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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Por quem e para quem a Bíblia foi escrita?

Já vi muitas pessoas mais desavisadas responderem a 1ª parte dessa pergunta com um simples “por Deus”. Geralmente é quem nem ouviu a 2ª parte. Não é uma resposta errada, mas ela serviria também para um pão sobre a mesa, o telefone celular, a panela de arroz no fogão, sem que você se sinta levado a tomar esses objetos como representações de fé. Se Deus fez o mundo e os seres nele, obviamente é Ele o responsável último pela Bíblia. Ou o arroz no fogão. 

Mas de fato precisamos entender que nem sempre houve uma Bíblia. Um raciocínio simples já pode revelar algo óbvio: se o texto mais recente da Bíblia é do século 2 d.C., nenhuma das pessoas anteriores a essa data (incluindo Jesus e todos os personagens bíblicos) pode ter visto uma Bíblia. Na verdade, não foi antes do séc. 16 que existiu o livro que conhecemos hoje. 

A palavra “bíblia” já significa algo semelhante a “biblioteca”, ou seja, uma coleção de livros, cada um com uma estória independente, escrita em separado, com uma intenção específica. Tratamos o volume todo como se fosse um livro único! Em verdade, a Bíblia se parece mais a uma coleção de clássicos da literatura com volumes que abordam desde o amor até a zoologia das zebras. Os volumes foram escritos ao longo de um período enorme de tempo: o mais antigo parece ser o livro de Jó (séc. 15 a.C.) e os mais novos são as cartas de Paulo às igrejas (séc. 2 d.C.). São, portanto, os relatos de autores que viveram ao longo de 1700 anos, ou 60 gerações de pessoas. 

Isso dá um tom diferente às perguntas “por quem?” e “para quem?”. Os autores dos livros mais recentes leram ou ouviram os livros mais antigos... assim pode-se dizer que os livros antigos foram escritos também para os escritores dos livros mais novos. 

Os leitores “da Bíblia” só existiram a partir do final do séc. 4, quando Jerônimo traduziu os manuscritos gregos para o latim e os reuniu num único volume, contando os que ele acreditava serem originais e os dos quais suspeitava (apócrifos). Ele usou como base os livros canônicos que eram copiados em separado a partir de uma lista elaborada no séc. 3, reunindo os livros da Torá, os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João e as cartas às igrejas primitivas. A Torá havia sido elaborada em Alexandria, no séc. 2 a.C., pelas mãos de 70 estudiosos (por isso o nome septuaginta) que escolheram esses livros por representarem os costumes e a história dos judeus, dentre um conjunto histórico (o Pentateuco, ou 1os cinco livros da Bíblia), poemas, canções, profecias, etc. Os livros mais antigos provavelmente vieram de Moisés - após uma ordenação divina (Ex 17.14) – e Esdras, tentando resgatar o culto a Javé em meio ao cativeiro babilônico. Ambos escreveram a partir da tradição oral e nenhum dos livros que existem hoje foram feitos pelo punho do próprio autor. Todos foram copiados e re-copiados por dezenas de gerações. 

O público alvo de Moisés eram os israelitas libertos do Egito de Ramsés II, que se davam a fazer as próprias leis e seguir o deus que achassem mais atraente (ex. Baal, o deus semita dos montes, ou Ápis, o deus-boi da fartura no Egito). Seus textos contavam a história e organizavam um tratado de leis feitas por Deus para o Seu povo, para que se mantivessem fiéis e pudessem prosperar juntos. 

Os livros de Josué até Ester registraram os conflitos de um povo que se tornava numeroso, atingia a glória de um reinado dominante ante as nações do séc. 10 a.C. e depois diminuía até se fragmentar perante a conquista babilônica no séc. 5 a.C. Nas muitas gerações que esses livros registram, os judeus cativos experimentavam a firmeza de Deus em Suas determinações, assim com Sua sensibilidade ao clamor daqueles que O procuraram. “Civilizados” pelos babilônicos, os israelitas inspirados pelos livros que seriam a Torá puderam manter suas tradições e o seu culto no mundo cosmopolita que se seguiu a Alexandre o Grande (séc. 4 a.C.), com a volta do Mediterrâneo unida sob a cultura grega. Após isso, ainda haveria Roma pelos 1000 anos seguintes... 

Na unificação do reino sob Davi (séc. 10 a.C.), os Salmos brotaram como canções de um pastor-músico pela improbabilidade tornado rei. Seu retrato do sofrimento humano e o consolo divino nas piores horas foi posto em letras para serem cantadas no louvor a Javé. Por se destinarem justamente a Ele, as canções do quarteto formado por Davi e seus músicos Asaf, Hemã e Yedutum serviram de inspiração às gerações até hoje, incluindo Paulo quando escrevia de sua prisão em Roma. No apogeu de Jerusalém, Salomão – filho de Davi e feito por Deus o mais sábio homem da Terra - encontrou tempo para discorrer sobre a moral em seus provérbios, analisar as vaidades das paixões humanas e ainda orientar a intimidade sensual de um casamento duradouro. A quem ele escrevia? A todos que pudessem se questionar sobre o sentido da vida, ou simplesmente desfrutar de um matrimônio. 

Cenário bem diferente encontraram os profetas, presenciando a queda de Jerusalém sob a Babilônia (justamente de onde viera, 1000 anos antes, seu pai Abraão) e, pior do que isso, a profanação do culto a Javé pelos muitos deuses deles. Suas vozes declararam repetidamente aos israelitas o que ocorreria por seus pecados e, depois, o porquê de seu domínio por estrangeiros. A troca de Javé pelos ídolos caldeus mesmo antes da invasão, a imersão dos israelitas no culto pagão e até a reconstrução da cidade santa por Neemias foram preditas e contadas pelos profetas, até que eles se calaram. Por 400 anos, Jerusalém escreveu sobre os Macabeus lutando contra os gregos e incitando as gerações seguintes a persistir, até que terminaram se unindo ao poder conciliador de Roma. Muitos livros que circularam após a reconstrução da cidade foram obras proscritas até o declínio do império, no séc. 4 d.C. Seus leitores foram ativistas religioso-políticos, inicialmente judeus insatisfeitos com o controle romano, depois judeus e cristãos ansiando pela vinda do rei que Isaías anunciava. 

Mateus, Marcos e principalmente Lucas descreveram com detalhes a passagem de Jesus pelo mundo dos homens. Seus textos, redigidos do próprio testemunho, simplesmente inspiraram multidões de judeus e gregos a seguirem o Cristianismo. A nova doutrina culpava os que faziam julgamentos, aconselhava abençoar mesmo os inimigos e ainda não seduzir-se nas vaidades mundanas. João, o discípulo amado, acrescentou um poderoso relato intimalista do contato e conversas com o Messias, tendo acompanhado ele até a cruz, e que mostrava um Jesus não apenas atuante, mas sensível e humano. Esses 4 textos percorreram a Europa em separado até serem reunidos por Jerônimo no séc. 4 d.C., já em uma Roma cristã. Até então tinham sido textos proibidos, buscados por milhares de pessoas que arriscavam as vidas para conhecer um Deus vivo e benevolente, ao contrário das criações imperiais romanas. 

As perseguições a que os cristãos se sujeitariam pelo Reino de Deus que Jesus anunciara já eram expostas por Paulo no séc. 2. Perseguidor de cristãos, após uma conversão miraculosa ele usou sua erudição para orientar novas igrejas surgidas entre vários povos a superarem as diferenças entre si (e em especial com os gregos) sob a lei do amor cristão. As cartas que ele e seus companheiros deixaram cunhavam um novo culto, não mais ao Javé-do-Templo, mas ao Deus encarnado em Jesus, misturado aos homens e agindo entre eles por meio da fé. Era o Deus livre de legalismos que João Batista já anunciara às multidões nas margens do Jordão. 

Quem procurou João Batista, Jesus, Paulo, etc? A quem eles escreviam? Eram os novos cristãos, pessoas que pelo Messias queriam se reconciliar com Deus para que seus males fossem perdoados (e sarados) ou porque isso lhes asseguraria a vida eterna. Jesus já dizia: Ninguém vai ao Pai sem mim. Aquele que segue meus mandamentos (ter fé em Deus acima de tudo e praticar o amor ao próximo) está em mim e eu nele. Avisem isso a todos os povos, até que eu volte para buscar os meus (e dar fim aos demais). 

Jesus falava de amor, mas anunciava algo que João de Patmos exaltou em sua visão sobre o final dos tempos. Ao relatar um céu assustadoramente parecido ao que Ezequiel viu 600 anos antes, ele ordenava a cada uma das antigas igrejas para remediarem seus erros, apontados um a um. Repetindo João Batista, ele dizia: Arrependei-vos, enquanto é tempo. Assim foi encerrado o cânone, com o livro que anuncia o fim do mundo, embora não seja esse o mais novo deles. Todo o Novo Testamento foi feito para as igrejas futuras, que espalhariam o ensino de Jesus sobre o Reino de Deus que devia ser erguido na Terra, para que os homens escapassem da condenação natural da carne, segundo Paulo. 

Esse é o ponto acerca da Bíblia... 

Nos últimos anos, o número de pessoas que escreve - ou, pelo menos, que consegue publicar o que escreve - aumentou muito. Esse crescimento se deu juntamente com os avanços tecnológicos e a relativa popularização da internet. O site Blog Pulse informa que passa de 145 milhões o número de blogs reconhecidos no mundo, e o Twitter já chegou aos 20 bilhões de mensagens postadas. No entanto, o número de leitores (de livros) aumenta lentamente, até menos do que seria suposto. Por incrível que pareça, a maioria das pessoas se limita a escrever para si mesmo, ou apenas que mostrar aos outros suas particularidades, independente de serem lidos ou vistos. Não se trata de agradar aos outros com o que é produzido, mas dar escape a tensões particulares através da exposição pública, como se isso redimisse, como se o conhecido fosse automaticamente certo. 

Quem produziu os textos bíblicos não agiu assim. Grande parte morreu pelo que havia escrito. Não são só desabafos, mas registros históricos de uma verdade repetitivamente apresentada: Deus está no controle. No séc. 15 a.C., quando Moisés anotava o Pentateuco, ele já anunciava a vinda de um Messias que seria sacrificado para redimir os homens (Ex 12.46, Dt 18.18). O Antigo e o Novo Testamentos centram-se ao redor dessa aproximação de Deus e os homens, repudiada pelos primeiros (que fizeram o possível para enclausurar Deus em um objeto, ou um lugar), mas pelo próprio Senhor. Ao longo de 60 gerações, os homens afirmam que sabem o que é melhor e Deus lhes mostra outro caminho, dizendo “Eu comando”. 

Não foram acrescentados outros textos ao cânon após a desintegração de Roma no séc. 5, e até muitos foram retirados no séc. 16 sob a argumentação de que não vinham de testemunhas oculares ou que discordavam de tudo o que Deus já anunciara no passado. Se a Bíblia protestante apresenta um silêncio de 400 anos entre Malaquias e Mateus (na católica esse espaço é preenchido com as crônicas dos Macabeus), temos 19 séculos de silencio desde então? Jesus anunciou que haveria um Dia do Juízo, quando Ele retornaria, mas não disse quando. Paulo aparentemente foi o último a vê-lo e ser iluminado para falar aos corações dos homens como só Ele poderia. Outros vieram depois e deixaram grandes testemunhos, mas talvez não grandes o suficientes para serem unidos ao Livro, que na verdade é uma coleção de histórias redigidas por um único Autor-de-autores. Talvez algum dia sejam postas ali, pois Jesus disse que o Espírito de Deus não seria silenciado. 

Quem escreve? O Senhor. E escreve EM NÓS, para que precisemos de fé para ler isso. Dia após dia. 

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Usando trechos de Rafael Rodrigues, Escrevemos para nós mesmos (?), em http://www.digestivocultural.com - Sexta-feira, 10/9/2010

sábado, 21 de julho de 2012

Bíblia - relendo o que outros reescreveram



Seguimos aqui prestando a sincera homenagem, a formal ovação, aquela firula toda para Paulo, o Brabo. E como arautos, fazemos a formalidade de dar um jeitinho, de remexer sua obra para que seja cabível, legível, bela e provavelmente ilegível. Certamente o que você lerá não será o que foi escrito - guarde isso.


De todas as lendas que sustentam os fundamentalismos cristãos, talvez nenhuma seja mais infundada – e por certo nenhuma é mais útil – do que a ideia de que há um único modo de se ler e de se entender a Bíblia, um modo de interpretação que permaneceu inalterado ao longo dos milênios e que corre nos nossos dias o risco de ser miseravelmente derrubado pelas licenciosidades interpretativas e morais dos liberais.

Reza a lenda que esse método fechado de interpretação – e usam-se para descrever sua autoridade palavras fortes como “literal” e “inerrante” – é eterno, fora do tempo e inteiramente impermeável às variações da história. Desse modo, a lenda exige que Lutero interpretou a tradição bíblica da mesma forma que Paulo, que a interpretou da mesma forma que Jesus, que a interpretou da mesma forma que Esdras, que a interpretou da mesma forma que Isaías, que a interpretou da mesma forma que Davi, que a interpretou da mesma forma que Moisés, que a interpretou da mesma forma que Abraão.

A ortodoxia não pode existir sem a lenda de uma exegese fora do tempo, porque quando diz que a Bíblia é a inerrante Palavra de Deus, o fundamentalista não está dizendo apenas que o texto bíblico é eterno e imutável, mas também, e em especial, a sua interpretação. Para que a teoria do fundamentalismo faça sentido, a história e suas novidades devem ser incapazes de lançar novas luzes sobre a letra da revelação. Qualquer interpretação da Bíblia a partir do presente deve ser encarada como tentação, e a única interpretação autorizada deve necessariamente ter sido definida não só antes de nós, mas desde sempre.

O fundamentalista não é quem lê a Bíblia literalmente, mas quem não consegue enxergar qualquer diferença entre a Escritura e a sua compreensão pessoal dela. Na prática, trata-se de alguém apaixonado não pela inerrância de um texto sagrado, mas pela inerrância da sua própria interpretação. E, como não quer ter de reconhecer que sua leitura é tão seletiva e historicamente condicionada quanto qualquer outra, o fundamentalista precisa batalhar ostensivamente para que não apenas o texto, mas também sua interpretação autorizada se mantenham inalterados diante de novos contextos.

O problema com essa noção de uma interpretação bíblica inerrante e imutável é que ela é espetacularmente negada não só pela história, mas pela própria narrativa bíblica (escrita por muitas mãos e ao longo de só 900 anos). O que impulsiona o drama da revelação na Bíblia são precisamente os modos através dos quais as novas perspectivas sociais e históricas constrangem os israelitas e seus herdeiros a retrabalhar e reinterpretar um corpo antigo e mais ou menos fixo de tradições, de modo a encontrar nele novos significados e novos desafios à luz desconcertante do presente. Nesse sentido, a Bíblia não é o registro da realidade eterna dos feitos divinos, mas a história das reformulações da imagem divina que os homens se viram forçados a fazer diante da realidade cambiante dos fatos. Não é a descrição de um Deus imutável, mas a descrição progressiva e cumulativa das feições divinas que os homens creram que o próprio Deus ia revelando a partir dos indícios da história.

É a própria Bíblia, portanto, que nos ensina que novas circunstâncias não apenas permitem, mas requerem novas interpretações de um mesmo corpo de tradições. Um ponto que o livro de Tiago defende é que as escrituras, como texto, nada são: seu valor consiste justamente na modificação que proporcionam em pessoas reais, frágeis, com problemas e pecados particulares. Os cronistas, os salmistas, os profetas, Jesus e Paulo (bem como os que foram registrando as suas histórias) – todos esses propuseram interpretações das tradições se distanciaram da ortodoxia da sua época (Jesus, em especial, conseguiu inimigos por isso). E, muito declaradamente, não o fizeram movidos por outra coisa que não a instrução divina sobre uma perspectiva especial que sua posição na linha do tempo lhe concedia. O testemunho coletivo dessas vozes é que não se deve ignorar as revoluções da história para aproximar-se efetivamente da divina herança.

Alguns eventos alteraram fortemente a estrutura social dos israelitas, culminando numa mudança de interpretação das tradições judaico-cristãs, enquanto o cânone da Bíblia estava sendo composto. Seguem alguns exemplos disso.

DOIS POVOS, UM SÓ REINO

Por volta de 1000 a.C, os governos tribais unidos por juízes viram-se ameaçados pelos reinos de Moabe, Edom e Amon nas proximidades, assim como os Assírios mais longe dali. Isso requereu uma monarquia unificada também entre os judeus, que por outro lado só era possível  com um local centralizado de adoração e de um sacerdócio especializado. O pedido feito a Samuel (1Sm 8) colocaria Saul (das tribos do Norte) no poder, quando as tribos mais prósperas do Norte (Israel) mesmo defendiam um governo descentralizado. Depois dos desvios de Saul, Samuel levou ao poder Davi, das tribos dos Sul (Samaria). Os levitas que se mantinham-se fiéis às tradições [um tanto fetichistas] do Norte foram expulsos por Salomão (1Rs 2.26-27), mas então o escritor samaritano de Crônicas simplesmente se esquece da existência do reino do Norte, omitindo por exemplo a passagem anterior.

A QUEDA DE ISRAEL

Em 721 a.C. os assírios destruíram o reino do Norte e, logo após, o reino do Sul. Os assirios usavam o caldeamento (mistura) com os povos conquistados, removendo-os de seus lugares sagrados (2Rs 17:6-24). As tribos de Israel desapareceram com o cativeiro assirio e não se tem noticias sobre elas, mas os profetas Naum e Jeremias registraram a promessa de restauração (Na 2.2, Jr 30.10 e 31.1-9).

Para habitar a região Sul trouxeram povos de outros lugares, chamados samaritanos (2Rs 17.24), o que explica a dificuldade de relacionamento entre judeus e samaritanos no Novo Testamento. Os Assírios consideravam deuses locais associados aos lugares (o que os pós-romanos chamariam de deuses pagãos), assim fizeram os samaritanos seguirem tradições judaicas (2Rs 17:27 e Jo 4). Evangelizados por Filipe, muitos samaritanos até aceitaram a Cristo (At 8). Em 587 a.C. Nabucodonososr ascendeu aos trono de Nínive, uniu os reinos assírios em Babilônia e capturou o reino do Sul, com povos recém chegados e tudo. As antigas tradições fossem reinterpretadas como favorecendo a tribo de Judá, berço do reino sobrevivente. 

Porém as expectativas de um “trono eterno” para a linhagem de Davi foram demolidas juntamente com o Templo. Os exilados de Judá tiveram de rever suas noções estabelecidas sobre misericórdia, fidelidade e soberania divinas. Longe da pátria e sem o Templo para oferecer os sacrifícios prescritos pela Lei, concluíram que deviam re-interpretar a letra do Pentateuco. Observaram assim que uma rígida religiosidade exterior não era o que Deus valorizava ou requeria, mas sim uma postura de misericórdia e um coração contrito. Nessa releitura das antigas tradições consiste a proclamação dos profetas.

ALEXANDRE, O GREGO

Por volta de 330 a.C., Alexandre o Grande, também chamado Alexandre Magno ou ainda Alexandre da Macedônia empreendeu uma campanha militar que anexou ao mundo grego boa parte do globo. Seu reino ia então desde a África até a Europa e até a Índia. Nessa terras, a cultura grega floresceu e foi amplamente incorporada pelos povos. Os judeus no exílio tiveram de aprender a manter a identidade nacional/religiosa diante da competição das culturas em que estavam inseridos, e foram nisso notavelmente bem sucedidos. Porém a cultura grega mostrou-se eloquente e cativante demais para ser evitada indefinidamente.

Logo as idéias dos gregos estavam influenciando o modo como os judeus liam seus próprios textos e pesavam sua própria herança. Essa influência acabou remodelando a tradição de muitas formas. Em primeiro lugar, as escrituras hebraicas foram traduzidas – isto é, reinterpretada, visto que traduzir é interpretar – para a língua grega. Quando citam a Bíblia hebraica, os autores do Novo Testamento (que escreviam em grego) fazem uso dessas versões e das interpretações que elas trazem embutidas em si. Segundo, muitos intérpretes judeus (dos quais o mais ilustre foi Fílon de Alexandria) procuraram conciliar as tradições judaicas com a filosofia grega, aplicando ao mesmo tempo os métodos de interpretação dos pensadores gregos aos seus próprios textos sagrados.

Finalmente, a ênfase grega no indivíduo parece ter influenciado diretamente a composição e a teologia da terceira porção da Bíblia hebraica, em que a devoção nacional e coletiva (que prevalecia nos textos mais antigos) é substituída pela relação pessoal do adorador para com o seu Deus.

O NAZARENO

Levando a um novo extremo a herança subversiva dos profetas que o precederam, Jesus propôs uma radical reinterpretação das tradições do Antigo Testamento. Para Jesus, a vitória do Deus de Israel sobre seus competidores nada tinha dos êxitos políticos, econômicos e militares que os judeus vinham sonhando para o seu futuro. O iminente reino de Deus deveria representar uma reformulação intransigente e universal do espírito humano, uma revolução de beleza, cavalheirismo e graça que evitaria todas as armadilhas dos sistemas de poder e de manipulação que governam este mundo.

Frases como “vocês ouviram o que foi dito… eu porém digo a vocês…” e “não vim anular, mas cumprir” apenas atestam que era de modo muito consciente que Jesus vinha propor a completa reformulação da posição sobre Deus, justiça, nação, valor e identidade que prevalecia na ortodoxia dos seus dias. A vida frugal, o ensino subversivo e a morte prematura de Jesus levaram os primeiros cristãos a reavaliar por completo o que pensavam que o Antigo Testamento dizia sobre a pessoa e a obra do Messias – bem como sobre todos os sonhos de Deus para a humanidade.

PAULO, O TARSEU

Sendo homem de exemplar estudo nas ciências gregas e judaicas, Paulo entendeu mais e antes do que qualquer outro que a singularidade da pessoa e da obra de Jesus representavam um convite à transformação não apenas da nação judaica, mas do mundo inteiro. Ele dedicou a vida à dupla tarefa de divulgar a boa nova império adentro e de vasculhar as tradições bíblicas em busca de confirmação para seu parecer sobre a primazia de Jesus e sobre a natureza de seu próprio ministério. Mesmo tendo conhecido pouco das "maravilhas e obras" que o livro de Atos descreve como tendo acontecido entre os apóstolos designados por Jesus, Paulo foi o primeiro a ousar reinterpretar a Bíblia inteira à luz da pessoa de Jesus, e o que encontrou deixou maravilhadas gerações de leitores.

Além da característica analítica da obra de Paulo (característica grega), sua dedicação a reinterpretar as escrituras judaicas para os povos não-judeus abriu caminhos para que o Cristianismo deixasse de ser uma seita do judaísmo, para assumir uma identidade própria.

A VARIEDADE BÍBLICA

Sendo um texto que se propõe a traduzir para a vida humana os ensinos teóricos e práticos de Deus, a Bíblia contém em si mesma essa variedade do aprendizado humano e, portanto, numerosos precedentes para a reinterpretação da natureza da revelação à luz de novas circunstâncias históricas. Como apontado por Jesus, essas novas leituras não requerem a invalidação da autoridade das antigas tradições; o que pedem é uma nova e generosa reavaliação das implicações dessas tradições para os desafios e particularidades do momento presente.

Tal variedade na exegese intra-bíblica demonstra que a própria Bíblia não ignora que é da condição humana interpretar as tradições que respeitamos de um modo que faça mais sentido dentro de nossa própria perspectiva histórica e conceitual. Ela mesma testemunha que não há um modo único e “literal” de se entender a significância do texto. E mais: quando feito de mente aberta e com um coração compassivo, interpretar-se as antigas tradições à luz das demandas do presente pode nos proporcionar uma visão mais clara a respeito de Deus, não uma visão deturpada ou desrespeitosa.

Se a interpretação dos textos mais antigos que hoje fazem parte da Bíblia não se manteve estática enquanto eram escritos, depois que o cânone estava concluído a história dá testemunho mais do que abundante de que grandes reinterpretações aconteceram. Essas mudanças foram precipitadas por exemplo pela destruição de Jerusalém e de seu Templo, em 70 d.C. (novamente, não havia um local sagrado de culto), a perseguição romana contra os cristãos (os cultos agora eram párias da sociedade), a popularização do entre os gentios (com a conseqüente desvalorização das tradições orais hebraicas), o crescente rancor contra os judeus dentro do movimento (curiosamente eram vistos como rejeitadores de Cristo, ainda que se falasse em povo santo), a legalização do cristianismo em Roma por Constantino I (e agora haviam hierarquias entre os irmãos), os concílios cristãos e o fechamento do cânone (haviam doutores da lei cristã), a cisão entre o cristianismo ocidental e o oriental (política!), a Reforma e Contra-Reforma (divisões quanto à autoridade bíblica), a difusão do pensamento racionalista e materialista e as revoluções científica e industrial (e hoje fala-se em ciência bíblica), o Holocausto dos judeus europeus pela mão dos nazistas (e o que foi feito no Antigo Testamento, era proibido por Jesus e agora santo pelo papa) e a secularização definitiva da cultura no século XX (e fora o clero, então).

A análise dessas e outras instâncias demonstra que o conceito de uma interpretação bíblica isenta e inalterável ao longo dos milênios, até os nossos dias, é na melhor das hipóteses equivocado – e, na pior, mentiroso. Um pouco de atenção nos exemplos acima sugere mesmo que interpretar a Bíblia a partir da nossa perspectiva pode significar principalmente interpretar a Bíblia em nosso próprio favor. Curiosamente, a exegese bíblica pode ser usada como ferramenta arbitrária de dominação, de divisão e de exclusão.

Há porém os casos (como o de Jesus e o dos profetas) em que a reinterpretação das tradições bíblicas à luz do momento presente promove uma noção mais avançada e madura de Deus, resultando numa relação mais saudável entre os homens. O que essas instâncias positivas têm em comum é que o Deus descrito por elas é sempre mais misericordioso e menos tribal, mais inclusivo e menos vingativo do que a figura divina que prevalecia anteriormente. As interpretações que fazem a revelação avançar falam de um Deus cada vez menos obcecado com a justiça e cada vez mais obcecado com o amor. Falam, numa palavra, de um Deus maior: o Deus que já gostamos de chamar de criador mas que preferiu ser chamado de Pai.

E ninguém soube falar dessas coisas com mais intimidade do que Jesus. Como indicado por ele, um Deus maior não é o que requer mais amor para Si, mas o que espera mais amor entre os homens. Um mundo mais justo não é aquele em que Deus pode exercer sem impedimentos o seu poder, mas um mundo em que os homens renunciem em favor uns dos outros à busca insensata pelo poder. Fiel não é quem pede a Deus misericórdia sobre si mesmo, mas quem concede misericórdia aos outros.

Não deve haver dúvida de que a interpretação bíblica não permanece estática, mas é renovada pela perspectiva de cada época (e, num certo sentido, de cada leitor). Cada um permanece livre para reagir como quiser diante dessa notícia. Para alguns, essa contínua reformulação é clara indicação de que cada época acaba criando o seu Deus à sua própria imagem e semelhança. Para outros, é indicação de que o Deus da Bíblia não é o Deus fora do tempo dos filósofos e dos sábios, mas o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, o Deus que se revela ainda hoje como fez nos tempos bíblicos: no calor da história.

Talvez, como fazia Jesus, seja necessário renovar continuamente a crença de que a divindade continua trabalhando, não concluiu a sua criação e permanece se des-cobrindo como cada vez maior e mais ambicioso. Na prática, um Deus cada vez mais invisível (sim, Ele sempre falou em fé), mais recatado e mais indistinguível do exercício da mais simples e ardente humanidade.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Versículos bíblicos que não existem... mas que são usados em pregações





1. “Onde está seu coração, ali está o seu tesouro."
Este “versículo” é tão usado pelos presbíteros, e citado pelos cristãos em geral, que é difícil encontrar alguém que identifique sua falsidade. De forma que podemos considerá-lo até como um “aspirante a versículo”. Na verdade, a maioria dos evangélicos acredita que, tão certo quanto o fato de Deus ser composto por três Pessoas, estas palavras são da própria Bíblia. A confecção deste texto inverídico deve ter sido feita após uma leitura desatenta do Sermão da Montanha, especificamente na parte em que o Mestre prega sobre o ajuntamento ilícito de riquezas na terra. Repare a diferença entre o trecho original e o texto distorcido pelos homens:

“Porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.” (Mt 6.21)

Os descuidados invertem o dito do Senhor Jesus: colocam “coração” onde está escrito “tesouro” e põe “tesouro” onde está escrito “coração”. Isso para que dê a aparência de que Cristo ensinava que não importa a quantidade de bens materiais que a pessoa possua: bastaria ela colocar o coração em Deus que estaria tudo resolvido. O que Jesus disse, realmente, é que nós podemos saber onde está o coração de uma pessoa observando onde ela ajunta suas riquezas: no céu ou na terra.

Vale lembrar que isso não condena o enriquecimento material, defendido como uma bênção divina em toda a Bíblia (Ec 5.19; 1Tm 6.17). O Messias estava apenas usando um recurso semítico de linguagem, comum na Bíblia, onde o lado natural era enfraquecido para enfatizar o lado espiritual. Por exemplo:

a) "Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna..." (Jo 6.27)

Será que Jesus estava condenando o hábito de trabalhar pelo sustento material, ou Ele queria apenas dar importância ao ato de buscar as coisas de Deus? Outro exemplo do recurso semítico usado por Jesus é encontrado no Antigo Testamento, onde José diz:

b) "...não fostes vós que me enviastes para cá, e, sim, Deus…" (Gn 45.8)

Assim, poderíamos concluir que os irmãos de José não o mandaram para Egito. Mas, quatro versículos antes, ele havia dito: "Eu sou José, vosso irmão, a quem vendestes para o Egito" (vs. 4). Pregando sobre a forma de amar aos semelhantes, o apóstolo João declara:

c) "Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade." (1Jo 3.18)

Fica claro que João não desejava proibir o uso de palavras no exercício do amor, mas somente afirmar que o amor não pode se limitar ao uso delas. De qualquer forma, não devemos e não podemos criar textos bíblicos para defender o ajuntamento de riquezas terrenas, pois a própria se encarrega de fazer tal defesa em inúmeras outras porções.

2. “A fé vem pelo ouvir, e ouvir a Palavra de Deus.”

Igual ao versículo anterior, esta frase é corriqueiramente declarada aqui e ali, sempre que o assunto tocado é fé. Ele é tão engenhosamente elaborado que muitos homens e mulheres de Deus o “soltam” de vez em quando, crendo piamente de que estão proferindo a Palavra de Deus. Na verdade, o que a Bíblia ensina é:

“De sorte que a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela Palavra de Deus.” (Rm 10.17) [ARC]

O apóstolo dos gentios está afirmando que o “ouvir” é produzido pela Palavra de Deus, e que é por esse “ouvir” que vêm a fé. É bem diferente do que os descuidados fazem a Bíblia parecer ensinar, pois, conforme a “pérola” pseudo-escriturística que eles criaram, é o ouvir do homem que gera a fé. Para entender melhor a diferença entre as versões de Rm 10.17, veja o que diz a Revista e Atualizada:

“E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo.”

A palavra “ouvir”, empregada em várias traduções, tem o sentido de “entender”, “compreender” a mensagem do evangelho, por meio da pregação expositiva, e não ao mero ato de escutar.

3. “Os anjos queriam pregar o Evangelho, mas Deus reservou esta tarefa aos homens.”

É difícil entender de onde se originou esta tese teológica. Ela é tão espalhada pelas igrejas que se tornou quase um “adendo” popular à Bíblia, um versículo extraído da cartola mágica cada vez que se fala sobre a necessidade de levar as boas-novas aos perdidos. Apesar da raiz desta árvore infrutuosa não ser de tão fácil identificação, podemos sugerir que ela se encontra nas palavras de Pedro, o apóstolo dos judeus:

“A eles foi revelado que, não para si mesmos, mas para vós outros, ministravam as coisas que, agora, vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho, coisas essas que anjos anelam perscrutar.” (1Pe 1.12)

Talvez alguém que não conhece o sentido do termo “perscrutar” tenha lido o texto e daí tirado uma falsa conclusão, imaginando que o pescador de homens teria escrito que as “coisas” que os anjos anelam perscrutar é a atividade da pregação, e que perscrutar significa “fazer”. Embora seja essencial conhecer o sentido dos termos usados na Bíblia, o indivíduo que fez o versículo “abíblico”, que estamos desmascarando, vir à luz, não precisava recorrer ao dicionário para interpretar adequadamente o escrito de Pedro.

Veja o que diz a Revista e Corrigida:

“..para as quais coisas os anjos desejam bem atentar.”

A tradução dos monges de Maredsous reza:

“Revelações estas, que os próprios anjos desejam contemplar.”

O que os seres celestiais desejam receber são as revelações proféticas de Deus, e não o encargo de levar o evangelho aos pecadores.

4. “E vi uma taça de ouro no céu. E perguntei: Que é isso, meu senhor? E me respondeu: Lágrimas de santos.”

Diferentemente das revelações divinas que os anjos queriam conhecer, as invenções humanas que vimos até aqui são pérolas baratas, recolhidas nas águas rasas do relaxo para com a Palavra de Deus. O pseudo-versículo transcrito acima foi citado duas ou três vezes por um querido pastor, a quem considero como grande pregador, e que possui uma igreja de tamanho médio, o que prova que ninguém está livre de soltar das suas “furadas” de vez em quando.

Este presbítero afirmou, com uma certeza tão segura quanto sua fé na auto-existência de Deus, que o diálogo acima foi tecido durante uma visão do apóstolo João, no livro de Apocalipse. Por incrível que pareça, ele não se preocupou em procurar este texto na Bíblia, quer antes de citá-lo, quer após, na repetição de seu erro. O mais próximo que lemos no livro das revelações ao que o referido pastor disse é o que segue:

“E, quando tomou o livro, os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo cada um deles uma harpa e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos.” (Ap 5.8)

“Um dos anciãos tomou a palavra, dizendo: Estes, que se vestem de vestiduras brancas, que são e donde vieram? Respondi-lhe: meu Senhor, tu o sabes. Ele, então, me disse: São os que vêm da grande tribulação, lavaram suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro (...) E Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima.” (Ap 7.13,14,17).

A junção desalinhada destes versículos deve ter resultado naquela prole híbrida que, infelizmente, foi apresentada no púlpito daquela congregação ao povo que ali estava, como sendo a Palavra de Deus. Resta saber quem foi o pai da criança, o qual não apareceu na apresentação da bastarda.

5. “Ficai em Jerusalém até que seja glorificado do alto”.

Igual ao versículo anterior, esta “muamba” é o resultado da fusão de dois textos inspirados. O que o torna mais abominável que todos os outros é que tem, em sua genealogia, um problema semelhante ao visto na distorção de 1Pe 1.12: a falta de compreensão acerca de uma determinada palavra.

“Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de águas vivas. Isto ele disse com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele cressem; pois o Espírito até aquele momento não fora dado, porque Jesus não havia sido ainda glorificado.” (Jo 3.37-39)

“E, comendo com eles, determinou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, a qual, disse ele, de mim ouvistes” (At 1.4)

Durante um estudo bíblico que ocorria em uma célula um certo rapaz, a quem estimo e tenho como um servo de Deus, disse que havia uma parte da Bíblia em que Jesus aconselhava seus apóstolos a ficarem em Jerusalém até que Ele fosse glorificado, ocasião em que o Espírito Santo desceria sobre eles. De acordo com aquele jovem, isso significava que Cristo ficou esperando que os discípulos o louvassem, glorificando-o, a fim de que o batismo no Espírito Santo fosse concedido a eles. Na realidade, o apóstolo do amor, em sua biografia de Jesus, não empregou a palavra “glorificado” com o sentido de “elogiado” ou “louvado”. Eles quis dizer que Jesus, como homem, ainda não havia sido “engrandecido”, ou “exaltado”, o que só ocorreria quando fosse levado à presença de Deus, a fim de se sentar ao lado do trono e ser reconhecido como Deus por Sua criação (Fp 2.9-11; cf. Is 45.23).

Confira o que a Bíblia na Linguagem de Hoje verte em Jo 7.39:

“Jesus estava falando a respeito do Espírito Santo, que aqueles que criam nele iriam receber. Essas pessoas não tinham recebido o Espírito porque Jesus ainda não havia voltado para a presença gloriosa de Deus.”

O apóstolo Pedro confirmou que Cristo foi glorificado por Deus, na ocasião de sua assunção e exaltação divina:

“Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis. (...) Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.” (At 2.33,36)

6. “Toda a terra se encherá da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar.”

Esta passagem fictícia é muito bonita – existe até uma canção que entoamos sobre ela em minha igreja – mas não faz parte dos escritos inspirados. Na realidade, o que a Bíblia afirma é:

“Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte, porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar.” (Is 11.9)

“Pois a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar.” (Hc 2.14)

Como se vê, em momento algum se afirma que a terra se encherá da glória do Senhor. E isso para o desgosto dos que, mesmo com dezenas de anos de Evangelho nos ombros, tinham a frase supra-citada como sendo uma autêntica profecia divina.

7. “E Moisés disse: Que hei de fazer, Senhor? Pois eis que os egípcios se reúnem contra mim e contra este povo, a quem escolheste. E o Senhor disse a Moisés: Toca na águas.”

Deus não ordenou que Moisés tocasse no mar, e, realmente, não foi isso o que este profeta fez. Leia o relato singelo que se contrasta com a idéia exposta acima:

“Disse o Senhor a Moisés: Por que clamas a mim? Dize aos filhos de Israel que marchem. E tu, levanta o teu bordão, estende a mão sobre o mar e divide-o, para que os filhos de Israel passem pelo meio do mar seco.(...) Então, Moisés estendeu a mão sobre o mar, e o Senhor, por um forte vento oriental que soprou toda aquela noite, fez retirar-se o mar, que se tornou terra seca, e as águas foram divididas.” (Êx 14.15,16,21)

Para quem possui dúvidas, basta atentar em que Moisés dividiu o mar não pelo toque de seu bordão na água do mar, mas pelo fato de estendê-lo sobre a água, fazendo com que um vento leste soprasse por toda a noite até dividir aquela massa líquida, que teria se juntado ao sangue hebreu caso Deus não houvesse intervindo com tal milagre (que, repetindo, não envolveu nenhum toque de vara).

Parece que há pessoas que não gostam do legislador de Israel, pois, como se não bastasse ele haver tocado na pedra para dela extrair água – desobedecendo à ordem de Deus para somente falar à pedra –, ainda querem fazê-lo incorrer em um delito de igual gravidade. Deste jeito, não era nem preciso esperar chegar nos limites de Canaã: nem mesmo da terra do Egito o escolhido de Deus teria passado. Tsc, tsc, tsc...

8. “Jovens, vós sois a força da igreja.”

A fim de defender a importância dos cristãos jovens, um querido e dedicado líder de igreja tinha por costume citar este “versículo”, a fim de dizer que eles seriam o motor do Corpo de Cristo. Isso é uma distorção grosseira e irresponsável da Palavra de Deus, que afirma algo muito diferente, porém também honroso acerca dos jovens convertidos do 1º século:

“Jovens, eu vos escrevi, porque sois fortes, e a palavra de Deus permanece em vós, e tendes vencido o Maligno.” (1Jo 2.14)

Oremos fervorosamente para que os jovens da Igreja Contemporânea também exibam estas três características, removendo e enterrando o que é velho (cf. At 5.5,6) para dar lugar às coisas novas do Senhor, uma nova porção do Espírito que caia como vinho fresco sobre a Igreja (Lc 5.37-39; Ef 5.18), abundando em conhecimento da Palavra (Mt 13.51,52; 1Jo 2.20,27), para que esta venha a ter cumprimento: “...e os jovens terão visões” (At 2.17).

9. “E, aconteceu que, subindo a arca do Senhor a Jerusalém, ao som da harpa, do alaúde e da cítara, Davi dançava no Espírito, com todas as suas forças.”

Hoje em dia, há pessoas que não aceitam o que a Bíblia ensina, em sua totalidade, acerca do louvor a Deus. Apesar de tão espirituais, elas são atingidas por uma “micalite aguda” (cf. 2Sm 6.20), que soa como um gongo pseudo-moralista toda vez que, numa reunião de culto, um crente se coloca a expressar sua gratidão e alegria ao Senhor usando todo o seu corpo, além dos lábios e das mãos. Para disfarçar essa mentalidade carnal, alguns afirmam que Davi – e também a profetiza Miriã –, dançou tomado pelo Espírito Santo, em uma ocasião única e inigualável, ignorando outras porções escriturísticas (Jz 21.19,20; Sl 149.3; 150.4; At 3.8).

É certo que o rei hebreu dançou mesmo no Espírito. Afinal, tudo o que os servos de Deus fazem é sob a direção Dele.

“Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito.” (Gl 5.25)

Se a dança davídica não fosse espiritual, o Senhor não teria se agradado dela, da mesma forma que Ele não se agrada quando alguém lhe entoa um cântico “na carne”, sem meios de render-lhe sacrifícios de louvor com os lábios (Hb 13.15). Mas afirmar que o rei foi possuído por Deus enquanto levava a arca, dançando em estado de êxtase, é forçar o que está escrito e ir além da verdade – embora estas experiências fossem comuns entre os profetas daquele tempo.

10. “Tocava Davi sua harpa no palácio de Saul. E havia que, subindo sua adoração ao Senhor, o rei era liberto do espírito que o atormentava.”

Esse é um dos maiores mitos disseminados entre os evangélicos. As Escrituras não afirmam que Davi louvava a Deus perante o rei Saul, e tampouco que o demônio saía deste em razão da sua “adoração ungida”. Na verdade, os toques do jovem israelita, dedilhando as cordas de seu instrumento, acalmava a mente perturbada do monarca, causando-lhe um efeito terapêutico. Isso era meramente paliativo, pois o espírito voltava a atacar periodicamente, necessitando que Davi tocasse novamente para reverter o estado frenético em que o rei d’Israel ficava ao ser controlado por aquele demônio de loucura.

“E sucedia que, quando o espírito maligno, da parte de Deus, vinha sobre Saul, Davi tomava a harpa e a dedilhava; então, Saul sentia alivio e se achava melhor, e o espírito maligno se retirava dele.” (1Sm 16.23)

Isso revela que, muitas vezes, métodos humanos podem surtir efeitos benéficos sobre vítimas de espíritos de cegueira, epilepsia, mudez, transtornos mentais, e outros.

11. “Cristo virá, e os mortos ressuscitarão; num instante, num abrir e fechar de olhos, nós subiremos a ele, e para sempre estaremos com o Senhor.”

Creio que este seja um dos dez principais contrabandos, vendidos nas igrejas evangélicas, como autênticos versículos bíblicos. É de uma natureza tão torpe, que é triste averiguar a imensa popularidade que conquistou em todas as camadas, dos novos convertidos até os maiores mestres da Palavra. Veja por si mesmo o que ensina a Palavra divina:

“Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados; Num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados.” (1Co 15.51,52)

O que o ministro dos gentios está dizendo? Que o arrebatamento será tão rápido como um piscar d’olhos, ou que a transformação dos nossos corpos –de mortais a incorruptíveis– será assim? É claro que a segunda opção é correta.

Esta história de Jesus voltar e os cristãos serem transformados e transladados, num milésimo de segundo, conseguiu se entremear nas páginas bíblicas em razão da aceitação do dispensacionalismo, um sistema escatológico que ensina que a Igreja não passará pela Grande Tribulação. Como os crentes poderiam ser arrebatados sem que o mundo os visse subindo até o Senhor? A resposta está neste texto pseudo-escriturístico.

12. “Não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução; antes, embriagai-vos com o Espírito Santo.”

Esse é usado para defender as experiências de êxtase, nas quais os crentes balançam, caem, riem e fazem outras coisas mais. É uma tolice recorrer a uma invencionice tão descarada para embasar estas coisas. Há textos verídicos que abrem espaço para crermos que o Espírito Santo pode fazer as pessoas ficarem como ébrias. Para saber mais sobre isso, consulte o estudo “As Escrituras e os Êxtases Espirituais".

13. “Em verdade, em verdade vos digo: o diabo vem para matar, roubar e destruir. Mas eu vim para tenhais vida, e vida em abundância.”

“O ladrão não vem senão para matar, roubar e destruir. Mas eu vim para que tenhais vida, e vida em abundância.” (Jo 10.10)

Quem é o ladrão que mata, rouba e destrói? O contexto clarifica a identidade de tal personagem:

“Todos quantos vieram antes de mim são ladrões e salteadores; mas as ovelhas não os ouviram.” (vs. 8)

No vs. 10, Cristo não está especificando uma pessoa em particular como “ladrão supremo”, que seria Satanás, mas afirmando um conceito genérico: uma pessoa que recebe o título de “ladrão” tem por ocupação a apropriação total do bem alheio, mesmo que isso inclua roubar, destruir e matar aos outros. Contrariamente a isso, Jesus não é ladrão, pois Sua obra é o oposto disso: trazer a vida abundante, que é a vida eterna, espiritual. Em momento algum o Mestre cita a existência ou atuação do diabo.

14. “Buscai, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, e todas as coisas vos serão acrescentadas.”

15. “Vós escolhestes a Saul sobre vós e vossos filhos, mas eu, o Senhor, não o escolhi; eis agora a Davi, homem segundo o meu coração, a quem tirei do aprisco de seu pai para reinar em Israel.”

16. “Irmãos, não desfaleçais; pois nos últimos dias virá o enganador, transfigurado em anjo de luz, o diabo e Satanás, que seduzirá a terra inteira. Ele surgirá como homem, falando e enganando a muitos, mas os escolhidos não lhe darão crédito.”

17. “E Sansão crescia em força e graça diante do povo de Israel; e era o varão mais forte de toda a terra, pois ninguém se igualava a ele entre os hebreus, os filisteus, os egípcios ou dos do lado da banda do oriente.”

18. “Aproveitando o sono de seu marido, Dalila foi e cortou-lhe as madeixas da cabeça, nas quais não passara navalha desde o nascimento; pelo que perdeu ele suas forças.”

19. “E, após os apóstolos terem visto o Senhor manifestado, chegou Tomé ao lugar em que estavam reunidos; contando-lhe os discípulos que o Senhor ressuscitara, e que havia aparecido a eles, não creu ele, pois era incrédulo, e duro de coração.”

20. “Vigiando em todo o tempo acerca do vosso falar e do vosso trato com os outros, pois Satanás anda em derredor, anotando nossas palavras; vede, portanto, que vossos dizeres não sejam usados para condenação, mas para glória no Dia do Senhor Jesus.”

21. “Acautelai-vos, pois Satanás, vosso inimigo, aguarda o momento de vosso desânimo para vos arrastar para o inferno, onde há pranto e ranger de dentes.”

22. “O diabo marca toda palavra que falamos.”

23. “E aconteceu que, com a pregação de Pedro, mais de três mil almas se converteram no dia de Pentecostes.”

Com certeza, muitos outros versículos “falseados” tem aparecido pelo mundo afora. Estes são os que conheci até hoje, sem contar as conclusões totalmente infundadas que alguns têm feito sobre textos bíblicos, tais como:

a) Pregar que Jesus levou nossas doenças físicas, baseando-se em Is 53.4,5, que é uma profecia do Antigo Testamento, que deveria ser interpretada à luz do Novo Testamento, em Mt 8.16,17 e 1Pe 2.24;

b) Ensinar que a prosperidade é um direito dos cristãos, com base nas promessas de Dt 28.1-14, enquanto as instruções sobre as guerras aos cananeus são espiritualizadas;

c) Declarar que a Igreja será arrebatada antes da Grande Tribulação, construindo um castelo de areia sobre 1Ts 5.9, em vez de ler este versículo à luz de Ap 14.10;

d) Isolar o texto de Dt 6.4 para negar a pluralidade de Pessoas na unidade de Deus, enquanto o Novo Testamento ensina que essa unicidade é formada por “o Pai, a Palavra e o Espírito Santo” (1Jo 5.7, Almeida), sendo que o próprio Antigo Testamento já deixa isso implícito (Gn 1.26 c.c. Is 44.24).

Além disso, ouvimos também as frases engraçadas, que são facilmente identificadas por qualquer conhecedor mediano das Escrituras:

“Me ajude, e Eu te ajudarei”.

“Quem pariu Mateus que o cuide”.

E por aí vai.

O autor é estudante e ex-atirador do TG 02-010 em Araçatuba (SP). Design e conteúdo: Copyright © 2003-2010 Cleber Olympio. Todos os direitos reservados. Não traduzimos a opinião oficial das Forças Armadas do Brasil, nem a de instituições religiosas.