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quinta-feira, 28 de julho de 2022

A violência de Jesus

Expulsão dos mercadores do Templo. Pintura do artista russo Andrei Nikolayevich Mironov, em 2012.


Em frente de seus apoiadores, no Palácio da Alvorada em 15/6/22, ao tradicionalmente incentivar o  armamento da população, o presidente Jair Bolsonaro defendeu que  Jesus "não comprou pistola porque não tinha naquela época". Aparentemente, Jesus B (de Bolsonarista) era alguém favorável a defender o seu patrimônio ou a si mesmo causando a morte de outra pessoa. Se muitos são favoráveis, se os apoiadores de Bolsonaro são e, principalmente, se Bolsonaro é, como ou porque Jesus B não seria?


JESUS ARMADO

Quanto à defesa de Seu patrimônio, nos exóticos ensinamentos de Jesus dados na vila de Cafarnaum, à margem do lago de Genesaré, Mateus e Lucas registraram uma fala sobre Ele não ter onde descansar (Mt 8.20, Lc 9.58). Nenhum dos Evangelhos se refere a posses de Jesus, que apesar disso parecia ter pessoas Lhe cedendo facilmente casa e comida. Se Ele não tinha o que defender, podemos deixar de lado isso como motivo para matar alguém. Quanto a conjecturar se Jesus mataria, tendo o que defender, isso será só suposição.

Jesus mataria alguém para defender a si mesmo? Nos Evangelhos, quando Jesus foi preso Ele argumentou: "Vocês vieram armados para me prender, como se eu fosse um malfeitor. Entretanto, todos os dias eu estava sentado ensinando no templo e não me prenderam" (Mc 14.48-49, Mt 26.55, Lc 22.52-53). Na cena seguinte, Jesus é levado pelos guardas. Sem matar ninguém.

Nessa mesma hora, acontece a famosa cena em que supostamente Pedro (somente João 18.10 o nomeia) corta com espada a orelha de um dos guardas. Apenas em Mateus, Jesus repreende-o com argumento bem pacifista:

Guarda tua espada, porque aqueles que usarem da espada, pela espada morrerão. (Mt 26.52)

Aqui, há uma variedade de relatos, tornando a narrativa mais frágil. Em Marcos, os guardas tentam pegar também um jovem coberto com pano, que escapa. Em algumas tradições, acredita-se que seja o jovem João Marcos, futuro evangelista (Mc 14.51-52). Em Lucas, ao invés da fala, temos Jesus curando o guarda atacado (Lc 22.51). Em João, a fala é "Enfia a tua espada na bainha! Não hei de beber eu o cálice que o Pai me deu?" (Jo 18.11). 

Chama a atenção que, no texto de todos os evangelistas, encontramos alguém armado no grupo junto de Jesus (Lc 22.49 indica ser mais de um). Jesus, em especial, não estava armado.

Quando vos mandei sem bolsa, sem mochila e sem calçado, faltou-vos porventura alguma coisa? Eles responderam: Nada. Mas agora, disse-lhes ele, aquele que tem uma bolsa, tome-a; aquele que tem uma mochila, tome-a igualmente; e aquele que não tiver uma espada, venda sua capa para comprar uma". Eles replicaram: "Senhor, eis aqui duas espadas'. 'Basta', respondeu ele. (Lucas 22.35-36)

Esse é texto usado por Bolsonaro para defender o armamento em nome de Jesus. Tal trecho é de fato  frequentemente citado por pessoas desejando mostrar que Jesus apoiava atos violentos. Em si, trata-se de uma passagem presente só em Lucas, Como antes, seu papel na narrativa dos Evangelhos fica enfraquecido... O contexto é o último diálogo de Jesus na ceia, antes de ir para o Getsêmani (Morro das Oliveiras), onde seria preso. Lá, Jesus dizia a Pedro:

Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos. (Lc 22.31-32)

O significado mais aceito dessa fala é que Jesus prenunciava a perseguição aos Cristãos que se iniciaria. Então, Ele anunciava que seriam necessários dinheiro e proteção - com armas. Em Marcos e Mateus, Jesus cita uma profecia sobre as ovelhas se dispersarem quando o pastor fosse ferido (Mt 26.31). Em João, Jesus ora pela santificação dos discípulos (Jo 17). Em todas essas narrativas, continua sugerido que já havia alguém armado entre o grupo que seguiu Jesus até o Getsêmani.

Não há, porém, senão em Lucas, uma instrução explícita para se defenderem do que estava por vir. Em nenhum texto há uma instrução sobre matar. Como Lucas era Romano e seguiu Paulo até provavelmente o ano 60 d.C, depois peregrinando pela Galiléia a procurar por quem testemunhou a vida de Jesus e tendo escrito seus livros só bem depois, é possível que a recomendação de Jesus sobre as espadas faça parte da miríade de informações esparsas que Lucas coletou.


JESUS PACIFISTA

Um famoso símbolo do pacifismo de Jesus é a fala "Não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra" (Mt 5.39). Essa fala é reforçada por Lucas:

Digo-vos a vós que me ouvis: amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, abençoai os que vos maldizem e orai pelos que vos injuriam. Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra. E ao que te tirar a capa, não impeças de levar também a túnica. (Lc 6.27-29)

É notório que o mesmo livro de Lucas apresenta, posteriormente, Jesus recomendando levar espada para os discípulos se defenderem da perseguição. O que podemos pensar é que (1) Jesus mudou suas concepções sobre como reagir à agressão; (2) a agressão anunciada no Getsêmani não se compara às demais - para essa última, era cabível a defesa; ou (3) o compilado de ensinamentos feito por Lucas reflete alguns atribuídos a Jesus (pela população da Galiléia), que não eram realmente Dele.

Para opinar sobre isso, é importante fazer uma contextualização dos Evangelhos. Em 66 d.C., nada menos que 36 anos após o assassinato de Jesus, iniciou-se uma guerra entre Judeus e Romanos, que teve vários reavivamentos nos anos seguintes. Basicamente, os Judeus queriam expulsar as legiões Romanas das suas terras. Um evento principal dessa guerra foi a destruição de Jerusalém (70 d.C.), com genocídio dos moradores, demolição do Templo e incêndio da cidade. Tanto Judeus quanto Cristãos passaram a ser perseguidos no mundo Romano. O livro de Marcos foi escrito antes desse período em Alexandria/Egito, bem longe dos conflitos. Os livros de Mateus e Lucas não. De fato, a perseguição é pós-anunciada (como se fosse uma profecia, porém escrita após os eventos) tanto em Mateus quanto em Lucas, mas não em Marcos e João.

Julgais que vim trazer paz à terra? Não, digo-vos, mas separação. Pois de ora em diante haverá numa mesma casa cinco pessoas divididas, três contra duas, e duas contra três; estarão divididos: o pai contra o filho, e o filho contra o pai; a mãe contra a filha, e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora, e a nora contra a sogra. (Lc 12.51-53)

Não julgueis que vim trazer a Paz à terra. Vim trazer não a Paz, mas a espada. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra, e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa. (Mt 10.34-36)

Dessa forma, o anúncio de Lucas sobre levar uma espada parece se referir especificamente à perseguição; ao mesmo tempo sendo uma inserção do autor ou da comunidade Cristã com referência à segunda metade do séc. 1. Essa inserção era destoante do ensinamento inicial. O Jesus de Marcos e João não faz tais previsões ou pós-visões.


JESUS DESAFIADOR

Mas Jesus não era necessariamente um pacifista que oferecia a outra face. Isso é, Ele não aceitava simplesmente que ofendessem Ele ou Seu grupo. Dentro da Pax Romana (lei imposta pelos Romanos às suas províncias), pessoas da "colônia" causando confusão eram facilmente presas e executadas. Os Galileus eram famosos por serem briguentos, mas as disputas de Jesus - até onde sabemos - eram verbais. A história infelizmente demonstra a futilidade de argumentar com aqueles que consideram seus privilégios um direito de nascença... Mas também não vemos Jesus lutando contra os Romanos por mais liberdade. Sua disputa, segundo Ele mesmo, era contra a maldade institucionalizada.

O mundo não vos pode odiar, mas odeia-me, porque eu testemunho contra ele que as suas obras são más. (Jo 7.7)

Em Lucas, Jesus anuncia o Reino de Deus, formado pelos pobres (Lc 6.20) de coração reto e bom (Lc 8.15). Não se trata de um reino Judeu ou qualquer estrutura de direitos que os livrasse da dominação Romana. Lembremos que Jesus interagiu com um centurião Romano!

Segundo Mateus, somente os bons frutos - e não empunhar um nome ou outro -  distinguem os bons dos maus (Mt 7.22-23); para entrar no Reino dos Céus, é necessário a cada um ajudar seu irmão (Mt 5.22). De forma semelhante, em Marcos, Jesus instrui a perdoar qualquer ressentimento contra outra pessoa (Mc 11.25-26). Nos deparamos, outra vez, com Jesus defendendo algo que não é uma estrutura de poder ou direitos. O Reino dos Céus não é um reino definido por fronteiras.

Os meios que Jesus usava para defender seu ponto não poderiam ser classificados como violentos, nem tampouco como pacíficos. Ele lutava contra um sistema em que as pessoas eram treinadas para não se importar e até tomar proveito do sofrimento de outros. Contra esse sistema, Jesus desafiava as pessoas a acreditarem Nele, simplesmente. E usava estórias (provavelmente inventadas) para explicar a expectativa de um final do mundo, onde só os pertencentes ao Reino seriam salvos.

O Reino dos Céus é também semelhante a um tesouro escondido num campo. Um homem o encontra, mas o esconde de novo. E, cheio de alegria, vai, vende tudo o que tem para comprar aquele campo. O Reino dos céus é semelhante ainda a uma rede que, jogada ao mar, recolhe peixes de toda espécie. Quando está repleta, os pescadores puxam-na para a praia, sentam-se e separam nos cestos o que é bom e jogam fora o que não presta. Assim será no fim do mundo: os anjos virão separar os maus do meio dos justos e os arrojarão na fornalha, onde haverá choro e ranger de dentes. (Mt 13.47-50)


AGRESSÃO VERBAL

Alguns argumentam que Jesus usava de violência nas Suas palavras. Existem várias formas de agressão verbal, que precisam ser analisadas. Um delas é o Bullying. Jesus não praticava isso - enquanto desqualificava costumeiramente os ensinos dos Fariseus, hábeis debatedores das Sinagogas, Ele não mantinha essa atitude para com um deles em específico. Jesus também não era abertamente ofensivo, quanto mais tinha suporte de uma maioria. Ele de certa forma fazia o "Gaslighting", questionando os pilares mais profundos dos Fariseus, e de fato fazendo isso com todo mundo. Mas, novamente, não se trata de algo direcionado a uma única pessoa.

Os embates de Jesus eram geralmente desencadeados pelos próprios Fariseus, dentro da cultura Judaica de questionamento. Quanto a acusações, Jesus acusava, em especial os religiosos, a respeito de manterem uma atitude hipócrita de cobrar ao povo o que não faziam.

Ai de vós, Escribas e Fariseus hipócritas! Pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia, a fidelidade. Eis o que era preciso praticar em primeiro lugar, sem contudo deixar o restante. (Mt 23.23)


JESUS VIRANDO AS MESAS

Em sua mais famosa demonstração de violência, sem dúvida citada por quem defende um Jesus violento, Ele causou tumulto entre os vendedores no pátio do Templo.

Chegaram a Jerusalém e Jesus entrou no Templo. E começou a expulsar os que no Templo vendiam e compravam; derrubou as mesas dos trocadores de moedas e as cadeiras dos que vendiam pombas. Não consentia que ninguém transportasse algum objeto pelo Templo. E ensinava-lhes nestes termos: "Não está porventura escrito: A minha casa chamar-se-á casa de oração para todas as nações? Mas vós fizestes dela um covil de ladrões!". (Mc 11.15-17)

Essa passagem é repetida em Mateus (21.12-13), Lucas (19.45-46) e João (2.14-16), dando um caráter chamativo a ela. Aparentemente, trata-se de algo que motivou a reunião do Sinédrio para tratar sobre a prisão de Jesus. Tal reação violenta não é explicada, no texto, senão por trechos de Isaías que ela contém. João, de fato, tenta produzir uma explicação a posteriori emendando:

... Lembraram-se então os seus discípulos do que está escrito: O zelo da Tua casa me consome (Sl 68,10). (Jo 2.17)

Não era a 1a vez de Jesus em Jerusalém, então podemos imaginar que Ele já conhecia o mercado no Templo. Entretanto, das outras vezes (também celebrações de Páscoa), Ele não viera a Jerusalém como um líder ou profeta. A função de profeta, aliás, era justamente a de se contrapor ao Templo, aos governantes, aos Saduceus. Normalmente, os Fariseus das Sinagogas faziam essa função, mas desde a dominação pelos Gregos (330 a.C.) e Romanos  (63 a.C), tanto Fariseus quanto Saduceus haviam se reorganizado em uma elite social mantida por matrimônios e acordos.

Era isso que o mercado no Templo representava: os comerciantes ligados aos Fariseus trabalhando com a anuência dos líderes do Templo, os Saduceus. De certa forma, a violência de Jesus contra os comerciantes atingia a ambas as categorias e Jesus fazia isso na condição de profeta, aquele que foi recebido na cidade com palmas e acenos do povo. O "covil de ladrões", como na fala de Jesus, era Sua oposição aos trâmites entre a elite, com o Templo como centro.

No dia seguinte reuniram-se em Jerusalém os chefes do povo, os anciãos [Fariseus], os escribas, com Anás, sumo sacerdote, Caifás, João, Alexandre e todos os que eram da linhagem pontifical [Saduceus]. (Atos 4.5-6, julgamento de Pedro e João, narração feita por Lucas)

Uma forma pacifista que Jesus poderia ter escolhido para se opor à feira dentro do Templo seria falar ao povo para ficar longe daquele mercado. Afinal, era o povo quem usufruía e alimentava o comércio de itens religiosos.

Porém, vindo da Galiléia em um burrinho, ainda que Jesus representasse um profeta na capital (eles não eram raros), tratava-se de uma influência pública que Ele provavelmente não tinha. E, caso tivesse, seria motivo igualmente sério para as ações do Sinédrio contra Ele, talvez até com interferência dos Romanos por perturbar a ordem pública.

Virar as mesas dos comerciantes e gritar - segundo João, até empunhando um chicote - talvez não tenha mudado nada prático quanto ao comércio funcionando no Templo, mas afirmou Jesus como profeta perante os Seus seguidores.

O não-conformismo de Jesus quanto à maldade institucionalizada certamente teve algo a ver com Sua reação no Templo administrado pelos Saduceus. Embora o comércio ali não fosse inerentemente mau, nem tampouco os vendedores,  tratava-se de uma institucionalização da fé. Cada fiel gastava algumas moedas, oferecia um sacrifício de acordo com suas posses, pago em parte aos comerciantes e em parte aos Saduceus, e estava tudo resolvido com Deus. Uma espécie de terceirização do arrependimento. Embora Jesus fosse pacifista em muitos outros assuntos, incluindo a dominação dos Judeus pelos Romanos, ele era um profeta bastante contracultural no lido com essa institucionalização da fé.


O QUE O TEMPO FEZ

Uma vez que o Cristianismo tornou-se maioria em muitos lugares com o passar dos séculos, ele se institucionalizou como o Judaísmo do tempo de Jesus. Ao invés do Templo, temos várias igrejas que fazem essa função, cada uma com seu grau de terceirização da fé, que se reflete em hierarquias religiosas, grupos privilegiados e troca de favores religiosos (além de políticos) por dinheiro e poder. Nos dias de hoje, não seria improvável ver Jesus esbravejando contra pastores que associam o favor de Deus com o valor da doação feita para a Igreja.

Seja por acreditar que o modo contracultura de Jesus produziu uma série de ações levando à Sua morte, seja por considerar que Ele se dirigia a uma sociedade rural, seja porque os Cristãos inicialmente eram apenas uma minoria perseguida, seja pelo aspecto espiritual (não material) dos ensinamentos, Jesus acabou sendo lembrado e não praticado. Mais ou menos como ter uma fábrica de armamentos chamada Ghandi Armas & Munições Ltda, ou uma catedral adornada com ouro dedicada a São Francisco.

Não era Jesus quase um Romano seguidor de ordens, dentro de uma organização grande e poderosa? Quantas invasões de terras e destruição de povos tiveram a bandeira de Jesus na frente?  Não está Bolsonaro dizendo às pessoas que elas podem disparar balas em quem elas não gostam, abençoadas por Jesus? Em 12/10/21, o deputado estadual Frederico Braun d'Ávila defendeu, na tribuna da Assembleia Legislativa de São Paulo, que as pessoas fizessem o que manda Bolsonaro, que se armassem para exterminar os camponeses [como Jesus] e membros do MST, que são um câncer na Sociedade. Isso, junto com ofensas aos Católicos associados com a Teologia da Libertação, uma ala da Igreja Católica famosa por defender - muitas vezes com a vida - as populações mais pobres ao redor do mundo.

O Jesus B certamente não é o Jesus sobre o qual a Bíblia conta.

Sua misericórdia se estende, de geração em geração, sobre os que o temem. Ele manifestou o poder do seu braço: desconcertou os corações dos soberbos. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Ele saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos. Ele acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre. (Lucas 2.50-55, Exaltação de Maria)

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ARTIGOS PROSCRITOS

La Torre M, Jesus, the man of violence, baptistnews.com, 23/06/16.

Medeiros T, Bolsonaro: Jesus "não comprou pistola porque não tinha" na época, Correio Brasiliense, 16/06/22.

Sigal G, Was Jesus violent?, jewsforjudaism.org, chapter 22r.

Verbal Abuse - wikipedia

YODER, JH, Jesús y la realidad política, Ediciones Certeza, 1985.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

As duas torres

Vista aérea das ruínas da igreja Bizantina no Monte Gerizim e os ornamentos do seu assoalho, ainda visíveis. Ao lado, Mapa de Canaã mostrando o Templo de Jerusalém em vermelho e o Templo de Gerizim em azul.



Deuteronômio 11

29. Quando o Senhor, vosso Deus, te tiver introduzido na terra que vais possuir, pronunciarás a bênção sobre o monte Gerizim, e a maldição sobre o monte Ebal. 30. Essas montanhas encontram-se além do Jordão, do outro lado do caminho do ocidente, na terra dos cananeus que habitam nas planícies defronte de Gálgala, perto dos carvalhos de Moré. [no livro dos Samaritanos, aqui lê-se "perto de Siquém"]


Deuteronômio 27

11. No mesmo dia, Moisés ordenou ao povo o seguinte: 12. Quando tiverdes passado o Jordão, estarão sobre o monte Gerizim para abençoarem o povo: Simeão, Levi, Judá, Issacar, José e Benjamim; 13. e sobre o monte Ebal, para amaldiçoar: Rúben, Gad, Aser, Zebulom, Dã e Neftali. 14. E os levitas tomarão a palavra e dirão em alta voz a todos os homens de Israel.


Josué 8

33. Todo o Israel, seus anciãos, seus oficiais e seus juízes conservaram-se de pé ao redor da arca, diante dos sacerdotes, dos levitas, que levavam a arca da aliança do Senhor. Ali estavam tanto os estrangeiros como os israelitas, metade deles do lado do monte Gerizim, e metade do lado do monte Ebal, segundo a ordem antes dada por Moisés, servo do Senhor, para abençoar o povo de Israel. 34. Depois disso, Josué leu todo o texto da lei, a bênção e a maldição, assim como estão escritas no livro da lei.


Desde a suposta ocupação de Canaã pelos Hebreus retornando do Egito, começou um processo de sacralização de diversas montanhas. Uma delas é o monte Moriah, onde Abraão teria subido para sacrificar seu filho Isaac por volta de 2000 a.C. A posição do Monte Moriah na geografia, entretanto, já era confusa para os Hebreus. Os Judeus o identificaram com a montanha escolhida para construir, em seu topo, o Templo de Salomão, no séc. 10 a.C. O Templo era uma representação da incrível prosperidade que Israel alcançou nessa época, contando com muito ouro, madeiras valiosas, marfins e tecidos caros. Em 616 d.C., após o cerco de Jerusalém pelas tropas do rei babilônio Nabucodonosor II, o Templo foi saqueado e incendiado. A maior parte da população de Judá foi levada cativa.


Em 538 d.C. os Judeus foram repatriados por Ciro o Persa. Em seu retorno, encontraram as terras ocupadas por Samaritanos, que se opuseram à volta dos Judeus. Mediante o decreto do rei, entretanto, os Samaritanos se ofereceram para ajudar a reconstruir o Templo. Com prerrogativas de pureza, os Judeus repeliram a participação dos Samaritanos.


NEGÓCIOS DE FAMÍLIA


Neemias 13

23. Naqueles dias, encontrei Judeus que haviam desposado mulheres de Azot, de Amon e de Moab. ... 28. Ora, um dos filhos de Joiada, filho do sumo sacerdote Eliasib, tornara-se genro de Sanballat, o horonita; expulsei-o para longe de mim.


O relato bíblico termina dessa maneira sobre a mistura de linhagens entre um membro da nobreza sacerdotal empenhada em reconstruir o Templo e o povo local, que ficou em Israel. O historiador Flavius Josephus, escrevendo sobre os Judeus no séc. 1, entretanto, adicionou uma continuidade desse caso.


"Quando Eliasib, o sumo sacerdote, morreu, seu filho Judas foi bem-sucedido no sumo sacerdócio; e quando ele morreu, seu filho João assumiu essa dignidade; ... 2. Agora, quando João partiu desta vida, seu filho Jaddua foi bem-sucedido no sumo sacerdócio. Ele tinha um irmão, cujo nome era Manassés. Ora, havia um Sanballat, enviado por Dario, o último rei da Pérsia, em Samaria. Ele era um Cutheam de nascimento (Samaritano). Este homem ... deu voluntariamente sua filha, cujo nome era Nicaso, em casamento a Manassés, pensando que essa aliança seria uma garantia de que a nação dos Judeus continuaria sua boa vontade com ele. ... Mas os anciãos de Jerusalém, muito preocupados que o irmão de Jaddua, o sumo sacerdote, casado com uma estrangeira, fosse um parceiro dele no sumo sacerdócio, discutiram com ele ... então eles ordenaram a Manassés que se divorciasse de sua esposa, ou não se aproximasse do altar. O próprio sumo sacerdote juntou-se ao povo em sua indignação contra seu irmão, e afastando-o do altar. Em seguida, Manassés foi até seu sogro, Sanballat, e disse-lhe que, embora amasse sua filha Nicaso, ele não estava disposto a ser privado de sua dignidade sacerdotal por causa dela ... E então Samballat prometeu-lhe não apenas preservar para ele a honra de seu sacerdócio, mas também obter para ele o poder e a dignidade de um sumo sacerdote, e o tornaria governador de todos os lugares que ele agora governava, se ele mantivesse seu filha como esposa. Disse-lhe também que iria construir para ele um templo como o de Jerusalém, no monte Gerizim, que é o mais alto de todos os montes de Samaria; e ele prometeu que faria isso com a aprovação do rei Dario. ... Sanballat deu-lhes dinheiro e dividiu entre eles terra para cultivo e também habitações, e tudo isso para agradar a seu genro de todas as maneiras." (Flavius Josephus, Antiguidades dos Judeus, livro XI)


Segundo Josephus, a disputa entre Samaritanos e Judeus no retorno da Babilônia teria fragmentado a classe sacerdotal dos Judeus, originando um outro Templo no monte Gerizim. Essa montanha é onde os Samaritanos dizem ser Moriah, e onde de fato houve um clone do 2º Templo, construído na era dos Persas.


O TEMPLO DE GERIZIM


Juízes 9

7. Sabendo disso, subiu Joatão ao cimo do monte Gerizim e exclamou: Ouvi-me, homens de Siquém, para que Deus vos ouça! 8. As árvores resolveram um dia eleger um rei para governá-las e disseram à oliveira: reina sobre nós!


Siquém era uma antiga capital religiosa dos Cananeus, próxima de Samaria, a capital do território Samaritano, antes alocado para a tribo de Efraim. A cidade ficava num vale entre as duas montanhas, Gerizim e Ebal. O território é alto e rochoso, uns 400 m de altitude sem rios próximos, e cada uma das montanhas sobe outros 500 m, ficando cobertas de neve no inverno. Nos textos antigos, tal local era assinalado como rico em grandes carvalhos.


Josephus fazia grandes erros de datas em seus escritos, por isso não sabemos se o Sanballat mencionado por ele é o mesmo do tempo de Esdras e Neemias, mas tudo indica que sim. As ruínas encontradas no topo do monte Gerizim indicam um Templo com mesma estrutura, mesma função e compartilhando até peças artesanais com o de Jerusalém. Por exemplo, as escavações no local encontraram um topo de coluna esculpido com a árvore da vida, o que era um entalhe Fenício bem típico da era Persa. As descrições de autores antigos que viram o Templo de Salomão elogiavam justamente uma peça assim em sua entrada.


Foram encontrados os restos de grandes cisternas ou piscinas, como também havia em Jerusalém. Em Gerizim, no entanto, pode-se pensar em reservatórios para água da chuva. E havia também grandes depósitos de ossos de animais queimados (sobretudo carneiros e bodes, mas também vacas e pombas). Era um local para sacrifícios, e sabemos que os Judeus encerraram os sacrifícios a YHWH por ocasião da destruição do Templo de Jerusalém. As inscrições sobre votos e agradecimentos nas pedras também não deixam dúvida sobre a divindade YHWH cultuada ali. Até o altar estava alinhado com os pontos cardeais na mesma posição de Jerusalém.


É curioso que em nenhum ponto da Torá Judaica, de onde vem o nosso VT, há referências a um Templo em Gerizim. Muito pelo contrário, os Samaritanos são desdenhados no texto hebraico, com Sanballat de Hawara/Horon (aprox. 450 d.C.) retratado como o grande rival do governador Neemias. Tudo isso faz pensar em um Templo rival, que por séculos foi um centro de culto em Samaria. Esse Templo era rival mesmo na sua significação, pois os Samaritanos viam Gerizim como o Monte Moriah de Abraão e Siquém como o local de fixação de Josué, durante a conquista de Canaã. Mas as conexões com Jerusalém não terminam aí...


Uzzi é um nome que aparece nos textos Samaritanos. Trata-se de um ancestral do sacerdote Esdras, enviado de Babilônia para reconstruir o Templo de Jerusalém, da mesma família que guardava o Templo desde os tempos de Salomão. Os textos Samaritanos diziam que quando Uzzi morreu, a chama eterna do Templo foi extinta (provavelmente pela chegada de Nabucodonosor II) e os vasos onde ela queimava foram escondidos nas cavernas de Gerizim, à espera do Messias no fim dos tempos.


Neemias 13

10. Soube também que as dádivas devidas aos levitas não lhes tinham sido entregues, e que os levitas e os cantores encarregados do serviço tinham se retirado cada um para as suas terras. 11. Censurei os magistrados e disse-lhes: Por que foi abandonada a casa de Deus? Depois reuni os levitas e cantores, e os recoloquei em seus postos.


Malaquias 1

6. O filho respeita seu pai e o servo, seu senhor. Ora, se eu sou Pai, onde estão as honras que me são devidas? E se eu sou o Senhor, onde está o temor que se me deve? - diz o Senhor dos exércitos a vós ... 10. Vá, antes, um de vós e feche as portas. Não acendereis mais inutilmente o fogo no meu altar.


Tanto os textos de Neemias quanto de Malaquias, contemporâneos do período Persa, dão a entender que o Templo de Jerusalém passava por dificuldades financeiras nessa época. Jerusalém estava sendo reerguida, o Templo sendo refeito, e havia - hoje temos certeza - um outro Templo centralizando os recursos da região de Samaria, a apenas 40 Km dali.


Ao redor do Templo, nas alturas de Gerizim, foi estruturada uma pequena cidade para os sacerdotes e levitas, das quais conhecemos o nome Romano: Flavia Neapolis, hoje fundida a Siquém na grande cidade de Nablus. Alguns historiadores mesmo cogitam se levitas de Jerusalém não migraram para Gerizim e vice versa, durante os 250 anos que esse Templo funcionou. 


AS GUERRAS DO PERÍODO GREGO


Yoma 69

O dia 25 de Tevet (entre Dez/Jan) é conhecido como o dia do Monte Gerizim, que foi estabelecido como um dia de felicidade e no qual elogios fúnebres não são permitidos. O que aconteceu nessa data? Foi nesse dia que os Samaritanos [kutim] solicitaram a Casa de Nosso Senhor a Alexandre, o macedônio, a fim de destruí-la, e ele a deu a eles, ou seja, deu-lhes permissão para destruí-la. Os homens vieram e informaram ao Sumo Sacerdote, Shimon HaTzaddik [Simão o Justo, filho de Onias I, 310–291 a.C.] do que havia acontecido. .... eles esfaquearam os Samaritanos, os penduraram na cauda dos cavalos e os arrastaram sobre os espinhos e cardos até chegarem ao monte Gerizim ... Quando chegaram ao monte Gerizim, onde os Samaritanos tinham seu templo, eles semearam a área com alho-poró, um símbolo de destruição total.


Esse trecho do Talmude Judaico conta sobre a chegada de Alexandre o Grande entre a contenda dos Samaritanos e Judeus. Diversas passagens do Talmude são bastante inverossímeis historicamente, e o historiador Flavius Josephus parece ter se baseado nelas para escrever várias de suas crônicas. Essa, por exemplo, envolve o Sumo Sacerdote reconhecendo a santidade de Alexandre.


O período Persa terminou por volta de 330 a.C., quando o grego Alexandre o Grande (também conhecido como Alexandre da Macedônia) conquistou todas as terras entre o Egito e a Índia. Depois que ele morreu, esse território imenso foi dividido entre seus generais, que fundaram poderosas dinastias e começaram o período Grego. No séc. 3 a.C., essas dinastias empreenderam batalhas históricas entre si. Canaã, em especial, passou muitos anos sendo perdida e reconquistada pelos Ptolomeus (centrados em Alexandria, no Egito, de cuja família nasceu a célebre Cleópatra) e pelos Selêucidas (centrados em Selêucia, hoje Baghdad, e depois em Antioquia, na Síria).


Os reis Selêucidas foram especialmente duros com o Judaísmo, chegando a proibir os idiomas hebraico e aramaico e fechar o Templo de Jerusalém por 20 anos. Em 167 a.C, essa opressão detonou a Revolta dos Macabeus, cujos líderes souberam manobrar aliados aqui e ali para instalarem uma nova monarquia em Israel. Eles foram chamados de reis Hasmoneus, sendo Judeus que governaram no Período Intertestamentário, até a chegada de Roma e sua derrota para a dinastia de Herodes. João Batista foi decapitado e Jesus foi julgado, ambos no reinado do 3º Herodes da Judéia.


No início do séc. 2 a.C., o Templo de Gerizim foi ampliado, passando de 95x95 m para 212x136 m. A vila ao seu redor chegou a ter 400 habitantes. Esse auge foi associado ao estabelecimento de poder dos Selêucidas em Samaria, que agora se tornava politicamente inimiga de Jerusalém, uma protegida dos Ptolomeus. As ruínas do Templo de Gerizim, na época de sua maior riqueza, revelaram um grande número de cerâmicas e moedas de bronze, prata e outro, algo bastante à altura de Jerusalém.


Quando os duelos entre Ptolomeus e Selêucidas passaram de ameaças para os campos de batalha, tanto um Templo como o outro foram severamente atingidos. Os Macabeus deixaram sua visão do que acontecia em Gerizim:


2ª Macabeus 5

21. Tendo Antíoco roubado ao templo [de Jerusalém] mil e oitocentos talentos [1 talento = 20 kg de ouro], voltou sem demora para Antioquia. Com o espírito exaltado, ele cria, em sua soberba, poder navegar sobre a terra e caminhar sobre o mar. 22. Contudo, por motivo de seu ódio para com os judeus, deixou atrás de si oficiais com a incumbência de molestar o povo: em Jerusalém, Filipe, da Frígia, mais bárbaro ainda que seu senhor; 23. no monte Gerizim, Andrônico e, adjunto a estes, Menelau, que se encarniçava contra seus concidadãos de modo mais terrível que os outros.


2ª Macabeus 6

1. Pouco tempo depois, um velho ateniense foi enviado pelo rei para forçar os Judeus a abandonar os costumes dos antepassados, banir as leis de Deus da cidade, 2. macular o templo de Jerusalém, dedicá-lo a Júpiter Olímpico e consagrar o do monte Gerizim, segundo o caráter dos habitantes do lugar, a Júpiter Hospitaleiro. 3. Dura e penosa foi para todos essa avalanche de mal. 4. O templo encheu-se de lascívias e das orgias dos gentios que se divertiam com meretrizes, unindo-se às mulheres nos átrios sagrados e introduzindo coisas ilegais. 5. O altar estava coberto de vítimas impuras, interditas pelas leis.


A QUEDA DE GERIZIM


A luta dos Macabeus contra os Selêucidas fez o Templo de Gerizim como vítima. Logo que assumiu o trono de Judá, o rei-sacerdote João Hyrcanus (neto do 1º Macabeu) sofreu várias derrotas para Antiocus VII Sidetes, rei dos Selêucidas. Hyrcanus chegou a evacuar Jerusalém (Flavius Josephus, Antiguidades dos Judeus 13.240) e pagar Antiocus para que a cidade sagrada não fosse destruída. O preço foi bem alto: 3000 talentos de ouro, retirados da tumba de Davi, e soldados Judeus para o exército de Antiocus (Flavius Josephus, Guerras dos Judeus I cap 2.5).


Quando soube da morte de Antiocus numa batalha contra os Persas em 113 a.C., o rei Judeu resolveu vingar-se das derrotas passadas e lançou um ataque feroz contra a Samaria. Os Selêucidas moveram 6000 soldados para a região, mas não foram suficientes. Após mais de 1 ano de batalha, os Selêucidas foram derrotados. Siquém foi destruída e seus habitantes feitos escravos.


O Templo de Gerizim foi incendiado e demolido por João Hyrcanus, junto com a vila ao seu redor, em 111-110 a.C. Diversos estudiosos interpretam a data festiva de 25/Tevet como uma comemoração da queda do Templo de Gerizim, uma vez que nada nos escritos do Talmude se associa com a "destruição total" profetizada, ou a proibição do lamento pelos mortos. Nos anos seguintes, Samaria foi lentamente repovoada, mas Siquém e a vila ao redor do Templo permaneceram vazias.


DEPOIS DA TORMENTA


O topo do monte Gerizim ficou 200 anos desabitado, ainda que permanecesse um local sagrado para os Samaritanos. Os primeiros a construir algo ali foram os Romanos, no início do séc. 2 d.C. Tratava-se de um Templo de Zeus, pouco ao norte das ruínas do antigo Templo e próximo a Flavia Neapolis, a vila reconstruída.


Já no período Bizantino (Roma agora era Cristã e tinha como capital Constantinopla, na Turquia), o imperador Zeno (476-491 d.C.) ordenou a construção da Igreja de Maria Theotokos [mãe-de-Deus] no topo da montanha, mais ou menos sobre onde ficava o Templo dos Samaritanos. A estrutura octogonal era característica da indicação de lugares sagrados.


Quando os Samaritanos começaram a se organizar contra a igreja em 529 d.C., o imperador Justiniano declarou o Samaritanismo ilegal e igreja foi transformada em uma espécie de fortaleza, de onde os Romanos lutaram contra os Samaritanos.


No início do séc. 8, com o aumento do poder do Islã, a igreja foi abandonada e a região de Canaã logo tomada. No séc. 16, Gerizim se tornou a maqam/tumba do Sheique Ghanem, um dos comandantes do famoso rei Salah al-Din, sultão do Egito e Síria. As atuais ruínas do local foram escavadas e amplamente estudadas pelo arqueólogo Yitzhak Magen.


João 4

[Jesus] Deixou a Judéia e voltou para a Galiléia. Ora, devia passar por Samaria [essa notação é curiosa, pois o caminho dos Judeus entre a Judéia e a Galiléia não passava por Samaria]. Chegou, pois, a uma localidade de Samaria chamada Sicar, junto das terras que Jacó dera a seu filho José. Ali havia o poço de Jacó. E Jesus, fatigado da viagem, sentou-se à beira do poço. Era por volta do meio-dia. Veio uma mulher de Samaria tirar água. Pediu-lhe Jesus: Dá-me de beber. (Pois os discípulos tinham ido à cidade comprar mantimentos.) Aquela Samaritana lhe disse: Sendo tu Judeu, como pedes de beber a mim, que sou Samaritana!... (Pois os Judeus não se comunicavam com os Samaritanos.) ... Senhor, disse-lhe a mulher, vejo que és profeta! Nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar.


Curiosamente, o destino do Templo de Jerusalém espelhou seu irmão, quase 200 anos depois. O Templo, assim como a cidade sagrada, foram saqueados, incendiados e demolidos pelas legiões em 70 d.C., após um longo cerco, durante a 1ª guerra judaico-romana.


Uns 60 anos mais tarde, o imperador Hadriano empreendeu obras de revitalização e, no lugar do Templo de Jerusalém, ergueu um Templo de Vênus. Jerusalém foi reformada e recebeu o nome de Aelia Capitolina.


Após a ocupação Muçulmana, no séc. 7, o local do Templo foi transformando na mesquita de Al Aqsa, onde fica o santuário do Domo da Rocha, que permanece lá até hoje.


O Cristianismo começou com a pregação no Templo de Jerusalém, entre os Judeus, onde provavelmente Pedro, Estevão e Tiago Boanerges foram líderes. Outra vez de forma hilária, o NT traz 4 Evangelhos: 3 deles baseados no ensino de Pedro e Paulo (Lucas em especial se dedica a mostrar isso, no livro de Atos), e 1 deles (João) com grandes chances de ter emergido de uma comunidade Samaritana.


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ESCRITOS NUMA PEDRA DA MONTANHA


Bourgel J, The destruction of the Samaritan Temple by John Hyrcanus: a reconsideration. Journal of Biblical Literature, v. 135, n. 3, p. 505-523, 2016.


John Hyrcanus - wikipedia


JoLynne M, A Samaritan Temple to rival Jerusalem on Mount Gerizim, Studia Antiqua, v. 16, n. 1, p. 21-29, 2017.


Kirby P, http://www.earlyjewishwritings.com, 2013


Magen Y, The temple on Mount Gerizim, Israel Antiquities Authority.


Mount Gerizim - biblewalks.com


Mount Gerizim and the Samaritans, whc.unesco.org, abr/2012


Sauter M, The temple on Mount Gerizim - In the Bible and Archaeology, Bible History Daily, biblicalarchaeology.org, ago/2019.


Steve, Shmuel Browns on Mount Gerizim, israelseen.com, jul/2012.


Talmude online

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Sabbath Matters - a questão do Sábado



O título acima é uma brincadeira com a peça Stabat Mater (mãe que fica junto) de Pe. Antônio Vivaldi, convertida em algo como "O Sábado Importa". Você pode clicar AQUI para ouvir a peça enquanto lê.

PRECISA-SE DE UMA PISCINA

Tudo começou no tempo do rei Ezequias (séc. 8 a.C.), quando foram feitas várias obras para garantir o fornecimento de água a Jerusalém. Uma pequena represa foi feita fora das muralhas da cidade para armazenar as águas das chuvas e chamaram-na “Açude superior”, porque se comunicava por aqueduto e um canal cortado na rocha com um tanque mais abaixo, dentro da cidade.

O rei da Assíria enviou ao rei Ezequias, em Jerusalém, seu general, seu oficial principal e seu comandante de campo com um grande exército. Eles subiram a Jerusalém e pararam no aqueduto do açude superior, na estrada que leva ao campo do Lavandeiro. (2ª Reis 18.17)

Tratava-se de uma trilha descendo pela lateral da muralha da cidade. O mesmo local é mencionado pelo profeta Isaías muito tempo depois, durante a conquista de Judá pelos exércitos dos Caldeus:

Saiam, você [Isaías] e seu filho Sear-Jasube, e vão encontrar-se com [o rei de Judá] Acaz no final do aqueduto do açude Superior, na estrada que vai para o campo do Lavandeiro. (Isaías 7.3)

Isaías viu a destruição do Templo de Salomão em 587 a.C., após um longo cerco, quando Babilônia conquistou Canaã. Duas gerações depois, após a libertação dos cativos, Dario I da Pérsia ordenou a reconstrução do Templo (~516 a.C.). Como parte de sua política para “apagar” as marcas deixadas pela linhagem de Nabucodonosor, o novo Templo ficou ainda maior do que o primeiro.

"A glória deste novo templo será maior do que a do antigo", diz o Senhor dos Exércitos. "E neste lugar estabelecerei a paz", declara o Senhor dos Exércitos. (Ageu 2.9)

Após a invasão grega nos tempos de Alexandre, o Grande (~330 a.C.), os sacerdotes do templo passaram a ser de linhagem grega. Um desses sacerdotes, Simão II, o Justo (~200 a.C., 3º Livro dos Macabeus 2.1) mandou que um outro tanque alimentado pelo Açude Superior fosse construído mais abaixo, encrustado na rocha, mas dessa vez fora das muralhas da cidade. Talvez essa fosse uma medida para prover um ponto de água aos gregos dissidentes da fé judaica. Nesse tempo, em que a religião judaica chegou a ser banida, um altar a Zeus foi construído no Templo, onde havia o sacrifício de porcos. O novo tanque provavelmente foi dedicado ao deus da cura Asclepius (o mesmo patrono da medicina) e certamente as águas do tanque eram consideradas curativas. Para os gregos e judeus, com o tempo tornou-se um ponto de busca dos enfermos, ao qual se chegava descendo 13 m por uma escadaria esculpida na rocha. Um local apertado, em cujos degraus onde deviam acumular-se leprosos e aleijados de toda a região.

Em 167 a.C., uma revolta dos judeus recuperou o controle do Templo para a sua fé. Os reis Hasmoneus, como se chamavam, tornaram Israel mais ou menos independente do império grego ao redor e Jerusalém voltou a ser uma cidade sagrada dos judeus. Quando os romanos chegaram e tomaram toda a região em 63 a.C., o Templo sofreu poucos danos. Herodes I, o Grande, foi o primeiro rei romano a governar a Judéia. Ele ordenou extensas reparações no Templo, de forma a conquistar a admiração dos judeus. Após restaurado, o Templo até ficou conhecido como Templo de Herodes. Seu filho, Herodes Antipas, governava a Judéía quando Jesus nasceu. 

Jesus visitou o tanque fora das muralhas, então chamado Betesda², quando esteve em Jerusalém para a comemoração do Purim ou da Páscoa¹. Betesda significava “Casa da piedade” ou “Casa da desgraça”, sendo um lugar onde os proscritos se ajuntavam.

Há em Jerusalém, perto da porta das Ovelhas, um tanque que, em aramaico, é chamado Betesda, tendo cinco entradas em volta. Ali costumava ficar grande número de pessoas doentes e inválidas: cegos, mancos e paralíticos. Eles esperavam um movimento nas águas. De vez em quando descia um anjo do Senhor e agitava as águas. O primeiro que entrasse no tanque, depois de agitada as águas, era curado de qualquer doença que tivesse. (João 5.2-4)

A tradição do anjo é bastante estranha ao judaísmo tradicional, mas é facilmente compreensível num contexto pagão ou que misturasse elementos judaicos e gregos. A frase usada por Jesus ao ver o homem paralítico “Queres ser curado?” mostra que ele conhecia o funcionamento daquele lugar. A frase registrada por João é ὑγιὴς γενέσθαι (hygies genesthai; Queres ser limpo?). Trata-se de uma frase abundante nos textos sobre o deus Asclépio, como uma invocação de seus poderes de “limpeza”, mas que também se aproximava muito ao conceito mosaico de “limpar uma maldição”.

Digam o seguinte aos israelitas: Quando um homem tiver um fluxo que sai do corpo, o fluxo é impuro. … Quando sarar de seu fluxo, contará sete dias para a sua purificação; lavará as suas roupas e se banhará em água corrente, e ficará puro. (Levítico 15.13)

Purifica-me [Deus] com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e mais branco do que a neve serei. (Salmos 51.7)

O Batismo e a “Lavagem dos pés” dos discípulos não deixam de ser rituais de purificação semelhantes, bem conhecidos dos Judeus e de Jesus. No entanto, ali naqueles degraus apertados da piscina de Betesda, o Messias não mandou que o homem paralítico se banhasse, nem ordenou que qualquer discípulo o ajudasse a fazer isso.

O único indício que temos de haverem outras pessoas ali é a fala do homem paralítico "Senhor, não tenho ninguém que me ajude a entrar no tanque quando a água é agitada. Enquanto estou tentando entrar, outro chega antes de mim" (João 5.7), que mostra uma competição "entre os necessitados" e ainda a crença dele a respeito da "limpeza" a que Jesus se referia. Em outras palavras, nem mesmo esse homem reconheceu Jesus como alguém que promovia curas e milagres. Jesus e o narrador (João) nada falam sobre quaisquer outras pessoas nesse cenário.

O QUE VOCÊ DISSE MESMO?

Então Jesus lhe disse: "Levante-se! Pegue a sua maca e ande". Imediatamente o homem ficou curado, pegou a maca e começou a andar. Isso aconteceu num sábado. (João 5.8,9)

Essa cura escandalizou tanto os Fariseus quanto o fato de ter sido realizada em um Sábado. Primeiro, era um sinal indelével da associação entre Jesus e o Altíssimo, sem passar pelas castas farisaicas, algo como um “santo fora da Igreja”. Uma nova prova escancarada seria fornecida com a ressurreição de Lázaro. Além disso, a Lei proibia qualquer coisa que se fizesse num Sábado, pois até Deus havia descansado nesse dia. A terra devia descansar, assim como os animais, escravos, servos e todo homem ou mulher. Antes mesmo da Lei, o maná vinha em dobro na 6ª feira para que os judeus não precisassem recolhe-lo no Sábado. Para uma cura ocorrida nesse dia, a Lei estabelecia que a pessoa deixasse seus pertences para trás e fosse para casa, ou permanecesse no mesmo lugar até o fim do dia. Não era aceitável carregar a maca ou cama.

Mais tarde, no serviço religioso do Templo de Herodes, após encontrar o homem e ser questionado pelas pessoas sobre o que ocorreu, Jesus ainda arrematou:

"Meu Pai continua trabalhando até hoje, e eu também estou trabalhando". (João 5.17)

Essa frase despertou o ódio dos judeus (João escreve assim), de forma que passaram a ver em Jesus uma grave afronta a sua religiosidade, muito mais do que alguém capaz de curar. Ele ao mesmo tempo violava a Lei, afirmava que Deus trabalhava no dia do Seu descanso, chamava-o intimamente de Pai e deixava uma testemunha para que todos a vissem, inclusive no Templo. Seria o equivalente, talvez, de alguém testemunhando um irrevogável milagre feitos pelo nosso famoso Inri Cristo (originalmente Álvaro Thais). Jesus declarava abertamente (e provavelmente no Templo e nas sinagogas) que as Escrituras falavam sobre Ele. Voltando à Galiléia, temos Jesus um tempo depois envolvido na Multiplicação dos Pães. No final do ano, quando Ele regressaria a Jerusalém para a Festa dos Tabernáculos, a fama de seu feito ainda percorria a região e Ele preferia não andar junto de seus seguidores.

A Festa dos Tabernáculos ocorre em Outubro, cerca de 6 meses depois. Por ocasião da Festa, os judeus deveriam habitar por 1 semana em tendas comuns, construídas nas ruas, a partir de árvores e folhas. É uma lembrança dos tempos nômades, que João marca apenas esta vez, apesar de ser uma festa anual.

Diga ainda aos israelitas: No décimo quinto dia deste sétimo mês começa a Festa das Cabanas do Senhor, que dura sete dias. … No primeiro dia vocês apanharão os melhores frutos das árvores, folhagem de tamareira, galhos frondosos e salgueiros, e se alegrarão perante o Senhor, o Deus de vocês, durante sete dias. Comemorem essa festa do Senhor durante sete dias todos os anos. Este é um decreto perpétuo para as suas gerações; comemorem-na no sétimo mês. Morem em tendas durante sete dias; todos os israelitas de nascimento morarão em tendas, para que os descendentes de vocês saibam que eu fiz os israelitas morarem em tendas quando os tirei da terra do Egito. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês". (Levítico 23.40-43)

Era sem dúvida uma ocasião de comunhão entre os judeus e Jesus não passaria despercebido.

UM MESSIAS NOTÓRIO

Na festa, os judeus o estavam esperando e perguntavam: "Onde está aquele homem?". Entre a multidão havia muitos boatos a respeito dele. Alguns diziam: "É um bom homem". Outros respondiam: "Não, ele está enganando o povo". Mas ninguém falava dele em público, por medo dos judeus. Quando a festa estava na metade, Jesus subiu ao templo e começou a ensinar. (João 7.11-14)

Evidentemente que Lhe perguntaram sobre a cura no Sábado em Betesda. Jesus mesmo estava impressionado de apenas aquilo haver chamado tanta atenção, quando Ele já tinha atrás de si vários outros “sinais” (como João chama os milagres de Jesus). Certamente, eram tidos por boatos. Mas aquele, por outro lado, havia ferido a tradição religiosa bem perto do seu coração, num local judaico-pagão dado aos excluídos, bem ao lado do Templo. Ao invés de repetir o ousado “Meu pai trabalha e eu também”, seu argumento desta vez foi simples, afiado e (novamente) desafiador: Moisés também mandara circuncidar os garotos 8 dias após nascerem, mesmo sendo Sábado, pois a Circuncisão era anterior à Lei. Curar aquele homem exigira menos trabalho do que circuncidar, então quem violava o Sábado? “Não julguem apenas pela aparência, mas façam julgamentos justos" (João 7.24)

O apelo à razão era bem diferente do conceito de autoridade propagado pela elite dos Fariseus e Saduceus. Pior, esse apelo os invalidava e, por causa disso, organizava-se, já havia alguns meses, desde Betesda, um movimento para deter Jesus. Não pelo milagre da cura, mas pela representatividade social que Ele começava a ter em Jerusalém. Era um Galileu - sempre lembravam isso - portanto um homem destituído da “santidade” dos judeus; não era fariseu; não era educado nos pormenores da Lei de Moisés e nem na lei romana.

No último e mais importante dia da festa, Jesus levantou-se e disse em alta voz: "Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva". (João 7:37,38)

Essa fala, muito semelhante ao discurso com a mulher samaritana, foi seguida por grande contenda entre os judeus. Mandaram guardas para prender Jesus e mesmo esses se desculparam, ressaltando que ninguém falava como aquele homem.

"Será que vocês também foram enganados? ", perguntaram os fariseus. "Por acaso alguém das autoridades ou dos fariseus creu nele? Não! Mas essa ralé que nada entende da lei é maldita". (João 7.47-49)

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¹ Há bastante controvérsia sobre a festa relatada em João 5.1. O evangelista não explica de que festa se trata. Em João 7.1,2, Jesus volta de percorrer a Galiléia para a Festa dos Tabernáculos (Sukkot), festejada em Outubro. Em João 6.4, Jesus estava nas margens do mar de Genesaré e fica assinalada a Páscoa, comemorada em Abril, após o que Ele vai para a Galiléia. Em João 4.35, é relatado que faltam 4 meses para a colheita, o que colocaria Jesus no mês de Janeiro, seguindo depois para a Samaria. Como João nomeia as Páscoas, seria de se pensar que a festa de João 5.1 não seja uma delas, para a qual Jesus voltaria da Samaria. Entre Janeiro e a Páscoa em Abril, haveria a festa de Purim, comemorada em Março.

No entanto, essa lógica não considera que a festa de Purim é comemorada em todo lugar, não requerendo que os judeus fossem a Jerusalém. E seria difícil pensar que o Messias fosse para lá em Março, seguisse para a Galiléia e depois voltasse em Abril. Muitos estudiosos consideram ainda que João escreve que era “a festa dos judeus” e assim marcasse de um modo diferente essa Páscoa. Considerando que a festa de João 5.1 se tratasse de uma Páscoa, Jesus teria permanecido aproximadamente 3 anos e meio em seu ministério (ao invés de 2 anos e meio), algo semelhante às 119 semanas profetizadas por Daniel 9.24-27.

² Essa piscina ficou por muito tempo sem ser encontrada, o que fez ela ser vista, até meados dos anos de 1970, como uma lenda ou um erro de descrição do local. Lembrando que Jerusalém foi devastada pelos romanos no ano 70 d.C. e nem o Templo sobreviveu a isso, muitos cenários do VT e NT jamais foram encontrados. Quando encontraram Betesda, entretanto, logo acima dela estavam ruínas de uma igreja da época das Cruzadas (séc. 10) com uma pintura da cena do anjo tocando a água. Não há certeza se os cruzados conheciam a real natureza da piscina (haviam várias outras na região), mas é possível que Betesda ainda tenha servido como local sagrado (cristão) por algum tempo.

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LEIA DURANTE O BANHO

John 7:21 - Bible Hub
Ministério ensinando de Sião - A Festa dos Tabernáculos (Sucôt ou Cabanas)
Pool of Bethesda - wikipedia