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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A opressão dos ídolos


Enquanto caminhamos com Jesus, deparamos com espíritos imundos. Jesus também esteve frente a frente com eles. Ele exerceu autoridade sobre esses espíritos e libertou pessoas que estavam dominadas e controladas por eles, que a Bíblia chama também de demônios. Espíritos do mal, espíritos malignos.

O evangelho narra o encontro de Jesus com um homem dominado por um espírito imundo, e registra esse confronto imediatamente após Jesus ter chamado seus primeiros talmidim e ter prometido fazer deles “pescadores de homens”. Durante muito tempo acreditei que “pescar homens” era ir buscar os pecadores do lado de fora da igreja e trazê-los para dentro. Significava fisgar pessoas que não acreditavam em Deus e em Jesus e trazê-las para o ambiente religioso, onde Jesus recebe adoração. Mas lendo esse texto com mais atenção, e meditando sobre sua relação com o chamado de Jesus a seus talmidim, passei a considerar que “pescar homens” significa buscar dentro de cada ser humano a sua verdadeira identidade, alcançar dentro de cada ser humano o "eu verdadeiro” que está ali abafado por muitos espíritos imundos.

O que são os espíritos imundos? São egos absolutos. O que é um demônio, um espírito mal, ou espírito maligno? É um ego absoluto, que pensa apenas em si e que ignora todo o resto, todos os demais, inclusive - e principalmente - Deus. Os egos absolutos podem ter vários nomes. Pode ser um demônio mesmo. Mas também podem ser tradições ou autoridades religiosas (Jesus dirigiu a eles TODAS as suas repreensões). Imposições familiares, vínculos afetivos, ideologias e estados políticos, filosofias e culturas, e qualquer tipo ou expressão de vontades absolutas e opressoras.

Aqueles que seguem a Jesus têm a sagrada tarefa de "pescar pessoas", de buscar dentro de cada ser humano oprimido por vontades que impedem sua expressão autêntica e plena a expressão mais verdadeira do seu eu, criado em imagem e semelhança de Deus. Para pescar homens, precisamos da autoridade de Jesus para confrontar os espíritos imundos, malignos e diabólicos. Muito mais do que iniciar as pessoas em uma religião, pescar homens é cooperar com Deus para que as pessoas sejam libertas de todos e quaisquer egos opressivos e escravizadores. Jesus é vida, é luz, é libertação.

O Diabo, pior dos demônios opressores, fez várias tentativas de fazer Jesus provar que ele é quem é, e fazer o Pai provar que tem por Jesus o amor que diz ter. O Diabo quis sugerir que, se Deus nos ama, então não vai deixar que nada de mau nos aconteça. Se Deus nos ama, então podemos viver do jeito que quisermos, mesmo irresponsavelmente, que ele sempre vai nos amparar. Que, como diz a canção popular, o acaso vai nos proteger enquanto andarmos distraídos. Em outras palavras, o discurso do Diabo é: “Deus tem a obrigação de cuidar de você, afinal, ele diz que o ama”.

Mas Jesus tinha uma perspectiva diferente a ensinar. Na liberdade que Ele propunha, Ele também não quis colocar Deus a prova. Não topou puxar o elástico de seu relacionamento com o Pai e exigir que ele respondesse a maneira atrevida e displicente como vivemos. Muito pelo contrario, Jesus sabia que os filhos vivem de acordo com a sabedoria dos pais, não os pais para satisfazer os caprichos dos filhos.

O Diabo citou a Bíblia, o Salmo 91: “Ele dará ordens a seus anjos a seu respeito, e com as mãos eles o segurarão, para que você não tropece em alguma pedra”. Os Salmos são orações dos homens, segundo os desejos do seu coração para com Deus, e eles o Diabo conhecia bem. Mas Jesus também citou as Escrituras, Deuteronômio 6: "Não ponha à prova o Senhor, o seu Deus". Ele respondeu com as palavras de Deus. Silêncio entre os dois, quem se dignaria a debater Deus com Jesus?

Quando caímos nessa armadilha de viver na expectativa de que Deus se prove constantemente para nós, manipulando as palavras sagradas de acordo com nossas conveniências, Deus deixa de ser Deus e se torna um ídolo. Deixa de ser aquele que está no controle e passa a ser aquele que desejamos como desejamos, que corre atrás de nós o tempo todo, para corrigir, remediar ou dar condições ideais a forma como estamos vivendo.

Jesus olhava a vida de maneira diferente. E nos ensinou que Deus é o Pai, e nós somos seus filhos. Viver como um filho de Deus é jamais colocá-lo à prova. Viver como filho de Deus implica não exigir que Deus prove seu amor. O ídolo oprime porquê nos faz acreditar que somos iguais a Deus, que Ele precisa querer o que nós queremos. Mas os filhos de Deus não tratam o Pai como um ídolo.

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A PROVA DO CRIME

Ed René Kiwitz, Talmidim 024
Ed René Kiwitz, Talmidim 035

domingo, 23 de fevereiro de 2014

O gadareno e os porcos

um vídeo de Barry Cook

Existe uma passagem do ministério de Jesus que sempre me chamou à atenção, e eu gostaria de compartilhar as dúvidas e mistérios sobre esse trecho. Não vou colar ela aqui, para que você se dê ao trabalho de ler as versões dela. Trata-se da expulsão de um (ou mais) demônios na terra dos gadarenos, mais propriamente numa região conhecida como Decápolis. Você pode encontrar tal passagem em Mateus 8.28-34, Marcos 5.1-20 e Lucas 8.26-39. Os 3 evangelistas sinóticos (que narraram cronologicamente a vida de Jesus) contam sobre esse episódio, mas sobretudo João Marcos dá atenção a ele. Isso é relevante, pois João Marcos em geral é o mais sucinto dos evangelistas.

Essa passagem tem múltiplas interpretações, algumas literais, outras figurativas, e certamente não há como esgotar o assunto aqui. Apenas seria bom expor algumas idéias.

O ocorrido se deu na região conhecida como Decápolis, que é um nome greco-romano. Não se trata de uma cidade, mas de um “estado” formado por 10 cidades independentes que contavam com muitos privilégios junto a Roma, como terem cada qual a sua moeda, etc. Esses privilégios eram concedidos justamente às cidades que disseminavam a cultura romana no Oriente, como o culto ao imperador. Faziam parte da Decápolis as cidades-estado de Gerasa, Scythopolis (chamada Beth-Shean, em Israel), Hippos (ou Sussita), Gadara (Umm Qais), Pella, Philadelphia (atual cidade de Aman, capital da Jordânia), Capitolias (Beit Ras, ou ainda Dion), Canatha (Qanawat), Raphana e Damasco (atual capital da Síria).

mapa de Decápolis

Jesus e seus seguidores haviam saído de barco de Cafarnaum, até o outro lado do lago de Genesaré (mar da Galiléia), desembarcando nalgum local que Marcos chama de “terra dos gadarenos”. Provavelmente não haviam construções ali, ou o nome exato do lugar seria conhecido. Alguns dizem que essa foi uma das raras andanças do Messias em território gentio, mas os conflitos militares na região sugerem que, na verdade, tratava-se de um território judeu, pelo menos politicamente. Lá chegando, veio ao seu encontro um “homem com espírito imundo”, que “morava nos sepulcros”, ao qual “ninguém podia prender”. Marcos relata que ele “andava sempre, de dia e de noite, clamando pelos montes, e pelos sepulcros, e ferindo-se com pedras”. Precisamos entender bem o que isso significa, pois fará toda diferença na interpretação dos fatos.

Tradicionalmente, fala-se em um indivíduo possuído por demônios, que seriam expulsos pelo Messias. No entanto, o fato de andar dia e noite, clamando e ferindo-se, faria qualquer profissional de saúde atual pensar em um esquizofrênico, lunático (termo medieval) ou simplesmente louco. São de fato comportamentos bem típicos! No tempo de Jesus, os judeus associavam tanto as doenças físicas (ex. lepra) quanto mentais (ex. esquizofrenia) à possessão por demônios. Estar doente tornava o indivíduo “impuro”, alguém em quem ninguém queria sequer tocar. Freqüentemente esse “impuros” viviam no campo, próximos às cidades, vageando por onde achassem comida (ver 2ª Reis 7.8). Um cemitério gadareno não seria local improvável para habitarem.

O culto aos mortos era comum em Roma e na Grécia, e talvez alguns gadarenos mais "romanicizados" fossem adeptos disso. Isso faria dos cemitérios locais sagrados, onde seriam deixadas oferendas (de forma semelhante ao que vemos hoje no xintoísmo japonês, santeria caribeña e umbanda brasileira). Já pos cemitérios judeus eram locais "impuros", de onde as pessoas se afastavam. Talvez por isso o profeta Isaías tenha escrito 700 anos antes:

Fiz-me acessível aos que não perguntavam por mim; fui achado pelos que não me procuravam. A uma nação que não clamava pelo meu nome eu disse: ‘Eis-me aqui, eis-me aqui.’ O tempo todo estendi as mãos a um povo obstinado, que anda por um caminho que não é bom, seguindo as suas inclinações; povo que sem cessar me provoca na minha frente, oferecendo sacrifícios em jardins e queimando incenso em altares de tijolos; povo que vive nos túmulos e à noite se oculta nas covas, que come carne de porco, e em suas panelas tem sopa de carne impura.

Esse povo diz: ‘Afasta-te! Não te aproximes de mim, pois eu sou santo!’ Essa gente é fumaça no meu nariz! É fogo que queima o tempo todo! Vejam, porém! Escrito está diante de mim: Não ficarei calado, mas darei plena retribuição; eu lhes darei total retribuição, tanto por seus pecados como pelos pecados dos seus antepassados’, diz o Senhor. ‘Uma vez que eles queimaram incenso nos montes e me desafiaram nas colinas, eu os farei pagar pelos seus feitos anteriores.

Logo que Jesus desceu do barco, Marcos conta que o endemoniado veio correndo ao seu encontro, questionando-o: “Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes”. Mateus acrescenta: “Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo?”. Certamente o homem que se flagelava com pedras também se via como impuro e endemoniado, e realmente dizia 'Afasta-te!'. Não podemos afirmar que não fosse de fato um possuído, mas essa passagem chama a atenção, entre outras coisas, pelo comportamento estranho do “filho das trevas”: noutras aparições, o diabo e seus conservos são sempre sutis, ativos e manipuladores. Mas aqui ele corre na direção de Jesus e humilhando-se à vista de todos!

Alguns estudiosos, por outro lado, atentam que o pronto reconhecimento do Messias é uma característica de seres espirituais. Enquanto os homens ficaram por muito testando Jesus, esperando “sinais”, o diabo e os anjos rapidamente se manifestaram a Ele. E a sujeição a Jesus também é bem hipócrita: "não nos atormente antes do tempo”, dizia, mas o homem ali ESTAVA atormentado em todos os seus dias.

Como era hábito dos rabis que expulsavam demônios, Jesus perguntou o nome de quem tinha a sua frente. E a resposta não podia ser mais estranha: “Legião, porque somos muitos”. De fato, a palavra que aparece nos manuscritos gregos é LEGIO. Tratava-se de um nome usado especificamente para… solados romanos! Os judeus e gadarenos conviviam com as tropas romanas na região havia pelo menos 200 anos e ninguém chamaria de LEGIO a qualquer um, mas somente um militar romano.

No tempo de Jesus, haviam muitos movimentos populares contra Roma, a exemplo dos Zelotes em Jerusalém. Eram tempos turbulentos, e tornaram-se ainda mais turbulentos até o ano 70, quando Roma ordenou a destruição dos monumentos em Jerusalém, a começar pelo Templo. Nesses anos, a Judéia toda estava sendo fortemente patrulhada pela Legião X Fretensis (X = 10ª legião), formada por 5000 soldados, além dos oficiais. Essas “patrulhas” estavam lá justamente para assegurar a PAX ROMANA (os reinos subordinados não podiam guerrear entre si) e acabar com qualquer revolta popular. E o símbolo que os legionários carregavam nos escudos e bandeira era, curiosamente, esse abaixo:


 Selo e bandeira da 10ª legião

Ok, é um porco selvagem. Na Itália dos romanos, era um símbolo de força militar (assim como a águia e o touro, outros símbolos de Roma). A 20ª legião - Val Victrix - também usava o porco nos escudos. Mas era um animal que os judeus e gadarenos conheciam, que estava associado às pestes, ao castigo divino e aos velhos inimigos Filisteus. Provavelmente era um animal criado sem restrições no lado oriental do Jordão (antiga terra dos amonitas e moabitas) e com toda certeza era usado como mantimento para as patrulhas e até para as cidades da Decápolis. Diversos estudiosos citam que referências aos soldados romanos na judéia até os nomeiam depreciatoriamente como “os porcos”.

Qual não é a surpresa em que o “demônio LEGIO” se importasse tremendamente por “ficar na região” e desejasse justamente “ir aos porcos”. Parece um linguajar militar! Aqui as opiniões divergem bastante: alguns estudiosos dizem que o possesso talvez fosse um soldado romano insano e querendo voltar aos seus 2000 compatriotas acampados. Outros estudiosos falam ainda da incrível semelhança que existe entre o porco, em grego THUS (Θΰç) e “sacrifício” (THUEIN = Θΰεiν), sugerindo que era formalmente um “animal de sacrifício”, da mesma forma que o carneiro era para os judeus. Portanto, a criação de porcos em território gadareno seria uma criação “cerimonial” ou “oferenda” aos deuses pagãos ou demônios DAQUELA TERRA. Os gregos, por exemplo, sacrificavam porcos a Ceres, deusa da terra, e o faziam em covas ou cavernas, que os judeus bem poderiam interpretar como túmulos. O mais comum é que se diga “ora, os porcos eram animais impuros”. Mas só eram impuros para alimentação! Os camelos e jumentos também eram impuros, segundo o código de Moisés.

O mais estranho, contudo, seria pensar em Jesus fazendo as vontades de um demônio.

Mesmo debruçando-se muito sobre as escrituras, não há explicações definitivas para esse estranho ocorrido na terra dos gadarenos. Só temos o texto bíblico, e ele não é revelador quanto a isso. O demônio/endemoniado/insano dizia-se possuído pela Legião e disse a Jesus que gostaria de ficar na região. Para isso ele deveria passar aos porcos/ir aos romanos. E Jesus consentiu!!!! Sem dúvida importava ao Messias curar esse homem, fosse de uma doença mental ou de uma possessão demoníaca. E ele não hesitou em dizer: “vai”, de forma que o tormento SAIU do homem.

Alguns dizem que se tratava de uma transferência, como no famoso “bode espiatório” que os judeus soltavam no deserto carregando todos os seus pecados. Não há de fato como fazer isso, mas era importante a eles sentirem-se livres do tormento! E talvez fosse necessário ao homem que a sua insanidade - o seu demônio interno - passasse aos porcos ou aos legionários, para que ele ficasse livre e limpo, como de fato ficou.

Os mais literais afirmam que o demônio Legião possuiu uma manada de porcos e, desesperados, os animais se lançaram de uma colina no lago de Genesaré. Embora os homens pudessem ser habitados por demônios e continuar vivos, isso não seria possível aos animais. Quanto ao seu desejo de ficar na região… ninguém sabe o que seria de Legião nesse caso. Jesus mesmo havia dito algo sobre os demônios expulsos: “Quando o espírito imundo tem saído do homem, anda por lugares secos, buscando repouso; e, não o achando, diz: ‘Tornarei para minha casa, de onde saí’. E, chegando, acha-a varrida e adornada. Então vai, e leva consigo outros sete espíritos piores do que ele e, entrando, habitam ali; e o último estado desse homem é pior do que o primeiro" (Lucas 11.24-26). Nesse caso, que diferença faria irem aos porcos ou não?

Outros defendem que o suicídio dos porcos poderia ser um simbolismo para que o homem abandonasse sua devoção aos deuses pagãos, e poderia realmente tratar-se de ele (o insano) ter atacado uma manada de porcos cerimoniais que se jogaram no lago. Há ainda quem fale em um movimento do homem ou dos gadarenos contra o domínio romano, ou do abandono de sua vontade insana de voltar à 10ª Legião. Realmente não temos como saber, pois a Bíblia não fala mais dos gadarenos. O que sabemos é que a população do local, mesmo impressionada de ver o homem curado e calmo, não quis que Jesus permanecesse lá. Isso pode estar ligado tanto à destruição de uma manda de porcos sagrados quanto a problemas com Roma, de quem Gadara era uma cidade protegida e com muitos privilégios.

O que sabemos é que Jesus disse ao homem para ficar na Decápolis, e anunciar a todos o que Deus tinha feito. Além de deixar uma testemunha para a conversão dos gadarenos (que aconteceria nos 100 anos seguintes), Jesus talvez pensasse em não desafiar as autoridades romanas levando um legionário consigo. Mesmo se tratando de um insano, isso seria crime passível de morte.

Devo dizer que a teoria de um soldado insano é muito mais atraente do que um possuído habitando túmulos. Uma vez que Gadara estava sob controle do rei Herodes de Jerusalém e nos anos de conflito o Sinédrio se fez particularmente ativo no controle dali, é pouco provável que a cidade tivesse muitas práticas pagãs, mesmo romanas. Até hoje, Gadara (atualmente Umm Quais) tem bosques de carvalhos onde seria perfeitamente possível criar grandes manadas de porcos para a alimentação de soldados.

Com os conflitos contra o rei Nero que se iniciaram em 66 d.C., a cidade se aliou aos movimentos de libertação da Judéia e foi devastada pelas legiões 5ª Macedonica, 10ª Fretensis e 15ª Appolinara, sob comando do general Titus Flavius Vespasianus.

Ruínas romanas de Gadara, na atual Umm Quais. Ao fundo, o lago de Genesaré.

Para finalizar, tendo deixado mais perguntas que respostas, deixo também uma frase particularmente significativa de C. S. Lewis quanto à sua conversão:

Na primeira vez que eu me examinei seriamente, encontrei o que me chocou: um zoológico de permissividades, uma bagunça de ambições, um viveiro de medos, um harém de ódios e paixões. Meu nome é Legião.

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CÊ PODE LÊ, PODE SIM

Duncan Heaster, The real Devil
frei Mauro Strabeli, Bíblia: perguntas que o povo faz, Ed. Paulus, 1990
James R. Brayshaw, livro Imagine no satan, cap. 9
Jona Lendering, Wars between the Jews and Romans: the War of 66-70 CE
The Vally Presbiterian Church - Bible Study Resources
Umm Quais - wikipedia

domingo, 19 de maio de 2013

Sodomia & Gomorria

Ló e sua família são retirados de Sodoma por anjos

Duas cidades se tornaram símbolos da ira divina e até hoje inspiram a imaginação das pessoas: Sodoma e Gomorra, símbolos da ira divina. Aqui vamos discutir um pouco sobre o que levou essas cidades à destruição e o que elas representavam para o Oriente Médio, na época em que existiram.

A primeira referência às cidades aparece no começo do livro de Gênesis, logo após Abraão e Ló dividirem entre si as terras vizinhas ao rio Jordão.

E aconteceu nos dias de Anrafel, rei de Sinar, Arioque, rei de Elasar, Quedorlaomer, rei de Elão, e Tidal, rei de Goim, que estes fizeram guerra a Bera, rei de Sodoma, a Birsa, rei de Gomorra, a Sinabe, rei de Admá, e a Semeber, rei de Zeboim, e ao rei de Belá (esta é Zoar). Todos estes se ajuntaram no vale de Sidim (que é o Mar Salgado).

Doze anos haviam servido a Quedorlaomer, mas ao décimo terceiro ano rebelaram-se. E ao décimo quarto ano veio Quedorlaomer, e os reis que estavam com ele, e feriram aos refains em Asterote-Carnaim, e aos zuzins em Hã, e aos emins em Savé-Quiriataim, e aos horeus no seu monte Seir, até El-Parã que está junto ao deserto. Depois tornaram e vieram a En-Mispate (que é Cades), e feriram toda a terra dos amalequitas, e também aos amorreus, que habitavam em Hazazom-Tamar.

Então saiu o rei de Sodoma, e o rei de Gomorra, e o rei de Admá, e o rei de Zeboim, e o rei de Belá (esta é Zoar), e ordenaram batalha contra eles no vale de Sidim, contra Quedorlaomer, rei de Elão, e Tidal, rei de Goim, e Anrafel, rei de Sinar, e Arioque, rei de Elasar; quatro reis contra cinco.

E o vale de Sidim estava cheio de poços de betume; e fugiram os reis de Sodoma e de Gomorra, e caíram ali; e os restantes fugiram para um monte. E tomaram todos os bens de Sodoma, e de Gomorra, e todo o seu mantimento e foram-se. Também tomaram a Ló, que habitava em Sodoma, filho do irmão de Abrão, e os seus bens, e foram-se. (Gn 14.1-12)

Trata-se de uma cena de guerra ocorrida por volta de 3000 a.C. O território ao redor do Jordão era povoado por pastores e agricultores que habitavam vilas sob o domínio ou ao redor de cidades-estado rodeadas por muralhas. Várias delas são citadas nesse trecho. Sodoma, Gomorra, Admá (ou Adamá), Zeboim e Belá (Zoar) eram as chamadas cidades da planície, uma faixa de terra muito fértil e irrigada ao redor do Mar Morto (ou também Mar Salgado). Aparentemente, as cidades-estado exerciam poder político umas sobre as outras, o suficiente para que 4 delas se rebelassem contra a principal (Elão), que também reuniu seus aliados. Como a disputa se deu nas terras de pastoreio que couberam a Ló (isto é, o leste do Jordão), ele foi feito refém dessa guerra.

Anrafael é apontado pelos arqueólogos como Amirapaltu ou também Kamu-rabi, um dos grandes reis que iniciaram a unificação da Babilônia, então repartida em muitos pequenos reinos. Outros reis na região eram Khudur-Lagamar ("servo da deusa Lagamar" ou Quedorlaomer), Eri-Aku (Arioque) e Tudkhula (Tidal). Eles já haviam conquistado os Refains, Zuzins e Emins, tidos como povos de gigantes guerreiros. Aparentemente, os reis das cidades da planície rebelaram-se contra os reis babilônicos (leia-se deixaram de pagar-lhes tributos) e estes chegaram ao Jordão para reafirmar seu poder capturando as cidades rebeldes.

Abraão aparece com um exército para afastar os babilônicos, juntando suas forças com o rei de Sodoma, provavelmente a cidade mais poderosa da planície. Temos aí o aparecimento de Melquisedeque, rei de Salém (provavelmente um aliado do oeste do Jordão), a quem o poderoso Abraão entrega o primeiro dízimo registrado na Bíblia. A passagem citando o conflito de poderes, entretanto, não dá a entender sobre os usos e costumes nas cidades da planície, onde Ló (outro líder tribal) habitava com sua família (ou clã, o que pode significar centenas de pessoas).

ONDE FICAVAM AS CIDADES

As cidades da planície eram tidas como plantadas em terreno muito fértil, que Ló preferiu para si quando repartiu as terras com Abraão.

Olhou então Ló e viu todo o vale do Jordão, todo ele bem irrigado, até Zoar; era como o jardim do SENHOR, como a terra do Egito. Isto se deu antes de o SENHOR destruir Sodoma e Gomorra. Ló escolheu todo o vale do Jordão e partiu em direção ao leste. (Gn 13.10)

A Bíblia sem dúvida dá vários indícios de onde as cidades situavam-se ao redor do Mar Morto:

[Os anjos instruem a Ló] E aconteceu que, tirando-os fora, disse: Escapa-te por tua vida; não olhes para trás de ti, e não pares em toda esta campina; escapa lá para o monte, para que não pereças. (Gn 19.17) [ou seja, Sodoma - a cidade principal do vale de Sidim - ficava na planície, perto das montanhas]

Ló partiu para as montanhas e... “Apressa-te, escapa-te para ali; porque nada poderei fazer, enquanto não tiveres ali chegado. Por isso se chamou o nome da cidade Zoar. Saiu o sol sobre a terra, quando Ló entrou em Zoar.” (Gn 19.22-23). Essa cidade existe até hoje, no sul do Mar Morto. Então Sodoma deveria estar a oeste dela. Abraão podia observar Sodoma de onde estava fixado, logo, era preciso que a cidade ficasse numa altitude bem abaixo das colinas de Samaria.

Grande parte da dificuldade em se localizar hoje os restos dessas cidades da Era do Bronze (3500-2000 a.C.) está no fato de que o relevo e o clima mudaram bastante no Oriente Médio. Alguns locais submergiram sob o mar, outros eram vales férteis e hoje são parte de desertos. Rios a que os textos se referem mudaram seu curso ou desapareceram. No caso das cidades da planície, a periferia do Mar Morto mudou bastante: o Mar Morto, localizado sobre uma falha tectônica, era bem menos baixo (~ 300 m abaixo do nível do mar) do que é hoje.

Buscando vestígios de cidades na região ao redor do Mar Morto, várias ruínas soterradas foram encontradas. Como a água do Mar Morto não serve para consumo, especula-se que as cidades da planície abasteciam-se da água de vários ribeiros com 20-50 Km de extensão (dos quais só restam os leitos secos) que desciam das colinas de Moab. As cidades-ruína encontradas foram chamadas de Bab-edh-dhra (provavelmente Sodoma), Numeira (provavelmente Gomorra), Safi, Feifa e Khanazir. Despejando sedimentos no solo rico em minerais das margens do Mar Morto, os ribeiros devem ter feito da planície um terreno muito fértil, talvez até “como o jardim do Senhor”. Numa sociedade movida pelo pastoreio e cultivo de grãos, seria equivalente as cidades da planície eram a região mais rica de Canaã. As pesquisas no local encontraram, na mesma profundidade onde estão os restos da cidade, vestígios fossilizados de cevada, trigo, uvas, figos, linho, grão de bico, ervilhas, favas e azeitonas.


Cidades ancestrais e os rios fósseis que as abasteciam

Sodoma era a maior das cidades, e se a nomeação das ruínas está correta, ela ocupava uma área de 9-10 acres (~ 40 Km², ou a área da cidade de Palmas, capital de Tocantins), cercada por muralhas de pedra com 7 m de espessura. A população devia ser de aproximadamente 1000 pessoas. No lado nordeste, foram encontrados os restos do que devia ser o portal da cidade, guardado por duas torres de vigia, que davam acesso à muralha: "E vieram os dois anjos a Sodoma à tarde, e estava Ló assentado à porta de Sodoma; e vendo-os Ló, levantou-se ao seu encontro e inclinou-se com o rosto à terra" (Gn 19.1).

O imenso cemitério entre Sodoma e Gomorra e os restos miscigenados de cerâmica no local dão a entender que era uma área comum usada pelas várias cidades para seus funerais.

COM O QUE SE PARECE A IRA DE DEUS

Então o SENHOR fez chover enxofre e fogo, do SENHOR desde os céus, sobre Sodoma e Gomorra, e destruiu aquelas cidades e toda aquela campina, e todos os moradores daquelas cidades, e o que nascia da terra. E a mulher de Ló olhou para trás e ficou convertida numa estátua de sal. Abraão levantou-se aquela mesma manhã, de madrugada, e foi para aquele lugar onde estivera diante da face do SENHOR. Olhou para Sodoma e Gomorra e para toda a terra da campina; e viu que a fumaça da terra subia, como a de uma fornalha. (Gn 19.24-28)

De fato, as escavações arqueológicas descobriram que as cidades mais ao norte da planície foram destruídas quase simultaneamente por volta de 2350 a.C., ao que parece, em um fantástico incêndio. A ira divina pode ter vindo sobre as cidades segundo o comentário de Gênesis sobre a batalha contra os babilônicos: "Ora, o vale de Sidim era cheio de poços de betume e, quando os reis de Sodoma e de Gomorra fugiram, alguns dos seus homens caíram nos poços e o restante escapou para os montes" (Gn 14.10).

O betume é uma forma “inacabada” de petróleo, e os poços de betume são conhecidos por expelir gás metano. Tanto o gás quanto o betume são muito inflamáveis, então uma"centelha divina" poderia  transformar em enorme fogueira toda aquela região. Além disso, lembrando que o vale do Jordão está sobre uma falha tectônica, a ocorrência de terremotos ali é bem comum, e existem pesquisadores que acreditam na devastação das cidades por um tremor simultaneamente com o incêndio. É possível que uma quantidade de magma tenha vindo à superfície, incendiando os poços de betume ou fazendo jorrar betume em chamas para o alto e sobre as cidades.

Hoje, as ruínas das cidades da planície “aparecem” às margens do Mar Morto, abaixo de quase 1 m de sedimentos. Com a aridez aumentando e elevação do terreno ao longo dos milênios, os ribeiros que vinham de Moab cessaram de fluir e o Mar Morto esticou suas bordas por uma área maior e também ao sul, tragando o que restou das cidades queimadas. O número considerável de esqueletos encontrados sugere que a população não deve tempo de escapar do desastre: como na famosa erupção do Vesúvio que destruiu a cidade de Pompéia, os habitantes das cidades da planície foram carbonizados junto com as cidades, enquanto Abraão observava estarrecido, do outro lado do Mar Morto, nas colinas de Hebron.

O Alcorão (~600 d.C.) traz uma versão semelhante da destruição de Sodoma, reforçando a hipótese de uma explosão vulcânica. No texto, os anjos que retiraram Ló e sua família explicam-se:

E quando se cumpriu o Nosso desígnio, reviramos a cidade nefasta e desencadeamos sobre ela uma ininterrupta chuva de pedras de argila endurecida (sura 11.82)

Então, destruímos os demais, e desencadeamos sobre eles um impetuoso torvelinho; e que péssimo foi o torvelinho para os admoestadores (que fizeram pouco caso)! (sura 26.172-173)

E desencadeamos sobre eles uma tempestade. E que péssima foi a tempestade para os admoestados! (sura 27.58)

COMO ATRAIR A IRA DIVINA

Quando Deus anuncia a Abraão que destruiria Sodoma e Gomorra, onde Ló (e seu clã) havia ido morar, Ele diz que passaria pelas cidades em pessoa para ver se o que falavam delas era verdade:

As acusações contra Sodoma e Gomorra são tantas e o seu pecado é tão grave que descerei para ver se o que eles têm feito corresponde ao que tenho ouvido. Se não, eu saberei”. (Gn 18.20)

Bem, sabemos o final dessa “inspeção divina”. O livro de Gênesis não dá evidências claras sobre o que se dava de tão terrível nas cidades da planície. No entanto, em suas visões o profeta Ezequiel cita as cidades para compará-las à Jerusalém que o Senhor também castigaria:

[Jerusalém, ] sua irmã mais velha era Samaria, que vivia ao norte de você com suas filhas; e sua irmã mais nova, que vivia ao sul com suas filhas, era Sodoma. Você não apenas andou nos caminhos delas e imitou suas práticas repugnantes, mas em todos os seus caminhos logo você se tornou mais depravada do que elas. Juro pela minha vida, palavra do Soberano Senhor, sua irmã Sodoma e as filhas dela jamais fizeram o que você e as suas filhas têm feito. Ora, este foi o pecado de sua irmã Sodoma: Ela e suas filhas eram arrogantes, tinham fartura de comida e viviam despreocupadas; não ajudavam os pobres e os necessitados. Eram altivas e cometeram práticas repugnantes diante de mim. Por isso eu me desfiz delas conforme você viu. (Ez 16.46-50)

Dessa forma, o terrível pecado das cidades parece estar ligado à falta de generosidade e arrogância. Sodoma é citada no livro judaico chamado de Mishnah (que significa estudo, revisão). Esse livro é uma versão escrita das tradições orais no tempo dos fariseus (530 a.C. - 70 d.C.). O livro foi escrito pelo rabino Yehudah haNasi por volta de 220 d.C. Nele, encontramos

Há quatro tipos entre os homens: Aquele que diz: "O que é meu é meu e o que é seu é seu" - este é o tipo mais comum, embora alguns digam que este é o tipo de Sodoma. Aquele que diz: "O que é meu é teu e o que é teu é meu" - ele é um homem ignorante. Aquele que diz: "O que é meu é teu e o que é teu é teu" - ele é um homem santo. E aquele que diz: "O que é seu é meu, e o que é meu é meu" - ele é um homem mau. (Pirkei Avot, cap. 13)

Daí, podemos mais uma vez inferir que Sodoma e Gomorra eram cidades de egoísmo abundante. Além disso, os povos semitas valorizam por demais a lei de hospedagem, isto é, a necessidade de acolher bem aos viajantes que chegam na casa de alguém. Isso aparece implicitamente por toda a Bíblia (como por exemplo em Ex 22.21), com os espias de Josué sendo acolhidos na casa de Raabe (Js 2.1), José e Maria sendo acolhidos em um estábulo, quando não encontraram lugar para pernoitar (Lc 2.7), Jesus sendo acolhido por Zaqueu (Lc 19.5) e Paulo por Judas de Damasco (Atos 9.11). O Alcorão igualmente valoriza essa prática. Por outro lado, quando os anjos apareceram a Ló na porta de Sodoma e foram acolhidos por ele, os habitantes da cidade que os viram logo organizaram uma milícia para violentar ou humilhar os visitantes, como se fazia com os vencidos numa guerra.

Os dois anjos chegaram a Sodoma ao anoitecer, e Ló estava sentado à porta da cidade. Quando os avistou, levantou-se e foi recebê-los. Prostrou-se, rosto em terra, e disse: "Meus senhores, por favor, acompanhem-me à casa do seu servo. Lá poderão lavar os pés, passar a noite e, pela manhã, seguir caminho. Não, passaremos a noite na praça", responderam. Mas ele insistiu tanto com eles que, finalmente, o acompanharam e entraram em sua casa. Ló mandou preparar-lhes uma refeição e assar pão sem fermento, e eles comeram. Ainda não tinham ido deitar-se, quando todos os homens de toda parte da cidade de Sodoma, dos mais jovens aos mais velhos, cercaram a casa. Chamaram Ló e lhe disseram: "Onde estão os homens que vieram à sua casa esta noite? Traga-os para nós aqui fora para que tenhamos relações com eles". Ló saiu da casa, fechou a porta atrás de si e lhes disse: "Não, meus amigos! Não façam essa perversidade! (Gn 19.1-7)

Ló não era natural da cidade, mas de repente teve de se confrontar com uma prática daquele povo que todos os semitas abominariam. Muitos teólogos associam aqui uma prática homossexual disseminada em Sodoma, o que certamente não parece ser o caso, dada a atitude de Ló, inconcebível nos dias de hoje:

"Não, meus amigos! Não façam essa perversidade! Olhem, tenho duas filhas que ainda são virgens. Vou trazê-las para que vocês façam com elas o que bem entenderem. Mas não façam nada a estes homens, porque se acham debaixo da proteção do meu teto". (Gn 19.7-8)

A ABOMINAÇÃO DE SODOMA

Não há dúvidas de que o extermínio das cidades da planície foi um evento genocida, ou seja, com o objetivo de destruir todo um povo com determinada característica que o Senhor achou extremamente nociva ao seu povo, que começava a crescer no lado oeste do Jordão. A destruição de Sodoma e Gomorra (e demais cidades vizinhas, com exceção de Zoar) foi o 2º evento mais destrutivo da história bíblica, perdendo apenas para o Dilúvio.

As cidades da planície ficavam em território dos Cananeus (descendentes de Canaã, neto de Noé). Os Cananeus habitaram a região entre o Mediterrâneo e o vale do Jordão de 8000 a 1000 a.C., sendo conhecidos a partir de 4000 a.C. como comerciantes de azeite, vinho, pistache, trigo e cevada. Entre os principais povos com os quais se relacionavam estavam o Egito e a Suméria, que compravam tinturas de conchas. As escavações arqueológicas na região revelaram bastante sua cultura: os deuses principais eram Baal (senhor dos montes) e Astarte (a deusa da fertilidade, conhecida como Ishtar entre outros povos). Baal era retratado como um jovem guerreiro e vingador, geralmente segurando uma lança. Astarte era descrita como uma mulher sedutora, geralmente de quadris largos e seios grandes, às vezes também uma grávida.

Os cultos de Baal eram realizados ao redor de pilares sagrados nos montes (Jz 2.13, 1Rs 11.5), com o sacrifício de animais como oferenda, a exemplo do que os hebreus faziam. No entanto, entre os restos de sacrifícios foram encontrados ossos de porcos, um animal tido como imundo pelos hebreus, e também restos de crianças. Os animais e as crianças tinham seu sangue recolhido em reentrâncias com formato e tamanho de xícaras ao redor dos pilares, e depois eram enterrados ao redor deles. Já os cultos de Astarte eram realizados em templos, onde sacerdotisas e sacerdotes separados se ofereciam à prática de relações sexuais com o objetivo de produzir a reprodução dos animais e das plantas sobre a terra. Curiosamente, o povo Cananeu originalmente adorou a Javé, constituindo um contraponto aos Sumérios na região. Com o passar do tempo, entretanto, absorveram deuses Sumérios e elaboraram suas próprias divindades pagãs (isto é, ligadas à terra).

Os Cananeus também tinham lugares de adivinhação, como os gregos. Eram basicamente cavernas com espaço para 1 ou 2 pessoas, as quais se comunicavam por orifícios na pedra com outras cavernas vizinhas ocupadas pelos sacerdotes ou adivinhos. Dessa forma, as vozes dos adivinhos pareciam vir da própria terra! Vários lugares assim foram encontrados na Grécia e também em Canaã, assim como nas bordas da planície ao redor do Mar Morto, muitas vezes com objetos rituais deixados em seu interior.

O profeta Ezequiel usa a palavra “abominação” especialmente para definir os ídolos que existiam em toda terra de Canaã. Aparentemente, esse desvio de um povo originalmente ligado aos hebreus foi o que despertou a ira do Senhor, de forma semelhante ao que aconteceria mais tarde no Êxodo, quando os hebreus passaram a cultuar o deus-boi Ápis, do Egito, fazendo-lhe um ídolo revestido de ouro (Ex 32.1-6).

O texto de Judas dá uma referência diferente ao pecado de Sodoma e Gomorra:

Mas quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto, que, havendo o Senhor salvo um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu depois os que não creram; e aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia; assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregue à fornicação como aqueles, e ido após outra carne, foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno. (Jd 1.5-7)

Aqui, Judas Tadeu, um dos apóstolos, dá a entender que grandes motivos de condenação ao inferno eram a vinda de anjos à Terra para se relacionarem com humanos (Gn 6.1-7) e a fornicação (também traduzida como prostituição) de Sodoma e Gomorra, que “foram após outra carne”. Na Bíblia, o termo “prostituição” é ligado ao ato sexual, mas também fortemente ligado à idolatria:

E sucedeu que, como Gideão faleceu, os filhos de Israel tornaram a se prostituir após os baalins; e puseram a Baal-Berite por deus. (Jz 8.33)

Quando alguém se virar para os adivinhadores e encantadores, para se prostituir com eles, eu porei a minha face contra ele, e o extirparei do meio do seu povo. (Lv 20.6)

Disse mais o SENHOR nos dias do rei Josias: Viste o que fez a rebelde Israel? Ela foi a todo o monte alto, e debaixo de toda a árvore verde, e ali andou prostituindo-se. (Jr 3.6)

O fato de “ir após outra carne” pode ter muitas interpretações, mas considerando-se as falas de Jesus, podemos entender que se trata de acreditar em homens e não em Deus, os tais “adivinhadores” que conduziam os homens e eram comuns nas cidade da planície, enfurecendo o Senhor: "Este povo se aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim. Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens. E, chamando a si a multidão, disse-lhes: Ouvi, e entendei: O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem. Então, acercando-se dele os seus discípulos, disseram-lhe: Sabes que os fariseus, ouvindo essas palavras, se escandalizaram? Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada. Deixai-os; são condutores cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova". (Mt 15.8-14)

Um dos livros apócrifos escrito por volta de 600 a.C., conhecido como livro de Jasher (ou ainda "Sepir Ha Yasher", ou ainda Sabedoria dos Justos) comenta sobre as abominações de Sodoma e Gomorra e a batalha onde os reis da cidades da planície lutaram contra os babilônicos. Nesse livro, conta-se que habitantes das cidades costumavam ir por 4 vezes ao ano para um vale com suas famílias e lá entregarem-se a relações sexuais entre eles, trocando esposas e esposos, jovens e velhos, para depois retornarem a suas casas e ocupações sociais, sem dizer uma palavra (cap. 18). Não há como negar que esse habito se parece muito com os "bacanais", rituais pagãos de fertilidade que existiram na Grécia e em Roma, realizados nos solstícios e equinócios.

O Livro de Jasher ainda conta sobre uma lei das cidades sobre dar prata aos que apareciam pedindo por comida. Então esperavam que o viajante morresse de fome, para depois pegar de volta a prata que haviam dado. Na estória, uma das filhas de Ló ilude os homens da cidade para levar pão a um faminto e acaba sendo presa e morta numa fogueira por ter ajudado o viajante (cap. 19). Essa estória também se pareia muito bem com o tratamento dado pelos homens da cidade aos viajantes (anjos) que Ló recebeu em sua casa.

Dessa forma, embora o termo “sodomia” tenha adquirido conotações sexuais ao longo da história, Sodoma e Gomorra parecem ter sido aniquiladas devido a violações explícitas do código hebreu sobre o qual haviam surgido, tanto por sua adoração a deuses pagãos como por sacrifícios de inocentes e o enaltecimento do egoísmo como se fosse uma virtude.

O PARENTESCO COM OS HEBREUS

Esse é exatamente o ponto que coloca o genocídio das cidades como uma eliminação daquilo que poderia se propagar ao povo de Abraão, no lado oeste do Jordão. Por volta de 2350 a.C. A dinastia dos reis nas cidades da planície era aparentada com os hebreus. A aceitação de Ló e seu clã em Sodoma mostra exatamente isso: se era lei matar de fome os estrangeiros ou quem os ajudasse, como Ló se estabeleceu facilmente lá, vindo dentre os Caldeus junto com Abraão?

Também, quando o Senhor revela a Abraão o seu plano para destruir as cidades, Abraão começa uma espécie de “pechincha” para convencer o Senhor a não realizar Seu intento.

Destruirás também o justo com o ímpio? Se porventura houver cinqüenta justos na cidade, destruirás também, e não pouparás o lugar por causa dos cinqüenta justos que estão dentro dela? Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra? Então disse o SENHOR: Se eu em Sodoma achar cinqüenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles. E respondeu Abraão dizendo: Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor, ainda que sou pó e cinza. Se porventura de cinqüenta justos faltarem cinco, destruirás por aqueles cinco toda a cidade? E disse: Não a destruirei, se eu achar ali quarenta e cinco. E continuou ainda a falar-lhe, e disse: Se porventura se acharem ali quarenta? E disse: Não o farei por amor dos quarenta. Disse mais: Ora, não se ire o Senhor, se eu ainda falar: Se porventura se acharem ali trinta? E disse: Não o farei se achar ali trinta. E disse: Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor: Se porventura se acharem ali vinte? E disse: Não a destruirei por amor dos vinte. Disse mais: Ora, não se ire o Senhor, que ainda só mais esta vez falo: Se porventura se acharem ali dez? E disse: Não a destruirei por amor dos dez. E retirou-se o SENHOR, quando acabou de falar a Abraão; e Abraão tornou ao seu lugar. (Gn 18.23-33)

O que se segue é justamente um par de anjos chegando a Sodoma para retirar de lá a Ló, sua esposa e as duas filhas. Abraão conseguiu salvar os justos, mas não impediu que as cidades fossem destruídas. O sofrimento de Abraão e seu esforço pelas cidades, em mais de uma ocasião, novamente reforça quanto os hebreus no oeste do Jordão eram ligados aos Cananeus do outro lado. Essa ligação, da mesma forma que havia possibilitado a Ló se estabelecer em Sodoma, muitas vezes permitiu que os Cananeus e até os Moabitas levassem seus costumes (e principalmente seu culto pagão) para o povo hebreu. Mesmo depois da destruição das cidades, não faltaram profetas falando contra os cultos dos “altos” (ou postes-ídolos) e de Baal entre os hebreus.

Se era abominável ao Senhor ver esses cultos vindo ao Seu povo a partir dos estrangeiros, quanto mais seria de outros hebreus?

Quando o Altíssimo distribuía as heranças às nações, quando dividia os filhos de Adão uns dos outros, estabeleceu os termos dos povos, conforme o número dos filhos de Israel. Porque a porção do SENHOR é o seu povo; Jacó é a parte da sua herança. Achou-o numa terra deserta, e num ermo solitário cheio de uivos; cercou-o, instruiu-o, e guardou-o como a menina do seu olho. … Ele o fez cavalgar sobre as alturas da terra, e comer os frutos do campo, e o fez chupar mel da rocha e azeite da dura pederneira. Manteiga de vacas, e leite de ovelhas, com a gordura dos cordeiros e dos carneiros que pastam em Basã, e dos bodes, com o mais escolhido trigo; e bebeste o sangue das uvas, o vinho puro. … 

E, engordando-se Jesurum, deu coices (engordaste-te, engrossaste-te, e de gordura te cobriste) e deixou a Deus, que o fez, e desprezou a Rocha da sua salvação. Com deuses estranhos o provocaram a zelos; com abominações o irritaram. Sacrifícios ofereceram aos demônios, não a Deus; aos deuses que não conheceram, novos deuses que vieram há pouco, aos quais não temeram vossos pais. … Porque a sua vinha é a vinha de Sodoma e dos campos de Gomorra; as suas uvas são uvas venenosas, cachos amargos têm. … Esconderei o meu rosto deles, verei qual será o seu fim; porque são geração perversa, filhos em quem não há lealdade. ... Porque um fogo se acendeu na minha ira, e arderá até ao mais profundo do inferno, e consumirá a terra com a sua colheita, e abrasará os fundamentos dos montes. Males amontoarei sobre eles; as minhas setas esgotarei contra eles. (Dt 32)

VAI LÊ TAMÉM, Ó...

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Gastando seu tempo com Deus


Fogo e saraiva, neve e vapores, e vento tempestuoso que executa a sua palavra. Montes e todos os outeiros, árvores frutíferas e todos os cedros, as feras e todos os gados, répteis e aves voadoras, reis da terra e todos os povos, príncipes e todos os juízes da terra, moços e moças, velhos e crianças: louvem o nome do SENHOR, pois só o seu nome é exaltado; a sua glória está sobre a terra e o céu.” (Sl 148.8-13

Tudo quanto tem fôlego louve ao SENHOR.” (Sl 150.6

A criação tem um caráter profundamente religioso. Embora não se possa dizer que haja intenção por parte dos animais que configure uma adoração como há em nós, ao funcionar dentro dos princípios estruturais para os quais foi criada, cada parte da criação promove a glória de Deus. Trata-se do máximo que lhes é possível, e o fazem para glória Dele. 

O movimento dos astros, os fenômenos naturais, a frutificação das árvores, etc, tudo isso existe por causa de Deus, por meio de Deus e para Deus, como seu ponto de referência último. Com os seres humanos, se dá o mesmo. A diferença é que essa essência religiosa, no ser humano, se manifesta através de atos pessoais e autoconscientes como pensamentos, sentimentos, palavras e atitudes... que foram pervertidos pela traição do que Deus instruiu. 

Obviamente, por essa traição existe a raça humana. Somos frutos dela e, de alguma forma, ela se faz presente em nós. No Salmo 53, Davi revela que “Deus olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um”. Um milênio mais tarde, Jesus apontaria os homens como “filhos do diabo” e Paulo ainda nomearia de “frutos da carne” tudo o que havia de ruim nos homens... (Gl 5). Se amar a Deus é seguir os Seus mandamentos, então somos naturalmente impelidos a quebrá-los. 

Como o analista do Calvinismo Kuyper diz: “Se tudo o que é existe por causa de Deus, então se segue que a criação toda deve dar glória a Deus. O sol, a lua e as estrelas no firmamento, os pássaros do céu, toda a natureza ao nosso redor, mas, acima de tudo, o próprio homem que, como sacerdote, deve fazer convergir para Deus toda a criação e toda a vida que se desenvolve nela. E embora o pecado tenha insensibilizado grande parte da criação para a glória de Deus, a exigência – o ideal permanece imutável, que cada criatura deve ser submergida no rio da religião e terminar por colocar-se como uma oferta religiosa sobre o altar do Todo-Poderoso”. 

Isso significa que tudo o que existe tem o propósito de servir a Deus e promover a sua glória no mundo, mas nós humanos, que recebemos o “conhecimento do bem e do mal”, estamos destinados a usá-lo da pior forma. Quando Deus fala com Moisés no monte Sinai, Ele não quis que os homens sequer tocassem o monte, e então colocou sua primeira aliança para nos restaurar: “Não terás outros deuses diante de mim” (Êx 20:3). Jesus levou esse pacto a um nível maior quando disse para um doutor fariseu “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento.” (Mt 22.37-38). 

A postura estritamente monoteísta dos judeus até colocaram Jesus como um pária. A aliança estava feita no Sinai, quem Ele pensava ser para juntar alguma coisa ao que Deus tinha declarado? Nós, Cristão, escolhemos uma adoração quase biteísta ao cultuarmos Jesus juntamente com Deus ou, na prática, tomar dois conjuntos “distintos” de leis divinas. A primeira é lei simples, não ter outros deuses... a segunda nos afirma [se tomarmos a autoria de ambas como sendo a mesma] que o nosso deus é, na verdade, o que amamos. Para os judeus da época de Moisés, respeitar o Mandamento parecia significar simplesmente não construir ídolos. Mas Jesus tinha algo maior: a questão não eram os ídolos ou estatuetas de barro, bronze, etc que os homens faziam (a partir do seu entendimento do bem e do mal), a coisa estava nos corações das pessoas. 

Paulo foi um dos principais responsáveis por essa questão filosófica sobre “amar a Deus”. Ele embutiu isso de toda uma confiança necessária, que o autor do livro de Hebreus chamou de fé. No Cristianismo, juntando a Lei dada a Moisés com o ensinamento de Jesus, vamos encontrar o ídolo que afronta Deus escondido dentro das pessoas. Ao seguirmos ele, estamos arrumando encrenca com Deus; ao simplesmente amá-lo, não amamos Deus de todo o coração. 

Talvez você diga: “eu não tenho outros deuses”. Vou tentar te provar o contrário. 

TRABALHO 

Não deveríamos atribuir divindade alguma ao trabalho, uma vez que ele nos foi imputado pelo próprio Senhor ao tirar Adão do Éden para que ele “lavrasse a terra de que fora formado” (Gn 3.23). Além disso, o mandamento divino diz “seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra” (Ex 20:9). Paulo e seus companheiro, que assinam a 2ª carta a Tessalônica, também afirmam que “se alguém não quiser trabalhar, não coma também” (2Ts 3.10). 

O dia dos homens poderia ser dividido em 8h de sono, 8h de trabalho remunerado e 8h para cuidar de si e da família. Na prática, o trabalho remunerado dos brasileiros subiu de 3,6 para 6,1h diárias nos último 30 anos (descontando-se do turno de 8h o tempo de almoço, etc). Estamos perto dos países com maior índice de trabalho, a saber a Bulgária (6,7h) e a Hungria (6,2h). Esse trabalho precisa ser honroso ao Senhor como as demais atividades suas, ou seja, nas 6,2h diárias do seu trabalho, você precisa estar seguindo o que Deus ordena e que Jesus sintetiza como “amar ao seu próximo”. 

Repare a diferença enorme entre (1) “amar ao próximo”, (2) “amar ao trabalho” e (3) “amar ao ganho”. A primeira opção diz que você trabalha para as pessoas, acima de tudo para o bem delas… e talvez tenha de sacrificar as regras e o seu salário ou posto por elas. A segunda opção diz que você segue normas estritas e sacrifica as pessoas ou seu salário por essas normas, se necessário. A terceira opção indica que você sacrifica pessoas e a correção ou ética do seu ofício para ganhar mais... Infelizmente é uma situação comum. Segundo a Bíblia, o natural humano é seguir (2) ou (3), fazendo assim ídolos do trabalho ou do dinheiro (a Bíblia o chama de Mamon, o demônio - ver Mt 6.24 e Lc 16.13), quando o que Deus pede é que fiquemos com o “amor ao próximo” (e assim não matar, roubar, adulterar, etc) além de não dedicar todo o seu tempo ao trabalho (em outras palavras, dedicar pelo menos 1/7 do seu tempo ao Senhor) e não tomar para si próprio TODO o seu ganho (dando 1/10 ao Senhor), em agradecimento por Ele ter provido esse ganho. 

Se o brasileiro dedica 6,2h do seu tempo diário ao trabalho, 2,2h destas são somente para pagar impostos (na média, pois a população mais pobre chega a 2,4h). Trata-se de um tempo (e dinheiro) dados em melhor estimativa para os serviços básicos do país e em pior estimativa para o luxo dos dirigentes. Como você pode dar 35% do seu ganho para o Estado (que não te dá a possibilidade de esquivar-se) e dizer que esse não é o seu deus, se nem oferece 10% ao Senhor que pede pela sua generosidade? Se você pensou agora nas catedrais e templos suntuosos, lembre-se que dar aos pobres (a viúva e o órfão, segundo a Bíblia) ou a alguém capacitado para ajudá-los também é um ato de fé. E trata-se justamente da fé em que o seu próprio provimento vem do Senhor, e não do trabalho das próprias mãos (pelo que você não precisaria agradecer ninguém). 

Embora ordenado por Deus, o trabalho pode se tornar um deus ou ídolo. Trabalho gera dinheiro, e assim satisfazemos outro ídolo moderno (de que quem possui o dinheiro é melhor). 

TEMPO DE REPOUSO 

Todo mundo precisa de um tempo para si. Esse tempo é dividido entre as atividades de subsistência (alimentação, cuidados com as crianças ou com idosos, higiene, etc) e atividades de lazer. O tempo de repouso ou cuidado de si é aquele tempo necessário à manutenção da família, do lar, provisão da casa, orientação dos filhos, estratégia familiar, etc, além das necessidades fisiológicas como dormir, comer, beber, defecar, fazer amor, enfim suprir as necessidades básicas de subsistência. 

Tradicionalmente, as tarefas domésticas foram desempenhadas pelas mulheres na sociedade ocidental, mas esse quadro tem diminuído com a entrada delas no mercado de trabalho, sendo os cuidados domésticos diminuídos ou desempenhados por profissionais, nas classes mais abastadas. 

No Brasil, se gasta 10,5h diárias nessas atividades, valor que é semelhante nos outros países (os extremos são 9,9h na Polônia e 11h na França). Poderia ser um tempo distante do culto a Deus, se Ele não houvesse se preocupado muito conosco especialmente nesse ponto. Deus proveu ensinamentos principalmente acerca da família, como honrar ao pai e à mãe, assim como esforçar-se na educação dos filhos, para que aprendam os caminhos onde devem andar. Quando obedecemos aos ensinos de Deus, estamos dando a Ele a primazia sobre nossa vida e, nesse caso, sobre o nosso tempo de auto-cuidado. Confiamos que Ele tem a melhor forma de vivermos, e essa é uma atitude de fé, da qual Ele se agrada. 

TEMPO LIVRE 

Dentre o tempo que não é dedicado ao trabalho nem à subsistência, as atividades de tempo livre das pessoas podem ser divididas principalmente em 2 esferas: 

1. sociabilidade: relacionamentos com amigos, bater papo, trocar confidências, ir a um bar, a uma festa, a um clube, etc. Gastávamos 2,9h diárias nisso em 1976; hoje são apenas 2,0h diárias. 

2. atividades miméticas ou jogo: ir ao teatro, ao cinema, à pesca, dançar, ver televisão, etc. Para a televisão o brasileiro dedica 2h diárias, contra 0,6h para outras atividades (eram 1,2h em 1976). 

Repare que, dentre as atividades de lazer que encontramos na sociedade brasileira, as MENORES fatias são gastas em atividades sociais (e o amor ao próximo com isso?) ou em atividades bem menos individualistas do que ver televisão. Estamos na era do simulacro, em que as pessoas preferem se isolar em um mundo onde podem forjar emoções, vivências etc sem os riscos (e também sem o controle divino) da vida real. No novo ambiente urbano, embora a densidade de pessoas seja cada vez maior, vemos um pior relacionamento entre elas e até delas com o mundo. Essa convivência social (e os aprendizados dela derivados, assim como as aplicabilidades dos ensinamentos bíblicos) está sendo progressivamente substituída por comportamentos individuais, desde as mais tenras idades... Abaixo segue um relato (trágico) de uma criança cosmopolita dos anos 2000: 

“Quando estou em casa passo a maio parte do tempo no meu quarto. Meus pais trabalham e meu irmão mais velho já está na faculdade; no prédio são poucas as crianças de minha idade, e estudamos em horários diferentes. Então assisto TV (9 canais privados), jogo vídeo game, converso na internet. Existe a área de lazer do condomínio, mas prefiro meu quarto. Quando meus pais chegam do trabalho, na maioria das vezes já jantei e estou novamente no meu quarto.” 

Uma entrevista com um executivo da Blockbuster em 2002, publicada pela revista Veja, já indicava claramente que as notícias sobre violência repercutiam sobre o aluguel de filmes. O motivo: buscar alívio e distração em meio ao medo de sair para divertir-se fora de casa. Relacionamentos mais pobres (marcados pela superficialidade, dependência, fingimento ou até agressividade) nascem de aprendizados sociais mais pobres, e daí curiosamente observamos assustados um aumento da violência, do terrorismo, do vandalismo... Crimes políticos, crimes no trânsito, conflitos em estádios de futebol, brigas de fundo étnico e racial, terrorismo de fundo político e religioso, brigas sem motivo de gangues, patologias sexuais hediondas parecem até normais se esquecermos que a vítima é alguém como nós. Pesquisas recentes sobre a periferia na metrópole paulistana revelam que a violência abunda justamente nos bairros onde não existem equipamentos de lazer (ex. praças, centros de convivência), intensificando-se nos fins de semana, quando as pessoas entram em contato umas com as outras! 

Ainda, dedicando todo esse tempo (2h diárias e em crescimento, se incluirmos aí a internet) ao culto televisivo (do ídolo televisão, entenda-se bem), a primazia sobre nossas vidas passa das mãos de Deus para a indústria da mídia, dos volúveis grupos virtuais, etc. Quem se importa em ofender via internet, sem ver os olhos sofridos do ofendido? Quem se importa com o personagem que morre? Talvez não sobre aí tempo para aplicarmos o que a Bíblia ensina repetitivamente e ao longo de numerosas ocasiões: amar a Deus e ao próximo. O próximo não é mais humano, é só um avatar, uma figura, um conjunto de dados em um programa... não é mais alguém que faça sentido amar. E Jesus dizia que o amor se esfriaria... 

LAZER 

Nosso tempo não trabalhado se divide entre as atividades de subsistência (alimentação, cuidados com as crianças ou com idosos, higiene, etc) e atividades de lazer (onde a pessoa pode escolher o que fazer, sem ser coagida por pressões do trabalho, obrigações familiares, sociais, econômicas, políticas ou religiosas). 

Alguns estudiosos contemporâneos contrastam trabalho e outras atividades destacando a rotina e pobreza intelectual do trabalho remunerado. Esse trabalho assim demanda muito autocontrole e disciplina, estimulando mecanismos de estresse para bloquear a maioria dos comportamentos humanos, em outras palavras equiparando o trabalhador a uma máquina autônoma. O lazer desenvolvido em atividades recreativas cumpriria uma função prazerosa, possibilitando descarregar tensões e emoções que não podem ser liberadas no exercício do trabalho. Entre as principais atividades aliviadoras estão aquelas que não exigem a restrição de comportamentos e permitem a criatividade como reuniões sociais, participação em jogos e prática de esportes, viagens, passeios e até fazer nada. 

A passividade intelectual e o embrutecimento no trabalho repercutem diretamente no lazer (por passividade entendamos a falta das atividades criativas, motoras, críticas, emocionais e sociais naturais do homem). Pessoas submetidas a um trabalho mecânico e repetitivo têm o tempo livre ameaçado pela fadiga, talvez mais psíquica do que física, tornando-se incapazes de relaxar. Provavelmente por isso são atraídas por atividades físicas radicais, por esportes e brinquedos frenéticos, pois parecem buscar compensações violentas que as recuperem da inércia dos sentidos e da emoção. 

MEDO DE SI 

Essa “recuperação necessária” infelizmente acaba por tomar o tempo de outra atividade muito humana que é o precioso tempo de encontro do indivíduo consigo mesmo, um tempo de completa entrega, um tempo de meditação e de descoberta. Este é um tempo até evitado por muitos, porque é permeado pelo terror da reflexão sobre o sentido da própria vida. A idolatria do trabalho foi tão fortemente inculcada na civilização ocidental que não se compreende o direito a um tempo descomprometido, que possa ser despendido em pura contemplação, e todos somos estimulados a preencher esse tempo com mais trabalho, com preparação intelectual para o trabalho ou com consumismo de produtos e serviços (porque isso gera empregos e trabalho)... Temos preconceito pelo ócio! No Dicionário Aurélio Básico da Língua Portuguesa, ociosidade tem o seguinte significado: “1. Qualidade ou estado de ocioso, de quem gasta o tempo inutilmente, inatividade ; 2. Preguiça, indolência”. 

Na sociedade moderna pós-industrial, o aumento nas capacidades de produção tende a diminuir as jornadas de trabalho. Essa redução gera mais tempo disponível, mas de alguma forma encontra-se com uma diminuição das oportunidades de convívio social nas grandes cidades. Os indivíduos se deparam com um vazio que deve ser preenchido de alguma forma, através de viagens ou o entretenimento simulado (cinema, jogos, drogas como álcool, televisão ou internet). Há mesmo as pessoas que não toleram o tempo desocupado, os “workaholics” ou viciados em trabalho, cuja única finalidade da vida é trabalhar (o trabalho torna-se assim propósito da vida, ocupando o lugar de Deus). 

MEDO DOS OUTROS 

Como reflexo da falta de conhecimento do outro, combinados instalou-se na sociedade, em relação à cidade e ao espaço público, uma espécie de agorafobia* coletiva. Os shoppings centers assumem a função das antigas ruas e praças como locus de sociabilidade, porém são espaços normalizados e segregacionais, organizados não pela comunidade, mas segundo os interesses comerciais de que as pessoas não se reúnam pela convivência, mas pelo consumo (conheçam, pois, Mamon). Os condomínios fechados, resorts, parques temáticos, etc, oferecem lazeres regrados e excludentes (segundo quanto dinheiro cada um possui), com práticas sociais desprovidas que não vinculam as pessoas, mas apenas afirmam a cada geração que tudo é movido pelo capital. 

Há grande diferença entre “estar” com outras pessoas (como num shopping center ou na internet) e realmente partilhar atividades com elas, em especial conhecer seus sofrimentos e felicidades. O tempo partilhado permite o crescimento individual onde se fazem necessários e úteis os ensinamentos bíblicos acerca do próximo (de tratá-lo como igual a si, com amor), pois se trata de uma interação das mais imprevisíveis. As exigências relacionais são maiores (e por isso as pessoas sentem-se intimidadas com elas), impondo o medo da rejeição pelo outro ou a dificuldade de acolher o outro, juntamente com suas diferenças. Quanto texto bíblico é dado a falar sobre relacionamentos entre pessoas! Seria um cristão capaz de substituir isso tudo pelos perfis de internet e as superficialidades da televisão ou dos centros comerciais? 

CONCLUSÃO

A criação existe por causa de Deus e não o contrário, o que confere à realidade “uma expressão religiosa de natureza inconsciente”, onde o que fazemos reflete o nosso louvor a Ele. Assim, não há nenhum aspecto da nossa existência que possa ser considerado indiferente ou neutro em relação à religião; nossas ações e nosso tempo precisam mostrar isso. 

Embora o pecado tenha insensibilizado grande parte da criação para a glória de Deus, o chamado Dele para que isso se modifique (para que o amor a Ele e ao próximo triunfem) permanece imutável... Afinal, tudo o que existe tem o propósito último de servir a Deus e promover a sua glória no mundo. 

Você jejua? Dê-me prova disto por suas obras. 
Se você vê um homem pobre, tenha piedade dele. 
Se você vê um amigo sendo honrado, não o inveje. 
Não deixe que somente a sua boca jejue, mas também o olho e o ouvido e o pé e as mãos e todos os membros do seu corpo. 
Que as mãos jejuem, sendo livres de avareza. 
Que os pés jejuem, cessando de correr atrás do pecado. 
Que os olhos jejuem, disciplinando-os a não fitarem o que é pecaminoso. 
Que os ouvidos jejuem, não ouvindo conversas más e fofocas. 
Que a boca jejue de palavras vis e de criticismo injusto. 
Porque, qual é o proveito se nos abstemos de aves e peixes, mas mordemos e devoramos os nossos irmãos? 
Possa Aquele que veio ao mundo para salvar pecadores nos fortalecer para completarmos o jejum com humildade, tendo misericórdia de nós e nos salvando.” 

João Crisóstomo (349-407), bispo de Constantinopla 

A GENTE LEU, AINDA TÁ VIVO E ATÉ MAIS GORDINHO
  1. Adyr Balastreri Rodrigues, Lazer e espaço na cidade pós-industrial, Rev. Licere, v. 5, n. 1, p. 149-164, 2002. 
  2. Camila Lopes Ferreira, Luiz Alberto Pilatti, Antonio Carlos Frasson, O uso do tempo: uma análise da população brasileira, Anais do 4º Encontro de Engenharia e Tecnologia dos Campos Gerais, agosto de 2008. 
  3. Fabiano de Almeida Oliveira, Fides Reformata XVI, n. 2, p.51-94, 2011. 
  4. http://monergismo.com/joao-crisostomo/voce-jejua/ 
  5. Leonice Aparecida Doimo, Alice Moreira Derntl, Olival Cardoso do Lago, O uso do tempo no cotidiano de mulheres idosas: um método indicador do estilo de vida de grupos populacionais, Ciênc. Saúde Coletiva, v.13, n.4, 2008. 
  6. Neuma Aguiar, Mudanças no uso do tempo na sociedade brasileira, Rev. Ciências Sociais, n. 34, p.73-106, 2011. 
  7. "Senhor Jesus Cristo: A Devoção a Jesus na Igreja Primitiva - Larry Hurtado”, criticado por Eliel Vieira antes do sumiço, 2011.


*agorafobia = medo generalizado, sem origem clara

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Antes de nós

- Esqueça o passado.
Os raios NO apagarão sua mente.

Vai um texto mascado, cuspido e escarrado de um Brabo. Sentimos muito por ele [o Brabo] e expressamos nosso mais sincero "Snif".

Nada que aconteceu antes de 1500 nos interessa. O rompimento protestante não foi só com a Igreja Católica, mas também com a História. O método para corrigir 1500 anos do equívoco católico foi ignorá-los. Se o catolicismo se suporta na própria história, afirmamos que simplesmente não houve nada entre os livros do NT e a Reforma. Isso para quem valoriza a história; para os demais, a afirmação da atualidade bíblica faz supor que nem mesmo Lutero e todos os expoentes da Reforma existiram.

Nossa verdadeira filiação, queremos crer, é com a igreja do livro de Atos, não com a estrutura corrupta e vendida que foi construída depois. Em alguns aspectos, a igreja estruturada que conhecemos se encaixa bem na denominação "conquistadora de pessoas", que em grego receberia o nome Nikolaos, ou nicolaíta. Bem diferente do Papai Noel, esse nome é simplesmente dito "odiado pelo Senhor" no livro de Apocalipse (Ap 2.6)¹. Quanto ao período intermediário que abominamos por muitos motivos doutrinários, a herança de Cristo só passou a ser eficazmente defendida quando viemos a honrá-la da forma certa. Sem os protestantes, a herança de Cristo e o Cristianismo jamais existiram.

Pelo fato de muitos mártires e santos terem sido canonizados postumamente pelo catolicismo, negamos sua existência e ensino, bem como a importância das Cruzadas, peregrinações, a subversão descalça de São Francisco, a Inquisição, a paixão medieval pelos pobres e a obsessão pelos símbolos. Não sabemos (ou fingimos não saber) o que disseram ou fizeram Lutero, Calvino, Knox, Wesley ou Billy Graham. Lembrá-los é idolatria, por isso o passado evangélico não existe ou é vazio. Tudo que queremos ouvir é o presente pregador oferecendo a prosperidade para o futuro próximo, antes do próximo culto onde viremos dar testemunho dela. Nada sabemos e nada queremos saber sobre relíquias, ritos latinos e qualquer escrito ou ação praticada antes da Reforma. E provavelmente também desprezemos o que existiu depois dela, de forma a ligar cronologicamente os dias: o NT foi escrito ontem, talvez hoje mesmo. Assim nosso Deus é, por exclusão, o mesmo de Abraão, Isaque e Jacó. Não é o Deus de Joana d’Arc, de Giotto, de Gegorio I e de Dante Alighieri. Não é o Deus dos tetos das catedrais, nem de nossos ancestrais (se de fato tivéssemos tido algum).

Quando descartamos a antiguidade cristã, também exterminamos do coração todo mito, metáfora e todo assombro. Só nos resta a superfície, a aparência da aparência de uma existência espiritual. Então, o utilitarismo que nos caracteriza mostra todas as coisas como ferramentas, os lugares como facilidades e as pessoas como números.

Essa devastação de nosso ambiente simbólico está na arquitetura de praticamente qualquer templo evangélico contemporâneo. Mesmo o velho Estevão batendo que o "templo" é onde Deus habita, que não pode ser feito por mãos humanas (Atos 7.49), mesmo Jesus tendo afirmado que o derrubaria e levantaria de novo (Jo 2.19), somos orgulhosos e necessitados de exibir nossos prédios, nossos números. Por fora, tais templos são a força do dinheiro, bem diferente das catedrais católicas. Por dentro, uma casa fala do que está cheio o coração, e nada há nas paredes de um templo evangélico que dê indício de riqueza interior, acolhimento ou de qualquer compromisso. São utilitaristas, mais caiados e limpos que uma repartição pública. Só para contrariar o adornamento das igrejas católicas, muitas vezes não há no edifício evangélico sequer uma cruz, porque nosso distanciamento simbólico se estende até mesmo a Jesus.

Outra consequência da separação entre os protestantes (perdão, evangélicos) e a história é que somos um povo que só presta contas ao Jesus teórico, com alma mas sem corpo. Nem ao Jesus homem nos dignamos a ver: oramos de madrugada porque Ele orou de madrugada; repartimos o pão porque Ele repartiu o pão; mas evitamos as festas que Ele frequentou, não dormimos em barcos e nem nos sentamos com qualquer um. Não respondemos pelos erros [humanos] da Igreja Católica, nem pelas imprudências [humanas] de Lutero, pelas imoderações de Calvino, pelos exageros dos missionários entre os índios ou omissões dos cristãos na Alemanha nazista. Simplesmente não pertencemos ao mundo por não sermos humanos! Na verdade nossa dissociação com o passado é tamanha que não queremos ser responsáveis pelo que nós mesmos fizemos em nosso próprio tempo de vida. Esse tempo passou, e renascer em Cristo nos significa isso mesmo, absolvição permanente e liberação retroativa.

Ao contrário do que católicos costumam fazer, os evangélicos absolutamente não se ajoelham diante de coisas (cruzes, imagens ou lugares sagrados). Aprendemos e confessamos que o verdadeiro crente deve dobrar-se apenas diante do Deus invisível ou do Cristo (também invisível, e continue assim). Quando se ajoelham diante de imagens, relíquias ou capelas, os católicos estão reconhecendo que os objetos por si mesmos não se bastam e não se explicam; estão confessando que as coisas não se esgotam em sua utilidade imediata e não se constituem na definição última da realidade. Devidamente instruídos pela mentalidade medieval, eles intuem que o valor das coisas não está em sua função utilitária, mas em sua função simbólica. As coisas apontam para outra realidade; as coisas remetem. Sendo os donos da benção divina, nós não somos capazes de fazer isso.

Nós, que nunca beijamos os pés de uma Maria ou deixamos os joelhos tocar o mármore frio diante de um Crucificado, desconhecemos por completo esse assombro. Somos paupérrimos de conteúdo simbólico e de transcendência; porque nos recusamos a tocar o material, somos privados da realidade intangível a que as coisas silenciosamente remetem. Não adoramos ao papa nem qualquer outra autoridade, mas estamos dividido em milhares de denominações que criam as próprias regras e teologias.  E depois vamos aos pastores pedir oração por um familiar, pois eles (primeiro o pastor, depois sua oração) são muito mais poderosos que simples mortais como nós. Pelo menos vamos depois para casa ouvir a santa música gospel da santa rádio de nossa própria santa congregação. Que nossas coisas santas nos mudem os corações...

Mais espiritualizados, nós também evangelizamos o mundo com a terrível nova de que ser livre é ter a capacidade de adquirir. Oramos por prosperidade material, decretamos o insucesso financeiro dos nossos inimigos, dedicamos a vida a angariar os bens de que não iremos precisar. Ainda bem que estamos livres da idolatria!

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¹ Curiosamente, a única referência confiável sobre os nicolaítas que chegou à atualidade foi o livro de Apocalipse. Mesmo os historiadores que escreveram sobre esse povo misterioso utilizaram como fonte o significado grego do nome Nikolaos ou especulações baseadas em antônimos das "bem aventuranças" descritas no NT ou suposições sobre a vida do bispo Nikolaos de Antióquia (Atos 6.5). De qualquer forma, a data da redação do livro de Apocalipse torna impossível que os nicolaítas tivessem qualquer relação com o bispo nomeado pelos apóstolos.