por manter a paz comum e pública. Por esta política, como já dissemos antes, tivemos o favor divino em muitos assuntos e tivemos experiência em muitas questões e em todos os tempos. A fim de que nossa promulgação e sua liberalidade possa ser levada ao conhecimento de todos, é apropriado que o que temos escrito seja estabelecido pelo seu edito, publicado em todos os lugares e levado ao conhecimento de todos, a fim de que nossa liberalidade não passe despercebida por ninguém.

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Esse edito foi assinado em fev / 313 d.C. por Flavius Valerius Aurelius Constantinus Augustus (ou simplesmente Constantino, o grande) e por Gaius Valerius Licinianus Licinius Augustus (ou Licínio I). Roma havia se tornado um império tão grande que fora repartido em 286 d.C. entre duas famílias reais, normalmente entrelaçadas por casamentos. Constantino era o imperador de Roma Ocidental (toda Europa e Norte da África) e Licínio era imperador de Roma Oriental (atuais regiões da Grécia, Turquia, Romênia e Rússia). Isso não impedia eventuais disputas por territórios entre os dois lados: Licínio, por exemplo, era natural do Ocidente e havia recentemente conquistado o trono do Oriente derrotando o antigo imperador Maximin Daia, que se opunha fortemente aos Cristãos. Assim, Licínio fez o possível para apagar do Oriente as ações de Maximin.

Embora o Edito de Milão seja referido às vezes como a institucionalização do Cristianismo em Roma, trata-se de um documento feito para os governadores das províncias do Império Oriental. Constantino já era favorável aos Cristãos (embora sua adesão pessoal fosse questionável) e Roma Ocidental já havia concedido liberdade de culto através do Edito de Tolerância de Galerius em 303 d.C., embora não se houvesse estabelecido a devolução de propriedades confiscadas. Mais do que zelar pela paz comum em "tempos de paz", o Edito de Milão reconhece oficialmente que os Cristãos já haviam formado - por si mesmos - um "Corpo Corporativo" e as propriedades não eram individuais (Atos 4.32), mas de uma empresa ou instituição coletiva que era chamado de Igreja.

O documento original não foi preservado, mas há duas "cópias" dele publicadas pelos historiadores Lactantius (De Mortibus Persecutorum) e Eusebius de Cesaréia (Historia Ecclesiastica).

domingo, 10 de janeiro de 2016

Legalismo

Bíblia ilustrada de 1897; Charles Foster

Talvez uma diferença básica entre ateus e teístas seja o fato de que os primeiros creem num mundo governado por regras, enquanto os últimos acreditam na governança de uma entidade racional a quem chamamos de Deus, Jeová, Javé, etc. Enquanto leis podem ser escritas ou matematizadas, pois são constantes e imutáveis, um deus não pode ser teorizado. Por exemplo, as leis da genética estabelecem que os filhos sejam da mesma espécie que seus pais, probabilisticamente 50% homens e 50% mulheres, além de herdar semelhanças físicas, padrões de crescimento e, segundo sabemos hoje, até aspectos mais gerais da personalidade. Um deus por outro lado cuidaria de gerar filhos segundo seu interesse ou em favor de seus protegidos, homens ou mulheres segundo o que a comunidade precisa (ex. Eva, produzida a partir de células masculinas), com personalidades atribuídas segundo seus desígnios e intenções/conhecimento de ações futuras. Eventualmente, os filhos poderiam ser gerados até mesmo sem um ou os dois pais ou sintetizados diretamente do não humano, como Adão.

Nada impede que um deus estabeleça leis naturais, mas eventualmente ele precisa quebrar ou mudá-las para testemunhar a sua independência e existência como ser. Isto é, a genética não precisa ser uma entidade, ela se basta como matemática, estatística, como regra. Já a criação de um homem a partir do não humano, a formação de uma mulher a partir do homem ou até a atribuição de características não herdáveis necessita de uma mente, um ser que os produza. O aparecimento/desparecimento súbito de uma doença crônica pode ser atribuído à ação divina. Pelas regras naturais, tanto um como outro são processos lentos. A abertura de uma passagem no mar é outro exemplo de ação divina. Em toda história, nenhum acontecimento semelhante foi registrado de forma não-religiosa. Uma inundação catastrófica pode ser natural, mas também nunca foi um fenômeno previsível.

Em poucas palavras, um deus se caracteriza pela violação de regras. Bem ao inverso da base que sustenta toda teologia. Em teologia, as ações e pronunciamentos de Deus são estudados para que se teorize ou se matematizem leis, princípios básicos de como Deus (theos) reage e se comporta. Uma oferenda de carne de ovelha é boa, enquanto uma oferenda de legumes não é. Se você pedir com o coração e com fé será atendido; se faltar sinceridade ou fé, não será. Se você seguir as leis terá prosperidade; se violá-las terminará humilhado como foi Jó. E havendo regras, ainda que Deus as coloque em prática, ele não dará nenhuma evidência de sua existência como ser/indivíduo a menos que as quebre. Ao final do livro de Jó, Deus se apresenta a ele e seus amigos, inquirindo qual deles estava presente quando Ele fez o mundo. Em outras palavras, Ele dizia que o sofrimento de Jó não era conseqüência previsível das ações de Jó; era simplesmente a vontade (imprevisível) de Deus. Em ainda outras palavras, o sofrimento de Jó ocorreu porque Ele quis.

A coisa toda fica mais interessante quando é o próprio Deus quem cria as leis. Moisés escreve uma parte delas em Êxodo e as esmiúça sobremaneira em Levítico e Deuteronômio. Partindo dos 10 mandamentos (que em hebraico são, na verdade, 10 palavras), chega-se rapidamente a um código de leis com muito mais de 100 ítens. Grande parte delas aplica-se aos detalhes do culto religioso, outras muitas aos problemas comuns de uma comunidade agropastoril. Entre os mandamentos, está, por exemplo, “não matareis”. Logo após ver o bezerro de ouro que Arão tinha feito, Moisés entretanto deu ordem par cada um da cerimônia pagã matar o seu irmão ou amigo (Êxodo 32.27). Seu sucessor, Josué, matou todos os povos no caminho: homens, mulheres, crianças e até os animais (Josué 6.21). Nas cidades sitiadas, foram destruídos os pomares, contrariamente ao que Deus tinha estabelecido (Deuteronômio 20.19). A menos que pensemos nos implantadores da Lei como pessoas que não a valorizavam tanto assim (o que talvez seja verdade), a Bíblia tem muitos exemplos das leis sendo quebradas. E quantos Judeus não morreram nas invasões Babilônicas, orquestradas como punição pelos pecados de Judá?

Vejam que hoje ponho diante de vocês vida e prosperidade, ou morte e destruição. Pois hoje lhes ordeno que amem o Senhor, o seu Deus, andem nos seus caminhos e guardem os seus mandamentos, decretos e ordenanças; então vocês terão vida e aumentarão em número, e o Senhor, o seu Deus, os abençoará na terra em que vocês estão entrando para dela tomar posse. Se, todavia, o seu coração se desviar e vocês não forem obedientes, e se deixarem levar, prostrando-se diante de outros deuses para adorá-los, eu hoje lhes declaro que sem dúvida vocês serão destruídos. Vocês não viverão muito tempo na terra em que vão entrar e da qual vão tomar posse, depois de atravessarem o Jordão. (Deuteronômio 30.15-18)

Esse princípio geral do Judaísmo, que norteia os livros sapienciais como caminhos para uma vida tranqüila e abençoada, jamais poderia ser aplicado a Jó, aos profetas assassinados, os zelotes que preferiram a morte em Massada, os pobres a quem Jesus falava ou às vítimas da perseguição romana nos primeiros séculos do Cristianismo. Estes todos sofreram justamente por sua fidelidade a Deus. Por outro lado, desde os tempos de Davi e Salomão os salmistas registravam: “Até quando os ímpios, Senhor, até quando os ímpios exultarão?” (Salmos 94.3). Nos tempos do cativeiro Babilônico, Jeremias também se lamentava:

Por que o caminho dos ímpios prospera? Por que todos os traidores vivem sem problemas? Tu os plantaste, e eles criaram raízes; crescem e dão fruto. Tu estás sempre perto dos seus lábios, mas longe dos seus corações. (Jeremias 12.1,2)

E o sábio autor de Eclesiastes (quem sabe Salomão) também reclamava:

Nesta vida sem sentido eu já vi de tudo: um justo que morreu apesar da sua justiça, e um ímpio que teve vida longa apesar da sua impiedade. (Eclesiastes 7.15)

Assim, embora Moisés apresentasse um Deus legalista, que se manifesta na forma de regras imutáveis abençoando ou condenando (mais condenando que abençoando) as ações humanas, outros autores bíblicos não deixam de mostrar que Deus nunca foi previsível ou manipulável, mesmo pelo mais bem-intencionado dos homens. Em sua força-tarefa para restaurar Jerusalém nos tempos do rei Dario, o Persa, Neemias não se priva de pedir abertamente recompensas por seus feitos na cidade sagrada. Não sabemos se ele alcançou êxito, mas os livros dos Macabeus nos testemunham que Jerusalém voltou a ser sitiada e arrasada. Massada nos testemunha ainda que, apesar de sua fé, os judeus foram esmagados pelos romanos profanadores do Templo. Assim, apesar de toda tentação teológica de prever Deus e substituir seu arbítrio por um sistema legal, o favor divino continua dependendo da incontrolável vontade do Senhor.

Sendo quem era, Jesus também não deixava de atropelar as questões legais para torcer e mudar o que a Lei de Moisés dizia. Pecadores eram perdoados apesar de suas más obras, ímpios eram curados apesar de sua fé diferente, até ladrões eram convidados ao reino celestial. Jesus fugia ao mais hábil escrutínio dos Fariseus, e mesmo do Diabo. Pois se um homem não deixaria de afirmar sua vontade quase aleatória, qual deus não faria isso?

Evidentemente, uma religião assim não poderia sustentar governo algum, da mesma forma que os oráculos do mundo greco-romano antigo não sustentavam seus governos. Num Cristianismo estatal, Jesus PRECISA ser traduzido em leis, Deus precisa estar na forma de regras escritas ou tradicionais. Deus precisa ser previsível para que a vontade dos governantes, essa sim, seja individual. Na Idade Média, o mundo testemunhou a gradiosidade dos seus reis-deuses, havia muito perdida com a destruição de Roma. Com as Repúblicas, mesmo os governantes se traduziram em leis e, assim, um deus que fala a cada momento ficou muito distante, quase inimaginável. Talvez uma figura lendária associada aos profetas de outrora. Talvez uma entidade pouco compreensível mostrada pelos oráculos, digo, profetas das muitas igrejas neopentecostais. Mas haveria um consenso em todas essas revelações, como seria esperado de um ser ciente de tudo?

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EU NÃO LERIA

Biblical Archaeology Society, Masada, The Dead Sea’s Desert Fortress, 2014.
Greenberg G, 101 Myths of the bible, cap. 78, 2000.
Vermes G, Ressurreição: história e mito, cap. 2, 2013.