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quinta-feira, 12 de março de 2020

Quando a fé mata - histórias do Brasil

As chamativas colunas de arenito em Pedra Bonita - PE. As grandes estátuas (de 3 metros cada uma) foram colocadas ali nos anos 1990 pelo folclorista Ariano Suassuna, como parte de um artefato turístico. Ele escreveu um livro sobre os acontecimentos do lugar em 1971 e trouxe estátuas representando os personagens de sua estória, que arrumou em círculo, como um antigo templo pagão.

Dentro do Cristianismo, somos (ou pelo menos deveríamos ser) inspirados pelos ensinamentos de Jesus. Temos uma coleção deles naquilo que foi nomeado como Sermão da Montanha, outros nos seus diálogos com personagens como Nicodemos ou a Samaritana junto ao poço, outros ainda nos confrontos entre Jesus e os Fariseus, mais alguns nas explicações sobre o mundo espiritual e nas Parábolas. Jesus falou e mostrou bastante sobre amor ao próximo e o que esperar de um Deus que age como pai. Antes de morrer, Ele avisou que voltaria num futuro distante para julgar os homens, numa hora secreta.

Após Jesus, o Cristianismo se espalhou e cresceu, conquistou Judeus, Romanos e Gregos. Criou comunidades, foi perseguido, assimilado pelos nobres, tornado a representação de Roma após o fim do Império. O Cristianismo ganhou reis nórdicos, combateu o Islã, travestiu-se de impérios, refez a Europa, foi usado como motivo de guerras e de extermínios, de revoluções, de conquistas, de independência. Tornou-se motivo de disputas, de desprezo pelo próximo, de torturas, de acúmulo de fortunas e poder. Hoje, aqueles pescadores chamados por um pedreiro-carpinteiro de Nazaré talvez só poderiam reconhecer o nome de seu mestre, na Igreja. Há quem diga que Jesus, se aparecesse falando o que falava e fazendo o que fazia, seria crucificado de novo, em nome de Jesus. Por isso - para que a Igreja saiba o que já foi e o que é - temos de olhar com cuidado e valor para nosso passado, de dentro para fora, para que não façamos do Senhor um espantalho para todo desejo e maldade humanos que imputamos a Ele.

Um grande exemplo de coisas assim ocorreu no Brasil, sob os olhos do tempo e de maldade pouco acreditável. Tudo começou bem longe daqui, na costa norte da África, no séc. 16.

A MORTE DO REI

Eram tempos de glória para a Igreja e o Império. Vários países da Europa haviam abraçado a Reforma Protestante, mas nações que mantinham sua lealdade ao Papa - diga-se Portugal e Espanha - haviam repelido os reis Mouros (Muçulmanos que governavam a região de Córdoba, na Espanha) para fora da Europa. Portugal fundara um posto avançado da Cristandade sobre a cidade de Ceuta, no disputado norte da África. O próprio jovem rei D. Sebastião I, não apenas devoto mas um provável monge, ganhou a benção do papa Gregório XIII e direitos de comércio na terra convertida ao Cristianismo, juntou uma legião de soldados e embarcou para o Marrocos. Ele prometia derrotar o poderoso sultão Abd Al-Malik I e fundar mais uma fortaleza Cristã dentro do território Mouro.

Mas os planos para 1578 não deram certo. Seu aliado e parente, Felipe II da Espanha, já havia negociado reforços ao governante do Marrocos. D. Sebastião não era o líder militar que acreditava ser e seu exército foi esmagado em batalha. Portugal depois gastou fortunas em ouro para pagar ao sultão pelas vidas e liberdades dos nobres e soldados capturados. Dos que voltaram, ninguém soubera dizer sobre o fim do jovem rei.

A sucessão do trono português gerou uma enorme crise internacional. O trono acabou requisitado por Felipe II da Espanha, tio do antigo rei, que invadiu Portugal e se apossou, dentre outras coisas, da grande colônia além-mar chamada Brasil.

O BRASIL NA VIRADA DO SÉC. 17

Durante os primórdios da ocupação Portuguesa, para o Brasil vieram os mesmos conquistadores que faziam riqueza na costa da África, na Índia e no Ceilão. Aqui, disputaram as terras do litoral lutando contra as nações indígenas, adentrando o Sul e Sudeste, mas bem pouco o Nordeste. Junto a eles iam os padres Jesuítas, a quem tinha sido confiada a missão de converter os indígenas em Novos Cristãos. O mesmo armamento usado para subjugar os indígenas no interior do país era empregado em guardar as expedições e cidades do litoral contra outros exploradores, vindos da Espanha e Holanda.

De repente, os chegados da África trouxeram a pior notícia: tinha desaparecido o último descendente da família real de Aviz. Não bastasse, os Espanhóis vinham aos montes para o Brasil e os Jesuítas, parceiros da Coroa Portuguesa, estavam com os dias contados.

De Portugal, começaram a vir os padres Jesuítas e mais notícias. Falava-se que D. João não estava morto. Um poeta-profeta possuidor de Bíblia em português, chamado Gonçalo Annes Bandarra, anunciara anos antes, aos quatro ventos, que Portugal seria o reino do futuro. O genial padre Antônio Vieira (1608-1697) estudou e foi ordenado Jesuíta na Bahia de 1624. Ele mesmo defendia que, a partir da profecia de Daniel 2, haveria uma 5ª idade do mundo: após a Assíria de Tiglath-Pileser, a Pérsia de Ciro, a Babilônia de Nabucodonosor e a Roma de César. Certamente que essa nova idade seria o governo de Portugal, em nome de Cristo. Dizia-se que D. João estava escondido, andando pela África ou as cortes da Europa sem ser reconhecido, e voltaria para reaver o reino.

Por volta de 1640, após quatro Felipes espanhóis governarem Portugal, os duques de Bragança (de quem descende nosso famoso D. Pedro I), organizaram exércitos para retomar o trono de Lisboa. A versão Portuguesa de futuro do mundo agradou demais os Portugueses de 1642, quando Vieira pegou para a corte de Bragança. Por volta de 1665, ele havia conseguido que até figuras importantes da Igreja se tornassem ansiadores e propagadores da crença na volta de D. Sebastião, o Salvador de Portugal e do Brasil. Aqui, entretanto, a Retomada já encontraria grandes expedições de Espanhóis no interior do país, principalmente em busca de jazidas de ouro e prata.

O esgotamento de mina após mina havia povoado o interior do Brasil de vilas afastadas das capitais no litoral, onde o governo português foi refeito. Brotaram populações de mestiços de índios, negros, espanhóis e portugueses que mantinham vagamente uma noção de história. Nelas se cultivavam lembranças de expedições na África, contra os Mouros, mas também a figura heróica e mística de D. Sebastião.

O rei já centenário havia sido transformado em figura espiritual¹, habitante de um reino encantado, que voltaria com sua cavalaria para salvar o mundo. Ele seria enviado pelo próprio Jesus e a Virgem Maria quando os homens provassem sua coragem e sua fé. Essa crença, que em Portugal se enfraqueceu com o restabelecimento da monarquia, no Brasil manteve-se disseminada principalmente no Sertão Nordestino, entre as populações de jagunços, a ponto de aparecer em plena virada do séc. 20, nas rezas escritas que foram resgatadas da cidadela de Canudos.

Segundo o célebre escritor Gonçalves Dias, as populações de jagunços formaram-se dos trabalhadores rurais e mineiros, que sem terras aráveis nem garimpos, perambulavam em bandos pelas estradas. Sem uma estrutura de governo naquelas terras ermas, como os bárbaros medievais eles vez por outra saqueavam povoados, às vezes se estabeleciam em fazendas e negociavam seu poderio de fogo com quem pudesse pagar por ele, quem estivesse interessado nas terras de outro. Ao mesmo tempo, cultivavam uma religiosidade que misturava o barbarismo, o pedido por proteção em seus ataques, a devoção a Jesus e Maria, não raramente também ao rei espiritual D. Sebastião, seu ideal de política.

Esse tipo de religiosidade teve sua semente e evoluiu das missões solitárias dos Jesuítas, quando não podiam contar com o apoio do governo ou mesmo de Roma, e acabavam tornando-se líderes espirituais únicos de comunidades afastadas. Com sua morte, geralmente eram substituídos por leigos locais que usavam de misticismo, rezadores ambulantes, alguns chamados de profetas ou feiticeiros, pessoas que o povo temia e também seguia. Muitas vezes, esses novos párocos mal sabiam ler e todo o material Cristão que possuíam às vezes consistia numa capela de barro batido, imagens quebradas de madeira ou barro, cruzes improvisadas e talvez alguns papéis de uma antiga igreja. Seus ritos, não raro, traziam elementos de 1 ou 2 sécs. atrás e forte influência da mística indígena ou das nações africanas conquistadas.

O QUE PODE HAVER DE PIOR

Por um lado, a Igreja Católica havia se aliado às monarquias da Europa e transmitia santidade aos intentos de exploração das colônias na América, África Ocidental, Índia e China. Essa santidade consistia na necessidade de evangelizar os povos, na afirmação de poder das monarquias sobre terras genitoras de outros povos, na permissão de genocídios dos que se opunham a dominação, na negação da alma e direitos humanos a outras raças. Nas cidades, a igreja também emprestava seu poder sagrado aos governantes empossados pelos conquistadores. O Brasil foi um fértil terreno para a Contra Reforma, com os tribunais eclesiásticos tomando, em nome de Jesus, as terras, riquezas e as vidas de quem não apoiasse os interesses coloniais.

Nos sécs. 17 e 18, as comunidades no interior do país se distanciaram cada vez mais da hierarquia Católica. Não se declaravam opositores da Igreja, isso nunca, mas desenvolveram seus panteões próprios de santos e crenças. Incorporaram elementos indígenas como a crença em locais e dias mágicos; absorveram da cultura africana vestimentas como os turbantes das mulheres e o temor/uso de feitiços, desfilavam a crença de um rei messias que viria do outro mundo para igualar todos os homens. Especialmente no Sertão Nordestino, o desgoverno da região permitiu que tais crenças elaborassem outro sentido de mundo, sem separação entre a liderança política e religiosa. A qualquer momento novos reis pobres podiam surgir, e surgiram, tomando para si a fidelidade dos bandos de jagunços.

Um episódio singular aconteceu em Pedra Bonita, Pernambuco. Não foi o único, nem o primeiro, nem o último, nem teve fim diferente dos demais, todos esmagados pelos exércitos imperiais. Afinal, em 1808 a própria coroa Portuguesa foi transferida ao Brasil e, em 1822, havia um rei brasileiro.

No ano de 1836, no município de São José do Belmonte, um homem religioso apareceu com pedrinhas brilhantes que dizia serem diamantes. Teria encontrado-as numa lagoa encantada e invisível junto a duas grandes pedras verticais e paralelas, de uns 30 metros de altura, próximas dali. Dizia também sobre uma visão em que D. Sebastião revelara a ele que aquelas duas grandes pedras eram as torres de uma catedral encantada.

Com um velho folheto, ele contava a vida e a morte do rei místico, além da sua esperada ressurreição.  Declamava os poemas de Bandarra como profecia que se estava cumprindo. Percorrendo toda a região com suas pregações, criou um movimento religioso em torno das duas pedras. Um padre foi nomeado para dialogar com ele, que o convenceu a se redimir e sair da região. Mas uns 2 anos depois, João Ferreira, seu cunhado, retomou o movimento com maior fervor e até se autoproclamou rei. Dizendo que D. Sebastião também aparecera a ele em sonho e confirmara a profecia sobre as duas torres, adicionou que as portas do outro mundo liberariam seu exército apenas quando as bases das pedras fossem banhadas com sangue. Quem se oferecesse em sacrifício teria riqueza, poder e imortalidade: os pretos ressuscitariam brancos; os feios, bonitos; os velhos voltariam jovens.

Ele juntou algumas centenas vaqueiros, agricultores e moradores de toda a zona percorrida por João Antônio, seu antecessor. Surgiu ali um povoado de Sebastianistas morando em casebres de barro, chamado Reino Encantado de Pedra Bonita. Fugidos das terras onde trabalhavam, as pessoas ali viviam na miséria justificada apenas pela sua fé: dependiam dos saques dos jagunços a propriedades e cidades vizinhas para terem o que comer e  vestir. Tinham João Ferreira por rei (casado com sua esposa original e a irmã dela) e sua família, assim como a do cunhado, por nobreza. Um certo Frei Simão conduzia os rituais religiosos numa caverna, na base da pedra menor. Seguindo ritos medievais ainda em voga na região, após o desposamento, a noiva passava sua primeira noite com o rei.

Num outro templo natural ali perto, conduziam o ritual do vinho santo, uma bebida fermentada e alucinógena à base de jurema e manacá, herança indígena da região. As cerimônias sempre terminavam com muitos tiros para o ar e vivas a El Rei D. Sebastião.

Os sacrifícios para ressuscitar D. Sebastião começaram em 14 de maio de 1838. O pai de João Ferreira foi o primeiro, seguindo-se logo 52 mortes humanas - homens, mulheres grávidas e 30 crianças, e até 14 cães. Pais e mães traziam como oferendas partes do corpo dos filhos. Aos pés do rei, arrancavam orelhas, língua, dedos dos pés, das mãos ou genitais. Os cadáveres amontoavam-se e eram colocados na base das duas pedras de maneira simétrica, separados por sexo, idade e qualidade, de acordo com o tipo de promessa que houvessem feito. Pedro Antônio dos Santos, irmão das esposas mortas, então declarou que faltava o sangue do rei João Ferreira. Este foi agarrado e sacrificado a força. Pedro tornou-se o rei sucessor.

No 3º dia da matança, o Santuário foi mudado para longe das colunas de granito, devido a podridão dos cadáveres no local.

Pouco depois, a polícia de São José do Belmonte foi avisada por um vaqueiro fugido. Curiosamente, o delator destacava a frustração dos integrantes por terem sacrificado inocentes em vão, já que dom Sebastião não havia desencantado. No dia seguinte, um batalhão de força policial atravessava o sertão e se confrontava com as balas certeiras dos jagunços, invadindo a citadela e levando amarrados aqueles que sobreviveram ao sacrifício e a ocupação. O rei e 16 seguidores morreram na batalha. As mulheres e crianças foram soltas na cidade, os homens acabaram seus dias no antigo presídio de Fernando de Noronha.

No final do séc. 19, o Padre Ibiapina, famoso líder religioso e precursor do Padre Cícero na região, espalhou que toda a terra envolta de Pedra Bonita era amaldiçoada. Até hoje contam-se histórias sombrias a respeito daquele lugar, que o governo de Pernambuco tentou substituir por uma cavalgada histórica todos os anos, em homenagem às vitórias de D. Sebastião.

COISAS QUE PENSAMOS SABER

O incidente de Pedra Bonita foi apenas um dentre vários desse tipo, mas certamente o mais assustador em solo brasileiro. Esses eventos nos dão uma lição sobre as coisas que podem ser criadas pelos homens em nome de Deus, dentro ou fora da grande hierarquia religiosa.

Euclides da Cunha atribuiu os acontecimentos bizarros de Pedra Bonita e Canudos a grande religiosidade dos sertanejos nordestinos e seu isolamento geográfico/temporal das metrópoles, vivendo uma Idade Média em pleno séc. 19. No entanto, outros lugares menos isolados já tiveram ocorrências semelhantes, mostrando que pouco mais do que um líder e uma população inculta são exigidos para esses movimentos. A existência da fé em um rei espiritual certamente deve ter facilitado tudo.

Esse rei espiritual é uma figura de enorme perigo, não desabonando as maldades de reis bem carnais, como Hitler, Mussolini e Kin-Jong-Un. Tais figuras atravessam a barreira do carnal-sagrado e simplesmente são tomados por messias salvadores, aos quais se poupa, curiosamente, o julgamento por quaisquer atentados contra a raça humana. Eles podem tudo e, antes que sejam julgados pela opinião popular, o que fazem define o certo e aprovado, mesmo contra todo princípio e cultura pré-existentes. Em especial esses líderes aparecem em épocas de sofrimento coletivo, atribuindo-se às suas ações funestas o caráter de NECESSÁRIAS para o retorno a uma situação melhor. A ascensão de tais figuras ao status de divindade não é imediato, mas ocorre pelo simples convencimento de uma população inculta e desesperada.

D. Sebastião foi uma figura extremamente popular e dessa ordem divina, a ponto de gerar lendas como a da cidade submarina frente a São Luís no Maranhão, que ressurgirá junto com D. Sebastião quando alguém vencer o místico boi negro que emerge das águas, nas noites sem luar. Não é muito raro que personagens como Tiradentes, Lampião, Padre Cícero, Floriano Peixoto e até Getúlio Vargas tenham sido embutidos de características místicas, como reis sobrenaturais. É verdadeira sorte que não tenham surgido líderes religiosos tentando ressuscitar eles, como em Pedra Bonita.

No Brasil atual, esse endeusamento se dá sobre certas famílias ricas, equivalentes dos nobres, que comandam por completo a política no interior do país. Algumas vezes esses políticos são reverenciados como salvadores da nação destruída, outras vezes são entendidos como a representação de Satã na Terra. No lado religioso, ocorre também o endeusamento de líderes Pentecostais, os quais se acredita imunes a balas e capazes de matar, por pensamento, o miserável que os desagrade ou ofenda. Não se cansam de reportar bizarrices muito variadas nessas igrejas, sobretudo quando são denominações de um único templo ou recém surgidas.

Ainda que sejam raras as ocorrências de fanatismos da ordem de Pedra Bonita, a população local não fez mais do que condensar diversas crenças regionais que se encontravam, de forma mais amena, difundidas na região. Afora o sacrifício coletivo e a distorção tremenda do Cristianismo (se bem que não o praticado naquelas paragens, naquele tempo), apenas esse morticínio e a instauração de uma micro-monarquia chamaram a atenção.

Hoje, crenças difundidas na Igreja, distantes do ensinado por Jesus e altamente reforçadas em pequenos grupos, sobretudo os mais incultos, dizem sobre a santidade conquistada dos frequentadores dos cultos, o anti-cientificismo, a evitação de prazeres, a evitação de quem contamine a pureza do Cristão, a ligação entre Deus e a riqueza, etc. Vez por outra aparecem candidatos a um grande líder político também, apoiados na terrível ofensa a um desses pontos, o que os torna detentores de santidade e comando inquestionável de grande parcela das pessoas. Esse é um elemento com o qual nós devemos nos preocupar, tanto quanto ou mais que as negociações de poder dentro das enormes hierarquias da Igreja.

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¹ O Sebastianismo é apenas uma denominação dentro dos movimentos messiânicos. No Brasil, a maior parte deles ocorreu na região do nordeste: Pedra Bonita, 1836-1838, em São José de Belmonte-PE, líder João Antonio dos Santos; Canudos, 1897, na confluência de PE, BA e CE, líder Antônio Conselheiro; Guerra do Contestado, 1912, em Santa Catarina e Paraná, líder monge João Maria; Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, 1936, em Crato-CE (terra de Padre Cícero), líder beato José Lourenço; Borboletas Azuis, 1977, em Campina Grande-PB, líder Roldão Mangueira de Figueiredo.

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RASCUNHOS DO SERTÃO

Antônio Vieira - wikipédia

CUNHA, Euclides da. Os Sertões. 1902.

FONTANA, Mônica. Sebastianismo em Pernambuco: memória dos movimentos da Serra do Rodeador e da Pedra do Reino, XXVII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Porto Alegre/RS, 2004.

LIMA-PEREIRA, Rosuel. Heroísmo, Guerra e Imaginário: Raízes Medievais e Socioculturais do Sebastianismo Maranhense, Historia Antiga e Medieval. Conflitos sociais, guerras e relações de gênero: Representações e violência., vol. VI, Editora UEMA, p. 365-374, 2017.

SANTO JÚNIOR, Lúcio Emílio do Espírito. O Sebastianismo em Portugal e o Messianismo no Brasil. Revista do Centro de Estudos Portugueses, v. 20, n. 26, p. 101-119, 2000.

TESTONI M, Seita brasileira fazia sacrifício humanos, aventurasnahistoria.uol.com.br, 31/mai/2019.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

O esquecido Reino de Deus


“O reino é como o fermento que uma mulher coloca na massa” - pintura do estadounidense James B. (Jim) Janknegt

Um termo muito usado no Novo Testamento e possivelmente necessário para sua compreensão é Reino de Deus. Apesar de frequente, esse termo assume conotações diferentes no texto e sua interpretação pode ser ainda mais confusa.

Primeiro, é importante definir a palavra Reino. Na tradição européia que herdamos, reino é um lugar no espaço (ex. Reino Unido, Reino da Cornualha, Reino de Gondor). Na tradição hebraica anterior a 70 d.C., quando Jerusalém foi destruída, reino era um lugar no tempo (ex. Reino de Salomão, Reino de Josias)., quando as leis e até o calendário próprio de um rei estavam em uso. Dessa forma, Reino de Deus assume a conotação de um momento em que Deus governaria os corações dos homens, produzindo uma Era de bênçãos.

Segundo, é necessário entender que os textos do Novo Testamento, sejam os evangelhos ou as cartas, não são relatos históricos. Isto é, não são fragmentos do diário de apóstolos que por acaso continham a vida de Jesus e Seus ensinamentos. Todos eles são textos produzidos para serem lidos nas igrejas, com uma função explícita. Seja qual fosse sua forma original, esses textos dão mostras de muitas re-organizações: o livro de Mateus principalmente assemelha-se a uma coletânea de passagens ligadas posteriormente, o de João tem Jesus o tempo todo afirmando Sua divindade, coisa que nem aparece nos demais. Não há dúvidas que a comunidade religiosa do início do Cristianismo, lá pelo final do séc. 1, contribuiu ativamente na elaboração do que lemos sobre Jesus (muitos estudiosos até preferem a palavra Cristo - aquele em quem as pessoas acreditam, ao invés da figura física e histórica de Jesus). Cada comunidade fez isso a sua maneira, com o texto que tinha em mãos, e então lá pelo séc. 3, quando tudo foi reunido, havia diferentes ensinamentos e até diferentes histórias do mesmo Jesus. Alguns textos foram feitos para os judeus que esperavam a restauração do Reino de Davi, outros para os gentios, que esperavam pelo abraço de todas as nações sob Jesus.

REINO DE DAVI

Davi governou a Judéia no início do séc. 10 a.C. A tradição o coloca como um camponês ungido pelo profeta Samuel, do templo de Shiló, na terra de Efraim, ao norte de Jerusalém. Davi aparece no reinado de Saul, primeiro rei dos Judeus, em meio a uma disputa territorial com os Filisteus. Ungido pelo profeta, trabalhando como músico de Saul enquanto era atormentado por um espírito mal enviado por Deus, Davi ganha respeito como guerreiro e passa a dividir autoridade com Saul entre suas tropas. Protegido pelo príncipe Jônatas, Davi cresce em poder e substitui Saul após ele e seu herdeiro serem mortos pelos Filisteus. Embora não fosse um exemplo de bom comportamento, Davi era respeitoso a Deus, penitente e igualitário com seus homens, sendo chamado até de “homem segundo o coração de Deus”.

Embora tenha lidado com seus filhos matando uns ao outros e até tentando tomar-lhe o trono, Davi desfrutou a estabilidade de um reino em paz com o Egito e comercialmente próspero. Israel era caminho obrigatório das caravanas de incenso, ouro e tecidos indo e vindo entre a Europa e a China. Isso pagou a construção do grande Templo por seu herdeiro Salomão. O Templo foi, desde então, o pilar da monarquia de Israel.

Muito depois de Davi, o Templo foi destruído durante a invasão de Nabucodonosor II no início do séc. 6 a.C.. Depois foi reconstruído por Zerubbabel, Neemias (governadores) e Esdras (sacerdote) no final do séc. 6 a.C., quando os judeus foram libertados pelo rei Ciro, o Persa. No séc. 2 a.C., durante o domínio Grego na Judéia, o Templo foi seguidamente esvaziado e re-consagrado. Ao final do séc. 1 a.C., o rei Herodes o Grande, súdito de Júlio César, de Roma, reformou e ampliou o Templo.

Por isso, quando Jesus apareceu na Terra, o Templo não era mais de Salomão nem era a sede do governo; a Judéia era então uma província liberta dos gregos e agora dominada pelos romanos. No imaginário popular, o Reino de Deus seria a restauração da independência e poder monárquico que os judeus contavam a respeito de Davi, quando tanto o rei quanto seu povo seriam adoradores e beneficiados de Javé.

REINO NA TERRA

Jesus, apesar de inserido no mundo judaico do seu tempo (Ele não dá a entender sobre formas de governo melhores ou futuras), não assume para Si a restauração do Reino de Davi. Em muitas passagens, Jesus dá a entender que o Reino de Deus já começara com João Batista, estava ao alcance de todos e não era deste mundo (João 8.23-25).

Assim, o Reino também não era algo espiritual destinado aos mortos. Jesus até usa em uma parábola a descrição judaica do Seio de Abraão, um local no Sheol / Hades / mundo-dos-mortos destinado aos justos. Ele também usa a figura de uma “casa de Deus” onde os espíritos humanos poderiam habitar. Mas com referência ao Reino, Jesus dizia que ele pertencia às crianças, aos pobres, aos mansos de coração e aos injustiçados (Mateus 5). Para entrar no Reino não era necessário morrer, mas nascer de novo (João 3). Ao arrependimento pregado por João Batista nas margens do Jordão, Ele emendava uma mudança radical ainda em vida. Devia-se amar a todos, mesmo os inimigos, dar tudo aos que precisavam mais, tratar a todos com igualdade.

A essa imagem de um Reino na Terra, Jesus empresta parábolas como a da semente de mostarda que cresce para se tornar uma árvore, o fermento que se espalha pela massa, a pérola preciosa pela qual se dá todos os pertences (Mateus 13). O evangelho de Mateus registra tais falas como um imaginário rico do que os Cristãos pretendiam ser. Mateus fez seu texto para judeus lerem, até evitando o nome YHWH como era próprio da sua época, e por isso ele fala muito em Reino dos Céus. Já Marcos não evitava dizer Reino de Deus, quando escrevia para os gentios que encontrava em suas viagens com Paulo, Lucas, Silas e Barnabé.

REINO NOS CÉUS

Jesus quebrou a cosmogonia judaica, onde os espíritos dos mortos eram destinados a um mundo sem sensações abaixo da terra, com alívios no caso de serem justos (o Seio de Abraão) ou com labaredas no caso de não serem (o Seio de Lázaro) (Lucas 16.19-31). Provavelmente essa não era a crença de todos, pois havia dissidências entre Fariseus e Saduceus. No evangelho de João, Ele anuncia uma morada junto a Deus, mas não a nomeia como Reino (João 14.1-6). Apesar disso, em seu famoso exemplo de oração a Deus, ele diz “venha a nós o Vosso Reino, seja na Terra assim como é nos Céus” (Mateus 6.9-13, Lucas 11.2-4).

Essa visão de um Reino no além-vida popularizou-se nos primeiros séculos da Igreja, juntando-se a filosofias gregas sobre a imperfeição do mundo vs. a perfeição de Deus e mesmo ensinamentos judaicos do grupo dos Essênios, do qual viera João Batista. Em suma, isso criou a idéia de um corpo corrupto e mal (Paulo usa essa imagem, ao dizer que o Espírito luta contra a Carne - Gálatas 5.16-25), em um mundo também corrupto e mal, do qual o homem é liberto pela morte após uma vida justa. Santo Agostinho, influente teólogo e bispo de Hipona Régia (antigo reino de Cartago após o domínio romano, na costa norte da África, séc. 4) implantou essa idéia em toda a filosofia Cristã.

No Catolicismo, especialmente com a publicação da Divina Comédia (Dante Alighieri, início do séc. 14), a Igreja Católica estendeu o pós-morte a uma viagem das almas pelo Purgatório, de maneira que os vivos não apenas deviam ser justos, mas deviam pagar com sua boa conduta (e dinheiro) pelo pós-vida dos entes já falecidos.

REINO DO FIM DO MUNDO

Uma outra interpretação do Reino de Deus, amparada no Apocalipse ou Revelação de João e nas falas de Jesus, é a de que o Reino de Deus se consumará com o julgamento da Humanidade. No linguajar pitoresco de Jesus, serão separados os bodes e as ovelhas (Ezequiel 34.17, Mateus 25.31-34), o joio e o trigo (Mateus 13.36-42). Os primeiros serão destruídos no fogo ou nas trevas exteriores, os últimos terão seu lugar completamente sob a lei de Deus e habitarão uma nova Terra.

O Reino muitas vezes foi citado por Jesus como algo futuro, a ser estabelecido com o retorno Dele à Terra. Dessa forma os Cristãos se prepararam, desde a morte, ressurreição e ascensão de Jesus, para esse novo tempo, em que o Messias viria do céu, num momento em que Ele mesmo não saberia predizer. Obviamente, a instrução de pregar o Reino e a promessa de uma Consumação implicava a Igreja como construtora de tal Reino, de forma que o “proprietário” chegaria a qualquer momento para exigir a sua obra, em uma linguagem que foi muito utilizada nos sécs. 1 e 2 em livros como o Pastor de Hermas.

Mas o que caberia à Igreja fazer, exatamente, nesse tempo? Segundo Jesus, proteger as crianças, evitar divórcios, amar os inimigos, devolver o bem a quem faz o mal, dar tudo o que possui a quem precisar, ajudar os órfãos e as viúvas. Tais medidas seriam feitas a partir de um novo nascimento, algo que seria difícil aos ricos e atrairia muitos para o grupo.

EPÍLOGO

Certa vez ouvi um pastor dizer "O Brasil tem mais de 181 milhões de Cristãos. Não é possível que as coisas estejam ruins assim". Na verdade, a Igreja Cristã, definida como uma reunião organizada e administrada de pessoas, seja de qualquer denominação que caiba nas largas abrangências do Cristianismo, não teve sucesso em implantar o Reino de Deus definido por Jesus. Pelo menos a parte do Reino na Terra, que é a única cabível a nós. Não teve sucesso nos primeiros séculos do Cristianismo, nem em qualquer período posterior.

Já no séc. 2 a Igreja instituiu o batismo de crianças, o que vai diretamente contra o Reino ser algo ao qual as pessoas escolhem estar vinculados, e mais contra ainda o "nascer de novo" tanto pregado por Jesus a um certo nobre e fariseu chamado Nicodemus. A igreja também proibiu o divórcio exceto em casos de adultério (entre os judeus a prática era bastante comum, sendo suficiente a vontade do esposo), o que não é mais "tentar evitá-lo" do que colocar uma placa de "proibido pisar na grama". A Igreja também atacou (com força militar), matou, torturou e queimou vivos todos os dissidentes entre os sécs. 10 e 16 - isso incluiu outros sectos Cristãos, judeus e muçulmanos - o que também é uma versão bem estranha de "amai os próximo e a seu inimigo". Isso sem contar o extermínio dos inúmeros acusados de bruxaria, nas posses dos quais os religiosos estavam interessados. Desde que se aliou à monarquia romana no séc. 4, a Igreja reuniu grandes fortunas (seja como templos preciosos ou como ouro e fortunas bancárias) e apenas observou os miseráveis e milionários sob suas asas. Ao contrário da rejeição indicada por Jesus, os ricos e muito ricos se aliam e são beneficiados pela Igreja faz muuuuito tempo. Ela até acolheu, mas também usou como mão de obra os órfãos e viúvas nos sécs. 18 e 19, tendo feito bem pouco ou nada por eles antes disso.

A Igreja atraiu multidões desde os tempos de Jesus, mas os dissidentes (nomeados ateus e agnósticos, literalmente aqueles a quem a Igreja não atrai) se multiplicaram desde o séc. 16 na Europa e se concentram, dentro do mundo Cristão, sobretudo no Leste Europeu (por influência do Comunismo desde o início do séc. 20), mas também entre os países nórdicos (90% da população), França (60%) e Canadá (50%). No Brasil são pouco menos de 10%, porém crescendo entre as gerações mais novas.

Que o proprietário demore um tanto a voltar, ou terá um susto.

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PAPÉIS LARGADOS NA FRONTEIRA DO REINO

Atheism History - wikipedia
Fairchild M, What is the kingdom of God?, Learnreligions.com, out/2018
Infant baptism - wikipedia
Kingdom of God - Gotquestions.org
Stein RH, Kingdom of God, Biblestudytools.com
Walvoord JF, Kingdom of God in the New Testament, jan/2008

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Cristãos contra Cristãos - porque tantas guerras na Idade Média?


A Europa por volta do séc. 10. Em laranja, o território dominado pela Expansão Islâmica; em rosa, o Sacro Império Romano-germânico, com a sede Católico-romana ao sul; em verde, o Império Bizantino. No mapa, são mostradas as rotas das Cruzadas para reconquistar Jerusalém.

Quando a bula Ad Extirpanda foi escrita, impondo um massacre dos hereges e determinando prêmios e punições segundo a contribuição da sociedade nisso, a Igreja Cristã havia mudado muito desde o séc. 1. O movimento que abolia as propriedades individuais e suportava a perseguição dos Judeus se transformara na religião estatal do Império. Haviam altos postos dentro da organização, geralmente ocupados por nobres. Por volta de 500 d.C., a Igreja controlava terras, exércitos e mesmo reis, tinha legisladores e uma espécie de constituição. Esse texto examina como os Cristãos chegaram a tal ponto.

Um ponto interessante é que Jesus não estabeleceu doutrinas. Teologicamente, Sua grande inovação estava no “siga-Me”, “amai ao próximo”, “terão autoridade e poder”, “pregai a toda criatura”, na existência do Pai, Filho e Consolador e na esperança de outra vida. Jesus não se deteve em debates filosóficos, mas demonstrou que conhecia o futuro, que comandava os peixes, que moldava e multiplicava a matéria viva ou não viva. Seus sucessores, por outro lado, quiseram explicar os porquês do querer, da importância de ser Judeu, da legalidade de qualquer alimento, etc. Nessas definições lógicas, cada qual inseriu e propagou sua própria bagagem cultural, de modo que a diversidade entre Pedro e Paulo já provocava discordâncias poucos anos após Jesus. Por volta do ano 300 d.C., quando 10% da grande Roma já era Cristã, havia muitas versões do Cristianismo.

ORTODOXIA

Nesses tempos áureos, Constantino I promulgou a liberdade aos Cristãos e todos os crentes de alguma fé para praticarem seu culto sob a proteção de Roma. Ele também organizou concílios para os bispos Cristãos debaterem as questões da fé, de forma que o Cristianismo de um lugar se aproximasse do Cristianismo de outro, mas pouco interferiu como autoridade nesses concílios. Afinal, ele misturava sem problemas o culto pagão com a nominação Cristã em seus exércitos. Constantino interessava-se mais pelo poder político, que perseguiu até controlar as duas metades de Roma. O Cristianismo, que não cultuava o imperador, também era conhecido pelo pacifismo político; assim, parecia ser uma forma de manter a união e a paz dentro do Império.

Constantino repelia qualquer discordância ou conflito sob sua jurisdição. Curiosamente, ele foi pioneiro na perseguição a um grupo Cristão. Os Donatistas, como eram chamados, eram Cristãos do norte da África (centrados em Cartago, atual Tunis) que se recusavam a seguir aqueles que haviam abdicado da fé durante as perseguições aos Cristãos. Infelizmente, essa era a condição de grande parte dos bispos e demais autoridades religiosas, de forma que Cartago recusou-se a seguir o bispo apontado por Constantino. Em nome da ordem, os Donatistas foram perseguidos e impedidos de estabelecer uma estrutura administrativa, mas na prática sobreviveram em grupos informais até as invasões islâmicas (séc. 6).

Theodosius I, muito mais fervoroso do que Constantino nas crenças religiosas, se declarou tutor do Cristianismo e pessoalmente autorizado a ditar as regras da religião como ditava as da política. Ele também definiu qual seria a doutrina “correta” do Cristianismo:

“É nosso desejo que todas as várias nações que estão sujeitas à nossa clemência e moderação continuem a professar a religião que foi entregue aos romanos pelo divino apóstolo Pedro, tal como preservada pela tradição fiel e que agora é professada pelo pontífice Damasus e por Pedro, bispo de Alexandria, um homem de santidade apostólica. De acordo com o ensinamento apostólico e a doutrina do Evangelho, creiamos na mesma divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo, em majestade igual e numa Santíssima Trindade. Nós autorizamos os seguidores desta lei a assumir o título de Cristãos Católicos mas, quanto aos outros, já que, em nosso julgamento, eles são loucos e tolos, decretamos que sejam marcados com o nome ignominioso de hereges, e não se deve dar a suas reuniões o nome de igrejas. Eles sofrerão em primeiro lugar o castigo da condenação divina e em segundo o castigo de nossa autoridade que, de acordo com a vontade do Céu, decidiremos infligir.” (Edito de Tessalônica, 380 d.C.)

Embora muitas perseguições a grupos Cristãos tivessem como pretexto a Cristologia (isto é, a natureza de Cristo), algo que realmente não interessou ao próprio Jesus debater, em verdade foram empreendimentos militares. Tais ações estabeleciam a supremacia de algum secto da Igreja sobre os demais, o que significava poder legislativo, terras e impostos. Uma vez atrelada por Teodósio ao governo imperial, a Igreja Cristã tornou-se um poder paralelo ou alinhado com o poder político, que ao invés de cultuar o imperador como deus, dava a ele autoridade sobre a forma como Deus devia ser cultuado.

TEMPOS PÓS-ROMANOS

Quando os territórios de Roma começaram a separar-se irremediavelmente do Império (isso é o que se entende por “Queda de Roma”), a Igreja já estava repartida em 5 dioceses dirigidas por bispos: Roma, Constantinopla, Jerusalém, Antióquia e Alexandria. Cada uma dessas dioceses se apoiava na descendência como grupo Cristão formado por um apóstolo original: Pedro, André, “os apóstolos”, “Pedro e Paulo” e João Marcos, respectivamente. A diocese de Jerusalém era guardadora dos manuscritos mais antigos do Cristianismo. A diocese de Antióquia mediou os conflitos entre Judeus Cristãos e os novos convertidos entre os Gentios (não Judeus). A diocese de Alexandria foi a primeira a fundar movimentos missionários na Europa, seguida pela diocese de Roma, que converteu os reis guerreiros do norte. Enquanto isso, a diocese de Constantinopla se dedicou ao Gregos, Morávios e Russos. Todas as questões do Cristianismo eram, em princípio, debatidas nos encontros de representantes das 5 dioceses. Fugindo dessa eqüidade, a diocese de Roma logo aliou-se politicamente ao Império e o bispo Romano ganhou poderes sobre os demais.

Com as invasões do Góticos na Ibéria (Espanha) e Itália, a sede do governo imperial foi transferida para Constantinopla (486 d.C.). Em Roma, o poder caiu nas mãos de um rei Gótico chamado Odoacer, que havia trilhado sua carreira militar ao lado de figuras como Theoderic I (rei guerreiro dos Ostrogodos, um dos grandes inimigos de Roma) e Átila, o Huno (historicamente o responsável pela derrota final de Roma). Embora Odoacer não fosse romano, era Cristão Ariano e manteve o Senado, mas repartiu as terras imperiais entre seus aliados. Dessa forma, inicialmente a fragmentação de Roma Ocidental não foi um problema para os Cristãos. Os aliados de Odoacer, entretanto, não eram unânimes em gostar deles. Em vários pequenos reinos que se formavam, os religiosos da antiga diocese Romana às vezes vagavam de um canto a outro em busca de reis e príncipes que lhes fossem favoráveis.

Por volta de 600 d.C., na Europa haviam velhos Cristãos, Cristãos perseguidos e novos Cristãos. No leste, onde Roma ainda existia com o nome de Bizantium e sua nova capital Constantinopla, a Igreja seguia o curso normal de organização em sub-dioceses, criação de infra-estrutura e produção literária. No oeste, a expansão islâmica ceifou as terras romanas no norte da África. As dioceses de Alexandria, Antióquia e Jerusalém foram arrasadas. Em pouco tempo, a Ibéria e mesmo parte da Itália haviam sido invadidas por reis islâmicos negros (chamados de Mauros ou Mouros) que se aliaram aos Judeus refugiados nesses territórios e iniciaram um forte movimento anti-Cristão. Ali, os Cristãos perseguidos se agrupavam ao redor de mosteiros e os abades negociavam terras e direitos com reis pagãos ou islâmicos. Algumas vezes formavam exércitos de auto-defesa quando as relações não eram boas; outras vezes, agiam como coletores de impostos para pagar tributos aos reis. No norte, por outro lado, o Cristianismo crescia nas terras dos Pictos e dos Anglo-Saxões. Os novos convertidos, distantes das tensões com Judeus, Islâmicos e Bárbaros, davam novos ares ao que o Cristianismo viria a ser.

A transferência da capital romana para Constantinopla e a invasão das terras do antigo império tiraram da diocese de Roma todo o seu poder original. Esse poder foi transferido para a nova sede, a  diocese de Constantinopla.

UMA ROMA RELIGIOSA RENASCE

Lentamente e através de muitas missões político-religiosas, os reis guerreiros do norte da Europa e das ilhas Britânicas se converteram ao Cristianismo e firmaram alianças com a diocese de Roma. Os mosteiros tornaram-se centros educacionais numa Europa onde as pessoas habitavam e até cultuavam as antigas fortalezas romanas. O latim havia se tornado uma língua mágica, guardada em documentos muito antigos e agora reaparecia como a língua dos textos sagrados. As tentativas da Igreja nessa nova Europa culminariam com a coroação de Carlos Magno como grande imperador Romano-germânico em 800 d.C. Obviamente, Carlos Magno não era descendente dos césares e por isso inaugurou um 2º Reich ou Reino, que aos olhos dos europeus substituía a antiga Roma. Mas era uma Roma que misturava o poderio militar dos nobres com sua filiação à diocese romana, onde não era simples distinguir entre religiosos e nobres.

Os abades, em especial, eram religiosos responsáveis por terras e as populações que viviam ali. Deviam garantir a filiação das pessoas ao Cristianismo (pois as tradições pagãs eram muito comuns em áreas rurais, que dependiam do clima e da fertilidade do solo), mas também coletavam impostos para os nobres. Não raro, os mosteiros dispunham de pequenos exércitos. Muitos abades eram aparentados com os nobres ou até escolhidos por eles e assim postos “a serviço da Igreja”. Logo, o enriquecimento de algumas famílias também se refletia na riqueza de seus mosteiros. Os bispos das dioceses também não escapavam ao parentesco com a nobreza, especialmente no novo Império do Ocidente. Apesar disso, o poder político de Constantinopla se mantinha e crescia em riqueza com as rotas de comércio no Mediterrâneo. Não tardaria para que os dois centros religiosos entrassem em conflito...

A influência islâmica sobre a Igreja Ocidental não passaria despercebida. Por volta de 730-750 d.C., as imagens religiosas (com exceção dos crucifixos vazios) foram consideradas idólatras e hereges, o que resultou na destruição de quase toda imagem e pintura que adornava as igrejas ocidentais. Essa visão era um princípio da lei de Moisés mais ou menos abolido pela repulsão dos Cristãos aos costumes dos Judeus, mas também era um princípio do Al-Quram, que entrou no Cristianismo a partir dos reinos islâmicos da Europa. Pouco tempo depois, a destruição das imagens é que foi considerada heresia. Apesar disso, Jerusalém estava sob controle islâmico e o papa Urbano II convocou os nobres europeus em 1095 d.C. para levarem seus exércitos até lá, restabelecendo a cidade sagrada. Como prêmio, estavam autorizados a ter para si tudo o que conquistassem no caminho de ida e de volta. Todo crime contra os islâmicos também seria perdoado. Estavam iniciadas as Cruzadas.

Na diocese de Constantinopla, Roma era vista como autoritária. Afinal, interpretavam que todos eram descendentes da pregação de Pedro e, como os demais apóstolos, eram iguais perante Cristo. Roma, entretanto, tinha muito a ganhar pela argumentação de sua descendência direta do grupo de Pedro. Roma de fato considerava que o bispo romano era sucessor de Pedro e tinha poderes (no Céu e na Terra) sobre todos os Cristãos, com autoridade mesmo para inserir modificações nos textos bíblicos. Constantinopla se recusava a admitir uma estrutura monárquica dentro da Igreja. Em 858 d.C., o patriarca de Constantinopla Photius I declarou-se contra qualquer intervenção de Roma e começou o processo da separação dos Cristãos em Católico-romanos (no Ocidente) e Ortodoxos (verdadeiros, no Oriente). A separação foi um processo político e deliberativo, acontecendo apenas em 1054, com a excomunhão de cada lado pelo seu opositor. Em 1204, a 4ª Cruzada organizada pela Igreja Ocidental atacaria e saquearia a cidade de Constantinopla, assim como seus templos.

VERSÕES DO CRISTIANISMO

A despeito da crescente miltarização / politização da diocese Católica-romana, diversos sectos surgiram dentro do Cristianismo, à medida que ele era pregado e se modificava nos diferentes reinos e povos. Segue uma breve descrição desses movimentos.

Arianismo: fundado por Arius (250-336 d.C.), presbítero de Alexandria, pregava um Jesus criado por Deus Pai, assim como a Sabedoria (Provérbios 8.22) e portanto posterior/inferior a Deus (1ª Coríntios 8.5,6). Em 4º lugar na “hierarquia celestial” estava o Espírito Santo. Foi considerado heresia em 325 d.C. e perseguido por Constantino I após o Concílio de Nicéia. As disputas entre a doutrina de Nicéia e o Arianismo afastaram muitas autoridades, cada vez que o poder real mudava de mãos, até a doutrina ser banida de Roma por Theodosius I e sua esposa. A partir de Alexandria, entretanto, o Arianismo foi pregado entre os Germânicos (norte da Europa), Lombardos (norte da Itália), Vândalos (norte da África) e Góticos (Espanha), de onde re-assumiu a realeza quando Roma Ocidental se desmantelou. Os Francos (norte da França) e os Anglo-saxões (Inglaterra), entretanto, foram convertidos a partir da diocese Romana e, portanto, eram adeptos do Credo de Nicéia. O Arianismo sobreviveu até o séc. 7, quando a fusão dos reinos europeus sob o franco-germânico Carlos Magno criou o Sacro Império Romano-germânico e instituiu a caça a todos contrários ao credo de Nicéia.

Pelagianismo: fundado por Pelagius Bretto (354-420 d.C.), monge Bretão do território Romano no sul da Inglaterra. Seu nome significa “das ilhas britânicas” e pode ser um pseudônimo. Provavelmente era irlandês, do grande clã dos Scotts. Devido à pregação vigorosa e modo ascético de vida, era considerado “santo” mesmo pelos opositores (como Sto Agostinho). A doutrina pregava que os homens podem servir a Deus ou não, mas são auxiliados pela Graça em toda boa obra, que é fundamentalmente diferente da perfeição moral (João 8.11). As obras más seriam resultado de má conduta exclusivamente humana, dessa forma cabendo ser julgadas pela justiça comum dos homens. De forma análoga, Jesus seria influencial para a humanidade através dos seus bons exemplos de conduta. Foi considerado heresia em 430 d.C. por atribuir aos homens a responsabilidade pela sua salvação. mas há relatos de membros até o séc. 14.

Celtas: o Cristianismo Celta não surgiu como um movimento, mas foi uma combinação da evangelização dos Pictos por missionários da diocese de Alexandria, o esfacelamento de Roma Ocidental e uma geração de missionários nativos das ilhas Britânicas, imersos nos costumes dos chefes de clãs locais. Já no séc. 5, os Pictos adaptaram o Cristianismo a um sistema descentralizado, guerreiro e aliado às lideranças de clãs. Essa nova estrutura formou grupos Cristãos informais, atuantes na educação dos jovens adultos, avessos a hierarquias, que valorizavam costumes Judaicos, transformavam penitentes em missionários e, sobretudo, eram separados da renascente autoridade Romana. Tal sistema foi fortemente atacado pela conversão dos Anglo-saxões (vikings do leste Britânico) ao Cristianismo Católico-romano. Após séculos de disputas territoriais, os Cristãos Celtas acabaram conquistados pelos Anglo-saxões no séc. 8. Apesar disso, as ilhas romperiam sua aliança com Roma no séc. 13.

Nestorianismo: fundado por Nestorius, bispo de Constantinopla (428-431 d.C.), pregava um Jesus formado por duas naturezas imiscíveis, uma humana e outra divina. Assim, Maria seria mãe da parte humana de Jesus, enquanto Deus Pai seria o gerador único da parte divina. O movimento começou em Edessa (Turquia) e foi considerado herege em 431 d.C., abrigando-se sob a proteção e tolerância dos Persas. Durante a expansão islâmica, a Igreja Nestoriana foi propagada para Índia e China. Os movimentos políticos no séc. 13 (em especial as Cruzadas) destruíram as Igrejas Nestorianas no Oriente Médio, isolando esse secto Cristão no Oriente.

Catarismo: movimento Gnóstico que surgiu do Paulicianismo na Armênia (650 d.C.) e se propagou para a diocese de Constantinopla, para o norte da Itália e sul da França (séc. 12). O movimento desviava-se bastante do Cristianismo de Nicéia por separar os homens e as forças do universo em divinas / boas / espirituais e satânicas / más / carnais. Os homens se aproximavam de Deus através de várias reencarnações até adotarem uma vida ascética (que não diferenciava homens e mulheres) e passarem por um ritual chamado Consolamentum. Após isso, eram considerados puros ou perfeitos. Também negavam que qualquer coisa material (como um pão ou vinho) pudesse conter a essência divina. Por volta de 1150 d.C., os Cátaros haviam organizado seu próprio bispado, que não se submetia a Roma / Sacro Império Romano-Germânico. Assim, no começo do séc. 13, o papa excomungou os Cátaros - nobres, religiosos e seguidores - direcionando uma cruzada contra eles para exterminar a todos. Cerca de 20 000 foram mortos nessa expedição e a Inquisição foi iniciada para caçar os restantes, autorizando que oficiais de Roma se apossassem das terras dos nobres Cátaros. O último nobre foi executado em 1321, mas a estrutura da Inquisição foi direcionada a qualquer outra possível traição ao papa, ao Império ou ao Cristianismo de Nicéia.

Fraticelli: no séc. 10, o monge Bernard de Clairvaux teve sucesso ao associar o “modo Cristão de viver” com trabalhos no campo, fundando mosteiros em áreas rurais. Essas comunidades aproximaram a Igreja das populações na Europa, de modo que o número de Cristãos aumentou muito. Semelhantemente, Francisco de Assis no séc. 12 convocou os Cristãos para se desfazerem de suas posses e viver do que pudessem plantar ou ganhar, o que foi visto como libertário dentro de uma tradição de religiosos nobres, poderosos e abastados. Os Fraticelli, Franciscanos Espirituais ou Pequenos Irmãos surgiram como ápice desse movimento, denunciando a riqueza da Igreja como escandalosa, pregando a pobreza absoluta, uma vida asceta e negando os sacramentos de religiosos ricos, incluindo o papa. Por repudiarem as hierarquias da Igreja Católico-romana, foram declarados hereges em 1296, perambulando por diversos reinos até retornarem à Itália como um grupo fundamentalista separado da Ordem dos Franciscanos. No séc. 14, a Inquisição condenou vários dos membros à morte.

Waldensianismo: fundado por Peter Waldo, comerciante alemão que, em 1173, desfez-se de todos os bens e uniu-se à ordem dos Homens Pobres de Lyon, passando a pregar a pobreza como caminho até Deus. Por volta de 1180, Waldo traduziu o Novo Testamento para o Francês. Ele organizou missionários que espalharam o movimento pelo sul de França e Alemanha. Em 1184 foram excomungados como hereges e perseguidos, mas conseguiram apoio de príncipes alemães que repeliram militarmente a cruzada contra eles em 1487. Na França, entretanto, os Waldenses foram massacrados. Por acreditarem no ministério de todos os crentes, na eqüidade perante Deus e no valor das reuniões de fiéis, os Waldenses uniram-se ao movimento Protestante no séc. 16, em especial concentrando-se no secto Metodista.

Beguines ou Mendicantes: movimento que surgiu a partir de mulheres solteiras na Holanda do séc. 13. Conforme o movimento cresceu, pessoas (sobretudo mulheres) aderiam informalmente a comunidades religiosas dedicadas à imitação de Cristo através da pobreza voluntária, cuidado aos doentes e pobres, assim como devoção religiosa. O ingresso e saída da ordem eram livres e informais. Algumas trabalhavam na indústria de tecidos, outras como professoras e assim a ordem estabeleceu-se em residências coletivas. Os grupos eram mais ou menos independentes e alguns chegaram a ter milhares de membros, criando um bispado e diocese próprios. Alguns grupos acabaram fechando-se e tendendo ao misticismo, o que levou a serem declarados hereges no séc. 14. Devido aos relatos de santidade de seus membros, vários grupos foram absorvidos por ordens Católico-romanas e outros desapareceram durante a Reforma Protestante, mas alguns mantém-se até hoje.

POR FIM, AS ARMAS

Em resumo, o militarismo dentro da Igreja Cristã surgiu do atrelamento de lideranças religiosas a poderes políticos. Trata-se de uma situação semelhante à conquista de Canaã no Velho Testamento e aos Fariseus durante o domínio Romano na Judéia, em outras palavras, muito longe do que Jesus representava. Essa infelizmente foi a direção tomada pelos clérigos da diocese Romana quando o poder imperial de Roma se desfez no Ocidente, dando lugar a reinos bárbaros. Os reinos foram re-unificados sob uma tutela religiosa que se importava sobremaneira com privilégios políticos, riquezas e que nomeou como clamor à Ortodoxia (pureza de culto) os seus empreendimentos militares contra reinos e outros grupos Cristãos. No séc. 14, a perseguição de Cristãos e nobres dissidentes havia se tornado uma ferramenta eficiente de enriquecimento da “monarquia” Católico-romana. Os vários movimentos libertários dentro desse sistema, nomeados como “hereges”, eram por outro lado tentativas de estabelecer as diretrizes religiosas de pequenos grupos (que também clamavam à Ortodoxia), às vezes com fundamentação nos ensinos e exemplo (não teológicos) de Jesus, às vezes nem tanto.

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ARQUIVOS PARA SEREM QUEIMADOS EM PRAÇA PÚBLICA

Arianism - wikipedia
Beguines and Beghards - wikipedia
Catharism - wikipedia
Fraticelli - wikipedia
Nestorianism - wikipedia
Waldensians - wikipedia

sábado, 28 de fevereiro de 2015

O que Jesus matava



Existe um dilema histórico entre pensar e agir. Paulo como ninguém bateu nesse ponto, com sua célebre disputa interna:

Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim. (Romanos 7.18-20)

Quem age é alguém diferente de quem deseja. O pensamento deseja um, a ação faz outro. Outros embates são apresentados quanto à natureza da fé. Quem crer e for batizado será salvo (Marcos 16.16) e sem fé é impossível agradar a Deus (Hebreus 11.6), mas fé sem obras até os demônios têm (Tiago 2.19). E muitos são capazes de curar ou fazer maravilhas sem a participação de Deus (Mateus 7.22). Em palavras desconcertantes, eu creio, nem a fé, nem as ações separadamente dão testemunho de alguém ligado ao Senhor. E para complicar mais ainda nossa intuição acerca de quem nos rodeia, somente vemos ações. Ninguém pode escrutinar os pensamentos e a fé do próximo.

Jesus fez bastante demonstrações de que nem mesmo a nossa própria fé é escrutinável. Aos que se julgavam retos e puros, Ele chamava raça de víboras, que dão dízimo até das hortaliças e deixam passar camelos inteiros sem ver (Mateus 23.23-24). Aos que se julgavam escória, ele afirmava que ninguém os condenava (João 8.11). Da viúva mais pobre, Ele afirmava que pagava o maior tesouro (Lucas 21.3-4). Do poderoso César de Roma, Ele afirmava que merecia só os vinténs que cobrava (Mateus 22.21). Das ondas do mar, Ele dizia que podiam sumir repentinamente, que se podia até andar sobre elas. Dos mortos, Ele afirmava que tornavam à vida. Jesus era insistente em demolir certezas sobre a relação dos homens com Deus.

E se não podemos vislumbrar a fé dos demais, nem traduzir suas obras, nem julgar nossa própria fé e obras, como poderemos saber o que Deus pensa de nós? No Antigo Testamento, Moisés apresentou ao povo hebreu um tratado de comportamentos para cumprir com Deus. Não matariam, não trairiam, não fariam ídolos, não fariam ídolos, não fariam ídolos, … a lista apresentada nos livros de Êxodo e Deuteronômio era longa e detalhada, abrangendo formas de construir os tabernáculos, formas de se alimentar, formas de repartir o gado e até de guerrear. Salomão e seus pensadores incluíram recomendações de como se portar à mesa, como escolher amigos, como gerir seus bens, etc. Mas ainda era um enorme tratado comportamental. Quem o seguisse seria abençoado (menos Jó), quem o quebrasse seria arruinado (menos Arão e Davi). Reis como Saul caíram por seus comportamentos que ofendiam ao Senhor, ainda que fosse simplesmente rasgar o manto de um profeta ou contar os soldados (como Davi). Outros eram abençoados apesar das carnificinas que praticavam (como Jeú), pois era necessário que sua linhagem prevalecesse. Em termos estritos, o tratado comportamental do Velho Testamento ainda carregava a suspeita de que alguém podia ser poupado pela fé invisível que tinha; ou condenado, apesar dos bons atos, pela falta de fé que NÃO mostrava.

Jesus arregalou muitos olhares aos dizer que a Lei não bastava em si mesma, que ela não fazia ninguém santo, que o comportamento tinha de ser interno também, e que essa era a razão da Lei, acima dela. O pensamento precisava ser puro, o próximo em cada um deveria ser amado e reconhecido como pessoa, pois só assim se chegaria ao Reino dos céus (Mateus 5). Dessa forma ele desagradou tanto aos que subiam na Lei como em um pedestal, quanto os que esperavam um messias liderando exércitos com licença de Deus para matar até o gado romano. Efetivamente, levar o reino para DENTRO dos homens era subverter toda a capacidade de julgamento do que era certo ou errado. ‘O interior simplesmente não é visível, Jesus!’ talvez gritassem os sábios da época.

Jesus pegava uma lei que justificava apedrejar o filho insubordinado, a adúltera, o idólatra e tantos outros, além de matar até os bois, jumentos e carneiros dos povos vizinhos (menos os moabitas) e tinha a petulância divina de dizer que agora tudo era diferente. A lei que era externa, agora seria interna, numa condição de amor ao Pai e ao próximo que justificaria todos os deslizes quanto ao tratado comportamental. Ele vinha para cumprir a Lei, e portanto cumprida estaria ela (Mateus 5.17). Uma vez que cumprir a Lei jamais nos levaria a lugar algum, apesar de ser necessário (a menos que isso significasse ferir Deus ou o próximo), Jesus deixava claro que restaria ao homem apenas amar a Deus e o próximo de forma integral, pois assim a Lei nem mesmo seria necessária. Ele não estava interessado em colocar o homem de barro na forma do oleiro (Jeremias 18), mas em plantar uma semente nele (Marcos 4).

A que compararei o Reino de Deus? É como o fermento que uma mulher misturou com uma grande quantidade de farinha, e toda a massa ficou fermentada. (Lucas 13.20-21)

Ou como recitava o filósofo chinês Chuang Tzu no séc. 4 a.C.

A armadilha de peixes existe por causa dos peixes; uma vez apanhado o peixe, pode-se esquecer a armadilha. O laço para coelhos existe devido ao coelho; uma vez apanhado o coelho, pode-se esquecer o laço. As palavras existem pelo seu significado; uma vez captado o significado, podemos esquecer as palavras. Onde encontrarei um homem que tenha esquecido as palavras, para que possa trocar com ele uma palavra?

Nesse processo de ‘esquecer a Lei’ que, segundo Jesus, era equivalente a fermentar-se por ela, Jesus sutilmente dava um sentido todo novo aos escritos judaicos. O Reino não se construiria pelo julgamento do outro, mas pelo julgamento de si próprio. Escancaradamente, Jesus também tirava Deus de dentro do Templo, ou de dentro das ordenanças e burocracias humanas. Deus estaria onde fosse lembrado, onde agissem em nome Dele. E, nesse novo projeto, Ele seria lembrado em Jerusalém, em Samaria, em todo lugar e todo tempo, independentemente de um sacerdote que julgasse o certo e o errado. Mais ainda, independentemente Dele mesmo: era preciso que a pessoa de Jesus desse lugar à lembrança de Jesus, que o corpo andarilho se tornasse o Espírito voador.

E o Espírito dentro das pessoas se prestaria não a resolver problemas administrativos, do que comer ou de como construir tendas de adoração, nem tampouco de pesca insuficiente (Lucas 5.4-7), possuídos ou doentes que um messias ocasionalmente encontrasse pelo caminho. Ele resolveria os espinhos na carne das pessoas como Paulo (2ª Coríntios 12.7), de escravos fugidos como Onésimo (Filemom 1.8-10), de mim e de você, no 1º século ou no 21º. Ele não seria instrumento de jugo - que então ficaria leve - mas de construção. Esse novo Reino, de desejos e ações unidos, trazido dos céus, se manifestaria ou cresceria em nova terra. E seria inegavelmente bom a todos, mesmo os pregados numa cruz (menos Jesus).

Curiosamente, Jesus desviou-se completamente de falar sobre o paraíso celeste. Ele estava interessado em colocar o reino de Deus aqui na terra. Nem por fé, nem por obras, nem merecimento seus seguidores mais próximos arrancaram uma palavra Dele maior do que ‘vou preparar-lhes lugar’ (João 14.2). O único que ouviu a palavra ‘paraíso’ foi o homem gastou penas algumas palavras para isso, aquele criminoso auto-condenado crucificado ao lado Dele, ao qual Jesus não deixou de demolir as expectativas ruins.

O Reino de Deus não vem de modo visível, nem se dirá: ‘Aqui está ele’, ou ‘Lá está’; porque o Reino de Deus está entre vocês. (Lucas 17.20-21)

O QUE DEU FRUTO NISSO

Ed René Kivitz, Talmidim 052 - Justiça
Ed René Kivitz, Talmidim 053 - Cuspe
Ed René Kivitz, Talmidim 054 - Fantasia
Ed René Kivitz, Talmidim 055 - Divórcio
Paulo Brabo, Em 6 passos o que faria Jesus, cap. Além da memória, ed. Garimpo, 2009
The Writings of Chuang Tzu, Wâi Wû, or 'What comes from Without, cap. 26, paragrafo 11, Oxford University Press, 1891.

domingo, 26 de janeiro de 2014

O contrário da sabedoria

Hrothgar, o rei bêbado
mitologia nórdica

Qual é o antônimo de sabedoria? Citando Paulo Brabo em sua busca (ou ambição) pela necessidade dos contrários, a pessoa SEM sabedoria é aquela que torna sua vida sujeita ao acaso, que restringe sua felicidade ao um grupo seleto de coisas que “deveriam” acontecer. Na Bíblia, o contrário de sabedoria é insensatez, tolice. Essa falta de sabedoria, segundo a Bíblia, é encontrada naquele que age de forma impetuosa, com raiva, levado pela imprudência e pelos impulsos de um coração tormentoso. Por curioso que seja, na Bíblia o livro de Provérbios (onde a Sabedoria é ensinada) é seguido pelo livro de Eclesiastes, onde os sábios testemunham o abandono da Sabedoria entre os reis do povo de Deus.

O autor de Eclesiastes é misterioso. O seu estilo de escrita é compatível com Salomão, e não poucos historiadores atribuem o livro ao famoso rei de Israel, lembrado por milênios por sua incrível sabedoria, por ter construído o Templo e pela suntuosa riqueza. Ao iniciar o livro, esse autor sem nome se apresenta no original hebraico como Qohélet, aquele que fala por todos, ou pela “Ecclesiae”, a Congregação. Daí veio o nome traduzido como “Eclesiastes”.

O Eclesiastes sem dúvida é de um livro para ensino da Sabedoria, assim como Provérbios. Até o estilo de escrita de ambos os livros é semelhante: muda-se rapidamente de assunto, apresentando sempre o que é certo e o que é errado, como se fossem (e olha que improvável, isso) vários pequenos pergaminhos ou tabuletas emendados por copistas do passado.

Salomão pediu a Deus sabedoria para governar. Ele escreveu essa sabedoria na forma de diversos provérbios, mas isso nunca foi uma tarefa solitária a que um rei sábio se entregasse ao longo da vida. Para os hebreus, a Sabedoria provinha do falar dos sábios, do diálogo das pessoas, da Congregação. Por isso, Salomão assim reuniu diversos sábios (alguns dos quais são nomeados, como o rei Lemuel e Agur) e designou uma “equipe” que formaria algo como “livros-texto” para o ensino da Sabedoria dentro da corte e também para o povo. É possível que Qohélet fosse uma espécie de cargo, uma posição mais importante dentre os sábios.

É interessante notar que, de fato, alguns ensinos de Eclesiastes dificilmente poderiam ser atribuídos a um monarca criado entre famílias reais das terras ao redor de Israel e a riqueza que Davi reuniu:

Por isso desprezei a vida, pois o trabalho que se faz debaixo do sol pareceu-me muito pesado. Tudo era inútil, era correr atrás do vento! Desprezei todas as coisas pelas quais eu tanto me esforçara debaixo do sol, pois terei que deixá-las para aquele que me suceder. E quem pode dizer se ele será sábio ou tolo? Todavia, terá domínio sobre tudo o que realizei com o meu trabalho e com a minha sabedoria debaixo do sol. Isso também não faz sentido.

Cheguei ao ponto de me desesperar por todo o trabalho no qual tanto me esforcei debaixo do sol. Pois um homem pode realizar o seu trabalho com sabedoria, conhecimento e habilidade, mas terá que deixar tudo o que possui como herança para alguém que não se esforçou por aquilo. Isso também é um absurdo e uma grande injustiça. (2.17-22)

São palavras que caberiam melhor na boca de um experiente pastor!

OS SÁBIOS E O VAI E VEM DOS GOVERNANTES

Como membros da corte, era de se esperar que os sábios se preocupassem com a sucessão do rei: Davi havia sucedido Saul de uma forma imprevisível, passando de pastor a músico da corte, depois a guerreiro e finalmente levando Saul e seu filho Jônatas à morte. Salomão havia sucedido Davi após uma tentativa de seu irmão Absalão tomar o trono e também após a morte dos demais príncipes na linha de sucessão. Quem sucederia Salomão? Qual dos filhos das suas concubinas? Ou seria um jovem guerreiro anônimo a liderar os exércitos, como Davi?

Os sábios da corte sem dúvida assistiam a esse jogo de poderes, ao passo que reinos vizinhos mais poderosos, como o Egito e a Assíria, hora ofereciam amizade, hora faziam guerra. A fragilização do reino pela disputa interna e o abandono da obediência ao Senhor por parte da realeza levou Israel a ser duramente atacada pelo Egito, antes uma potência mantida à distância. Eis o lamento dos sábios, perante uma casa real que se desintegrava:

O que pode fazer o sucessor do rei, a não ser repetir o que já foi feito?
Qual é o homem, designado desde muito tempo, que virá depois do rei?
(duas versões de Eclesiastes 2.12b)

Mais vale um adolescente pobre, mas sábio, que um rei velho, mas insensato, que já não aceita conselhos; porque ele [o jovem] sai da prisão para reinar, se bem que pobre de nascimento no seu reino.

Vi todos os viventes, que se acham debaixo do sol, apressarem-se junto do adolescente que o ia suceder. Era interminável o cortejo dessa multidão, à testa da qual ele caminhava. Contudo, a geração seguinte não se regozijará por sua causa. Tudo isso é ainda vaidade e vento que passa. (Eclesiastes 4.13-16)

Os sábios também assinalavam a problemática das lideranças que os reis colocavam na corte:

Há outro mal que vi debaixo do sol, um erro cometido pelos que governam: tolos são postos em cargos elevados, enquanto homens de valor ocupam cargos inferiores. Tenho visto servos andando a cavalo, e príncipes andando a pé, como servos. (10.5-7)

Ao que parece, Salomão entregou-se ao estudo cuidadoso e prática daquilo que era a Sabedoria. No fim da vida, entretanto, Salomão deixou-se levar pelo poder que havia ganhado e esqueceu-se que esse poder lhe fora dado por Deus.

PELA INSENSATEZ DE VELHOS ERROS, O REINO SE QUEBRA

Como poderia o rei mais sábio cometer o erro de afastar-se da Fonte? De uma forma engraçada, nem a Sabedoria, nem a Insensatez são perenes em homem algum.

O rei Salomão amou muitas mulheres estrangeiras, além da filha do faraó. Eram mulheres moabitas, amonitas, edomitas, sidônias e hititas. Elas eram das nações a respeito das quais o SENHOR tinha dito aos israelitas: “Vocês não poderão tomar mulheres dentre essas nações, porque elas os farão desviar-se para seguir os seus deuses”
...
No monte que fica a leste de Jerusalém, Salomão construiu um altar para Camos, o repugnante deus de Moabe¹, e para Moloque, o repugnante deus dos amonitas². Também fez altares para os deuses de todas as suas outras mulheres estrangeiras, que queimavam incenso e ofereciam sacrifícios a eles. (1ª Reis 11)

Aparecendo a ele como fizera quando lhe deu sabedoria, Deus simplesmente assegurou que lhe tiraria o reino dos filhos. Era a mesma punição de Saul! De algum lugar surgiria alguém que o destronaria, e o velho Salomão sem dúvida questionava os sábios sobre quem seria esse.

Assim como Samuel avisou a Saul e depois ungiu o pastor Davi, dizendo que ele seria rei, um profeta foi chamado para avisar o futuro rei:

Também Jeroboão, filho de Nebate ... era um dos oficiais de Salomão, um efraimita de Zeredá, e a sua mãe era uma viúva chamada Zerua.
...
Naquela ocasião, Jeroboão saiu de Jerusalém, e Aías, o profeta de Siló, que estava usando uma capa nova, encontrou-se com ele no caminho. Os dois estavam sozinhos no campo, e Aías segurou firmemente a capa que estava usando, rasgou-a em doze pedaços e disse a Jeroboão:

“Apanhe dez pedaços para você, pois assim diz o SENHOR, o Deus de Israel: ‘Saiba que vou tirar o reino das mãos de Salomão e dar a você dez tribos. Mas, por amor ao meu servo Davi e à cidade de Jerusalém, a qual escolhi dentre todas as tribos de Israel, ele terá uma tribo. Farei isso porque eles me abandonaram e adoraram Astarote, a deusa dos sidônios³, Camos, deus dos moabitas, e Moloque, deus dos amonitas, e não andaram nos meus caminhos, nem fizeram o que eu aprovo, nem obedeceram aos meus decretos e às minhas ordenanças, como fez Davi, pai de Salomão. Mas não tirarei o reino todo das mãos de Salomão. Eu o fiz governante todos os dias de sua vida por amor ao meu servo Davi, a quem escolhi e que obedeceu aos meus mandamentos e aos meus decretos. Tirarei o reino das mãos do seu filho e darei dez tribos a você. Darei uma tribo ao seu filho a fim de que o meu servo Davi sempre tenha diante de mim um descendente no trono em Jerusalém, a cidade onde eu quis pôr o meu nome.

Quanto a você, eu o farei reinar sobre tudo o que o seu coração desejar; você será rei de Israel. Se você fizer tudo o que eu lhe ordenar e andar nos meus caminhos e fizer o que eu aprovo, obedecendo aos meus decretos e aos meus mandamentos, como fez o meu servo Davi, estarei com você. Edificarei para você uma dinastia tão permanente quanto a que edifiquei para Davi, e darei Israel a você. Humilharei os descendentes de Davi por causa disso, mas não para sempre.”

Salomão [tomado pela insensatez] tentou matar Jeroboão, mas ele fugiu para o Egito, para o rei Sisaque, e lá permaneceu até a morte de Salomão. (1ª Reis 11)

De uma forma estranha e trágica, o que era passado voltava ao presente. Um jovem militar se tornaria poderoso, seria líder e depois perseguido pelos exércitos do velho rei. Em seguida voltaria e assumiria o trono.

O Egito havia sido afastado por Salomão e possivelmente alguns egípcios (negros) haviam se tornado escravos em Israel. Esses seriam os instrumentos do levante do novo rei:

Ora, Jeroboão era homem capaz, e, quando Salomão viu como ele fazia bem o seu trabalho, encarregou-o de todos os que faziam trabalho forçado, pertencentes às tribos de José. (1ª Reis 11.28)

Salomão foi sucedido por seu filho Roboão, de quem o Senhor assegurou que tiraria o trono. Quando Roboão assumiu, chegou a ele o pedido dos escravos: “Teu pai colocou sobre nós um jugo pesado, mas agora diminui o trabalho árduo e este jugo pesado, e nós te serviremos”. Os sábios então aconselharam Roboão a fazer o que os escravos pediam, mas não foram ouvidos! O lamento do Qohélet contra o rei demonstrava que já os soberanos haviam desdenhado dos “sábios do reino”.

Quando todo o Israel viu que o rei se recusava a ouvi-los, respondeu ao rei: “Que temos em comum com Davi? Que temos em comum com o filho de Jessé? Para as suas tendas, ó Israel! Cuide da sua própria casa, ó Davi!” E assim os israelitas foram para as suas casas.

Quanto, porém, aos israelitas que moravam nas cidades de Judá, Roboão continuou como rei deles. O rei Roboão enviou Adonirão, chefe do trabalho forçado, mas todo o Israel o apedrejou até a morte. O rei, contudo, conseguiu subir em sua carruagem e fugir para Jerusalém.

Dessa forma Israel se rebelou contra a dinastia de Davi, e assim permanece até hoje. Quando todos os israelitas souberam que Jeroboão tinha voltado, mandaram chamá-lo para a reunião da comunidade [a Ecclesiae] e o fizeram rei sobre todo o Israel. Somente a tribo de Judá permaneceu leal à dinastia de Davi. (1ª Reis 12)

FINDADO O REINO GRANDE, FINDAR-SE-ÃO OS MENORES

Roboão ficou como rei de Judá (com 2 tribos, a maior sendo Judá) e Jeroboão tornou-se rei de Israel (com 10 tribos, a maior sendo Efraim).

Apesar de ungido para o trono como Davi, Jeroboão rapidamente acreditou que chegara ao trono por seus próprios méritos. Empreendeu uma campanha para descaracterizar o reinado de Salomão (onde estava o Templo), criando ídolos de ouro a quem ele e o povo ofereciam sacrifícios por sua libertação do Egito! Então o Senhor mandou o profeta Aías dizer a sua mulher:

Vá dizer a Jeroboão que é isto o que o SENHOR, o Deus de Israel, diz: ‘Tirei-o dentre o povo e o tornei líder sobre Israel, o meu povo. Tirei o reino da família de Davi e o dei a você, mas você não tem sido como o meu servo Davi, que obedecia aos meus mandamentos e me seguia de todo o coração, fazendo apenas o que eu aprovo.

Você tem feito mais mal do que todos os que viveram antes de você, pois fez para si outros deuses, ídolos de metal; você provocou a minha ira e voltou as costas para mim. Por isso, trarei desgraça à família de Jeroboão. Matarei de Jeroboão até o último indivíduo do sexo masculino em Israel, seja escravo ou livre. Queimarei a família de Jeroboão até o fim como quem queima esterco. Dos que pertencem a Jeroboão, os cães comerão os que morrerem na cidade, e as aves do céu se alimentarão dos que morrerem no campo. O SENHOR falou!” (1ª Reis 14)

Houve conflito entre as duas dinastias, de Judá e de Israel, pelos 2 séculos seguintes, quando a Assíria invadiu Israel e, depois, quando a Babilônia organizou-se e levou cativos os restantes de Israel (então abrigados em Judá) e os habitantes de Judá.

O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol. Haverá algo de que se possa dizer: “Veja! Isto é novo!”? Não! Já existiu há muito tempo, bem antes da nossa época. Ninguém se lembra dos que viveram na antigüidade, e aqueles que ainda virão tampouco serão lembrados pelos que vierem depois deles. (Eclesiastes 1.9-11)

O insensato, curiosamente, sujeita-se às ações de Deus tanto quanto o sábio. Ele apenas condiciona sua felicidade a algo que dificilmente Deus faria.

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¹ Camos ou Qemósh era, aparentemente, o deus das entranhas. Supostamente os devotos defecavam em seus locais de culto, para que os sacerdotes fizessem previsões a partir das fezes.

² Moloque era um deus agrícola da fertilidade, ao qual seus devotos ofereciam os primogênitos bebês em sacrifício, queimando-os vivos nos altares. Daí o apelido “moleque”.

³ Astarote ou Astarte era a deusa que controlava o destino dos homens, associada geralmente às estrelas (daí a palavra “star” ou mesmo o nome Ishtar). Talvez sua adoração estivesse associada à queda de um grande meteorito no Oriente Médio, perto de onde hoje fica Meca.