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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A carne e o sangue

Imitação grotesca da obra de Leonardo da Vinci, em 1495-1498

Às vezes nos deparamos com uma passagem chocante na Bíblia. Embora sejam mais comuns no Velho Testamento (talvez devido ao quanto nossos valores morais e costumes mudaram), o Novo Testamento também tem suas pérolas dignas de filmes ou, mais propriamente, de guerras teológicas. Uma delas está no célebre pronunciamento de Jesus em alguma sinagoga de Cafarnaum:

Eu sou o pão da vida. Aquele que vem a mim nunca terá fome; aquele que crê em mim nunca terá sede. … Aqui está o pão que desce do céu, para que não morra quem dele comer. Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer deste pão, viverá para sempre. Este pão é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo. … Eu lhes digo a verdade: Se vocês não comerem a carne do Filho do homem e não beberem o seu sangue, não terão vida em si mesmos. Todo o que come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida. Todo o que come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Da mesma forma como o Pai que vive me enviou e eu vivo por causa do Pai, assim aquele que se alimenta de mim viverá por minha causa. (João 6)

A tradição nos leva a pensar tranqüilamente numa ligação com a Última Ceia, em que Jesus reparte o vinho e o pão com seus discípulos. No entanto, é notável que esse pronunciamento escandaloso só é relatado por João, o discípulo amado. Bem, João é conhecido por expor discursos profundos de Jesus, mas a versão dele da Última Ceia nem cita Jesus repartindo a comida. Em especial, não diz nada sobre pão e vinho. Na mesa da Ceia tudo bem, mas seria estranho falar de pão e vinho numa sinagoga. Ao invés disso, na referida ceia, o Messias de João se põe a ensinar humildade lavando os pés dos discípulos, a começar por Pedro. Como sempre, fica a dúvida entre os relatos de João e os Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas). Dentro do “universo de João”, o discurso de Jesus seria mais conectado a outra fala também só apresentada por ele, entre Jesus e uma samaritana:

Se você conhecesse o dom de Deus e quem lhe está pedindo água, você lhe teria pedido e ele lhe teria dado água viva. … Quem beber desta água [do poço] terá sede outra vez, mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Pelo contrário, a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna. (João 4)

Da cena no poço de Jacó, fica evidente que Jesus costumava nomear coisas espirituais como elementos do mundo físico. Se Ele não era o homem-água, talvez possamos ficar mais tranqüilos quanto ao fato de Ele incitar as pessoas a comerem sua carne e beberem seu sangue. Mas os homens na sinagoga não entenderam assim. Levaram ao pé da letra e, de fato, muitos discípulos se afastaram depois desse discurso. Não parecia (e ainda não parece) linguagem figurada. Afinal, o Messias primeiro se nomeia o pão-da-vida, depois manda que O comam e arremata dizendo que é necessário come-Lo e beber Seu sangue! Do que Jesus falava, afinal?

O SIGNIFICADO DO SANGUE E DA CARNE

No Velho Testamento, “sangue” sempre está associado a uma morte violenta, seja por sacrifício ou ou assassinato. Um aparecimento disso está na ocasião em que Abner, um dos generais de Saul (então rei), morre após negociar com Davi:

[Lamento de Davi] Eu e o meu reino, perante o Senhor, somos para sempre inocentes do sangue de Abner, filho de Ner. Caia a responsabilidade pela morte dele sobre a cabeça de Joabe e de toda a sua família! (2ª Samuel 3.28,29)

Outro exemplo (também de Davi) está em sua súplica pela vida durante os anos em que Saul o perseguia:

[Senhor] Que proveito há no meu sangue, quando desço à cova? Porventura te louvará o pó? Anunciará ele a tua verdade? (Salmo 30.9)

Na mesma linha de raciocínio, “comer a minha carne” está ligado a “beneficiar-se com a minha morte”:

Quando os malvados, meus adversários e meus inimigos, se chegaram contra mim, para comerem as minhas carnes, tropeçaram e caíram. (Salmo 27.2)

Numa ocasião em que Davi tentava recuperar Belém dos Filisteus, ele comentou o quanto gostaria de beber da água do poço de Belém. Seus mais valorosos guerreiros então se infiltraram através do campo inimigo e trouxeram tal água para Davi. Ressentido de ter arriscado por tão pouco a vida deles, Davi resmunga:

Nunca meu Deus permita que faça tal! Beberia eu o sangue destes homens com as suas vidas? Pois com perigo das suas vidas a trouxeram [a água]. E ele não a quis beber. (1ª Crônicas 11.19)

Nesse trecho, “beber do sangue” também é usado com o sentido de “aproveitar-se da morte violenta de outro”. Dessa forma, é provável que as palavras alarmantes de Jesus fossem uma indicação de que os homens precisariam aproveitar de Sua morte para serem salvos. Apenas lembrando, contudo, muitos discípulos se constrangeram após tomar literalmente o sentido de comer Sua carne e beber Seu sangue.

A QUESTÃO DA CEIA EM JERUSALÉM

Obviamente, durante a ceia que antecedia a Páscoa, Jesus não disse “isso é um símbolo do meu corpo e aquilo é um símbolo do meu sangue”. Ele foi muito específico em suas palavras.

E, comendo eles, tomou Jesus pão e, abençoando-o, o partiu e deu-lho, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo. E, tomando o cálice, e dando graças, deu-lho; e todos beberam dele. E disse-lhes: “Isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que por muitos é derramado. Em verdade vos digo que não beberei mais do fruto da vide, até àquele dia em que o beber, novo, no reino de Deus.” E, tendo cantado o hino, saíram para o Monte das Oliveiras. (Marcos 14.22-26)

O argumento das palavras de Jesus é fortemente usado pelos católicos ao defender a “transubstanciação”, em que o pão e o vinho se transformariam materialmente no corpo e sangue de Jesus. Em sua 1ª carta à igreja de Corinto, Paulo interpreta essa cena como um sinal da comunhão dos cristãos com Jesus.

Não é verdade que o cálice da bênção que abençoamos é uma participação no sangue de Cristo, e que o pão que partimos é uma participação no corpo de Cristo? Por haver um único pão, nós, que somos muitos, somos um só corpo, pois todos participamos de um único pão. (1ª Coríntios 10.16,17)

A esse respeito, Paulo vai ainda mais fundo quando nos descreve uma revelação que ele teve a partir do próprio Jesus.

Pois recebi do Senhor o que também lhes entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão e, tendo dado graças, partiu-o e disse: "Isto é o meu corpo, que é dado em favor de vocês; façam isto em memória de mim". Da mesma forma, depois da ceia ele tomou o cálice e disse: "Este cálice é a nova aliança no meu sangue; façam isto, sempre que o beberem, em memória de mim" (1ª Coríntios 11.23-25)

É surpreendente que Paulo tenha recebido revelações sobre uma cena anterior a sua conversão. A semelhança com o relato de Marcos é notável. Historicamente, Paulo escreveu sua carta aos Coríntios por volta de 40 d.C., enquanto o evangelho de Marcos data de 75-80 d.C. Sabemos do livro de Atos que Paulo e João Marcos conviviam.

Percebendo isso, ele [Pedro] se dirigiu à casa de Maria, mãe de João, também chamado Marcos, onde muita gente se havia reunido e estava orando. (Atos 12.12)

Tendo terminado sua missão, Barnabé e Saulo voltaram de Jerusalém, levando consigo João, também chamado Marcos. (Atos 12.25)

Alguns historiadores até mesmo apontam algumas cartas de Paulo como fonte de trechos dos evangelhos, em especial alguns como este descrevendo a Última Ceia. Curiosamente, Paulo teria recebido essa descrição como uma revelação e João Marcos, talvez um participante presencial da Ceia, o teria incluído em sua narrativa, sendo reproduzido por Mateus e Lucas, também participantes. O evangelho de João, feito de forma independente e com propósitos de catequese, ficou com o discurso constrangedor de Jesus que descrevemos anteriormente. É provável que a cena da Ceia não pudesse acrescentar nada de mais chamativo do que aquilo.

Irmãos, quero que saibam que o evangelho por mim anunciado não é de origem humana. Não o recebi de pessoa alguma nem me foi ele ensinado; pelo contrário, eu o recebi de Jesus Cristo por revelação. (Paulo aos Gálatas 1.11,12)

Um documento muito antigo do ano 60 d.C., recuperado no séc. 19, chamado Didaquê (ensino) ou Ensino dos Doze Apóstolos, entretanto, traz uma versão bem distinta da Última Ceia:

Celebre a Ceia do Senhor assim: Diga primeiro sobre o cálice "Nós te agradecemos, Pai nosso, por causa da santa vinha do teu servo Davi, que nos revelaste através do teu servo Jesus. A ti, glória para sempre". Depois diga sobre o pão partido: "Nós te agradecemos, Pai nosso, por causa da vida e do conhecimento que nos revelaste através do teu servo Jesus. A ti, glória para sempre. (Didaquê 9:1-3)

Esse conteúdo é bem simples, semelhante à 1ª parte da descrição de Marcos:

E, comendo eles, tomou Jesus pão e, abençoando-o, o partiu e deu-lho, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo. E, tomando o cálice, e dando graças, deu-lho; e todos beberam dele. (Marcos 14.22,23)

A famosa exortação em relação ao corpo e o sangue sendo servidos na Ceia, que provavelmente se originou em Paulo (e concordava com o ensino de João, embora não factualmente) foi adicionada a partir deste ponto. Assim, uma interpretação intimista da linguagem figurada de Jesus na sinagoga de Cafarnaum pode ter sido convertida em um comportamento e falas simbólicos na situação da Ceia, usada exaustivamente como método de Catequese.

Sem dúvida, a inclusão foi seguida desde cedo pelos cristãos. Inácio de Antioquia, que tinha sido um discípulo de João e que escreveu uma carta à igreja de Smyrna em 110 d.C., disse, sobre "aqueles que sustentam opiniões heterodoxas", que "se abstêm das Eucaristia e da oração, porque eles não confessam que a Eucaristia é a carne de nosso Salvador Jesus Cristo, carne que sofreu por nossos pecados e que o Pai, em sua bondade, ressuscitou". (The Epistle of Ignatius to the Smyrnaeans cap. 6-7)

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PARA LER ALMOÇANDO

Andrew M. Fountain, Eating Christ's Flesh and Drinking His Blood Part 1
Catholic Answers, Christ in the Eucharist, 2004
Instrução (didática) – tradução grega para DOUTRINA DOS APÓSTOLOS
La Vista Church of Christ - Questions and Answers

terça-feira, 1 de julho de 2014

Platão e o pecado da carne



_ Belo filho, disse o Eremita, todo homem tem alguma semelhança de Deus, porque todo homem é bom enquanto é criatura, e enquanto existe com entendimento e vontade. A bondade que o homem tem é semelhante à Bondade de Deus, porque a Bondade, que é de Deus, coloca semelhança de si mesma no entendimento e na vontade do homem. E como o homem tem alguma semelhança de Deus, tem por natureza amar e conhecer seu semelhante, isto é, Deus. Mas como o homem não sabe nem deseja usar sabiamente a semelhança que tem com Deus, atenta contra sua própria semelhança e contra Deus. Por isso cada homem deseja ser Deus. Logo, a desordem dos homens que não amam um Deus faz o mundo estar em sofrimento, em desordem e erro, e Deus lhes dá liberdade para que possam amá-Lo e conhecê-Lo, para que sejam glorificados se livremente e sem constrangimento de vontade desejem amá-Lo e conhecê-Lo.

(Ramon Lull, Félix o El Libre de meravelles, 1288)

O grego Platão definiu o mundo como composto por algo Ideal (literalmente, derivado das idéias) e algo Perceptível, ou que conhecemos. O Mundo feito por Deus Perfeito, segundo a filosofia de Platão, é perfeito. No entanto, para conhecermos o mundo, nós precisamos de sensações que são limitadas e, portanto, imperfeitas. Ele queria dizer com isso que não vemos todos os detalhes, não ouvimos todas as nuances, não sentimos todos os sabores e talvez até não tenhamos meios de provar ou experimentar tudo o que há no mundo. Então, nosso Mundo Interior, é imperfeito e distinto do Mundo feito por Deus. Essa distinção de Platão é interessante quando tomamos que EM NOSSA IDÉIA existe um mundo “perfeito” que deriva de SENSAÇÕES IMPERFEITAS sobre um mundo criado por DEUS PERFEITO. A pessoa que você mais ama sempre é, para você, mais bela do que o perceptível, e distinta da pessoa que Deus criou.

Platão coloca o mundo perceptível como um gargalo entre a realidade de Deus e a realidade do homem, com a limitação das sensações divergindo uma coisa da outra. A carne, em outras palavras, faz o imperfeito. Seu exemplo mais notável disso (exemplo = demonstração imaginativa, como Ramon Lull também faz) certamente foi a alegoria da caverna. Num de seus livros, ele descreve uma caverna onde pessoas vivem enxergando sombras projetadas em uma parede, e acreditando que elas representam o mundo. Platão emendava que era dever do filósofo deixar a caverna e aventurar-se na luz do sol, para ver o que as coisas realmente eram.

Na filosofia judaica, também havia o Deus perfeito e o homem imperfeito, por uma questão de poder. Também, enquanto os gregos colocavam o perfeito e o imperfeito como misturados no mundo e no homem, os judeus definiam pessoas e objetos.

O homem nascido de mulher vive pouco tempo e passa por muitas dificuldades. … Fixas o olhar num homem desses? E o trarás à tua presença para julgamento? Quem pode extrair algo puro da impureza? Ninguém! Os dias do homem estão determinados; Tu [Senhor] decretaste o número de seus meses e estabeleceste limites que ele não pode ultrapassar. (Jó 14.3-5)

E porque Jó era impuro, se até o Senhor o elogiava? Porque era mortal, e se sabia fraco. Da corrupção de Adão leváramos esse fardo, de falha do homem quanto ao ideal (platônico) de não sentir dor, não adoecer, não morrer. Mas Deus inspirava a perfeição ao homem caído:

A lei do Senhor é perfeita, e revigora a alma. Os testemunhos do Senhor são dignos de confiança, e tornam sábios os inexperientes. Os preceitos do Senhor são justos, e dão alegria ao coração. Os mandamentos do Senhor são límpidos, e trazem luz aos olhos. O temor do Senhor é puro, e dura para sempre. As ordenanças do Senhor são verdadeiras, são todas elas justas. São mais desejáveis do que o ouro, do que muito ouro puro; são mais doces do que o mel, do que as gotas do favo. (Salmo 19.7-10)

Assim diz o Senhor: "Não se glorie o sábio em sua sabedoria nem o forte em sua força nem o rico em sua riqueza, mas quem se gloriar, glorie-se nisto: em compreender-me e conhecer-me, pois eu sou o Senhor, e ajo com lealdade, com justiça e com retidão sobre a terra, pois é dessas coisas que me agrado" (Jeremias 9.23-24)

Por outro lado, haviam pessoas puras e impuras, nações puras e nações impuras, Deus e os ídolos. O homem puro era sábio, saudável (especialmente sem lepra), forte, valente e seguia os mandamentos de Deus; o impuro era a antítese disso.

Quem anda direito teme o Senhor, mas quem segue caminhos enganosos o despreza. (Provérbios 14.2)

Assim diz o Soberano Senhor: Já bastam suas práticas repugnantes, ó nação de Israel! Além de todas as suas outras práticas repugnantes, vocês trouxeram estrangeiros incircuncisos no coração e na carne para dentro do meu santuário, profanando o meu templo enquanto me ofereciam comida, gordura e sangue, e assim vocês romperam a minha aliança. … [Os sacerdotes] Eles ensinarão ao meu povo a diferença entre o santo e o comum e lhe mostrarão como fazer distinção entre o puro e o impuro. (Ezequiel 44.6-23).

O próprio profeta Isaías se declara (ao Senhor) um homem impuro, de impuros lábios. É preciso notar, portanto, que mesmo o homem puro (que teme ao Senhor) era impuro perante Deus, e “puro” ou “impuro” tratavam-se de classificações comparativas: alguém era puro EM RELAÇÃO A OUTRO.

As invasões gregas e romanas certamente desorganizaram a filosofia hebraica, trazendo a necessidade de convivência com povos estrangeiros EM SUA TERRA SANTA. Para preservar o povo dos costumes estrangeiros e ao mesmo tempo não afrontar os estrangeiros, tudo mudou. Cabia aos sacerdotes definir o que era puro e impuro, mas estes estavam sob o poder purificador do Estado. Na implantação do governo romano, um certo Judas Macabeu liderou uma rebelião contra os sacerdotes gregos no Templo:

[Judas Macabeu] Escolheu sacerdotes sem mancha e zelosos pela lei, os quais purificaram o templo, transportando para um lugar impuro as pedras contaminadas. Consultaram-se entre si, o que se deveria fazer do altar dos holocaustos, que havia sido profanado, e tomaram a excelente resolução de demoli-lo, para que não recaísse sobre eles o opróbrio vindo da mancha dos gentios. Destruíram-no, portanto, e transportaram suas pedras a um lugar conveniente sobre a montanha do templo, aguardando a decisão de algum profeta a esse respeito. Tomaram pedras intactas, segundo a lei, e construíram um novo altar, semelhante ao primeiro. (1ª Macabeus 4.42-47)

A re-organização do Estado judeu após a chegada dos gregos e romanos deixou do antigo império somente a classe dos sacerdotes Saduceus e Fariseus. Purificados pela tutela estatal, os sacerdotes mais e mais SE DENOMINARAM puros. E tal pureza era sobretudo dependente deles, a ponto de que Jesus, ao entrar no Templo (onde havia sim a porta dos pagãos), se deparou irritado com um intenso comércio ali. Os valores sagrados, veja-se bem, agora apostavam na economia, no lucro e na aliança política com os governantes romanos. Jesus mesmo foi declarado impuro (e merecedor da morte, além de cuspido e estapeado) pelos sacerdotes do Templo porque se dizia rei dos judeus, profanando a autoridade ... de César. Na sua definição herege (pois contrariava a do sagrado Sinédrio) do que era puro ou impuro, Ele dizia:

Será que vocês também não conseguem entender? Não percebem que nada que entre no homem pode torná-lo ‘impuro’? Porque não entra em seu coração, mas em seu estômago, sendo depois eliminado". Ao dizer isto, Jesus declarou "puros" todos os alimentos. E continuou: "O que sai do homem é que o torna ‘impuro’. Pois do interior do coração dos homens vêm os maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os roubos, os homicídios, os adultérios, as cobiças, as maldades, o engano, a devassidão, a inveja, a calúnia, a arrogância e a insensatez. Todos esses males vêm de dentro e tornam o homem ‘impuro’. (Marcos 7.18-23)

De forma sutil, Jesus colocava um ponto temporal precioso na definição de pureza, que desbancava os religiosos. Ninguém seria puro porque cumpriu a lei (no passado) ou foi aprovado por um poder estatal, mas porque pratica amor aqui e agora. Para mostrar na prática onde isso levava, Ele não se importou de comer com publicanos, leprosos, etc. Na verdade, os convidava a segui-Lo como fazia a pescadores e fariseus que encontrava. Jesus oferecia o Reino de Deus aos pobres e infelizes, excluídos da política e da santa categoria dos sacerdotes. Você pecou? Não peques mais, e siga-me. Talvez a falta de preocupação de Jesus em definir o puro e o impuro esteja na separação inata de passado e presente. Afinal, ninguém guardaria vinho novo em um odre velho...

Quando Paulo escreve sobre os frutos do espírito e os frutos da carne, ele retoma somente em nome a noção platônica de perfeito e imperfeito. Paulo era grego e chamava a carne de impura, mas de forma alguma ligava essa imperfeição à limitação dos sentidos ou à mortalidade humana. Entre os frutos da carne que ele lista (todos defeitos a se considerar), todos são - como Jesus ensinava - comportamentos.

O adultério (literalmente ad alterum torum, na cama de outro) era quebrar uma aliança sagrada, mostrar uma imagem (pura) que não corresponde à verdade. Em diversas vezes os profetas também já haviam repreendido o povo por “adulterarem” ou “se prostituírem” com os ídolos, bosques, paus e pedras que consideravam deuses. A fornicação ou imoralidade sexual vinha de fornicis, ou fornix, o arco da porta de casa ao qual as mulheres estavam confinadas e sob a qual as prostitutas romanas se exibiam. “Fujam da imoralidade sexual”, dizia ele, "este é um pecado contra o seu próprio corpo que é santuário do Espírito Santo” (1 Coríntios 6.18-20). A lascívia ou libertinagem era a irreverência com relação a dogmas e crenças oficialmente aceitos, era “se deixar descumprir” as leis, especialmente quanto a amar a Deus e ao próximo. As falhas no amar a Deus são nomeadas feitiçarias (conceder a si mesmo ou alguém os conhecimentos [sobre a relação de causa e conseqüência] e poderes [para alterar a relação de causa e conseqüência] que somente Deus possui) e idolatria (amar como deus uma criatura), enquanto as falhas em amar ao próximo são chamadas de inimizades, porfias, iras, ódios, dissenções, desavenças, egoísmo, etc.

Jesus havia já colocado um sentido mais profundo (ou seja, não literal) no entendimento da lei de Moisés: 

Vocês ouviram o que foi dito aos seus antepassados: ‘Não matarás’, e ‘quem matar estará sujeito a julgamento’. Mas eu lhes digo que qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento. Também, qualquer que disser a seu irmão: ‘Racá’ [inútil], será levado ao tribunal. E qualquer que disser: ‘Louco! ’, corre o risco de ir para o fogo do inferno. (Mateus 5.21-22)

Paulo estende esse raciocínio sutilmente às bebedices e glutonarias, que colocavam o prazer como propósito e fim do que se fazia, em detrimento do culto a Deus. Não que beber [vinho] e comer fossem proibidos, pois até Jesus se deleita dessas coisas, mas Paulo insiste em explicitar que não há distinção entre “fazer” e “fazer para Deus”.

Aquele que come de tudo não deve desprezar o que não come, e aquele que não come de tudo não deve condenar aquele que come, pois Deus o aceitou. Quem é você para julgar o servo alheio? … Há quem considere um dia mais sagrado que outro; há quem considere iguais todos os dias. … Aquele que considera um dia como especial, para o Senhor assim o faz. Aquele que come carne, come para o Senhor, pois dá graças a Deus; e aquele que se abstém, para o Senhor se abstém, e dá graças a Deus. … Se vivemos, vivemos para o Senhor; e, se morremos, morremos para o Senhor. Assim, quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor. (Romanos 14.3-8)

Mas Paulo era grego e não estava imune ao pensamento de Platão: ao comparar o perfeito e o imperfeito, Paulo insiste que a carne (e só agora ela volta a ser mencionada) impede o homem de conhecer a Deus. Não que ela seja maléfica, mas é imperfeita. Sair da caverna de Platão e abrir os olhos, para ele, correspondia a receber a iluminação do Espírito Santo (semelhante, de certa forma, à Sofia ou Sabedoria grega):

Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos; Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. (1ª Coríntios 13.9-12)

Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor. (2ª Coríntios 3:18)

Jesus e Paulo certamente conheceram aqueles que se impunham jejuns e sofrimentos para purificarem-se, para optarem ao espírito e não à carne (que Paulo teria esquecido talvez, se não fosse um certo “espinho” ou mostra de imperfeição do qual ele se envergonhava). Em alguns lugares, a privação dos sentidos era até o caminho para Deus, fazendo Platão se remexer embaixo da terra. Mas o Cristianismo chegou à Europa e Oriente Médio curiosamente levando menos a mensagem de Jesus sobre o ser perfeito pelo amor demostrado ou a mensagem de Paulo sobre ser inteiramente de Deus, e mais a vida separada e abstêmia de João Batista ou as discussões metafísicas a que Paulo tanto tendia. Além, claro, do ferrenho poder político-religioso de uma casta separada e perfeita como eram os Fariseus e Saduceus. Mas isso é assunto para outro papo.

Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e as luas novas, e os sábados, e a convocação das assembléias; não posso suportar iniqüidade, nem mesmo a reunião solene. As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as odeia; já me são pesadas; já estou cansado de as sofrer. Por isso, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. 

Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer mal. Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas. Vinde então, e ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã. (Isaías 1.13-18)

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PÕE A CULPA NELES

J. Manimtim, What Does Plato Have to Do with Christianity and the Concept of Soul? Part 1
J. Manimtim, What Does Plato Have to Do with Christianity and the Concept of Soul? Part 2

domingo, 23 de fevereiro de 2014

O gadareno e os porcos

um vídeo de Barry Cook

Existe uma passagem do ministério de Jesus que sempre me chamou à atenção, e eu gostaria de compartilhar as dúvidas e mistérios sobre esse trecho. Não vou colar ela aqui, para que você se dê ao trabalho de ler as versões dela. Trata-se da expulsão de um (ou mais) demônios na terra dos gadarenos, mais propriamente numa região conhecida como Decápolis. Você pode encontrar tal passagem em Mateus 8.28-34, Marcos 5.1-20 e Lucas 8.26-39. Os 3 evangelistas sinóticos (que narraram cronologicamente a vida de Jesus) contam sobre esse episódio, mas sobretudo João Marcos dá atenção a ele. Isso é relevante, pois João Marcos em geral é o mais sucinto dos evangelistas.

Essa passagem tem múltiplas interpretações, algumas literais, outras figurativas, e certamente não há como esgotar o assunto aqui. Apenas seria bom expor algumas idéias.

O ocorrido se deu na região conhecida como Decápolis, que é um nome greco-romano. Não se trata de uma cidade, mas de um “estado” formado por 10 cidades independentes que contavam com muitos privilégios junto a Roma, como terem cada qual a sua moeda, etc. Esses privilégios eram concedidos justamente às cidades que disseminavam a cultura romana no Oriente, como o culto ao imperador. Faziam parte da Decápolis as cidades-estado de Gerasa, Scythopolis (chamada Beth-Shean, em Israel), Hippos (ou Sussita), Gadara (Umm Qais), Pella, Philadelphia (atual cidade de Aman, capital da Jordânia), Capitolias (Beit Ras, ou ainda Dion), Canatha (Qanawat), Raphana e Damasco (atual capital da Síria).

mapa de Decápolis

Jesus e seus seguidores haviam saído de barco de Cafarnaum, até o outro lado do lago de Genesaré (mar da Galiléia), desembarcando nalgum local que Marcos chama de “terra dos gadarenos”. Provavelmente não haviam construções ali, ou o nome exato do lugar seria conhecido. Alguns dizem que essa foi uma das raras andanças do Messias em território gentio, mas os conflitos militares na região sugerem que, na verdade, tratava-se de um território judeu, pelo menos politicamente. Lá chegando, veio ao seu encontro um “homem com espírito imundo”, que “morava nos sepulcros”, ao qual “ninguém podia prender”. Marcos relata que ele “andava sempre, de dia e de noite, clamando pelos montes, e pelos sepulcros, e ferindo-se com pedras”. Precisamos entender bem o que isso significa, pois fará toda diferença na interpretação dos fatos.

Tradicionalmente, fala-se em um indivíduo possuído por demônios, que seriam expulsos pelo Messias. No entanto, o fato de andar dia e noite, clamando e ferindo-se, faria qualquer profissional de saúde atual pensar em um esquizofrênico, lunático (termo medieval) ou simplesmente louco. São de fato comportamentos bem típicos! No tempo de Jesus, os judeus associavam tanto as doenças físicas (ex. lepra) quanto mentais (ex. esquizofrenia) à possessão por demônios. Estar doente tornava o indivíduo “impuro”, alguém em quem ninguém queria sequer tocar. Freqüentemente esse “impuros” viviam no campo, próximos às cidades, vageando por onde achassem comida (ver 2ª Reis 7.8). Um cemitério gadareno não seria local improvável para habitarem.

O culto aos mortos era comum em Roma e na Grécia, e talvez alguns gadarenos mais "romanicizados" fossem adeptos disso. Isso faria dos cemitérios locais sagrados, onde seriam deixadas oferendas (de forma semelhante ao que vemos hoje no xintoísmo japonês, santeria caribeña e umbanda brasileira). Já pos cemitérios judeus eram locais "impuros", de onde as pessoas se afastavam. Talvez por isso o profeta Isaías tenha escrito 700 anos antes:

Fiz-me acessível aos que não perguntavam por mim; fui achado pelos que não me procuravam. A uma nação que não clamava pelo meu nome eu disse: ‘Eis-me aqui, eis-me aqui.’ O tempo todo estendi as mãos a um povo obstinado, que anda por um caminho que não é bom, seguindo as suas inclinações; povo que sem cessar me provoca na minha frente, oferecendo sacrifícios em jardins e queimando incenso em altares de tijolos; povo que vive nos túmulos e à noite se oculta nas covas, que come carne de porco, e em suas panelas tem sopa de carne impura.

Esse povo diz: ‘Afasta-te! Não te aproximes de mim, pois eu sou santo!’ Essa gente é fumaça no meu nariz! É fogo que queima o tempo todo! Vejam, porém! Escrito está diante de mim: Não ficarei calado, mas darei plena retribuição; eu lhes darei total retribuição, tanto por seus pecados como pelos pecados dos seus antepassados’, diz o Senhor. ‘Uma vez que eles queimaram incenso nos montes e me desafiaram nas colinas, eu os farei pagar pelos seus feitos anteriores.

Logo que Jesus desceu do barco, Marcos conta que o endemoniado veio correndo ao seu encontro, questionando-o: “Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes”. Mateus acrescenta: “Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo?”. Certamente o homem que se flagelava com pedras também se via como impuro e endemoniado, e realmente dizia 'Afasta-te!'. Não podemos afirmar que não fosse de fato um possuído, mas essa passagem chama a atenção, entre outras coisas, pelo comportamento estranho do “filho das trevas”: noutras aparições, o diabo e seus conservos são sempre sutis, ativos e manipuladores. Mas aqui ele corre na direção de Jesus e humilhando-se à vista de todos!

Alguns estudiosos, por outro lado, atentam que o pronto reconhecimento do Messias é uma característica de seres espirituais. Enquanto os homens ficaram por muito testando Jesus, esperando “sinais”, o diabo e os anjos rapidamente se manifestaram a Ele. E a sujeição a Jesus também é bem hipócrita: "não nos atormente antes do tempo”, dizia, mas o homem ali ESTAVA atormentado em todos os seus dias.

Como era hábito dos rabis que expulsavam demônios, Jesus perguntou o nome de quem tinha a sua frente. E a resposta não podia ser mais estranha: “Legião, porque somos muitos”. De fato, a palavra que aparece nos manuscritos gregos é LEGIO. Tratava-se de um nome usado especificamente para… solados romanos! Os judeus e gadarenos conviviam com as tropas romanas na região havia pelo menos 200 anos e ninguém chamaria de LEGIO a qualquer um, mas somente um militar romano.

No tempo de Jesus, haviam muitos movimentos populares contra Roma, a exemplo dos Zelotes em Jerusalém. Eram tempos turbulentos, e tornaram-se ainda mais turbulentos até o ano 70, quando Roma ordenou a destruição dos monumentos em Jerusalém, a começar pelo Templo. Nesses anos, a Judéia toda estava sendo fortemente patrulhada pela Legião X Fretensis (X = 10ª legião), formada por 5000 soldados, além dos oficiais. Essas “patrulhas” estavam lá justamente para assegurar a PAX ROMANA (os reinos subordinados não podiam guerrear entre si) e acabar com qualquer revolta popular. E o símbolo que os legionários carregavam nos escudos e bandeira era, curiosamente, esse abaixo:


 Selo e bandeira da 10ª legião

Ok, é um porco selvagem. Na Itália dos romanos, era um símbolo de força militar (assim como a águia e o touro, outros símbolos de Roma). A 20ª legião - Val Victrix - também usava o porco nos escudos. Mas era um animal que os judeus e gadarenos conheciam, que estava associado às pestes, ao castigo divino e aos velhos inimigos Filisteus. Provavelmente era um animal criado sem restrições no lado oriental do Jordão (antiga terra dos amonitas e moabitas) e com toda certeza era usado como mantimento para as patrulhas e até para as cidades da Decápolis. Diversos estudiosos citam que referências aos soldados romanos na judéia até os nomeiam depreciatoriamente como “os porcos”.

Qual não é a surpresa em que o “demônio LEGIO” se importasse tremendamente por “ficar na região” e desejasse justamente “ir aos porcos”. Parece um linguajar militar! Aqui as opiniões divergem bastante: alguns estudiosos dizem que o possesso talvez fosse um soldado romano insano e querendo voltar aos seus 2000 compatriotas acampados. Outros estudiosos falam ainda da incrível semelhança que existe entre o porco, em grego THUS (Θΰç) e “sacrifício” (THUEIN = Θΰεiν), sugerindo que era formalmente um “animal de sacrifício”, da mesma forma que o carneiro era para os judeus. Portanto, a criação de porcos em território gadareno seria uma criação “cerimonial” ou “oferenda” aos deuses pagãos ou demônios DAQUELA TERRA. Os gregos, por exemplo, sacrificavam porcos a Ceres, deusa da terra, e o faziam em covas ou cavernas, que os judeus bem poderiam interpretar como túmulos. O mais comum é que se diga “ora, os porcos eram animais impuros”. Mas só eram impuros para alimentação! Os camelos e jumentos também eram impuros, segundo o código de Moisés.

O mais estranho, contudo, seria pensar em Jesus fazendo as vontades de um demônio.

Mesmo debruçando-se muito sobre as escrituras, não há explicações definitivas para esse estranho ocorrido na terra dos gadarenos. Só temos o texto bíblico, e ele não é revelador quanto a isso. O demônio/endemoniado/insano dizia-se possuído pela Legião e disse a Jesus que gostaria de ficar na região. Para isso ele deveria passar aos porcos/ir aos romanos. E Jesus consentiu!!!! Sem dúvida importava ao Messias curar esse homem, fosse de uma doença mental ou de uma possessão demoníaca. E ele não hesitou em dizer: “vai”, de forma que o tormento SAIU do homem.

Alguns dizem que se tratava de uma transferência, como no famoso “bode espiatório” que os judeus soltavam no deserto carregando todos os seus pecados. Não há de fato como fazer isso, mas era importante a eles sentirem-se livres do tormento! E talvez fosse necessário ao homem que a sua insanidade - o seu demônio interno - passasse aos porcos ou aos legionários, para que ele ficasse livre e limpo, como de fato ficou.

Os mais literais afirmam que o demônio Legião possuiu uma manada de porcos e, desesperados, os animais se lançaram de uma colina no lago de Genesaré. Embora os homens pudessem ser habitados por demônios e continuar vivos, isso não seria possível aos animais. Quanto ao seu desejo de ficar na região… ninguém sabe o que seria de Legião nesse caso. Jesus mesmo havia dito algo sobre os demônios expulsos: “Quando o espírito imundo tem saído do homem, anda por lugares secos, buscando repouso; e, não o achando, diz: ‘Tornarei para minha casa, de onde saí’. E, chegando, acha-a varrida e adornada. Então vai, e leva consigo outros sete espíritos piores do que ele e, entrando, habitam ali; e o último estado desse homem é pior do que o primeiro" (Lucas 11.24-26). Nesse caso, que diferença faria irem aos porcos ou não?

Outros defendem que o suicídio dos porcos poderia ser um simbolismo para que o homem abandonasse sua devoção aos deuses pagãos, e poderia realmente tratar-se de ele (o insano) ter atacado uma manada de porcos cerimoniais que se jogaram no lago. Há ainda quem fale em um movimento do homem ou dos gadarenos contra o domínio romano, ou do abandono de sua vontade insana de voltar à 10ª Legião. Realmente não temos como saber, pois a Bíblia não fala mais dos gadarenos. O que sabemos é que a população do local, mesmo impressionada de ver o homem curado e calmo, não quis que Jesus permanecesse lá. Isso pode estar ligado tanto à destruição de uma manda de porcos sagrados quanto a problemas com Roma, de quem Gadara era uma cidade protegida e com muitos privilégios.

O que sabemos é que Jesus disse ao homem para ficar na Decápolis, e anunciar a todos o que Deus tinha feito. Além de deixar uma testemunha para a conversão dos gadarenos (que aconteceria nos 100 anos seguintes), Jesus talvez pensasse em não desafiar as autoridades romanas levando um legionário consigo. Mesmo se tratando de um insano, isso seria crime passível de morte.

Devo dizer que a teoria de um soldado insano é muito mais atraente do que um possuído habitando túmulos. Uma vez que Gadara estava sob controle do rei Herodes de Jerusalém e nos anos de conflito o Sinédrio se fez particularmente ativo no controle dali, é pouco provável que a cidade tivesse muitas práticas pagãs, mesmo romanas. Até hoje, Gadara (atualmente Umm Quais) tem bosques de carvalhos onde seria perfeitamente possível criar grandes manadas de porcos para a alimentação de soldados.

Com os conflitos contra o rei Nero que se iniciaram em 66 d.C., a cidade se aliou aos movimentos de libertação da Judéia e foi devastada pelas legiões 5ª Macedonica, 10ª Fretensis e 15ª Appolinara, sob comando do general Titus Flavius Vespasianus.

Ruínas romanas de Gadara, na atual Umm Quais. Ao fundo, o lago de Genesaré.

Para finalizar, tendo deixado mais perguntas que respostas, deixo também uma frase particularmente significativa de C. S. Lewis quanto à sua conversão:

Na primeira vez que eu me examinei seriamente, encontrei o que me chocou: um zoológico de permissividades, uma bagunça de ambições, um viveiro de medos, um harém de ódios e paixões. Meu nome é Legião.

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CÊ PODE LÊ, PODE SIM

Duncan Heaster, The real Devil
frei Mauro Strabeli, Bíblia: perguntas que o povo faz, Ed. Paulus, 1990
James R. Brayshaw, livro Imagine no satan, cap. 9
Jona Lendering, Wars between the Jews and Romans: the War of 66-70 CE
The Vally Presbiterian Church - Bible Study Resources
Umm Quais - wikipedia

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Ser ou crescer, eis a questão


Ser "nascido de Deus" significa que uma semente  foi colocada em nós, um princípio da vida eterna. Essa é a doutrina que, como indiquei num estudo anterior, torna completamente IMPOSSÍVEL aceitar o ensino acerca do "Deixe correr e deixe com Deus". É-nos dito que, porque esta semente da nova vida está em nós, não podemos continuarem pecado. A verdade é afirmada categoricamente. É-nos dito que nada podemos fazer, senão entregar-nos ao Senhor. Temos de compreender que Ele colocou um princípio de vida, uma semente, em nós, e que não podemos continuar praticando o pecado porque a semente está em nós; quer dizer, somos nascidos de Deus. Este princípio de vida que Ele colocou em nós tem poder, tem força, muda tudo (e muda mesmo?).

Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. (2 Coríntios 5.17).

Aquela outra idéia segundo a qual o cristão permanece sendo o que sempre foi, mas agora repousa no poder de Deus - idéia colocada nos termos da ilustração do atiçador de chama* - é também uma negação deste ensino acerca da semente. O cristão não é simplesmente alguém que tomou uma decisão, que decidiu seguir a Cristo e fazer isso ou aquilo. Ele o faz, porém o que o leva a fazê-lo é que esta semente da vida eterna foi colocada nele, que ele é nascido de Deus. Há nesse homem algo que é maior do que o homem todo, e este é o novo princípio que vai governar a totalidade da sua vida. Posto que é assim, ele não pode continuar vivendo como vivia. Diz a Bíblia que a princípio ele é apenas um bebê, uma criança, em Cristo. Portanto, surge a questão: como esse bebê pode crescer, como essa criança pode desenvolver-se? Ou, coloquemos a interrogação noutra forma - como é que este princípio de vida, poder e vigor pode ser alimentado, nutrido e desenvolvido e assim fortalecer-se cada vez mais?

A melhor maneira de responder essa pergunta é seguir a linha da analogia sugerida pela terminologia utilizada nas Escrituras. A necessidade óbvia é de comida e bebida. De que é que o bebê recém-nascido necessita acima de tudo? Alimento e água. Necessita de nutrição. Se o bebê há de desenvolver-se, vindo a ser criança, adolescente, homem, precisa de sustento. O bebê recém-nascido é dependente e fraco, e nada pode fazer em seu próprio benefício. Mas virá o dia em que ele terá força, vigor e poder, e será capaz de fazer coisas para si e para outros. O alimento e a água produzem esta mudança. Na vida cristã é exatamente a mesma coisa; e este é um modo como nos tornamos fortes "no Senhor e na força do seu poder".

Como cristãos, recebemos força e poder da semente da vida que é colocada em nós. Todavia a semente terá que crescer e desenvolver-se, e nós temos que tomar medidas, providenciando para que a vida de Deus a nós dada cresça, se desenvolva e constantemente seja cada vez mais forte.

Para mostrar como isso acontece, devemos resumir o ensino que trata deste problema em quase toda parte da Bíblia. Começo falando de comida e bebida porque estas vêm em primeiro lugar. Como as obtemos? O nosso Senhor responde pessoalmente em Jo 6.35:

Aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede". Comida e bebida satisfazem a fome e a sede.

Em Cristo as encontramos, indo a Ele, e perseverando em ir a Ele. "Aquele que vem" - que persevera em vir a Mim - "não terá fome, e quem crê" - quem persevera em crer -"nunca terá sede." No mesmo capítulo, no versículo 53, lemos:

Jesus pois lhes disse: na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo (ou por causa do) Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim.

Aí temos ensino profundo e místico. Certos ouvintes reagiram e disseram: "Duro é este discurso; quem o pode ouvir?" "Do que é que Ele está falando? Como nos pode dar este a sua carne a comer?". Tropeçaram nisso. Na verdade, a passagem nos diz que "muitos dos seus discípulos tornaram para trás, e já não andavam com ele". Não puderam entender as palavras do Senhor e, na verdade, ofenderam-se com elas.

Portanto, estas palavras chegam a nós como uma prova. A nossa reação a estas palavras proclama exatamente o que somos e onde estamos. Nada mais glorioso e maravilhoso jamais foi oferecido aos seres humanos e, todavia, é possível às pessoas rejeitar a mensagem e ter profunda aversão por ela. Parecia que todos O estavam abandonando, pelo que o nosso Senhor voltou-Se para os discípulos e disse: "Quereis vós também retirar-vos?" Pedro, sem entender plenamente o que estava falando, disse: "Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. E nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho de Deus".

Então, que quer dizer isso? Diz o nosso Senhor que as Suas palavras são espírito, não carne. Ele não está falando de coisas materiais. Está falando de maneira espiritual. Ele está utilizando uma analogia aqui. O que Ele quer dizer, e diz, é: o Pai Me enviou, e Eu vivo por causa do Pai. Vivo pelo Pai, e recebo Minha força, Minha nutrição e Meu poder do Pai. Isto faz parte do que a encarnação envolve. Jesus não tinha deixado de ser o Filho de Deus, mas tinha assumido a natureza humana. Agora estava vivendo a Sua vida como homem, com a natureza humana. Não estava vivendo em termos da Sua divindade; esta continuava nEle, porém Ele não vivia por ela. Estava vivendo uma vida de completa dependência do Seu Pai. Por isso orava com tanta regularidade. Diz Ele: Eu vivo pelo Pai; isto é, do Pai Eu retiro a Minha força, a Minha nutrição, tudo que é Meu. E Ele diz que, de igual maneira, o homem que verdadeiramente crê em Mim, vive por causa de Mim.

Ele Se expressa em termos de comer Sua carne e beber Seu sangue; o que realmente significa assumi-Lo como Senhor, crer nEle como Ele é em toda a Sua plenitude, e daí por diante viver uma vida determinada, dirigida e governada por esta fé nEle, por esta rendição a Ele, por esta confiança nEle e na força do Seu poder. O Senhor fala disso dramaticamente, naqueles termos, a fim de que possamos ver que se trata de algo que eu e você temos de fazer de maneira total e completa. Não basta que digamos: "Sim, eu creio no Senhor Jesus Cristo, cri nEle num dado momento e, desde aquele momento, tenho sido sempre cristão".

A verdadeira fé em Cristo leva a "comer a carne e beber o sangue", quer dizer, realmente comer e beber, mastigar, engolir, assimilar, fazer disso uma parte do seu ser, compreendendo que Ele é o seu Pão da vida. "Eu sou o pão da vida", diz Ele. Ele Se contrasta com o maná do deserto, que era apenas um tipo e uma figura - algo dado para manter o bem estar físico - e, contudo, um grandioso tipo do que Ele ia fazer quando viesse. "Eu sou o pão da vida... se alguém comer deste pão, viverá para sempre", diz Ele. Todo aquele que comer de Mim jamais morrerá, neste sentido espiritual, porque está recebendo vida, torna-se "participante da natureza divina", alimenta-se de um maná celestial. Ele está se alimentando de Mim, está vivendo em Mim, está vivendo por Mim, está vivendo porque Eu Sou o que Sou e realizei a obra que o Pai Me deu.

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* Não tenho idéia do que o autor se referia ao fazer essa analogia, nem pude encontrá-la noutro lugar. Se alguém souber, por favor escreva!

Texto modificado um tantinho só (supostamente para melhor) do texto de D. Martyn Lloyd-Jones em http://www.martynlloyd-jones.com/2010/07/uma-semente-d-martyn-lloyd-jones.html.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A unção do leão, ou aquela que derruba no chão?


texto de Daniel Clós Cesar

Quero antes de mais nada explicar a ilustração deste texto. Não se trata de um chiste com aqueles que um dia tiveram uma experiência real e genuína no Espírito Santo. Ainda que com ressalvas (não vou escrever sobre isso agora), creio na continuidade dos dons espirituais neotestamentários. A imagem é direcionada aos falsos profetas e para aqueles que, os seguindo, recebem o juizo de Deus por o negarem em troca de alguma coisa que possam ganhar por intermédio da religião. Um bom vídeo explicativo desse meu pensamento poder ser visto nesta pregação legendada do Pr. Paul Washer (clique aqui).

Alguns anos atrás presenciei em um evento gospel no interior do Rio Grande do Sul, um pastor, de cabelos grisalhos e barriga bastante saliente, engatinhando pela igreja e imitando, ou tentando imitar (lhe faltavam juba, rabo e garras), um leão. Num outro canto do ginásio, uma menina que aparentava não ter ainda 20 anos, corria balançando os braços e grasnando como uma águia... ou caturrita, não sei bem, outros tantos jovens e velhos imitavam diferentes animais ou coisas, tudo muito difícil de crer é verdade, mas mais difícil de crer hoje quando olho para aquele dia, depois de ter conhecido o Evangelho que liberta. Foi naquele mesmo culto que ouvi pela primeira vez a recomendação clichê do que "ministrava": - Se você não está entendendo o que está acontecendo, fique em "espírito", mas não rejeite as obras do "espírito".

A grande mentira destes "ministros" tem sido essa: "Não rejeitem as obras do espírito!" Ok, não rejeitarei... quer dizer, se eu souber que espírito é esse.

Recentemente um super-mega-hiper-supimpa-azul pregador da prosperidade esteve em Porto Alegre. Ele e seu casaco-maravilha, o único capaz de fazer uma multidão ser derrubada e depois posta novamente em pé e depois derrubada novamente... mas tudo isso com que propósito? Qual o propósito de derrubar alguém jogando-lhe um casaco e depois solicitar que coloquem essa pessoa em pé para mais uma vez derrubá-la e repetir essa ação por várias e várias vezes... Qual o propósito? Mostrar que ele é deus? Mostrar que ele tem o controle da situação? Mostrar que seu casaco tem poder?

O que entendo com tudo isso? Pois bem, com o tempo que tenho de igreja, não de cristão, mas de igreja, muito presenciei e confesso que muitas vezes fui literalmente arrastado por esses tufões de doutrina e algumas centenas de vezes enganado por fábulas medonhas como essas duas que supracitei. O motivo? Um só: nós humanos adoramos a mentira e o faz-de-conta, pois fomos gerados em pecado e originalmente somos filhos daquele que é pai da mentira, e nos satisfaz agradar nosso pai.

Rm 8.12. Irmãos, somos devedores, não à carne para viver segundo a carne. Se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis. ... Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada, a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus. ... A criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou.

Quando vejo milhares de pessoas cercando pessoas como Hinn, Malafaia, Feliciano ou a trupe Valadão, pergunto-me: por quê? A resposta que consigo formular é apenas essa: Eles buscam naquela pessoa algo que eles não acreditam que Deus lhes possa dar, mas aquela pessoa sim.

Nesse desejo de receberem aquilo que essas pessoas aparentemente receberam: fama, dinheiro, beleza(?), unção etc., aceitam todo tipo de invenção doutrinária que parta da boca desses mestres pois desejam ser iguais a eles, desejam ter o que eles possuem, desejam ser eles. O homem que não adoece pode ser um bom curador de doenças, a jovem que tem "unção" no cantar pode ungir minha voz, o profeta que planta dinheiro e faz crescer "pé de moedinha" pode ser minha solução financeira... e Jesus, onde entra Jesus numa vida dessas?

Cristo não está em nada disso. Deus, em todo o tempo se faz presente ali apenas para derramar o seu juizo sobre aqueles que decidiram curvar-se ante um ídolo-homem, um super-crente que diz ser capaz de fazer Deus descer do céu para atender os pedidos de seu corrupto coração.

Se Cristo, homem sem pecados e fazendo milagres por onde passava, foi rejeitado e crucificado, como esses pecadores e mortos em seus pecados ajuntam milhões ao seu redor que os proclamam santos? Como pode ter sido Paulo apedrejado e condenado à morte enquanto Benny Hinn é idolatrado como deus? Como pode Pedro ter sido, conforme a tradição cristã, crucificado, e Estevam Hernandes, condenado à prisão justamente ainda receber homenagens em cidades do Brasil, mesmo sem nunca ter se arrependido publicamente de seus delitos, e é necessário que ele faça isso publicamente pois ele mesmo adora exorcizar pessoas publicamente em seus cultos e ele mesmo é um homem público. Como pode Tiago ter sido martirizado e hoje Murdock é tido por essa gente como o homem mais sábio do mundo? Como isso pode ser do Espírito?

Como pode alguém rastejando como um animal, quadrupede, não criado a semelhança de Deus, sem Espírito, irracional... como isso pode ser considerado do Espírito? Com que propósito?

É indecente o que acontece nas igrejas. Nesse tipo de cristianismo (se podemos chamar de cristianismo), o lugar construído para ajuntamento solene, para adoração e louvor daquele que é sobre tudo e todos tornou-se em muitos lugares (em quase todos os grandes lugares), palco de magia barata e sensacionalismo religioso. O gazofilácio deixou de ser o lugar das ofertas dos santos para manutenção da igreja, para ser o saco furado desses que nunca dizem basta para seus luxos. A oração deixou de ser o meio de um relacionamento íntimo do homem com Deus, para tornar-se uma via de mão única e exclusiva daqueles que têm "acesso" a Deus.

Rm 3.11-18 Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. A sua garganta é um sepulcro aberto. Com as suas línguas tratam enganosamente. Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios, cuja boca está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Em seus caminhos há destruição e miséria, e não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos.

Deus tenha misericórdia de nós. Maranata Jesus.

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Daniel Clós Cesar é historiador, desenhista nível super-básico, spurgeonista dos 5 pontos e casado com a primeira namorada, declarando-se um apaixonado pela Palavra e pelo Evangelho da Cruz. Escreve para Blogs como o Bereianos, de onde esse texto foi tirado com algumas pequenas modificações.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Contra o sistema do mundo

por Jacilene Santos da Silva


O termo “mundo” dentro do contexto do estudo designa a maneira de viver indiferente e oposta aos preceitos de Deus. Essa maneira de viver surgiu logo após a queda do homem e foi por causa dessa infeliz circunstância que todos os descendentes de Adão tornaram-se internamente portadores de uma natureza pecaminosa e extremamente opositora a Deus.

Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Romanos 5:12).

Agora que já temos um conceito e uma visão bíblica, vamos analisar três pontos importantes relacionados a esse tema, todos à luz das Santas Escrituras:

1- Os atrativos do mundo

Digo, porém: andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne” (Gálatas 5:16).

Temos que ter em mente que quando o cristão se deixa enganar pelas propostas desse mundo, torna-se escravo de um sistema maligno que rouba, mata e destrói. Lembramos, então, o que aconteceu com o filho pródigo, que desprezou o amor do pai e a vida abençoada no lar e resolveu seguir os atrativos do mundo a fim de desfrutar os seus prazeres. Todavia, após perder toda a sua riqueza, se tornou um miserável. Então, decidiu retornar ao conforto do lar, e foi festivamente recebido pelo pai, que lhe restitui tudo o que no mundo ele havia perdido (Lucas 15:11-32).

Todo servo fiel deve evitar esse tipo de experiência. Devemos sempre procurar ter prazer nas leis do Senhor e nelas meditar dia e noite, ou seja, sermos servos que procurem sempre glorificar a Deus em espírito e em verdade.

2- O mundo e os filhos de Deus

Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia” (João 15:19).

Sabemos que antes do nosso nascimento já tínhamos sido predestinados à salvação, mas nem todos nós já nascemos em uma família cristã ou tivemos desde criança um acompanhamento adequado nessa área. Ou seja, muitos desfrutaram dos prazeres mundanos. Assim, como fomos resgatados do mundo, outros eleitos precisam ser resgatados desse sistema de vida. E essa deve ser a relação dos filhos de Deus com o mundo: não viver de acordo com ele, mas sempre ter em mente o resgate dos eleitos. Ou seja, vivermos uma vida santa diante de Deus e dos homens para que possamos ser exemplos para as pessoas que vivem no mundo. Além disso, não devemos negligenciar a evangelização, para que, quando for o tempo de Deus, nos tornemos um instrumento nas mãos divinas, e que através de nós os eleitos de Deus sejam resgatados.

3- Os elementos que identificam “o homem do mundo”

Porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo” (1 João 2:16).

A Palavra de Deus nos alerta contra as concupiscência da carne, dos olhos e contra a soberba. Vamos agora analisar esses três pontos separadamente:

a) A concupiscência da carne:

Engloba desejos impuros, vícios e prazeres sensuais. A Bíblia exorta-nos a fugir de toda e qualquer impureza (1 Coríntios 6:18). O crente deve estar ciente de que ele é templo do Espírito Santo e, portanto, deve viver uma vida piedosa e consagrada a Deus. Fugir da imoralidade é dever do crente.

Os vícios também são considerados concupiscência da carne, pois servem para saciar a sede da mesma. Então, devemos viver longe deles.

b) A concupiscência dos olhos:

Sabemos que o homem torna-se cativo daquilo que ele vê. Para que isto não seja prejudicial é preciso que o crente esteja sempre vigiando e orando, assim se fortalecendo para não ser atraído pelos desejos pecaminosos dos olhos.

Um exemplo bastante conhecido é o exemplo de Acã, que viu dentre os despojos dos inimigos de Deus uma capa babilônica, desejou-a, trouxe-a para si e por conseqüência morreu com toda sua família. Temos que ter muito cuidado com isso, pois o que parece simples pode levar a um fim trágico.

c) A soberba da vida:

O homem que vive de acordo com o mundo tem a falsa idéia de que é possível se igualar a Deus. Ele tenta a todo custo viver à parte de seu Criador, buscando sua exaltação através de riquezas, títulos e posições, com o intuito de ser honrado por isso. A Palavra de Deus nos assevera que isto não vem de Deus, mas do mundo. A Bíblia nos ensina que o propósito de um servo é glorificar o nome de Deus e que devemos sempre buscar Seu reino e Sua justiça.

O autêntico crente, que pratica os princípios do Cristianismo bíblico, não deve adequar-se ao presente sistema mundano. Fomos chamados a viver uma vida santa, separada deste mundo, com objetivos infinitamente mais nobres, que são glorificar a Deus e desfrutar de Seus bens.