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domingo, 5 de julho de 2020

MARCOS, UM EVANGELISTA ENTRE PEDRO E PAULO

Marcos geralmente é retratado junto com um leão alado. Este é o símbolo da cidade de Veneza. O sarcófago de Marcos foi levado de Alexandria para Veneza por Rustico da Torcello e Bom da Malamocco em 828, quando o Califa pretendia usar as pedras das igrejas de Alexandria como material de construção. Alguns historiadores acreditam que o sarcófago de Alexandria contém os ossos de Alexandre o Grande, pois tem as exatas dimensões do túmulo vazio de Alexandre, nos subterrâneos da mesma cidade.

Quando o Evangelho de Marcos foi escrito, já havia um grupo de Cristãos. Esse grupo é mesmo anterior a Paulo, e começou com os seguidores de Jesus. Além dos Doze, e talvez mais 70 encarregados, incluía Estevão, Thiago irmão de Jesus, Lázaro, José de Arimatéia e uns tantos outros. E incluía também um certo Ananias lá em Damasco, na Síria, que foi quem acolheu Paulo em sua casa após o famoso evento de sua conversão.

Paulo liderou seu próprio grupo, sobre o qual Lucas escreveu a crônica de Atos. Pelo menos umas duas vezes, o grupo de Paulo se juntou ao de Jerusalém e conheceram mesmo Apolo, de Alexandria, no Egito, que já sabia sobre Jesus. Marcos, trocado e destrocado entre Jerusalém e Paulo, supostamente foi o redator da primeira versão do Evangelho, entre 66 e 70 d.C. Seu texto nasceu entre Pedro/João/Tiago e Paulo/Silas/Timóteo.

Embora algumas tradições coloquem Marcos como um ou mais personagens não nomeados dos Evangelhos, não há indícios claros de Marcos tenha andado com Jesus. Por isso, pensando em como Marcos iniciou uma tradição, é razoável procurar a origem dos elementos que ele traz em seu Evangelho. Assim, acredito, podemos ver os Evangelhos em sua gestação.

O TAL GALILEU
Em seu belo livro sobre a vida de Jesus, os irmãos Vigil reforçaram várias vezes a fama dos Galileus como brigões e  encrenqueiros. Essa imagem não podia deixar de ser mais verdadeira.

Curiosamente, os relatos que temos da Galiléia no período conturbado de 30-40 d.C., logo após a Crucificação, não citam Jesus, nem os Cristãos. São relatos dos movimentos de Zelotes, os seguidores de um certo Judas Galileu, que esperavam por um Messias para derrotar os Romanos e restituir o santo trono de Davi. Desse grupo saíram Judas Iscariotes e Simão Zelote, ambos do círculo mais próximo de Jesus. E mais tarde sairia também o general/historiador Flavius Josephus, de quem sabemos a maioria das coisas do séc. 1.

Atos 5
Interrogatório de Pedro e seus companheiros perante Gamaliel, mestre da lei e professor de Paulo

37. [fala de Gamaliel] Depois deste [Teudas], levantou-se Judas, o galileu, nos dias do recenseamento, e arrastou o povo consigo, mas também ele pereceu e todos quantos o seguiam foram dispersados.

Jesus e João Batista eram Galileus, mas, para quem imaginar um envolvimento entre os Zelotes e Jesus (os Saduceus e Fariseus de Jerusalém com certeza suspeitavam dessa relação), Flavius Josephus deu muito pouco crédito ao movimento dos Cristãos. Jesus (segundo Paulo e Marcos) também não deu crédito aos Zelotes; muito pelo contrário, repreendeu Pedro (outro Galileu) - no Getsêmani - por pegar em armas contra a guarda do Templo. No trabalho de Josephus, ele de fato comenta sobre a desunião dos Judeus como nação.

PAULO
Do grupo que Paulo passou a liderar, composto por Silas, Barnabé, Timóteo, Teófilo, etc sabemos que saiu João Marcos, um dos evangelistas, e cuja obra serviu de fonte para Mateus e Lucas, este último um médico que então servia como cronista das viagens de Paulo.

Tanto as crônicas das viagens (registradas meticulosamente no livro de Atos) quanto os Evangelhos são obras produzidas após o 1º Concílio, por volta de 40-50 d.C., onde os grupos de Paulo e de Pedro se encontraram na cidade turca de Antioquia. Pedro provavelmente chegou com Tiago filho de Alfeu e João Boanerges, citados no livro de Atos. Paulo então vinha de suas peregrinações pela Grécia e Pedro vinha da Judéia, onde tudo começou.

Quando João Marcos finalmente se dedicou a produzir o evangelho chamado de 'original' (66-70 d.C), ele tinha bons motivos para pensar que essa obra seria o pilar de uma Igreja.  Os Cristãos então já eram talvez umas 1000 pessoas espalhadas pelas cidades que Paulo visitou. Sabemos que já existiam as igrejas de Tessalônica, Galácia, Corinto, Roma, Jerusalém, Antioquia e Éfeso.

Paulo não andou com Jesus. Ele aprendeu do Rabi em sua perseguição anterior aos Cristãos, em nome dos Fariseus de Jerusalém, e de conhecimentos sobrenaturais dados a ele pelo próprio Cristo.

Embora Paulo fosse muito mais dedicado em criar um entendimento, em traduzir o conceito de um Messias para os Gregos, ele já escreveu algo sobre Jesus em suas primeiras cartas:

1ª Tessalonicenses 1
9. De fato, a nosso respeito, conta-se por toda parte qual foi o acolhimento que da vossa parte tivemos, e como abandonastes os ídolos e vos convertestes a Deus, para servirdes ao Deus vivo e verdadeiro, 10. e aguardardes dos céus seu Filho que Deus ressuscitou dos mortos, Jesus, que nos livra da ira iminente.

1ª Coríntios 15
3. Eu vos transmiti primeiramente o que eu mesmo havia recebido: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; 4. foi sepultado, e ressurgiu ao terceiro dia, segundo as Escrituras, 5. apareceu a Cefas, e em seguida aos Doze. 6. Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais a maior parte ainda vive (e alguns já são mortos); 7. depois apareceu a Tiago, em seguida a todos os apóstolos. 8. E, por último de todos, apareceu também a mim, como a um abortivo.

2ª Coríntios 12
1. Importa que me glorie? Na verdade, não convém! Passarei, entretanto, às visões e revelações do Senhor. 2. Conheço um homem em Cristo que há catorze anos foi arrebatado até o terceiro céu. Se foi no corpo, não sei. Se fora do corpo, também não sei; Deus o sabe. 3. E sei que esse homem - se no corpo ou se fora do corpo, não sei; Deus o sabe 4. foi arrebatado ao paraíso e lá ouviu palavras inefáveis, que não é permitido a um homem repetir.

Como esse visionário, Paulo se dizia 'inspirado por Cristo'. Lucas, seu cronista dedicado e mais tarde também um dos Evangelistas, por outro lado, era alguém que coletava estórias das pessoas. Por isso seu Evangelho parte de Marcos e ganha tão mais volume.

O trabalho de Marcos foi justamente convencer as pessoas de que Jesus já morto era o Messias, que Ele havia ressuscitado e seguiu, após isso, para a Galiléia. Ele interrompeu sua narrativa após a investidura de poder aos apóstolos, com mínimos detalhes sobre a pós-vida de Jesus. Dessa forma, quase tudo que sabemos sobre os dias e anos após a morte de Jesus vem do livro de Atos, com Paulo contando a Lucas sobre as pessoas que ele matou, já após 40 d.C.

O QUE O GRUPO DE PAULO CONTAVA SOBRE JESUS
E bastante singular que, embora Paulo tivesse semeado igrejas em toda volta do Mediterrâneo, as evidências de evangelhos que temos são de muito menos lugares: Egito, Israel, Grécia, Turquia e Roma. E ainda são evidências muito posteriores a Paulo, dos sécs. 2 e 3.

As cartas de Paulo não contam muito sobre Jesus. A Didache e o Pastor de Hermas também não. A cerimônia descrita por Plinio o Jovem também não. A vida de Jesus parece que foi introduzida pelos Evangelhos, depois do Cristianismo.

Abaixo seguem passagens do Evangelho de Marcos e suas correspondências no material de Paulo. Foi incluído o livro de Atos, por acreditar-se que seja uma descrição do grupo de Paulo anterior ao Evangelho de Lucas.

1. ministério de João Batista (Paulo não tem)
2. batismo de Jesus (não tem)
3. tentação de Jesus (não tem)
4. exorcismo na sinagoga de Cafarnaum (Atos 10.38, mas geral)
5. parábola das sementes (1Co 3.6)
6. rejeição de Jesus na Galiléia (não tem)
7. 1os discípulos (não tem)
8. parábola da lâmpada sob a cama (não tem)
9. cura do leproso  (Atos 10.38, mas geral)
10. cura da sogra de Simão Pedro  (Atos 10.38, mas geral)
11. exorcismos ao por do sol  (Atos 10.38, mas geral)
12. acalmando a tempestade (não tem)
13. demônio Geraseno (não tem)
14. parábola do vinho novo em odres velhos (não tem)
15. cura da filha de Jairo, chefe da sinagoga (Atos 10.38, mas geral)
16. cura da mulher com fluxo de sangue (não tem)
17. chamado dos Doze apóstolos (somente Cefas e Tiago filho de Alfeu, Gal 1.18-19)
18. cura do homem em Bethesda (Atos 3.06, 9.34, essa passagem é única de João)
19. Jesus é senhor do Sábado (não tem)
20. cura do homem com mão seca  (Atos 10:38, mas geral)
21. cura do surdo e mudo  (Atos 10.38, mas geral)
22. parábola do homem forte (não tem)
23. pecado contra o Espírito Santo (Atos 5.3)
24. quem são os irmãos de Jesus (Paulo usa muito esta denominação)
25. parábola do semeador (não tem)
parábola da semente de mostarda (não tem)
26. morte de João Batista (não tem)
27. alimentando 5000 (não tem)
28. Jesus andando sobre a água (não tem)
29. curas em Genesaré  (Atos 10:38, mas geral)
30. discurso sobre lavar as mãos (não tem, e na verdade Paulo como Fariseu dava muita importância à pureza)
31. cura da filha da mulher Siro-fenícia (Atos 10.38, mas geral)
32. cura do cego de Betsaida (não tem)
33. Jesus é o Messias (Atos 18.5 e 18.28)
34. transfiguração de Jesus (não tem)
35. exorcismo de um garoto (Atos 10.38, mas geral)
36. das crianças é o Reino (não tem)
jovem rico (1Tim 6)
37. Jesus previu sua morte, a caminho de Jerusalém (não tem)
38. sejam servos uns dos outros (Gal 5.13; na verdade Paulo fala muito sobre servir a Cristo e aos senhores. Jesus fala mais sobre igualdade/humildade)
39. domingo de ramos (não tem)
40. maldição da figueira (não tem)
41. autoridade de Jesus (1Tes 2.7, Gal 2.6 - Paulo inicialmente fala da autoridade dois Cristãos, apresentada como discrição e carinho; depois, reforça a autoridade das hierarquias, inclusive Romanas)
42. Jesus pedra angular (Atos 4.11, Efe 2.20, essa é uma fala de Isaías)
43. a César o que é de César (Atos 25.12, quando Paulo é julgado em Cesaréia, por Festo e Agripa e pede para ser enviado a Roma. Parece haver um movimento de criar amizade com Roma. Pelo menos Lucas sugere essa amizade, talvez num tempo em que os Judeus e Roma estivessem em Conflito)
44. Jesus maior que Davi (Atos 2.34)
45. 2ª vinda de Cristo (1Co 15.24)
46. vigiai pela volta do Senhor (1Tes 5.1-5)
47. unção de Jesus (não tem)
48. traição de Judas (Atos 1.16 e 1.25)
49. última ceia (1Cor 11.23-26)
50. prisão de Jesus (Atos 1.16, mas essa seria uma fala de Pedro)
51. interrogatório de Jesus perante o Sinédrio (não tem, mas Paulo passou pelo mesmo processo)
52. crucificação (Gal 2.19, 1Cor 1.13)
53. vinho com mirra (não tem)
54. Cristo morreu nas vésperas da Páscoa (1Co 5.7)
55. Embalsamamento de Jesus (não tem)
56. Ressuscitou ao 3º dia (Atos 2:24 e 10.40 são falas de Pedro, 13.30-31)

Como se pode ver, os relatos sobre Jesus fora dos Evangelhos é muito raso, algo como 'Roma foi uma grande cidade'. As primeiras obras Cristãs quase somente falam da morte de Jesus, sua Ressurreição e a promessa de um Reino Celestial. Os Evangelhos também são muito detalhados nessa parte. Essa devia ser a mensagem pregada por Paulo e seu grupo, junto com a tradição da Ceia.

Marcos introduziu muito mais detalhes, narrando Jesus como um exemplo a ser seguido. Tudo indica que sua fonte de informações foi o próprio Pedro.

CEFAS, CHAMADO SIMÃO PEDRO
*as datas aqui são confabulações a partir de registros históricos e bíblicos, que não se encaixam perfeitamente.

Paulo se converteu mais ou menos em 34 d.C., indo de Jerusalém para Damasco. Em 37 d.C, quando Calígula sucedeu o imperador  Tibério em Roma, Paulo voltou para Jerusalém. Talvez então tenha tido o 1º contato amigável com o grupo de Pedro. Com os conflitos que se iniciaram em Jerusalém, Paulo retornou para Tarso, cidade de sua família, e ficou ali entre 38 e 42 d.C.

Antioquia da Síria já tinha uma igreja. Barnabé fazia parte do grupo de Pedro e foi para Antioquia, onde ouviu sobre as pregações de Paulo. Barnabé então foi de lá para Tarso, à procura deste tal Paulo.

Eusebius de Caesarea (260-334 d.C.), em sua obra Historia Ecclesiastica, escreveu que  Herodes Agrippa I matou Tiago Boanerges (41 d.C.) e prendeu Pedro em Jerusalém, para ser morto após a Páscoa. Pedro foi solto por anjos  (Atos 12.1–19) e seguiu para Antioquia da Síria, depois Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia (1Pe 1.1), chegando em Roma no 2º ano do imperador Cláudio (42 d.C.). No caminho, Pedro se juntou a Marcos e o levou como intérprete.

Eusebius denominou Marcos como o redator dos sermões de Pedro em 43 d.C., no 3º ano do imperador Cláudio, antes que Marcos seguisse para Alexandria.

Em 47 d.C, Paulo coletava donativos para a fome que se abateu em Jerusalém. Barnabé e Silas levaram essa ajuda e retornam com João Marcos. Em 48 d.C. Paulo partiu em sua 1ª viagem missionária, para Seleucia, Chipre, Pathos e Perga. De Perga, Marcos retornou para Jerusalém.

Paulo seguiu para Antioquia da Psidia, Iconium, Lystra. Ali ele reencontrou Barnabé. Seguiram para Derbe, depois retornam a Lystra e Iconium e então para Antioquia da Síria.

Em 49 d.C. os Judeus foram expulsos de Roma. Nesse ano, Paulo e Barnabé foram a Jerusalém, encontrar o grupo de Pedro, para o 1º Concílio da Igreja. De lá foram para Antioquia da Síria, onde reencontraram João Marcos. Ele e Barnabé seguiram para Chipre. Paulo e Silas foram para Síria e Cilícia.

Em 50 d.C. Marcos seguiu de Chipre para Alexandria. Lá, se estabeleceu como bispo até 60 d.C., quando seu Evangelho tomaria forma final. Depois, supostamente se juntou a Pedro em Roma (1Pe 5:13).

Entre 51 e 52 d.C. Paulo esteve em Corinto, com Silas e Timóteo. Lá ele escreveu Gálatas, 1ª e 2ª Tessalonicenses. Em 53 d.C. Paulo retorna a Éfeso, Cesaréia e depois Jerusalém. Voltando a Éfeso entre 53 e 54 d.C., encontrou Apolo, um Judeu de Alexandria. Para espanto nosso, esse Apolo já ouvira falar de Jesus (talvez a partir de Marcos).

Apolo foi instruído detalhadamente por Priscila e Áquila (o que mostra que os ensinamentos recebidos não eram tão bem cotados entre o grupo de Paulo), tornando-se depois um dos grandes pregadores. Nesse ponto, Apolo nos deixa a sugestão de que já existia um Evangelho.

Atos 18, em Corinto
4. Todos os sábados, ele [Paulo] falava na sinagoga e procurava convencer os judeus e os gregos.5. Quando Silas e Timóteo chegaram da Macedônia, Paulo dedicou-se inteiramente à pregação da palavra, dando aos judeus testemunho de que Jesus era o Messias.

A MISSÃO DE MARCOS
Atos 18
27. Como ele [Apolo] quisesse ir à Acaia, os irmãos animaram-no e escreveram aos discípulos que o recebessem bem. A sua presença [em Corinto] foi, pela graça de Deus, de muito proveito para os que haviam crido, 28. pois com grande veemência refutava publicamente os judeus, provando, pelas Escrituras, que Jesus era o Messias.

Esse também é o conteúdo do Evangelho de Marcos. Desse ponto em diante, Marcos e Barnabé não aparecem mais na crônica de Lucas. Possivelmente estavam então andando independentes ou com o grupo de Pedro, que voltaria a falar de Marcos em suas cartas.

Aparentemente, Marcos elaborou seu texto enquanto era bispo de Alexandria (43-60 d.C.), a partir das pregações de Pedro (42-43 d.C.), que não nos ficaram em forma escrita direta. Marcos usou também como fonte as tradições sobre a Ceia e a Ressurreição que recebeu durante sua estadia com Paulo (47-48 d.C) e Barnabé (47-49 d.C.), supostamente um parente dele. Ao mesmo tempo que Marcos aprendeu do grupo de Paulo, a chegada de Apolo ao grupo em Corinto (53-54 d.C.) sugere que Marcos já iniciara uma igreja em Alexandria, e Apolo de certa forma devolvia a Paulo os ensinamentos.

SEPARANDO AS FONTES
Agora, podemos apontar Marcos o Evangelista como um mediador de informações entre dois grupos Cristãos: o de Pedro, que faltava sobre a vida de Jesus e não nós deixou registros independentes (quem sabe entremeados no Evangelho de João, que seguia Pedro e acaba citado por Lucas); e o de Paulo, que pregava a salvação no Último Dia a partir de uma vida de pureza Farisaica.

Entre essas tradições que Paulo ensinava, estavam a Ressurreição no Último dia:

1ª Tessalonicenses 4
16. Quando for dado o sinal, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, o mesmo Senhor descerá do céu e os que morreram em Cristo ressurgirão primeiro.17. Depois nós, os vivos, os que estamos ainda na terra, seremos arrebatados juntamente com eles sobre nuvens ao encontro do Senhor nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor.

Filipenses 3
20. Nós, porém, somos cidadãos dos céus. É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, 21. que transformará nosso mísero corpo, tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso, em virtude do poder que tem de sujeitar a si toda criatura.

No Evangelho de Marcos, de Pedro vieram os detalhes sobre a vida de Jesus, de Paulo vieram as tradições sobre a Ceia e a Ressurreição.

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COISAS QUE CIRCULAVAM NA NET DO SÉC. 1
Basilica di San Marco, basilicasanmarco.it
Eusebius - wikipedia
Marshall T, Chronology of saint mark life, taylormarshall.com
Os Judeus na época de Cristo, loungecba.blogspot.com, jun/2020


quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

A Caridade está fora de moda

"Pode ser hora de deixar por completo de criticar ou de falar do capitalismo. Pode ser hora de começar a criticá-lo ignorando-o por completo e passando a contar histórias sobre alternativas superiores – histórias que pertençam ao domínio do passado, do presente ou do imaginado, porque não faz diferença. Todas as histórias falam do ser humano e ao ser humano falam."

Fazendo uma homenagem ao texto de Paulo Brabo.

A Caridade é uma coisa que temos sido desensinados a fazer, ao ponto de a acharmos, hoje em dia, abusiva e mal intencionada. Com certeza, quem faz Caridade estimula a preguiça, o "pedir sem precisar", o "aproveitar-se da boa vontade alheia". No dicionário atual, Caridade indica uma prática Cristã, ou pelo menos uma qualidade moral e espiritual de amor pelo próximo. No dicionário tiagológico bíblico, Caridade traduz esse amor em ajudar os desvalidos, dar ajuda ou donativos aos pobres, dar esmola. No linguajar cristológico de Lucas, é compaixão e benevolência em relação a alguém que se encontra em situação difícil (pode até ser um viajante Jerusalense encontrado por um Samaritano). O dicionário português sugere que Caridade é sinônimo de filantropia, humanitarismo, benevolência, piedade, favor, benefício.

Se o mundo fosse repleto de Caridade, ninguém precisaria se descabelar com as contas. Bastaria dizer ao cobrador que não pode pagar e, além do perdão ele talvez até lhe desse algo. A Caridade, seja como forma ideológica ou espiritual, se faria carne ao impedir ele de cobrar de alguém menos afortunado e ainda instigaria que lhe oferecesse ajuda gratuita. Por outro lado, essa mesma Caridade impediria você de fechar as portas de casa, mesmo à noite; pois como você negaria dar ao próximo aquilo que tens e ele não? Agindo sobre o mundo desvairadamente, a Caridade seria um agente tão esquerdista que renegaria a necessidade de um governo: com todos se ajudando mutuamente, em muito poucas coisas precisaríamos de alguém decidindo pelo outro ou mesmo tendo de julgar alguma disputa.

Quando Jesus ensinava sobre fazer Caridade (e não há como desvincular ela do “amor ao próximo”, até porque ambos são ensinados nas mesmas passagens), Ele também estava pregando algo que, naqueles tempos, era terrivelmente anti-romano e anti-judeu. Os romanos organizavam sua vida segundo as decisões de uma hierarquia superior. Embora sua ordo seclorum, ou "a forma como o mundo funciona" estivesse atrelada à prosperidade de toda nação, estava muito mais obediente à prosperidade e propriedade de algumas famílias que faziam toda a costa do Mediterrâneo girar ao redor de si. Isso não era absolutamente ruim para o povo, visto os problemas que surgiram quando Roma se espedaçou; mas várias vezes as famílias reais sacrificaram cidades inteiras para obter o que consideravam seu direito. Dessa forma, Roma tinha um pé no que se poderia chamar de Anti-caridade, ou seja, prejudicar o próximo para que eu seja beneficiado.

Pouco tempo depois, tomado de amor por um Jesus que conheceu depois de morto, Paulo rabiscou para seus seguidores de Roma, Éfeso e Corinto que a graça de Deus é distribuída imerecidamente. Podemos até supor que Jesus pensasse assim, visto a variedade de pessoas que Ele ajudava e ensinava, indo de centuriões romanos a leprosos e mulheres adúlteras. Seu preço parecia ser apenas a fé, coisa que não é rara em alguém desesperado. Se Jesus professava essa graça imerecida, que não exigia sequer o cumprimento dos muitos preceitos Judaicos, podemos entender porque a alta classe de Jerusalém o detestava. Em suma, Jesus desdenhava de seus pilares Romano - a autoridade - e Judeu - a pureza ritual. Com Ele ninguém tinha graça porque ela foi concedida de algum superior, nem porque foi merecida, nem porque foi herdada. Nada de meritocracia.

Nem lá no séc. 1 o mundo de Jesus cabia nesse mundo aqui, mesmo sendo totalmente gratuito. Os 1os discípulos já descobriram que, para fazer o que o Deus Vivo ordenara, seria preciso erguer uma cerca, fazer um grupo fechado, separado do restante, com outras regras ou, na exata interpretação da palavra, um grupo “santo”. O complicado era que, segundo o Mestre, eles também deveriam ir a todas as pessoas e convidá-las para seu grupo, que era dentro de onde a Caridade podia ser feita livremente. Indo ao ápice na famosa ceia com os doze, Jesus lavava os pés de quem o seguia e dividia tudo conforme cada um quisesse, para desfazer a noção da Anti-caridade de que uns podiam ser expropriados em favor de outros. Viver assim era muito anti-romano e aceitar qualquer um ao grupo era também muito anti-judeu. Por isso Ele estava cultivando algo que dependia do amor dos de fora, mas que tinha a cultura daquela época e lugar ensinando todos a odiar e temer.

Se olharmos como a ideia de Caridade se espalhou pelo tempo e espaço (nós a colocamos no dicionário com as referências do Oriente Médio do séc. 1), veremos que ela apaixonou a muitos. Jesus sabia o quanto era atraente; até avisou Seus seguidores que morreriam por ela, sabendo que nem assim eles desistiriam. Os missionários da diocese de Alexandria (Egito), nos sécs. 4 e 5, possivelmente foram os 1os responsáveis por levar isso Europa adentro. Sua estratégia não foi muito diferente do pessoal descrito em Atos dos Apóstolos: formaram grupos fechados, onde se praticava a Caridade, convidando todos a entrarem. E logo perceberam que, para alimentar um grupo assim, que dá gratuitamente, era preciso fazer um acordo com a Anti-caridade. Seria dada a graça aos mais ricos em troca de algum dinheiro, não mas de graça. Com esse dinheiro poderiam ajudar os pobres que esses mesmos ricos expropriaram. A Igreja entrou no circuito da autoridade e passou até a considerar o merecimento, pois eram bocas demais a alimentar e o conforto do dinheiro era bem merecido pelos santos.

Foi muita evolução e revolução até os dias de hoje, mas vimos a Igreja daquele que desafiava Romanos e Judeus fazer extermínios até piores do que os feitos pelos primeiros. Hoje, nem pensamos mais em encontrar a graça dando sopa por aí, muito menos a Caridade, e esta última não esperamos encontrar sequer dentro dos redutos da Igreja. Francisco de Assis, nascido na Itália do séc. 12 e tido como o 2º Cristão mais reverenciado desde Jesus, fez exatamente essa barbaridade. Também visitado por um Jesus re-afirmando sua culpa na ideia, como Paulo ele jogou para o alto seu merecimento e desafiou as autoridades quando, diz-se, criou um grupo de ambulantes dedicados à Caridade. Mas até os seguidores de Francisco - que não poderiam ser melhores que os de Jesus - quase sempre encontram-se trancafiados em círculos de santos, protegidos e à margem do mundo que a Anti-caridade governa. Mas aquela coisa plantada pelo Nazareno continuou apaixonante, tentadora pelo quanto é fácil e gratuita.

O mundo não tem outra alternativa a não ser fazer que tudo e todos ao nosso redor fale contra a Caridade. Aquele que pede ajuda na rua certamente não a merece: provavelmente vai usar qualquer dinheiro para comprar drogas ou beber. Aquele conhecido que está endividado, com certeza não estudou ou não trabalhou tão bem que pudesse garantir um futuro próspero. Até o rapaz mal educado na padaria não teve boa família ou educação que o ensinasse a se portar. A Anti-caridade faz questão de escancarar a falta de merecimento, de autoridade e de pureza, e muitas vezes não está mentindo.

Mas a questão de Jesus é justamente mandar isso às favas, porque a Caridade só se importa em ajudar, em igualar, sem sequer esperar um obrigado. Fora dos círculos de santos protegidos, até contratuados com o oposto da Igreja de Jesus, a Caridade pode ser, hoje, tudo que nos resta para semear o que Jesus teve a ufana ambição de chamar de Reino.

“Mas a economia demonstra que a desigualdade social atrapalha o crescimento, veja os números” tem a mesma precisa eficácia de dizer “mas Deus é amor, leia o versículo”. Defender a ciência econômica é como defender Deus: é inútil e contraproducente, e não é da índole nem de um nem do outro.

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Papai Noel avisou que não passaria lá

Bacelar T, A maquina da desigualdade, Le Monde Diplomatique Brasil, 8/nov/2007
Mapa das desigualdades do Distrito Federal 2016 - movimentonossabrasilia.org.br
Mapa da desigualdade na Grande São Paulo 2017 - nossasaopaulo.org.br
Pernías TR, O crescimento da desigualdade no capitalismo contemporâneo, Le Monde Diplomatique Brasil, 14/dez/2018

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Os dois lados de uma Cleópatra

Duas moedas selêucidas, identificadas como tendo os rostos de Cleópatra/Alexandre Balas e Cleópatra/Antíoco Grypus

PRÓLOGO

Desde o retorno dos Judeus libertados pelo rei Ciro em 540 a.C., não houve rei em Israel. As reconstruções seguiram sob o comando do sacerdote Esdras (aprox. 460 a.C.) e depois o governador Neemias (aprox. 430 a.C.), mas Israel permaneceu muito tempo sob a regência dos Persas. Após Malaquias (aprox. 420 a.C.), também não houve outro grande profeta. O controle (pacífico) dos Persas foi quebrado, em 330 a.C., pela chegada de um imenso exército dos Macedônios sob o comando de Alexandre o Grande.

Esse texto fala sobre Cleópatra Thea, uma rainha do Período Inter-testamentário que viveu no centro de um furacão bíblico envolvendo Egito, Grécia, Macedônia, Fenícia, Judéia e Pártia; algo como uma Guerra Mundial do mundo antigo. Grande parte do que escrevo aqui está descrito como crônicas de guerra no livro de 1ª Macabeus, encontrado nas Bíblias Católicas, mas não nas Protestantes¹, e conta como pano de fundo o estabelecimento de um novo reinado em Israel, no ano de 140 a.C. A nova linhagem de reis duraria até a vinda de Júlio César, o Romano, em 37 a.C.

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Era uma vez um príncipe do reino da Macedônia, chamado Alexandre. Ele conquistou mais terras do que qualquer outro homem, por isso foi chamado Alexandre o Grande. Seu reino ia do Egito até a Índia, tão grande que ao amanhecer de um lado já era meio-dia de outro. No Egito, fizeram-lhe até uma das 7 maravilhas do mundo, a cidade gloriosa de Alexandria.

Infelizmente, Alexandre morreu jovem. Seu império foi, então, repartido entre os fiéis generais. Cada um deles fez uma coroa para si, iniciando uma família de reis. O Egito coube a Ptolomeu, fundador dos Ptolomai. Cleópatra Thea (164-121 a.C.; Thea = divina) nasceu nessa família real, a filha mais velha de Ptolomeu VI e Cleópatra II.

Do leste da Síria até o Irã governou Seleuco, primeiro dos Selêucidas. Entre um reino e outro estavam as terras da Fenícia, famosa comerciante naval no Mediterrâneo, além da Galiléia (terras baixas ao norte de Israel) e Judéia (terras montanhosas aos sul). Esses territórios assistiram a duelos infindáveis entre os Ptolomai e os Selêucidas.

Os Ptolomai foram os primeiros a governar a Judéia. Eles foram bons reis para os judeus, concedendo liberdade de culto em troca de apoio militar e impostos. Mas os Ptolomai também davam altos cargos no governo para quem lhes favorecesse entre os sacerdotes e doutores da lei, e acabaram atraindo a cobiça dos fariseus e saduceus.

Os judeus se dividiram por isso em conservadores/pobres (radicalmente contra os gregos), moderados (que aceitavam alguns costumes) e helenizantes/favorecidos. Os helenizantes defendiam usar o grego nos documentos, participar dos torneios de homens nus e até reverenciar deuses gregos como Zeus e Apolo.

Afora conflitos pequenos e silenciosos, houve paz até 200 a.C. Nesse ano, Antíoco III o Grande, dos Selêucidas, investiu contra o Egito e derrotou Ptolomeu V, tomando-lhe a Judéia e a Fenícia. Com isso, Selêucida iria do Mar Persa (Golfo Pérsico) até o Mar Vermelho e seria uma potência marítima. Depois que viu seu poderio militar, o herdeiro e braço direito, príncipe Antíoco IV Epiphanes (epiphanes = imagem de Deus), retornou para a capital Antioquia saqueando todo reino que não lhe jurasse obediência irrestrita. Foi o que aconteceu com a Judéia.

Quando Antíoco IV subiu ao trono da Selêucida (175 a.C.), sentiu-se desafiado pelos judeus, seu Jeová e seu Templo. Considerava-os selvagens e inferiores, por isso tentou convencer as pessoas a trocarem a cultura judaica pela dos gregos. Uma de suas medidas foi substituir o sumo sacerdote Onias III (um tradicionalista, mal visto entre seus pares) pelo irmão Jasão (um helenista, por cujo cargo o rei Antíoco aceitou 440 talentos de prata - umas 10 toneladas e meia). Um Gymnasium grego foi instalado ao lado do Templo, para horror dos sacerdotes conservadores.

... Logo que subiu ao poder, Jasão arrastou seus concidadãos para o helenismo. … Foi com alegria que fundou um ginásio ao pé da própria acrópole, alistou os mais nobres jovens e os educou ao pétaso. Por causa da perversidade inaudita do ímpio Jasão, que não era de modo algum pontífice, obteve o helenismo tal êxito e os costumes pagãos uma atualidade tão crescente, que os sacerdotes descuidavam o serviço do altar, menosprezavam o templo, negligenciavam os sacrifícios, corriam, fascinados pelo disco, a tomar parte na palestra e nos jogos proibidos. Não faziam caso das honras da pátria e amavam muito mais os títulos helênicos. (2ª Macabeus 4.10-15)

O MARTELO JUDEU

Nesse tempo, circulava secretamente um perigoso boato entre os líderes judeus. Falava-se sobre uma fortuna em ouro guardada nas salas mais profundas do Templo, onde só os altos sacerdotes tinham acesso². Não demorou para que essa notícia chegasse aos oficiais selêucidas e traçasse seu rumo até os ouvidos do rei Antíoco. Certo dia, um homem chamado Menelau, que era oficial judeu e foi mandado até Antíoco para negociar o pagamento dos tributos do Templo, denunciou  existência desse ouro. Em sinal de fidelidade, Menelau até ofereceu todo ouro ao rei para sua campanha no Egito, contra os Ptolomai. Pouco tempo depois, o sacerdote Jasão foi deposto, assim como os demais sacerdotes.

O Santo dos Santos ganhou uma estátua de mármore de Zeus e o Templo foi saqueado, revirado em busca do ouro (169 a.C.), terminando por virar um prédio abandonado.

[Antíoco] Penetrou cheio de orgulho no santuário, tomou o altar de ouro, o candelabro das luzes com todos os seus pertences, a mesa da proposição, os vasos, as alfaias, os turíbulos de ouro, o véu, as coroas, os ornamentos de ouro da fachada, e arrancou as embutiduras. Tomou a prata, o ouro, os vasos preciosos e os tesouros ocultos que encontrou. Arrebatando tudo consigo, regressou à sua terra, após massacrar muitos judeus e pronunciar palavras injuriosas. Foi isso um motivo de desolação em extremo para todo o Israel. … No dia quinze do mês de Casleu, do ano cento e quarenta e cinco, edificaram a abominação da desolação por sobre o altar …. rasgavam e queimavam todos os livros da lei que achavam; em toda parte, todo aquele em poder do qual se achava um livro do testamento, ou todo aquele que mostrasse gosto pela lei, morreria por ordem do rei. (1ª Macabeus 1.21-25, 54-57)

Esse foi estopim do “martelo” judeu. Um dos sacerdotes da cidade de Modi’im, Matatias, reuniu seus 5 filhos e mataram os oficiais selêucidas que os obrigavam a sacrificar aos deuses gregos. Tornando-se um criminoso, ele refugiou-se com seus “Macabeus” nas montanhas de Judá e iniciou uma revolta nacionalista que ganharia mais soldados por onde passasse.

Matatias morreu nos 1os anos da guerrilha, sendo sucedido em comando pelo filho mais velho Judas [Macabeu]. Embora um grande estrategista militar, Judas e seu irmão João acabaram mortos nos confrontos contra os Selêucidas. O terceiro irmão, Jônatas Macabeu, reuniu um exército poderoso que reconquistou Jerusalém³ e tornou-se peça importante nas disputas entre os Ptolomai e os Selêucidas, a ponto de ambos os lados o temerem. Jônatas libertou muitas cidades do controle dos gregos, tornando-se conhecido até mesmo nas terras vizinhas. Em nome de uma Israel que falava por si própria, Jônatas renovou as relações diplomáticas com Roma e o Egito, mantendo a segurança de Jerusalém através de acordos com os dois lados e o rei Antíoco.

VENCEMOS, VENHA CLEÓPATRA!

Nesse ponto da história é que aparece a princesa de Ptolomeu VI do Egito.

Antíoco III o Grande havia sido derrotado pelos romanos, e cada rei Selêucida foi obrigado a deixar seu filho como refém dos romanos**. Antíoco IV era um desses reis educados em Roma. Quando ele foi coroado, Roma libertou seu irmão Seleuco IV e tomou o filho deste, Demetrius I. Seleuco subiu ao trono para servir aos interesses de Roma, mas seu reinado foi curto e acabou assassinado pelo amoroso tio Antíoco, de quem já falamos.

Os anos passaram, Demetrius I cresceu e adquiriu poder militar para reconquistar seu reino. Por causa dele, a Selêucida assistiu gerações de guerra entre duas famílias reais irmãs: os de Seleuco e os Antíoco. A Revolta dos Macabeus conviveu com alianças, traições, vitórias e derrotas de 3 gerações Selêucidas. Um desses líderes, filho de Antíoco IV, foi Alexandre Balas. Ele aparece na narrativa como grande inimigo de Demetrius I Soter (o pequeno que havia ficado em Roma), transformado num rei detestável pela sua má administração e uso indiscriminado de mercenários trazidos de Creta.

Era uma vez um príncipe Alexandre Balas, filho de um rei tirano e derrotado chamado Antíoco IV. Balas cresceu a protegido dentro da nobreza Selêucida, até que concebeu a idéia de ser o rei daquele país. Balas conseguiu conquistou o exército de Ptolemaida e assim reuniu forças, para, no que todos  chamariam de golpe, reaver seu trono. Além disso, ele intencionava reunificar o império dos Macedônios fazendo aliança com o respeitado monarca do Egito.

Quando Balas repeliu Demetrius, tanto os Ptolomai quanto as nações vizinhas lhe prestaram atenção. Tendo Demetrius I como um inimigo em igual, Jônatas Macabeu viu em Alexandre Balas um rei honrado (ao contrário do pai) e travou amizade com ele.

Então Alexandre [Balas] enviou embaixadores a Ptolomeu do Egito, com a missão de lhe dizer: “Eis-me de volta ao solo do meu reino e assentado no trono de meus pais; recobrei o poder, derrotei Demétrio e entrei na posse de meu país. Travei batalha com ele, venci-o com seu exército e subi ao trono onde ele reinava. Façamos agora laços de amizade, dá-me tua filha por esposa e serei teu genro, e vos cumularei, a ti e a ela, com presentes dignos de vós.”

O rei Ptolomeu respondeu: “Venturoso o dia em que entraste na terra de teus pais e te assentaste no trono de seu reino! Por isso dar-te-ei o que me pedes, mas vem ter comigo em Ptolemaida**, para que nos vejamos, e farei de ti o meu genro como desejas.” Saiu Ptolomeu do Egito com sua filha Cleópatra, e foi a Ptolemaida no ano cento e sessenta e dois. Deu-a em casamento a Alexandre, que lhe veio ao encontro e celebrou as bodas com real magnificência. 

O rei Alexandre escreveu também a Jônatas, para que viesse procurá-lo, e este se dirigiu a Ptolemaida, com pompa, onde encontrou os dois reis. Ofereceu-lhes, como também a seus amigos, prata, ouro e numerosos presentes e conquistou sua confiança inteiramente. … Ordenou até mesmo que se tirassem as vestes de Jônatas, para revesti-lo de púrpura, o que foi feito; e o rei fê-lo assentar-se junto de si. (1ª Macabeus 10.51-62)

Cleópatra Thea era uma princesa poderosa. Mas ela entra na nossa narrativa em 150 a.C. da melhor maneira, como esposa de um rei adorado e justo, prometendo celebrar a re-unificação dos grandes reinos Ptolomai e Selêucida para trazer paz a todas as terras do Oriente Médio. Seu casamento suntuoso foi noticiado em todas as partes do mundo, ganhou lugar até nos livros de história. Logo mais, em 148 a.C., próximo ao grande triunfo de Roma sobre seu pior rival, a cidade de Cartago, nasce o mais esperado herdeiro, Antíoco VI Dionísio, provavelmente herdeiro de tudo o que já fora de Alexandre o Grande.

Mas havia uma ameaça no sul. Demetrius I ainda lutava, e por isso Alexandre Balas mandou seu filho para longe da guerra, para ser guardado no território árabe.

A VINGANÇA DOS GUERREIROS

A paz pareceu reinar quando Demetrius I acabou derrotado por Alexandre Balas. Estava constituído um novo império gigantesco. Na ilha de Creta, entretanto, crescia Demetrius II, treinado para a guerra no mesmo lugar de onde saíam os soldados do pai. Aos 15 anos, em 147 a.C., o jovem Demetrius II também desembarcou na Fenícia com um exército de mercenários.

Demetrius investiu poderosamente contra Alexandre Balas. Um dos generais de Balas, Diodotus Tryphon, prevendo sua queda, foi à Arábia buscar o pequeno rei para coroá-lo sem demora. E Cleópatra Thea, no Egito, viu seu pai Ptolomeu tomar uma inédita decisão: ele a separaria de Alexandre para entregar a Demetrius II Nicator. O pai queria unir os reinos, mas apostava agora no outro braço da família real.

O novo casamento deu-se em Antioquia, em 145 a.C., 5 anos após o 1º casamento e estando ela pelo menos 2 anos separada do filho. Certamente 145 a.C. seria um ano terrível para todos os reis.

Tryphon era um hábil general. Em 145 a.C. ele repeliu Demetrius, que deslocou suas tropas muito a leste e acabou capturado pelas tropas da Pártia. Mas Ptolomeu já havia conquistado boa parte da Selêucida.

Enquanto o rei Ptolomeu triunfava, Alexandre chegou à Arábia, para procurar ali um asilo, mas o árabe Zabdiel mandou cortar-lhe a cabeça e enviou-a ao rei do Egito. Ptolomeu morreu três dias depois, e as guarnições que ele havia posto nas fortalezas foram massacradas pelos habitantes das cidades vizinhas. (1ª Macabeus 11.16-18)

Alexandre também deslocou suas tropas para o sul, pressionado por uma invasão vinda do Egito. Lá, ele acabou morto por um partidário árabe de Ptolomeu VI. O próprio rei do Egito acabou ferido numa queda de seu cavalo e morreu, antes do final do ano.

Assim, no mesmo ano, a rainha Cleópatra perdeu seu antigo esposo, separado à força, o novo esposo e também o pai. Mesmo ela já estava ameaçada pela sombra de Tryphon, mas ele tinha outros planos. Com Demetrius II derrotado, Ptolomeu e Alexandre Balas mortos, o general Tryphon sentiu-se muito apto a tomar o trono da Selêucida para si. O jovem rei todo poderoso (até chamado deus Dionísio) Antíoco VI era uma criança, e Tryphon tinha em suas mãos o exército. Seu único adversário era ainda o companheiro do antigo rei, nosso general e sacerdote Jônatas Macabeu.

Tryphon usou de toda astúcia e falsidade possíveis para resolver isso: primeiro convidou Jônatas a se reunir com ele em Ptolemaida, depois pediu que dispensasse seu exército, pois estava em território amigo. Jônatas consentiu, mantendo apenas 1000 homens consigo. Ao chegarem em Ptolemaida, subitamente os dois reis encontraram as portas da cidade fechadas. Era uma emboscada, e os homens de Jônatas não foram suficientes para protegê-lo. Assim Jônatas acabou preso e mais tarde executado perante os homens de Tryphon. Foi-lhe feita a tumba de um rei, e ninguém mais se oporia a Tryphon.

Em 142 a.C., no seu próprio palácio de Antioquia, o rei Antíoco IV Dionísio (com 8 anos de idade) foi executado. Tryphon noticiou que a criança morrera durante uma cirurgia, ao que ninguém acreditou. E rapidamente Tryphon coroou-se rei da Selêucida.

Quando levaram-lhe a notícia, Cleópatra declarou Tryphon inimigo de toda a linhagem dos Ptolomai e dos Selêucidas.

O RETORNO DO REI

Do 2º casamento, Cleópatra Thea concebeu dois filhos: Seleuco V Philometor (philometor = preferido da mãe) e Antíoco VIII Grypus (grypus = narigudo). Logo após o nascimento dos filhos, Tryphon fez com que seu esposo Demetrius fosse capturado. Ele permaneceu 10 anos além das fronteiras do reino, em algum lugar da Pártia...

Nesse tempo, Cleópatra encontrou um novo fiel. O irmão de Demetrius, Antíoco VII Sidetes, jurou-lhe que destruiria Tryphon. De fato, 4 anos depois chegariam notícias de que Sidetes encurralou Tryphon e o executou em sua terra natal, Apamea. Quando voltou a Ptolemaida, Sidetes pediu a mão de Cleópatra e a desposou, tornando-se o novo rei da Selêucida. E por 6 anos reinou a paz em toda terra.

Certo dia, em 130 a.C, chegou a Ptolemaida a notícia de que Demetrius havia entrado em Selêucida, com uma grande escolta de mercenários. Ele voltava do cativeiro casado com uma princesa guerreira da Pártia, Rhodogune, em sinal de sua fidelidade àquele reino. 

Cleópatra se negou a receber Demetrius de volta em Ptolemaida. Por fim ela soube, anos depois, que ele sofrera derrotas seguidas defendendo seu país contra os Ptolomai do Egito (pois a invasão não cessara). Demetrius havia se tornado um alcoólatra e foi assassinado pelas próprias tropas, quando lhe faltou meios de pagá-los.

QUE FIM LEVOU CLEÓPATRA?

Cleópatra comandou toda Selêucida e manteve relações pacíficas  com os Ptolomai por 3 ou 4 anos, enquanto seus príncipes cresciam. Dois eram filhos de Demetrius II e um filho era filho de seu irmão, chamado Antíoco IX Cyzicenus (cyzicenus = piedoso). Além disso, ela tinha mais 4 filhos que não eram sucessores ao trono. Cleópatra sabia que os herdeiros lutariam pelo trono, então tentou mantê-los alternadamente no poder à medida que completavam 15 anos. Cada qual teve a coroa da Selêucida por um ou dois anos, governando sob a tutela da mãe.

Mas o terceiro filho, Grypus, conhecido por suas habilidades de caça, mostrou-se um jovem tirano logo que assumiu o trono. Em menos de 1 ano ele desafiou o Egito demais membros da família real,  prometendo devolver o reino a uma guerra de dinastias. Em desespero, a mãe tentou matá-lo com vinho envenenado. Suspeitando do comportamento da mãe, Grypus chamou seus soldados e a obrigou a beber do vinho que lhe oferecia. Isso matou Cleópatra no palácio de Ptolemaida em 121 a.C., aos 37 anos de idade.

Com a morte de Jônatas Macabeu, seu irmão Simão Macabeu assumiu a posição de general e sumo sacerdote de Israel. Ele veria a Selêucida ruir na sua guerra de dinastias, e estabeleceria a paz com o Egito, Roma e Esparta, dando início à linhagem dos reis Hasmoneus em Judá. Eis a inscrição deixada sobre ele:

No dia dezoito do mês de Elul, do ano cento e setenta e dois, o terceiro ano do pontificado de Simão, em Asaramel, na grande assembléia dos sacerdotes do povo, dos chefes da nação e dos anciãos do país, foi declarado isto: No momento em que as guerras renasciam sem cessar no país, Simão filho de Matatias, descendente de Jarib, e seus irmãos, expuseram-se ao perigo e resistiram aos inimigos de sua raça, para salvar o templo e a lei, levando seu povo a uma grande glória. Jônatas reuniu seu povo e tornou-se o sumo sacerdote; depois foi juntar-se aos seus mortos. Os inimigos quiseram invadir o país para devastá-lo e lançar a mão sobre os lugares santos, mas então se levantou Simão. Combateu por sua nação, distribuiu uma grande parte de seus bens para armar os homens de seu exército e pagar seu soldo. Fortificou as cidades da Judéia: Betsur, que se acha na fronteira, outrora arsenal do inimigo, onde ele estabeleceu uma guarnição judia; Jope, que se acha na costa; Gazara, na região de Azot, outrora povoada de inimigos, que ele substituiu por judeus. E muniu todas estas cidades com o que era necessário para sua defesa. O povo viu o procedimento de Simão e a glória que ele queria adquirir para a sua raça. Escolheram-no para chefe e sumo sacerdote, por causa de tudo o que ele havia efetuado, pela justiça e fidelidade que guardou à sua pátria e porque procurava de todo modo exaltá-la. (1ª Macabeus 14.27-35)

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¹ Macabeus é uma palavra hebraica para “martelo”, significando uma força revolucionária da Judéia que a protegeu das influências gregas nos anos após Alexandre o Grande (330 a.C.). Os livros dos Macabeus (1 a 9) são crônicas dessa resistência dos Judeus em um mundo dominado - em todos os lados - por impérios gregos. Os dois principais livros, 1ª e 2ª Macabeus, foram preservados como partes da Torá e, depois, na Bíblia Septuaginta, de onde se originou a versão Católica. Até o séc. 16, houve consenso de que tais livros eram inspirados divinamente e portanto foram mantidos na Bíblia. Na Reforma Protestante, os livros dos Macabeus foram considerados somente crônicas de guerras humanas e portanto foram tirados do Livro Sagrado. Eles cobrem justamente o período entre a chegada dos gregos na Judéia (330 a.C.) e a dominação romana (37 a.C.).

² Os boatos sobre o tesouro dentro do Templo eram antigos (2ª Macabeus 3.2). Eles parecem ter começado com uma denúncia de Simão o Benjamita, que desejava controlar o mercado dentro do Templo. O enviado do rei Seleuco IV (irmão de Antíoco IV), Heliodorus, acabou assassinado dentro do Templo. Supostamente sua morte foi atribuída ao aparecimento de anjos em vestimentas douradas, que defendiam o lugar sagrado.

³ A reconquista de Jerusalém teve um impacto profundo na mentalidade dos judeus. A cidade sagrada estava nas mãos de judeus, o Templo foi restaurado e re-dedicado. O poderio de Jônatas como líder militar pode ser atestado por sua aliança com Demetrius II Nicator (nicator = vitorioso), rei Selêucida filho de Alexandre Balas (170-146 a.C.) (1ª Macabeus 11.42-52), com Roma e Esparta (1ª Macabeus 12.1-23). A partir da morte de Jônatas (143 a.C.), instaurou-se uma dinastia de reis judeus conhecida como Hasmoneus (140-37 a.C.). Essa dinastia clamava descendência de um alto sacerdote Hashmonay e começou com Simão Macabeu, um dos filhos de Matatias. Ele aproveitou-se das guerras internas entre as famílias Selêucidas e seus descendente manobraram relações pacíficas de poder com os Selêucidas, os Ptolomai e o crescente poder Romano, após a derrota de Cartago (146 a.C.).

* Era costume de Roma tomar por reféns os herdeiros daqueles reis que derrotava. Ao invés de confiná-los em calabouços, os romanos alojavam esses príncipes prisioneiros como hóspedes de suas famílias mais ricas. Sendo jovens, eram educados por professores romanos de forma que adquirissem lealdade ao império para, em momento oportuno, assumirem seus tronos como clientes/fiéis de Roma. Ao contrário de ser uma prática inovadora, ela já havia sido muito utilizada por Nabucodonozor II (634-562 a.C.) durante seu longo reinado entre os Caldeus. Daniel, Hananiah (Sadraque), Mishael (Mesaque), Azariah (Abednego), Ezekiel, Jeremias e Isaías estavam entre a elite de Jerusalém que foi feita refém pelos Caldeus. Os 4 primeiros, em especial, eram príncipes e foram alojados no próprio palácio de Nabucodonozor.

** Ptolemaida era a cidade natal de Ptolomeu I Soter (soter = salvador), melhor amigo e general que acompanhou Alexandre o Grande em suas batalhas. Após a morte de Alexandre, ainda jovem, ele coroou-se Faraó e fundou a nova dinastia do Egito, onde nasceram 15 rainhas denominadas Cleópatras.

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LIVROS BANIDOS DO REINO

3rd century BC - wikivividly
Antiochus, Encyclopaedica iranica, iranicaonline.org
Books of the Maccabees - wikipedia
Cleopatra Thea - wikipedia
Gilad E,  Meet the Hasmoneans: a brief history of a violent epoch, Haaretz, 23dez2014
Hasmonean dynasty - wikipedia
I Maccabees - wikipedia
Josephus, Antiquities of the Jews - Book XIII
Maccabean Revolt - wikipedia
Marans D, Baumann N, The real history of Hanukkah is more complicated than you thought, Huffington Post, 24dez2016
Millington UMC on the Fox, Old testament vs. secular historical timeline, 7ago2013
Oates H, The Maccabean revolt, Ancient History Encyclopedia, 29out2015
Onias III - wikipedia
The Onias dinasty, losthistory.com

sábado, 9 de novembro de 2013

Sabedoria de Salomão - os autores misteriosos

Salomão, na re-pintura de um famoso desenho de Gustave Doré

Faz tempo que estou ensaiando escrever sobre o livro Sabedoria de Salomão, às vezes simplesmente chamado de Sabedoria. Acho que eu sempre fiquei impressionado com o fato de um livro ser ao mesmo tempo tão religioso, tão humano e tão apócrifo. Faz a gente pensar... Se os livros da Bíblia são os únicos inspirados por Deus, o livro de Sabedoria foi um dos primeiros demitidos desse rol de obras sagradas (em outras palavras, suspeita-se que o autor não foi inspirado por coisa alguma). Se há livros fora da Bíblia inspirados por Deus, porque continuam fora? E se não houve inspiração nenhuma para esse livro, porque ele pesa tanto no coração a ponto de colocar religiosos acalorados em lados distintos da disputa?

Se repararmos bem, só os 10 Mandamentos, em toda a Bíblia, foram ensino racisticamente divino. Todo o restante são exemplos bons, ruins e duvidosos da vida de PESSOAS que se relacionaram com Deus. Pessoas que amaram, sofreram, tiveram ódio, festejaram, encheram a cara, tiveram vermes, bateram, apanharam, casaram, ajudaram, etc. Mesmo o código de leis de Moisés, talvez a parte mais legalista de toda a Bíblia, parece feito e ajustado para as pessoas que viviam junto dele. Paulo e Pedro também falaram (e até brigaram) de regras de comportamento, mas nelas transparece nitidamente um Paulo abandonado nas prisões e um Pedro receoso pelo seu status, a única riqueza de um pescador pobre e velho. Como poderiam não falar do que tinham o coração cheio?

1ª PARTE - PRÓLOGO E ADVERTÊNCIA AOS LEITORES (1.1 até 1.11)

"Somente o puro poderá ler esse livro"... É mais ou menos nesse tom que se inicia a narrativa. O autor dirige-se aos reis e adverte que o Senhor se afasta de qualquer forma de maldade, sendo alcançado somente pela simplicidade de coração. Assim a parte inicial adverte os leitores:

Aquele que profere uma linguagem iníqua, não pode fugir dele, e a Justiça vingadora não o deixará escapar; pois os próprios desígnios do ímpio serão cuidadosamente examinados; o som de suas palavras chegará até o Senhor, que lhe imporá o castigo pelos seus pecados. É, com efeito, um ouvido cioso, que tudo ouve: nem a menor murmuração lhe passa despercebida. (Sab 8.10)

E você preocupado com hackers...

2ª PARTE - O PODER DE DEUS (1.12 até 9.18)

O livro segue então fazendo uma ode ao poder do Senhor, identificado aqui também como a Sabedoria, como no livro de Provérbios. O Senhor/Sabedoria retribui de forma fantástica aos que o seguem em seus modos de vida, e também põe fim ao ímpio. A Sabedoria consiste em uma vida de pureza, como era o pensamento grego:

Não procureis a morte por uma vida desregrada, não sejais o próprio artífice de vossa perda. Deus não é o autor da morte, a perdição dos vivos não lhe dá alegria alguma. Ele criou tudo para a existência, e as criaturas do mundo devem cooperar para a salvação. Nelas nenhum princípio é funesto, e (a Morte, ou o Hades) não é a rainha da terra, porque a justiça é imortal. Mas, (a Morte), os ímpios a chamam com o gesto e a voz. Crendo-a amiga, consomem-se de desejos, e fazem aliança com ela; de fato, eles merecem ser sua presa. (Sab 1.12-15)

Existe uma diferença conceitual entre essa busca por pureza e o que Paulo descreve em suas cartas. Ele enumera princípios espirituais que devem governar a vida das pessoas: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança, e que se distinguem das "paixões carnais". Aqui, a pureza se aplica ao mundo carnal (o equivalente do atual "coma verduras", "pratique exercícios"). Tal filosofia de pureza é tipicamente grega e norteou muito do pensamento atual, além do pensamento ROMANO quando João, Jesus e os discípulos pregavam. Por isso, rapidamente a pregação do Cristianismo foi associada a uma moral de comportamentos que, de fato, NÃO APARECE nas falas do Senhor.

A idéia de morte apresentada no Velho Testamento, como uma punição ou destruição, aqui é pela 1ª vez contraposta com a Salvação, que inaugura o Novo Testamento:

Ele [o justo morto] agradou a Deus e foi por ele amado, assim [Deus] o transferiu do meio dos pecadores onde vivia. Foi arrebatado para que a malícia lhe não corrompesse o sentimento, nem a astúcia lhe pervertesse a alma. ... O justo, ao morrer, condena os ímpios que sobrevivem, e a juventude, atingindo tão depressa a perfeição, confunde a longa velhice do pecador. Eles verão o fim do sábio, e não compreenderão os desígnios do Senhor a seu respeito, nem por que ele o pôs em segurança. (Sab 4.10-17)

Embora muitos cristãos atribuam essa "mudança de entendimento" à pregação de Jesus, ela na verdade ocorreu um pouco antes e um tanto longe de Israel.

O filósofo grego-judeu Philon (20 a.C. - 50 d.C.) foi um dos que se puseram a estudar o judaísmo na Escola de Alexandria (anexa à Grande Biblioteca), acreditando que a interpretação criteriosa da Torá poderia conduzir o homem ao conhecimento de Deus (Sabedoria). Durante a perseguição do judeus pelo imperador Gaius Julius Caesar Augustus Germanicus (Calígula) quando se recusaram a prestar culto ao imperador, Philon fez a defesa dos judeus contra seus acusadores. Sua obra foi marcada pela idéia da "Salvação do justo", que ele via transparecer na Torá. Por exemplo, quando Calígula recusou-se a ouvir seus argumentos, Philon anunciou ao povo que "a raiva do imperador colocava Deus contra ele". Esse conceito difundiu-se enormemente em toda Roma e Grécia, de forma que a pregação libertária de Jesus talvez tenha sido surpreendente aos judeus pobres, mas certamente não era estranha aos Fariseus como Gamaliel, nem aos romanos como Saulo de Tarso.

A exposição sobre a Sabedoria é sem dúvida a parte mais religiosa do livro, colocando a ação divina como comandadora absoluta das ações humanas perpetradas pelos próprios humanos! E qual era o maior símbolo judeu de Sabedoria? Salomão.

SABEDORIA DE SALOMÃO

O 1º comentário sobre o livro Sabedoria de Salomão apareceu na obra do historiador romano Eusebius de Cesaréia (260-340 d.C.), que escrevia a história dos judeus a partir dos livros sagrados. Para os historiadores de hoje, só isso isso já desqualifica o livro como obra de um rei judeu de 950 a.C. Afinal, AONDE o livro teria estado em todo esse tempo que jamais se falou qualquer coisa dele? Além disso, a cópia mais antiga usa a palavra "sebasma" para identificar "ídolo". Essa gíria foi típica do reinado de César Augustus (63 a.C. - 14 d.C.), quando os imperadores começaram a ser cultuados como deuses... e o próprio livro fala muito sobre idolatria. Finalmente, o modo como foi escrito lembra muuuuito os discursos do de Philon de Alexandria.

Os vários períodos são semelhantes, assim há um consenso de que o livro de Sabedoria deve ter surgido nas últimas décadas a.C., certamente obra de um judeu altamente educado na política e filosofia da época. Talvez um intelectual da escola de Alexandria, até, pois as versões mais antigas estão em diversas línguas. Se fosse a obra de um intelectual, certamente teria sido importante... Mas salta aos olhos que o autor tenta descaradamente passar-se por Salomão:

Tu [Senhor] me escolheste como rei do teu povo e juiz dos teus filhos e filhas. Tu me mandaste construir um templo sobre o teu santo monte, um altar na cidade onde fixaste a tua tenda, cópia da tenda santa que tinhas preparado desde o princípio. ... Assim, as minhas obras ser-Te-ão agradáveis, poderei governar com justiça o teu povo, e serei digno do trono de meu pai. (Sab 9.7-12)

Por isso os Protestantes excluíram esse livro da Bíblia, "por não ser realmente obra da pessoa que o nomeia, ou de alguém que tenha presenciado os fatos que descreve". Quem exatamente foi o autor, ninguém sabe. Não era raro autores atribuírem as próprias obras a gente famosa, a fim de que fossem divulgadas. O valor do livro está em ele ser, cronologicamente, a última obra do Velho Testamento e assim nos deixar em conhecimento de como era o mundo quando Jesus nasceu.

A exposição histórica em favor de um autor “Salomão” é tremendamente humana. E certamente poucos livros mereceriam tanto o lugar de Apócrifo como esse, dada sua autoria fortemente fora da narrativa dos demais livros e deliberadamente feita para ser um instrumento de ensino religioso-filosófico para os reis.

A HISTÓRIA (10 ATÉ 19)

"Salomão" faz uma valiosa descrição da história judaica até o "seu reinado". Esse trecho tem a particularidade de ser bastante implícito, sem que os fatos seja enumerados, como seria de se esperar de um historiador alheio. Ao invés disso, ele fala como se falasse a um judeu capaz de "detectar" o conteúdo histórico em suas frases:

Quanto aos que a honram, a Sabedoria os liberta de sofrimentos; foi ela que guiou por caminhos retos o justo que fugia à ira de seu irmão; mostrou-lhe o reino de Deus, e deu-lhe o conhecimento das coisas santas. Ajudou-o nos seus trabalhos, e fez frutificar seus esforços. Cuidou dele contra ávidos opressores e o fez conquistar riquezas. Ela o protegeu contra seus inimigos e o defendeu dos que lhe armavam ciladas; e no duro combate, deu-lhe vitória, a fim de que ele soubesse quanto a piedade é mais forte que tudo. (Sab 10.9-12)

Nesse trecho, fala-se em Jacó fugindo de Esaú, sendo explorado por Labão e lutando contra o Anjo do Senhor. Através da história como é apresentada, podemos ter idéia de quais pontos eram valiosos e críticos para os habitantes da época:

  • o dilúvio tinha vindo por causa de Caim (10.4)
  • Abraão era irrepreensível diante de Deus (10.5)
  • as 4 cidades vizinhas a Sodoma eram interligadas e sucumbiram juntas ao fogo; a terra ao seu redor ainda era fumegante no tempo de "Salomão" (10.6)
  • José foi acusado injustamente (10.14)
  • Moisés se opôs a reis temíveis (11.16)
  • os egípcios foram engolidos pelo Mar Vermelho (11.19)
  • a 1ª Páscoa foi celebrada em meio a milagres (11.21)
  • com o Nilo tornado em sangue, a sede dos egípcios havia sido assustadora (11.8)
  • os egípcios foram punidos por sua adoração a animais "estúpidos" (11.15)
  • os judeus acreditavam que a punição dos egípcios havia sido pequena (11.17-19)
  • Deus ama tudo o que existe (11.24)
  • os antigos habitantes de Israel eram detestados por Deus, por causa de seus ritos mágicos e sacrifícios humanos, em especial de crianças (12.4-6)
  • Deus usa os animais em seus propósitos, dividindo-os em animais bons e “estúpidos” (12.8)
  • o Senhor é indulgente: após o pecado, há tempo para a penitência (12.18-19)

Provavelmente, esses pontos estão presentes na adoração cristã e judaica dos dias atuais ainda, com vários rebuscamentos permissíveis em épocas de paz. No caso, uma ênfase especial do autor que difere dos dias atuais está na importância ou qualidade dos animais e objetos associados a Deus. Entre os animais usados nas pragas do Egito, por exemplo, era importante que fossem “animais estúpidos” ou “sem valor”, como forma de humilhação. De fato, o adjetivo “desprezível” é usado constantemente com os egípcios e todo inimigo dos judeus, como uma reafirmação constante contra a submissão do povo que o autor se recusava a ver. Como podia o povo de Deus estar sob jugo de uma nação idólatra?

OS IDÓLATRAS

O autor de Sabedoria discorre sempre longamente sobre o Egito dos faraós, vinculando-o ao seu próprio tempo. Talvez lhe incomodasse muito o fato de estudar os textos hebraicos numa época em que os judeus eram dominados (pelos romanos) justamente numa cidade da terra onde haviam sido escravos. Sempre vinculada ao Egito aparece a idolatria de animais “estúpidos” e objetos “sem valor” construídos pelos próprios homens. Nisso ele elabora lindas parábolas sobre as formas pelas quais os homens se afastam do verdadeiro Deus: “São insensatos por natureza todos os que desconheceram a Deus, e, através dos bens visíveis, não souberam conhecer Aquele que é, nem reconhecer o Artista, considerando suas obras” (Sab 13.1). É nesses trechos sobre a idolatria e o Êxodo que vemos a brilhante humanização do relato bíblico, com a transposição para os sentimentos humanos de assuntos fortemente teológicos.

1. Tomaram o fogo, ou o vento, ou o ar agitável, ou a esfera estrelada, ou a água impetuosa, ou os astros dos céus, por deuses, regentes do mundo. (Sab 13.2)

2. Um lenhador cortou e serrou uma árvore fácil de manejar. Habilmente ele lhe tirou toda a casca, e com a habilidade do seu ofício, fez dela um móvel útil para seu uso. Com as sobras de seu trabalho, cozinhou comida, com que se saciou. O que ainda lhe restava, não era bom para nada, não passando de madeira torcida e toda cheia de nós; contudo, ele a tomou e consagrou suas horas de lazer a talhá-la; ele a trabalhou com toda a arte que adquirira, e lhe deu a semelhança de um homem, ou o aspecto de algum vil animal. Pôs-lhe vermelhão, uma demão de uma tinta encarnada, e encobriu-lhe cuidadosamente todo defeito. Em seguida, preparou-lhe um nicho digno dele. e o fixou à parede, segurando-o com um prego: foi por medo que caísse, que tomou este cuidado, porque sabe muito bem que ele não pode ajudar-se a si mesmo, pois não passa de uma estátua que tem necessidade de um apoio. Mas quando lhe implora por seus bens, seus casamentos, seus filhos, não se envergonha de falar ao que é inanimado, e pede saúde ao que é desprezível. (Sab 13.11-17)

3. Um pai aflito por um luto prematuro, tendo mandado fazer a imagem do filho tão cedo arrebatado, honrou, em seguida, como a um deus aquele que não passava de um morto, e transmitiu, aos seus, certos ritos secretos e cerimônias. Este costume ímpio, tendo-se firmado com o tempo, foi depois observado como lei. (Sab 14.15-16)

4. Foi também em conseqüência das ordens dos príncipes que se adoraram imagens esculpidas, porque aqueles que não podiam honrar pessoalmente, porque moravam longe deles, fizeram representar o que se achava distante, e expuseram publicamente a imagem do rei venerado, a fim de lisonjeá-lo de longe com seu zelo, como se estivesse presente. Isto contribuiu ainda para o estabelecimento deste culto, mesmo entre os que não conheciam o rei. Foi a ambição do artista, que, talvez, querendo agradar ao soberano, deu-lhe, por sua arte, a semelhança do belo. E a multidão, seduzida pelo encanto da obra, em breve tomou por deus aquele que tinham honrado como homem. (Sab 14.17-20)

5. Eis, portanto, um oleiro que amassa laboriosamente a terra mole, e forma diversos objetos para nosso uso, mas da mesma argila faz vasos destinados a fins nobres e outros, indiferentemente, para usos opostos [pinicos]. Para qual destes usos cada vaso será aplicado? O oleiro será o juiz. Do mesmo barro forma também, como obreiro perverso, uma vã divindade, ele que, ainda há pouco, nasceu da terra, e em breve voltará a ela, de onde foi tirado, quando lhe serão pedidas as contas de sua vida. (Sab 15.7-8)

EGITO - UM PESADELO FILOSÓFICO

O autor de Sabedoria discorre em longos trechos sobre os animais das pragas lançadas sobre o Egito,  os animais repugnantes, a praga da escuridão em especial e o maná. Uma vez que o texto do Êxodo é muito menos detalhado a respeito disso, podemos supor que se tratam de elucubrações das quais se ocupariam, isso é claro, um filósofo grego. Sua dedicação a expor os detalhes intimistas do Êxodo nem deixa espaço para o conto histórico! É nesses trechos finais sobre a idolatria e o Êxodo que vemos a brilhante humanização do relato bíblico, com a transposição para os sentimentos humanos de assuntos fortemente teológicos. Por exemplo, é muito clara a separação entre animais estúpidos, desprezíveis, etc (sapos, moscas, vespas) e os outros animais (codornizes, bois, etc). A diferenciação, entretanto, é imputada a Deus, num legítimo processo de generalização (se eu não uso... então não serve para nada):

... os mais odiosos animais, que são piores ainda que outros animais irracionais, e nem mesmo possuem o que outros seres viventes possuem: bastante beleza para serem amados, que foram excluídos de aprovação e da bênção de Deus (Sab 15.18-19)

... aqueles [os egípcios], mau grado a sua fome, diante do aspecto hediondo dos animais enviados contra eles, experimentaram a náusea; estes [os hebreus], após uma curta privação, receberam um alimento maravilhoso [codornizes caídas do céu] (Sab 16.1-3)

O maná também é idealizado como um “alimento dos anjos” nessas elucubrações filosóficas, de uma forma que não aparece no Livro do Êxodo nem em qualquer outra parte da Bíblia.

... foi com o alimento dos anjos que alimentantes o vosso povo, e foi do céu que, sem fadiga, vós lhes enviastes um pão já preparado, contendo em si todas as delícias e adaptando-se a todos os gostos... Ela se adaptava ao desejo de quem a comia, e transformava-se naquilo que cada um desejava. ... O que não era destrutível pelo fogo fundia-se ao calor de um raio de sol. (Sab 16.25-27)

Sabores são impossíveis de se descrever em palavras, mas o Livro do Êxodo coloca que o maná simplesmente tinha o sabor de uma torta de mel. Esperemos que todos imaginassem o mel então... Quanto aos 3 dias de densa escuridão lançados sobre o Egito (Ex 10.21), as elucubrações também são notáveis:

Mesmo o canto mais afastado em que se abrigavam não os punha ao abrigo do terror: ruídos aterradores ressoavam em torno deles, e taciturnos espectros de lúgubre aspecto lhes apareciam. Nenhuma chama, por intensa que fosse, chegava a iluminar. E a luz brilhante dos astros era impotente para alumiar esta noite sombria. Mas aparecia-lhes de súbito nada mais que uma chama aterradora, e, tomados de terror por esta visão fugitiva, julgavam essas aparições mais terríveis ainda ... dormiam num mesmo sono, agitados, de um lado, pelo terror dos espectros, e paralisados, de outro, pelo desfalecimento da alma ... O silvo do vento, o canto harmonioso dos passarinhos nos ramos espessos, o murmúrio da água correndo precipitadamente, o estrondo das rochas que se despenhavam, a carreira invisível dos animais que saltavam, os urros dos animais selvagens, o eco que repercutia nas cavidades dos montes: tudo os paralisava de terror. Enquanto o mundo inteiro era alumiado de uma brilhante luz, e sem obstáculo se entregava às suas ocupações, somente sobre eles se estendia uma pesada noite, imagem das trevas que mais tarde os deviam acolher; e eram para si mesmos um peso mais insuportável que esta escuridão. (Sab 17

Contudo, para vossos santos havia uma luz brilhantíssima. Sem verem seus semblantes, os outros ouviam-lhes a voz, e julgavam-nos felizes por não sofrerem os mesmos tormentos. (Sab 18.1)

Assim, a Escuridão no Egito foi  traduzida como medo e pavor na alma dos egípcios. Esse detalhamento de sentimentos vai muito além do texto mais "seco" do Êxodo, e novamente faz parte do pensamento intimista grego, estando quase ausente nos textos sobre “a coletividade” dos judeus.

Na derradeira praga, que exterminaria os primogênitos dos egípcios, o autor enxergou a retribuição pelo massacre dos inocentes quando Moisés foi salvo (Ex 1.15-16; 1.22). Na ocasião, o Faraó havia mandado exterminar os meninos hebreus. Agora, pois um anjo vinha exterminar os meninos egípcios:

Uma mesma sentença feria o escravo e o senhor, o homem do povo sofria o mesmo castigo que o rei. Todos igualmente tinham um número incalculável de mortos abatidos da mesma maneira; os sobreviventes não eram suficientes para sepultá-los. Porque, num instante, sua melhor geração era exterminada. (Ex 18.11-12)

E dessa forma o livro termina, sem um dito sequer sobre os profetas, juízes, ou o reinado de Davi. É provável que nem todo o material da Torá estivesse ao alcance do autor, ou que (o mais provável) a escrita do livro tenha sido deliberadamente interrompida. Afinal, já se constituía em uma obra bem distante dos livros sapienciais como Salmos e Provérbios, tornando-se em uma bela análise humana.

Embora Sabedoria seja um livro extra-bíblico (ao menos para os protestantes), definitivamente trata de uma iniciativa bela (e fantasiosa, claro) de entender ou tornar íntima a história judaica.

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VAI LÊ, FIO, VAI SIM

Ivo Storniolo, Como ler o livro da Sabedoria, Paulus, 1993
Philo of Alexandria - wikipedia