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domingo, 6 de outubro de 2019

Salomão, Jesus e as leis

A Sabedoria de Salomão, do ilustrador James Tissot (1836-1902). No relato bíblico, há uma criança morta e duas mulheres disputam a criança que restou. O rei Salomão ordena que a criança seja repartida ao meio (o que felizmente não acontece), para saber qual delas se sacrificaria pelo filho.

As leis são formas de controle coletivo do comportamento das pessoas. Elas fazem com que as pessoas adiram aos hábitos, rituais e modos de agir determinados por um governo. Moisés instituiu leis sobre o povo judeu, as primeiras que a Bíblia ou o Tanakh (livro judeu da Lei) relatam. Mas há outras formas de governo, não amparadas na rigidez de uma lei, mas no aconselhamento que guia as atitudes das pessoas.

AS LEIS DE MOISÉS

Moisés é o primeiro legislador judaico documentado na Bíblia. Sua identidade é misteriosa, podendo ser uma pessoa real ou até a fusão de vários personagens como um sacerdote de Baal de quando os egípcios expulsaram os Hyksos de volta para a Palestina (1500 a.C.), um sacerdote do deus sol do faraó Akenathen (1350 a.C, pai do famoso Tutankhamon) e algum sacerdote midianita, povo de fora da Palestina que Moisés reconheceu como seu. O que sabemos é que tudo sobre ele foi bem re-composto pelos sacerdotes do rei Josias (649-609 a.C.) a partir de antigos escritos encontrados no 1º Templo e há muito perdidos, junto com o próprio templo (587 a.C.). O resultado foi algo como a lenda grega de Odisseu / Ulisses (que andou por todo mundo e participou de várias batalhas entre homens e entre deuses) ou um desenho de Shrek costurado com retalhos de muitos contos.

Fosse quem fosse, é certo Moisés que não foi o primeiro legislador com que os judeus tiveram contato. As estórias sobre Moisés trazem partes da lenda de Sargão, um poderoso rei Sumério de 2400-2300 a.C. Da mesma época vem o código de Urukagina, outro rei da região entre os rios Tigre e Eufrates, de onde partiu Abraão, supostamente o ancestral de todo povo judeu. Em outras palavras, Abraão e sua família eram conhecedores de um código de leis, que levaram para a Palestina. Muito tempo depois, a lei elaborada por Moisés ia bem além dos 10 Mandamentos, incluindo procedimentos religiosos, regras de higiene, vegetais que devem ser plantados e animais que podem ser criados ou caçados, questões rurais sobre o cercamento de terras, disputas entre autoridades, etc, os quais são detalhados nos livros de Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Ela traz diversos elementos de leis do 1º Império Babilônico (do qual faziam parte Ur e outras cidades lendárias). Tais leis compunham a história dos hebreus e dos povos ao seu redor (Cananeus), com os quais se casavam e disputavam terras.

Existe uma discussão bastante válida sobre essas similaridades serem devido a um parentesco das leis (a Babilônica é mais antiga e há o relato bíblico de parentesco dos povos), a influência cultural (pois se tratava de uma região mais avançada e rica que a Palestina) ou simplesmente resultarem de uma similaridade cultural (eram povos semitas, organizados em cidades-estado¹ baseadas na vida agro-pastoril de uma região com clima, animais e vegetação parecidos). A regra de Talião - vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, chicote por chicote - por exemplo está presente no código de Moisés (Êxodo 21.23-25 e Deuteronômio 19.21), assim como em muitos códigos de leis semitas, colocando uma equivalência entre o crime e a pena.

Por outro lado, as leis mosaicas favoreciam os homens em detrimento das mulheres, igualando uns e outros entre si; as leis babilônicas separavam a sociedade em castas segundo o nascimento - aos escravos não era assegurado nenhum direito. Tanto a lei mosaica como a babilônica são supostamente originadas dos deuses de cada povo, embora tratem de problemas rigorosamente mundanos. A lei babilônica estabelecia crimes civis como agressão, roubo, violação de propriedade, etc e crimes morais como adultério, desrespeito, etc. Já a lei mosaica punia também crimes contra a tradição cultural (ex. usar certos vegetais e peles), além de crimes religiosos como a falta com obrigações rituais, culto a outros deuses ou desrespeito a dias e locais sagrados. No entendimento de Moisés como sacerdote, toda ação humana se relacionava a Deus (fosse um roubo, o plantio de certo vegetal ou ações rituais) e todos deviam o culto religiosos; já no entendimento babilônico (politeísta), as leis vinham do deus Shamah (sim, o sol ou fogo) através do rei para estabelecer seu império político. Não importavam ao rei detalhes culturais ou religiosos.

Tanto em um código de leis como no outro, há uma estrutura básica de crime X > punição Y. Em casos de acusação sem provas, aparece crime X > juiz ou consulta divina > punição Y. Essa estrutura, embora às vezes apele para o julgamento divino de YHWH ou alguma divindade babilônica (geralmente o rio Eufrates), basicamente dispensa as divindades de intervir em favor dos homens e retira por completo o significado racional das leis. Por exemplo, em Levíticos 13 há todo um procedimento ritual a respeito da lepra, que consiste em como o sacerdote reconhecer os leprosos, afastar eles do acampamento e como permitir que voltem. A prática efetiva é menos complexa do que lavar o machucado e passar mertiolate, mas era uma determinação sagrada, imutável e inquestionável. Certamente era útil em se tratando de uma doença contagiosa e o Novo Testamento nos testemunha que as cidades judaicas, mesmo 15 séculos depois de Moisés, ainda tinham hordas de leprosos perambulando por fora de seus muros. E então apareceu Jesus².

A NÃO-LEI DE SALOMÃO

Salomão foi o 3º rei dos judeus, sucedendo Davi. Seu pai teve pelo menos 6 herdeiros de suas concubinas (que na verdade eram as princesas do territórios conquistados), além de diversos filhos não-herdeiros. Entre os herdeiros estavam Amon (de Ainoã, a 1ª esposa), Quileabe (de Abigail), Absalão (de Maaca), Adonias (de Hagite), Sefatias (de Abital) e Itreão (de Eglá) (2ª Samuel 3). Salomão era filho de uma concubina secundária, Bate Seba, que não era princesa de reino algum, mas um caso extra-conjugal de Davi, e nem mesmo era o filho mais velho dessa relação. Mas as guerras mataram os filhos de Davi, sempre enviados como representantes do rei, e também um filho matou ao outro, até que Salomão sucedeu ao trono, apontado pelo rei junto ao profeta Natã, o sacerdote Zadoque e o levita Benaia (1ª Reis 1.26). Em seu reinado, mesmo Salomão mandou matar seu meio-irmão Adonias, julgando que tentasse usurpar o trono (1ª Reis 2.23,24).

Salomão desfrutou de poder e riqueza ainda maior que Davi, pois representava uma união de várias nobrezas, sacerdotes e profetas, além de Israel estar posicionado na rota das caravanas. Elas viajavam entre o Mediterrâneo, os portos da Fenícia, Líbano e Síria, Egito, Mar Vermelho, Etiópia, Iêmen, Índia e China. Tratava-se de uma poderosa rota comercial por onde se transportava animais (como mulas, elefantes e camelos), marfim, madeira (cedros), peles, grãos, ouro, tecidos valiosos (como cânhamo e seda), temperos, perfumes, ópio e incenso. Os impostos nos mercados e portos das caravanas geravam riquezas imensas, o que fez Salomão estender colônias de judeus para o Egito, Etiópia e Iêmen, em acordos com os governantes dessas terras. Mas além da riqueza, Salomão ficou conhecido por sua sabedoria como governante, um presente concedido pelo próprio Deus, que afirmou que não houve nem haveria jamais ninguém mais sábio que ele (1ª Reis 3.9,10). Esta história também foi contada pelos sacerdotes do rei Josias, quase 4 séculos mais tarde, retirada de escritos em um templo (construído por Salomão*) que chegava perto de seu fim.

Salomão manteve uma equipe de estudiosos ou sábios, que tentaram reunir em escritos toda a sabedoria do seu mundo. Possivelmente ele tentou reproduzir algo que soubera do Egito (onde os nobres de Thebas eram finamente educados em escolas³). De fato, as relações políticas entre Israel e o Egito tinham se tornado muito mais intensas, a ponto de diversas vezes os exércitos egípcios terem retomado territórios de Israel que haviam sido perdidos para outros povos. Entre as relações de Salomão, ficou famosa a rainha de Sabá, uma terra de guerreiros provavelmente na Etiópia, com quem foram trocados presentes de imenso valor.

Salomão não fez grandes esforços para suprimir os cultos cananeus. Além de adorar a YHWH, deus de Salomão e Davi e a quem o rei dedicou seu Templo, o povo cultuava outras divindades como Baal, Moloque e Asherá, menos exigentes, a quem os cultos eram feitos no altos dos montes, vales profundos ou sob as árvores, respectivamente. Reis muito posteriores ainda lidaram com essa variedade religiosa em Israel. Como o culto ao Deus Único não era apenas um elemento repetido na lei de Moisés, mas o 1º ítem dos 10 Mandamentos gravados nas tábuas da Arca da Aliança, podemos inferir que a lei de Moisés já era bastante fraca no reinado de Salomão (apesar de a Arca estar guardada no Templo que ele construiu). Talvez 5 séculos já tivessem se passado! A lei seria reavivada mais tarde, porém há indícios de que Salomão pretendia uma transformação diferente em seu povo, o que foi provido pelo seu livro de Provérbios.

O Livro de Provérbios que temos hoje é, em grande parte, uma construção apócrifa. Ele começou a ser produzido no reinado de Salomão, copiando-se um texto famoso do faraó Amenemope (1001-992 a.C.) sobre o comportamento esperado dos nobres e juntando trechos discutidos exaustivamente e com a ajuda dos sábios Lemuel e Agur, de clãs do deserto. Essa coleção de instruções foi estendida pelos sábios do rei Ezequias (715-687 a.C.), o construtor, que versavam sobre o sábio, o tolo (que despreza a sabedoria) e o simples (ignorante a ser ensinado). Depois o livro ganhou textos dos sábios do rei Josias (640-609 a.C.), que encontraram o livro da Lei de Moisés em algum canto do Templo e adicionaram aos provérbios ensinamentos sobre temor a Javé, ardor no trabalho, modéstia, humildade, generosidade, misericórdia e honestidade. Mais tarde o livro ainda ganhou trechos dos sacerdotes que acompanhavam Esdras no estabelecimento do 2º Templo (aprox. 450 a.C.), os quais falavam em valorizar a Sabedoria como uma entidade, uma espécie de Espírito Santo que falava contra o mal, a soberba e a arrogância, o mau caminho e a boca perversa. Todos, apesar da composição diversificada, atribuíram seus escritos ao lendário rei Salomão.

Não é fácil ler os Provérbios, pois trata-se de pequenos trechos fragmentados e espalhados, talvez propositalmente, de forma que possam ser re-arranjados para se adaptar às mais diversas situações. A diferença da lei de Moisés está justamente aí: a flexibilidade. Moisés deixou um tratado de punições para os mais diversos crimes (que incluem mesmo plantar vegetais diferentes), de modo a deixar claro o que NÃO SE DEVE FAZER. Salomão por outro lado pretendeu criar um sistema de aconselhamento simples, de forma que o homem mais comum pudesse ser guiado para FAZER as melhores escolhas. Seu código ou programa inclui belas descrições dos sofrimentos humanos e das principais causas de sofrimento como riquezas, prazeres momentâneos e falsas esperanças.

A PROPOSTA DE JESUS

Jesus nasceu bem fora do ciclo das realezas da Judéia (terra dominada por Roma, onde ficava Judá, parte sul de Israel, repartida em 930 a.C., após o reinado de Salomão) e mesmo da Galiléia (parte norte), onde ficava a cidade de Nazaré. Jesus frequentava as sinagogas pequenas na planície pastoril da Galiléia, que conduzia à região de pesca e comércio ao redor do grande lago de Tiberíades, onde começava o rio Jordão. O Templo que ele conheceu nas peregrinações a Jerusalém era o 3º Templo, uma construção imensa de uns 50 anos e ocupando todo o topo de uma montanha, feito já na Era Romana a partir do 2º Templo, que foi erguido sobre as ruínas do Templo de Salomão. Uns 1000 anos haviam se passado desde esse rei construtor lendário, e também 600 anos desde que a Lei de Moisés fora reencontrada por outro rei construtor. Seu povo havia estado no exílio da Babilônia, tinha sido dominado pelos gregos após Alexandre o Grande, que esvaziaram o Templo por toda uma geração, e depois pelos romanos. Estes últimos implicavam com a infidelidade dos sacerdotes ao seu rei-deus Tiberius Caesar Divi Augusti Filius Augustus (reino 14 a 37 d.C.). Os sacerdotes se defendiam formando um tribunal, o Sinédrio, que julgava as questões de fé e costumes segundo a lei mosaica. Em paralelo a eles havia o rei Herodes Antipas, filho de Herodes o Grande, construtor do Templo, e também vassalo** de Roma.

Os escritos sobre Jesus são quase tão problemáticos quanto os sobre Salomão. Nenhum texto sobre Jesus foi produzido fora do contexto religioso, independente da pregação sobre o Messias. Existem 3 evangelhos sinóticos, isto é, alinhados: Mateus, Marcos e Lucas. Marcos parece ser o mais antigo deles. Um suposto documento Q teria dado origem a Mateus e Lucas, além de partes incluídas pelos próprios evangelistas, únicas de cada escrito. Lembremos que talvez Mateus tenha sido companheiro de Jesus em suas andanças, embora o livro de Mateus traga muitas coisas de Paulo (a quem sabemos a autoria, por seu caráter romano de escrita), que não esteve pessoalmente com Jesus, e com quem os outros 2 evangelistas andavam. O livro de João é tão autêntico quanto os demais em sua historicidade, João era chamado de “discípulo amado” pela sua relação próxima de Jesus, e no entanto bem pouco do livro de João se alinha com os demais evangelhos. Fica quase impossível destilar um Jesus a partir do material que temos sobre Ele, porque esse material apresenta personagens diferentes, dependendo do autor.

A relação de Jesus com a lei mosaica, no meio desses 4 intérpretes que viram e entenderam coisas diferentes, é no mínimo curiosa. Certas horas Jesus valoriza a Lei, cobrando seu seguimento àqueles que o acompanham. Outras vezes, Jesus se diz superior à lei e a reinterpreta por completo (o que só não parece absurdo de uma lei com inspiração divina sendo atualizada pelo Filho de Deus).

E Jesus, tomando a palavra, falou aos doutores da lei, e aos fariseus, dizendo: É lícito curar no sábado? (Lucas 14.3)

Jesus parece devoto a um Pai Celestial, advogando ora por Ele entre os homens que sofrem, ora perante Ele e pelos homens que sofrem. Ele parece interessado em retirar o sofrimento das pessoas, se elas tiverem fé e chegarem suficientemente perto Dele, o que João interpreta como “sinais” da divindade de Jesus - algo para ser visto e falado - e não uma prioridade Sua. Por suas transgressões ou re-interpretações da lei de Moisés, o Sinédrio trama contra Jesus (ao contrário de João Batista, que foi alvo de Herodes Antipas) e, após condená-lo à morte, nomeia homens para caçar seus seguidores. Estaria o Sinédrio sendo puritano e extirpando um baderneiro? Os evangelhos nos propõem que não; eles são chamados de “víboras” e aproveitadores do seu status social. A perseguição do Sinédrio aos Cristãos parecia exagerada, a menos que estes desafiassem seriamente a eles ou a Roma***.

Jesus cita leis de Moisés e várias partes do livro de Isaías, até hoje o mais popular dos profetas. Como frequentador das sinagogas e do Templo, após a reforma de Josias, sem dúvida Ele possuía conhecimento do sistema de leis antigo. Mas Jesus fazia releituras delas e, de forma inovadora, apresentava seus ensinos como “parábolas”. As parábolas e fábulas são pequenos contos, bastante usados no Oriente Médio e na Europa Medieval para transmitir valores morais. As estórias de Jesus tinham semelhança com a realidade ao seu redor, e cada uma delas poderia gerar (e gerou) longos estudos, embora Ele mesmo dissesse que ensinava assim para que os homens ouvissem e não compreendessem. Algumas parábolas são elaboradas, como a do Semeador, outras aparecem apenas como um pequeno parágrafo, bem ao jeito de um Provérbio.

Administrador desonesto (Lucas 16.1-9);
Amigo importuno (Lucas 11.5-8);
Bodas (Mateus 22.1-14);
Bom samaritano (Lucas 10.29-37);
Casa vazia (Mateus 12.43-45);
Coisas novas e velhas (Mateus 13.51-52);
Construtor de uma torre (Lucas 14.28-30);
Credor incompassivo (Mateus 18.23-35);
Dever dos servos (Lucas 17.7-10);
Dez virgens (Mateus 25.1-13);
Dois alicerces (Mateus 7.24-27);
Dois devedores (Lucas 7.40-43);
Dois filhos (Mateus 21.28-32);
Dracma perdida (Lucas 15.8-10);
Fariseu e publicano (Lucas 18.9-14);
Fermento (Mateus 13.33);
Figueira (Mateus 24.32-33);
Figueira estéril (Lucas 13.6-9);
Filho pródigo (Lucas 15.11-32);
Grande ceia (Lucas 14.15-24);
Jejum e casamento (Lucas 5.33-35);
Joio e trigo (Mateus 13.24-30,36-43);
Juiz iníquo (Lucas 18.1-8);
Lavradores maus (Mateus 21.33-46);
Meninos na praça (Mateus 11.16-19);
Ovelha perdida (Lucas 15.3-7);
Pai vigilante (Mateus 24.42-44);
Pedra rejeitada (Mateus 21.42-44);
Pérola de grande valor (Mateus 13.45-46);
Primeiros lugares (Lucas 14.7-11);
Rede (Mateus 13.47-50);
Rei que vai para a guerra (Lucas 14.31-32);
Remendo com pano novo (Lucas 5.36);
Rico e Lázaro (Lucas 16.19-31);
Rico sem juízo (Lucas 12.16-21);
Semeador (Mateus 13.3-9,18-23);
Semente (Marcos 4.26-29);
Semente de mostarda (Mateus 13.31-32);
Servo fiel (Mateus 24.45-51);
Servos vigilantes (Mc 13.33-37);
Talentos (Mateus 25.14-30);
Tesouro escondido (Mateus 13.44);
Trabalhadores da vinha (Mateus 20.1-16)

A parábola do Semeador até serviu de eixo para o famoso livro Pastor de Hermas, que foi um instrumento importante de evangelização nos 1os séculos. Por um lado, ela dá a idéia de que aproximar-se de Deus pode ser impedido pelo Diabo ou pelas seduções do mundo, problemas, dinheiro, etc. Por outro lado, ela dá a idéia de um cuidado repetitivo de Deus ao tentar ensinar sua mensagem, como um semeador que sempre volta ao campo. O ensino de Jesus prevê uma interação grande entre cada pessoa e seu ambiente, não é uma regra independente do contexto. Essa possibilidade de discussão e nova interpretação é um elemento significativo do ensino nos povos semitas, o que até coloca a rigidez da lei de Moisés como algo estranho a eles. Tal dualidade entre discutir/ensinar e obedecer cegamente aparece, no Novo Testamento, a todo momento - afinal, a lei do Estado não era a lei de Moisés, e o Sinédrio não poderia condenar quem quer que fosse sem a aprovação de Herodes e Roma (no tempo de Jesus, o poder romano era simbolizado pelo governador Pôncio Pilatos).

Essa metodologia de ensino de Jesus, que não foi levada seriamente nos séculos seguintes, se parecia muito mais aos Provérbios re-ordenáveis de Salomão do que aos aos estatutos detalhadíssimos de Moisés. Já em 49 d.C, o 1º Concílio Cristão - feito por seguidores presenciais como Pedro - já debatia permitir ou proibir a adesão dos gentios ao movimento religioso, o que não se encaixa de forma alguma nos métodos de ensino flexíveis propostos por Salomão e por Jesus. Reparemos que Jesus não se privou de ensinar a ricaços, fariseus, leprosos, samaritanos, romanos, publicanos, etc. Muitos deles nem eram judeus para seguir sequer os Mandamentos, mas ainda assim haveria uma interpretação pessoal a darem para as estórias que Jesus contava. E era por isso que as multidões o cercavam.

A TENTATIVA DE JOÃO

Quem chegou mais próximo a Jesus quanto ao ensino foi João. Porém, ele era muito menos criativo ou conhecedor dos homens. Talvez mais profeta e menos contador de estórias. O tal discípulo amado, quando tomou os milagres de Jesus tal qual uma ferramenta de ensino, dando para eles uma interpretação messiânica, mais ou menos os tornou em parábolas. Delas pode ser tirado um outro ensino, que não é seu conhecimento literal como texto.

Transformação de água em vinho (2:1-11);
Cura do filho do oficial romano (4:46-54);
Cura do paralítico na piscina de Bethesda (5:1-15);
Multiplicação dos pães (6:5-14);
Andar sobre a água (6:16-21);
Cura do cego de nascença (9:1-7);
Ressurreição de Lázaro (11:1-45)

João é enfático no caráter sobrenatural dos eventos que relata, e passa muito longe de tentar criar um sistema de leis. Seu objetivo é oferecer provas da divindade de Jesus. 

Não crês tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras. (João 14.10)

João registrou apenas uma parábola:

O que ceifa recebe galardão, e ajunta fruto para a vida eterna; para que, assim o que semeia como o que ceifa, ambos se regozijem. Porque nisto é verdadeiro o ditado, que um é o que semeia, e outro o que ceifa. (João 4.36,37)

No lugar onde Mateus apresenta as parábolas de Jesus, o evangelho de João, como em várias outras partes, apresenta Jesus refletindo sobre os acontecimentos. Isso é algo que Jesus faz muito no livro de João e raramente nos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas. João também não mostra nada semelhante ao Sermão da Montanha. Ao contrário dos outros evangelhos, não há uma receita mundana para a felicidade, mas sim Jesus discorrendo sobre as motivações de Deus. Compreender ao Senhor, para João, é mais importante do que tudo. João fala de alguém que realizava milagres, perdoava (8.3-11), se declarava a representação de Deus, era humilde (13.1-17), pregava o amor de uns pelos outros (15.12), estaria com seus discípulos apesar da morte (14.21). Nessa atribuição de intenção por parte de Deus (e dane-se a Lei), João chega próximo ao que Jesus ensinava.

Hoje, com os 4 evangelhos e mais as cartas de Paulo nas mãos, somos levados a cruzar muitas informações entre eles. Mas a comunidade para a qual João ensinava não tinha isso. Eles dependiam inteiramente de João para conhecer a Jesus e ele não lhes apresentava um conselheiro, mas a personalidade de um Deus vivo e o próprio Messias a quem deviam orar pela Salvação em um mundo que estava chegando ao seu fim. Lembremos que João também é o autor de Apocalipse ou Revelação.

Sendo um livro didático, na mais ajustada descrição, o evangelho de João compartilha com o leitor a interpretação da vida segundo Jesus. Pelo menos os pensamentos que ele põe na boca de Jesus. O Espírito Santo inspira uns e outros segundo Ele mesmo escolhe, e ninguém o controla (3.8); as pessoas comuns não o podem entender (3.11,12); os servos de Deus o adorarão independente de lugares sagrados (4.23,24); as obras de Deus não são interrompidas (5.17); a fé é o maior dos milagres (6.28-36); o pecado escraviza a vontade dos homens (8.39-47); os homens devem amar a Deus e uns aos outros, para serem filhos de Deus, que os liberta de sua escravidão (13,34,35).

O evangelho de João não é um guia abrangente como os Provérbios, nem direcionado às situações cotidianas como as parábolas de Jesus, mas um guia de conduta incrivelmente flexível, onde sabe-se o que Deus espera da conduta humana. Mas não há especificações exatas sobre ela. Como se, na expectativa do Reino de Deus, entre os que desejam aproximar-se do Senhor, a Lei fosse completamente obsoleta.

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¹ Uma cidade-estado é geralmente uma cidade cercada por muros, com a região agrícola fora dos muros. Nela não há um prefeito, mas um rei que governa uma área pequena, geralmente na margem de um rio, com sua própria língua, tradição e leis.

² Afora as curas milagrosas de Jesus, a cura da lepra, assim como de muitas outras parasitoses, só foi alcançada no séc. 20 com o desenvolvimento dos antibióticos. A grande inovação de Jesus, entretanto, foi o tratar com leprosos como se fossem qualquer pessoa. Na sociedade judaica, a lepra não era apenas uma moléstia contagiosa, mas também um sinal de impureza espiritual e maldição.

³ Num grau avançado de informação para sua época, os egípcios enviavam e recebiam rolos e tabuletas de correspondência de seus diversos territórios. Os faraós, então, muito antes de sentarem-se no trono, sabiam dos pormenores políticos e culturais de lugares tão distantes quanto a Palestina e a planície dos rios Tigre e Eufrates. As cartas de Amarna, por exemplo, dão relatórios da migração dos semitas desde que foram expulsos do Egito e em cada lugar onde desafiaram a autoridade do faraó.

* O Templo de Salomão ou 1º Templo foi destruído durante a tomada de Jerusalém pelo rei Nabucodonosor II (587 a.C.), do 2º Império Babilônico. As datas na Bíblia sugerem uma obra iniciada no fim do reinado de Salomão, para abrigar a Arca da Aliança. Ele empregou centenas de trabalhadores para produzir uma construção monumental, que levou 7 anos para ser terminada. Além do pagamento de muitos trabalhadores, o templo ainda usou materiais bastante valiosos (madeiras, tecidos caros, ouro e marfins) em sua confecção, o que acabou sendo um símbolo da era de prosperidade durante o reinado de Salomão. O Templo foi reconstruído quando os judeus voltaram da Babilônia e muitos séculos depois ele foi reformado/ampliado por Herodes o Grande, um vassalo de Roma, ao longo de 46 anos. Foi essa estrutura judaico-romana que Jesus visitou.

** A relação de vassalagem ou clientela implicava que um rei obedecia a outro. Havia a lei do rei maior (Tibérius), e a ela se emendavam os termos da lei do rei menor (Antipas). Não poucas vezes, os reis da Galiléia e da Judéia eram educados em ricas famílias romanas, para assegurar sua fidelidade cultural. Além do pagamento regular de impostos ao rei maior, o rei menor também abrigava legiões de patrulhamento, que serviam para garantir sua segurança em caso de ataque estrangeiro. As legiões no entanto não eram submissas a lei do rei menor, nem respeitavam os costumes das populações, o que fazia os habitantes terem grande repulsa por eles.

*** A impressão que temos a partir do Novo Testamento é de que o Cristianismo começou como uma série de pequenos grupos, com os quais os governos não teriam motivo de preocupação. Logo, qualquer ação contra os Cristãos parece motivada unicamente por um fundamentalismo acerca da lei de Moisés. O Concílio em 49 d.C. sobre os gentios serem aceitos como Cristãos sem tornarem-se judeus mostra que, embora pregada por judeus, a Cristandade chegou primeiramente aos gentios vivendo a leste da Síria. As muitas reações negativas a Paulo podem falar em contrário a uma passividade dos governos por onde ele andou quanto ao Cristianismo, mas em Israel é provável que a reação negativa acontecesse justamente porque o Cristianismo quebrava a separação de castas judeus vs. gentios. O Sinédrio não tinha autoridade sobre os gentios, e talvez assim perdesse seu poder sobre os judeus também.

Quanto a Roma, os judeus eram de certa forma proscritos por não aderirem ao culto dos césares. Os Cristãos também não aderiam a isso. As perseguições dos romanos a judeus e Cristãos após a destruição de Jerusalém (70 d.C.) sugerem, de certa forma, que Roma nem via diferença de uns e outros.

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PISTAS MUITO FALSAS, NÃO VÁ POR AQUI

Akhenaten - wikipedia
Code of Hammurabi - wikipedia
Code of Ur-Nammu - wikipedia
History of leprosy - wikipedia
Pink AW, Things omitted from John's gospel, biblehub.com
Urukagina - wikipedia

domingo, 26 de janeiro de 2014

O contrário da sabedoria

Hrothgar, o rei bêbado
mitologia nórdica

Qual é o antônimo de sabedoria? Citando Paulo Brabo em sua busca (ou ambição) pela necessidade dos contrários, a pessoa SEM sabedoria é aquela que torna sua vida sujeita ao acaso, que restringe sua felicidade ao um grupo seleto de coisas que “deveriam” acontecer. Na Bíblia, o contrário de sabedoria é insensatez, tolice. Essa falta de sabedoria, segundo a Bíblia, é encontrada naquele que age de forma impetuosa, com raiva, levado pela imprudência e pelos impulsos de um coração tormentoso. Por curioso que seja, na Bíblia o livro de Provérbios (onde a Sabedoria é ensinada) é seguido pelo livro de Eclesiastes, onde os sábios testemunham o abandono da Sabedoria entre os reis do povo de Deus.

O autor de Eclesiastes é misterioso. O seu estilo de escrita é compatível com Salomão, e não poucos historiadores atribuem o livro ao famoso rei de Israel, lembrado por milênios por sua incrível sabedoria, por ter construído o Templo e pela suntuosa riqueza. Ao iniciar o livro, esse autor sem nome se apresenta no original hebraico como Qohélet, aquele que fala por todos, ou pela “Ecclesiae”, a Congregação. Daí veio o nome traduzido como “Eclesiastes”.

O Eclesiastes sem dúvida é de um livro para ensino da Sabedoria, assim como Provérbios. Até o estilo de escrita de ambos os livros é semelhante: muda-se rapidamente de assunto, apresentando sempre o que é certo e o que é errado, como se fossem (e olha que improvável, isso) vários pequenos pergaminhos ou tabuletas emendados por copistas do passado.

Salomão pediu a Deus sabedoria para governar. Ele escreveu essa sabedoria na forma de diversos provérbios, mas isso nunca foi uma tarefa solitária a que um rei sábio se entregasse ao longo da vida. Para os hebreus, a Sabedoria provinha do falar dos sábios, do diálogo das pessoas, da Congregação. Por isso, Salomão assim reuniu diversos sábios (alguns dos quais são nomeados, como o rei Lemuel e Agur) e designou uma “equipe” que formaria algo como “livros-texto” para o ensino da Sabedoria dentro da corte e também para o povo. É possível que Qohélet fosse uma espécie de cargo, uma posição mais importante dentre os sábios.

É interessante notar que, de fato, alguns ensinos de Eclesiastes dificilmente poderiam ser atribuídos a um monarca criado entre famílias reais das terras ao redor de Israel e a riqueza que Davi reuniu:

Por isso desprezei a vida, pois o trabalho que se faz debaixo do sol pareceu-me muito pesado. Tudo era inútil, era correr atrás do vento! Desprezei todas as coisas pelas quais eu tanto me esforçara debaixo do sol, pois terei que deixá-las para aquele que me suceder. E quem pode dizer se ele será sábio ou tolo? Todavia, terá domínio sobre tudo o que realizei com o meu trabalho e com a minha sabedoria debaixo do sol. Isso também não faz sentido.

Cheguei ao ponto de me desesperar por todo o trabalho no qual tanto me esforcei debaixo do sol. Pois um homem pode realizar o seu trabalho com sabedoria, conhecimento e habilidade, mas terá que deixar tudo o que possui como herança para alguém que não se esforçou por aquilo. Isso também é um absurdo e uma grande injustiça. (2.17-22)

São palavras que caberiam melhor na boca de um experiente pastor!

OS SÁBIOS E O VAI E VEM DOS GOVERNANTES

Como membros da corte, era de se esperar que os sábios se preocupassem com a sucessão do rei: Davi havia sucedido Saul de uma forma imprevisível, passando de pastor a músico da corte, depois a guerreiro e finalmente levando Saul e seu filho Jônatas à morte. Salomão havia sucedido Davi após uma tentativa de seu irmão Absalão tomar o trono e também após a morte dos demais príncipes na linha de sucessão. Quem sucederia Salomão? Qual dos filhos das suas concubinas? Ou seria um jovem guerreiro anônimo a liderar os exércitos, como Davi?

Os sábios da corte sem dúvida assistiam a esse jogo de poderes, ao passo que reinos vizinhos mais poderosos, como o Egito e a Assíria, hora ofereciam amizade, hora faziam guerra. A fragilização do reino pela disputa interna e o abandono da obediência ao Senhor por parte da realeza levou Israel a ser duramente atacada pelo Egito, antes uma potência mantida à distância. Eis o lamento dos sábios, perante uma casa real que se desintegrava:

O que pode fazer o sucessor do rei, a não ser repetir o que já foi feito?
Qual é o homem, designado desde muito tempo, que virá depois do rei?
(duas versões de Eclesiastes 2.12b)

Mais vale um adolescente pobre, mas sábio, que um rei velho, mas insensato, que já não aceita conselhos; porque ele [o jovem] sai da prisão para reinar, se bem que pobre de nascimento no seu reino.

Vi todos os viventes, que se acham debaixo do sol, apressarem-se junto do adolescente que o ia suceder. Era interminável o cortejo dessa multidão, à testa da qual ele caminhava. Contudo, a geração seguinte não se regozijará por sua causa. Tudo isso é ainda vaidade e vento que passa. (Eclesiastes 4.13-16)

Os sábios também assinalavam a problemática das lideranças que os reis colocavam na corte:

Há outro mal que vi debaixo do sol, um erro cometido pelos que governam: tolos são postos em cargos elevados, enquanto homens de valor ocupam cargos inferiores. Tenho visto servos andando a cavalo, e príncipes andando a pé, como servos. (10.5-7)

Ao que parece, Salomão entregou-se ao estudo cuidadoso e prática daquilo que era a Sabedoria. No fim da vida, entretanto, Salomão deixou-se levar pelo poder que havia ganhado e esqueceu-se que esse poder lhe fora dado por Deus.

PELA INSENSATEZ DE VELHOS ERROS, O REINO SE QUEBRA

Como poderia o rei mais sábio cometer o erro de afastar-se da Fonte? De uma forma engraçada, nem a Sabedoria, nem a Insensatez são perenes em homem algum.

O rei Salomão amou muitas mulheres estrangeiras, além da filha do faraó. Eram mulheres moabitas, amonitas, edomitas, sidônias e hititas. Elas eram das nações a respeito das quais o SENHOR tinha dito aos israelitas: “Vocês não poderão tomar mulheres dentre essas nações, porque elas os farão desviar-se para seguir os seus deuses”
...
No monte que fica a leste de Jerusalém, Salomão construiu um altar para Camos, o repugnante deus de Moabe¹, e para Moloque, o repugnante deus dos amonitas². Também fez altares para os deuses de todas as suas outras mulheres estrangeiras, que queimavam incenso e ofereciam sacrifícios a eles. (1ª Reis 11)

Aparecendo a ele como fizera quando lhe deu sabedoria, Deus simplesmente assegurou que lhe tiraria o reino dos filhos. Era a mesma punição de Saul! De algum lugar surgiria alguém que o destronaria, e o velho Salomão sem dúvida questionava os sábios sobre quem seria esse.

Assim como Samuel avisou a Saul e depois ungiu o pastor Davi, dizendo que ele seria rei, um profeta foi chamado para avisar o futuro rei:

Também Jeroboão, filho de Nebate ... era um dos oficiais de Salomão, um efraimita de Zeredá, e a sua mãe era uma viúva chamada Zerua.
...
Naquela ocasião, Jeroboão saiu de Jerusalém, e Aías, o profeta de Siló, que estava usando uma capa nova, encontrou-se com ele no caminho. Os dois estavam sozinhos no campo, e Aías segurou firmemente a capa que estava usando, rasgou-a em doze pedaços e disse a Jeroboão:

“Apanhe dez pedaços para você, pois assim diz o SENHOR, o Deus de Israel: ‘Saiba que vou tirar o reino das mãos de Salomão e dar a você dez tribos. Mas, por amor ao meu servo Davi e à cidade de Jerusalém, a qual escolhi dentre todas as tribos de Israel, ele terá uma tribo. Farei isso porque eles me abandonaram e adoraram Astarote, a deusa dos sidônios³, Camos, deus dos moabitas, e Moloque, deus dos amonitas, e não andaram nos meus caminhos, nem fizeram o que eu aprovo, nem obedeceram aos meus decretos e às minhas ordenanças, como fez Davi, pai de Salomão. Mas não tirarei o reino todo das mãos de Salomão. Eu o fiz governante todos os dias de sua vida por amor ao meu servo Davi, a quem escolhi e que obedeceu aos meus mandamentos e aos meus decretos. Tirarei o reino das mãos do seu filho e darei dez tribos a você. Darei uma tribo ao seu filho a fim de que o meu servo Davi sempre tenha diante de mim um descendente no trono em Jerusalém, a cidade onde eu quis pôr o meu nome.

Quanto a você, eu o farei reinar sobre tudo o que o seu coração desejar; você será rei de Israel. Se você fizer tudo o que eu lhe ordenar e andar nos meus caminhos e fizer o que eu aprovo, obedecendo aos meus decretos e aos meus mandamentos, como fez o meu servo Davi, estarei com você. Edificarei para você uma dinastia tão permanente quanto a que edifiquei para Davi, e darei Israel a você. Humilharei os descendentes de Davi por causa disso, mas não para sempre.”

Salomão [tomado pela insensatez] tentou matar Jeroboão, mas ele fugiu para o Egito, para o rei Sisaque, e lá permaneceu até a morte de Salomão. (1ª Reis 11)

De uma forma estranha e trágica, o que era passado voltava ao presente. Um jovem militar se tornaria poderoso, seria líder e depois perseguido pelos exércitos do velho rei. Em seguida voltaria e assumiria o trono.

O Egito havia sido afastado por Salomão e possivelmente alguns egípcios (negros) haviam se tornado escravos em Israel. Esses seriam os instrumentos do levante do novo rei:

Ora, Jeroboão era homem capaz, e, quando Salomão viu como ele fazia bem o seu trabalho, encarregou-o de todos os que faziam trabalho forçado, pertencentes às tribos de José. (1ª Reis 11.28)

Salomão foi sucedido por seu filho Roboão, de quem o Senhor assegurou que tiraria o trono. Quando Roboão assumiu, chegou a ele o pedido dos escravos: “Teu pai colocou sobre nós um jugo pesado, mas agora diminui o trabalho árduo e este jugo pesado, e nós te serviremos”. Os sábios então aconselharam Roboão a fazer o que os escravos pediam, mas não foram ouvidos! O lamento do Qohélet contra o rei demonstrava que já os soberanos haviam desdenhado dos “sábios do reino”.

Quando todo o Israel viu que o rei se recusava a ouvi-los, respondeu ao rei: “Que temos em comum com Davi? Que temos em comum com o filho de Jessé? Para as suas tendas, ó Israel! Cuide da sua própria casa, ó Davi!” E assim os israelitas foram para as suas casas.

Quanto, porém, aos israelitas que moravam nas cidades de Judá, Roboão continuou como rei deles. O rei Roboão enviou Adonirão, chefe do trabalho forçado, mas todo o Israel o apedrejou até a morte. O rei, contudo, conseguiu subir em sua carruagem e fugir para Jerusalém.

Dessa forma Israel se rebelou contra a dinastia de Davi, e assim permanece até hoje. Quando todos os israelitas souberam que Jeroboão tinha voltado, mandaram chamá-lo para a reunião da comunidade [a Ecclesiae] e o fizeram rei sobre todo o Israel. Somente a tribo de Judá permaneceu leal à dinastia de Davi. (1ª Reis 12)

FINDADO O REINO GRANDE, FINDAR-SE-ÃO OS MENORES

Roboão ficou como rei de Judá (com 2 tribos, a maior sendo Judá) e Jeroboão tornou-se rei de Israel (com 10 tribos, a maior sendo Efraim).

Apesar de ungido para o trono como Davi, Jeroboão rapidamente acreditou que chegara ao trono por seus próprios méritos. Empreendeu uma campanha para descaracterizar o reinado de Salomão (onde estava o Templo), criando ídolos de ouro a quem ele e o povo ofereciam sacrifícios por sua libertação do Egito! Então o Senhor mandou o profeta Aías dizer a sua mulher:

Vá dizer a Jeroboão que é isto o que o SENHOR, o Deus de Israel, diz: ‘Tirei-o dentre o povo e o tornei líder sobre Israel, o meu povo. Tirei o reino da família de Davi e o dei a você, mas você não tem sido como o meu servo Davi, que obedecia aos meus mandamentos e me seguia de todo o coração, fazendo apenas o que eu aprovo.

Você tem feito mais mal do que todos os que viveram antes de você, pois fez para si outros deuses, ídolos de metal; você provocou a minha ira e voltou as costas para mim. Por isso, trarei desgraça à família de Jeroboão. Matarei de Jeroboão até o último indivíduo do sexo masculino em Israel, seja escravo ou livre. Queimarei a família de Jeroboão até o fim como quem queima esterco. Dos que pertencem a Jeroboão, os cães comerão os que morrerem na cidade, e as aves do céu se alimentarão dos que morrerem no campo. O SENHOR falou!” (1ª Reis 14)

Houve conflito entre as duas dinastias, de Judá e de Israel, pelos 2 séculos seguintes, quando a Assíria invadiu Israel e, depois, quando a Babilônia organizou-se e levou cativos os restantes de Israel (então abrigados em Judá) e os habitantes de Judá.

O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol. Haverá algo de que se possa dizer: “Veja! Isto é novo!”? Não! Já existiu há muito tempo, bem antes da nossa época. Ninguém se lembra dos que viveram na antigüidade, e aqueles que ainda virão tampouco serão lembrados pelos que vierem depois deles. (Eclesiastes 1.9-11)

O insensato, curiosamente, sujeita-se às ações de Deus tanto quanto o sábio. Ele apenas condiciona sua felicidade a algo que dificilmente Deus faria.

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¹ Camos ou Qemósh era, aparentemente, o deus das entranhas. Supostamente os devotos defecavam em seus locais de culto, para que os sacerdotes fizessem previsões a partir das fezes.

² Moloque era um deus agrícola da fertilidade, ao qual seus devotos ofereciam os primogênitos bebês em sacrifício, queimando-os vivos nos altares. Daí o apelido “moleque”.

³ Astarote ou Astarte era a deusa que controlava o destino dos homens, associada geralmente às estrelas (daí a palavra “star” ou mesmo o nome Ishtar). Talvez sua adoração estivesse associada à queda de um grande meteorito no Oriente Médio, perto de onde hoje fica Meca.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A demasia das palavras


DEVE-SE EVITAR A DEMASIA DAS PALAVRAS

1. Evita quanto puderes o bulício dos homens: porque o trato de coisas mundanas, ainda que se faça com intenção pura, é muito prejudicial. Pois depressa nos deixamos manchar e prender pela vaidade.

2. Bem quisera eu muitas vezes haver-me calado, e não ter estado entre os homens. Mas, por que gostamos tanto de falar e conversar com outros, se tão poucas vezes voltamos ao silêncio sem dano da consciência?

A razão por que falamos assim tão de boa vontade é que, com tais conversas, procuramos consolar-nos mutuamente, e desejamos aliviar o coração cansado de tantas preocupações. E de muito boa vontade nos pomos a falar ou pensar nas coisas que amamos e desejamos, ou nas que nos contrariam.

3. Mas, ai! Muitas vezes em vão e sem fruto; porque esta consolação exterior é de pouco dano e a consolação interior é divina. Vigiemos, pois, e oremos, para que não passe o tempo inutilmente.

Se for lícito e conveniente falar, dize coisas edificantes. O mau costume e o descuido de nosso aproveitamento muito contribuem para a pouca guarda de nossa língua. Não pouco, porém, aproveitam para o progresso espiritual as piedosas palestras sobre assuntos espirituais, especialmente quando se reúnem no Senhor pessoas animadas do mesmo coração e espírito.

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Esse é um pequeno fragmento do precioso IMITAÇÃO DE CRISTO, um manuscrito feito entre 1220-1240 por João Gersen, abade do mosteiro de S. Estevão, em Vercelli (Itália). Os 4 manuscritos originais foram depois organizados por Tomás de Kempis no séc. 15 e usado em larga escala para o ensino religioso na Europa. Pode-se dizer que boa parte do que conhecemos por Cristianismo está associado a esse livro.

O texto acima trata sobre o uso da fala, que deve ser pequeno e tido como inferior à consolação interior, divina. Embora todos possamos reconhecer o silencio habitual dos monastérios nessa passagem, em diferença da exaltada “conversa mundana” que “alivia o colação”, seria isso mesmo o que a Bíblia ensina? Não estaríamos frente a mais uma forma de purificação enraizada na mente humana? Para responder a essa pergunta, recorro ao Livro de Provérbios, que trata de assuntos variados com a sabedoria que foi ensinada e propagada a partir de Salomão.

Ali encontramos algumas sentenças instrutivas como

Não pode faltar o pecado num caudal de palavras (10.19a)
[Uma cidade] é destruída pelas palavras dos maus (11.11b)
O homem sábio guarda silêncio (11.12b)
O perverso trai os segredos (11.13a)
O homem se farta com o fruto de sua boca (12.14a)
O homem prudente oculta sua sabedoria; o coração do insensato proclama sua loucura (12.23)
Quem vigia sua boca guarda sua vida; quem muito abre seus lábios se perde (13.3)
A boca dos tolos sacia-se de loucuras (15.14b)
A boca dos maus vomita o mau (15.28b)
O que mede suas palavras possui a ciência (17.27a)
Mesmo o insensato passa por sábio quando se cala; por prudente quando fecha sua boca (17.28)
A boca do tolo é a sua ruína; seus lábios são uma armadilha para a própria vida (18.7)
Quem responde antes de ouvir passa por tolo e se cobre de confusão (18.13)
O que vigia sua língua e sua boca preserva sua vida da angústia (21.23)
Viste um homem precipitado no falar; há mais esperança no tolo do que nele (29.20)


Todos esses versículos recomendam de fato o que diz o texto do Imitação de Cristo, ou seja, que a fala seja pouca. Mas atentemos que o Livro de Provérbios refere-se, quase sempre, à fala do Tolo, do Mau, do Perverso. Esses são personagens caricatos de Provérbios que falam bastante e prejudicam a todos com as mentiras, as loucuras e as traições de segredos que proferem. Principalmente, são personagens que falam antes de ouvir, que desprezam e promovem brigas:

A boca dos maus [sabe dizer] o que é mau (10.32b)
Quem despreza seu próximo mostra falta de senso (11.12a)
Ao insensato parece reto o seu caminho (12.15a)
O falador fere com golpes de espada (12.18)
Uma palavra dura excita à cólera (15.1b)
A língua perversa corta o coração (15.4b)
A boca do insensato atrai açoites (18.6b)

Nesse caso, como diz o Imitação, “bem quisera eu muitas vezes haver-me calado, e não ter estado entre os homens”, pois trata-se da marca do insensato. Em outras palavras, aquele-que-não-pensa.

Mas o Livro de Provérbios, ao contrário, não recomenda o silêncio. Ele enaltece a palavra que provém da meditação segundo a Sabedoria fornecida por Deus (nas palavras de Jesus, em amor ao Pai e ao próximo).

Os lábios do justo sabem dizer o que é agradável (10.32a)
Um coração leal mantém ocultos os segredos (11.13b)
O sábio ouve os conselhos (12.15b)
A língua dos sábios cura (12.18b)
Uma boa palavra restitui a alegria [ao coração] (12.25b)
Uma resposta branda aplaca o furor (15.1a)
Como é agradável uma palavra oportuna! (15.23b)
O coração do justo estuda sua resposta (15.28b)
A doçura da linguagem aumenta o saber (16.21b)
Dá um beijo nos lábios o que responde com sinceridade (23.16)
Amáveis instruções surgem da língua [da mulher virtuosa] (31.26b)

Embora o Imitação coloque bons adjetivos apenas nas “palestras sobre assuntos espirituais”, o Livro de Provérbios propositalmente coloca esses ensinos sobre a linguagem no meio daqueles sobre todos os outros assuntos. Não se trata de horas especiais onde há um “falar” positivo: isso se aplica a todos os momentos, mesmo os mais corriqueiros.

Ainda, o Livro de Provérbios apresenta que certas vezes a palavra não deve ser contida, especialmente se ela provém do Justo ou do Sábio, outros personagens caricatos:

A língua do justo é prata finíssima (10.20a)
A boca do justo produz sabedoria (10.31a)
A boca dos justos salva [os ímpios] (12.6b)
Os lábios sinceros permanecem constantes (12.19a)
Quem visita os sábios torna-se sábio (13.20a)
A língua dos sábios ornamenta a ciência (15.2a)
A língua sã é uma árvore de vida (15.4a)
O coração do sábio torna sua boca instruída (16.23a)
Jóia rara é a boca sábia (20.15b)
Abre tua boca a favor do mundo, pela causa de todos os abandonados (31.8)
Faze justiça ao aflito e ao indigente (31.9b)

Dessa forma, Provérbios instrui a falar após buscar aconselhamento e sabedoria, de forma amável, a favor dos abandonados, aflitos e indigentes.

Quanto ao aconselhamento íntimo (ou auto-aconselhamento), que o Imitação indica como “divino”, isso é assunto duvidoso para os seguidores de Salomão:

É do fruto de sua boca que um homem se nutre; com o fruto de seus lábios ele se farta (18.20)
Água profunda [ou tenebrosa] é o conselho [ou intento] no íntimo do homem; o homem inteligente sabe pô-los para fora (20.5)

Já dizia Jeremias. Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o poderá conhecer? (Jeremias 17.9)

sábado, 9 de novembro de 2013

Sabedoria de Salomão - os autores misteriosos

Salomão, na re-pintura de um famoso desenho de Gustave Doré

Faz tempo que estou ensaiando escrever sobre o livro Sabedoria de Salomão, às vezes simplesmente chamado de Sabedoria. Acho que eu sempre fiquei impressionado com o fato de um livro ser ao mesmo tempo tão religioso, tão humano e tão apócrifo. Faz a gente pensar... Se os livros da Bíblia são os únicos inspirados por Deus, o livro de Sabedoria foi um dos primeiros demitidos desse rol de obras sagradas (em outras palavras, suspeita-se que o autor não foi inspirado por coisa alguma). Se há livros fora da Bíblia inspirados por Deus, porque continuam fora? E se não houve inspiração nenhuma para esse livro, porque ele pesa tanto no coração a ponto de colocar religiosos acalorados em lados distintos da disputa?

Se repararmos bem, só os 10 Mandamentos, em toda a Bíblia, foram ensino racisticamente divino. Todo o restante são exemplos bons, ruins e duvidosos da vida de PESSOAS que se relacionaram com Deus. Pessoas que amaram, sofreram, tiveram ódio, festejaram, encheram a cara, tiveram vermes, bateram, apanharam, casaram, ajudaram, etc. Mesmo o código de leis de Moisés, talvez a parte mais legalista de toda a Bíblia, parece feito e ajustado para as pessoas que viviam junto dele. Paulo e Pedro também falaram (e até brigaram) de regras de comportamento, mas nelas transparece nitidamente um Paulo abandonado nas prisões e um Pedro receoso pelo seu status, a única riqueza de um pescador pobre e velho. Como poderiam não falar do que tinham o coração cheio?

1ª PARTE - PRÓLOGO E ADVERTÊNCIA AOS LEITORES (1.1 até 1.11)

"Somente o puro poderá ler esse livro"... É mais ou menos nesse tom que se inicia a narrativa. O autor dirige-se aos reis e adverte que o Senhor se afasta de qualquer forma de maldade, sendo alcançado somente pela simplicidade de coração. Assim a parte inicial adverte os leitores:

Aquele que profere uma linguagem iníqua, não pode fugir dele, e a Justiça vingadora não o deixará escapar; pois os próprios desígnios do ímpio serão cuidadosamente examinados; o som de suas palavras chegará até o Senhor, que lhe imporá o castigo pelos seus pecados. É, com efeito, um ouvido cioso, que tudo ouve: nem a menor murmuração lhe passa despercebida. (Sab 8.10)

E você preocupado com hackers...

2ª PARTE - O PODER DE DEUS (1.12 até 9.18)

O livro segue então fazendo uma ode ao poder do Senhor, identificado aqui também como a Sabedoria, como no livro de Provérbios. O Senhor/Sabedoria retribui de forma fantástica aos que o seguem em seus modos de vida, e também põe fim ao ímpio. A Sabedoria consiste em uma vida de pureza, como era o pensamento grego:

Não procureis a morte por uma vida desregrada, não sejais o próprio artífice de vossa perda. Deus não é o autor da morte, a perdição dos vivos não lhe dá alegria alguma. Ele criou tudo para a existência, e as criaturas do mundo devem cooperar para a salvação. Nelas nenhum princípio é funesto, e (a Morte, ou o Hades) não é a rainha da terra, porque a justiça é imortal. Mas, (a Morte), os ímpios a chamam com o gesto e a voz. Crendo-a amiga, consomem-se de desejos, e fazem aliança com ela; de fato, eles merecem ser sua presa. (Sab 1.12-15)

Existe uma diferença conceitual entre essa busca por pureza e o que Paulo descreve em suas cartas. Ele enumera princípios espirituais que devem governar a vida das pessoas: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança, e que se distinguem das "paixões carnais". Aqui, a pureza se aplica ao mundo carnal (o equivalente do atual "coma verduras", "pratique exercícios"). Tal filosofia de pureza é tipicamente grega e norteou muito do pensamento atual, além do pensamento ROMANO quando João, Jesus e os discípulos pregavam. Por isso, rapidamente a pregação do Cristianismo foi associada a uma moral de comportamentos que, de fato, NÃO APARECE nas falas do Senhor.

A idéia de morte apresentada no Velho Testamento, como uma punição ou destruição, aqui é pela 1ª vez contraposta com a Salvação, que inaugura o Novo Testamento:

Ele [o justo morto] agradou a Deus e foi por ele amado, assim [Deus] o transferiu do meio dos pecadores onde vivia. Foi arrebatado para que a malícia lhe não corrompesse o sentimento, nem a astúcia lhe pervertesse a alma. ... O justo, ao morrer, condena os ímpios que sobrevivem, e a juventude, atingindo tão depressa a perfeição, confunde a longa velhice do pecador. Eles verão o fim do sábio, e não compreenderão os desígnios do Senhor a seu respeito, nem por que ele o pôs em segurança. (Sab 4.10-17)

Embora muitos cristãos atribuam essa "mudança de entendimento" à pregação de Jesus, ela na verdade ocorreu um pouco antes e um tanto longe de Israel.

O filósofo grego-judeu Philon (20 a.C. - 50 d.C.) foi um dos que se puseram a estudar o judaísmo na Escola de Alexandria (anexa à Grande Biblioteca), acreditando que a interpretação criteriosa da Torá poderia conduzir o homem ao conhecimento de Deus (Sabedoria). Durante a perseguição do judeus pelo imperador Gaius Julius Caesar Augustus Germanicus (Calígula) quando se recusaram a prestar culto ao imperador, Philon fez a defesa dos judeus contra seus acusadores. Sua obra foi marcada pela idéia da "Salvação do justo", que ele via transparecer na Torá. Por exemplo, quando Calígula recusou-se a ouvir seus argumentos, Philon anunciou ao povo que "a raiva do imperador colocava Deus contra ele". Esse conceito difundiu-se enormemente em toda Roma e Grécia, de forma que a pregação libertária de Jesus talvez tenha sido surpreendente aos judeus pobres, mas certamente não era estranha aos Fariseus como Gamaliel, nem aos romanos como Saulo de Tarso.

A exposição sobre a Sabedoria é sem dúvida a parte mais religiosa do livro, colocando a ação divina como comandadora absoluta das ações humanas perpetradas pelos próprios humanos! E qual era o maior símbolo judeu de Sabedoria? Salomão.

SABEDORIA DE SALOMÃO

O 1º comentário sobre o livro Sabedoria de Salomão apareceu na obra do historiador romano Eusebius de Cesaréia (260-340 d.C.), que escrevia a história dos judeus a partir dos livros sagrados. Para os historiadores de hoje, só isso isso já desqualifica o livro como obra de um rei judeu de 950 a.C. Afinal, AONDE o livro teria estado em todo esse tempo que jamais se falou qualquer coisa dele? Além disso, a cópia mais antiga usa a palavra "sebasma" para identificar "ídolo". Essa gíria foi típica do reinado de César Augustus (63 a.C. - 14 d.C.), quando os imperadores começaram a ser cultuados como deuses... e o próprio livro fala muito sobre idolatria. Finalmente, o modo como foi escrito lembra muuuuito os discursos do de Philon de Alexandria.

Os vários períodos são semelhantes, assim há um consenso de que o livro de Sabedoria deve ter surgido nas últimas décadas a.C., certamente obra de um judeu altamente educado na política e filosofia da época. Talvez um intelectual da escola de Alexandria, até, pois as versões mais antigas estão em diversas línguas. Se fosse a obra de um intelectual, certamente teria sido importante... Mas salta aos olhos que o autor tenta descaradamente passar-se por Salomão:

Tu [Senhor] me escolheste como rei do teu povo e juiz dos teus filhos e filhas. Tu me mandaste construir um templo sobre o teu santo monte, um altar na cidade onde fixaste a tua tenda, cópia da tenda santa que tinhas preparado desde o princípio. ... Assim, as minhas obras ser-Te-ão agradáveis, poderei governar com justiça o teu povo, e serei digno do trono de meu pai. (Sab 9.7-12)

Por isso os Protestantes excluíram esse livro da Bíblia, "por não ser realmente obra da pessoa que o nomeia, ou de alguém que tenha presenciado os fatos que descreve". Quem exatamente foi o autor, ninguém sabe. Não era raro autores atribuírem as próprias obras a gente famosa, a fim de que fossem divulgadas. O valor do livro está em ele ser, cronologicamente, a última obra do Velho Testamento e assim nos deixar em conhecimento de como era o mundo quando Jesus nasceu.

A exposição histórica em favor de um autor “Salomão” é tremendamente humana. E certamente poucos livros mereceriam tanto o lugar de Apócrifo como esse, dada sua autoria fortemente fora da narrativa dos demais livros e deliberadamente feita para ser um instrumento de ensino religioso-filosófico para os reis.

A HISTÓRIA (10 ATÉ 19)

"Salomão" faz uma valiosa descrição da história judaica até o "seu reinado". Esse trecho tem a particularidade de ser bastante implícito, sem que os fatos seja enumerados, como seria de se esperar de um historiador alheio. Ao invés disso, ele fala como se falasse a um judeu capaz de "detectar" o conteúdo histórico em suas frases:

Quanto aos que a honram, a Sabedoria os liberta de sofrimentos; foi ela que guiou por caminhos retos o justo que fugia à ira de seu irmão; mostrou-lhe o reino de Deus, e deu-lhe o conhecimento das coisas santas. Ajudou-o nos seus trabalhos, e fez frutificar seus esforços. Cuidou dele contra ávidos opressores e o fez conquistar riquezas. Ela o protegeu contra seus inimigos e o defendeu dos que lhe armavam ciladas; e no duro combate, deu-lhe vitória, a fim de que ele soubesse quanto a piedade é mais forte que tudo. (Sab 10.9-12)

Nesse trecho, fala-se em Jacó fugindo de Esaú, sendo explorado por Labão e lutando contra o Anjo do Senhor. Através da história como é apresentada, podemos ter idéia de quais pontos eram valiosos e críticos para os habitantes da época:

  • o dilúvio tinha vindo por causa de Caim (10.4)
  • Abraão era irrepreensível diante de Deus (10.5)
  • as 4 cidades vizinhas a Sodoma eram interligadas e sucumbiram juntas ao fogo; a terra ao seu redor ainda era fumegante no tempo de "Salomão" (10.6)
  • José foi acusado injustamente (10.14)
  • Moisés se opôs a reis temíveis (11.16)
  • os egípcios foram engolidos pelo Mar Vermelho (11.19)
  • a 1ª Páscoa foi celebrada em meio a milagres (11.21)
  • com o Nilo tornado em sangue, a sede dos egípcios havia sido assustadora (11.8)
  • os egípcios foram punidos por sua adoração a animais "estúpidos" (11.15)
  • os judeus acreditavam que a punição dos egípcios havia sido pequena (11.17-19)
  • Deus ama tudo o que existe (11.24)
  • os antigos habitantes de Israel eram detestados por Deus, por causa de seus ritos mágicos e sacrifícios humanos, em especial de crianças (12.4-6)
  • Deus usa os animais em seus propósitos, dividindo-os em animais bons e “estúpidos” (12.8)
  • o Senhor é indulgente: após o pecado, há tempo para a penitência (12.18-19)

Provavelmente, esses pontos estão presentes na adoração cristã e judaica dos dias atuais ainda, com vários rebuscamentos permissíveis em épocas de paz. No caso, uma ênfase especial do autor que difere dos dias atuais está na importância ou qualidade dos animais e objetos associados a Deus. Entre os animais usados nas pragas do Egito, por exemplo, era importante que fossem “animais estúpidos” ou “sem valor”, como forma de humilhação. De fato, o adjetivo “desprezível” é usado constantemente com os egípcios e todo inimigo dos judeus, como uma reafirmação constante contra a submissão do povo que o autor se recusava a ver. Como podia o povo de Deus estar sob jugo de uma nação idólatra?

OS IDÓLATRAS

O autor de Sabedoria discorre sempre longamente sobre o Egito dos faraós, vinculando-o ao seu próprio tempo. Talvez lhe incomodasse muito o fato de estudar os textos hebraicos numa época em que os judeus eram dominados (pelos romanos) justamente numa cidade da terra onde haviam sido escravos. Sempre vinculada ao Egito aparece a idolatria de animais “estúpidos” e objetos “sem valor” construídos pelos próprios homens. Nisso ele elabora lindas parábolas sobre as formas pelas quais os homens se afastam do verdadeiro Deus: “São insensatos por natureza todos os que desconheceram a Deus, e, através dos bens visíveis, não souberam conhecer Aquele que é, nem reconhecer o Artista, considerando suas obras” (Sab 13.1). É nesses trechos sobre a idolatria e o Êxodo que vemos a brilhante humanização do relato bíblico, com a transposição para os sentimentos humanos de assuntos fortemente teológicos.

1. Tomaram o fogo, ou o vento, ou o ar agitável, ou a esfera estrelada, ou a água impetuosa, ou os astros dos céus, por deuses, regentes do mundo. (Sab 13.2)

2. Um lenhador cortou e serrou uma árvore fácil de manejar. Habilmente ele lhe tirou toda a casca, e com a habilidade do seu ofício, fez dela um móvel útil para seu uso. Com as sobras de seu trabalho, cozinhou comida, com que se saciou. O que ainda lhe restava, não era bom para nada, não passando de madeira torcida e toda cheia de nós; contudo, ele a tomou e consagrou suas horas de lazer a talhá-la; ele a trabalhou com toda a arte que adquirira, e lhe deu a semelhança de um homem, ou o aspecto de algum vil animal. Pôs-lhe vermelhão, uma demão de uma tinta encarnada, e encobriu-lhe cuidadosamente todo defeito. Em seguida, preparou-lhe um nicho digno dele. e o fixou à parede, segurando-o com um prego: foi por medo que caísse, que tomou este cuidado, porque sabe muito bem que ele não pode ajudar-se a si mesmo, pois não passa de uma estátua que tem necessidade de um apoio. Mas quando lhe implora por seus bens, seus casamentos, seus filhos, não se envergonha de falar ao que é inanimado, e pede saúde ao que é desprezível. (Sab 13.11-17)

3. Um pai aflito por um luto prematuro, tendo mandado fazer a imagem do filho tão cedo arrebatado, honrou, em seguida, como a um deus aquele que não passava de um morto, e transmitiu, aos seus, certos ritos secretos e cerimônias. Este costume ímpio, tendo-se firmado com o tempo, foi depois observado como lei. (Sab 14.15-16)

4. Foi também em conseqüência das ordens dos príncipes que se adoraram imagens esculpidas, porque aqueles que não podiam honrar pessoalmente, porque moravam longe deles, fizeram representar o que se achava distante, e expuseram publicamente a imagem do rei venerado, a fim de lisonjeá-lo de longe com seu zelo, como se estivesse presente. Isto contribuiu ainda para o estabelecimento deste culto, mesmo entre os que não conheciam o rei. Foi a ambição do artista, que, talvez, querendo agradar ao soberano, deu-lhe, por sua arte, a semelhança do belo. E a multidão, seduzida pelo encanto da obra, em breve tomou por deus aquele que tinham honrado como homem. (Sab 14.17-20)

5. Eis, portanto, um oleiro que amassa laboriosamente a terra mole, e forma diversos objetos para nosso uso, mas da mesma argila faz vasos destinados a fins nobres e outros, indiferentemente, para usos opostos [pinicos]. Para qual destes usos cada vaso será aplicado? O oleiro será o juiz. Do mesmo barro forma também, como obreiro perverso, uma vã divindade, ele que, ainda há pouco, nasceu da terra, e em breve voltará a ela, de onde foi tirado, quando lhe serão pedidas as contas de sua vida. (Sab 15.7-8)

EGITO - UM PESADELO FILOSÓFICO

O autor de Sabedoria discorre em longos trechos sobre os animais das pragas lançadas sobre o Egito,  os animais repugnantes, a praga da escuridão em especial e o maná. Uma vez que o texto do Êxodo é muito menos detalhado a respeito disso, podemos supor que se tratam de elucubrações das quais se ocupariam, isso é claro, um filósofo grego. Sua dedicação a expor os detalhes intimistas do Êxodo nem deixa espaço para o conto histórico! É nesses trechos finais sobre a idolatria e o Êxodo que vemos a brilhante humanização do relato bíblico, com a transposição para os sentimentos humanos de assuntos fortemente teológicos. Por exemplo, é muito clara a separação entre animais estúpidos, desprezíveis, etc (sapos, moscas, vespas) e os outros animais (codornizes, bois, etc). A diferenciação, entretanto, é imputada a Deus, num legítimo processo de generalização (se eu não uso... então não serve para nada):

... os mais odiosos animais, que são piores ainda que outros animais irracionais, e nem mesmo possuem o que outros seres viventes possuem: bastante beleza para serem amados, que foram excluídos de aprovação e da bênção de Deus (Sab 15.18-19)

... aqueles [os egípcios], mau grado a sua fome, diante do aspecto hediondo dos animais enviados contra eles, experimentaram a náusea; estes [os hebreus], após uma curta privação, receberam um alimento maravilhoso [codornizes caídas do céu] (Sab 16.1-3)

O maná também é idealizado como um “alimento dos anjos” nessas elucubrações filosóficas, de uma forma que não aparece no Livro do Êxodo nem em qualquer outra parte da Bíblia.

... foi com o alimento dos anjos que alimentantes o vosso povo, e foi do céu que, sem fadiga, vós lhes enviastes um pão já preparado, contendo em si todas as delícias e adaptando-se a todos os gostos... Ela se adaptava ao desejo de quem a comia, e transformava-se naquilo que cada um desejava. ... O que não era destrutível pelo fogo fundia-se ao calor de um raio de sol. (Sab 16.25-27)

Sabores são impossíveis de se descrever em palavras, mas o Livro do Êxodo coloca que o maná simplesmente tinha o sabor de uma torta de mel. Esperemos que todos imaginassem o mel então... Quanto aos 3 dias de densa escuridão lançados sobre o Egito (Ex 10.21), as elucubrações também são notáveis:

Mesmo o canto mais afastado em que se abrigavam não os punha ao abrigo do terror: ruídos aterradores ressoavam em torno deles, e taciturnos espectros de lúgubre aspecto lhes apareciam. Nenhuma chama, por intensa que fosse, chegava a iluminar. E a luz brilhante dos astros era impotente para alumiar esta noite sombria. Mas aparecia-lhes de súbito nada mais que uma chama aterradora, e, tomados de terror por esta visão fugitiva, julgavam essas aparições mais terríveis ainda ... dormiam num mesmo sono, agitados, de um lado, pelo terror dos espectros, e paralisados, de outro, pelo desfalecimento da alma ... O silvo do vento, o canto harmonioso dos passarinhos nos ramos espessos, o murmúrio da água correndo precipitadamente, o estrondo das rochas que se despenhavam, a carreira invisível dos animais que saltavam, os urros dos animais selvagens, o eco que repercutia nas cavidades dos montes: tudo os paralisava de terror. Enquanto o mundo inteiro era alumiado de uma brilhante luz, e sem obstáculo se entregava às suas ocupações, somente sobre eles se estendia uma pesada noite, imagem das trevas que mais tarde os deviam acolher; e eram para si mesmos um peso mais insuportável que esta escuridão. (Sab 17

Contudo, para vossos santos havia uma luz brilhantíssima. Sem verem seus semblantes, os outros ouviam-lhes a voz, e julgavam-nos felizes por não sofrerem os mesmos tormentos. (Sab 18.1)

Assim, a Escuridão no Egito foi  traduzida como medo e pavor na alma dos egípcios. Esse detalhamento de sentimentos vai muito além do texto mais "seco" do Êxodo, e novamente faz parte do pensamento intimista grego, estando quase ausente nos textos sobre “a coletividade” dos judeus.

Na derradeira praga, que exterminaria os primogênitos dos egípcios, o autor enxergou a retribuição pelo massacre dos inocentes quando Moisés foi salvo (Ex 1.15-16; 1.22). Na ocasião, o Faraó havia mandado exterminar os meninos hebreus. Agora, pois um anjo vinha exterminar os meninos egípcios:

Uma mesma sentença feria o escravo e o senhor, o homem do povo sofria o mesmo castigo que o rei. Todos igualmente tinham um número incalculável de mortos abatidos da mesma maneira; os sobreviventes não eram suficientes para sepultá-los. Porque, num instante, sua melhor geração era exterminada. (Ex 18.11-12)

E dessa forma o livro termina, sem um dito sequer sobre os profetas, juízes, ou o reinado de Davi. É provável que nem todo o material da Torá estivesse ao alcance do autor, ou que (o mais provável) a escrita do livro tenha sido deliberadamente interrompida. Afinal, já se constituía em uma obra bem distante dos livros sapienciais como Salmos e Provérbios, tornando-se em uma bela análise humana.

Embora Sabedoria seja um livro extra-bíblico (ao menos para os protestantes), definitivamente trata de uma iniciativa bela (e fantasiosa, claro) de entender ou tornar íntima a história judaica.

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VAI LÊ, FIO, VAI SIM

Ivo Storniolo, Como ler o livro da Sabedoria, Paulus, 1993
Philo of Alexandria - wikipedia