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domingo, 25 de setembro de 2016

Edito de Milão - texto completo

Os imperadores do Ocidente e do Oriente

Há muito tempo consideramos que a liberdade de culto não deve ser negada, mas que ao pensamento dos homens deve ser concedido o direito de cuidar de coisas espirituais de acordo como cada um escolher pessoalmente. Portanto, já emitimos ordens de que os Cristãos devem guardar e manter a fé de sua própria confissão e adoração. Mas nessas ordens, pelo qual esse direito foi concedido às pessoas acima mencionadas, muitas e diversas condições claramente pareciam ter sido adicionadas e pode, talvez, ser o caso de algumas dessas pessoas em pouco tempo tornarem-se relutantes em praticar a sua religião e observâncias.

Assim, quando eu, Constantino Augusto, e eu, Licínio Augusto, por sorte encontramos um ao outro em Milão, e tivemos a oportunidade de analisar os assuntos sobre vantagens e bem-estar da comunidade, chegamos à resolução que - como outros assuntos que nos pareceram ser benéficos para a grande maioria, e de fato como o primeiro e mais importante entre essas questões - devemos regular as condições em que o respeito e reverência para com a Divindade dependem. O nosso objetivo, a saber, é conceder tanto aos cristãos como a todos os homens a liberdade de escolha na forma de culto como desejarem, a fim de que, independentemente da Divindade, as coisas celestiais possam ser capazes de favorecer a nós e a todas as pessoas que vivem sob a nossa autoridade. Pelo raciocínio estrito e profundo, resolvemos sobre esta política: a nenhum homem dever ser negado o direito de seguir e escolher a forma de culto dos Cristãos. Todo homem deve ter o direito de dar a sua mente a adoração que ele mesmo achar adequada para si, a fim de que a Divindade [para cujo culto nós livremente prestamos o nosso serviço] possa nos proporcionar seu cuidado habitual e bondade em todas as coisas.

Foi bom significar por um escrito que este era o nosso prazer, de modo que, com a remoção completa de todas as condições em nossas antigas cartas enviadas a Vossa Excelência sobre os Cristãos, também deve ser removido tudo o que parecia ser inteiramente errado e estranho à nossa clemência. De agora em diante, de forma livre e incondicionalmente, todos os que têm o pensamento e propósito de manter o culto dos Cristãos deve fazê-lo sem qualquer lei ou impedimento. Essas coisas nós resolvemos explicar tão profundamente quanto possível a você, nosso servo fiel, a fim de que você possa saber que demos a estes mesmos Cristãos o direito pleno e absoluto de cuidar de sua própria forma de adoração. Além disso, veja que esta concessão foi feita a eles incondicionalmente por nós. Vossa Excelência vai entender que o mesmo direito também foi concedido a outros que desejam seguir a sua própria forma de adoração. Tal concessão se encaixa claramente à paz dos nossos tempos - para que todos sejam iguais e possam ter o direito de escolher e valorizar as formas de culto como preferirem. Isso tem sido feito por nós a fim de que nenhum rito ou forma de culto sofra qualquer diminuição em nossas mãos.

Além disso, nós também resolvemos questões que dizem respeito às construções onde os Cristãos se reuniam. Anteriormente, esses lugares foram objeto de uma regra diferente em carta enviada a Vossa Excelência. Porém, nós agora estabelecemos que se qualquer pessoa tiver adquirido tais lugares, seja da nossa tesouraria ou de outro lugar, deverão restaurá-los para os Cristãos sem receber pagamento ou fazer qualquer pedido de compensação, guardando para si toda a negligência e reclamação. Além disso, se qualquer pessoa tiver se apossado de tais lugares como presente recebido, devem restaurá-los o mais rapidamente possível aos Cristãos. Com esta condição, se os compradores das construções ou aqueles que as receberam por doação proferirem qualquer petição à nossa generosidade, eles devem abordar o prefeito do distrito em que as construções estão, de modo que também possam receber alguma consideração. Todas as  propriedades devem ser entregues de imediato aos Cristãos em causa, sem demora.

Além disso, uma vez que estes mesmos Cristãos não só possuíam os lugares onde se reuniam, mas também outros lugares, que não pertencem a indivíduos entre eles, mas que faziam parte dos direitos do seu Corpo Cristão - isto é, uma entidade coletiva - você tem ordens para a execução da lei que temos estabelecido acima, de que todos esses lugares devem ser restaurados sem qualquer dúvida alguma aos Cristãos - isto é, ao seu Corpo Corporativo. É claro que o método até aqui mencionado seja novamente observado e, portanto, aqueles que restaurarem esses lugares sem receber pagamento podem, como já mencionado, esperar indenização a ser dada por nossa generosidade.

Em todas as coisas você deve se esforçar, com o melhor de seu poder, para a pessoa coletiva dos Cristãos, para que nossos pedidos sejam executados o mais rápido possível, a fim de que aqui, bem como em outros assuntos, seja dada consideração por manter a paz comum e pública. Por esta política, como já dissemos antes, tivemos o favor divino em muitos assuntos e tivemos experiência em muitas questões e em todos os tempos. A fim de que nossa promulgação e sua liberalidade possa ser levada ao conhecimento de todos, é apropriado que o que temos escrito seja estabelecido pelo seu edito, publicado em todos os lugares e levado ao conhecimento de todos, a fim de que nossa liberalidade não passe despercebida por ninguém.

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Esse edito foi assinado em fev / 313 d.C. por Flavius Valerius Aurelius Constantinus Augustus (ou simplesmente Constantino, o grande) e por Gaius Valerius Licinianus Licinius Augustus (ou Licínio I). Roma havia se tornado um império tão grande que fora repartido em 286 d.C. entre duas famílias reais, normalmente entrelaçadas por casamentos. Constantino era o imperador de Roma Ocidental (toda Europa e Norte da África) e Licínio era imperador de Roma Oriental (atuais regiões da Grécia, Turquia, Romênia e Rússia). Isso não impedia eventuais disputas por territórios entre os dois lados: Licínio, por exemplo, era natural do Ocidente e havia recentemente conquistado o trono do Oriente derrotando o antigo imperador Maximin Daia, que se opunha fortemente aos Cristãos. Assim, Licínio fez o possível para apagar do Oriente as ações de Maximin.

Embora o Edito de Milão seja referido às vezes como a institucionalização do Cristianismo em Roma, trata-se de um documento feito para os governadores das províncias do Império Oriental. Constantino já era favorável aos Cristãos (embora sua adesão pessoal fosse questionável) e Roma Ocidental já havia concedido liberdade de culto através do Edito de Tolerância de Galerius em 303 d.C., embora não se houvesse estabelecido a devolução de propriedades confiscadas. Mais do que zelar pela paz comum em "tempos de paz", o Edito de Milão reconhece oficialmente que os Cristãos já haviam formado - por si mesmos - um "Corpo Corporativo" e as propriedades não eram individuais (Atos 4.32), mas de uma empresa ou instituição coletiva que era chamado de Igreja.

O documento original não foi preservado, mas há duas "cópias" dele publicadas pelos historiadores Lactantius (De Mortibus Persecutorum) e Eusebius de Cesaréia (Historia Ecclesiastica).

sábado, 21 de julho de 2012

Bíblia - relendo o que outros reescreveram



Seguimos aqui prestando a sincera homenagem, a formal ovação, aquela firula toda para Paulo, o Brabo. E como arautos, fazemos a formalidade de dar um jeitinho, de remexer sua obra para que seja cabível, legível, bela e provavelmente ilegível. Certamente o que você lerá não será o que foi escrito - guarde isso.


De todas as lendas que sustentam os fundamentalismos cristãos, talvez nenhuma seja mais infundada – e por certo nenhuma é mais útil – do que a ideia de que há um único modo de se ler e de se entender a Bíblia, um modo de interpretação que permaneceu inalterado ao longo dos milênios e que corre nos nossos dias o risco de ser miseravelmente derrubado pelas licenciosidades interpretativas e morais dos liberais.

Reza a lenda que esse método fechado de interpretação – e usam-se para descrever sua autoridade palavras fortes como “literal” e “inerrante” – é eterno, fora do tempo e inteiramente impermeável às variações da história. Desse modo, a lenda exige que Lutero interpretou a tradição bíblica da mesma forma que Paulo, que a interpretou da mesma forma que Jesus, que a interpretou da mesma forma que Esdras, que a interpretou da mesma forma que Isaías, que a interpretou da mesma forma que Davi, que a interpretou da mesma forma que Moisés, que a interpretou da mesma forma que Abraão.

A ortodoxia não pode existir sem a lenda de uma exegese fora do tempo, porque quando diz que a Bíblia é a inerrante Palavra de Deus, o fundamentalista não está dizendo apenas que o texto bíblico é eterno e imutável, mas também, e em especial, a sua interpretação. Para que a teoria do fundamentalismo faça sentido, a história e suas novidades devem ser incapazes de lançar novas luzes sobre a letra da revelação. Qualquer interpretação da Bíblia a partir do presente deve ser encarada como tentação, e a única interpretação autorizada deve necessariamente ter sido definida não só antes de nós, mas desde sempre.

O fundamentalista não é quem lê a Bíblia literalmente, mas quem não consegue enxergar qualquer diferença entre a Escritura e a sua compreensão pessoal dela. Na prática, trata-se de alguém apaixonado não pela inerrância de um texto sagrado, mas pela inerrância da sua própria interpretação. E, como não quer ter de reconhecer que sua leitura é tão seletiva e historicamente condicionada quanto qualquer outra, o fundamentalista precisa batalhar ostensivamente para que não apenas o texto, mas também sua interpretação autorizada se mantenham inalterados diante de novos contextos.

O problema com essa noção de uma interpretação bíblica inerrante e imutável é que ela é espetacularmente negada não só pela história, mas pela própria narrativa bíblica (escrita por muitas mãos e ao longo de só 900 anos). O que impulsiona o drama da revelação na Bíblia são precisamente os modos através dos quais as novas perspectivas sociais e históricas constrangem os israelitas e seus herdeiros a retrabalhar e reinterpretar um corpo antigo e mais ou menos fixo de tradições, de modo a encontrar nele novos significados e novos desafios à luz desconcertante do presente. Nesse sentido, a Bíblia não é o registro da realidade eterna dos feitos divinos, mas a história das reformulações da imagem divina que os homens se viram forçados a fazer diante da realidade cambiante dos fatos. Não é a descrição de um Deus imutável, mas a descrição progressiva e cumulativa das feições divinas que os homens creram que o próprio Deus ia revelando a partir dos indícios da história.

É a própria Bíblia, portanto, que nos ensina que novas circunstâncias não apenas permitem, mas requerem novas interpretações de um mesmo corpo de tradições. Um ponto que o livro de Tiago defende é que as escrituras, como texto, nada são: seu valor consiste justamente na modificação que proporcionam em pessoas reais, frágeis, com problemas e pecados particulares. Os cronistas, os salmistas, os profetas, Jesus e Paulo (bem como os que foram registrando as suas histórias) – todos esses propuseram interpretações das tradições se distanciaram da ortodoxia da sua época (Jesus, em especial, conseguiu inimigos por isso). E, muito declaradamente, não o fizeram movidos por outra coisa que não a instrução divina sobre uma perspectiva especial que sua posição na linha do tempo lhe concedia. O testemunho coletivo dessas vozes é que não se deve ignorar as revoluções da história para aproximar-se efetivamente da divina herança.

Alguns eventos alteraram fortemente a estrutura social dos israelitas, culminando numa mudança de interpretação das tradições judaico-cristãs, enquanto o cânone da Bíblia estava sendo composto. Seguem alguns exemplos disso.

DOIS POVOS, UM SÓ REINO

Por volta de 1000 a.C, os governos tribais unidos por juízes viram-se ameaçados pelos reinos de Moabe, Edom e Amon nas proximidades, assim como os Assírios mais longe dali. Isso requereu uma monarquia unificada também entre os judeus, que por outro lado só era possível  com um local centralizado de adoração e de um sacerdócio especializado. O pedido feito a Samuel (1Sm 8) colocaria Saul (das tribos do Norte) no poder, quando as tribos mais prósperas do Norte (Israel) mesmo defendiam um governo descentralizado. Depois dos desvios de Saul, Samuel levou ao poder Davi, das tribos dos Sul (Samaria). Os levitas que se mantinham-se fiéis às tradições [um tanto fetichistas] do Norte foram expulsos por Salomão (1Rs 2.26-27), mas então o escritor samaritano de Crônicas simplesmente se esquece da existência do reino do Norte, omitindo por exemplo a passagem anterior.

A QUEDA DE ISRAEL

Em 721 a.C. os assírios destruíram o reino do Norte e, logo após, o reino do Sul. Os assirios usavam o caldeamento (mistura) com os povos conquistados, removendo-os de seus lugares sagrados (2Rs 17:6-24). As tribos de Israel desapareceram com o cativeiro assirio e não se tem noticias sobre elas, mas os profetas Naum e Jeremias registraram a promessa de restauração (Na 2.2, Jr 30.10 e 31.1-9).

Para habitar a região Sul trouxeram povos de outros lugares, chamados samaritanos (2Rs 17.24), o que explica a dificuldade de relacionamento entre judeus e samaritanos no Novo Testamento. Os Assírios consideravam deuses locais associados aos lugares (o que os pós-romanos chamariam de deuses pagãos), assim fizeram os samaritanos seguirem tradições judaicas (2Rs 17:27 e Jo 4). Evangelizados por Filipe, muitos samaritanos até aceitaram a Cristo (At 8). Em 587 a.C. Nabucodonososr ascendeu aos trono de Nínive, uniu os reinos assírios em Babilônia e capturou o reino do Sul, com povos recém chegados e tudo. As antigas tradições fossem reinterpretadas como favorecendo a tribo de Judá, berço do reino sobrevivente. 

Porém as expectativas de um “trono eterno” para a linhagem de Davi foram demolidas juntamente com o Templo. Os exilados de Judá tiveram de rever suas noções estabelecidas sobre misericórdia, fidelidade e soberania divinas. Longe da pátria e sem o Templo para oferecer os sacrifícios prescritos pela Lei, concluíram que deviam re-interpretar a letra do Pentateuco. Observaram assim que uma rígida religiosidade exterior não era o que Deus valorizava ou requeria, mas sim uma postura de misericórdia e um coração contrito. Nessa releitura das antigas tradições consiste a proclamação dos profetas.

ALEXANDRE, O GREGO

Por volta de 330 a.C., Alexandre o Grande, também chamado Alexandre Magno ou ainda Alexandre da Macedônia empreendeu uma campanha militar que anexou ao mundo grego boa parte do globo. Seu reino ia então desde a África até a Europa e até a Índia. Nessa terras, a cultura grega floresceu e foi amplamente incorporada pelos povos. Os judeus no exílio tiveram de aprender a manter a identidade nacional/religiosa diante da competição das culturas em que estavam inseridos, e foram nisso notavelmente bem sucedidos. Porém a cultura grega mostrou-se eloquente e cativante demais para ser evitada indefinidamente.

Logo as idéias dos gregos estavam influenciando o modo como os judeus liam seus próprios textos e pesavam sua própria herança. Essa influência acabou remodelando a tradição de muitas formas. Em primeiro lugar, as escrituras hebraicas foram traduzidas – isto é, reinterpretada, visto que traduzir é interpretar – para a língua grega. Quando citam a Bíblia hebraica, os autores do Novo Testamento (que escreviam em grego) fazem uso dessas versões e das interpretações que elas trazem embutidas em si. Segundo, muitos intérpretes judeus (dos quais o mais ilustre foi Fílon de Alexandria) procuraram conciliar as tradições judaicas com a filosofia grega, aplicando ao mesmo tempo os métodos de interpretação dos pensadores gregos aos seus próprios textos sagrados.

Finalmente, a ênfase grega no indivíduo parece ter influenciado diretamente a composição e a teologia da terceira porção da Bíblia hebraica, em que a devoção nacional e coletiva (que prevalecia nos textos mais antigos) é substituída pela relação pessoal do adorador para com o seu Deus.

O NAZARENO

Levando a um novo extremo a herança subversiva dos profetas que o precederam, Jesus propôs uma radical reinterpretação das tradições do Antigo Testamento. Para Jesus, a vitória do Deus de Israel sobre seus competidores nada tinha dos êxitos políticos, econômicos e militares que os judeus vinham sonhando para o seu futuro. O iminente reino de Deus deveria representar uma reformulação intransigente e universal do espírito humano, uma revolução de beleza, cavalheirismo e graça que evitaria todas as armadilhas dos sistemas de poder e de manipulação que governam este mundo.

Frases como “vocês ouviram o que foi dito… eu porém digo a vocês…” e “não vim anular, mas cumprir” apenas atestam que era de modo muito consciente que Jesus vinha propor a completa reformulação da posição sobre Deus, justiça, nação, valor e identidade que prevalecia na ortodoxia dos seus dias. A vida frugal, o ensino subversivo e a morte prematura de Jesus levaram os primeiros cristãos a reavaliar por completo o que pensavam que o Antigo Testamento dizia sobre a pessoa e a obra do Messias – bem como sobre todos os sonhos de Deus para a humanidade.

PAULO, O TARSEU

Sendo homem de exemplar estudo nas ciências gregas e judaicas, Paulo entendeu mais e antes do que qualquer outro que a singularidade da pessoa e da obra de Jesus representavam um convite à transformação não apenas da nação judaica, mas do mundo inteiro. Ele dedicou a vida à dupla tarefa de divulgar a boa nova império adentro e de vasculhar as tradições bíblicas em busca de confirmação para seu parecer sobre a primazia de Jesus e sobre a natureza de seu próprio ministério. Mesmo tendo conhecido pouco das "maravilhas e obras" que o livro de Atos descreve como tendo acontecido entre os apóstolos designados por Jesus, Paulo foi o primeiro a ousar reinterpretar a Bíblia inteira à luz da pessoa de Jesus, e o que encontrou deixou maravilhadas gerações de leitores.

Além da característica analítica da obra de Paulo (característica grega), sua dedicação a reinterpretar as escrituras judaicas para os povos não-judeus abriu caminhos para que o Cristianismo deixasse de ser uma seita do judaísmo, para assumir uma identidade própria.

A VARIEDADE BÍBLICA

Sendo um texto que se propõe a traduzir para a vida humana os ensinos teóricos e práticos de Deus, a Bíblia contém em si mesma essa variedade do aprendizado humano e, portanto, numerosos precedentes para a reinterpretação da natureza da revelação à luz de novas circunstâncias históricas. Como apontado por Jesus, essas novas leituras não requerem a invalidação da autoridade das antigas tradições; o que pedem é uma nova e generosa reavaliação das implicações dessas tradições para os desafios e particularidades do momento presente.

Tal variedade na exegese intra-bíblica demonstra que a própria Bíblia não ignora que é da condição humana interpretar as tradições que respeitamos de um modo que faça mais sentido dentro de nossa própria perspectiva histórica e conceitual. Ela mesma testemunha que não há um modo único e “literal” de se entender a significância do texto. E mais: quando feito de mente aberta e com um coração compassivo, interpretar-se as antigas tradições à luz das demandas do presente pode nos proporcionar uma visão mais clara a respeito de Deus, não uma visão deturpada ou desrespeitosa.

Se a interpretação dos textos mais antigos que hoje fazem parte da Bíblia não se manteve estática enquanto eram escritos, depois que o cânone estava concluído a história dá testemunho mais do que abundante de que grandes reinterpretações aconteceram. Essas mudanças foram precipitadas por exemplo pela destruição de Jerusalém e de seu Templo, em 70 d.C. (novamente, não havia um local sagrado de culto), a perseguição romana contra os cristãos (os cultos agora eram párias da sociedade), a popularização do entre os gentios (com a conseqüente desvalorização das tradições orais hebraicas), o crescente rancor contra os judeus dentro do movimento (curiosamente eram vistos como rejeitadores de Cristo, ainda que se falasse em povo santo), a legalização do cristianismo em Roma por Constantino I (e agora haviam hierarquias entre os irmãos), os concílios cristãos e o fechamento do cânone (haviam doutores da lei cristã), a cisão entre o cristianismo ocidental e o oriental (política!), a Reforma e Contra-Reforma (divisões quanto à autoridade bíblica), a difusão do pensamento racionalista e materialista e as revoluções científica e industrial (e hoje fala-se em ciência bíblica), o Holocausto dos judeus europeus pela mão dos nazistas (e o que foi feito no Antigo Testamento, era proibido por Jesus e agora santo pelo papa) e a secularização definitiva da cultura no século XX (e fora o clero, então).

A análise dessas e outras instâncias demonstra que o conceito de uma interpretação bíblica isenta e inalterável ao longo dos milênios, até os nossos dias, é na melhor das hipóteses equivocado – e, na pior, mentiroso. Um pouco de atenção nos exemplos acima sugere mesmo que interpretar a Bíblia a partir da nossa perspectiva pode significar principalmente interpretar a Bíblia em nosso próprio favor. Curiosamente, a exegese bíblica pode ser usada como ferramenta arbitrária de dominação, de divisão e de exclusão.

Há porém os casos (como o de Jesus e o dos profetas) em que a reinterpretação das tradições bíblicas à luz do momento presente promove uma noção mais avançada e madura de Deus, resultando numa relação mais saudável entre os homens. O que essas instâncias positivas têm em comum é que o Deus descrito por elas é sempre mais misericordioso e menos tribal, mais inclusivo e menos vingativo do que a figura divina que prevalecia anteriormente. As interpretações que fazem a revelação avançar falam de um Deus cada vez menos obcecado com a justiça e cada vez mais obcecado com o amor. Falam, numa palavra, de um Deus maior: o Deus que já gostamos de chamar de criador mas que preferiu ser chamado de Pai.

E ninguém soube falar dessas coisas com mais intimidade do que Jesus. Como indicado por ele, um Deus maior não é o que requer mais amor para Si, mas o que espera mais amor entre os homens. Um mundo mais justo não é aquele em que Deus pode exercer sem impedimentos o seu poder, mas um mundo em que os homens renunciem em favor uns dos outros à busca insensata pelo poder. Fiel não é quem pede a Deus misericórdia sobre si mesmo, mas quem concede misericórdia aos outros.

Não deve haver dúvida de que a interpretação bíblica não permanece estática, mas é renovada pela perspectiva de cada época (e, num certo sentido, de cada leitor). Cada um permanece livre para reagir como quiser diante dessa notícia. Para alguns, essa contínua reformulação é clara indicação de que cada época acaba criando o seu Deus à sua própria imagem e semelhança. Para outros, é indicação de que o Deus da Bíblia não é o Deus fora do tempo dos filósofos e dos sábios, mas o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, o Deus que se revela ainda hoje como fez nos tempos bíblicos: no calor da história.

Talvez, como fazia Jesus, seja necessário renovar continuamente a crença de que a divindade continua trabalhando, não concluiu a sua criação e permanece se des-cobrindo como cada vez maior e mais ambicioso. Na prática, um Deus cada vez mais invisível (sim, Ele sempre falou em fé), mais recatado e mais indistinguível do exercício da mais simples e ardente humanidade.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Samuel, Constantino e as caixas de problemas


provável rosto de Constantino 1, o 1° Papa. No século 4, ele declarou o Cristianismo como religião oficial de Roma, auto-determinou-se soberano dos cristãos e empreendeu uma cruzada contra as facções cristãs dissidentes da sua doutrina pessoal. Clique para ampliar.

1Sm 4.4. [Os anciões de Israel] enviaram, pois, o povo a Siló, e trouxeram de lá a arca da aliança do SENHOR dos Exércitos, que habita entre os querubins; e os dois filhos de Eli, Hofni e Finéias, estavam ali com a arca da aliança de Deus. E sucedeu que, vindo a arca da aliança do SENHOR ao arraial, todo o Israel gritou com grande júbilo, até que a terra estremeceu. E os filisteus, ouvindo a voz de júbilo, disseram: Que voz de grande júbilo é esta no arraial dos hebreus? Então souberam que a arca do SENHOR era vinda ao arraial.

Por isso os filisteus se atemorizaram, porque diziam: Deus veio ao arraial. E diziam mais: Ai de nós! Tal nunca jamais sucedeu antes. Ai de nós! Quem nos livrará da mão desses grandiosos deuses? Estes são os deuses que feriram aos egípcios com todas as pragas junto ao deserto. Esforçai-vos, e sede homens, ó filisteus, para que porventura não venhais a servir aos hebreus, como eles serviram a vós; sede, pois, homens, e pelejai.

Então pelejaram os filisteus, e Israel foi ferido, fugindo cada um para a sua tenda; e foi tão grande o estrago, que caíram de Israel trinta mil homens de pé. E foi tomada a arca de Deus: e os dois filhos de Eli, Hofni e Finéias, morreram. ...

1Sm 5.1. Os filisteus, pois, tomaram a arca de Deus e a trouxeram de Ebenézer a Asdode. Tomaram os filisteus a arca de Deus, e a colocaram na casa de Dagom, e a puseram junto a Dagom.

Quando a igreja nasceu em atos dos apóstolos, tinha um propósito. Ir pelo mundo e anunciar a boa nova! Jesus era o Salvador e que todos os que nele crescem estariam salvos, pois receberiam o reino em si mesmos e aguardariam a sua volta para instalar o reino de Deus. Poderiam entrar no reino porque estavam justificados pelo Rei, pois haviam sido chamados e ouviram a sua voz.

Quando o “imperador” Constantino transformou a fé em religião oficial de Roma. As trevas se abateram sobre a igreja. Já não bastava crer, tínhamos agora que obedecer e aceitar ao domínio do homem. A partir daí a igreja perdeu a comunhão que tinham e o amor se esfriou de quase todos. A ponto de este período ser chamado pela historia de idade das trevas. A igreja se tornou de tal forma pervertida que homens com Deus se levantaram e desafiaram os poderosos e iniciaram uma volta as origens. 

Entretanto, o som da boca destes homens foi transformado em fábrica de caixas. Jogaram-se fora as trevas e formou-se uma grande fábrica de caixas. Todas elas com o mesmo suposto fabricante, Deus. Ainda que Deus tenha levantado homens, Ele não os autorizou a fazer caixas para conte-Lo. Deus é livre e não cabe em nenhuma caixa. Todas as formas e modelos de caixas não têm Deus. E a igreja que era para trazer libertação, dando liberdade em Jesus, criou formas muito mais poderosas de amarrar os seus fieis. 

Apesar de Deus tentar nos trazer para os rumos, nós criamos um caminho alternativo. As caixas! Pegamos velhas caixas e observamos como eram feitas e transformamos o que já era ruim em pior! Sim por que agora fazemos caixas lindas revestidas com um papel “santo” e embrulhamos com uma fita que diz JESUS. Por conta disto muitos se achegaram e se tornaram especialistas e fabricar caixas. Hoje temos caixas para todos os gostos, só não agradamos a Jesus. Nada que venhamos a fazer pode agradar a Deus, apenas Jesus em nós pode fazer isto. Ele não está nas caixas! Ele não estava na Arca em Siló e não está em qualquer objeto ou filosofia sua.

Quando nos convertemos a Jesus temos a vontade de ajudar a todos a encontrarem a Ele. Buscamos falar e viver o Evangelho a todo instante livremente ao lado Dele. Então vem alguém é nos mostra uma caixa, e diz: você tem caixa? E nos não tendo caixa logo arranjamos uma. E gostamos tanto da caixa que passamos a colocar mais objetos dentro dela, adornamos melhor e colocamos nela nossas características. Então começamos a achar as caixas dos outros não tão bonitas quanto as nossas. Afinal elas não têm as nossas características, não tem o que gostamos. A partir daí, passamos a ser fabricantes de caixas. Novos Constantino, ou constantinianos. Apenas fabricantes de caixas. Mais a fábrica cresce, pois a demanda por caixas é muito grande. É tanta caixa que outros vêem o lucro da fábrica e varias fábricas surgem em explosão nunca antes vista. E todas têm a fita para embalagem escrita Jesus. Todas cópias da primeira, ainda que digam que são o novo, suas dobraduras remetem a velhas práticas usadas no principio para desviar a igreja.

Você se aborreceu com este texto? É sinal que sua caixa já esta bem adornada ou que sua fábrica está de vento em popa. Quando eu olhei minha caixa tive uma surpresa... Eu a achava linda, todos os dias a adornava mais e mais. Até que um vento soprou do céu e pude olhar para caixa e vi como realmente era. E era apenas uma caixa e nela não estava o meu primeiro amor. Olhei para o lado e vi que todas as caixas eram iguais ainda que fossem diferentes, nenhuma delas tinha amor. Mas todas eram amadas por seus donos. Eles a adoravam, exaltavam, idolatravam a caixa. Então, eu peguei minha caixa e comecei a desmontá-la. Achei tanta coisa inútil que nem consegui guardar a caixa. Resolvi jogar a caixa fora. Afinal se a guardasse poderia me dar uma vontade de refazê-la.

Peguei a caixa e joguei-a em uma poça e ela ao afundar fazia um barulho: globs, globs, globsss... Observei que todas as caixas que eram jogadas na água faziam o mesmo barulho. Entretanto eu agora fazia outro barulho. Meu barulho vinha do céu trazido por um anjo. Um Evangelho eterno. O mesmo que eu conheci ao me converter, mais que havia sido contaminado pela caixa e já não libertava mais, não curava mais, não dava mais vida nem alegria. Hoje sou livre em Cristo para obedecer este Evangelho Eterno e seguir somente a Jesus e amar como nunca havia amado. Servir como nunca havia servido, mais certo de que o Reino em mim já está e que sou igreja viva e livre. Então me tornei especialista em desmontar caixas, libertando os que dela dependem. E os apresentando ao Jesus que eles conheceram assim como eu, mas que haviam trocado por uma caixa de globs, globs.

Este é o legado que Constantino deixou para a igreja: caixas de globs, globs. Jesus, que está fora de qualquer caixa, une a todos os que ouvem a sua voz e o seguem.

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texto encontrado pelos mergulhadores do blog no interior de uma antiga caixa afundada, onde se lia http://sementesdecristoluz.blogspot.com/2010/08/o-legado-de-constantino-caixa-de-globs.html