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domingo, 6 de outubro de 2019

Salomão, Jesus e as leis

A Sabedoria de Salomão, do ilustrador James Tissot (1836-1902). No relato bíblico, há uma criança morta e duas mulheres disputam a criança que restou. O rei Salomão ordena que a criança seja repartida ao meio (o que felizmente não acontece), para saber qual delas se sacrificaria pelo filho.

As leis são formas de controle coletivo do comportamento das pessoas. Elas fazem com que as pessoas adiram aos hábitos, rituais e modos de agir determinados por um governo. Moisés instituiu leis sobre o povo judeu, as primeiras que a Bíblia ou o Tanakh (livro judeu da Lei) relatam. Mas há outras formas de governo, não amparadas na rigidez de uma lei, mas no aconselhamento que guia as atitudes das pessoas.

AS LEIS DE MOISÉS

Moisés é o primeiro legislador judaico documentado na Bíblia. Sua identidade é misteriosa, podendo ser uma pessoa real ou até a fusão de vários personagens como um sacerdote de Baal de quando os egípcios expulsaram os Hyksos de volta para a Palestina (1500 a.C.), um sacerdote do deus sol do faraó Akenathen (1350 a.C, pai do famoso Tutankhamon) e algum sacerdote midianita, povo de fora da Palestina que Moisés reconheceu como seu. O que sabemos é que tudo sobre ele foi bem re-composto pelos sacerdotes do rei Josias (649-609 a.C.) a partir de antigos escritos encontrados no 1º Templo e há muito perdidos, junto com o próprio templo (587 a.C.). O resultado foi algo como a lenda grega de Odisseu / Ulisses (que andou por todo mundo e participou de várias batalhas entre homens e entre deuses) ou um desenho de Shrek costurado com retalhos de muitos contos.

Fosse quem fosse, é certo Moisés que não foi o primeiro legislador com que os judeus tiveram contato. As estórias sobre Moisés trazem partes da lenda de Sargão, um poderoso rei Sumério de 2400-2300 a.C. Da mesma época vem o código de Urukagina, outro rei da região entre os rios Tigre e Eufrates, de onde partiu Abraão, supostamente o ancestral de todo povo judeu. Em outras palavras, Abraão e sua família eram conhecedores de um código de leis, que levaram para a Palestina. Muito tempo depois, a lei elaborada por Moisés ia bem além dos 10 Mandamentos, incluindo procedimentos religiosos, regras de higiene, vegetais que devem ser plantados e animais que podem ser criados ou caçados, questões rurais sobre o cercamento de terras, disputas entre autoridades, etc, os quais são detalhados nos livros de Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Ela traz diversos elementos de leis do 1º Império Babilônico (do qual faziam parte Ur e outras cidades lendárias). Tais leis compunham a história dos hebreus e dos povos ao seu redor (Cananeus), com os quais se casavam e disputavam terras.

Existe uma discussão bastante válida sobre essas similaridades serem devido a um parentesco das leis (a Babilônica é mais antiga e há o relato bíblico de parentesco dos povos), a influência cultural (pois se tratava de uma região mais avançada e rica que a Palestina) ou simplesmente resultarem de uma similaridade cultural (eram povos semitas, organizados em cidades-estado¹ baseadas na vida agro-pastoril de uma região com clima, animais e vegetação parecidos). A regra de Talião - vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, chicote por chicote - por exemplo está presente no código de Moisés (Êxodo 21.23-25 e Deuteronômio 19.21), assim como em muitos códigos de leis semitas, colocando uma equivalência entre o crime e a pena.

Por outro lado, as leis mosaicas favoreciam os homens em detrimento das mulheres, igualando uns e outros entre si; as leis babilônicas separavam a sociedade em castas segundo o nascimento - aos escravos não era assegurado nenhum direito. Tanto a lei mosaica como a babilônica são supostamente originadas dos deuses de cada povo, embora tratem de problemas rigorosamente mundanos. A lei babilônica estabelecia crimes civis como agressão, roubo, violação de propriedade, etc e crimes morais como adultério, desrespeito, etc. Já a lei mosaica punia também crimes contra a tradição cultural (ex. usar certos vegetais e peles), além de crimes religiosos como a falta com obrigações rituais, culto a outros deuses ou desrespeito a dias e locais sagrados. No entendimento de Moisés como sacerdote, toda ação humana se relacionava a Deus (fosse um roubo, o plantio de certo vegetal ou ações rituais) e todos deviam o culto religiosos; já no entendimento babilônico (politeísta), as leis vinham do deus Shamah (sim, o sol ou fogo) através do rei para estabelecer seu império político. Não importavam ao rei detalhes culturais ou religiosos.

Tanto em um código de leis como no outro, há uma estrutura básica de crime X > punição Y. Em casos de acusação sem provas, aparece crime X > juiz ou consulta divina > punição Y. Essa estrutura, embora às vezes apele para o julgamento divino de YHWH ou alguma divindade babilônica (geralmente o rio Eufrates), basicamente dispensa as divindades de intervir em favor dos homens e retira por completo o significado racional das leis. Por exemplo, em Levíticos 13 há todo um procedimento ritual a respeito da lepra, que consiste em como o sacerdote reconhecer os leprosos, afastar eles do acampamento e como permitir que voltem. A prática efetiva é menos complexa do que lavar o machucado e passar mertiolate, mas era uma determinação sagrada, imutável e inquestionável. Certamente era útil em se tratando de uma doença contagiosa e o Novo Testamento nos testemunha que as cidades judaicas, mesmo 15 séculos depois de Moisés, ainda tinham hordas de leprosos perambulando por fora de seus muros. E então apareceu Jesus².

A NÃO-LEI DE SALOMÃO

Salomão foi o 3º rei dos judeus, sucedendo Davi. Seu pai teve pelo menos 6 herdeiros de suas concubinas (que na verdade eram as princesas do territórios conquistados), além de diversos filhos não-herdeiros. Entre os herdeiros estavam Amon (de Ainoã, a 1ª esposa), Quileabe (de Abigail), Absalão (de Maaca), Adonias (de Hagite), Sefatias (de Abital) e Itreão (de Eglá) (2ª Samuel 3). Salomão era filho de uma concubina secundária, Bate Seba, que não era princesa de reino algum, mas um caso extra-conjugal de Davi, e nem mesmo era o filho mais velho dessa relação. Mas as guerras mataram os filhos de Davi, sempre enviados como representantes do rei, e também um filho matou ao outro, até que Salomão sucedeu ao trono, apontado pelo rei junto ao profeta Natã, o sacerdote Zadoque e o levita Benaia (1ª Reis 1.26). Em seu reinado, mesmo Salomão mandou matar seu meio-irmão Adonias, julgando que tentasse usurpar o trono (1ª Reis 2.23,24).

Salomão desfrutou de poder e riqueza ainda maior que Davi, pois representava uma união de várias nobrezas, sacerdotes e profetas, além de Israel estar posicionado na rota das caravanas. Elas viajavam entre o Mediterrâneo, os portos da Fenícia, Líbano e Síria, Egito, Mar Vermelho, Etiópia, Iêmen, Índia e China. Tratava-se de uma poderosa rota comercial por onde se transportava animais (como mulas, elefantes e camelos), marfim, madeira (cedros), peles, grãos, ouro, tecidos valiosos (como cânhamo e seda), temperos, perfumes, ópio e incenso. Os impostos nos mercados e portos das caravanas geravam riquezas imensas, o que fez Salomão estender colônias de judeus para o Egito, Etiópia e Iêmen, em acordos com os governantes dessas terras. Mas além da riqueza, Salomão ficou conhecido por sua sabedoria como governante, um presente concedido pelo próprio Deus, que afirmou que não houve nem haveria jamais ninguém mais sábio que ele (1ª Reis 3.9,10). Esta história também foi contada pelos sacerdotes do rei Josias, quase 4 séculos mais tarde, retirada de escritos em um templo (construído por Salomão*) que chegava perto de seu fim.

Salomão manteve uma equipe de estudiosos ou sábios, que tentaram reunir em escritos toda a sabedoria do seu mundo. Possivelmente ele tentou reproduzir algo que soubera do Egito (onde os nobres de Thebas eram finamente educados em escolas³). De fato, as relações políticas entre Israel e o Egito tinham se tornado muito mais intensas, a ponto de diversas vezes os exércitos egípcios terem retomado territórios de Israel que haviam sido perdidos para outros povos. Entre as relações de Salomão, ficou famosa a rainha de Sabá, uma terra de guerreiros provavelmente na Etiópia, com quem foram trocados presentes de imenso valor.

Salomão não fez grandes esforços para suprimir os cultos cananeus. Além de adorar a YHWH, deus de Salomão e Davi e a quem o rei dedicou seu Templo, o povo cultuava outras divindades como Baal, Moloque e Asherá, menos exigentes, a quem os cultos eram feitos no altos dos montes, vales profundos ou sob as árvores, respectivamente. Reis muito posteriores ainda lidaram com essa variedade religiosa em Israel. Como o culto ao Deus Único não era apenas um elemento repetido na lei de Moisés, mas o 1º ítem dos 10 Mandamentos gravados nas tábuas da Arca da Aliança, podemos inferir que a lei de Moisés já era bastante fraca no reinado de Salomão (apesar de a Arca estar guardada no Templo que ele construiu). Talvez 5 séculos já tivessem se passado! A lei seria reavivada mais tarde, porém há indícios de que Salomão pretendia uma transformação diferente em seu povo, o que foi provido pelo seu livro de Provérbios.

O Livro de Provérbios que temos hoje é, em grande parte, uma construção apócrifa. Ele começou a ser produzido no reinado de Salomão, copiando-se um texto famoso do faraó Amenemope (1001-992 a.C.) sobre o comportamento esperado dos nobres e juntando trechos discutidos exaustivamente e com a ajuda dos sábios Lemuel e Agur, de clãs do deserto. Essa coleção de instruções foi estendida pelos sábios do rei Ezequias (715-687 a.C.), o construtor, que versavam sobre o sábio, o tolo (que despreza a sabedoria) e o simples (ignorante a ser ensinado). Depois o livro ganhou textos dos sábios do rei Josias (640-609 a.C.), que encontraram o livro da Lei de Moisés em algum canto do Templo e adicionaram aos provérbios ensinamentos sobre temor a Javé, ardor no trabalho, modéstia, humildade, generosidade, misericórdia e honestidade. Mais tarde o livro ainda ganhou trechos dos sacerdotes que acompanhavam Esdras no estabelecimento do 2º Templo (aprox. 450 a.C.), os quais falavam em valorizar a Sabedoria como uma entidade, uma espécie de Espírito Santo que falava contra o mal, a soberba e a arrogância, o mau caminho e a boca perversa. Todos, apesar da composição diversificada, atribuíram seus escritos ao lendário rei Salomão.

Não é fácil ler os Provérbios, pois trata-se de pequenos trechos fragmentados e espalhados, talvez propositalmente, de forma que possam ser re-arranjados para se adaptar às mais diversas situações. A diferença da lei de Moisés está justamente aí: a flexibilidade. Moisés deixou um tratado de punições para os mais diversos crimes (que incluem mesmo plantar vegetais diferentes), de modo a deixar claro o que NÃO SE DEVE FAZER. Salomão por outro lado pretendeu criar um sistema de aconselhamento simples, de forma que o homem mais comum pudesse ser guiado para FAZER as melhores escolhas. Seu código ou programa inclui belas descrições dos sofrimentos humanos e das principais causas de sofrimento como riquezas, prazeres momentâneos e falsas esperanças.

A PROPOSTA DE JESUS

Jesus nasceu bem fora do ciclo das realezas da Judéia (terra dominada por Roma, onde ficava Judá, parte sul de Israel, repartida em 930 a.C., após o reinado de Salomão) e mesmo da Galiléia (parte norte), onde ficava a cidade de Nazaré. Jesus frequentava as sinagogas pequenas na planície pastoril da Galiléia, que conduzia à região de pesca e comércio ao redor do grande lago de Tiberíades, onde começava o rio Jordão. O Templo que ele conheceu nas peregrinações a Jerusalém era o 3º Templo, uma construção imensa de uns 50 anos e ocupando todo o topo de uma montanha, feito já na Era Romana a partir do 2º Templo, que foi erguido sobre as ruínas do Templo de Salomão. Uns 1000 anos haviam se passado desde esse rei construtor lendário, e também 600 anos desde que a Lei de Moisés fora reencontrada por outro rei construtor. Seu povo havia estado no exílio da Babilônia, tinha sido dominado pelos gregos após Alexandre o Grande, que esvaziaram o Templo por toda uma geração, e depois pelos romanos. Estes últimos implicavam com a infidelidade dos sacerdotes ao seu rei-deus Tiberius Caesar Divi Augusti Filius Augustus (reino 14 a 37 d.C.). Os sacerdotes se defendiam formando um tribunal, o Sinédrio, que julgava as questões de fé e costumes segundo a lei mosaica. Em paralelo a eles havia o rei Herodes Antipas, filho de Herodes o Grande, construtor do Templo, e também vassalo** de Roma.

Os escritos sobre Jesus são quase tão problemáticos quanto os sobre Salomão. Nenhum texto sobre Jesus foi produzido fora do contexto religioso, independente da pregação sobre o Messias. Existem 3 evangelhos sinóticos, isto é, alinhados: Mateus, Marcos e Lucas. Marcos parece ser o mais antigo deles. Um suposto documento Q teria dado origem a Mateus e Lucas, além de partes incluídas pelos próprios evangelistas, únicas de cada escrito. Lembremos que talvez Mateus tenha sido companheiro de Jesus em suas andanças, embora o livro de Mateus traga muitas coisas de Paulo (a quem sabemos a autoria, por seu caráter romano de escrita), que não esteve pessoalmente com Jesus, e com quem os outros 2 evangelistas andavam. O livro de João é tão autêntico quanto os demais em sua historicidade, João era chamado de “discípulo amado” pela sua relação próxima de Jesus, e no entanto bem pouco do livro de João se alinha com os demais evangelhos. Fica quase impossível destilar um Jesus a partir do material que temos sobre Ele, porque esse material apresenta personagens diferentes, dependendo do autor.

A relação de Jesus com a lei mosaica, no meio desses 4 intérpretes que viram e entenderam coisas diferentes, é no mínimo curiosa. Certas horas Jesus valoriza a Lei, cobrando seu seguimento àqueles que o acompanham. Outras vezes, Jesus se diz superior à lei e a reinterpreta por completo (o que só não parece absurdo de uma lei com inspiração divina sendo atualizada pelo Filho de Deus).

E Jesus, tomando a palavra, falou aos doutores da lei, e aos fariseus, dizendo: É lícito curar no sábado? (Lucas 14.3)

Jesus parece devoto a um Pai Celestial, advogando ora por Ele entre os homens que sofrem, ora perante Ele e pelos homens que sofrem. Ele parece interessado em retirar o sofrimento das pessoas, se elas tiverem fé e chegarem suficientemente perto Dele, o que João interpreta como “sinais” da divindade de Jesus - algo para ser visto e falado - e não uma prioridade Sua. Por suas transgressões ou re-interpretações da lei de Moisés, o Sinédrio trama contra Jesus (ao contrário de João Batista, que foi alvo de Herodes Antipas) e, após condená-lo à morte, nomeia homens para caçar seus seguidores. Estaria o Sinédrio sendo puritano e extirpando um baderneiro? Os evangelhos nos propõem que não; eles são chamados de “víboras” e aproveitadores do seu status social. A perseguição do Sinédrio aos Cristãos parecia exagerada, a menos que estes desafiassem seriamente a eles ou a Roma***.

Jesus cita leis de Moisés e várias partes do livro de Isaías, até hoje o mais popular dos profetas. Como frequentador das sinagogas e do Templo, após a reforma de Josias, sem dúvida Ele possuía conhecimento do sistema de leis antigo. Mas Jesus fazia releituras delas e, de forma inovadora, apresentava seus ensinos como “parábolas”. As parábolas e fábulas são pequenos contos, bastante usados no Oriente Médio e na Europa Medieval para transmitir valores morais. As estórias de Jesus tinham semelhança com a realidade ao seu redor, e cada uma delas poderia gerar (e gerou) longos estudos, embora Ele mesmo dissesse que ensinava assim para que os homens ouvissem e não compreendessem. Algumas parábolas são elaboradas, como a do Semeador, outras aparecem apenas como um pequeno parágrafo, bem ao jeito de um Provérbio.

Administrador desonesto (Lucas 16.1-9);
Amigo importuno (Lucas 11.5-8);
Bodas (Mateus 22.1-14);
Bom samaritano (Lucas 10.29-37);
Casa vazia (Mateus 12.43-45);
Coisas novas e velhas (Mateus 13.51-52);
Construtor de uma torre (Lucas 14.28-30);
Credor incompassivo (Mateus 18.23-35);
Dever dos servos (Lucas 17.7-10);
Dez virgens (Mateus 25.1-13);
Dois alicerces (Mateus 7.24-27);
Dois devedores (Lucas 7.40-43);
Dois filhos (Mateus 21.28-32);
Dracma perdida (Lucas 15.8-10);
Fariseu e publicano (Lucas 18.9-14);
Fermento (Mateus 13.33);
Figueira (Mateus 24.32-33);
Figueira estéril (Lucas 13.6-9);
Filho pródigo (Lucas 15.11-32);
Grande ceia (Lucas 14.15-24);
Jejum e casamento (Lucas 5.33-35);
Joio e trigo (Mateus 13.24-30,36-43);
Juiz iníquo (Lucas 18.1-8);
Lavradores maus (Mateus 21.33-46);
Meninos na praça (Mateus 11.16-19);
Ovelha perdida (Lucas 15.3-7);
Pai vigilante (Mateus 24.42-44);
Pedra rejeitada (Mateus 21.42-44);
Pérola de grande valor (Mateus 13.45-46);
Primeiros lugares (Lucas 14.7-11);
Rede (Mateus 13.47-50);
Rei que vai para a guerra (Lucas 14.31-32);
Remendo com pano novo (Lucas 5.36);
Rico e Lázaro (Lucas 16.19-31);
Rico sem juízo (Lucas 12.16-21);
Semeador (Mateus 13.3-9,18-23);
Semente (Marcos 4.26-29);
Semente de mostarda (Mateus 13.31-32);
Servo fiel (Mateus 24.45-51);
Servos vigilantes (Mc 13.33-37);
Talentos (Mateus 25.14-30);
Tesouro escondido (Mateus 13.44);
Trabalhadores da vinha (Mateus 20.1-16)

A parábola do Semeador até serviu de eixo para o famoso livro Pastor de Hermas, que foi um instrumento importante de evangelização nos 1os séculos. Por um lado, ela dá a idéia de que aproximar-se de Deus pode ser impedido pelo Diabo ou pelas seduções do mundo, problemas, dinheiro, etc. Por outro lado, ela dá a idéia de um cuidado repetitivo de Deus ao tentar ensinar sua mensagem, como um semeador que sempre volta ao campo. O ensino de Jesus prevê uma interação grande entre cada pessoa e seu ambiente, não é uma regra independente do contexto. Essa possibilidade de discussão e nova interpretação é um elemento significativo do ensino nos povos semitas, o que até coloca a rigidez da lei de Moisés como algo estranho a eles. Tal dualidade entre discutir/ensinar e obedecer cegamente aparece, no Novo Testamento, a todo momento - afinal, a lei do Estado não era a lei de Moisés, e o Sinédrio não poderia condenar quem quer que fosse sem a aprovação de Herodes e Roma (no tempo de Jesus, o poder romano era simbolizado pelo governador Pôncio Pilatos).

Essa metodologia de ensino de Jesus, que não foi levada seriamente nos séculos seguintes, se parecia muito mais aos Provérbios re-ordenáveis de Salomão do que aos aos estatutos detalhadíssimos de Moisés. Já em 49 d.C, o 1º Concílio Cristão - feito por seguidores presenciais como Pedro - já debatia permitir ou proibir a adesão dos gentios ao movimento religioso, o que não se encaixa de forma alguma nos métodos de ensino flexíveis propostos por Salomão e por Jesus. Reparemos que Jesus não se privou de ensinar a ricaços, fariseus, leprosos, samaritanos, romanos, publicanos, etc. Muitos deles nem eram judeus para seguir sequer os Mandamentos, mas ainda assim haveria uma interpretação pessoal a darem para as estórias que Jesus contava. E era por isso que as multidões o cercavam.

A TENTATIVA DE JOÃO

Quem chegou mais próximo a Jesus quanto ao ensino foi João. Porém, ele era muito menos criativo ou conhecedor dos homens. Talvez mais profeta e menos contador de estórias. O tal discípulo amado, quando tomou os milagres de Jesus tal qual uma ferramenta de ensino, dando para eles uma interpretação messiânica, mais ou menos os tornou em parábolas. Delas pode ser tirado um outro ensino, que não é seu conhecimento literal como texto.

Transformação de água em vinho (2:1-11);
Cura do filho do oficial romano (4:46-54);
Cura do paralítico na piscina de Bethesda (5:1-15);
Multiplicação dos pães (6:5-14);
Andar sobre a água (6:16-21);
Cura do cego de nascença (9:1-7);
Ressurreição de Lázaro (11:1-45)

João é enfático no caráter sobrenatural dos eventos que relata, e passa muito longe de tentar criar um sistema de leis. Seu objetivo é oferecer provas da divindade de Jesus. 

Não crês tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras. (João 14.10)

João registrou apenas uma parábola:

O que ceifa recebe galardão, e ajunta fruto para a vida eterna; para que, assim o que semeia como o que ceifa, ambos se regozijem. Porque nisto é verdadeiro o ditado, que um é o que semeia, e outro o que ceifa. (João 4.36,37)

No lugar onde Mateus apresenta as parábolas de Jesus, o evangelho de João, como em várias outras partes, apresenta Jesus refletindo sobre os acontecimentos. Isso é algo que Jesus faz muito no livro de João e raramente nos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas. João também não mostra nada semelhante ao Sermão da Montanha. Ao contrário dos outros evangelhos, não há uma receita mundana para a felicidade, mas sim Jesus discorrendo sobre as motivações de Deus. Compreender ao Senhor, para João, é mais importante do que tudo. João fala de alguém que realizava milagres, perdoava (8.3-11), se declarava a representação de Deus, era humilde (13.1-17), pregava o amor de uns pelos outros (15.12), estaria com seus discípulos apesar da morte (14.21). Nessa atribuição de intenção por parte de Deus (e dane-se a Lei), João chega próximo ao que Jesus ensinava.

Hoje, com os 4 evangelhos e mais as cartas de Paulo nas mãos, somos levados a cruzar muitas informações entre eles. Mas a comunidade para a qual João ensinava não tinha isso. Eles dependiam inteiramente de João para conhecer a Jesus e ele não lhes apresentava um conselheiro, mas a personalidade de um Deus vivo e o próprio Messias a quem deviam orar pela Salvação em um mundo que estava chegando ao seu fim. Lembremos que João também é o autor de Apocalipse ou Revelação.

Sendo um livro didático, na mais ajustada descrição, o evangelho de João compartilha com o leitor a interpretação da vida segundo Jesus. Pelo menos os pensamentos que ele põe na boca de Jesus. O Espírito Santo inspira uns e outros segundo Ele mesmo escolhe, e ninguém o controla (3.8); as pessoas comuns não o podem entender (3.11,12); os servos de Deus o adorarão independente de lugares sagrados (4.23,24); as obras de Deus não são interrompidas (5.17); a fé é o maior dos milagres (6.28-36); o pecado escraviza a vontade dos homens (8.39-47); os homens devem amar a Deus e uns aos outros, para serem filhos de Deus, que os liberta de sua escravidão (13,34,35).

O evangelho de João não é um guia abrangente como os Provérbios, nem direcionado às situações cotidianas como as parábolas de Jesus, mas um guia de conduta incrivelmente flexível, onde sabe-se o que Deus espera da conduta humana. Mas não há especificações exatas sobre ela. Como se, na expectativa do Reino de Deus, entre os que desejam aproximar-se do Senhor, a Lei fosse completamente obsoleta.

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¹ Uma cidade-estado é geralmente uma cidade cercada por muros, com a região agrícola fora dos muros. Nela não há um prefeito, mas um rei que governa uma área pequena, geralmente na margem de um rio, com sua própria língua, tradição e leis.

² Afora as curas milagrosas de Jesus, a cura da lepra, assim como de muitas outras parasitoses, só foi alcançada no séc. 20 com o desenvolvimento dos antibióticos. A grande inovação de Jesus, entretanto, foi o tratar com leprosos como se fossem qualquer pessoa. Na sociedade judaica, a lepra não era apenas uma moléstia contagiosa, mas também um sinal de impureza espiritual e maldição.

³ Num grau avançado de informação para sua época, os egípcios enviavam e recebiam rolos e tabuletas de correspondência de seus diversos territórios. Os faraós, então, muito antes de sentarem-se no trono, sabiam dos pormenores políticos e culturais de lugares tão distantes quanto a Palestina e a planície dos rios Tigre e Eufrates. As cartas de Amarna, por exemplo, dão relatórios da migração dos semitas desde que foram expulsos do Egito e em cada lugar onde desafiaram a autoridade do faraó.

* O Templo de Salomão ou 1º Templo foi destruído durante a tomada de Jerusalém pelo rei Nabucodonosor II (587 a.C.), do 2º Império Babilônico. As datas na Bíblia sugerem uma obra iniciada no fim do reinado de Salomão, para abrigar a Arca da Aliança. Ele empregou centenas de trabalhadores para produzir uma construção monumental, que levou 7 anos para ser terminada. Além do pagamento de muitos trabalhadores, o templo ainda usou materiais bastante valiosos (madeiras, tecidos caros, ouro e marfins) em sua confecção, o que acabou sendo um símbolo da era de prosperidade durante o reinado de Salomão. O Templo foi reconstruído quando os judeus voltaram da Babilônia e muitos séculos depois ele foi reformado/ampliado por Herodes o Grande, um vassalo de Roma, ao longo de 46 anos. Foi essa estrutura judaico-romana que Jesus visitou.

** A relação de vassalagem ou clientela implicava que um rei obedecia a outro. Havia a lei do rei maior (Tibérius), e a ela se emendavam os termos da lei do rei menor (Antipas). Não poucas vezes, os reis da Galiléia e da Judéia eram educados em ricas famílias romanas, para assegurar sua fidelidade cultural. Além do pagamento regular de impostos ao rei maior, o rei menor também abrigava legiões de patrulhamento, que serviam para garantir sua segurança em caso de ataque estrangeiro. As legiões no entanto não eram submissas a lei do rei menor, nem respeitavam os costumes das populações, o que fazia os habitantes terem grande repulsa por eles.

*** A impressão que temos a partir do Novo Testamento é de que o Cristianismo começou como uma série de pequenos grupos, com os quais os governos não teriam motivo de preocupação. Logo, qualquer ação contra os Cristãos parece motivada unicamente por um fundamentalismo acerca da lei de Moisés. O Concílio em 49 d.C. sobre os gentios serem aceitos como Cristãos sem tornarem-se judeus mostra que, embora pregada por judeus, a Cristandade chegou primeiramente aos gentios vivendo a leste da Síria. As muitas reações negativas a Paulo podem falar em contrário a uma passividade dos governos por onde ele andou quanto ao Cristianismo, mas em Israel é provável que a reação negativa acontecesse justamente porque o Cristianismo quebrava a separação de castas judeus vs. gentios. O Sinédrio não tinha autoridade sobre os gentios, e talvez assim perdesse seu poder sobre os judeus também.

Quanto a Roma, os judeus eram de certa forma proscritos por não aderirem ao culto dos césares. Os Cristãos também não aderiam a isso. As perseguições dos romanos a judeus e Cristãos após a destruição de Jerusalém (70 d.C.) sugerem, de certa forma, que Roma nem via diferença de uns e outros.

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PISTAS MUITO FALSAS, NÃO VÁ POR AQUI

Akhenaten - wikipedia
Code of Hammurabi - wikipedia
Code of Ur-Nammu - wikipedia
History of leprosy - wikipedia
Pink AW, Things omitted from John's gospel, biblehub.com
Urukagina - wikipedia

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A demasia das palavras


DEVE-SE EVITAR A DEMASIA DAS PALAVRAS

1. Evita quanto puderes o bulício dos homens: porque o trato de coisas mundanas, ainda que se faça com intenção pura, é muito prejudicial. Pois depressa nos deixamos manchar e prender pela vaidade.

2. Bem quisera eu muitas vezes haver-me calado, e não ter estado entre os homens. Mas, por que gostamos tanto de falar e conversar com outros, se tão poucas vezes voltamos ao silêncio sem dano da consciência?

A razão por que falamos assim tão de boa vontade é que, com tais conversas, procuramos consolar-nos mutuamente, e desejamos aliviar o coração cansado de tantas preocupações. E de muito boa vontade nos pomos a falar ou pensar nas coisas que amamos e desejamos, ou nas que nos contrariam.

3. Mas, ai! Muitas vezes em vão e sem fruto; porque esta consolação exterior é de pouco dano e a consolação interior é divina. Vigiemos, pois, e oremos, para que não passe o tempo inutilmente.

Se for lícito e conveniente falar, dize coisas edificantes. O mau costume e o descuido de nosso aproveitamento muito contribuem para a pouca guarda de nossa língua. Não pouco, porém, aproveitam para o progresso espiritual as piedosas palestras sobre assuntos espirituais, especialmente quando se reúnem no Senhor pessoas animadas do mesmo coração e espírito.

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Esse é um pequeno fragmento do precioso IMITAÇÃO DE CRISTO, um manuscrito feito entre 1220-1240 por João Gersen, abade do mosteiro de S. Estevão, em Vercelli (Itália). Os 4 manuscritos originais foram depois organizados por Tomás de Kempis no séc. 15 e usado em larga escala para o ensino religioso na Europa. Pode-se dizer que boa parte do que conhecemos por Cristianismo está associado a esse livro.

O texto acima trata sobre o uso da fala, que deve ser pequeno e tido como inferior à consolação interior, divina. Embora todos possamos reconhecer o silencio habitual dos monastérios nessa passagem, em diferença da exaltada “conversa mundana” que “alivia o colação”, seria isso mesmo o que a Bíblia ensina? Não estaríamos frente a mais uma forma de purificação enraizada na mente humana? Para responder a essa pergunta, recorro ao Livro de Provérbios, que trata de assuntos variados com a sabedoria que foi ensinada e propagada a partir de Salomão.

Ali encontramos algumas sentenças instrutivas como

Não pode faltar o pecado num caudal de palavras (10.19a)
[Uma cidade] é destruída pelas palavras dos maus (11.11b)
O homem sábio guarda silêncio (11.12b)
O perverso trai os segredos (11.13a)
O homem se farta com o fruto de sua boca (12.14a)
O homem prudente oculta sua sabedoria; o coração do insensato proclama sua loucura (12.23)
Quem vigia sua boca guarda sua vida; quem muito abre seus lábios se perde (13.3)
A boca dos tolos sacia-se de loucuras (15.14b)
A boca dos maus vomita o mau (15.28b)
O que mede suas palavras possui a ciência (17.27a)
Mesmo o insensato passa por sábio quando se cala; por prudente quando fecha sua boca (17.28)
A boca do tolo é a sua ruína; seus lábios são uma armadilha para a própria vida (18.7)
Quem responde antes de ouvir passa por tolo e se cobre de confusão (18.13)
O que vigia sua língua e sua boca preserva sua vida da angústia (21.23)
Viste um homem precipitado no falar; há mais esperança no tolo do que nele (29.20)


Todos esses versículos recomendam de fato o que diz o texto do Imitação de Cristo, ou seja, que a fala seja pouca. Mas atentemos que o Livro de Provérbios refere-se, quase sempre, à fala do Tolo, do Mau, do Perverso. Esses são personagens caricatos de Provérbios que falam bastante e prejudicam a todos com as mentiras, as loucuras e as traições de segredos que proferem. Principalmente, são personagens que falam antes de ouvir, que desprezam e promovem brigas:

A boca dos maus [sabe dizer] o que é mau (10.32b)
Quem despreza seu próximo mostra falta de senso (11.12a)
Ao insensato parece reto o seu caminho (12.15a)
O falador fere com golpes de espada (12.18)
Uma palavra dura excita à cólera (15.1b)
A língua perversa corta o coração (15.4b)
A boca do insensato atrai açoites (18.6b)

Nesse caso, como diz o Imitação, “bem quisera eu muitas vezes haver-me calado, e não ter estado entre os homens”, pois trata-se da marca do insensato. Em outras palavras, aquele-que-não-pensa.

Mas o Livro de Provérbios, ao contrário, não recomenda o silêncio. Ele enaltece a palavra que provém da meditação segundo a Sabedoria fornecida por Deus (nas palavras de Jesus, em amor ao Pai e ao próximo).

Os lábios do justo sabem dizer o que é agradável (10.32a)
Um coração leal mantém ocultos os segredos (11.13b)
O sábio ouve os conselhos (12.15b)
A língua dos sábios cura (12.18b)
Uma boa palavra restitui a alegria [ao coração] (12.25b)
Uma resposta branda aplaca o furor (15.1a)
Como é agradável uma palavra oportuna! (15.23b)
O coração do justo estuda sua resposta (15.28b)
A doçura da linguagem aumenta o saber (16.21b)
Dá um beijo nos lábios o que responde com sinceridade (23.16)
Amáveis instruções surgem da língua [da mulher virtuosa] (31.26b)

Embora o Imitação coloque bons adjetivos apenas nas “palestras sobre assuntos espirituais”, o Livro de Provérbios propositalmente coloca esses ensinos sobre a linguagem no meio daqueles sobre todos os outros assuntos. Não se trata de horas especiais onde há um “falar” positivo: isso se aplica a todos os momentos, mesmo os mais corriqueiros.

Ainda, o Livro de Provérbios apresenta que certas vezes a palavra não deve ser contida, especialmente se ela provém do Justo ou do Sábio, outros personagens caricatos:

A língua do justo é prata finíssima (10.20a)
A boca do justo produz sabedoria (10.31a)
A boca dos justos salva [os ímpios] (12.6b)
Os lábios sinceros permanecem constantes (12.19a)
Quem visita os sábios torna-se sábio (13.20a)
A língua dos sábios ornamenta a ciência (15.2a)
A língua sã é uma árvore de vida (15.4a)
O coração do sábio torna sua boca instruída (16.23a)
Jóia rara é a boca sábia (20.15b)
Abre tua boca a favor do mundo, pela causa de todos os abandonados (31.8)
Faze justiça ao aflito e ao indigente (31.9b)

Dessa forma, Provérbios instrui a falar após buscar aconselhamento e sabedoria, de forma amável, a favor dos abandonados, aflitos e indigentes.

Quanto ao aconselhamento íntimo (ou auto-aconselhamento), que o Imitação indica como “divino”, isso é assunto duvidoso para os seguidores de Salomão:

É do fruto de sua boca que um homem se nutre; com o fruto de seus lábios ele se farta (18.20)
Água profunda [ou tenebrosa] é o conselho [ou intento] no íntimo do homem; o homem inteligente sabe pô-los para fora (20.5)

Já dizia Jeremias. Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o poderá conhecer? (Jeremias 17.9)

sábado, 3 de agosto de 2013

A Sabedoria - um estudo do livro de Provérbios

Sábios gregos: Platão e Aristóteles desfilam em um quadro de Raffaello Sanzio Urbino, de 1509

Hoje, muitas pessoas associam a sabedoria à imagem de um senhor idoso, de longas barbas, andarilho ou eremita de uma alta montanha, talvez até um oriental. No contexto em que os livros da Bíblia foram escritos, entretanto, a Sabedoria era uma espécie de tesouro que podia ser passada de uma pessoa a outra, talvez até em forma material mesmo. O livro de Provérbios guarda, de certa forma, uma das últimas vezes em que se tentou organizar a sabedoria humana para que fosse literalmente dada a alguém. 

Pela forma antiga de sua organização, hoje até mesmo é difícil que ele seja lido e compreendido. Por esse trabalho [longo] em explicar como livro foi produzido, e como o seu conteúdo foi organizado.

Os seres humanos estão entre os animais que melhor aprendem sem experimentar. Claro que se comenos algo desagradável, ou que nos faz mal, passamos a evitar aquele alimento. Até os animais mais simples fazem isso. No nosso caso, porém, uma pessoa dizendo que o alimento é ruim basta para que não o comamos. Pior, algumas vezes comemos coisas que achamos ruim porque outros nos asseguram que são boas! Esse aprendizado faz parte do curso da vida de todos: vamos acumulando, com o tempo, as experiências próprias e os ensinos de outros que nos proporcionam mais sucesso no que intentamos fazer. Os ensinos obviamente vêm em maior quantidade das pessoas mais velhas, enquanto as experiências fazem parte do dia-a-dia dos mais novos.

O Livro de Provérbios trata justamente da Sabedoria, ou seja, do conhecimento prático que uma pessoa pode ter. Os compositores do livro almejavam reunir conselhos que fossem largamente úteis para que alguém pudesse ter uma vida de sucesso. E não se tratava de um sucesso material, ou de carreira, etc, mas um sucesso COMPLETO como aplicador dos ensinamentos do Senhor. Esses ensinamentos foram coletados dentre as pessoas mais sábias do reino, dentre os legados de faraós, etc.

As fontes dos Provérbios são variadas, e de certa forma trata-se uma “bíblia” de pequenos livros reunidos. Alguns estudiosos, no entanto, argumentam que a falta de conectividade dos Provérbios se deve a serem uma coleção de pequenos ditos, que jamais foram um livro coeso. Sua escrita, no entanto, parece ter sido sempre um trabalho “profissionais” de sábios contratados por reis para discutirem exaustivamente seus temas e destilarem em poucas palavras os seus conhecimentos de toda vida. O objetivo sempre foi bem claro: reunir conhecimentos complexos de forma simples, para que pudessem ser ENSINADOS à pessoas, tanto do povo quanto dos palácios.

No trecho “E deu Deus a Salomão sabedoria, e muitíssimo entendimento, e largueza de coração, como a areia que está na praia do mar. E era a sabedoria de Salomão maior do que a sabedoria de todos os do oriente e do que toda a sabedoria dos egípcios. E era ele ainda mais sábio do que todos os homens, e do que Etã, ezraíta, e Hemã, e Calcol, e Darda, filhos de Maol; e correu o seu nome por todas as nações em redor. E disse três mil provérbios, e foram os seus cânticos mil e cinco” (1ª Reis 4:29-32) aparecem os nomes de pessoas cujo ofício era, aparentemente, ensinar a Sabedoria. Parece um exagero do autor atribuir 3000 provérbios a Salomão, se pensarmos nos capítulos em que o livro de Provérbios está dividido. No entanto, desvinculando cada “versículo” dos demais, chegamos a um número enorme de pequenas citações, o que pode aproximar-se muito mais do escrito em 1ª Reis.

Acredita-se que Salomão também tenha composto uma grande quantidade de conselhos. E ele teve ajuda de sábios no seu tempo e depois, como Agur e Lemuel. Essa “coleção de ensinamentos” destinava-se a orientar as pessoas em questões práticas.

O temor do Senhor é o princípio da sabedoria. Esse é um tema que se repete nos Provérbios e noutras partes da Bíblia (Pv 1.7, Pv 9.10, Jó 28.28, Sl 111.10). A Sabedoria (ou aquilo que os sábios têm) então é apresentada como uma revelação divina da forma como um homem deve se comportar perante outro homem. A Sabedoria não é algo que deve ser feito, mas a forma de fazer as coisas.

No livro dos Provérbios, há 3 categorias de pessoas, e o livro preza pela simplicidade ao supor que TODOS se encaixam numa dessas categorias. Há o Sábio, que se guia segundo os modos que recebe de Deus. Há o Tolo, que despreza todo ensinamento e, tomando por valores aquilo que o Senhor desconsidera, se guia para a destruição. E há o Simples, que não sabe qual caminho seguir, e luta consigo mesmo. Em todo momento, o livro parece dedicado ao Simples, de forma que ele siga pelo caminho do Sábio. O Simples é aquele que desconhece os ensinamentos, que não foi instruído. Para aqueles que o conhecem, o livro adverte que “Como as pernas do coxo, que pendem flácidas, assim é o provérbio na boca dos tolos" (Provérbios 26:7), de forma que conhecê-lo e ignorá-lo já mostra o caminho optado por alguém.

Muitas vezes, o livro de Provérbios descreve o Sábio dizendo que é o contrário do Tolo. O Tolo se caracteriza por orgulho (3.7), exaltação (16.18, 17.19, 18.12, 21.4), soberba, arrogância (8.13, 21.24), auto-propaganda (20.6, 25.14, 27.2).

PROVÉRBIOS DE SALOMÃO

Existe mais de um tipo de provérbio na Bíblia. Além daqueles escritos no Livro de Provérbios, o texto bíblico traz referências como “por isso se diz: Como Ninrode, poderoso caçador diante do Senhor” (Gênesis 10.9), “Pelo que se tornou em provérbio: Está Saul também entre os profetas?” (1ª Samuel 10.12), “Tal mãe, tal filha” (Ezequiel 16.44). Esses provérbios se parecem muito com “Água mole e pedra dura, tanto bate até que fura”, “Pau que nasce torto morre torto”, “Em briga de marido e mulher não se mete a colher”, etc. Mas todos estão bem distantes do formato do Livro de Provérbios, onde sempre temos a estrutura [frase 1] ... [frase 2], com ambas levando alguma relação entre si:

[O temor do Senhor é o princípio da sabedoria], e [o conhecimento do Santo a prudência] (Provérbios 9.10)

[O sacrifício dos ímpios é abominável ao Senhor], mas [a oração dos retos é o seu contentamento] (Provérbios 15.8)

[Tira da prata as escórias], e [sairá vaso para o fundidor] (Provérbios 25.4)

Aparentemente, “Provérbios de Salomão”, uma expressão comum na Bíblia, corresponde a um estilo próprio dos sábios profissionais, não sendo usado fora do contexto de ensino. Ao rei Salomão corresponderia, de fato, o início dessa tradição.

PROVÉRBIOS NUMÉRICOS

Outro formato comum no livro são os provérbios que mostram categorias crescentes de importância, como se elencassem qualidades e defeitos em ordem crescente. Os capítulos 30 e 31 do livro dão muitos exemplos desse estilo curioso, mas que aparece também em diversos outros capítulos.

Estas seis coisas o Senhor odeia, e a sétima a sua alma abomina:
1. olhos altivos,
2. língua mentirosa,
3. mãos que derramam sangue inocente,
4. o coração que maquina pensamentos perversos,
5. pés que se apressam a correr para o mal,
6. a testemunha falsa que profere mentiras, e
7. o que semeia contendas entre irmãos.

LIVRO 1 - PALAVRAS DOS SÁBIOS

A parte mais antiga dos Provérbios está no trecho que vai de Pv 22.17 a Pv 24.22 (repare a fragmentação do texto). Em traduções mais antigas da Bíblia, esse trecho se inicia com o título “Palavras dos Sábios”. Trata-se de ensinamentos que circulavam em tabletes de madeira no Egito, numa coleção chamada de “Provérbios de Amenemope”, que Salomão importou para Israel e usou como início da atividade de ENSINO dos sábios. Na época, o Egito era de fato a nação mais desenvolvida do Oriente, e muitas outras coisas egípcias foram importadas por Salomão, como a organização do governo.

O faraó Amenemope havia deixado para seu sucessor uma obra “literária” contendo instruções para que um funcionário da corte tivesse uma vida feliz. Ensinada às gerações seguintes, a obra se popularizou em todo Oriente. Salomão praticamente copiou os 30 conselhos de Amenemope e os usou como parte de sua coleção pessoal. De fato, a semelhança dos textos em conteúdo e seqüência é tão grande que, no início do século 20, a tradução dos “Provérbios de Amenemope” (a partir do egípcio) foi usada para revisar e corrigir pontos confusos da tradução bíblica (a partir do hebraico).

O conteúdo desse livro é claramente uma instrução aos membros da corte, de como deveriam se comportar na presença de reis e governadores. Para instruir a não beber em demasia, por exemplo, há uma bela descrição dos efeitos intoxicantes do vinho e de como as pessoas agem quando bêbadas.

De quem são os ais? De quem as tristezas? E as brigas, de quem são? E os ferimentos desnecessários? De quem são os olhos vermelhos? Dos que se demoram bebendo vinho, dos que andam à procura de bebida misturada. Não se deixe atrair pelo vinho quando está vermelho, quando cintila no copo e escorre suavemente! No fim, ele morde como serpente e envenena como víbora. Seus olhos verão coisas estranhas, e sua mente imaginará coisas distorcidas. Você será como quem dorme no meio do mar, como quem se deita no alto das cordas do mastro. E dirá: "Espancaram-me, mas eu nada senti! Bateram em mim, mas nem percebi! Quando acordarei para que possa beber mais uma vez?" (Provérbios 23.29-35)

A origem egípcia desses provérbios se torna ainda mais evidente quando se consideram duas divindades do Egito relacionadas à vida e à morte: Anúbis era o deus-chacal que regulava a entrada dos homens no mundo dos mortos, pesando seus corações para ver se mereciam a vida eterna; Toth era o deus-íbis que controlava a "força da vida" e mantinha os homens vivos ou os matava.

Mesmo que você diga: "Não sabíamos o que estava acontecendo! " Não o perceberia aquele que pesa os corações? Não o saberia aquele que preserva a sua vida? Não retribuirá ele a cada um segundo o seu procedimento? (Provérbios 24.12)

LIVRO 2 - TAMBÉM ESSAS SÃO PALAVRAS DOS SÁBIOS

Não há como ter certeza de que Salomão tenha composto sozinho seus provérbios. Se considerarmos que a noção hebraica de Sabedoria se apóia no debate incessante de idéias e leis (até hoje), isso na verdade é muito improvável. O rei deve ter contado com “sábios profissionais” para essa obra, e o trecho de Provérbios 24.23-34 parece ter sido emendado aos provérbios de Amenemope no reinado dele. Trata-se de um texto que aconselha a não favorecer pessoas num julgamento, a não devolver o mal com o mal e que condena a preguiça.

LIVRO 3 - O REINADO DE EZEQUIAS

Ezequias (715-687 a.C.) foi rei de Judá após a ocupação assíria que Oséias descreve. Durante seu reinado viveram os profetas Isaías e Miquéias. Na Bíblia, Ezequias é apontado como um dos grandes reis:

Ezequias, porém, se humilhou pela exaltação do seu coração, ele e os habitantes de Jerusalém; e a grande ira do Senhor não veio sobre eles, nos dias de Ezequias. E teve Ezequias riquezas e glória em grande abundância; proveu-se de tesouraria para prata, ouro, pedras preciosas, especiarias, escudos, e toda a espécie de objetos desejáveis. Também de armazéns para a colheita do trigo, e do vinho, e do azeite; e de estrebarias para toda a espécie de animais e de currais para os rebanhos. Edificou também cidades, e possuiu ovelhas e vacas em abundância; porque Deus lhe tinha dado muitíssimas possessões. Também o mesmo Ezequias tapou o manancial superior das águas de Giom, e as fez correr por baixo para o ocidente da cidade de Davi; porque Ezequias prosperou em todas as suas obras (2 Crônicas 32:26-30).

Ao centralizar novamente o poder real, após uma época de guerras contra a Assíria e devastações, Ezequias contratou sábios para reunirem provérbios e os escreverem, a fim de que fossem ensinados ao povo e aos nobres. A parte de Provérbios 25 a 27 corresponde ao seu legado para o povo. A parte de Provérbios 28 e 29 corresponde ao seu legado para a nobreza. Os sábios de Ezequias começaram seu trabalho com uma marca significativa - “Também estes são provérbios de Salomão, os quais transcreveram os homens de Ezequias, rei de Judá” (Provérbios 25:1).

Na parte referente ao povo, os sábios usaram novamente o Tolo como forma de evidenciar o Sábio. O Tolo é sem autocontrole (Provérbios 25.28), não presta atenção aos ensinamentos (26.7), é recebedor de castigos (26.3); não se deve ter relações com ele e muito menos conceder-lhe honras (26.1-8), ele é preguiçoso e sábio aos próprios olhos (26.13-16), fica se gabando de dádivas não recebidas (25.14), é incorrigível (26.11 e 27.22), maldizente, enganador (26.18-22) e irado (27.3). O livro ainda traz ensinamentos sobre como proceder no dia-a-dia com as outras pessoas, evitando mulheres que criam brigas (27.15), prestar atenção nos senhores (27.18), de como se comportar no Palácio, sendo comedido e discreto (25.6-7 e 15-17), como evitar problemas legais (25. 8-10), etc.

Na parte referente à nobreza, os sábios elaboraram uma espécie de manual para príncipes e altos funcionários da realeza, que provavelmente foi usado na educação dessas pessoas. Trata-se de uma exaltação da justiça e da lei (Provérbios 28), sem que o pobre seja oprimido (28.3, 28.15-16). O livro adverte os poderosos de que serão vítimas de bajulação e inveja, mas que serão bons governantes se agirem com justiça (Provérbios 29.2, 29.7, 29.14, 29.16, 29.27).

LIVRO 4 - A REFORMA DE JOSIAS

Quando o bisneto de Ezequias subiu ao trono, encontrou um vácuo de poder: o Egito (ao sul) havia se desestruturado por problemas internos, a Assíria (ao norte) havia sido vencida nas guerras contra as tribos babilônicas e a Babilônia ainda não era um império unificado. Nessas condições, Josias (640-609 a.C.) deu pleno trabalho à re-unificação do reino, onde atuavam o profeta Jeremias e sua parente, a profetisa Hulda.

Durante a reforma do Templo, Josias recebe a notícia de que o livro da Lei havia sido encontrado. Isso é muito significativo, pois revela que a lei escrita de Moisés talvez tivesse se perdido durante as guerras, no reino do sul, pelo menos. Ao ver o livro da Lei, Josias inicia profundas reformas religiosas para re-estabelecer o império dos tempos de Davi e Salomão. Essas reformas incluíram a proibição do culto de outros deuses, a destruição dos prostíbulos sagrados ANEXOS AO TEMPLO, a derrubada dos pilares sagrados de Baal e Asherá, a destruição de imagens sagradas, a execução de sacerdotes pagãos e até desenterrar os sacerdotes pagãos antigos e queimar seus ossos (o que era visto como pior das afrontas).

As reformas de Josias condizem com o livro de Deuteronômio, que deve ter sido o “livro da Lei” encontrado. Ao menos em sua parte central (Deutoronômio 12-26): muitos trechos do livro só se tornaram populares após o reinado de Josias, de forma que devem ter sido escritos e incluídos nesse período. Esse livro traz basicamente um código de leis sobre o culto a Javé, o papel do rei de transmitir as mensagens de Deus ao povo, as coisas proibidas para se fazer e comer, e uma estrutura político-legislativa a ser observada pelos governantes.

Durante o reinado de Josias, os sábios ligados à corte reuniram mais provérbios às coleções anteriores, compondo a parte conhecida como Provérbios de Salomão (10.1 até 22.16). Como fez Ezequias, a 1ª parte (Provérbios 10 até 15) é um código de moral dedicado ao povo); a 2ª parte (Provérbios 16 até 22.16) é um código de ensino para a realeza e os altos funcionários. A parte dedicada ao povo está entre os mais belos exemplos de filosofia de vida: ela estabelece uma moral baseada no temor a Javé, ardor no trabalho, modéstia, humildade, generosidade, misericórdia e honestidade; por outro lado condena a preguiça, injustiça, insensatez e perversidade. Em especial, faz uma prodigiosa descrição das emoções humanas e sua relação com Deus. A parte dedicada aos governantes é fortemente religiosa e apresenta Javé como protetor dos justos, sendo o rei seu emissário. Ainda, estabelece que os ricos se enganam freqüentemente e Javé protege os pobres.

Apesar de seu trabalho exemplar em registrar essa parte do Livro de Provérbios, Josias morreu em condições no mínimo estranhas. Conforme 2ªCrônicas 35.20-27, o faraó Necao havia entrado em guerra contra a Assíria; enquanto passava com seu exército por Judá, Josias foi combatê-lo. O faraó teria declarado “segundo Deus” que sua guerra não era contra Judá, mas Josias insistiu na batalha, onde acabou mortalmente ferido. Menos de uma década depois dele, as tribos babilônicas se consolidaram e o rei Nabucodonosor II capturou Jerusalém em 597 a.C., deportando toda sua população para outras terras.

LIVRO 5 - O RETORNO DA BABILÔNIA

Após 50 anos de servidão dos judeus nas terras babilônicas, Ciro “o grande” chega da Pérsia e conquista a capital de Babilônia. Com um reino tão grande para se apossar, sua estratégia foi conseguir apoio de todas as nações escravizadas. Por meio de uma lei escrita, ele permitiu que todas as nações deportadas voltassem para suas terras e ofereceu os tesouros reais para reconstruir o que os babilônicos tivessem destruído. Funcionou! Em poucos anos, a Babilônia e todas as terras vizinhas idolatravam Ciro como um “grande salvador” e passaram pacificamente a fazer parte de seu gigantesco império. Dario e Xerxes (também chamado Assuero), dois reis históricos, seriam seus sucessores.

Neemias partiu com uma carta do rei e grandes riquezas para começar a reconstrução de Jerusalém. Pouco depois, chega Esdras, escriba e profeta do rei, para devolver as leis de Moisés ao Templo, agora em trabalho de reconstrução (Esdras 7.7-10). A Lei passa a ser lida e explicada publicamente e ressurge uma classe poderosa em Jerusalém, formada principalmente por sacerdotes. Logo essa classe reassume os trabalhos de educação a que se dedicavam na Babilônia, passando a compor também uma parte do Livro de Provérbios. Até 400 a.C., os “sábios do reino” haviam anexado os ensinamentos de Provérbios 1 até 9, com a introdução “Provérbios de Salomão, filho de Davi e rei de Israel”. O objetivo era claro: resumir e re-ensinar ao povo as antigas escrituras.

Curiosamente, esse trecho precisava de uma séria adaptação em relação aos outros. Não havia mais um rei como emissário do Senhor. As escrituras eram o que tinham de mais forte ligando-os às eras passadas do Templo, e então a Sabedoria aparece como um personagem, uma imagem do próprio Deus que busca converter o homem de seus enganos. E o maior deles era desprezar o ensino! A Sabedoria toma as feições de uma pessoa que chama os Simples de cima dos muros, de cima das casas, que lhes oferece um banquete para ensinar o Temor ao Senhor. Em Provérbios 8.13, esse temor é “odiar o mal; a soberba e a arrogância, o mau caminho e a boca perversa”. A apresentação da Sabedoria nessa parte do Livro dos Provérbios curiosamente iguala a Sabedoria ao próprio Messias:

O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos, desde então, e antes de suas obras. Desde a eternidade fui ungida, desde o princípio, antes do começo da terra. Quando ainda não havia abismos, fui gerada, quando ainda não havia fontes carregadas de águas. Antes que os montes se houvessem assentado, antes dos outeiros, eu fui gerada. Ainda ele não tinha feito a terra, nem os campos, nem o princípio do pó do mundo. Quando ele preparava os céus, aí estava eu, quando traçava o horizonte sobre a face do abismo; quando firmava as nuvens acima, quando fortificava as fontes do abismo, quando fixava ao mar o seu termo, para que as águas não traspassassem o seu mando, quando compunha os fundamentos da terra. Então eu estava com ele, e era seu arquiteto; era cada dia as suas delícias, alegrando-me perante ele em todo o tempo; regozijando-me no seu mundo habitável e enchendo-me de prazer com os filhos dos homens. (Provérbios 8.22-31)

Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou. (João 8.58)

E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse. (João 17:5)

O ADULTÉRIO

Curiosamente, o adultério ocupa um lugar muito significativo nos ensinamentos hebraicos, e mesmo de Jesus. Isso só pode significar que se tratava de um problema do dia-a-dia, que perturbava tanto reis como humildes. Todo o capítulo 5 do Livro de Provérbios trata de descrever a mulher adúltera como uma armadilha mortal ao homem, como alguém que atrai os jovens e os leva à morte.

AS TRIBOS DO DESERTO E SUAS MULHERES

Normalmente pensamos nos nômades governados por patriarcas autoritários... Talvez o livro de Provérbios mostre um lado bem diferente desses povos! As contribuições pra o Livro de Provérbios nem sempre vieram dos palácios reais. Algumas tiveram origem em reinos distantes, nas tribos nômades que andavam nas bordas do deserto, entre Israel e a Assíria. Um exemplo claro está em Provérbios 30.1-9, que começa com “Palavras de Agur, filho de Jaque, o masaíta, que proferiu este homem a Itiel, a Itiel e a Ucal”. Os nomes podem ser fictícios, porque Agur significa “aquele que ajunta” e Jaque é “o que é religioso”, ou podem ser nomes reais de pessoas. O povo de Massá é bem real, mencionado em outras partes da Bíblia:

E estes são os nomes dos filhos de Ismael, pelos seus nomes, segundo as suas gerações: O primogênito de Ismael era Nebaiote, depois Quedar, Adbeel e Mibsão, Misma, Dumá, Massá, Hadade, Tema, Jetur, Nafis e Quedemá. Estes são os filhos de Ismael, e estes são os seus nomes pelas suas vilas e pelos seus castelos; doze príncipes segundo as suas famílias. (Gênesis 25:13-16)

Agur expõe sua ignorância e suas dúvidas ao Senhor, pedindo que não seja rico (para esquecê-Lo), nem pobre (para desonrá-Lo roubando).

Após o seu testemunho, seguem conselhos variados sobre coisas importantes e desprezíveis, e então as palavras de Lemuel, rei de Massá. Lemuel deixa evidente o poder matriarcal ao enunciar que são palavras que lhe foram ensinadas por sua mãe. São conselhos sobre como proceder quanto às bebidas alcoólicas. Em seguida, há uma série de ensinamentos sobre o valor da mulher virtuosa.

Noutras partes da Bíblia também há evidências do poder matriarcal, como no apelo de Bate-Seba ao moribundo rei Davi (1ª Reis 1.13), no reinado de Jezebel e na sucessão do rei Jeú (2ª Reis 11.1-4). Aqui, porém, esse poder se transcreve até na formulação do ensino de Sabedoria.

CONCLUSÃO

O Livro de Provérbios traz um tipo de sabedoria (divinamente inspirada, se tomamos a participação especial de Salomão, Ezequias e Josias nisso) ao qual não estamos acostumados. Trata-se da compilação do pensamento de sábios em linguagem o mais simples e popular possível, porém guardando um formato e estilo que identificou-os durante cerca de 1000 anos. O livro raramente está na forma de texto, sendo geralmente uma sucessão de pequenas falas onde duas idéias são comparadas. É difícil saber quanto dos escritos originais sobreviveram ao longo desse tempo, mas a estrutura do texto (não sendo um texto...) se conservou incrivelmente ao longo do tempo.

SABEDORIA TAMBÉM É LER

Agur - wikipedia
Amenemope (pharaoh) - wikipedia
Carreira JN, Sabedoria evangélica no Antigo Egito, Faculdade de Letras de Lisboa
Ivo Storniolo, Como ler o livro dos provérbios, Ed. Paulus, 2008
Rob Harbison, Proberbs - study guide
The Proverbs of Amenemope also known as: The Instruction of Amenemope