Mostrando postagens com marcador social. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador social. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 15 de maio de 2019

O Cristianismo da Pobreza - 2ª parte (séc. 15 ao 20)


Acima, Esq. - Desenho da jornalista estadounidense Nellie Bly, que se fingiu de insana e documentou em um diário os horrores dentro do asilo Blackwell, em Nova York (1867). Acima, Centro - Charge do jornal italiano Il Fischietto, 1871, satirizando um frade a proteger o mendigo na igreja. Acima, Dir. - pastor Friedrich Niemöller, que acusou os Protestantes de conivência com o Nazismo. Abaixo, Esq. - “Casa de trabalho” em Londres, Inglaterra, 1900. Abaixo, Dir. - pastor Dietrich Bonhoeffer, preso pela oposição ao extermínio dos judeus.

Esse texto é uma continuação de O Cristianismo da Pobreza - 1ª parte, que conta as ações sociais da Igreja Cristã até os dias atuais. No último texto, seguimos até o movimento dos Franciscanos.

ADMIRÁVEL IDADE MODERNA

A Idade Média terminou no meio do séc. 15, através de grandes mudanças na Europa. O Islã recuou da Espanha para o norte da África. Bizâncio, a Roma Oriental, foi dominada pelo Islã e interrompeu-se o fluxo terrestre de mercadorias entre Ocidente e Oriente. Os Cristãos Ocidentais se repartiram entre Católicos Romanos e Protestantes. Começaram as navegações através dos oceanos para América, África Ocidental, Índia e China. Na prática, isso mudou completamente o comércio no mundo: prometiam-se grandes lucros para os reis e comerciantes, fortunas para os destemidos e também novas doenças. Para a população mais desfavorecida da Europa, a divisão religiosa marcou a intervenção do Estado nos serviços oferecidos.

Os reinos Católicos perseveraram na tradição dos hospitais e esmolas. Os Franciscanos, em especial, tornaram-se famosos por esse serviço (e muitas vezes eram eles que pediam esmolas). Os países Protestantes direcionaram os dízimos para o Estado ou para órgãos superiores das Igrejas e criaram leis contra a mendicância (pois os pobres às vezes eram peregrinos portadores de pragas do Oriente). Mas também formaram órgãos governamentais, que contratavam os pobres para reparar e limpar ruas e pontes, por exemplo.

Os Ortodoxos foram englobados pelo Islã, com o qual mantiveram boas relações. No entanto, a região da Etiópia, Grécia, Turquia e Romênia, sob o comando dos sultões Ottomanos, não permitiu que a Igreja Cristã tivesse uma função social. No mundo Católico Ocidental (reinos que seriam depois Portugal, Espanha, França e Itália), a caridade fazia Deus gostar dos homens. Era absolutamente necessária para garantir a ida ao Paraíso e o escape do Purgatório (nesse último caso, na forma de ofertas ou missas pagas pela família do morto). No mundo Protestante (reinos que seriam Suécia, Noruega, Dinamarca, Inglaterra, Alemanha, Holanda e Suíça), a caridade transmutou-se em ofertas de trabalho nas casas de família, comércios, campos ou prefeituras. Nos cultos, pregava-se a missão do evangelho de Mateus: alimentar os famintos, vestir os maltrapilhos, dar de beber sedentos, visitar os enfermos, acolher os viajantes, enterrar os mortos (uma inserção do livro de apócrifo de Tobias), cuidar dos órfãos e das mães solteiras, além dos prisioneiros.

Uma vez que o número de carentes era grande e até havia entidades para arrecadar esmolas, as igrejas Protestantes hierarquizaram quem receberia benefícios. Às vezes, isso significava coletas em toda uma cidade. Primeiro vinham as viúvas, órfãos, abandonados, doentes, peregrinos e pobres voluntários (como os Franciscanos e Waldenses); depois os desonrados, que haviam perdido suas fortunas; depois os artesãos e acometidos por crises econômicas (como aumento do preço do pão); por fim vinham os fraudulentos e expulsos de suas comunidades religiosas. Muitos desses últimos foram tentar sua sorte na América.

Nos países Católicos, era muito difundida a teologia do Pastor de Hermas, onde os pobres e os ricos eram tais pelo desígnio de Deus, de forma que os pobres orassem pelos ricos em agradecimento. Já o pregador protestante Ulrich Zwingli, por exemplo, lamentava “Ninguém doa em felicidade, pelo amor a Deus e ao próximo, mas por medo do Diabo, do Inferno e de um Deus tirano, para comprar sua eternidade”. No lado Protestante, diversos filósofos apontavam que a má administração pública era causadora da miséria.

Entre os sécs. 16 a 18, os reinos da Europa se anexaram sob famílias muito poderosas, que governavam colônias rurais e extrativistas na América, África, Índia e China. A Igreja Católica empreendeu várias missões no norte da África à procura do lendário reino de Padre João, uma estória contada nos livros da Roma antiga, e que seria um aliado contra o Islã. Em 1520, depois de quase 100 anos procurando, os espanhóis Rodrigo de Lima (explorador) e Francisco Alvares (franciscano) trouxeram notícias sobre o reino de Lebna Dengel, na Etiópia, que mantinha tradições Cristãs*.

A América dos Incas, Maias e Aztecas foi visitada por caravelas de Espanha, Portugal, França, Holanda e Inglaterra. Embora os navegadores criassem portos nas outras culturas, penetrar países e estabelecer bases ali foi um trabalho diplomático das igrejas Católica e Protestante. Junto com “converter pagãos e anunciar o Evangelho como Cristo mandou”, estava o ideal de conseguir poder junto às grandes coroas. Quanto aos povos encontrados, eram primitivos para Católicos e Protestantes; seriam humanos na medida em que fossem aculturados e convertidos. Para as coroas ia além: os estrangeiros eram lucro.

A ordem dos Jesuítas (Católica) se opôs a esse sistema e, como foram os 1os direcionados ao além-mar, perderam status até decaírem em “ordem mendicante”. Os Metodistas e Batistas (Protestantes) acabaram caçados ou fuzilados por exploradores. Quase tudo que sabemos dessa época ficou guardado em documentos e cartas dos religiosos.. Na China e Índia, os Jesuítas tentaram converter as nobrezas destes reinos, o que irritou muito as ricas famílias européias.

Com a queda dos Jesuítas, as ordens enviadas ao redor do mundo passaram a ser Franciscanos, Dominicanos, Augustinianos (Católicos) e Anglicanos (Protestantes), que destruíram os cultos nativos (e várias vezes foram sacrificados aos deuses, também), mas estabeleceram hospitais, escolas e comércio nas colônias. Isso resultou em um sem-número de pobres, órfãos, idosos abandonados, mutilados e doentes nas colônias.

RUMO A UMA NOVA ERA

A política Protestante de prover os pobres com trabalho e serviços municipais atingiu seu ápice no séc. 17, prestes a entrar na Era Industrial, com a organização de Paróquias. Cada Paróquia recebia donativos de 50-100 casas gerenciadas por uma igreja, registrava os moradores e supria necessidades dos mais pobres. Como algumas Paróquias eram mais solícitas, muita gente se mudava em busca de ajuda. Os mais necessitados eram encaminhados a “Casas de pobres”, construções para 200-1000 pessoas com o design de prisões, onde os pobres eram separados em categorias. As “Casas” recebiam uma verba estatal mas em grande parte deveriam manter suas finanças**. Lá havia alimentação, cuidados médicos e dormitório; os moradores realizavam serviços como cuidar dos doentes, ensinar, quebrar pedras ou ossos (para fazer fertilizantes), limpar fios de telégrafos e enrolar cordas resinadas para a indústria naval. Muitos trabalhadores eram crianças ou idosos vivendo em condições de higiene e alimentares que se tornaram alarmantes.

Nos reinos Católicos, que se mostraram grandes conquistadores de terras, persistia a crença de que dar esmolas era um ato religioso e, portanto, o Estado não devia intervir. Assim, a Igreja Católica produziu instituições filantrópicas como hospitais, orfanatos e asilos mantidos por doações das Paróquias e das famílias ricas. No Brasil, apareceram as Santa Casas de Misericórdia (Santos/SP em 1543, Salvador/BA em 1549, Rio de Janeiro/RJ em 1567, São Paulo/SP em 1599, João Pessoa/PB em 1602, Belém/PA em 1619, Vitória/ES em 1818). Uma carta na Baviera, em 1791, registra: “Muitos são da opinião que dar esmolas não é meritório, se não for entregue pessoalmente. A partir desta regra, quase geral, a bênção de Deus permanecerá na casa". Embora os reinos Protestantes também tivessem sérios problemas no cuidado com os pobres, entre o Mundo Católico ficava claro que o propósito da caridade era assegurar bênçãos divinas, e não reverter a pobreza.

DEPOIS DAS REVOLUÇÕES

A entrada no séc. 19 ficou cravejada de revoluções em todo o mundo. A mais famosa foi a Revolução Francesa, mas aí se encaixam a independência dos EUA e também do Brasil. As ciências despontavam com a descoberta do mundo microscópico, química e engenharia de motores. Comerciantes e empresários influenciavam os rumos da política a ponto de emprestar dinheiro aos reis e ameaçá-los. Na América surgiam novas nações; na África, Índia e China, os europeus assumiam controle dos territórios. Os países Católicos, fiéis à tradição de manter hospitais públicos, asilavam agora idosos, órfãos, mães solteiras, doentes e criminosos. Esse papel social foi muito importante no Brasil, por exemplo, mas também impediu que os governos vissem o cuidado com os desfavorecidos como sua responsabilidade. Por um lado, o cuidado com os pobres criava uma servidão voluntária dos pobres às famílias ricas, para que recebessem seus donativos Cristãos (o que estruturou muito da sociedade colonial); por outro lado, transformava os pobres em joguetes da política, diplomaticamente organizados pela Igreja.

O serviço assistencial era visto como uma obrigação das famílias ricas (que pagavam à Igreja, por isso), mas não um direito dos pobres. Basicamente, os governos permitiam todos os abusos capitalistas e mercantilistas contra as populações (e isso constituiu, especialmente na América, um sistema de servidão), deixando para a Igreja remendar, no que pudessem, os seus desmandos. Na França, a Revolução produziu instituições que eram controladas pelo Estado (as mesmas dos tempos da monarquia) mas contratavam religiosos para fazer o mesmo serviço feito antes. A contratação de mulheres para os serviços sociais em instituições público-católicas até se tornou uma fonte de empregos para a classe média.

Nos países Protestantes, o Estado assumiu a responsabilidade pelos pobres. Nesses países, a pobreza era vista como desvio pecaminoso do homem, até irreversível (sobretudo nas comunidades calvinistas¹). Aos pobres era necessário oferecer oportunidades de trabalho, de forma que se esforçassem ao máximo para mudar sua condição. Caso não pudessem fazê-lo (geralmente não podiam), seria um sinal divino de sua miséria. Considerando que os recursos estatais eram na forma de recebimento de alimentos, abonos, etc, e não uma garantia de direitos, a Igreja acabou se aliando com a classe empresarial para garantir a exploração da mão de obra desses desvalidos mais pobres. Eles deveriam, acima de tudo, merecer seus benefícios! Isso produziu, tanto na Europa quanto na América do Norte, a organização dos pobres em guetos fiscalizados ou gerenciados pelas comunidades das igrejas. Por um lado havia a garantia do acesso ao pão e água, por outro havia a cobrança de que trabalhassem o mais possível, pelo salário que os ricos quisessem pagar. Na metade do séc. 19, quase todos os guetos e “Casas de trabalho” européias abrigavam pessoas vinculadas à indústria têxtil, extremamente lucrativa (não para os pobres).

O séc. 19 viu o despontar dos governos Luteranos (ex. Dinamarca, Suécia, Noruega) como grandes promotores de equidade social. Esses países combinaram a idéia Católica de criar organizações e instituições religiosas de apoio aos necessitados, onde nada precisava ser dado em troca, com a assistência por parte do Estado. Assim, a Igreja era fornecedora da mão de obra e o Estado mantinha a entrada de capital. Os países Luteranos foram os primeiros a enviar missões humanitárias para a América, África e Ásia.

Por volta de 1890, na Europa, a pobreza movimentava um mercado de trabalho “sob a chibata Protestante”. Nas colônias ao redor do mundo, essa pobreza replicava a sociedade feudal, com as famílias ricas e a Igreja Católica cuidando/governando massas populares. Bem longe do “cuidar dos órfãos e viúvas”, essa época produziu uma Igreja Cristã privilegiada econômica e politicamente, apoiada sobre as costas dos pobres junto com uma minoria rica. A riqueza não santificava exatamente, mas tornava moralmente correto. Essa “moral religiosa” marcou o Cristianismo do início do séc. 20.

OS NOVOS DONOS DO MUNDO

O séc. 20 inicia com a 1ª Guerra Mundial e tem sua metade marcada pela 2ª Guerra². Nos países pobres, esse período pode ser bem descrito por uma repartição da sociedade entre o ambiente rural (que fornecia matérias primas para os países ricos) e o ambiente urbano (as indústrias nos países pobres produziam para mercados interno e externo, os países ricos recebiam os dividendos). Essa migração das indústrias foi, em grande parte, uma forma de as empresas fugirem do Socialismo europeu, que estabelecia regras de proteção aos trabalhadores. Nos países pobres, não haviam regras.

Os governos dessas terras, agora eram completamente substituídos/comprados pelos governos europeus (mais ou menos como nos tempos pós-Alexandre o Grande ou de Roma). Na parte urbana das colônias, a lei de exploração estrangeira foi trocada por uma lei de exploração trabalhista. Na parte rural, houve um distanciamento entre os patriarcas ricos e as populações que controlavam: agora, os pobres - incluindo muito ex-escravos - eram servos de ricos senhores urbanos com os quais tinham pouco ou nenhum contato. Na América do Norte, fortaleceram-se igrejas Pentecostais como organização política de pobres e ex-escravos. 

Os Luteranos e Batistas chefiaram a implantação de um sistema de ajuda social, que chegou a ser missionário na África Ocidental. Para lá também foram Anglicanos e Luteranos da Europa, muitos dos quais presenciaram os crimes contra a Humanidade praticados no Grande Congo e outras regiões. Na América Central e no Brasil, a Igreja Católica esteve muito ligada à repulsão do Socialismo nas cidades, enquanto mantinha seu tradicional sistema de hospitais, asilos, orfanatos e abrigos, que permanecia distante das cidades interioranas e não era suficiente para as capitais.³

As medidas sanitaristas que aconteceram entre o final do séc. 19 e a 2ª Guerra deram o 1º passo para uma mudança nas perspectivas de vida e saúde da população em todo o mundo. Foram, entretanto, medidas para uns poucos: os trabalhadores urbanos, sem acesso a condições de saúde adequadas, circulavam por conduções, vielas e bairros erguidos para serem guetos, para manter eles e sua imundície longe das áreas frequentadas pelos mais ricos. As populações foram separadas nas igrejas (Católicas e Protestantes), ou as próprias igrejas eram separadas.

Na Europa, os movimentos Socialistas e Nazi-fascistas ganharam força e, enquanto os Protestantes do norte tentaram não se envolver, mantendo o ideal de separação entre Igreja e Estado, os Católicos do sul travaram relações tensas com o grupo Nazi-fascista. A Revolução Russa, iniciada em 1905, não abriu caminho para a Igreja Ortodoxa - antes, restringiu ainda mais os Cristãos a um segmento oculto e silencioso da população.

Os movimentos que levaram o Gen. Francisco Franco ao poder em 1936 (Espanha), também expropriaram a Igreja Católica de todas as suas propriedades, bens e função educacional. Os Jesuítas foram banidos. Na Itália, a unificação dos reinos havia quebrado os vínculos com a Igreja Católica e o movimento de Benito Mussolini, em 1930, assegurou a autoridade papal, de forma que ele foi aclamado como “aquele que devolveu a Itália para Deus”. No mesmo ano, os movimentos que elegeram Adolf Hitler (Alemanha) se mostraram hostis ao Catolicismo. Muitos padres chegaram a ser fuzilados. Apesar disso, os Católicos Alemães em geral eram simpatizantes do Regime, pois o Socialismo pregava justamente contra as influências religiosas. Houve muitas tentativas de Roma em estabelecer relações pacíficas com Hitler. Todas foram assinadas e ignoradas em momento oportuno. Mesmo antes da Guerra, cerca de 28 milhões de pessoas foram assassinadas por esses regimes; com a 2ª Guerra, mais 55 milhões foram mortos.

No Brasil dos anos 1930, o governo do Gen. Getúlio Vargas pretendeu substituir alguns serviços filantrópicos como as escolas, até então totalmente mantidas por famílias ricas ou pelas Igrejas Católica e Luterana. Houve uma aproximação entre Igreja e Exército e criou-se um sistema de educação profissional, hoje chamado “Sistema S” (Senai, Senac, Sesi, etc), onde a participação da Igreja era menor. Nas periferias, contudo, a educação e saúde continuavam nas mãos da Igreja, que também fazia a função de repelir o Socialismo.

Ficou famoso nessa época o pastor Friedrich Gustav Emil Martin Niemöller, da Igreja Luterana da Alemanha, que se opôs a considerar Cristãos apenas os arianos (loiros, de olhos verdes, filhos de outros arianos). Ele publicou um poema de grande circulação, hoje gravado em vários monumentos:

Primeiro vieram contra os socialistas e eu não falei - porque eu não era socialista. Então eles vieram contra os sindicalistas e eu não falei - porque eu não era sindicalista. Então eles vieram contra os judeus e eu não falei - porque eu não era judeu. Então eles vieram contra mim - e não havia mais ninguém para falar por mim.

Niemöller foi preso em um campo de concentração e, mais tarde, assinou a Declaração de Culpa de Stuttgart (1945), onde responsabilizava os Protestantes pela não resistência ao Nazismo.

Outro nome importante dos anos 1930 foi o pastor Dietrich Bonhoeffer. Ficou famoso por sua atividade unificadora das igrejas protestantes e seu livro “O preço do discipulado”, sobre a função do Cristianismo no mundo secular. Ele se opôs diretamente à perseguição e morte dos judeus na Alemanha, sendo preso em 1943. Bonhoeffer foi acusado de um atentado contra Hitler e fuzilado, em 1945.

AGUARDAMOS UMA CONCLUSÃO

Nesse período da história, a Igreja se dividiu e, de formas muito distintas, tentou formas de tratar com a existência da pobreza no mundo. Os Católicos criaram entidades de assistência, que porém não eram numericamente suficientes; os Protestantes inseriram na política do Estado a manutenção dos pobres (o que, muitas vezes, gerou uma exploração ainda maior deles). Nas crises econômicas e políticas que marcaram a metade do séc. 20, encontramos igrejas lutando ou cooperando com o Estado segundo seus interesses de privilégios, segurança e poder, mas não mais em benefício daqueles que Jesus chamava de "benditos".

----------------------------------

* Algumas obras notáveis que resultaram dessas missões diplomáticas foram Historia de los Indios de la Nueva España, de Toribio de Benavente Motolinia, 1536; Brevíssima relação da destruição das Índias e Historia de Las Índias, de Bartolomé de las Casas, 1550; Florentine codex: general history of the things of New Spain, de Bernardino de Sahagun, 1550; Historia ecclesiastica Indiana, de Jeronimo de Mendieta, 1595; The natural and moral history of the Indies, de Joseph de Acosta, 1590; Historia de las islas del archipielago y reynos de la gran China, Tartaria, Cuchinchina, Malaca, Sian, Camboxa y Iappon, y de los sucedido en ellos a los religiosos descalços, de Marcello de Ribadeneyra, 1601; História da Etiopia, de Pedro Páes, 1620; Tratados históricos, políticos, éticos y religiosos de la monarquia de China, de Domingo Fernández Navarrete, 1676.

** Curiosamente, a idéia de organizar os pobres para sustentarem uns aos outros foi bastante difundida por alguns religiosos filiados à Teologia da Libertação, um movimento Igreja Católica. Na série “Um tal Jesus”, de María e José Ignacio López Vigil, por exemplo, a “multiplicação dos pães e peixes” se transforma em reunião dos alimentos de muitos seguidores para formar um jantar.

¹ Calvinismo: teologia atribuída ao pregador Protestante francês John Calvin, onde Deus tem visão absoluta da existência humana e, portanto, elegeu alguns para a Salvação e outros para a Destruição. Essa condição expressa-se (mas nem sempre) na prosperidade de cada um e perpassa aos seus descendentes. A observação das leis de Deus é obrigatória a todos, embora só os predestinados possam gozar disso.

² Nenhuma das Guerras Mundiais teve origem religiosa. Antes, foram guerras econômicas. A 1ª Guerra (1914-1918) foi um embate do Oeste Europeu contra o Leste Europeu pelas colônias na África e Ásia. As lutas foram nas colônias comerciais e os países do Oeste venceram, causando fragmentações por crises econômicas no Leste. As colônias mudaram de mãos, algumas formaram forças revolucionárias. Mas o sistema Capitalista estava em crise. A 2ª Guerra (1939-1945) foi uma luta do Capitalismo Liberal (sem regras) contra o Capitalismo Estatal = Nazi-facismo (economia e vida das pessoas governada pelo Estado). Foi uma luta dentro da Europa pelo controle das cidades e indústrias. Muitas nações ricas foram arruinadas, enquanto o Socialismo ganhou força em ambos os lados. Diversas colônias conseguiram independência. Os países pobres, com populações frágeis em relação aos governos, em geral absorveram a filosofia Nazi-facista e iniciaram regimes militares.

³ Mesmo os países europeus de tradição Católica como Portugal, Espanha, França, etc são historicamente os que menos produziram em termos de igualdade social.

----------------------------------

MELHOR QUEIMAR TAIS LIVROS

Benito Mussolini - wikipedia
Clapsis E, Peace, economic injustice and the orthodox church, Greek Orthodox Archdiocese of America, 17/ago/2010
Dietrich Bonhoeffer - wikipedia
Kahk S, The religious roots of modern poverty policy: Catholic, Lutheran, and Reformed Protestant traditions compared. Archives Européennes de Sociologie / European Journal of Sociology/Europäisches Archiv für Soziologie, p. 91-126, 2005
Martin Niemöller - wikipedia
Mereles C, Direito à saúde - história da saúde pública no Brasil, politize.com.br, 23/abr/2018
Nellie Bly - wikipedia
Pandolfi D, Repensando o Estado Novo, Ed. Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro, 1999
Poor relief - wikipedia
Umbertino R, The poor - our masters, Orthodox Church in America, 2004
Workhouse - wikipedia

domingo, 23 de setembro de 2018

O mito eleitoreiro

Em época de eleições, vemos candidatos divulgando idéias sobre as questões sociais que assolam o país (e também assolavam na eleição passada). Infelizmente, tem se cultivado entre os candidatos o hábito de deixar as exposições de ideias para aproveitar todo e qualquer momento de mídia repetindo um “monólogo de si próprio” indiferente a questionamentos e diálogos. Num debate recente na televisão, por exemplo, onde 8 candidatos estiveram presentes, pouco se disse além de promessas genéricas como apoiar saúde e educação (talvez os candidatos desconheçam a PEC 241 de 2016, limitando investimentos nessas áreas menos importantes) e combater a corrupção (que é atribuição da polícia).

Além dos ataques mútuos típicos dessa fase de batalha eleitoral, também têm chamado à atenção os episódios de exaltação Cristã. Afora as críticas (legítimas) sobre a influência religiosa em ideias para governar um Estado laico, é presumível que pessoas religiosas se guiem por diretrizes religiosas na tomada de decisões. O Brasil é um país de absoluta maioria Cristã e está claro que os candidatos pretendem estabelecer isso como vínculo com os eleitores. Mas vale muito a pena entender o que os candidatos querendo esse “voto Cristão” entendem, de fato, como sendo diretrizes Cristãs de funcionamento. A imensa variedade de cultos Cristãos apenas no Brasil já dá margem a múltiplos entendimentos do que “Cristão” pode significar.

IDENTIDADE DE GÊNERO

Num diálogo entre Cabo Daciolo (Patriotas) e Jair Bolsonaro (PSL), por exemplo, os dois debateram sobre o “kit gay”, além da “liberação” do aborto. Colocando-se como defensores da família tradicional brasileira e tementes a Deus, se posicionaram contrários a essas medidas. Ambos atacaram ferrenhamente uma publicação incentivadora da homossexualidade que seria veiculada como material didático. Só que bem diferente do que afirmavam os candidatos, o tal “kit” era a publicação do MEC  “Caderno Escola sem Homofobia”, destinado a professores, gestores e profissionais, para que abordem a questão de orientação sexual com alunos do Ensino Médio. Um posicionamento semelhante foi feito “contra a liberação do aborto”, dando a entender que há uma proposta de reverter a atual proibição da prática para uma futura ausência de restrições. Jair Bolsonaro então até questionou a moralidade de Marina Silva (Rede) que, sendo Evangélica, defende um plebiscito para a legalização da maconha e do aborto. O argumento de Marina era de evitar que mulheres recorram a métodos inseguros e clínicas clandestinas para fazer o procedimento, diminuindo assim o risco de morte da genitora.

No Novo Testamento, existem raríssimas abordagens da homossexualidade, nenhuma delas registrada como palavras de Jesus. Muito menos há uma abordagem de como mestres devem tratar o tema com seus alunos. E também não há qualquer instrução acerca do aborto, quanto mais da consulta pública sobre o tema. Por isso percebemos que, no vigor de iniciar uma discussão sobre o quanto cada um é Cristão, os candidatos “fabricaram” um objeto de discussão e na verdade divulgaram uma retidão moral que não encontramos entre os seguidores de Jesus, mas que se aproxima muito mais da perfeição farisaica que Jesus acusava de serpentes, víboras e “filhos do diabo”.

SOCIALISMO

Cabo Daciolo levantou uma discussão sobre a “URSAL” (União das Repúblicas Socialistas da América Latina), que seria um movimento militar-socialista¹ de apoio entre governos para a mudança do regime econômico. Uma evidência de tal movimento seria a receptividade do Brasil aos imigrantes venezuelanos. Afora a tradição diplomática de asilo político que sempre foi característica do Brasil, a preocupação com manter o capitalismo apareceu como uma atitude Cristã. Olhando para a história de toda América Latina, entretanto, observamos massacres de indígenas e de pobres, sobretudo em El Salvador, Guatemala, Nicarágua, Argentina, Chile e no Brasil durante os tempos de ditaduras militares altamente capitalistas e que se instauraram, cada uma, objetivando conter supostos movimentos socialistas contra a propriedade privada. Foram governos que, sem exceção, produziram milhões de pobres e miseráveis em favor da concentração de renda nas mãos de poucos (vários deles membros do governo). E olhando o livro de Atos encontramos, para o espanto geral, que os primeiros Cristãos justamente vendiam suas propriedades para alimentar um grupo pautado na coletividade, o que facilmente se poderia chamar de “socialistas”. Dessa forma, o que quer que a URSAL possa significar - não há evidências de que exista, mesmo como projeto - ela teria muito mais a ver com o Cristianismo, especialmente o defendido pela Teologia da Libertação - do que o modelo capitalista pregado pelos candidatos Cristãos do Patriotas e PSL.

Em todos esses países supostamente socialistas, é bom lembrar que existem milhões de pobres vítimas de decisões políticas, econômicas e financeiras sobre as quais não têm nenhuma influência. Dizem as Escrituras que Deus escuta seus gritos, e um dos profetas chega a dizer que as blasfêmias que proferem por causa da dor, Deus as escuta como súplicas (Salmo 102, Isaías 30.18,19). As eleições sempre trazem alguma esperança de que novos líderes tragam políticas sociais que diminuam as desigualdades mas, é notório, nosso país é conhecido mundialmente pela enorme desigualdade social, maior que em todos os irmãos latino-americanos e comparável à realidade africana. Aqui, o pobre vive melhor só quando há crescimento econômico. Nas supostas potências socialistas, tão temidas, a desigualdade menor é manchada por uma pobreza que ninguém inveja. Receber refugiados em fuga de um sistema que os mata lentamente, como ocorre hoje na Venezuela, parece muito condizente com a pregação de Jesus.

Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te?” Respondendo o Rei, lhes dirá: “Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” (Mateus 25.37-40)

(DES)ARMAMENTO

Jair Bolsonaro tem, como propostas muito apoiadas, a castração química de estupradores e o porte de arma para mulheres “de bem e preparadas”. Novamente vemos que existe uma preocupação com a violência contra mulheres, mas é um esquivar-se do Estado seguido de “protejam a si mesmas”. Junto, a velha noção de moralidade; quem não possuir tais atributos (e considerando outros dizeres do candidato, é a mulher pobre, negra, mãe solteira, prostituta, etc) está longe da “proteção” do Estado... e que se vire. Uma abordagem bem dramática desse tema de defender-se por armas aparece na cena da prisão de Jesus:

Pedro, estendendo a mão, puxou da espada e, ferindo Malco, o servo do sumo sacerdote, cortou-lhe uma orelha. Então Jesus disse-lhes: “Deixai-os, basta. Embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão. Não beberei eu o cálice que o Pai me deu?” E, tocando-lhe a orelha, o curou. (Mateus 26.51-52, Lucas 22.51, João 18.11)

O Estatuto do Desarmamento (Lei nº 10.826) foi aprovado por maioria do Congresso em 2003. Calcula-se que quase 200 mil mortes tenham sido evitadas por isso, desde então. Também não é difícil imaginar que Jesus preferiria um Estado onde pessoas não são ameaçadas ao invés de um onde cada um se defende como pode. Essa ideia não foi capaz de proteger nem o próprio Jair Bolsonaro, vítima de um atentado em plena campanha. Mas assusta pensar que tal é a visão Cristã nos EUA, país basicamente fundado por Protestantes Puritanos. E, de uma forma insidiosa, essa pode tornar-se a visão Cristã no Brasil. Com a ressalva de que o Estado é quem garantiria o porte de armas para as pessoas “de bem e preparadas”, as quais por outro lado não podem recorrer ao mesmo Estado por saúde, moradia, oportunidade de trabalho, educação de qualidade e, quem sabe, nem segurança.

Posteriormente, em entrevista, Bolsonaro disse que não se lembrava com certeza, mas estava se referindo a passagem bíblica de Paulo onde Jesus diz para os discípulos empunharem espada. A passagem referida está, no entanto, no livro de Lucas.

E disse-lhes: Quando vos mandei sem bolsa, alforje, ou alparcas, faltou-vos porventura alguma coisa? Eles responderam: Nada. Disse-lhes pois: Mas agora, aquele que tiver bolsa, tome-a, como também o alforje; e, o que não tem espada, venda a sua capa e compre-a. Porquanto vos digo que importa que em mim se cumpra aquilo que está escrito: E com os malfeitores foi contado. Porque o que está escrito de mim terá cumprimento. E eles disseram: Senhor, eis aqui duas espadas. E ele lhes disse: Basta. (Lucas 22.35-38)

O entendimento dessa passagem é nebuloso. Ela tem aspectos bem diferentes em nos livros de Mateus e João, mas está claro que pelo menos Pedro foi armado para o bosque do Getsêmane. Exceto Bolsonaro, entretanto, nenhum bibliologista (ex. Jacques Ellul, John Howard Yoder, Archie Penner, John Gill, etc) jamais afirmou que Jesus mandava seus seguidores portarem armas. A interpretação mais aceita é de que 2 espadas obviamente não seriam capazes de oferecer proteção contra a guarda do Sinédrio, nem há um planejamento de ação defensiva. Segundo eles, Jesus anunciava um período de sofrimento em que os discípulos não contariam com a proteção divina, ou ainda que anunciava a perseguição aos Cristãos na Judéia.

AH, AS MULHERES!

Em outro bate-boca com Marina Silva sobre políticas de proteção à mulher, Bolsonaro afirmou que tal coisa já está prevista em lei e não é mais responsabilidade do Estado. Arremedou dizendo para a candidata ler o livro de Paulo, onde uma passagem machista reforça a submissão das mulheres aos homens:

As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é vergonhoso que as mulheres falem na igreja. (1ª Coríntios 14.34-35)

Há algumas coisas a esclarecer sobre essa passagem. Primeiro, Paulo era um pregador grego entre os gregos de Corinto. Tratava-se de uma sociedade fortemente patriarcal e Paulo não intencionava abolir tais leis, assim como não se pronunciou contra o sistema escravista. Logo, as cartas de Paulo, assim como todo o texto bíblico, são condicionadas a posições sócio-culturais de cada época. O trecho de 1ª Coríntios 11.5, além de falar sobre a submissão das mulheres como lei divina, fala sobre regras de vestimenta, mas mostra que as mulheres tinham papel importante nos cultos Cristãos. O texto de 1ª Coríntios, em especial, trata de estabelecer normas de conduta numa igreja que Paulo considerava desordenada, onde as pessoas pareciam falar em línguas mas eram “como que falando ao ar”, que seriam “considerados loucos”. Paulo não pretendia senão estabelecer as regras em tal comunidade, regras que eram de sua cultura, época e local. Faz tanto sentido aplicar essas regras hoje e no Brasil como seguir as restrições alimentares e higiênicas de Levítico.

INDÍGENAS E QUILOMBOLAS

Entre alguns candidatos disputando o “voto Cristão”, chamam a atenção do mundo inteiro os discursos de ódio (que lembram Hitler e, mais recentemente, Donald Trump), falas vexatórias, piadas criminosas, apologias à violência e distorção dos acontecimentos durante a Ditadura Militar. Cogita-se, por exemplo, a remoção das terras garantidas pelo Estado a indígenas e quilombolas, pois são “terras ricas em depósitos minerais” ou que podem ser “utilizadas para o agronegócio”. De um modo muito estranho, vemos a mesma pessoa entoando um discurso denominado Cristão e também defendendo os interesses capitalistas mais cruéis. Como se uma coisa e outra fossem semelhantes, mas não são.

Davi, que era o melhor dos homens segundo Deus, fez questão de pagar pelas terras de Araúna, o jebuseu, onde ofereceria sacrifícios ao Senhor, mesmo sendo por direito senhor daquelas terras e do próprio Araúna (2ª Samuel 24.18-25). Jesus se negou a comer no deserto (Lucas 4.2-4), recusou a promessa de governar todo o mundo (Lucas 4.5-8), distribuiu alimentos (Mateus 14.16-21) e curas sem ganhar nada físico com isso. Ele ainda exaltou a doação da viúva pobre, por menor que fosse, devido ao significado daquilo para ela mesma (Marcos 12.41-44). E, por fim, horrorizou os fariseus ao curar pessoas (Lucas 13.14-16) e instruir que seus discípulos colhessem trigo no sábado, a fim de não passarem fome (Lucas 6.1-4). “Apesar da história”, e da expressão “Reino de Deus” largamente utilizada no Novo Testamento, o Cristianismo nunca teve bases muito compatíveis com os governos centralizadores de qualquer tipo, por pregar valores como humildade e igualdade entre os homens. Duvido muito que Jesus, enquanto governante, expulsasse pessoas de suas terras ancestrais porque tais terras possuem um bom valor comercial.

POBRES E EXCLUÍDOS

Que haja Cristãos escolhendo presidenciáveis da extrema direita, ultra-radicais e beirando o Fascismo² em suas falas é, sem sombra de dúvidas, uma desonestidade intelectual. Além da distorção/inversão de princípios bíblicos, os princípios de retidão moral exaltados por eles são tão semelhantes ao farisaísmo rigorista e sectário que assustam. São ideias bem contrárias ao que de melhor já aconteceu no Cristianismo, como o movimento dos Franciscanos no séc. 13 e o Concílio Vaticano II, nos anos 1960, para que a Igreja se posicionasse em favor dos pobres que não podem recorrer a seus governos. Bem pouco tempo atrás, a reforma trabalhista aprovada trouxe grandes prejuízos e retrocessos para os trabalhadores, naturalizando as desigualdades, produzindo baixos salários, alta rotatividade de empregados e informalidade. Mesmo o papa Bento XVI, religioso direitista da Igreja Católica, escreveu em sua Carta Encíclica Caritas in Veritate: “infelizmente a corrupção e a ilegalidade estão presentes no comportamento dos sujeitos sociais e políticos dos países ricos, antigos e novos, como nos próprios países pobres. No número de quantos não respeitem os direitos humanos dos trabalhadores, contam-se, às vezes, grandes empresas transnacionais e também grupos de produção local”.

Aqui, a Comissão Nacional dos Bispos do Brasil produziu documentos onde se lê claramente que “as injustiças, as desigualdades excessivas e ordem econômica ou social, a inveja, a desconfiança e o orgulho que grassam entre os homens e as nações ameaçam sem cessar a paz e causam as guerras. Tudo o que for feito para vencer essas desordens contribui para edificar a paz e evitar a guerra” ... “a atuação cristã dos leigos no social e no político não deve ser considerada ministério, mas serviço cristão ao mundo na perspectiva do Reino” ... “a participação consciente e decisiva dos cristãos em movimentos sociais, entidades de classe (sindicatos), partidos políticos, conselhos de políticas públicas e outros, sempre à luz da Doutrina Social da Igreja, constitui-se num inestimável serviço à humanidade e é parte integrante da missão de todo o povo de Deus”. Quão longe essas linhas da V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe de 2007 estão do posicionamento supostamente Cristão da extrema direita!

Para Jair Bolsonaro, a demarcação de terras indígenas, dentre outras demandas, não passa de uma besteira inventada e utilizada como massa de manobra pela “esquerda” para desperdiçar dinheiro com a Fundação Nacional do Índio (Funai). Entre suas ideias estão, ainda, o fim de medidas como as Cotas Raciais destinadas e equilibrar a desigualdade produzida desde a Abolição entre brancos e negros quanto à Educação Superior, medida que foi amplamente apoiada pela Igreja em nome das pessoas feitas à imagem e semelhança de Deus. A Igreja se fez finalmente solidária aos afro-americanos nas reivindicações pelas defesas de seus territórios, direitos e consciência de negritude, por isso é totalmente incoerente que se justifique - a não ser pelos interesses mais capitalistas - o apoio de medidas em contrário. Há até quem chame seu grupo de bancada BBB, iniciais de Bala-Boi-Bíblia.

POSICIONAMENTOS

Entre as medidas propagandistas de Jair Bolsonaro estão a ampla reprodução de textos e “curtidas digitais” por redes de celulares operados remotamente, a fim de criar uma falsa publicidade; estão também a exposição de “testemunhos” de simpatizantes que sequer moram no Brasil, além da completa distorção dos resultados de entrevistas em telejornais. Em suma, tudo vale pela popularidade, que é na verdade uma mentira, assim como a Cristandade declarada aos quatro ventos. Se é assustador que pessoas comuns pensem em apoiar as ideias dele no séc. 21, após conhecermos os horrores da Guerras e da perseguição escancarada de minorias pelo Estado, após termos vivido pesadelos nas mãos truculentas de militares, é mais pavoroso ainda que justamente Cristãos pensem assim.

------------------------------------------

¹ O Socialismo, em sua origem, significava o Estado como proprietário de tudo dentro de um país. Isto é, a minha casa, o meu carro, até os meus móveis e o lugar onde trabalho são patrimônio público e, claro, todos são funcionários públicos. Ao invés de comprar com meu salário a minha comida, a minha educação, a minha saúde e os meus bens, todos eles são fornecidos "gratuitamente" pelo Estado, em troca da minha força de trabalho no emprego que eu não escolhi, mas me foi designado segundo as necessidades do Estado. O conceito de desemprego não existe, numa economia socialista. A proposição original teria como resultado o fim das desigualdades sociais, pois tanto o trabalhador mais braçal como o mais técnico praticamente não recebem salários. Na prática, os países que assumiram o Socialismo como modelo econômico (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, China, Cuba, Vietnã, Coréia do Norte) tiveram de usar estratégias militares para impedir as pessoas de possuírem bens, além de enriquecerem a classe dominante - no caso, o Partido Comunista - enquanto a população foi mantida pobre e alheia de qualquer decisão política. A URSS investiu dinheiro demais em armamentos e entrou a em colapso econômico, fragmentando-se em 1991. O Vietnã foi ocupado pelas forças armadas estadounidenses em 1975. Cuba foi isolada do comércio internacional por imposição dos EUA, desde 1960. A China e a Coréia do Norte se mantém graças a exploração de mão de obra (pois tais países não reconhecem legislações trabalhistas) e regimes militares bastante restritivos.

² Fascismo é uma palavra italiana, derivada de fascio ou feixe, sendo mais conhecido pelo seu nome alemão: Nazismo. O Fascismo surgiu quase conjuntamente com o Socialismo, supostamente sendo uma derivação deste. Tal regime propunha um controle absoluto do Estado sobre os indivíduos, ao invés de absorver todas as propriedades. Assim, nos regimes Fascistas (Alemanha, Itália, Japão e o Brasil bem que tentou, nos anos 1940) ficavam mantidas as propriedades de cada um, mas o Estado podia permitir ou proibir qualquer coisa para qualquer pessoa. Obviamente isso requer estratégias militares de controle. Em geral, tais países retiraram todo o patrimônio e direito de minorias (ex. negros, judeus, muçulmanos) para direcioná-los aos industriais mais ricos, que também podiam usar e abusar dessas minorias como mão de obra "escrava". Todos os governos fascistas tiveram como característica a substituição completa de rádio, TV, jornais, etc pela propaganda do sucesso e força estatais. O controle do Estado sobre os indivíduos chegava ao ponto de o Estado determinar quem teria filhos com quem, de forma a priorizar os indivíduos "mais bem capacitados" na sua população. O Brasil foi impedido de seguir sua trajetória fascista por intervenção militar dos EUA. A Alemanha, Itália e Japão foram, um a um, derrotados durante a 2ª Guerra Mundial.

------------------------------------------

#ELENÃO LEU

Alessi G, Estatuto do Desarmamento salvou 160.000 vidas, calcula estudo, brasil.elpais.com, 15mai2015
Bento XVI, Carta Encíclica Caritas in Veritate, http://w2.vatican.va, 29jun2009
Boff L, Um problema nunca resolvido: o sofrimento dos inocentes, leonardoboff.wordpress.com, 14set2018
Conferência Nacional do Bispos do Brasil (CNBB), V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, mai2007
Lacerda M, A “URSAL” é uma síntese do pensamento de extrema-direita no Brasil, pragmatismopolitico.com.br, 14ago2018
Marciano C, Reflexões sobre a exaltação bíblica no 2º debate presidencial, pragmatismopolitico.com.br, 27ago2018
Rocha BL, Bolsonaro e as forças armadas - a desastrosa imagem associada, revista IHU online, 13ago2018

terça-feira, 3 de junho de 2014

Desigrejando a fé

Uma das estranhas virtudes da vida cristã é a Salvação, significando primeiro que, ao morrer, você não habitará com o Diabo e seus comparsas; e segundo, significa que você é, aqui e agora, autorizado pelo Altíssimo para representá-Lo.

A primeira parte, bem interessante, quebra via contrato toda lei de causa e consequência. Você nasceu pecador, mas não vai para o inferno. Você não tem Deus como seu principal pensamento, mas será perdoado. Você desdenha o seu próximo (afinal, ele que busque a Deus), mas tudo certo. Você não vende tudo o que tem para sair a divulgar o reino de Deus, mas quem faria isso? Você não dedica seu tempo e esforços (e principalmente seus dividendos) a cuidar dos mais necessitados, mas afinal o que é que você está insinuando? O que você faz é comparecer à igreja, frequentar os grupos da igreja, tratar bem o(s) líder(es) da igreja. Seu contrato, se existe um, é com a igreja. E pode ser inclusive desfeito e mudado para um concorrente, caso a Salvação oferecida ali seja melhor e mais barata.

Nesse ponto você talvez pare de ler e pense: não, meu contrato é com Jesus. Ele, embora tenha prometido o Reino e Sua morada aos homens desse mundo, malemá prometeu isso nominalmente aos 12 que o seguiam e a um que arrebanhou na cruz. Aos 12, além disso, prometeu perseguição.

Mais uma vez, Jesus lhes disse: "Eu vou embora, e vocês procurarão por mim, e morrerão em seus pecados. Para onde vou, vocês não podem ir" ... "Vocês são daqui de baixo; eu sou lá de cima. Vocês são deste mundo; eu não sou deste mundo. Eu lhes disse que vocês morrerão em seus pecados. Se vocês não crerem que Eu Sou, de fato morrerão em seus pecados". (João 8.21-24) [falando aos Fariseus]

“Eu vim do Pai e entrei no mundo; agora deixo o mundo e volto para o Pai … Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo". (João 16.28-33) [falando aos discípulos]

Em outra ocasião, Jesus avisou que nem todo aquele que diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, reservando isso apenas aqueles que fazem a vontade do Pai (Mateus 7.21). Trata-se de um contrato de libertação na verdade com muitas cláusulas de exclusão. Especialmente porque amar a Deus e ao próximo não é coisa que a que sejamos ensinados ou pelas quais as pessoas nos recompensem. Na prática, significa abdicar de conforto, admiração e até respeito dos demais (o tal Mundo ao qual Jesus se referia). Mas sobretudo não há sequer uma ação única que Jesus atribua aos homens que possa os salvar; ao invés disso, ele sabiamente empunha que a condição “simples” para isso é crer Nele e fazer a sua vontade … não agora, nem ontem, mas todo o tempo. Simples? Eu diria que não: tomando Jesus por exemplo, significa abandonar toda e qualquer pretensão de sucesso social, levar amparo aos necessitados, se desfazer de tudo o que você tenha e seu próximo não e tomar até seu pior oponente por amigo, confiando que se há alguma justiça, ela será feita por Deus. Quem topa? Quem faz isso?

O segundo pilar da vida religiosa é talvez ainda mais notório. Ele coloca sobre os crentes (na igreja) a possibilidade de representar Deus. Isso poderia te dar a responsabilidade por todas as ocorrências boas e nefastas, farturas e pestes no mundo. Poderia também te capacitar a fazer as pessoas amarem, ou dar fé para quem só tem isso. Poderia te colocar como poderoso vingador dos oprimidos, libertador das nações e nomeador dos césares e pilatos do mundo. Mas, ao invés disso, parece simplesmente te dar o direito de supervisionar e punir quem não se enquadra numa listinha escrita (ou não) de regras sociais: que roupas usar, que palavras falar, que músicas ouvir, que alimentos comer, etc. E, como bom representante da direção divina no baixo clero, lhe caberia também punir os infratores, denunciá-los à santíssima congregação ou até ao venerável líder. Se Ele quiser levar ao Senhor isso, que o faça, e você certamente poderá apontar as desgraças de quem concede a Graça na vida do subversivo infrator.

Pois posso testemunhar que eles [os israelitas] têm zelo por Deus, mas o seu zelo não se baseia no conhecimento. Porquanto, ignorando a justiça que vem de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se submeteram à justiça de Deus. (Romanos 10.1-3)

Meus amados irmãos, tenham isto em mente: Sejam todos prontos para ouvir, tardios para falar e tardios para irar-se, pois a ira do homem não produz a justiça de Deus. (Tiago 1.19-20)

Lembremos, nós cristãos puríssimos e santificados pela igreja, que os açoites que Jesus recebeu foram por pedido e mérito do Sinédrio, o seleto grupo de sábios e santos sacerdotes judeus. Já dizia o profeta Isaías que o fruto da justiça é paz, tranqüilidade e confiança (Isaías 32.17). Bem o que se deu com o Sinédrio, e o que se dá em todas as relações onde um cristão aplica a justiça e chega para representar o justo Deus. Não?!

---------------------------

PS: só um desabafo

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A família de Jesus- ESTUDO BÍBLICO



Esse é um estudo que muitos devem conhecer dos nossos domingões de manhã. Estou colocando-o por escrito para que possa se espalhar. Trata-se de um estudo sobre valores familiares que podemos aprender da família onde Jesus cresceu.

Lc 2.1. Ora, todos os anos iam seus pais a Jerusalém à festa da páscoa. E, tendo ele já doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume do dia da festa.

A Páscoa é um dia especial para os judeus, a lembrança do dia em que foram tirados do Egito mediante o auxílio divino, segundo a promessa de Deus:

Ex 3.16. O SENHOR Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, me apareceu, dizendo: Certamente vos tenho visitado e visto o que vos é feito no Egito. Portanto eu disse: Far-vos-ei subir da aflição do Egito à terra do cananeu, do heteu, do amorreu, do perizeu, do heveu e do jebuseu, a uma terra que mana leite e mel.

Jesus não veio ao mundo em uma família qualquer, mas uma que pudesse lhe ensinar bons valores e garantir que ele chegasse como alguém correto à idade adulta, quando se iniciaria Seu ministério. Não foi portanto preparada uma família qualquer, mas uma que seguisse os valores ensinados ao povo judeu. Eles participavam dos eventos cívicos do seu povo, iam junto ao povo para a festa de agradecimento ao Senhor. Essa vida em comunidade, hoje tão prejudicada principalmente nas cidades, cria valores fortes nas crianças e nos jovens. Fazer parte de um grupo ensina a dedicar-se ao grupo, e nesse caso trata-se de um grupo agradecido a Deus pelo que lhes fizera no passado.

Viajar em caravanas para Jerusalém significava abandonar o ofício, gastar as economia de uma família pobre para homenagear a Deus no Templo. Tal devoção é um exemplo para os jovens, incute valores na sua formação que não se apagam.

Lc 2.43-45. E, regressando eles, terminados aqueles dias, ficou o menino Jesus em Jerusalém, e não o soube José, nem sua mãe. Pensando, porém, eles que viria de companhia pelo caminho, andaram caminho de um dia, e procuravam-no entre os parentes e conhecidos; E, como o não encontrassem, voltaram a Jerusalém em busca dele.

Eis algo pouco explorado: um Jesus desobediente. Não temos indício algum sobre o motivo da permanência Dele na cidade, quando todo o seu grupo partiu. Jesus já havia atingido a maioridade segundo os costumes judeus, e portanto agora poderia participar das discussões dos adultos, poderia ser ouvido. Em uma de suas primeiras ações como adulto, ele deixa o grupo partir sem ele. Os pais, curiosamente, demoraram 1 dia a descobrir que seu filho estava sumido. Descuido? Pela atenção dirigida a Jesus em outras passagens, podemos supor que não.

Havia muita gente voltando de Jerusalém após a Páscoa. De certa forma, os pais de Jesus, inseridos naquele grupo, sabiam que seu filho seria cuidado onde quer que estivesse. Alguns de nós talvez tenham tido a oportunidade de participar de comunidades assim, onde as crianças realmente não têm uma única casa e passam muito tempo indo nas casas uns dos outros. Em todos os lugares, há quem cuide delas e quem lhes preste atenção. E, melhor ainda, elas são desde cedo ensinadas a conseguir o necessário para sua sobrevivência. Quando muito tempo se passou, Maria e José foram procurar o filho entre os parentes e conhecidos, onde ele provavelmente estaria. A preocupação da família realmente apareceu quando não o encontraram entre o seu grupo e voltaram a Jerusalém, de onde haviam partido.

Por um lado, os pais tinham a segurança de que Jesus estaria bem, mesmo longe dele. Por outro lado, isso é muito diferente de ter indiferença pelo filho.Faz parte do ofício dos pais cuidar de quem OS SUCEDERÁ. Quando Jesus demorou a aparecer, os pais foram à sua procura.

Lc 2.46-47. E aconteceu que, passados três dias, o acharam no templo, assentado no meio dos doutores, ouvindo-os, e interrogando-os. E todos os que o ouviam admiravam a sua inteligência e respostas.

Nenhum texto bíblico sugere que Jesus tivesse manifestado seu conhecimento da Lei quando criança, ou seja, que Ele possuísse um conhecimento inato dos profetas. Mesmo assim, Ele era capaz de discutir com os doutores da Lei, o que indicava sua erudição. Faz parte dos atributos da família ensinar valores aos filhos, instruí-los em costumes e saberes, e muito desse conhecimento Jesus teria aprendido com seus pais, que já haviam sido visitados por anjos ou em sonhos (Lc 1).

E quando o viram, maravilharam-se, e disse-lhe sua mãe: Filho, por que fizeste assim para conosco? Eis que teu pai e eu ansiosos te procurávamos. E ele lhes disse: Por que é que me procuráveis? Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai? E eles não compreenderam as palavras que lhes dizia.

Lc 2:41-51. E desceu com eles, e foi para Nazaré, e era-lhes sujeito. E sua mãe guardava no seu coração todas estas coisas.

É interessante que, hoje, provavelmente uma mãe agiria com repreensão muito mais violenta com o filho, numa situação semelhante. Lucas não relata sequer uma palavra dita por José, mas relata Maria interrogando repreensivamente o filho. O jovem Jesus, ao invés de intimidar-se com a mãe aparecendo a sua procura 3 dias depois de verem-se pela última vez, confrontou ela com a pergunta “Por que é que me procuráveis? Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?”. Essa é uma frase chave nesse versículo, pois expõe a natureza divina de Jesus como sendo mais importante que as regras a que os homens (e especialmente os filhos) estão sujeitos. Ele viria mais tarde a confirmar esse ensino, confrontando o legalismo dos fariseus. Essa frase de Jesus também colocava em xeque a paternidade de José, o que talvez o tivesse machucado um tanto como homem. Apesar da referência de Jesus a sua paternidade divina, o trecho mostra um confronto bem humano de idéias, e também uma liberdade singular para que cada pessoa da família exponha suas razões pessoais, ao final do qual Jesus retorna com os pais a Nazaré. Apesar do confronto, o problema foi resolvido e houve submissão pacífica do filho aos pais.

A falta dessa liberdade de diálogo dentro da família é, muitas vezes, a causa de profundos conflitos e mágoas. Os filhos são ensinados a amar e tomar como exemplo os pais, dos quais muitas vezes conhecem pouco demais. Os pais não se justificam aos filhos, os filhos não acham que devem justificativa aos pais, e a família se torna uma casa habitada por pessoas estranhas umas às outras. Conflitos são inevitáveis, especialmente quando a situação de algum dos membros está mal definida (ex. adolescência: criança com obrigações ou adulto com responsabilidades?), mas é preciso que os embates sejam fonte de crescimento e começo de uma nova harmonia. Três fases críticas do desenvolvimento de uma pessoa são o fim da 1ª infância, quando a criança descobre como se comunicar; a adolescência, quando ela se descobre com habilidades de adulto e inserida numa sociedade; e a velhice, quando ela se vê incapacitada pela idade. Nessas três fases, o diálogo e o entendimento precisam ser reforçados, caso contrário as pessoas se afastarão da família.

No diálogo que Lucas narra entre Maria e Jesus, algo também é importante: há um ataque de Maria à ação de Jesus - ter deixado o grupo - mas não à sua pessoa. Muitas vezes, quando as pessoas se confrontam (e isso é freqüente) elas atacam a natureza ou a identidade umas das outras. A identidade dos homens pessoas não é responsabilidade humana, NEM DA PRÓPRIA PESSOA. Cuidar dessa identidade é obra do Senhor e, ao atacar a pessoa que Ele fez, atacamos Sua obra (Is 46). As pessoas fazem coisas erradas, e essa responsabilidade é delas. Podemos questionar, elogiar ou até atacar as ações de alguém, mas nunca sua identidade. Não podemos mudá-la e, fazendo isso, além de ofender o Criador de você e dela mesma, você lhe imputará uma culpa da qual ela mesma não poderá se livrar jamais.

Lc 2:52. E crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus e os homens.

Sabedoria, estatura e graça. Tratam-se dos aspectos intelectual (pois a Bíblia exalta o valor da sabedoria - ver Pv 8), físico (seu crescimento mostrava que Ele era saudável) e espiritual (ao crescer em graça, Jesus cada vez mais revelava aspectos de Deus em sua vida). Este tripé é necessário ao bom desenvolvimento de uma pessoas, sem excessos ou carência em nenhum dos lados.

A sabedoria foi o presente pedido a Deus por Salomão, e o próprio Deus elogiou essa escolha, pois ela levaria ao bom resultado de suas ações (1Rs 3).

Hoje, talvez nos seja de pouco valor pedir crescimento físico a Deus. Boa parte do mundo (ou pelo menos a maior parte que tem acesso a internet) tem um desenvolvimento saudável. No entanto, muita gente no passado (e também hoje, embora façamos o possível para não vê-los ou saber deles) vivia à margem da sobrevivência. Eles lutavam FISICAMENTE contra doenças (sem noções básicas de higiene e sem medicamentos eficientes) que iam de parasitoses a lepra e também contra a desnutrição*. Muitas vezes, e sem ignorar a realidade disso, as moléstias e a fome eram vistas com conseqüência do desrespeito aos Senhor. Assim, o bom desenvolvimento físico era o resultado de agradar a Deus.

O crescimento espiritual pressupõe aumentar a fé de um homem e realizar em sua vida o propósito que Deus (atenção: não a própria pessoa) tem para ele. Esse crescimento levaria Jesus, mais tarde, ao batismo, à tentação no deserto e ao ensino no meio do povo de uma sabedoria que mesclava os conhecimentos sociais dele mesmo e de sua natureza divina. As parábolas empregadas por Jesus (os próprios cristãos depois foram chamados de Parabolanos) refletiam esse conhecimento social, que lhe dava as ferramentas para ensinar ao povo humilde lições sobre o Reino de Deus. Quando esse conhecimento social falta aos cristãos, ficamos incapazes de nos comunicar adequadamente com as pessoas que queremos atingir. A sabedoria espiritual sobre o Reino precisa ser traduzida no modo de vida das pessoas, ou torna-se uma “videira sem frutos”. Esse é o tema do livro de Tiago.

Assim como Jesus crescia perante os homens, Ele crescia perante Deus. Isso reflete outra necessidade no modo de vida cristão: precisamos agradar a Deus primeiro e aos homens depois. Agradar apenas a Deus faz com que as pessoas não nos queiram como exemplo e levantem barreiras contra o que desejamos dizer a elas. Agradar apenas aos homens, por outro lado, nos coloca como servos de um mundo que não é o Reino de Deus. Os homens têm o mal na sua natureza e, se deixarmos, isso nos afastará do Senhor como dez com os judeus quando adoraram ao velho deus egípcio Apis assim que Moisés se separou deles, indo ao monte em busca da sabedoria divina. É preciso que sejamos agradáveis aos dois lados, pois Jesus orou pedindo ao Pai “Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal” (Jo 17.15). Somos obreiros de Deus NO MUNDO, não fora dele.

-------------------------------------
* Na verdade, os textos que hoje estão na Bíblia continham muitas orientações de saúde e nutrição aos judeus, dadas como sabedoria pelo próprio Deus. Eu prepararei um material sobre isso, a ser postado futuramente. Aguarde. Agora é de verdade.