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quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Andanças dos profetas por esse mundo - o emaranhamento de Moisés, al-Khadir, Elias e Jesus

 

Elias andando sobre o mar e resgatando o príncipe Nur ad-Dahr, em pintura de Mir Sayyid Ali no manuscrito do imperador Mongol Akbar I (1556-1605). Trata-se das estórias chamadas Hamzanama, que narram as façanhas de Ḥamzah ibn Abd al-Muṭṭalib. Esse tio de Muhammad/Maomé juntou um bando de heróis e percorreu o Oriente Médio (em direção à Índia) lutando contra os inimigos do Islã. As histórias sobre ele, de uma tradição oral de longa data, foram escritas em persa. No Ocidente, a obra é mais conhecida pelo enorme manuscrito ilustrado do imperador Akbar, completada em 1562. Na arte islâmica, o fogo sobre a cabeça é um indicativo do Sagrado¹.



Entre a destruição de Jerusalém (70 d.C.) e o final do Império Romano do Ocidente (500 d.C.) houve uma época muito frutífera para a cultura religiosa do Ocidente. Ali no Oriente Médio, os Judeus haviam sido desorganizados da hierarquia dos Saduceus comandando o Templo e recriavam sua estrutura em torno dos Rabis (sábios que falavam nas Sinagogas). Os povos Persas, libertos de Roma Ocidental e vendo a organização de um novo poder Romano no Oriente, se reuniam para em algum tempo formar o que seria o Islã. Os Cristãos, ora atacados, ora apoiados por Roma, viveram a junção da Igreja com o Império Romano e, no Ocidente, viviam finalmente o desmantelamento de tudo isso. Na Europa, os povos Godos, Germânicos, Saxões e Bretões eram os “novos Cristãos”, guardadores da tradição Católica.


Essa época possibilitou criativas misturas entre diversas culturas religiosas. Não foram alterações do cerne literário de cada uma, mas um envolvimento sobretudo das estórias orais, contos e lendas. Embora hoje vistos como um segmento de menor importância dentro da religião, essas tradições precisam ser entendidas como poderosas no sentido em que os textos “canônicos” ou “sagrados” foram, em algum momento, produzidos a partir desse material. O Evangelho de Lucas, por exemplo, começa afirmando ser “segundo nos transmitiram os mesmos que presenciaram desde o princípio, e foram ministros da palavra” (Lucas 1.2), mas foi escrito 60 anos após a morte de Jesus. O Evangelho de Marcos, mais antigo e possivelmente menos influenciado por tradições orais, foi composto pelo menos 20 anos após as falas de Pedro às multidões e, notoriamente, é muito menor do que os demais evangelhos.


Aqui trataremos de algumas dessas tradições orais, e como elas emaranham elementos do Cristianismo, Judaísmo e Islamismo.


As Haggadah são tradições orais dos Judeus registradas desde a destruição de Jerusalém até o séc. 13, em sua maioria no interstício 100-550 d.C. Muitas dessas tradições são interpretações de leis, alegorias, parábolas, ensinamentos, etc. Algumas envolvem personagens lendários como Elias, tema da magnífica pintura no início desse texto.


O PODEROSO ELIAS


Elias viveu no começo do séc. 9 a.C. Ele foi o profeta representando Javé/Jeová contra o rei Acabe e sua nova devoção, o deus dos relâmpagos Baal (1ª Reis 17-18). Elias desafiou os profetas de Baal e acedeu a lenha sob o sacrifício com sua oração a Deus, condenando os profetas e a rainha Jezebel à morte.


As Haggadah contém um extenso material sobre Elias, que inclui o disposto no Velho Testamento e também muitas outras estórias. Temos algo sobre o nobre e herege Hiel (amigo de Acabe, citado em 1ª Reis 16.34), a recusa do boi ao sacrifício para Baal, o silêncio do mundo, o Sol parando no céu, a água saindo das mãos de Elias, a sequência de vento/terremoto/fogo/voz de Deus, a luta com o anjo da morte, a administração das almas dos mortos, a encarnação do anjo Elias, o Templo invisível, a aparição (disfarçada) de Elias ao rei Assuero/Xerxes I (486-465 a.C), Elias como anjo da guarda dos justos e piedosos, Elias como um espírito soltando palavras no ouvido do imperador romano em benefício do Rabi/profeta Naum (615 a.C.) e outros. Às vezes, Elias aparecia como um árabe ou uma prostituta aconselhando.


Elias assume o papel de vários "ajudadores" nas estórias dos antigos Rabis, testemunhando em favor de um, avisando outro, encenando disfarces para proteger pessoas das autoridades romanas. Mas as narrativas sobre Elias não se restringem a estórias de sabedoria. Elias era um conhecedor de "magias" judaicas como usar orvalho para ressuscitar os mortos e cuspir nos olhos para curar doenças (qualquer semelhança com Jesus não é mera coincidência). Além disso, numa de suas viagens pela Terra, ele se atentou para o que as galinhas e gansos diziam sobre as pessoas da casa onde moravam. Em outra, transformou-se num urso para impedir que três homens de grande fé, orando juntos, devolvessem os mortos à vida.


Algumas são estórias humorísticas até, como os dois casais abençoados. Um casal pobre foi abençoado com seu dinheiro se multiplicando até que quisessem parar de contar, outro casal rico decidiu fazer as necessidades e elas se multiplicaram por toda sua vida..


Numa estória, esse anjo-Elias (chamado Sandalphon, antes da criação dos homens) se oferece para ser vendido como escravo para ajudar um homem pobre. Seu comprador, um príncipe, vê ele erguer em uma só noite um palácio. Noutra estória, ele apareceu ao futuro Rabi Akiva (50-135 d.C.), então alguém muito pobre e dormindo sobre paus, para mostrar-lhe uma pobreza ainda maior, que o animaria a respeito de sua condição.


Quando Jesus perguntou, perto de Betsaida, "Quem dizem que sou?" (Marcos 8.27) e alguns responderam "Elias", provavelmente temos um indício dessas tradições judaicas sobre Elias andando disfarçado pelas estradas, aparecendo para ajudar os homens. Esse mesmo ajudante, no entanto, poderia cobrar de alguém uma atitude de fé ou até matar sem aviso um que encontrasse fazendo suas devoções de forma imprópria.


Um papel interessante que é atribuído a Elias é o de carregador da Sabedoria. Através das estórias com Elias como protagonista, o Talmude judeu cria uma narrativa onde os ensinos de um Rabi são aplicados à vida do outro, em locais distantes e séculos depois, ou antes. Como o leitor que tem todos esses ensinamentos durante de si, capaz de aplicar as falas de Jesus ao profeta Daniel na Babilônia, Elias certamente era um personagem importante das Sinagogas e dava vida a narrativas colcha-de-retalhos misturando as vidas de todos os sábios venerados pelos Judeus: José, Nehorai, Judah, bar Abbahu, Abiathar, Eliezer ben Hyrcanus, Nathan, Judah ha-Nasi, Meir, bar Shila, Joshua ben Levi, Johanan ben Zakkai.


Uma estória sobre Elias, no entanto, é mais notória que as demais. Não por seu conteúdo, mas pela semelhança com uma estória sobre outros personagens contida no Alcorão.


A VERSÃO DOS JUDEUS


"Certa vez, ele [Elias] concedeu a seu amigo, o Rabi Joshua ben Levi, a realização de qualquer desejo que escolhesse. Mas tudo o que o Rabi pediu foi acompanhar Elias em suas andanças pelo mundo. Elias estava preparado para satisfazer esse desejo. Ele apenas impôs a condição de que, por mais estranhas que suas ações parecessem, o Rabi não deveria pedir nenhuma explicação sobre elas. Se alguma vez ele perguntasse por quê, eles teriam que se separar.


Então Elias e o Rabi saíram juntos e seguiram viagem até chegarem à casa de um homem pobre, cuja única possessão terrena era uma vaca. O homem e sua esposa eram pessoas de bom coração e receberam os dois andarilhos cordialmente. Eles convidaram os estranhos para sua casa, colocaram diante deles comida e bebida do melhor que tinham, e prepararam um sofá confortável para passarem a noite.


Quando Elias e o Rabi estavam prontos para continuar sua jornada no dia seguinte, Elias orou para que a vaca pertencente a seu anfitrião morresse. Antes de saírem de casa, o animal havia morrido. O Rabi Joshua ficou tão chocado com a desgraça daquelas pessoas boas que quase perdeu a consciência. Ele pensou: "Essa é a recompensa do homem pobre por todos os seus serviços gentis para nós?" E ele não pôde deixar de fazer a pergunta a Elias. Mas Elias o lembrou da condição imposta e aceita no início de sua jornada, e eles seguiram viagem, sem sanar a curiosidade do Rabi.


Naquela noite chegaram à casa de um homem rico, que não prestou ao hóspede a cortesia de olhá-los de frente. Embora passassem a noite sob seu teto, ele não lhes ofereceu comida ou bebida. Este homem rico desejava que fosse consertado um muro que havia desabado. Não houve necessidade de tomar nenhuma providência para reconstruí-lo, pois, quando Elias saiu de casa, orou para que a parede se erguesse sozinha e, eis! Ficou em pé. O Rabi Joshua ficou muito surpreso, mas fiel à sua promessa, ele suprimiu a pergunta que lhe veio aos lábios.


Assim, os dois viajaram novamente, até chegarem a uma sinagoga ornamentada, cujos assentos eram feitos de prata e ouro. Mas os fiéis não correspondiam em caráter à magnificência do edifício, pois quando chegou o ponto de satisfazer as necessidades dos peregrinos cansados, um dos presentes disse: "Não há falta de água e pão, e os viajantes estranhos podem ficar na sinagoga, onde esses refrescos podem ser trazidos para eles." Cedo na manhã seguinte, quando eles estavam partindo, Elias desejou, para os presentes na sinagoga em que haviam se hospedado, que Deus os levantasse a todos para serem "cabeças" [ou líderes]. O Rabi Joshua novamente teve que exercer grande autocontrole e não colocar em palavras a pergunta que o perturbava profundamente.


Na cidade seguinte, eles foram recebidos com grande afabilidade e serviços abundantes. A esses anfitriões bondosos, Elias, ao partir, concedeu o desejo de que Deus pudesse lhes dar apenas um líder. Agora o Rabi não conseguia mais se conter e exigia uma explicação para as ações bizarras de Elias.


Elias consentiu em esclarecer sua conduta para o Rabi Joshua antes que se separassem. Ele falou o seguinte: “A vaca do pobre foi morta, porque eu sabia que no mesmo dia a morte de sua esposa havia sido ordenada no Céu, e eu orei a Deus para aceitar a vaca em substituição à sua esposa. Quanto ao rico, havia um tesouro escondido sob a parede dilapidada e, se a tivesse reconstruído, teria encontrado o ouro; portanto, ergui a parede milagrosamente para privar o mesquinho da valiosa descoberta. Desejei que o povo inóspito reunido na sinagoga pudesse ter muitos chefes, pois um lugar de vários líderes está fadado a se arruinar pela multiplicidade de conselhos e disputas. Aos habitantes de nossa última estada, por outro lado, desejei uma 'liderança única'. Para quem guiar uma cidade, o sucesso acompanhará todos os seus empreendimentos. Saiba, então, que se você vê um malfeitor prosperar, nem sempre é em seu proveito, e se um homem justo sofre necessidade e angústia, não pense que Deus é injusto". Após essas palavras, Elias e Rabi Joshua se separaram um do outro, e cada um seguiu seu próprio caminho". (Legends of the Jews, 1909)


Na tradição Cristã, Moisés foi o invocador das 10 pragas do Egito, líder da travessia dos Hebreus pelo Mar Vermelho e carregador das tábuas de pedra com os 10 Mandamentos. Mas os Muçulmanos também têm a sua tradição oral, na forma de Hadiths registradas ao longo dos séculos como comentários do Alcorão. Segundo os preceitos do Sufismo, essas tradições devem vir precedidas da enunciação de todos os sábios pelos quais elas passaram, bem no estilo "José falou que Maria falou que Daniel falou que ... que o profeta Muhammad falou". Um similar da estória acima, em especial, aparece parcialmente no Alcorão dentro da Sura 18 (A Caverna), ayas 60-82. Ela introduz um sábio sem nome que ficou conhecido como "O Verde", e que a tradição oral não apenas nomeou mas complementou as estórias de forma bastante coerente.


A VERSÃO ISLÂMICA


“O Profeta (que a paz esteja com ele) disse: "Uma vez o Profeta Moisés se levantou e dirigiu-se a Banu Israel [banu = clã]. Foi perguntado a ele: "Quem é o homem mais culto entre as pessoas?" Ele disse: "Eu sou o mais culto."


Allah admoestou Moisés, pois ele não atribuiu conhecimento absoluto a Ele (Allah). Então Allah o inspirou: "Na junção dos dois mares, há um escravo meu que é mais erudito do que você". Moisés disse: "Óh meu Senhor! Como posso conhecê-lo?" Allah Todo-Poderoso disse: "Pegue um peixe em uma cesta grande e prossiga. Você o encontrará no local onde perderá o peixe".


Então Moisés partiu com seu servo, Yusha bin Nun [Josué filho de Nun] e carregou um peixe em uma grande cesta até chegarem a uma rocha, onde deitaram-se e dormiram. O peixe saiu da cesta e foi para o mar como através de um túnel². Portanto, foi uma coisa incrível tanto para Moisés quanto para seu servo.


Eles prosseguiram pelo resto da noite e o dia seguinte. Quando o dia amanheceu, Moisés disse ao seu menino: "Traga-nos nossa refeição antecipadamente. Sem dúvida, sofremos muito cansaço nesta viagem". Moisés não se cansou até que passou pelo lugar em que estava ordenado a ir. Lá o menino disse a Moisés: "Você se lembra de quando nós nos deitamos na pedra? Eu esqueci o peixe". Moses comentou: "Isso é o que temos procurado!” Então eles voltaram refazendo seus passos, até chegarem à rocha. Lá eles viram um homem coberto com um capa. Moisés o cumprimentou.


Al-Khadir respondeu dizendo: "Como as pessoas se cumprimentam em sua terra?" Moisés disse: "Eu sou Moisés." Ele perguntou: "O Moisés de Banu Israel?" Moisés respondeu afirmativamente e acrescentou: "Posso segui-lo para que me ensine esse conhecimento que você recebeu?". Al-Khadir respondeu: "Verdadeiramente! Mas você não será capaz de permanecer paciente comigo, ó Moisés! Eu tenho um pouco do conhecimento de Allah, que Ele me ensinou e você não sabe, embora você tenha algum conhecimento que Allah lhe ensinou que eu não sei". Moisés disse: "Se Deus quiser, você me achará paciente e não te desobedecerei em nada". Então, os dois partiram caminhando à beira-mar, pois não tinham barco.


Um barco passou por eles e pediram à tripulação para irem à margem. A tripulação reconheceu Al-Khadir e os levou a bordo sem tarifas. Então um pardal veio e ficou na borda do barco e mergulhou seu bico uma ou duas vezes no mar. Al-Khadir disse: "Óh Moisés! Meu conhecimento e seu conhecimento não diminuíram o conhecimento de Allah, nem o tanto quanto este pardal diminuiu a água do mar com seu bico".


Al-Khadir foi para uma das tábuas do barco e arrancou-a. Moisés disse: "Essas pessoas nos deram uma condução grátis, mas você quebrou o barco deles e o afunda para afogar as pessoas!" Al-Khadir respondeu: "Eu não disse que você não seria capaz de permanecer paciente comigo?" Moisés disse: "Você me lembrou o que eu esqueci". A primeira desculpa de Moisés foi que ele havia esquecido.


Então eles continuaram e encontraram um menino brincando com outros meninos. Al-Khadir segurou a cabeça do menino pelo alto e arrancou-a com as mãos (ou seja, matou-o). Moisés disse: "Você matou uma alma inocente que não matou ninguém!" AI-Khadir respondeu: "Eu não te disse que você não poderia permanecer paciente comigo?"


Então ambos prosseguiram até as pessoas de uma cidade e pediram comida, mas eles recusaram-se. Então eles encontraram lá uma parede no ponto de colapsar, cair sobre si mesma. Al-Khadir a consertou com suas próprias mãos. Moisés disse: "Se você desejasse, certamente você poderia ter sido pago por isso". Al-Khadir respondeu: "Este é o momento de nos separarmos".


O Profeta (Muhammad (que a paz esteja com ele) acrescentou: "Que Allah seja misericordioso para com Moisés! Oxalá ele pudesse ter sido mais paciente para aprender mais com Al-Khadir.


"Quanto ao navio, pertencia aos Masakin (gente pobre) que trabalhavam no mar. Então, eu danifiquei a embarcação porque havia um rei atrás deles, que apreende todos os navios à força. Quanto ao menino, seus pais eram crentes, e sabíamos [Alláh e al-Khadir] que ele os oprimiria com rebelião e descrença. Então pedi que meu Senhor mandasse para eles um outro filho, melhor em justiça e mais próximo da misericórdia. Quanto à parede, sob ela estava enterrado um tesouro pertencente a dois meninos órfãos na cidade, {como disse Suhaili} filhos de Asram e Sarim de Kashih. Seu pai era um homem justo, e seu Senhor pretendia que eles atingissem a idade de plena força e retirassem o tesouro como uma misericórdia de seu Senhor". Disse al-Khadir: "E eu não fiz o que fiz por minha própria vontade. Essa é a interpretação dessas coisas sobre as quais você não conseguiu aguardar". (Moses and AI-Khadir, Al Khaf 60-82, Stories of the Quran, reunidas por Ibn Katheer)


COMPARANDO AS ESTÓRIAS


Numa estória, o sábio itinerante é Elias, seguido pelo Rabi Joshua ben Levi. Na outra, é al-Khadir (o Verde, ou o Negro, segundo uma interpretação sobre palavras para identificar os Africanos), seguido por Moisés. O contexto de encontrar o sábio e segui-lo até questionar suas ações, recebendo depois uma explicação e um adeus, são idênticos.


Elias pede a morte de uma vaca para salvar uma mulher, depois arruma uma parede para ocultar o tesouro de um homem rico e mesquinho, depois ajuda pessoas segundo sua recepção nos povoados. Al-Khadir por outro lado afunda um barco para salvar seus tripulantes, mata um garoto por seus pecados futuros e conserta uma parede para esconder o tesouro pertencente a dois irmãos pobres. Os episódios mais ou menos se pareiam: as paredes com tesouro embaixo, a vaca/o garoto. Cronológica e geograficamente, também há grandes chances de um texto ser parente do outro, pois ambos correspondem à região entre o Jordão e a Babilônia, habitada tanto por Judeus quanto Ismaelitas no final do Império Romano.


Grande parte da lenda sobre al-Khadir ficou registrada no Alcorão, enquanto a lenda sobre Elias ficou somente na tradição oral (Talmude) dos Judeus. Os textos Judaicos foram organizados principalmente até nos sécs. 1-6, enquanto os Islâmicos são dos sécs. 7-9. 


A versão de Elias que nos chegou pela Bíblia só diz respeito a sua atuação enquanto "vivo", nos tempos do rei Acabe (sécs. 10-9 a.C.). Mesmo assim, Elias secou a chuva e até o orvalho sobre Israel, multiplicou os alimentos de uma viúva pobre em Sarepta, cidade vizinha do grande porto Fenício em Sidom, no Líbano, e ainda ressuscitou o filho dessa mesma mulher. Novamente, uma semelhança forte com as estórias que os Evangelhos guardaram sobre Jesus.. Na tradição Muçulmana, não há lendas sobre Elias, apenas um relato conciso do seu enfrentamento ao rei Acabe, no próprio Alcorão.


123 E também Elias foi um dos mensageiros. Vê que ele disse ao seu povo: ‘Não temeis a Deus? Invocais Baal e abandonais o melhor dos criadores, Deus, vosso Senhor e Senhor dos vossos antepassados?’ E o desmentiram. Porém, sem dúvida que comparecerão (para o castigo), salvo os servos sinceros de Deus. E o fizemos passar para a posteridade. Que a paz esteja com Elias! Em verdade, assim recompensamos os benfeitores. E ele foi um dos Nosso servos fiéis. (Alcorão, Sura 37 - Os enfileirados)


A versão de Moisés que nos chegou conta algo sobre suas andanças com Josué filho de Num (Números 11), mas esse último já adulto e no contexto da peregrinação final no deserto até Canaã. Nada de grandes aventuras em busca de sabedoria e as maravilhas do Senhor (existem algumas delas na narrativa do deserto).


Ambas as estruturas se encaixam em um modelo de literatura asceta que ficou muito popular no final da Era Romana. Asceta porque estimulava as pessoas a buscarem a oração em lugares isolados, como são os mosteiros e conventos Cristãos (apesar disso, a comunidade asceta mais antiga pode ter sido Qumram, nas margens do Mar Morto, no séc. 1 a.C.). Nos contos ascetas, geralmente, alguém que vivia dessa forma pura ou simples era informado de um outro ainda mais sábio que ele. Então o sábio asceta partia - geralmente através de um deserto - para encontrar o sábio maior, tanto a jornada quanto o encontro sendo recheados de ensinamentos. No caso, os sábios maiores são representados por Elias e al-Khadir.


É curiosa a substituição de Elias e Moisés. Elias é um personagem de muitas estórias Judaicas, mas não Moisés. Mesmo na tradição oral Muçulmana, Moisés só aparece em 4 estórias: os profetas, o Novilho (Sura 2), al-Khadir e Korah/Coré. Ele não aparece e desaparece como Elias, mas faz essa viagem por sabedoria (na tradição Muçulmana) até o encontro dos dois mares (possivelmente Suez ou Aqaba) procurando por al-Khadir. Alguns estudioso supõem que a troca seja resultado da confusão entre o Rabi Joshua ben Levi e o tradicional companheiro de Moisés, Joshua ben Num. Assim, J. ben Levi e Elias se tornariam J. ben Num, Moisés e al-Khadir. De fato, a narrativa Muçulmana começa com 3 personagens e termina com dois.


É também interessante como, apesar da narrativa sagrada mais rígida historicamente, os Judeus mantiveram estórias lendárias costurando outras narrativas sobre os profetas. O Alcorão não segue essa rigidez histórica, sendo mais precisamente uma mistura de estórias sobre o poder de Alláh, repletas de chamamentos "Lembra-te quando.." que remetem a outras estórias, também Judaicas e Cristãs.


CONCLUSÃO


Enfim, a conexão das duas estórias nos faz uma forte sugestão de origem comum. A narrativa sagrada, mais rígida, então parece descender de um conjunto de estórias mais volúveis e fluidas, de sábios lendários como Elias e Moisés.


Na prática, por outro lado, isso lança uma especulação talvez assustadora sobre a confecção dos textos religiosos: a de que tenham sido colhidos dentro de uma gama de estórias, para produzir uma narrativa coerente de geografia, tempo e contexto. Por exemplo, muitas estórias sobre Moisés, como tirar o veneno das águas (Êxodo 15.22), encontrar um veio de água (Êxodo 17.2, Números 20.2), a serpente de bronze (Números 21.4), a queda das andorinhas (Números 11), as flores nascendo no cajado (Números 17) têm semelhanças a Elias/al-Khadir. Isso para não falar de estórias sobre Jesus, em episódios como a produção de vinho em Caná da Galiléia (João 2), as migalhas que caem da mesa e são pegas pelos cãezinhos (Mateus 15), secar a figueira (Marcos 11, Mateus 21) ou narrativas pós-ressurreição (Lucas 24). Lembremos, os textos apócrifos (não incluídos no Cânon) sobre Jesus também são numerosos..


Como ferramentas de ensino moral, tais contos sempre foram valiosos. A própria estratégia de ensino/pregação de Jesus, com suas parábolas, deixa isso evidente. E talvez mesmo a realidade das religiões como ajustadores de regras morais se tornasse muito menos atraente sem essa característica de ensino das grandes figuras lendárias. Em sua famosa obra "As Crônicas de Nárnia", Clive Staples Lewis explorou lindamente essa ponte entre o Cristianismo e as tradições.


Tanto Judeus, quanto Cristãos e Muçulmanos trazem de alguma forma essas estórias, preservadas como um conhecimento secundário, mas onde pode-se perceber o quanto as tradições chegam perto umas das outras³.



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¹O texto original da Hamzanama de Akbar I está em grande parte perdido. Tratava-se de um volume artístico, grande o suficiente para ser segurado por um contador de estórias enquanto mostrava as páginas ilustradas para sua platéia e lia o texto no verso. Do que restou dessa obra, temos parte da estória sobre Elias e o príncipe: Nur ad-Dahr, que em outro lugar se chama Asthe filho do Príncipe Badi'uzzaman, costumava sentar-se na base de uma árvore onde os homens se reuniam diariamente para contemplar sua beleza. Entre esses admiradores estava uma garota infiel (não-muçulmana), filha de um certo Kayvan Buland-Rif’at. Um dia, um demônio (mais tarde identificado como Andarut) conta-lhe que na noite anterior ele havia sequestrado Nur ad-Dahr e jogado ele no mar. A menina, por sua vez, transmite esta notícia perturbadora para o inteligente Umar (uma espécie de herói persa), que está preocupado tanto com a segurança de Nur ad-Dahr quanto com a recalcitrância que isso causaria em Pahlavan Karb. Este príncipe declarara que, até que Nur ad-Dahr fosse localizado, ele renegaria sua promessa de enviar um emissário para Hamza (o herói dos contos Hamzanama). Pela primeira vez, no entanto, o engenhoso Umar não é chamado para resolver esta situação. Em vez disso, o texto narra de maneira prática que "Quando o demônio jogou o príncipe Nur ad-Dahr no mar, o profeta Santo Elias o tirou da água. Nur ad-Dahr descansava ferido em uma ilha."


²Desde a Antiguidade acredita-se numa passagem subterrânea entre os mares Vermelho e Mediterrâneo, que de fato chegam a pouco mais de 100 Km um do outro, numa região repleta de grandes lagos, chamados pelos Judeus de "lagos amargos".

³Uma Haggadah faz curiosa ponte com o Cristianismo. Lembrando, o Messias judeu é um ser escatológico, cujo aparecimento indicaria o Fim do Mundo.


"Este rabi [Joshua ben Levi] era um dos favoritos de Elias, que até lhe conseguiu uma entrevista com o Messias. O Rabi encontrou o Messias entre a multidão de pobres aflitos reunidos perto dos portões da cidade de Roma, e ele o saudou com as palavras: "A paz esteja contigo, meu mestre e guia!" Ao que o Messias respondeu: "A paz seja contigo, filho de Levi!"


O Rabi então perguntou-lhe quando Ele apareceria, e o Messias disse: "Hoje." Elias explicou ao Rabi mais tarde que o que o Messias queria dizer com "hoje" era que Ele, de sua parte, estava pronto para trazer a redenção de Israel a qualquer momento. Bastava estarem prontos". (Louis Ginzberg, Legends of the Jews)


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OBRAS NAS REBARBAS DO CREDO


Aggadah - wikipedia

ALGOOD, Marcus “Ishma’il”. Moses & the African Al-Khadir (The Green One), 9/13/2016.

Elias and Prince Nur ad-Dahr, British Museum of Art.

GINZBERG, Louis. Legends of the Jews,New York, 1909, v. 4, cap. 7.

GRAHAN, Ron. Miracles in the wilderness, 2012.

Hamzanama - wikipedia

IBN KATHEER, Stories of the Quran, reunidas por Imad ad-Deen Isma'il ibn Umar ibn Katheer al-Basri ad-Dimashq, 1300-1374.

The adventures of Hamza: painting and storytelling in Mughal India, Sackler Gallery, Smithsonian Institute, Washington, DC, 2002. Archive.org

WHEELER, Brannon M. The Jewish Origins of Qurʾān 18: 65-82? Reexamining Arent Jan Wensinck's Theory. Journal of the American Oriental Society, p. 153-171, 1998.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

A Unção - estudo bíblico

Cena da Unção, pintada pelo famoso ilustrador Jacques-Joseph Tissot, 1836-1902

Nos Evangelhos, curiosamente são poucas as passagens contadas pelos 4 narradores Mateus, Marcos, Lucas e João. Embora suas estórias se cruzem e amarrem em muitos pontos, são raros os eventos da vida de Jesus com 4 testemunhos. Um desses eventos é a Unção, que aparece em Mateus 26, Marcos 14, Lucas 7 e João 12.

As diferenças nas narrações, e isso é o que nos interessa aqui, dizem um pouco sobre a composição do Novo Testamento.

COISAS QUE NÃO CONTAM SOBRE OS EVANGELHOS

Primeiro, não há certeza absoluta sobre a autoria de nenhum dos Evangelhos. Os títulos com os quais são designados nunca estiveram anotados neles e são fornecidos por antigas tradições religiosas. O de autoria mais "científica" é João: em seu texto, o evangelista diz ser o discípulo amado de Jesus, ao mesmo tempo em que deliberadamente esconde seu nome. Nos outros textos, a identidade dessa pessoa é sugerida pela proximidade entre Jesus e João.

Segundo, embora tratem-se de crônicas sobre a vida de Jesus desde seu nascimento até sua morte, ressurreição e ascenção aos céus, nenhum dos textos foi produzido junto com os acontecimentos que narram. Saber escrever era algo raro na época, um serviço geralmente pago, algo pouco acessível entre os pescadores pobres do lago/mar da Galiléia com os quais Jesus (um consertador-de-casas, carpinteiro ou pedreiro) andava. Temos indícios da época dos Evangelhos a partir de sua citação em outros textos, assim como eventos documentados dos quais eles falam. Felizmente, os Romanos eram cuidadosos em registrar acontecimentos, muito mais do que os Judeus.

O evangelho que foi escrito primeiro foi o de Marcos, provavelmente a pessoa denominada João Marcos que Pedro levou até o grupo de Paulo por volta do ano 40-45 d.C. Caso esse homem tenha visto Jesus (6 ou 3 a.C. a 30 d.C.), ele era uma criança ou adolescente na época. O mais demorado deles foi o de Mateus, do qual existem diversas "versões" anteriores a final, mostrando que foi editado pelas pessoas que guardavam o texto. Sua forma definitiva apareceu no início do séc. 2 d.C., aproveitando grande parte do texto de Marcos. Dessa forma, as cartas de Paulo (Romanos, Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, Tessalonicenses, Timóteo, Tito e Filemon) são obras anteriores aos Evangelhos, pois Paulo era um Grego-Romano-Judeu bem educado e escrevia aos seus seguidores.

Geralmente os 4 Evangelhos seguem 2 "tradições". Isto é, para cada cena da vida de Jesus, normalmente 2 ou 3 deles são semelhantes quanto ao que escrevem, enquanto 1 ou 2 não apresentam a cena ou a trazem bastante modificada. Os historiadores chamam isso de 2 narrativas, ou 2 tradições orais, pensando que foram estórias recontadas muitas vezes antes de serem escritas. Quais dos Evangelhos usam a narrativa A ou a narrativa B varia de cena para cena. Geralmente é João que apresenta a ausência da cena, o único testemunho ou a versão diferente. Para a Unção, entretanto, o diferente é Lucas.

Terceiro, os supostos autores não são geralmente apontados, pelos próprios textos, como participantes da narrativa. Mateus/Levi pode ser o publicano nomeado por Jesus e João pode ser João bar Zebedeu, irmão de Tiago [o grande] e um dos primeiros discípulos. Ele pode ser o profeta João que produziu o livro de Apocalipse. Marcos, porém, era integrante do grupo de Paulo e Lucas é apontado como médico do mesmo grupo, pessoa estudada, que teria também redigido o livro de Atos dos Apóstolos. O livro de Lucas, de fato, inicia-se com o autor contando que fez uma laboriosa pesquisa sobre os fatos que relata.

Quarto e último, tratam-se de textos muito antigos, com seus quase 2000 anos. Eles nos chegaram a partir de originais em hebraico antigo (língua difícil de traduzir, que não fazia uso de vogais, nem separação de palavras no texto, nem de pontuações) e grego, escritos por pessoas que assistiram a destruição da civilização 2 vezes (Jerusalém em 70 d.C. e Roma - a cidade - em 480 d.C.), com traduções em grego e latim que foram meticulosamente copiadas a mão durante muitos séculos antes de serem reunidas num livro, e por tantos outros depois. Com esse histórico, acredito que variações são bem aceitáveis.

A UNÇÃO

Trata-se de Jesus sendo perfumado com um óleo aromático, derramado por uma mulher. Esse texto geralmente é empregado em pregações sobre o reconhecimento da divindade de Jesus, a existência de ricos e pobres, o entendimento de falas do Rabi sobre sua morte que eram nebulosas para os discípulos, e também o pedido de perdão dos pecados. Erroneamente, também é empregado em falas sobre a prostituição feminina e sobre Maria Madalena - não há evidências de prostituição, nem tampouco a citação dessa personagem.

Os 4 relatos são suficientemente parecidos para que fique claro tratar-se do mesmo evento. No entanto, alguns teólogos falam em dois eventos distintos, duas unções diferentes. Assim como outras repetições dos Evangelhos e do Velho Testamento, é minha impressão (e de outros) que a repetição detalhada de narrativas como a ida de Moisés a caverna onde falou com Deus, a multiplicação dos pães por Jesus e a pesca milagrosa podem muito bem ser fruto da reunião de trechos para montar um texto maior, como os "copia e cola" tão comuns nos editores de texto atuais. A mesma narrativa pode ter sido inserida mais de uma vez no texto final. Interpretando literalmente o que fica escrito, acabamos com a impressão de uma cena que se repete nos menores detalhes.

MATEUS e MARCOS

Nessas duas versões, com poucas diferenças, Jesus é recebido na cidade de Betânia, na casa de Simão o leproso. Uma mulher (sem nome) quebra a tampa de um frasco de alabastro, derramando na cabeça de Jesus a essência aromática de nardo. Um dos convivas critica seu desperdício, pois aquele perfume deveria valer o salário de todo um ano (300 denários), dinheiro que poderia ser dado aos pobres. Jesus replica que eles sempre terão os pobres consigo, mas a mulher fazia preparativos para seu funeral, e onde fosse o evangelho, também chegaria a memória do seu ato.

A cena ganha importância porque, logo após, Judas Iscariotes vai até os sacerdotes combinar a traição de Jesus. 

JOÃO

Aqui alguns detalhes são acrescentados. Informa-se a data de 6 dias antes da Páscoa. O local é Betânia, mas a casa pertence aos irmãos Lázaro (aquele que foi ressuscitado), Marta¹ e Maria. Marta servia a mesa e Maria untou os pés de Jesus com nardo puro, limpando com os próprios cabelos. É Judas (chamado de ladrão) quem questiona porque não vender a preciosa essência.

LUCAS

Na versão desse cronista de Paulo, possivelmente um Romano, falta o nome da cidade. A casa é de Simão, um dos Fariseus. Uma mulher pecadora quebra o frasco e derrama seu perfume nos pés de Jesus junto com lágrimas, limpando com os cabelos. Um dos convivas questiona o contato de Jesus com essa mulher, ao que o Rabi conta sua parábola dos dois devedores, reclamando também dos maus modos de Simão para com seu convidado e perdoando os pecados da mulher, o que assombra a todos.

PENSANDO ESSA ESTÓRIA

A versão de Lucas parece mais uma junção de pedaços de outras estórias, como a parábola e os Fariseus questionando Jesus.

Mas há uma boa distância entre Simão, um Fariseu ex-leproso e Lázaro, amigo de Jesus. É possível que ambos fossem pessoas muito ricas na cena, que sempre cita convivas. Um perfume de 300 denários (algo como 20 a 40 mil reais, hoje), em frasco de alabastro (cristal de rocha polido), certamente era algo que poucas pessoas poderiam ter em casa.

A tradição dos Judeus ricos, herdada dos Gregos, era derramar óleo ou perfume sobre os cabelos de um viajante recém chegado, não os pés. Nos pés, após lavados, usava-se mirra. Esses bons modos, de cuja falta Jesus se queixa explicitamente na versão de Lucas, os Evangelhos de Mateus e Marcos contam como sendo realizados. Mas João e Lucas trazem uma unção dos pés, junto com lágrimas, um sinal de devoção. Dada a preciosidade do líquido, da qual todos falam, é pouco provável que fosse usado para fins comuns, então uma devoção a Jesus poderia sim justificar seu uso. Essa devoção escapa a Mateus e Marcos, que fazem a cena mais corriqueira.

Também, a versão de João fez supor um ambiente doméstico, ao contrário das demais. Ali estão Jesus, Judas, Lázaro e sua família, possivelmente João e outros do grupo do Nazareno. As demais versões não têm esse caráter familiar; não trazem nomes da maioria dos personagens, exceto de Simão, o Fariseu ou o leproso.

É curioso o valor que João dá a Lázaro, o ressuscitado. Esse milagre tão notório de reviver alguém é citado apenas por João, dentre os evangelistas. Mateus e Marcos nada dizem sobre Lázaro. Lucas fala de um outro personagem, numa parábola de Jesus, onde Lázaro é um mendigo (com feridas!). Mas João não apenas coloca a Unção em sua casa, como também o apresenta sendo um outro alvo do Sinédrio. Afinal, qual testemunho a favor de Jesus seria mais poderoso que o daquele homem ressuscitado por ele?

A atitude de adoração de Maria é condizente com o fato de ter ela sido quem viu, em primeira mão, Jesus chamar seu irmão de dentro de uma cova.

RELAÇÕES FAMILIARES

Mateus, Marcos e João trazem Jesus anunciando seu funeral, na Unção. Em especial, a mulher que Lhe derramou perfume é apontada em quase todas as versões como reservando aquele bálsamo para este funeral.

Quando amanheceu a Páscoa após a Crucificação, Mateus descreve o túmulo de Jesus sendo visitado por duas Marias: a Madalena e uma outra, não especificada. Marcos diz que eram 3 mulheres buscando o corpo de Jesus para o perfumarem: Madalena, a mãe de Tiago (bar Alfeu ou bar Zebedeu?) e Salomé. Lucas substitui Salomé por Joana (talvez para indicar a mãe de João). João deixa apenas Madalena e retira a(s) outra(s). Se tomarmos os 3 relatos mais próximos como base, no Sepulcro estavam Madalena e talvez uma Maria que era mãe de João e Tiago bar Zebedeu.

Trata-se apenas de uma conjectura, dentre as muitas possíveis nas 4 versões dos Evangelhos. A teoria se faz pensando na fala de Jesus sobre Maria, irmã de Lázaro, estar guardando aquela essência para Seu funeral. Essa Maria pode ser a mãe de João, por tabela sobrinho de Lázaro. Isso explicaria a intimidade Jesus-João-Lázaro e a importância única que esse evangelista deu a Lázaro, aquele que Jesus ressuscitou. E explicaria também o seu particular detalhamento da cena².

Dentre os evangelistas, aquele com maior probabilidade de ter acompanhado Jesus é João, que também foi o único na cena da Crucificação. Mateus, a outra possibilidade, como disse antes, traz um texto bastante editado, com variantes de diversas partes da Turquia e Síria. Isso nos revela João como talvez o único dos evangelistas a conhecer outros amigos de Jesus, como Lázaro e sua família. Ele também é o único a colocar Judas Iscariotes na cena da Unção.

Os Evangelhos nos sugerem que Jesus gostava de reuniões intimistas, como essa contada por João, mas também apreciava exposições públicas, onde fosse questionado pelas pessoas. Nas vezes em que anunciou claramente sua morte, contudo, Jesus estava sempre entre o grupo mais íntimo.

FINAL

Os Evangelhos são tudo o que temos sobre a vida e pregação de Jesus. O fato de terem sido compostos tardiamente, dentro de uma Igreja já funcionando, tira grande parte de seu caráter histórico. Isto é, os Evangelhos não são narrativas isentas de propósito, como os textos da biblioteca de Assuero, na Babilônia, ou as tabuletas de Amarna, no Egito. São obras de-e-para uma comunidade de devotos. Nas palavras de Leonardo Boff, não há como separar Jesus e o Cristo...

Assim, as variações de relatos dessa pequena estória já nos contam de pelo menos 3 comunidades trocando informações entre si, confabulando sobre Jesus a partir do testemunho de um patriarca que pode ser Mateus, Marcos, Lucas, João ou mesmo Pedro e Paulo.

É de minha opinião pessoal que o relato de João é, dentre todos, o mais rico, com nomes e a aparência das reuniões que Jesus frequentava. O discípulo amado, se for o principal autor do que seu livro traz, pode ter servido de fonte para os demais evangelistas e nos dar a intimidade necessária para apreciar as pessoas e locais como elas eram para o Mestre.

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¹ O nome Marta é malevolamente usado no seriado "The Handmaids Tale", de Bruce Miller e baseada talvez no romance "1984", de George Orwell. No seriado, "Marta" indica a casta das serviçais de uma comunidade religiosa e totalitária futurista.

² Uma tradição mais usada pela Igreja Católica coloca Maria Madalena como sendo a portadora da essência de nardo. Não há evidências de Madalena na cena da Unção, mas de fato ela é o único personagem comum em todos os relatos sobre a Ressurreição e combina com a "mulher pecadora", da qual Jesus havia expulsado 7 demônios. Um desses demônios, dos quais se falava na época de Jesus, era a lepra. Madalena também era alguém que fornecia bens materiais ao ministério de Jesus, indicando que tinha certa riqueza, além de ser amiga de uma Salomé, que aparece num dos relatos da Crucificação e da Ressurreição. Por isso, Madalena é muitas vezes entendida como sendo a Maria irmã de Lázaro. Como pontos contrários a essa especulação, temos a falta de ligação entre Lázaro e a cidade de Magdala, além da menção de Madalena por todos os evangelistas e de Lázaro apenas por João.

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OS APÓSTOLOS LARGARAM ISSO NA SALA

Anointing of Jesus - wikipedia
Chaignot MJ, The women who anointed Jesus, biblewise.com
Dods M, The anointing of Jesus, biblehub.com
Gospel of Matthew - wikipedia
John the Evangelist - wikipedia
Lutton C, The unnamed woman with the alabaster jar, cbeinternational.org, 10/jan/2017

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

A velha e a nova igrejas



Imagens da sinagoga de Dura Europos. Começando da esquerda superior, no sentido horário - Samuel ungindo Davi entre seus irmãos; o Bom Pastor carregando uma ovelha, sobre a cena de Adão e Eva junto à Árvore do Conhecimento; Jesus andando sobre as águas do lago de Genesaré; Jesus curando o paralítico na piscina de Bethesda.

Há opiniões diferentes quanto ao momento exato em que passou a existir a Igreja. Alguns argumentam que a Igreja existia no tempo de Jesus pois, a respeito de Pedro, Jesus disse: "você é Pedro, e sobre esta rocha edificarei minha igreja e os portões. do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16.18). De fato, Pedro foi um dos primeiros líderes da Igreja, e também um dos mais tardios a crer em Jesus como enviado de Deus. Os evangelhos foram escritos após a fundação da Igreja, então é natural que tenham referências a ela. Para a maioria dos Cristãos, a Igreja nasceu no dia de Pentecostes (50 dias após a Páscoa), em Jerusalém, quando o Espírito Santo veio sobre os crentes (Atos 2.1-6). Esse “batismo de fogo” seria o que João Batista anunciava como o grande sinal do Messias.

Desde então, o Cristianismo se espalhou e diversificou, atravessando eras e Impérios, até cobrir quase todo mundo Ocidental. Hoje, podemos dizer que a Igreja é um eco distante do que foram as primeiras reuniões Cristãs: o mundo mudou muito, professamos um Cristianismo completamente diferente do original. Se escrevêssemos sobre as práticas Cristãs de hoje, mesmo guiadas por textos milenares, os pastores balançando seu paletó sagrado, as vestimentas e teologias diferentes ou os cardeais de chapéus coloridos seriam absolutamente estranhos a um daqueles pioneiros seguidores de Jesus.

IDEAL DE PUREZA

Paulo se preocupava com as igrejas contaminadas por filosofias pessoais e outras doutrinas. O mundo Romano era repleto delas! A igreja de Corinto era ótimo exemplo:

Mas agora estou lhes escrevendo que não devem associar-se com qualquer que, dizendo-se irmão, seja imoral, avarento, idólatra, caluniador, alcoólatra ou ladrão. Com tais pessoas vocês nem devem comer.” (1ª Coríntios 5.11)

Era exigido aos Cristãos uma certa pureza, que seguissem os mandamentos que professavam (repare: já não eram os mandamentos de Jesus). Não que um desobediente devesse ser punido, pois não era função da igreja punir, mas ensinar. Mas o desobediente não poderia falar em nome de Cristo e compartilhar de tudo com os demais. Um pecador impenitente era expulso da congregação até o momento em que se arrependesse. Ou pagasse a pena imposta a ele. Muitas vezes, a pena o transformava em pregador enviado a terras distantes!

Reparemos nas ofensas que Paulo denomina: imoralidade (cada cultura tem seus valores morais); desviar-se excessivamente de gastar dinheiro; cultuar outras coisas além de Jesus; fazer acusações falsas; andar bêbado (μεθυσος); roubar. Eram e são problemas sociais comuns. Segundo Paulo, problemas toleráveis nas pessoas a quem a doutrina precisava ser ensinada; mas não naqueles que diziam conhecê-la e a ensinavam. Isso precisava ser deixado para trás.

A proposição de Paulo para expurgar tal mal era “entregar esse tal para Satanás, a fim de que a carne seja destruída e o espírito seja salvo”. É uma proposição terrível, se pensarmos nas torturas da caça às bruxas. Mas nada semelhante foi registrado entre os Cristãos, até o séc. 4, pelo menos. Paulo também recomenda, ao final, tirar de entre os crentes tal pessoa. “Entregar o tal a Satanás”, portanto, devia ser uma expressão figurativa para abandonar quanto aos cuidados.

Mesmo havendo tal comando, bem mais leve, é de se pensar como nada parecido ocorreu ligado a Jesus - que ressaltava o abandono de tudo para segui-Lo. Jesus não "expurgou" qualquer um de Seus seguidores, de acordo com os evangelhos. Por isso, é surpreendente encontrar tal medida nas cartas de Paulo, anteriores à redação do evangelhos. Entre seguir as ações de Jesus e as recomendações de Paulo, os Cristãos guardaram uma longa memória de expulsões, castigos, torturas, ou mesmo (e principalmente) execuções. Até onde sabemos, os Cristãos produziram muito sofrimento na história humana, porém devido a outros males do caráter além destes enumerados por Paulo - como cobiça por poder, privilégios e riqueza. Pouco se faz para eliminar tas males da Igreja.

A FAMÍLIA CRISTÃ

Os primeiros Cristãos viam a igreja como uma grande família. Isso é conhecido de quem lê o Novo Testamento. Mas não devemos entender a metáfora Igreja/família através de nossos valores familiares modernos. Nossos pais são altamente cuidadores e acabam suas vidas em lares de idosos; nossos irmãos de sangue são chamados de irritantes e tratados como párias.

No 1º século, a unidade familiar se estendia muito além da família nuclear. O termo “clã” seria mais adequado para o Oriente Médio antigo. Várias gerações e vários irmãos, primos, etc compartilhavam o mesmo teto. Usualmente, toda uma vila era composta de pessoas aparentadas entre si, com um líder de clã que geralmente era o mais velho e decidia sobre casamentos, propriedades, etc dos demais.

Além disso, muitos viviam fora das cidades, nas pastagens e montanhas. Era comum que uma região estivesse próspera enquanto outra sofresse com a seca ou inundações. Por isso, fazer parte do clã assegurava auxílio e também apoio (como guerreiros) nas disputas de terras, invasões, etc. O clã de alguém assegurava até abrigos durante as longas viagens. O termo “filho de Davi” aplicado a Jesus, incrivelmente, denotava a pertença a um grande clã do qual o lendário rei fizera parte 10 séculos antes (1ª Crônicas 2).

Foi nesse contexto que os 1os seguidores de Jesus propuseram abrir as portas de casa a todos os crentes, membros do seu novo clã. A lealdade ao Cristo ressuscitado colocava o clã Cristão se estendendo até além de Israel, nas casas em que Paulo se hospedava quando viajava.

OS DE DENTRO E OS DE FORA

Aqueles que testemunharam o Pentecostes e ouviram os discípulos pregando cada um em seu próprio idioma ficaram chocados. Deus proclamava-se aberto a todas as nações. A mensagem da salvação foi primeiro para os Judeus, mas depois para os Gentios (Apocalipse 22.17).

No Antigo Testamento, pessoas de outras nações poderiam se unir a Israel se obedecessem às Suas leis. Jonas é um grande exemplo do desejo de Deus de que ninguém perecesse: na sua viagem missionária a Nínive, centenas de milhares foram poupados da destruição (Jonas 3.10). O nome de Jonas ficou gravado nas ruínas da antiga capital Assíria, que chegou a seu auge por volta de 700 a.C., embora decaísse nas décadas seguinte, com o erguimento de Babilônia. 

Quanto aos Gentios, a lei dos Judeus não lhes foi imposta. Receberam a lei branda de Jesus quanto a amar a Deus e ao próximo; lei que também proibia um julgamento humano sobre as coisas que eram domínio de Deus (João 12.47,48). Apesar disso, em pouco tempo os Cristãos estavam julgando uns aos outros.

Irineus (130 - 202 d.C.), bispo grego de Lyon/França na 5ª geração de Cristãos, foi o primeiro a argumentar contra outras correntes dentro do Cristianismo. Ele estabeleceu o cânon de quatro evangelhos (havia muitos outros, hoje considerados apócrifos). Até que a Igreja se fundisse ao Império, as disputas teológicas apenas resultavam em discussões acaloradas ou ofensas mútuas. Mas em 315 d.C. (na 11ª geração de Cristãos, logo após o Edito de Milão), os Cristãos comandaram o extermínio de pagãos na Grécia, Egito e Palestina, justamente nas cidades onde residiam os grandes bispos. Em 380 d.C., o Edito de Tessalônica criminalizou as heresias. Apenas 5 anos depois, o bispo de Avilla/Espanha, Priscilliano, foi condenado por suas práticas de pureza, divisão radical entre mundo material maligno e mundo espiritual divino, associadas ao Gnosticismo. Mas a acusação foi de feitiçaria: ele e seus mais próximos morreram a golpes de espada, em nome de Jesus, enquanto suas enormes propriedades rurais foram confiscadas pelo novo rei.

A 1ª geração de Cristãos - aqueles que andaram com Jesus, Pedro e Paulo - preferiam morrer a levantar espadas contra outros homens. E isso aconteceu com eles. No séc. 19 apenas, os Estados do mundo tenderam a desvincular sua força militar da Igreja. Os massacres em nome da pregação de amor de Jesus, infelizmente, acompanharam a Igreja até os dias atuais, dependendo do poder concedido ou retirado dos religiosos.

IGREJAS CASEIRAS

No início da Era Cristã, os fiéis se reuniam em casas ou no imenso templo de Jerusalém. O mais antigo templo Cristão conhecido data do séc. 3, centenas de anos após o início do Cristianismo. Ainda assim, era uma casa adaptada para servir como templo¹.

E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, Louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar.” (Atos 2.46,47)

Pelo que sabemos da igreja primitiva, eles se encontravam diariamente e comiam juntos. Nada aproxima mais as pessoas mais do que fazer refeições juntos, mas elas também se dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão. Essas reuniões não eram pequenos sermões.

Jesus era um homem pobre, que descansava do trabalho comendo e falando com seus amigos. Muitas vezes, contando as tantas parábolas que Mateus registrou. Hoje, as igrejas se reúnem em instalações enormes e as pessoas raramente comem juntas, exceto em ocasiões especiais. Numa dessas várias “ceias”, Jesus falou ardentemente enquanto rasgava e comia pão, e tomava vinho em copo de cerâmica numa mesa com os companheiros também faladores. Paulo e João descreveram grandes ensinamentos, mas não sabemos se falavam da mesma reunião (da qual/is apenas João teria participado). Isso foi substituído por cerimônias solenes, com pessoas bem vestidas e em templos. Crentes silenciosos, que sequer se conhecem, fazem fila para receber sagrados pedaços minúsculos de amido ou de pão e diminutos copinhos de suco de uva, ou então assistem o sacerdote recitando enquanto toma o vinho de uma grande taça dourada.

As pessoas ainda se chamam de “irmãos” mas nada sabem, nem participam das vidas uns dos outros. Mesmo irmãos raramente fazem isso, hoje. Quando o fazem, em função da Igreja, não passa de um policiamento milicialesco coletivo dos membros, uns vigiando os pecados dos outros.

IGREJA EVANGELÍSTICA

Uma das principais diferenças entre a Igreja de hoje e primitiva era que antes éramos muito mais evangelísticos (Atos 13). Talvez essa diferença seja inevitável, no séc. 21, em um país com 89% da população declarando-se Cristã. Sem dúvida, o evangelho se espalhou pelo mundo junto com os Judeus.

A severa perseguição da Igreja pelos Judeus e depois pelos Romanos espalhou o evangelho por toda parte do Império. Vários apóstolos levaram o Cristianismo para Turquia, Síria, Egito, Iêmen, Índia. Quando as perseguições se acirraram (por volta de 64 d.C., com o grande incêndio de Roma e as revoltas populares na Judéia), os Romanos nem viam mais diferenças entre Judeus e Cristãos. Todos foram expulsos de suas terras, e um fluxo centrífugo de Judeus e Cristãos se iniciou.

Paulo escreveu: “Primeiramente dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, acerca de vós todos, porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé.” (Romanos 1.8). Talvez o evangelismo tenha sido levado mais a sério porque a Grande Comissão dada por Jesus ainda estava fresca na mente dos apóstolos. Ou porque o Cristianismo era então uma fé desconhecida, mais estruturada que as crenças pagãs nas bordas do Império, menos seletiva que o Judaísmo, e mais fervorosa (afinal, contava de um contato recente com O divino).

Na sociedade Romana, era esperado que todos participassem de um culto, mas poucas pessoas acreditavam em Marte ou Vênus. A maioria simplesmente tinha seus ancestrais protetores. Por isso também não se importavam muito com os imperadores em seu panteão. No final do segundo século, quase todas as religiões populares - especialmente o mitraísmo - se alinhavam de alguma forma com o monoteísmo solar. Assim, os Cristãos frequentemente discutiam Jesus entre o deus-sol pagão e a “luz do mundo”. Clemente de Roma, no séc. 1, discutiu a Ressurreição comparando-a com a história da fênix, algo que devia ser familiar aos Romanos.

É também possível que os Romanos fossem bastante obedientes em cultuar os deuses de seus senhores. No séc. 3, os Cristãos ainda representavam apenas 2% do Império. No séc. 4, porém, após a adesão do imperador Constantino, esse número chegou a 56% da população.

OS POBRES

Hoje, muitas igrejas gastam a maior parte de sua receita com infra-estrutura, locando novos prédios, pagando dívidas bancárias e outros suplementos materiais ao ministério. Observe o orçamento de qualquer igreja e você provavelmente encontrará 1 ou 2% dos fundos alocados à benevolência ou caridade - ajuda às pessoas carentes. Talvez outros 5 ou 10%, na melhor das hipóteses, sejam dados a necessidades externas à igreja que, em algum nível, ajudem os pobres. Estou chutando muito alto.

Mas essa distribuição de fundos contraria o modo como a Igreja primitiva gastava seu dinheiro. O Novo Testamento fala muito sobre doar dinheiro, mas raramente - se é que alguma vez - fala sobre gastos institucionais.

Os Judeus tinham o dízimo como lei, que significava doar 10% dos seus ganhos para o Templo, tanto no que se refere a dinheiro como a animais, alimentos, etc (é isso que significa dízimo - a 10ª parte). As poucas menções do dízimo no Novo testamento, por outro lado, são no contexto do jovem rico (impecável pela lei, mas recusou-se a seguir Jesus) e no contexto da herança de sacerdócio. Jesus enfatizava não o dízimo, mas a generosidade. Ele acrescentou que seu discípulos não deviam dar 10%, mas tudo que possuíssem, para o bem dos que deles precisavam.

Segundo Jesus (e Paulo seguiu na mesma linha), dar devia ser uma atitude de amor, medida com a necessidade do próximo, para que “a vossa abundância supra a falta dos outros, para que também a sua abundância supra a vossa falta, e haja igualdade” (2ª Coríntios 8-9). Em especial, o Novo Testamento não fala de doar ao Templo ou a um templo, mas aos que precisam (1ª Coríntios 16.1-3). De fato, Paulo gastou mais tinta falando sobre dar às pessoas pobres do que sobre a doutrina da justificação pela fé. O próprio Jesus disse que dar aos pobres era o principal meio pelo qual Ele separaria os maus dos justos:

"Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Tive fome, e destes-me de comer. Tive sede, e destes-me de beber. Era estrangeiro, e hospedastes-me. Estava nu, e vestistes-me. Adoeci, e visitastes-me. Estive na prisão, e foste me ver. Então os justos lhe responderão, dizendo: ‘Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? Ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? Ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te?’ E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes." (Mateus 25.34-40)

Se levarmos a sério as palavras de Jesus - e o orçamento de nossas igrejas sugere que não - podemos não gostar do que nos está reservado².

MILITARISMO

Outro valor moderno que a Igreja primitiva desconhecia é o militarismo. O militarismo se refere à "crença ou desejo de que um país deve manter uma forte capacidade militar e estar preparado para usá-lo agressivamente para defender ou promover interesses nacionais". Não há dúvida sobre isso - o militarismo está fortemente ligado aos valores Cristãos. No Brasil e na Bolívia atuais, isso não poderia estar mais claro.

O historiador militar Andrew Bacevich vasculhou as raízes do militarismo Estadounidense e descobriu que, por detrás das cortinas, não havia outro senão a Igreja Evangélica. Ele concluiu: “Não fosse o apoio oferecido por várias dezenas de milhões de evangélicos, o militarismo neste país profunda e genuinamente religioso seria inconcebível.

Ele estava falando especialmente das campanhas Estaounidenses no Oriente Médio e Oeste da África. Foram campanhas contra governos matadores de homens, financiadas com muito mais dinheiro das igrejas do que já foi aplicado em causas sociais. No Brasil, temos um Estado que volta-se cada vez mais ao setor militar, eleito como protetor da comunidade “contra a desordem” (por exemplo nas áreas educacional, meio-ambiente, etc). Esse Estado é fortemente apoiado pelas Igrejas Evangélicas através de dinheiro para campanhas políticas e apoio no Congresso Nacional. Nas transformações atuais da Bolívia, um líder populista (nominalmente da Esquerda) foi derrubado e houve a tomada de poder pela Direita. Pelo que sabemos, até agora apenas ideologicamente, o novo governo levanta a bandeira das Igrejas Evangélicas como apelo popular.

O militarismo foi sempre algo praticado por um grupo majoritário que teme a contaminação ou perda de hegemonia. Os Egípcios usaram o militarismo (em nome dos deuses) contra os Judeus que povoavam sua costa norte. Os Judeus usaram o militarismo (em nome de YHWH) contra os Cananeus das terras onde chegavam. Os Gregos usaram de militarismo (em nome de Apolo) contra os Judeus em sua colonização do Oriente Médio e Europa. Os Romanos usaram de militarismo (em nome de César e Augusto) contra os Judeus. Hoje os Cristãos do Ocidente usam de militarismo (em nome de Jesus) contra os Muçulmanos e grupos não-evangélicos.

A igreja primitiva, minoritária e perseguida, obviamente não era militarista. Apesar disso, o que se esperava de Jesus era um líder militar-revolucionário que expulsaria os Romanos como no tempo dos Macabeus³. Os primeiros Cristãos nunca ficaram fascinados com o poder das forças armadas romanas. Ao contrário, eles se apegaram a uma pregação onde o mal é conquistado não por espadas e lanças, mas por sofrimento e amor. De fato, o versículo mais citado entre os primeiros Cristãos era sobre amarmos nossos inimigos (Mateus 5.44 e João 3.17).

Hoje, isto está enterrado sob uma pilha de advertências e notas de rodapé - não podemos mais amar de verdade todos os nossos inimigos, como Jesus mandou. Quando se trata de pessoas percebidas como ameaças, a maioria dos Cristãos de hoje prefere a justiça (e entendamos isso como provocar sofrimento ao próximo, porque somos mais poderosos, até que ele se curve) à graça ou amor.

Talvez os Cristãos devam servir nas forças armadas ou usar a violência como último recurso para defender os inocentes. Mas quando a Igreja se tornou o motor por detrás da máquina militar - para defender ou promover agressivamente os interesses nacionais - nós fugimos das raízes da Igreja primitiva. Preferimos a lealdade a Roma (que agora é nossa) à lealdade ao Reino de Deus, com sua simplicidade e humildade.

A BÍBLIA

A Igreja primitiva valorizava o estudo dos textos sagrados. Jesus, como os demais Judeus, era conhecedor dos profetas antigos. Mas os primeiros Cristãos não eram necessariamente Judeus, e também não dispunham de Bíblias como temos hoje.

O evangelho de Mateus foi escrito em hebraico, por volta do ano 70 d.C. Como as primeiras reuniões Cristãs são de 40-50 d.C., época próxima às cartas de Paulo (ex. Romanos, Efésios, Coríntios, Gálatas), Mateus deve ter sido posto em forma escrita pela 2ª geração de discípulos, por ocasião das investidas de Roma contra as revoltas na Judéia. O mesmo se deu com o evangelho de Marcos. Embora semelhantes, há sinais de que Marcos é mais antigo que Mateus. Lucas é, segundo o próprio autor, uma produção a partir de pesquisa histórica. Há um consenso de que teria ganhado sua forma final por volta de 90 d.C., após a destruição de Jerusalém. Lucas e Atos são obras do mesmo autor, que certamente era Romano. Do final do 1º século também temos o evangelho de João, elaborado por uma comunidade bastante separada das que produziram os demais textos. Dessa 3ª geração de discípulos também vêm outros livros, como o Pastor de Hermas e a Didache, não incluídos na Bíblia. Sua variedade já testemunha como o Cristianismo se espalhava rapidamente.

O material de que a Igreja primitiva dispunha era alguma das cartas de Paulo, algum dos evangelhos decorado, não necessariamente em forma escrita, e/ou um dos primeiros livros de ensino religioso, como o Pastor de Hermas e a Didache. Ambos os últimos eram ensinos metodológicos, sobre “como o Cristão deve viver”. Os evangelhos eram provavelmente usados como justificativa ou pano de fundo dos ensinamentos. Além disso havia obras (sobretudo Gnósticas*), que ganhavam o apreço popular e eram misturadas aos ensinos nas casas dos Cristãos, o que Paulo repudiava.

Hoje, a maioria dos lares Cristãos possui várias Bíblias e suas igrejas possuem uma variedade de estudos bíblicos. As igrejas são enormemente distintas em termos de pregação e teologia, embora todas sigam os mesmos textos. Os Cristãos de hoje são bastante afetados por essas filosofias locais, pois exibem um analfabetismo bíblico sem precedentes. De acordo com uma estatística, 60% dos Cristãos que confessam ter “nascido de novo” não podem citar 5 dos 10 mandamentos; 81% não acreditam (ou não estão cientes) dos princípios básicos da fé Cristã; e 12% pensam que Joana d'Arc era a esposa de Noé (que, afinal, tinha uma Arca).

Os primeiros Cristãos precisavam estudar muito para entender o que lhes chegava, de autores originais que eram Judeus e Romanos. As cartas de Paulo, por exemplo, não contêm apenas citações diretas do Antigo Testamento, mas também muitas alusões sutis (frases breves). O livro de Apocalipse não contém uma única citação direta do Antigo Testamento, e ainda assim possui mais de 500 alusões a palavras ou frases dele. Essas alusões só poderiam ser entendidas por homens familiarizados com as Escrituras.

Jesus disse a seus discípulos para ensinar aos outros "tudo o que eu te ordeno" (Mateus 28.19,20). Sem dúvida, ouvir sobre montanhas, rios e poços sagrados de terras distantes exigia imaginação. No mundo greco-romano, a escrita ainda era algo mais comum, de forma que a Igreja primitiva podia se beneficiar das cartas apostólicas e não tardou a veicular cópias dos evangelhos. Por outro lado, em muitos cantos o Cristianismo era proscrito e raras versões escritas dos textos eram memorizadas e replicadas pelas pessoas. Os escritos mais antigos que nos chegaram foram encontrados em Nag Hammadi e datam do séc. 3**.

Tudo indica que as obras Cristãs dos primeiros séculos eram muito valiosas aos seus possuidores. As que foram preservadas sempre estavam em locais secretos, altamente protegidas e guardadas. E ainda assim foram feitas muitas cópias delas, em locais distantes, provavelmente através da memória de alguém - o que mostra que eram usadas, não só guardadas. Os primeiros Cristãos ficariam perplexos com a nossa capacidade moderna de possuir e não ler, ou ainda negligenciar os textos sagrados.

Receio que nosso desejo de voltar à igreja primitiva exija uma revisão bastante extensa de como nos portamos..

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¹ Em meados do séc. 3 d.C., na Síria, uma comunidade Cristã convenceu um residente local fazer da sua casa um salão para reuniões. O proprietário até instalou um batistério e fez pinturas de cenas do Novo Testamento nas paredes. Essa casa transformada é o mais antigo exemplo de arquitetura Cristã que temos. E ela foi produzida num período em que os Cristãos supostamente eram perseguidos.

A cidade, Dura-Europos, ficava numa região de maioria judaica, nas bordas de Roma. A casa em questão continha cenas de Adão e Eva, Davi e Golias, o Bom Pastor, Jesus e Pedro andando sobre as águas e as Três Marias visitando a tumba de Jesus. Lá também foram encontrados fragmentos de pergaminho usados em batismos, altamente semelhantes ao texto da Didache.

² No mundo moderno, as doações religiosas são quase totalmente concentradas nos templos e o fluxo de caixa das igrejas Brasileiras é largamente desconhecido. Cerca de 20% dos fiéis pagam dízimos, a imensa maioria deles sendo pessoas sem problemas financeiros. Alguns pastores (Estadounidenses) são conhecidos por fazerem grandes doações de seus ganhos pessoais. Os membros de denominações são mais dados a fazer (outras) doações do que as pessoas sem denominação religiosa, mas isso é tudo que sabemos.

O pouco interesse das igrejas Evangélicas para desenvolver atividades sociais vem de longa data. Sua motivação fundamental é alegadamente a oração. As obras não são essenciais (quase ninguém lê até o livro de Tiago..) porque não são elas que levarão à Salvação, mas a justificação pela fé. Apesar disso, os investimentos das grandes congregações no povoamento de templos produzem super-fortunas e traçam alianças políticas. Elas supostamente são muito mais representativas da aprovação de Deus do que seria uma escola, hospital ou auxílio a famílias necessitadas (que devem ser, afinal de contas, destituídas da Graça).

Nos EUA, onde isso é mais tabelado, sabemos de grandes pastores com salários de 3 a 500 milhões de dólares. Ok, agora levante-se e volte para a sua cadeira. Esse ganho pessoal geralmente representa 3% da entrada das igrejas (de onde projetamos uns $100 milhões a $17 bilhões mensais, por congregação). Cerca de metade do valor é gasto com pagamentos de várias outras pessoas (ex. contabilidade, advogados, canal de televisão, etc). Apesar disso, as doações das igrejas Estadounidenses à caridade não representam nem 5% do total arrecadado. A maior fatia vem de doações individuais.

No Brasil, a imensa maioria de obras “sociais” das igrejas são, na verdade, empreendimentos financiados pelos dízimos onde se paga (e caro) por um serviço como educação ou atendimento médico, sem abono para os pobres. No setor privado, os mesmos empreendimentos são conhecidos por atrair grandes corporações e produzir lucros vultuosos.

³ No ano de 167 a.C., a Judéia estava invadida pelos Gregos e a autonomia do culto Judeu estava sendo violentamente perseguida, em prol do culto aos deuses gregos. Na chamada Revolta dos Macabeus, um grupo de Judeus restaurou o Templo, então abandonado, e estabeleceu Jerusalém como um reino independente. Essa independência cruzou-se com as disputas de poder dentro do imenso reino de Alexandre o Grande, garantindo a liberdade dos Judeus até a chegada dos Romanos. Ver Os dois lados de uma Cleópatra.

* O Gnosticismo é uma facção transcendental dos Judeus. Segundo seus adeptos, o mundo estava repleto de sinais secretos de Deus, ensinamentos que podiam ser encontrados apenas pelos “iluminados”. Dessa forma, visões e profecias eram uma forma poderosa de trazer tais ensinamentos ao público, ainda que não se realizassem ou fossem radicalmente diferentes entre um visionário e outro. Os escritos Gnósticos eram muito populares na Judéia, conseguindo seu lugar nas 1as reuniões Cristãs.

** A biblioteca de Nag Hammadi localizava-se no Alto Nilo, sendo composta por muitos manuscritos dos sécs. 2 e 3 guardados em jarros e enterrados em cavernas. A tradição nos ensina que o Cristianismo chegou ao Egito através de uma comunidade fundada pelo evangelista João Marcos, companheiro de Paulo e Lucas em suas viagens. Acredita-se que as obras de Nag Hammadi, em grande parte textos Gnósticos, pertenciam a um monastério perseguido assim que a Igreja fundiu-se ao Império Romano. Com essa oficialização da Igreja, os grupos Cristãos que se diferenciavam do credo imperial passaram à condição de hereges. Entre os vários livros encontrados ali estão os evangelhos de Tomé e Filipe, além de vários outros apócrifos Cristãos.

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PROSCRITOS DA INFANTARIA GOSPEL


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