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sexta-feira, 24 de abril de 2020

Resposta a Joe - Corrupção da Humanidade

Esquema contrastando a Teoria da Evolução e o Criacionismo. Embora popularmente a Teoria da Evolução seja atribuída a Charles Darwin (Inglaterra, 1809-1882), ele foi só uma peça em uma longa linha de montagem. que começa com o estudioso Al Jahiz (Iraque, 776-868) e passa pelo avô de Darwin, Mr. Erasmus Darwin. Na verdade, Darwin jamais mexeu com espécimes humanos, nem discutiu cientificamente a respeito deles. Sua metodologia científica, amplamente empregada a partir do seu trabalho, e que acabou chamada Teoria da Evolução, foi desenvolvida a partir da observação minuciosa de pássaros na costa oeste da América do Sul.

Joe Omundson, Seven problems in Christianity that killed my faith, www.medium.com, nov/2019

Como disse na parte 1 e na parte 2: Esse é um texto não tão comum, daqueles que às vezes deixa a gente sacudido. Basicamente, Joe enumera seus 7 motivos para ter transitado da condição de Cristão fervoroso para o ateísmo. Segundo ele, não foi impulso e não foi rápido, mas resultado de seu questionamento quanto a coisas importantes. Pela sinceridade das palavras, acho que cada motivo dele merece uma reflexão. Demorei um tempo sobre cada uma delas e gostaria de expor alguns pensamentos. Pouco a pouco voltarei a esse texto. Essa é a 3ª parte.

3. Corrupção da Humanidade

Aqui, Joe traz a clássica pergunta “porque deus permite o mal?”, em especial ligado à Humanidade. Isto é, Deus criou os seres humanos perfeitos, mas não os protegeu de um anjo rebelde - a serpente, na verdade - que enganou Eva e terminou corrompendo toda a Humanidade. A analogia de Joe é exemplar: “Deus me lembra um homem que ganha um filhote, diz para ele não fazer xixi no tapete, fica furioso quando o faz, coloca-o para fora de casa, para ser abandonado para sempre - e depois se considera a vítima”.

Lembro de um pastor com uma fala também singular e que se encaixa bem aqui: “A relação de Deus com um Adão e Eva perfeitos, duas pessoas ideais num lugar sem problema algum, parece algo muito fácil. E não produziria nada interessante. Até eu saberia gerir bem isso.

Não seria incabível alguém duvidar da Criação bíblica. Na verdade, muitos Cristãos duvidam. A proposta de Jesus era sobre nos aproximarmos de Deus e praticarmos o amor mútuo; essa proposta somente ganha tons de conexão com Adão nas palavras de Paulo. Essa famoso autor bíblico e fundador de igrejas era, antes de mais nada, um Fariseu educado ante os melhores mestres e crente - assim como os demais apóstolos - de que os Judeus eram uma raça escolhida, predileta de Deus. Muitos Cristãos latino-americanos também acham isso hoje mesmo e, para espanto geral, acreditam-se parte dos Judeus por sua fé em Jesus.

Talvez fosse mais simples para Joe e qualquer habitante do séc. 21 considerar uma alternativa à Criação bíblica (escrita 700 anos antes de Jesus, relatada por Moisés 1400 antes Dele e ocorrida, supostamente, a pouco mais de 5000 anos antes Dele). Claro, isso deixaria misterioso como “todo o mundo está no maligno” (1ª João 5.19), que não é uma fala de Jesus, mas de um Judeu seguidor de João no séc. 2. Talvez isso explicasse como os não Cristãos que Joe conheceu (ver 2ª parte) não são, afinal, pessoas tão ruins.

Talvez a implicação maior da falta de um Pecado Original não seja a bondade humana - Paulo mesmo escreveu sobre a natureza maligna da carne, e todos os filósofos da Antiguidade tentaram abordar a predisposição humana para fazer coisas reprováveis. O Pecado Original só é fundamental se fôssemos criados perfeitos, e daí chegamos à imperfeição vista por todos através do crime de alguém. Platão (Atenas, 428-348 a.C.), que não era Judeu nem Cristão, por exemplo, dizia que somos imperfeitos porque somos menores que Deus e não temos capacidade/poder para fazer coisas perfeitas. Talvez a implicação maior da falta do Pecado Original seja o papel de Jesus como Redentor necessário aos homens. Mas quem sabe Ele quisesse simplesmente ser um Redentor escolhido, bem quisto? Jesus chegou mesmo a dizer que Suas “ovelhas” O reconheceriam e procurariam, sem serem forçadas a isso.

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DISTRAÇÕES

Anno Mundi - wikipedia
Gregory TR, Understanding Natural Selection: essential concepts and common misconceptions, Evolution: Education and outreach, v. 2, n. 2, p. 156, 2009.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Uma história dos diabos

Acima, "Jesus separando carneiros e bodes", mosaico do séc. 6, Basilica de Sant'Apollinare Nuovo, Ravenna, Itália (repare o Diabo como um anjo azul). Abaixo, Mephistópheles, cartaz da ópera Faust, de Gounod, Paris, 1869. À direita, "Satanás", Codex Giga (coleção de livros da Bíblia), séc. 13, República Tcheca.

Uma abordagem desse tema do Diabo já foi feita em O Diabo do Novo Testamento

Aqui, gostaria de apresentar algumas interpretações Cristãs pós-bíblicas do Diabo. Uma delas, bem inicial, é sua associação com a serpente no jardim do Éden.

Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus tinha feito. E ela perguntou à mulher: "Foi isto mesmo que Deus disse: ‘Não comam de nenhum fruto das árvores do jardim’?" (Gênesis 3.1) … Então o Senhor Deus declarou à serpente: "Já que você fez isso, maldita é você entre todos os rebanhos domésticos e entre todos os animais selvagens! Sobre o seu ventre você rastejará, e pó comerá todos os dias da sua vida. (Gênesis 3.14)

Se observarmos cuidadosamente o texto que se refere à serpente, supostamente escrito por Moisés (aprox. 1400 a.C.) e, sabemos, re-compilado pelos profetas do rei Josias (640-609 a.C.), não há uma ligação entre a serpente e o Diabo. Para falar a verdade, a maldição “sobre o seu ventre rastejarás” parece bem pouco adequada a um anjo rebelde e muito mais semelhante a um mito de criação do réptil sem patas. Pelo menos na concepção hebraica, parece que a condenação de Adão e Eva se deu por uma ação deles mesmos, no máximo influenciada por uma cobra (realmente uma cascavel, sucuri, etc) no sentido literal. Ok, é menos degradante pensar nos 1os humanos sucumbindo a um poderoso ente celestial maligno que estaria lá no Éden “disfarçado de serpente”, mas as Escrituras não falam nada sobre isso. Falam sobre um réptil astuto, enganador e tagarela.

A associação da serpente com o Diabo pode ter surgido nos tempo do Velho Testamento pelo contato dos Judeus com povos cultuadores desses animais (ex. Egípcios, Cretenses, Sumérios, etc), mas as escrituras de fato falam da disputa religiosa com crenças Cananéias como Baal (senhor das tempestades), Astarte (senhora dos céus, das estrelas especificamente), Asherá (senhora das matas) e Moloque (deus da fertilidade agrícola). Em nenhum desse cultos as serpentes tinham algum significado especial. Os Judeus também absorveram muito da cultura Neo-babilônica durante seu cativeiro (597-539 a.C.), mas isso não incluiu os deuses babilônicos como Marduk ou Sin, que também não incluíam serpentes. Mesmo no período greco-romano (332 a.C.-70 d.C.), os Judeus sempre se preservaram de absorver novos deuses; e esses povos também não cultuavam serpentes. No Novo Testamento, entretanto, João faz uma profecia em Patmos, relativa ao fim do mundo, ligando o Diabo à serpente:

E houve batalha no céu. Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os seus anjos. Mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou nos céus. E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo. Ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele. …. E eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do Seu testemunho; e não amaram as suas vidas até à morte. Por isso alegrai-vos, ó céus, e vós que neles habitais. Ai dos que habitam na terra e no mar; porque o diabo desceu a vós, e tem grande ira, sabendo que já tem pouco tempo. (Apocalipse 12.7-12)

Essa passagem coloca o Diabo, Satanás, na Terra após uma espécie de guerra nos Céus. E mais, o coloca na forma de um grande dragão, semelhante ao Tiamat da Acádia (antiga Babilônia, aprox. 2000 a.C.) ou ao Jörmungandr viking (séc 10 d.C.). Ainda que o chame de “antiga serpente”, é algo bem diferente de uma cobra como costumamos pensar, e de como parece ser o caso na cena do Éden. João também fez sua profecia cerca de 1500 anos após o texto de Moisés, e talvez 9000 anos após a tal batalha (ver O que Deus fazia antes de Noé). Apesar disso, desde a tradição Cristã mais antiga, associou-se a serpente no Éden com o Diabo.

LÚCIFER, IMAGINO

Um ponto inicial é o nome assumido para essa entidade: Lúcifer. Tal nome não é hebraico e provavelmente não está na sua Bíblia.

Uma parte da origem de “Lúcifer” se deve à Bíblia do rei James I da Inglaterra (1566-1625; uma tradução mais adequada do seu nome Cristão seria Tiago I). Como sucessor da linhagem Protestante de reis, James I organizou uma tradução da Bíblia a partir dos textos latinos e gregos mais antigos, e sua versão se tornaria uma das mais populares da história. Várias expressões linguísticas do Inglês surgiram a partir dos textos bíblicos dessa tradução, como "bite the dust” (“comer poeira", cair morto, fracassar, “beijar o chão”), "mosca na sopa" e "sagacidade". Foi nela que o nome “Lúcifer” se popularizou, citado pelo profeta Isaías:

Como você caiu do céu, ó Lúcifer, filho da alvorada! Como és reduzido ao chão, o que enfraqueceu as nações! (Isaías 14.12)

O texto original usado pelos tradutores do rei James I era uma outra tradução, feita por São Jerônimo, ou Jerônimo de Stridônia (347-420), um estudioso Cristão famoso por compilar uma das 1as versões da Bíblia. No seu texto, em latim, a passagem de Isaías se lê como:

Quomodo cecidisti de caelo lucifer qui mane oriebaris? Corruisti in terram, qui vulnerabas gentes?

Refazendo a tradução do latim de forma mais cuidadosa, podemos ficar também com o formato final:

Como você caiu dos céus, ó estrela da manhã, filho da alvorada! Como foi atirado à terra, você, que derrubava as nações! (Isaías 14.12)

São formas semelhantes de escrever mas, aqui, o nome Lúcifer simplesmente não existe. Na verdade, se lermos o texto de Isaías, veremos que se trata de uma profecia sobre a queda do Império Babilônico (626-429 a.C.). Mais especificamente, Isaías profetiza o fim triste do imperador Nabucodonosor II (reinou de 605 a 562 a.C.)¹. Em outras palavras, a versão do rei James I parece criar o nome “Lúcifer” onde Isaías colocou somente uma exaltação sarcástica ao rei de Babilônia, que havia invadido a Judéia, e não a uma entidade espiritual.

É interessante que Isaías iguala Nabucodonosor (o título, pelo menos) à “estrela da manhã”, nome usado na Antigüidade para o planeta Vênus, que aparece como astro mais brilhante no céu 1-2h antes do nascer do Sol. No tempo de Isaías, Vênus era cultuado pelos Egípcios como Sekhmet/Hator e pelos Babilônicos como símbolo da deusa Ishtar. Os gregos associaram-no com a deusa Vênus (de quem levou o nome atual) e os romanos da era republicana associaram o planeta-estrela com Afrodite. No latim que São Jerônimo usou para escrever, o nome do planeta Vênus era Lúcifer, que significava “o mais brilhante”.

O DIABO ANTIGO

Sem trocadilho, as composições por detrás da imagem do Diabo eram muito tentadoras. De um lado, João deixou a idéia de um grande dragão celestial combatido pelo anjos, que arrastou consigo (para a Terra) um terço das estrelas. De outro, São Jerônimo traduziu o texto de Isaías para dar um nome ao ser que caíu do céu: Lúcifer, a estrela-da-manhã. O dragão ainda era uma serpente, como aquela no Éden.

Um nome que o NT usa é Belzebu, príncipe dos demônios (Lucas 11.15). Esse nome é registrado, muito antes, como Baal-Zebube, deus de Ecrom (cidade-estado dos Filisteus) e “Senhor das moscas”, pensando-se em um divindade que expulsa as pestilências (2ª Reis 1). A demonização da divindade dos Filisteus é presumível, mas a sua imagem prevaleceu como símbolo do mal. A representação mais antiga de Baal é de Ur (de 2000 a.C., bem antes dos Caldeus), sendo um homem segurando um machado com o qual lançava relâmpagos (segura essa, Thor!). Na Judéia, entretanto, a associação de Baal com a fertilidade das terras lhe rendeu a imagem de um touro enfeitado de ouro. O deus Dagon dos Fenícios também fez sua contribuição ao apresentar uma divindade rival meio-homem, meio-animal (1ª Samuel 5.2-4). Os Judeus mais ortodoxos não demoraram a associar esse Baal agrícola com o bezerro de ouro dos seguidores de Moisés, de forma que o “Diabo”/Belzebu ao qual associaram Jesus era uma figura mais profana do que medonha, sendo às vezes representado como touro ou homem-touro.

Os Judeus não costumavam fazer representações divinas ou mesmo de demônios, entendendo-os mais como forças sobrenaturais do que como entidades que precisavam de rosto e forma. Na verdade, incomodava-os a adoração a qualquer tipo de imagem, fosse homem ou animal. Uma espécie de Satanás aparece no Tanach³, mais especificamente no apócrifo Livro dos Jubileus (150 a.C.), onde Yahweh concede a Satanás/Mastema autoridade sobre um grupo de anjos caídos para tentar os humanos e puni-los. Reparemos a semelhança com os Djins árabes (espíritos tentadores do deserto) e com o Satanás descrito no evangelho de Lucas. Essa era provavelmente a representação mais popular no imaginário da época de Jesus: um espírito tentador ou punitivo, às vezes o Belzebu profano com chifres de touro.

Nos sécs. 1 e 2 d.C., quando Roma impunha seu poder aterrorizante sobre Judeus e Cristãos, as estátuas imperiais eram vistas como “abominações” e representavam imperadores, mas também divindades portando lanças, espadas, escudos e tridentes. E foi assim que o Diabo ganhou sua ferramenta favorita. Com o apocalipse de João, esse ser maligno ganhou ainda coroa e símbolos de rei que seriam as marcas do Anticristo e suas bestas. Tal Diabo “coroado” aparece em figuras da Idade Média, nos estudos de demonologia do séc. 18 e, recentemente, no filme “Hellboy”.

Uma mudança significativa aconteceu com a institucionalização do Cristianismo (séc. 4 d.C.). Uma preocupação típica dos religiosos nessa época era a dualidade corpo-espírito, onde as cartas de Paulo e a obra Confissões, de Santo Agostinho, ajudaram a formar uma concepção de que o mal residia em tudo que fosse animal, carnal, instintivo. Como consequência, o Diabo pré-medieval era praticamente um lobo ou fera andando sobre duas patas, coberto de pelos, com dentes pontiagudos e cauda.

Mais ao norte da Europa, a disputa religiosa entre Cristãos romanos e Pagãos romanos lhe dava a imagem dos bodes europeus, bastante cultuados como sinal de fertilidade da terra pelos Romanos e demais povos. Por isso a representação preferida que a Igreja fazia do Diabo no norte era esse ser com chifres, pêlos e cabeça de bode. Os cavaleiros medievais deixaram muitas figuras desse tipo para simbolizar seu maior temor, o qual também esteve envolvido na perseguição feita a feiticeiros e bruxas desde o séc. 10 d.C.

No Alcorão (séc. 7 d.C.), Shaitan ou Iblis é uma entidade feita de fogo (pois o fogo era considerado o mais divino dos 4 elementos) como os demais anjos, que foi expulso do Céu porque se recusou a obedecer Alá e se curvar perante o recém-criado Adão. Cheio de mágoa, Iblis transforma seus seguidores em Djinns que habitam os desertos para incitar os humanos ao pecado, infectando suas mentes com wiaswās (sugestões malignas). Reparemos que bem diferente do conceito Cristão de um Diabo habitando entre os homens, os árabes entendiam um Diabo que era perigoso às pessoas sozinhas. No 1º caso se trataria de um ser mágico oferecendo favores em troca do culto humano; no 2º caso seria um ser mais perto do molde judaico, fazendo mágicas que perturbem a harmonia humana.

UM DIABO MODERNO

A idéia de que o Diabo governa o inferno parece ter uma fonte bem mais recente, no poema de Dante Alighieri, A Divina Comédia², publicado por volta de 1320. O poema descreve a viagem do próprio Dante através do Inferno, Purgatório, Paraíso e Céu, guiado por 3 seres: Virgílio (guia no Inferno e Purgatório), Beatriz (guia no Paraíso) e São Bernardo (guia no Céu). Virgílio foi um grande poeta romano (70 a.C. - 19 a.C.); Beatriz foi a 1ª esposa e grande amor de Milton; São Bernardo (1090-1174) foi o fundador da Ordem dos Cavaleiros Templários. Na cosmogonia registrada por Dante, Deus criou o inferno quando expulsou o Diabo e seus demônios do Céu. A ira divina foi tão grande que produziu um enorme buraco no centro da terra, onde os demônios foram habitar. Dante retratou o Diabo como uma criatura alada grotesca com três rostos - cada um mastigando um pecador desonesto - cujas asas sopravam ventos gelados por todo o Inferno.

Em 1654, o holandês Joost Van den Vondel fez de Lúcifer o protagonista e título de uma de suas grandes peças teatrais. Seu interesse pelo VT o levou a produzir também “Adão Banido” e “Noé”. A peça Lúcifer era uma trama envolvendo apenas os anjos. Nela, o anjo Appolion descreve o Éden que ele viu, com seres feitos do barro e no entanto perfeitos, comandando um lugar mais belo que o Céu. Gabriel então anuncia que Deus havia reservado também o Céu para suas novas criaturas, que reinariam sobre os anjos. Lúcifer, o preferido de Deus, se rebela e comanda diversos anjos a se oporem aos desejos de Deus, mantendo os homens na Terra (reparemos a influência árabe). Deus manda Gabriel repreender os seguidores de Lúcifer e Rafael anunciar que serão perdoados, caso se conformem às ordens do Senhor. Em desespero, Lúcifer se vê diante dos seguidores a avisa que haviam ido longe demais para recuarem. Após uma feroz batalha, ele e seus parceiros são derrotados e caem do Céu. Durante a guerra, no entanto, Lúcifer trama impedir que os homens cheguem ao Céu envenenando e corrompendo-os, para que Deus jamais os queira. Lúcifer é transformado numa mistura de 7 bestas, representando os pecados capitais. Enquanto isso, Gabriel aparece entre os anjos leais para avisar que Belial, disfarçado como serpente, havia entrado no Éden e corrompido os homens. A peça termina com os anjos, chorosos, expulsando Adão e Eva do Éden. Pouco depois de sua composição, a peça foi proibida pela Igreja da Holanda, só voltando aos teatros no séc.19.

Em 1667, o diabo também ganha a posição de protagonista no livro do inglês John Milton que, cego, escreveu sua obra prima descrevendo a queda do anjo Lúcifer até se tornar Satanás. Fala-se de uma Guerra Celestial, onde Deus (noutra parte do livro é Jesus) lança todos os raios dos céus contra os rebeldes. No início do livro, os anjos estão caídos num inferno de “fogo e enxofre”. Lúcifer se torna rei deles e seus seguidores (Belzebu, Belial, Mamon, etc) constroem um grande palácio de ouro (Pandemônio), onde se reúnem para planejar a vingança contra Deus. Aos poucos ele deixa a aparência angelical (que Gustave Doré ilustrou como um jovem herói grego com asas, imenso para os padrões humanos) para se tornar um ser não só maligno, mas também destituído de beleza, aparentado com um animal voador. Mudando de forma, Lúcifer escala O Abismo e faz várias tentativas de infiltrar-se no Éden, mas é visto pelos anjos, até que consegue entrar disfarçando-se como serpente. Como o nome sugere, a obra termina com a expulsão de Adão e Eva do Éden. Ao contrário da peça de Vondel, o Paraíso Perdido se tornou um dos livros mais lidos no Ocidente e influenciou decisivamente a cultura Cristã.

Em 1806, o alemão Johann Wolfgang von Goethe publicou sua obra Fausto. Apropriando-se do livro de Jó e do conceito de um diabo tentador, Goethe misturou tais idéias com as estórias sobre um médico-bruxo alemão, Johann Faust, que ficou famoso por volta de 1530. Ele imaginou que o diabo deveria ser atraente e fazer todas as suas maldades de forma oculta. A fantasia clássica desse personagem inclui maquiagem com rosto sinistro e sorridente, além de uma roupa vermelha com capa. Na famosa peça teatral, o demônio Mephistópheles vai ao Céu e aposta com Deus de que ele seria capaz de seduzir seu humano favorito, Fausto. Na Terra, Fausto queria ser capaz de resolver todos os problemas. Buscando na Bíblia suas respostas, ele não as encontra. Nem tampouco na Filosofia ou na Magia. Desamparado com a futilidade dos homens (há vários trechos copiados de Eclesiastes, na peça), ele tenta se matar e falha. Na volta para casa, é seguido por um cão que se transforma em Mephistópheles. O demônio promete a Fausto realizar qualquer desejo seu na Terra, e Fausto o serviria no inferno. Mas Fausto coloca um porém: Mephistópheles poderia levá-lo apenas quando estivesse plenamente feliz. O demônio ajuda Fausto a seduzir Gretchen, a moça que ele admirava, e ainda induz Gretchen a sem saber matar sua mãe com uma dose excessiva de sonífero, para que Fausto pudesse ir ao seu quarto. Ela depois descobre que está grávida. Seu irmão vai atrás de Fausto e morre ao chegar perto dele. Gretchen tem o bebê e, sendo um ilegítimo, mata a criança e vai presa. O demônio ajuda Fausto a ir libertá-la da prisão, mas Gretchen recusa-se a ir. Fausto vai embora ouvindo anjos que o avisam de que Gretchen estava salva. Finalmente, Fausto morre mas, como jamais havia sido plenamente feliz, o demônio assiste enquanto ele sobe ao Céu.

Devil as a tailor, Jerome Witkin, 1978

Em 1978, o pintor Jerome Witkin produziu um “retrato” do diabo como alfaiate ou costureiro musculoso e sinistro, semelhante aos gênios da Disney, tecendo os uniformes de soldados. Essa idéia de alguém agindo “por trás das cortinas”, influenciando as ações dos homens, foi bastante aproveitada em obras como Hellblazer (1988, DC Comics), de onde surgiu o personagem cinematográfico John Constantine. De quimera boi-homem ou bode-homem, o diabo moderno ganhou ares de poderoso empresário e ser controlador dos homens que nem sabem sobre serem suas vítimas.

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¹ Nabucodonosor II foi um rei-símbolo do Império Neo-babilônico. Vários sucessores usaram seu nome como se fosse um título, assim como aconteceu com César, em Roma. Ele teve um reinado extremamente longo e não morreu de forma humilhante como Isaías previu, tendo inclusive conduzido seu reino a um auge de poder e riqueza. Certamente esse nome foi usado por seu penúltimo sucessor Nabonidus (reinou de 556 a 539 a.C.), que pode ser a vítima predita por Isaías. Nabonidus era na verdade um religioso, que se isolou da função de rei em um oásis para cultuar a deusa ancestral Sin (representada pela Lua). Ao desprezar o deus maior de Babilônia, Marduk, ele revoltou os altos sacerdotes, que o culparam pela invasão dos Persas liderados por Ciro, o grande. Apesar disso, não se sabe dizer se mesmo Nabonidus teve o fim desonroso que Isaías prevê. Ciro era famoso por seu respeito aos reis conquistados e, segundo a única fonte escrita descrevendo o fim de Nabonidus, ele foi exilado como administrador de terras do rei.

² A palavra Comédia não significava, para Dante, o que significa para nós hoje. Trata-se de uma palavra aparentada com Cômico, no sentido de ser teatral, novelístico. Talvez uma tradução atual para o nome da obra pudesse ser “Novela Divina”. Ainda hoje se usa, no inglês, a palavra Comics para descrever não obras engraçadas, mas sim fictícias ou fantasiosas e com uma arte visual.

³ Tanach é o equivalente hebraico do Velho Testamento. Há outros livros sagrados, no Judaísmo. Tanach é a junção das iniciais de Torá (a Lei) + Neviim (os Profetas) + Chetuvim (as Escrituras). A Torá é a junção de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Neviim é o conjunto formado por Josué, Juízes, 1ª Samuel, 2ª Samuel, 1ª Reis, 2ª Reis, Isaías, Jeremias, Ezequiel, Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias. Chetuvim compreende Salmos, Jó, Provérbios, Rute, Cântico dos Cânticos, Eclesiastes, Lamentações, Ester, Daniel, Esdras, Neemias, 1ª Crônicas e 2ª Crônicas.

Todos são livros muito antigos. A tradução utilizada nas Bíblias vem das versões em grego e latim desses livros, que foram produzidas a partir de 37 a.C., com a anexação da Judéia ao Império Romano. Apesar disso, versões mais antigas foram preservadas na Babilônia (atual Irã/Iraque), que são utilizadas na Tanach.

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PALAVRAS DO ORCO

Beelzebub - wikipedia
Casonatto OD, O que quer dizer Tanach?, abiblia.org, ago/2012
Dillon KJ, Sekhmet, Venus goddess of ancient Egypt, scientiapress.com
Dunne C, The changing face of Satan, from 1500 to today, fastcompany.com, ago/2014
Faust - wikipedia
Harries DR, Joost van den Vondel and his drama, ‘Lucifer’, davidronaldharries.wordpress.com, jan/2014
História do nome de Deus, loungecba.blogspot.com, jun/2017
James VI and I - wikipedia
Jerome - wikipedia
Josiah - wikipedia
King James Version - wikipedia
Nabonidus - wikipedia
Rudnik N, Le veau dor est toujours debout, rudnik92.blogspot.com, ago/2015
Satan - wikipedia
Smith JE, The fall of Babylon: a problem in prophetic interpretation, The Cincinnati Bible College & Seminary, 1970
Völuspá - wikipedia
The Devil, history.com, set/2017


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A opressão dos ídolos


Enquanto caminhamos com Jesus, deparamos com espíritos imundos. Jesus também esteve frente a frente com eles. Ele exerceu autoridade sobre esses espíritos e libertou pessoas que estavam dominadas e controladas por eles, que a Bíblia chama também de demônios. Espíritos do mal, espíritos malignos.

O evangelho narra o encontro de Jesus com um homem dominado por um espírito imundo, e registra esse confronto imediatamente após Jesus ter chamado seus primeiros talmidim e ter prometido fazer deles “pescadores de homens”. Durante muito tempo acreditei que “pescar homens” era ir buscar os pecadores do lado de fora da igreja e trazê-los para dentro. Significava fisgar pessoas que não acreditavam em Deus e em Jesus e trazê-las para o ambiente religioso, onde Jesus recebe adoração. Mas lendo esse texto com mais atenção, e meditando sobre sua relação com o chamado de Jesus a seus talmidim, passei a considerar que “pescar homens” significa buscar dentro de cada ser humano a sua verdadeira identidade, alcançar dentro de cada ser humano o "eu verdadeiro” que está ali abafado por muitos espíritos imundos.

O que são os espíritos imundos? São egos absolutos. O que é um demônio, um espírito mal, ou espírito maligno? É um ego absoluto, que pensa apenas em si e que ignora todo o resto, todos os demais, inclusive - e principalmente - Deus. Os egos absolutos podem ter vários nomes. Pode ser um demônio mesmo. Mas também podem ser tradições ou autoridades religiosas (Jesus dirigiu a eles TODAS as suas repreensões). Imposições familiares, vínculos afetivos, ideologias e estados políticos, filosofias e culturas, e qualquer tipo ou expressão de vontades absolutas e opressoras.

Aqueles que seguem a Jesus têm a sagrada tarefa de "pescar pessoas", de buscar dentro de cada ser humano oprimido por vontades que impedem sua expressão autêntica e plena a expressão mais verdadeira do seu eu, criado em imagem e semelhança de Deus. Para pescar homens, precisamos da autoridade de Jesus para confrontar os espíritos imundos, malignos e diabólicos. Muito mais do que iniciar as pessoas em uma religião, pescar homens é cooperar com Deus para que as pessoas sejam libertas de todos e quaisquer egos opressivos e escravizadores. Jesus é vida, é luz, é libertação.

O Diabo, pior dos demônios opressores, fez várias tentativas de fazer Jesus provar que ele é quem é, e fazer o Pai provar que tem por Jesus o amor que diz ter. O Diabo quis sugerir que, se Deus nos ama, então não vai deixar que nada de mau nos aconteça. Se Deus nos ama, então podemos viver do jeito que quisermos, mesmo irresponsavelmente, que ele sempre vai nos amparar. Que, como diz a canção popular, o acaso vai nos proteger enquanto andarmos distraídos. Em outras palavras, o discurso do Diabo é: “Deus tem a obrigação de cuidar de você, afinal, ele diz que o ama”.

Mas Jesus tinha uma perspectiva diferente a ensinar. Na liberdade que Ele propunha, Ele também não quis colocar Deus a prova. Não topou puxar o elástico de seu relacionamento com o Pai e exigir que ele respondesse a maneira atrevida e displicente como vivemos. Muito pelo contrario, Jesus sabia que os filhos vivem de acordo com a sabedoria dos pais, não os pais para satisfazer os caprichos dos filhos.

O Diabo citou a Bíblia, o Salmo 91: “Ele dará ordens a seus anjos a seu respeito, e com as mãos eles o segurarão, para que você não tropece em alguma pedra”. Os Salmos são orações dos homens, segundo os desejos do seu coração para com Deus, e eles o Diabo conhecia bem. Mas Jesus também citou as Escrituras, Deuteronômio 6: "Não ponha à prova o Senhor, o seu Deus". Ele respondeu com as palavras de Deus. Silêncio entre os dois, quem se dignaria a debater Deus com Jesus?

Quando caímos nessa armadilha de viver na expectativa de que Deus se prove constantemente para nós, manipulando as palavras sagradas de acordo com nossas conveniências, Deus deixa de ser Deus e se torna um ídolo. Deixa de ser aquele que está no controle e passa a ser aquele que desejamos como desejamos, que corre atrás de nós o tempo todo, para corrigir, remediar ou dar condições ideais a forma como estamos vivendo.

Jesus olhava a vida de maneira diferente. E nos ensinou que Deus é o Pai, e nós somos seus filhos. Viver como um filho de Deus é jamais colocá-lo à prova. Viver como filho de Deus implica não exigir que Deus prove seu amor. O ídolo oprime porquê nos faz acreditar que somos iguais a Deus, que Ele precisa querer o que nós queremos. Mas os filhos de Deus não tratam o Pai como um ídolo.

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A PROVA DO CRIME

Ed René Kiwitz, Talmidim 024
Ed René Kiwitz, Talmidim 035

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O Diabo do Novo Testamento


Geralmente se lê que o conceito de Diabo no NT é vago, sendo difícil saber exatamente do que se trata. Um ser chifrudo, vermelho, com rabo pontudo e asas de morcego? Um espírito maligno? Uma antítese de Deus? Um camarada que aparece repetidamente só para ser banido de novo? Quanto a isso, me proponho a escrever algo um pouco mais específico, tentando desenhar o Diabo como ele aparece segundo os autores do NT.

A 1ª aparição do Diabo no NV acontece na ocasião da tentação de Jesus. Assim, vou começar mostrando como Jesus expunha o Diabo.

O DIABO SEGUNDO JESUS

Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Diabo. (Mt 4.1)

Nessa ocasião, o Diabo recebe também o nome de Tentador, aparece personificado e dialoga com Jesus. Esse é sua única apresentação corpórea, como se Jesus (ou ele) houvesse cruzado pela 1ª e última vez uma fronteira do mundo físico com o mundo espiritual. As 3 tentações (tornar as pedras em pães, jogar-se para que os anjos o salvem e curvar-se ao Diabo) foram uma forma terrível de confronto ao que Jesus significava para o mundo e, na verdade, revelam algo sobre esse Tentador: (1) ele não é cego ao poder de Deus; (2) ele se opõe voluntariamente a esse poder; (3) ele conhece facilmente os desejos mais profundos de cada “vitima” sua, até mesmo Jesus; (4) ele é usado por Deus, pois foi o Espírito Santo quem conduziu Jesus até onde o Tentador estava. Talvez nunca a palavra "Tentador" tenha sido tão bem usada, mas num confronto sempre são ambos os desafiados!

Durante a explicação da parábola dos grãos que se caíram pelo caminho, Jesus cita o Diabo, atribuindo-lhe a ação de retirar o Seu ensino do coração dos homens, impedindo que sejam salvos.

A semente é a palavra de Deus. Os que estão à beira do caminho são os que ouvem; mas logo vem o Diabo e tira-lhe do coração a palavra, para que não suceda que, crendo, sejam salvos. (Lc 8.11-12)

Fica assim questionada a existência do Livre Arbítrio, a que a filosofia ocidental tanto se apega: o homem não pode adquirir a Palavra (ou a Sabedoria, noutros textos) por si mesmo; ela é entregue a ele pelo próprio Deus, o Espírito Santo ou Jesus. Essa é a forma como Salomão e os profetas a adquiriram, originada não da vivência e sim do sobrenatural. Após receber a Palavra, não é o homem quem a esquece ou abandona. Existe uma entidade – o Diabo – que rouba-lhe essa Sabedoria/Ensino com o propósito deliberado de prejudicar a aproximação com Deus. A existência da Sabedoria, que media as ações humanas na Terra, portanto, estaria condicionada a uma batalha de “dar e tirar” que ocorre entre Deus e o Diabo sobre cada ser humano. Onde fica o papel humano nisso?

Em outra parábola – do joio e o trigo – Jesus apresenta o Diabo como o arquiteto de personagens vivos na história da humanidade. Esses Filhos-do-diabo, na simbologia da parábola, são pessoas que não servem para Deus e serão destruídas no final dos tempos:

O que semeia a boa semente é o Filho do homem. O campo é o mundo. A boa semente são os filhos do reino. O joio são os filhos do maligno. O inimigo que o semeou é o Diabo. A ceifa é o fim do mundo, e os celeiros são os anjos. Pois assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será no fim do mundo. Mandará o Filho do homem os seus anjos, e eles ajuntarão do seu reino todos os que servem de tropeço, e os que praticam a iniqüidade, e lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá choro e ranger de dentes. (Mt 13.37-42)

Novamente, aqui o Diabo é um personagem espiritual. Além de impedir os homens de serem salvos, ele possui agentes humanos que promovem a injustiça e o incorreto no mundo que Deus gerou. O que é o incorreto? O trigo produz frutos aproveitáveis para quem ceifa (Deus), o joio produz apenas para si mesmo. Esses "Filhos do maligno" são caracterizados por atrapalhar a obra de Deus (explicitamente o amor prático ao próximo) e por promover iniqüidade/desigualdade entre os homens.

Embora o Diabo possa reconhecer a ação de Deus, Jesus expõe que ele não é capaz de pensar senão como os homens mesmo pensam. Em sua falha como anjo, o Diabo simplesmente fica restrito à pequena compreensão dos homens acerca dos modos como Deus atua:

E Pedro, tomando-o à parte, começou a repreendê-lo, dizendo: Tenha Deus compaixão de ti, Senhor; isso de modo nenhum te acontecerá. Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não estás pensando nas coisas que são de Deus, mas sim nas que são dos homens. (Mt 16.22-23)

Nessa passagem, Jesus vê o Diabo agindo sobre Pedro e adverte (ambos?) sobre a necessidade do sacrifício de si mesmo, quando Pedro colocava isso como oposição à compaixão de Deus. Se esse sacrifício não ocorresse, não haveria a superação da morte - uma barreira entre os homens e Deus instituída por Ele mesmo após o pecado de Adão. Mas claro, o Diabo/Satanás não poderia saber disso. Ele permanece condicionado à prioridade da carne, como diria Paulo mais tarde.

Além de usar pessoas como cúmplices em sua prática de desigualdade, o Diabo também é apontado como um infligidor de males sobre os homens:

E estava ali [na sinagoga] uma mulher que tinha um espírito de enfermidade havia já dezoito anos; e andava encurvada, e não podia de modo algum endireitar-se. Vendo-a Jesus, chamou-a, e disse-lhe: Mulher, estás livre da tua enfermidade; e impôs-lhe as mãos e imediatamente ela se endireitou, e glorificava a Deus. Então o chefe da sinagoga, indignado porque Jesus curara no sábado, tomando a palavra disse à multidão: Seis dias há em que se deve trabalhar; vinde, pois, neles para serdes curados, e não no dia de sábado. Respondeu-lhe, porém, o Senhor: Hipócritas, no sábado não desprende da manjedoura cada um de vós o seu boi, ou jumento, para o levar a beber? E não devia ser solta desta prisão, no dia de sábado, esta que é filha de Abraão, a qual há dezoito anos Satanás tinha presa? (Lc 13.11-16)

A única prisão que podemos vislumbrar aqui é um enfermidade ortopédica de longa duração, que fazia a mulher permanecer encurvada. Satanás a tinha presa nessa condição, e Jesus prontamente a curou/libertou. Assim, o exercício da "cura" é mostrado como uma "libertação espiritual", embora o que chamamos de espiritual seja aqui largamente palpável. Mais do que isso, o "dia do Senhor" ou Shabat (Sábado) é apresentado aos fariseus HIPÓCRITAS como algo além do serviço religioso. Afinal, certas coisas não podem deixar de ser feitas mesmo no Shabat!

Em sua série de parábolas para o povo inculto, Jesus explica o critério de seleção a ser usado para separar os Filhos do Reino (chamados de carneiros) dos Filhos do Diabo (chamados de bodes):

E responder-lhes-á o Rei: Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes. Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o Diabo e seus anjos. Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; era forasteiro, e não me acolhestes; estava nu, e não me vestistes; enfermo, e na prisão, e não me visitastes. Então também estes perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou forasteiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? Ao que lhes responderá: Em verdade vos digo que, sempre que o deixaste de fazer a um destes mais pequeninos, deixastes de o fazer a mim. E irão eles para o castigo eterno. (Mt 25.40-46)

Ele reafirma, assim e de forma portentosa, que o “amor ao próximo” é um mandamento decisivo. Amar ao próximo é amar a Ele mesmo, é amar a Deus. Quem não o faz pode não ser um Filho do Diabo, mas vai se juntar a ele no castigo do fim dos tempos. E não se trata de praticar amor "a Deus", mas de praticar amor "a todos os homens", pois o que fazemos "a um desses irmãos, mesmo dos mais pequeninos" fazemos "a Ele". Jesus dá um significado totalmente humano ao conceito de onipresença.

Outra aparição do Diabo se dá na mesa da Última Ceia. Jesus discute com Pedro e aponta Judas como um diabo (o Diabo, em algumas traduções).

Respondeu-lhes Jesus: Não vos escolhi a vós os doze? Contudo um de vós é o diabo. Referia-se a Judas, filho de Simão Iscariotes; porque era ele o que o havia de entregar, sendo um dos doze. (Jo 6.70-71)

A menos que pensemos em Judas [Iscariotes] sentado à mesa com chifres e uma cauda saliente (o que tornaria bem insólita a famosa pintura de Leonardo da Vinci), ou num caso de possessão demoníaca a que Jesus se privou de resolver, o Diabo não é aqui senão um ser qualquer da carne e osso. E qualquer um pode ser um diabo quando afasta os homens de Deus.

Repare que a atitude de Judas, apesar de repugnante, estava predita em profecias de séculos antes, era prevista por Jesus e era completamente necessária à efetivação da sua obra neste mundo. Em outras palavras, embora Judas fosse o/um diabo, ele estava em perfeito alinhamento com a vontade divina! Seu pecado, apesar disso, era claro: ele “decidira” afastar os homens de Deus. “Escolhera” deixar o que foi ensinado, cultuar algo acima de Jesus e o privar de seu amor. Embora toda a cristandade sempre tenha tomado Judas por contra-exemplo de boa conduta, esse NÃO É um pecado difícil de cometer! Em especial, ele é o simbolo de que o Diabo roubou de alguém a Sabedoria e o tornou um de seus Filhos que agem para a desigualdade entre os homens e egoisticamente para o próprio proveito. Você o faz todas as vezes que não pensa em Deus e todas as vezes em que falta com o amor incondicional a alguém. Ok, Judas?

Ao mesmo tempo em que pode ser um homem qualquer, o Diabo é um ser capaz de se alojar no interior dos homens. E embora assim ele atue, não pode deixar de fazê-lo segundo o mandar de Jesus:

Em verdade, em verdade vos digo que um de vós me há de trair. ... Aquele discípulo, recostando-se assim ao peito de Jesus, perguntou-lhe: Senhor, quem é? Respondeu Jesus: É aquele a quem eu der o pedaço de pão molhado. Tendo, pois, molhado um bocado de pão, deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. E, logo após o bocado, entrou nele Satanás. Disse-lhe, pois, Jesus: O que fazes, faze-o depressa. (Jo 13.21-27)

Dessa forma, "ser um diabo" e "estar possuído pelo Diabo" parecem ser exatamente a mesma coisa, ao menos segundo a descrição dos evangelistas (e de Jesus). Não parecem existir vários diabos, mas apenas imagens de um mesmo ser espiritual, capaz de comandar os homens e arrumar aliados entre eles.

Ainda na mesa da Última Ceia, Jesus também se refere ao Diabo como personagem de um mundo espiritual onde o destino dos homens é decidido. Agora o personagem não é Judas (filho do Diabo), mas Pedro (vítima do Diabo).

Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo, mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça. E tu, quando te converteres, fortalece teus irmãos. (Lc 22.31-32)

Reparemos que Satanás também pediu (a Deus) o sofrimento de Jó. Nessa 2ª ocasião, entretanto, Jesus interviu contra o sofrimento de Pedro, a fim de manter a sua fé. Novamente, temos o futuro dos homens sendo decidido num outro plano, por seres que não controlamos. E o Diabo, outra vez, pede (a Deus) pelo sofrimento humano. Quem falaria a nosso favor senão Jesus?

Mas Ele avisa que alguns homens de fato preferem seguir ao Diabo, porque ele lhes garante poder (e miséria aos demais). Jesus dá ênfase à associação entre os homens e o Diabo quando prega em frente ao Templo, após salvar a vida de uma mulher que iam apedrejar. Ao ser confrontado pelos Fariseus, ele os questiona: “Se eu vim de Deus e não credes em mim, quem é vosso pai?

Bem sei que sois descendência de Abraão; contudo, procurais matar-me, porque a minha palavra não encontra lugar em vós. Eu falo do que vi junto de meu Pai; e vós fazeis o que também ouvistes de vosso pai. Responderam-lhe: Nosso pai é Abraão. Disse-lhes Jesus: Se sois filhos de Abraão, fazei as obras de Abraão. Mas agora procurais matar-me, a mim que vos falei a verdade que de Deus ouvi; isso Abraão não fez. Vós fazeis as obras de vosso pai.

Replicaram-lhe eles: Nós não somos nascidos de prostituição; temos um Pai, que é Deus. Respondeu-lhes Jesus: Se Deus fosse o vosso Pai, vós me amaríeis, porque eu saí e vim de Deus; pois não vim de mim mesmo, mas ele me enviou. Por que não compreendeis a minha linguagem? É porque não podeis ouvir a minha palavra. Vós tendes por pai o Diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai; ele é homicida desde o princípio, e nunca se firmou na verdade, porque nele não há verdade; quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio; porque é mentiroso, e pai da mentira. (Jo 8.37-44)

Aqui, ao invés de personificar o Diabo, ele novamente o mostra COMO PAI das pessoas. O Diabo dentro delas deseja matar o próximo e mentir. O Deus dentro das pessoas, por outro lado, deseja que amem ao semelhante. Se alguém mente, se acusa, se nega o amor, então essa pessoa é um filho do Diabo, um daqueles para os quais está preparado o castigo eterno. Os filhos do Diabo não podem ouvir o que Jesus ensina, porque isso não faz parte deles!

De certa forma, Jesus separa os homens em filhos de Deus e filhos do Diabo, sem mencionar a participação do homem nessa divisão. Aparentemente, tal escolha só depende de forças sobrenaturais. Mas ele também não elege critérios objetivos para distinguir uns dos outros: a árvore má se conhecerá por seus frutos.

DEPOIS DE JESUS

Alheios ao que acontece no plano onde os destinos são decididos, os apóstolos pareciam menos sensíveis ao contato com o Diabo do que Jesus. Ele não era realmente um inimigo visível... exceto pelas suas obras mais explícitas de sofrimento entre os homens. Os apóstolos propagaram o conceito de um Diabo inimigo ou entidade opressora, conforme mostra Lucas em sua descrição das primeiras pregações.

Então Pedro, tomando a palavra, disse: Na verdade reconheço que Deus não faz acepção de pessoas; mas que lhe é aceitável aquele que, em qualquer nação, o teme e pratica o que é justo. A palavra que ele enviou aos filhos de Israel, anunciando a paz por Jesus Cristo (este é o Senhor de todos). Esta palavra, vós bem sabeis, foi proclamada por toda a Judéia, começando pela Galiléia, depois do batismo que João pregou, concernente a Jesus de Nazaré, como Deus O ungiu com o Espírito Santo e com poder; O qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do Diabo, porque Deus era com Ele. (Atos 10.34-38)

A dúvida de Pedro quanto a pregar para os gentios é notavelmente semelhante à parábola do senhor que arrendou suas terras a vinhateiros. Mandando seus empregados duas vezes, foram expulsos ou mortos pelos que estavam nas terras. Mandando o filho, este foi morto. E finalmente, ele destruiria os vinhateiros e arrendaria as terras a outros... como os gentios. Reparemos que, aqui, o Diabo não está DENTRO dos homens, mas é EXTERNO a eles, como no Velho Testamento. O Diabo é um inimigo que aflige aos homens (portanto temei-o!) e a quem Jesus combateu por toda parte. De forma curiosa, o  medo do Diabo (e não o Ensino de Jesus) foi um dos pilares para a propagação do Cristianismo nos séculos que se seguiram à cristianização de Roma.

O conceito de Filho-do-diabo ressurgiu após Jesus como alguém que afasta os homens da Palavra de Deus (conceito antes atribuído ao próprio Diabo).

Havendo atravessado a ilha toda até Pafos, acharam um certo mago, falso profeta, judeu, chamado Bar-Jesus, que estava com o procônsul Sérgio Paulo, homem sensato. Este chamou a Barnabé e Saulo e mostrou desejo de ouvir a palavra de Deus. Mas resistia-lhes Elimas, o encantador (porque assim se interpreta o seu nome), procurando desviar a fé do procônsul. Todavia Saulo, também chamado Paulo, cheio do Espírito Santo, fitando os olhos nele, disse: ó filho do diabo, cheio de todo o engano e de toda a malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás de perverter os caminhos retos do Senhor? Agora eis a mão do Senhor sobre ti, e ficarás cego, sem ver o sol por algum tempo. Imediatamente caiu sobre ele uma névoa e trevas e, andando à roda, procurava quem o guiasse pela mão. (Atos 13.6-13.11)

Não é desprezível que o tal mago utilizasse o nome Bar-Jesus (filho de Jesus) quando a fama de Jesus já se espalhara pela Grécia. Um filho-de-Jesus talvez fosse capaz de fazer os milagres que Jesus fizera, seria associado ao poder sobrenatural. Mas, aparentemente, esse indivíduo estava longe de demonstrar o amor que Jesus demonstrara e, por isso mesmo, usava o nome do Senhor para seus próprios interesses (afinal, um procônsul romano era um homem rico). Repare que o mago tentava afastar o procônsul dos ensinamentos de Paulo acerca da necessidade de amor e fé!

Tomando como referência o castigo imposto por Paulo, Elimas certamente era um visionário comandando decisões do procônsul com base nos seus interesses ou aleatoriamente. Cego, sua demonstração visionária ficaria invalidada. Mas quem não encontra visionários ainda hoje, dois milênios depois?

No capítulo 4 de sua carta aos cristãos de Éfeso, Paulo também mostra o Diabo DENTRO dos homens, na forma de comportamentos (ou frutos) como mentira, ira, roubo, falta de amor e ofensas.

... deixai a mentira, e falai a verdade cada um com o seu próximo, ... Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira; nem deis lugar ao Diabo. Aquele que furtava, não furte mais, ... para que tenha o que repartir com o que tem necessidade. Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que seja boa para a necessária edificação... Não entristeçais o Espírito Santo de Deus... Toda a amargura, e cólera, e ira, e gritaria, e blasfêmia sejam tiradas dentre vós, bem como toda a malícia. Antes sede bondosos uns para com os outros, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo.

Como Paulo, João enxergou o Diabo DENTRO das pessoas e as impulsionaria ao pecado. Ele distinguia os que são Filhos-do-diabo daqueles que são Filhos-de-Deus. Num mudo de pecadores, os Filhos-de-Deus estariam a melhorar-se enquanto os Filhos-do-diabo estariam acomodados em sua situação.

Todo o que permanece nele [em Jesus] não vive pecando; todo o que vive pecando não O viu nem O conhece. Filhinhos, ninguém vos engane; quem pratica a justiça é justo, assim como Ele é justo; quem comete pecado é do Diabo; porque o Diabo peca desde o princípio. Para isto o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do Diabo. Aquele que é nascido de Deus não peca habitualmente; porque a semente de Deus permanece nele, e não pode continuar no pecado, porque é nascido de Deus. Nisto são manifestos os filhos de Deus, e os filhos do Diabo: quem não pratica a justiça não é de Deus, nem o que não ama a seu irmão. (1Jo 3.3-10)

Novamente, o Diabo aqui é uma entidade que controla o agir dos homens. Aqueles nascidos de Deus afastam-se do pecado, ainda que pequem às vezes. Não lhes foi dado escolher, eles simplesmente são assim. Já os Filhos-do-diabo incorrem sempre no pecado porque essa é a sua natureza, sem que também lhes seja dado escolher.

O DIABO NA IGREJA

Em sua carta cheia de recomendações de austeridade pública aos que se interessavam pelo bispado (única hierarquia existente então, dentro de um grupo perseguido por Roma), Timóteo alerta para a presença do Diabo DENTRO DA IGREJA: a soberba, ou “condenação do Diabo”, nas palavras dele. Identificado no livro do Apocalipse como a mais brilhante das estrelas e depois como o Grande Dragão, o Diabo teria por primeiro pecado justamente a soberba diante de Deus.

Isso levou, curiosamente, a dois movimentos contrários dentro da Igreja nos séculos seguintes. Por um lado o culto cada vez maior das figuras de autoridade POLÍTICA, e por outro lado a demonstração de humildade através da renegação das próprias vontades. Para se afastarem do Diabo DENTRO deles, muitos religiosos se deram a dietas sofríveis, falta de repouso, falta de higiene, auto-flagelação e auto-encarceramento (às vezes em cubículos sem luz). Outros se deram a um trabalho meticuloso de austeridade pública, incluindo a aliança aos ricos e poderosos, sempre louvados pelo povo. Sem que isso de forma alguma se convertesse em amor do próximo...

OUTRAS VISÕES DIABÓLICAS

O autor de Hebreus enxergou o Diabo no medo da morte. Pelo medo da morte, os homens preferem destruir seu semelhante (por exemplo roubando-os) do que ajudá-lo (o que significaria esvair seus recursos). Mais do que temer ao Diabo, os homens certamente temem a morte. Fomos feitos para agir assim! Mas ao provar a morte e retornar, Jesus se tornou o símbolo de que “morrer não é tão ruim assim”, estendendo uma esperança para além do fim. Sem dúvida isso motivou os cristãos de Roma a morrerem por sua fé, no que ficou conhecido como Era dos Mártires.

Portanto, visto como os filhos são participantes comuns de carne e sangue, também ele semelhantemente participou das mesmas coisas, para que pela morte derrotasse aquele que tinha o poder da morte, isto é, o Diabo; e livrasse todos aqueles que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à escravidão. (Hb 2.14-15)

Tiago, em sua ânsia por tornar o Cristianismo em prática, tentou desmistificar totalmente o Diabo como entidade temível. Segundo ele, de nada adiantava fugir das entidades espirituais e deixar o próximo, a quem Jesus tanto pregou amor.

Deus resiste aos soberbos; dá, porém, graça aos humildes. Sujeitai-vos, pois, a Deus; mas resisti ao Diabo, e ele fugirá de vós. (Tg 4.6-7)

Ele fugirá de vós” simplesmente coloca o Diabo abaixo dos humanos. Essa personificação rápida que Tiago faz é a único desvio que ele faz da necessidade absoluta do amor entre os homens como sinal de fé em Deus. Afinal, uma Igreja estava se estruturando, e talvez fosse possível ser um Filho-de-Deus nos cultos entre 4 paredes. Tiago argumentava que não: para ele, o Diabo era não manifestar o amor. Para Pedro, grande pregador, por outro lado o Diabo era abdicar da fé por medo da repressão romana.

Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte; lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós. Sede sóbrios, vigiai. O vosso adversário, o Diabo, anda em derredor, rugindo como leão, e procurando a quem possa tragar; ao qual resisti firmes na fé, sabendo que os mesmos sofrimentos estão-se cumprindo entre os vossos irmãos no mundo. (1Pe 5.6-9)

Reparemos que Tiago e Pedro concordavam quanto a colocar o Diabo dentro das pessoas; segundo Tiago o Diabo se manifestava pela falta de boas atitudes, mas Pedro o via na tomada de atitudes erradas, em especial nas atitudes covardes (os galos que cantem isso!).

O DIABO EM TODO MUNDO

Central à distinção dos "bons frutos" e os "maus frutos" está o conceito de pecado. Pecar é ir contra a lei divina. No Novo Testamento, pecar é pouco amar a Deus ou ao próximo. A incorrência repetitiva nesse erro - ou mal fruto - seria a marca dos Filhos-do-diabo. A conversão a que João (batista) e Jesus clamavam seria a verdadeira transmutação religiosa, um possível Filho-do-diabo tornar-se um Filho-de-Deus. No entanto, freqüentemente os Filhos-de-Deus são referidos como “eleitos”, no sentido de que para eles JÁ ESTÁ preparado um lugar junto ao Pai, mesmo que ainda estejam aprisionados pelo Diabo como TODOS os demais.

Ora, numa grande casa, não somente há vasos de ouro e de prata, mas também de madeira e de barro; e uns, na verdade, para uso honroso, outros, porém, para uso desonroso. Se, pois, alguém se purificar destas coisas [ou seja, da injustiça], será vaso para honra, santificado e útil ao Senhor, preparado para toda boa obra. Foge também das paixões da mocidade, e segue a justiça, a fé, o amor, a paz com os que, de coração puro, invocam o Senhor. E rejeita as questões tolas e desassisadas, sabendo que geram contendas. Ao servo do Senhor não convém contender, mas sim ser brando para com todos, apto para ensinar, paciente, corrigindo com mansidão os que resistem, na esperança de que Deus lhes conceda o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, e que se desprendam dos laços do Diabo (por quem haviam sido presos), para cumprirem a vontade de Deus. (2Tm 2.20-26)

Vemos pois que o poderio do Diabo se estende a duas classes de homens: os Filhos-de-Deus, prisioneiros, que serão salvos quando se purificarem, e os Filhos-do-diabo, que se unem ao Diabo em afastar os homens de Deus e produzir sofrimento, e para os quais também está reservado o inferno. Quanto aos prisioneiros, Pedro (o valente) adverte para a possibilidade de que “percam a salvação” caso se intimidem pelo sofrimento destinado aos Filhos-de-Deus em sua vida terrena: "O vosso adversário, o Diabo, anda em derredor, rugindo como leão, e procurando a quem possa tragar..."(1Pe 5.8-9)

Uma curiosa explanação de comportamento “puro” que o cristão deve ter sai do livro de Judas (Tadeu), quando cita uma passagem do livro de Enoque:

Contudo, semelhantemente também estes falsos mestres [de Sodoma, Gomorra e cidades vizinhas], sonhando, contaminam a sua carne, rejeitam toda autoridade e blasfemam das dignidades. Mas quando o arcanjo Miguel, discutindo com o Diabo, disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar contra ele juízo de maldição, mas disse: O Senhor te repreenda. Estes, porém, blasfemam de tudo o que não entendem; e, naquilo que compreendem de modo natural, como os seres irracionais, mesmo nisso se corrompem. (Jd 8-10)

Jamais um cristão pronuncie maldição, se mesmo ao Diabo isso não foi direcionado!

REVELAÇÕES SOBRE O DIABO

Nas versões da Bíblia em inglês, o livro Apocalipse chama-se Revelações. Lembrando que o título dos livros bíblicos foi colocado pelos copiadores e não existe um título original, o Apocalipse conta alguns detalhes velho-testamentários sobre o Diabo. Detalhes que não foram "revelados" sequer a Moisés, mas fizeram parte das elaboradas visões de João (de Patmos).

1. O Diabo se infiltrou na Igreja através da aparência de santidade dos judeus

Ao anjo da igreja em Esmirna escreve: Isto diz o primeiro e o último, que foi morto e reviveu: Conheço a tua tribulação e a tua pobreza (mas tu és rico), e a blasfêmia dos que dizem ser judeus, e não o são, porém são sinagoga de Satanás. (Ap 2.8-9)

2. O Diabo estava associado à perseguição romana contra os cristãos

Não temas o que hás de padecer. Eis que o Diabo está para lançar alguns de vós na prisão, para que sejais provados; e tereis uma tribulação de dez dias. Sê fiel até a morte, e dar-te-ei a coroa da vida. (Ap 2.10)

3. O Diabo habitava em Pérgamo

Ao anjo da igreja em Pérgamo escreve: Isto diz aquele que tem a espada aguda de dois gumes: Sei onde habitas, que é onde está o trono de Satanás; mas retivestes o meu nome e não negaste a minha fé, mesmo nos dias de Antipas, minha fiel testemunha, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita. (Ap 2.12-13)

Essa inscrição pode certamente estar ligada ao gigantesco trono-altar erguido para César Augusto nos anos que precederam o nascimento de Jesus. Augusto foi famoso por sua oposição à cultura judaica e sobretudo a sacralidade do Templo.

4. O Diabo era um grande dragão habitando nos céus. Ao ser derrubado, ele vaio para a Terra

E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, que se chama o Diabo e Satanás, que engana todo o mundo; foi precipitado na terra, e os seus anjos foram precipitados com ele. ... Pelo que alegrai-vos, ó céus, e vós que neles habitais. Mas ai da terra e do mar! Porque o Diabo desceu a vós com grande ira, sabendo que pouco tempo lhe resta. (Ap 12.9-12)

5. O Diabo foi a aprisionado no Inferno por 1000 anos, e então será solto

Essa profecia já rendeu muitos anúncios apocalípticos nas viradas-de-milênio. A numerologia judaica, entretanto, era muito mais voltada a expressar coisas grandes e pequenas do que a retratar matematicamente as quantias. Quarenta era geralmente o numeral associado a quantidades grandes.

E vi descer do céu um anjo, que tinha a chave do abismo e uma grande cadeia na sua mão. Ele prendeu o dragão, a antiga serpente, que é o Diabo e Satanás, e o amarrou por mil anos. Lançou-o no abismo, o qual fechou e selou sobre ele, para que não enganasse mais as nações até que os mil anos se completassem. Depois disto é necessário que ele seja solto por um pouco de tempo. (Ap 20.1-3)

6. Ao escapar, o Diabo reunirá cidades para uma batalha

Ora, quando se completarem os mil anos, Satanás será solto da sua prisão, e sairá a enganar as nações que estão nos quatro cantos da terra, Gogue e Magogue, cujo número é como a areia do mar, a fim de ajuntá-las para a batalha. (Ap 20.7-8)

Ezequiel profetizou sobre a vinda de um terrível rei, Gogue, da terra de Magogue, para opor o povo restaurado de Deus. Os capítulos 38 e 39 descrevem a preparação dos exércitos que apoiaram Gogue, o seu ataque contra o povo de Deus e a sua repentina derrota por Deus. As nações que iam participar com Gogue na batalha representam diversos povos gentios. É interessante notar que a maioria desses nomes vem de Gênesis 10, das listas de descendentes de Jafé e Cam. Nenhum deles se encontra na lista dos descendentes de Sem.

A linhagem da promessa é traçada através de Sem. Abraão, Davi e Jesus são descendentes de Sem. Jafé e Cam, por sua vez, eram antepassados de muitas nações ímpias, conhecidas geralmente como gentios. Essas informações esclarecem para nós a simbologia de Ezequiel 38 e 39. Os exércitos de Gogue de Magogue representam os inimigos do povo de Deus tentando derrubar Israel restaurado.

Nada no contexto (um livro que usa um estilo apocalíptico) sugere que Gogue seria uma determinada pessoa histórica. Capítulo 37 é simbólico (ele fala da ressurreição de pessoas num vale cheio de ossos secos). Capítulos 40-48, também, são simbólicos (falam de uma cidade especial e um templo figurado que representam a presença de Deus no meio de seu povo redimido). No mesmo estilo, o profeta usa Gogue para representar a ameaça dos ímpios que tentariam derrotar o reino de Deus.

7. Durante a perseguição da Igreja por Roma, o papel do Diabo era fazer com que os cristãos desistissem de sua fé

Por isso também, não podendo eu esperar mais, mandei saber da vossa fé, receando que o tentador vos tivesse tentado, e o nosso trabalho se houvesse tornado inútil. Mas agora que Timóteo acaba de regressar do vosso meio, trazendo-nos boas notícias da vossa fé e do vosso amor, dizendo que sempre nos tendes em afetuosa lembrança, anelando ver-nos assim como nós também a vós; por isso, irmãos, em toda a nossa necessidade e tribulação, ficamos consolados acerca de vós, pela vossa fé, porque agora vivemos, se estais firmes no Senhor. (1Ts 3.5-9)

Sem dúvida, essa seria uma ocupação aprazível ao Diabo.

DÁ PRA MÓ DI OIÁ AQUI Ó

O Que a Bíblia Diz?

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Jesus, o Diabo e o Deserto - ESTUDO BÍBLICO

o vale do Cédron

As tentações de Jesus são narradas nos 3 evangelhos sinóticos (isto é, que são sinopse ou resumo de algo). Em todas é enfatizado que Jesus estava só em sua provação, no deserto, de forma que nenhum dos evangelistas observou a disputa entre Jesus e Satanás. Se puderam contar sobre isso, somente poderiam ter ouvido da boca do próprio Senhor, com quem conviveram durante Seu ministério. João Marcos, mais breve na escrita, apenas coloca que após o batismo no rio Jordão, “logo o Espírito o impeliu para o deserto. E ali esteve no deserto quarenta dias, tentado por Satanás. E vivia entre as feras, e os anjos o serviam” (Mc 1:12-13). Mateus Levi e Lucas vão além, enumerando as tentações (embora a ordem da 2ª e da 3ª tentação varie).

40 DIAS

O número 40 aparece muitas vezes na Bíblia e nas lendas do Oriente Médio (ex. Ali Babah e os 40 ladrões). Os povos semitas não viam muito sentido em número grandes, pois não usavam cálculos senão para agricultura (no Egito, o número 12, ou seja, o número de divisões do ano, era usado para significar “muitos”). Os estudiosos assim não acreditam que 40 seja um número especial, mas simplesmente uma forma popular de dizer “muitos”, assim como falamos “já te disse mais de mil vezes”, ou “tenho uma dúzia de coisas para fazer”. Também o dilúvio de 40 dias e 40 noites poderia ser simplesmente “muitos dias e muitas noites”; a peregrinação dos hebreus no Sinai por 40 anos também seria “muitos anos”; Davi apresentou-se a Saul por 40 dias seria “por muitos dias” e assim por diante. Não parece que Jesus também se preocupasse com detalhes numéricos... muito menos jejuando no deserto.

Ele não foi abordado por Satanás numa festa, no Templo ou na sinagoga (embora um demônio tenha se apresentado ali). Ele foi guiado ao deserto pelo Espírito Santo. Os essênios como João Batista jejuavam no deserto, a fim de se purificarem. Moisés subiu no monte Horebe para falar com Deus duas vezes e ali esteve, sem comer ou beber, por “muitas” noites antes que Deus falasse com ele (Ex 24.18, Ex 34.28). Jesus, porém, foi guiado para o deserto para encontrar seu inimigo - lá Ele voluntariamente se enfraqueceu ou se purificou pelo jejum por muitos dias, e só então o diabo se apresentou. Curiosamente, Jesus não deu a Mateus Levi ou Lucas detalhes sobre se o demônio apareceu em forma física ou, como Frei Betto aponta, na forma de pensamentos terríveis atormentando um homem escondido em uma caverna. Em nenhum ponto da Bíblia há uma aparição física do diabo...

As referências apontam que Ele seguiu para a margem oeste do rio Jordão, perto do Mar Morto, nos arredores de Jericó (curiosamente um dos locais de habitração mais antiga na história da humanidade) e da montanha Jebel Quruntul, um local escarpado, de rochas expostas e onde só cobras e escorpiões habitam.

A CONCUPISCÊNCIA DA CARNE

Concupiscência é tudo aquilo que usamos como justificativa dos nossos erros; são as nossas alegações de fraqueza. Não é preciso ser pecador para ser tentado... As tentações sempre são propostas sutis de trocarmos Deus por algum outro, a fim de aliviar as nossas aflições ou angústias, assumir algumas “concupsicências” que justifiquem para nós mesmos termos abandonado o simples que Deus ordenou: amarmos a Ele acima de tudo e ao próximo como a nós mesmos. No caso de Jesus, Mateus escreve que o diabo disse “E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome; e, chegando-se a ele o tentador, disse: Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães” (Mt 4:2-3). Lucas escreve “naqueles dias não comeu coisa alguma; e, terminados eles, teve fome. E disse-lhe o diabo: Se tu és o Filho de Deus, dize a esta pedra que se transforme em pão” (Lc 4:2-3). Eis a concupiscência: a fome. Jesus podia fazer pães, na verdade os fez mais uma vez para alimentar o povo. E fez vinho também. Não seria pecado algum se alimentar... mas repare na sutileza de Satanás: “SE tu és o Filho de Deus...”.

Ele queria que Jesus aceitasse a possibilidade de não ser quem era. Dias atrás o céu se abrira em Seu batismo e o próprio Deus dissera: “Esse é meu filho amado...” (Mt 3.17; Mc 1.11). Jesus não precisava de provas, nem Satanás (por isso estava lá). Mas havia a fome, e o diabo fazia parecer que aquilo era um “erro” de Deus, uma “maldade” qualquer da parte Dele, que não se aplicaria a Seu filho. Porque as pedras não eram pães? Porque coisas que não gostamos acontecem?

A resposta de Jesus foi categórica: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”. Essa havia sido a fala de Moisés no final da peregrinação dos hebreus pelo Sinai (Dt 8.3). Moisés se referia então às provações que haviam passado, quando o Senhor testara os seus corações para saber se eram fiéis a Ele. Em meio à perseguição, Deus os havia protegido; os alimentara no caminho, nem seus calçados e roupas se desgastavam, mas o povo duvidava se Deus os guiava! O “bem e o mal” haviam saído de Deus, que lhes reservara uma terra especial... bastando que confiassem Nele. Jesus também havia sido levado ao deserto pelo Espírito Santo, após os céus se abrirem e Deus falar, mas agora Satanás sorrateiramente questionava SE esse era um desígnio de Deus. Quem não faria isso?

Jesus não fez.

SOBERBA

A 2ª tentação veio para testar o significado da proteção divina. Jesus havia afirmado que Deus o guiava, então Satanás apelou para a proteção total que o Senhor promete àquele que se refugia Nele (Sl 91.11-12). Levou Jesus ao alto do Templo. O historiador romano Flavius Josephus (37-100 d.C.) narrou a perseguição dos judeus na época do imperador Titus. Ele descreve o pórtico de Herodes, no Templo, como se elevando 150 m acima do vale de Cédron, entre o monte do Templo e o monte das Oliveiras. Essa deve ter sido a cena que Satanás apresentou a Jesus, dizendo novamente “SE tu és o Filho de Deus, lança-te de aqui abaixo; porque está escrito: que aos seus anjos dará ordens a teu respeito, e tomar-te-ão nas mãos, para que nunca tropeces em alguma pedra” (Mt 4.6).

O que significa ser Filho de Deus? Somente Jesus poderia entender o que isso significava. Para os homens comuns, significa contar com Ele mesmo na hora da morte, como aconteceu com Estevão quando foi apedrejado na frente do jovem Saulo de Tarso.

Eis que vejo os céus abertos, e o Filho do homem, que está em pé à mão direita de Deus” (Atos 7.55-56)

Trata-se de uma promessa enorme, o Reino dos Céus! Mas a Jesus, essa já era uma certeza, em vida mesmo Ele chamou aos moradores celestiais para falar-lhes. O que significava, então, o desafio do diabo? Ele estava fraco pela fome e a solidão, carregado pelo demônio para ver das alturas o monte das Oliveiras, onde estavam muitos túmulos antigos dos profetas. E o demônio dizia: SE és o Filho, joga-te daqui, e Deus te protegerá [embora os profetas tenham morrido]. Era Jesus desafiar a promessa divina (e não se jogar) ou testar a Deus (e se jogar). Quem é mais importante, a Lei ou o Senhor?

Mais tarde, Jesus daria lições aos Fariseus de que o propósito da Lei é melhorar a vida dos homens (Mt 12). Ao diabo (e a Si mesmo) Ele respondeu com a fala de Moisés, novamente: “Não tentareis o SENHOR vosso Deus [como O tentastes em Massá]” (Dt 6.16). Massá foi um entreposto da peregrinação pelo Sinai. O povo, sedento, questionou o propósito de Deus ao levá-los para o deserto. Não era melhor deixá-los escravos do que os matar de sede? (Ex 17.13). Duvidar da proteção divina é um pecado grave, é quebrar o amor “acima de tudo” para com Ele. Testar a proteção divina tiraria de Jesus a fé em Deus... e Ele não a testou.

Paulo traz uma visão mais humana dessa tentação de poder, de acreditar-se inviolável “porque os anjos o protegerão”. Quem faz isso crê num Jesus indestrutível, se lançando no vale de Hebron para ver se Deus o protegeria. Paulo via pessoas permanecendo no pecado mas certas da Salvação porque haviam recebido o batismo! Enquanto Jesus simplesmente se negava a testar Deus, Paulo afirmava que era necessário MORRER para o pecado, ou não fazia sentido a ressurreição (Rm 6.1-12).

A PIOR OFERTA

Em sua terceira tentativa, o diabo desvelou sua força sobre Jesus. Mateus conta que “o transportou o diabo a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória [brilho] deles. E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares” (Mt 4:8-9). Essa tentação era imensa; as almas dos homens, que o diabo tinha pelo Pecado Original. Assim, de forma fácil, sem mortes, nem Dele ou de qualquer outro. Imagine poder salvar todos os pecadores de um destino cruel!

A nós homens não é dado esse poder, por isso somos pouco tentados pela oferta. Mas Jesus tinha essa oportunidade! Ele tinha que optar entre servir somente a Deus (e os homens que busquem sua salvação) ou de uma vez anular a atração que o mal tem sobre todos (se Ele se curvasse ao demônio, condenando a Si próprio no lugar de todos). Sabendo o que Ele de fato fez mais tarde, podemos supor que a balança oscilou... o diabo sempre é astuto (Lc 16.8).

Jesus novamente buscou conforto nas palavras de Moisés: “O SENHOR teu Deus temerás e a ele servirás” (Dt 6.13). Nunca foi uma questão de escolha; apesar dos sofrimentos, das dúvidas e das ofertas, servir ao Senhor esteve em 1º lugar. Fortalecido de todas as suas dúvidas carnais e espirituais, um Jesus exausto expulsa seu tentador e os anjos o vieram servir, para que se recuperasse, antes que partisse para seu ministério na Galiléia (Lc 4.14). Cena semelhante se passa no Getsêmane, à noite, momentos antes de ser preso, quando Jesus suava gotas de sangue em agonia (Lc 22).

ELE NÃO DESISTE

O diabo voltaria ainda a incomodá-Lo em Cesaréia de Filipe. Quando interrogava sobre quem os discípulos pensavam que Ele era, Simão Pedro, filho de Jonas, lhe disse que Ele era o filho do Deus vivo. Quando Jesus falou sobre Seu sacrifício que aconteceria em Jerusalém, porém, Pedro disse que nada daquilo aconteceria (afinal, Ele estaria protegido pelos anjos do Senhor, não?). Repare a repetição da 2ª tentação segundo Mateus (3ª segundo Lucas).

Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens” (Mt 16.23)

Pedro o seguia, mas ainda não cria nele como o Senhor. Em Jerusalém, já na última Páscoa, quando contava aos discípulos o que aconteceria a Si, “começaram a perguntar entre si qual deles seria o que havia de traí-Lo ... e houve também entre eles contenda, sobre qual deles parecia ser o maior” (Lc 22:23-24). Enquanto eles discutiam sobre ser o pior ou o melhor, Jesus lhes contou algo duro sobre o futuro: “Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos” (Lc 22:31-32).

CONCLUSÃO

Jesus era humano, sujeito a fome e desejos bem carnais. No entanto, Ele também era divino, e por isso Satanás tentou suas naturezas de Deus e de homem. Escapando a ambas pelas simples (mas poderosas) orientações de Moisés, Jesus nos mostra como a Palavra de Deus pode ser uma arma valiosa contra o mal dentro de nós mesmos. O autor da Carta aos Hebreus acrescenta “porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado” (Hb 4.15).

Isso não é um convite à concupiscência, mas um sinal de que nós também podemos resistir às fraquezas da alma e da carne através do conselho das Escrituras e a certeza de que o Senhor nos protege e guia, sempre.

VALE A PENA LER DE NOVO

Frei Betto, Um homem chamado Jesus, Ed. Rocco, 2009
Frei Mauro Strabelli, Bíblia: perguntas que o povo faz, Ed. Paulus, 1990, cap. 50
Life of Christ