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sexta-feira, 2 de novembro de 2018

A política da Igreja

Templo de Salomão (esq.) construído pela Igreja Universal do Reino de Deus em São Paulo, 2014. Interior revestido em ouro da Igreja de São Francisco da Penitência (dir.), construída pela Igreja Católica no Rio de Janeiro, 1773.

Com a turbulência das últimas eleições no Brasil, algumas questões para além da política afloraram no país. Primeiro, a credibilidade dada pelos brasileiros para fontes pouco confiáveis de informação. Segundo, a ignorância quase completa dos eleitores acerca de termos como “direita” e “esquerda” usados na política. Terceiro, o posicionamento político da igreja, que é o que finalmente nos importa aqui.

CREDIBILIDADE

Obviamente, é trabalhoso conferir cada informação sobre a qual falamos e sobre o que ouvimos. Por isso, a todo tempo emprestamos Credibilidade a conteúdos imaginários, literalmente apostando que podemos confiar neles. Quando nos sentamos numa cadeira, por exemplo, estamos certos de não passar através dela; ninguém confere isso. E, antes que você grite que é impossível, devo lembrar-lhe que você acredita em um homem detentor de todo conhecimento, pré-existente antes de nascer, previsto séculos antes por profecias, que morreu e voltou à vida; mais fácil seria acreditar em uma cadeira se desmaterializando. Mesmo quando falamos, evocamos lembranças de nosso aprendizado que são re-escritas a cada lembradas; portanto, a chance de falarmos errado sobre algo mais antigo é imensa. E são justamente essas lembranças antigas nas quais mais confiamos.

Existem muitos fatores associados à credibilidade emprestada às informações. Um deles é sua relação com nossos conhecimentos prévios. Você não acredita em cadeiras se desvanescendo porque nunca viu isso acontecer. Mas acredita que fritar pele de porco produz algo bom (torresmo); essa está entre as comidas consideradas mais bizarras no mundo. Em outras palavras, as coisas são mais “acreditáveis” quanto mais próximas forem das suas experiências, da sua forma de pensar. E como cada um de nós cerca-se de pessoas com personalidades, cultura e até idade semelhantes, acabamos criando ao nosso redor uma espécie de “bolha”. Ali, quase só existem produtores de informação com conteúdos que conhecemos, que são semelhantes a nós mesmos. Cada um de nós faz parte dessa “bolha”. Certos cientistas sociais até brincam com isso. Quem se lembra daquele reality-show “Troca de família”, produzido pela TV estadounidense Fox e veiculado pela Record? O programa consistia em filmar os conflitos produzidos quando donas-de-casa eram levadas a morar por alguns dias em famílias distantes das suas, com outra cultura, outros valores.

Levando esse pensamento para o lado jornalístico, os meios de comunicação têm seus vieses de escolher essa ou aquela notícia como mais importante. Mas o que nós escolhemos assistir ou ler? Há uma decisão prévia quanto aos conteúdos. Escolhemos aquilo em empenhamos credibilidade. E hoje, com a velocidade das redes sociais, repassamos informações que nos parecem confiáveis; que fortalecem a nossa bolha. Nas últimas eleições brasileiras, empresas de produção de conteúdo descobriram esse nicho, essa forma de ganhar dinheiro. Sabe-se desse mecanismo alterando os resultados das eleições desde 2009 na Austrália, mas a partir de 2015 ele tem ganhado força em diversas partes do mundo, às vezes produzindo sérios conflitos étnicos como em Myanmar/2015. Basicamente, empresas foram pagas para prejudicar a imagem pública de candidatos. Houve uma fartura de notícias errôneas, pela metade, repassadas por pessoas que não tinham nada a ganhar financeiramente com isso. E criou-se um grande caldo de informações frágeis, incompletas, falsas.

O tolo não tem prazer na sabedoria, mas só em que se manifeste aquilo que agrada o seu coração. (Provérbios 18.2); Tens visto o homem que é sábio a seus próprios olhos? Pode-se esperar mais do tolo do que dele. (Provérbios 26.12); O tolo revela todo o seu pensamento, mas o sábio o guarda até o fim. (Provérbios 29.11)

Esses trechos do Livro de Provérbios, de aprox. 1000 a.C., dão uma amostra de que a disseminação de informações errôneas é muito antiga. Esse disseminador mentiroso, que o livro nomeia repetidamente como “tolo”, não é alguém que fica calado. Pelo contrário, o tolo espalha suas mentiras aos 4 ventos, sem saber que são mentiras, porque elas lhe agradam o coração. Infelizmente, a disseminação de mentiras eleitorais e seu forte impacto sobre várias eleições no mundo mostra, sem muita contestação, que somos uma dentre várias nações de tolos que foram usados pelo poder de políticos endinheirados.

Mas um outro fato importante na credibilidade é a origem da informação. Elegemos líderes para que eles produzam informação confiável, porque lhes atribuímos mais credibilidade do que aos outros. No entanto, tanto líderes podem mentir (voluntariamente ou não) quanto veículos de informação. Uma vez que os veículos de informação não são eleitos (mas a busca deles é voluntária) e os materiais que veiculam são registrados, não é difícil medir o quanto cada um mente. Em sua campanha presidencial, o então candidato Donald Trump foi questionado por um jornalista quanto ao grande nº de informações falsas que ele proferia em seus discursos. A resposta de Trump foi “Eu minto, mas as pessoas concordam comigo”. Os EUA também foram vítima das empresas divulgadoras de mentiras, e Trump se beneficiou delas porque alimentavam sua bolha, davam energia a cada um que concordava com suas estórias. No fim das contas, as mentiras partiram de alguém intencionado e alimentaram a mente dos tolos, que as espalharam; o que mostra que é possível produzir poder e governo a partir de falsidades. Sem mencionar o fato de ser um candidato Cristão à presidência dos EUA, Trump nos ensina que a fé pode ser simplesmente um jogo de oportunismos. Lembremos que, nas vésperas de uma Páscoa há muito tempo atrás, os judeus escolheram matar Jesus e soltar Barrabás.

Nos meios de comunicação, onde há menos poderes políticos envolvidos, ocorrem também certas bolhas. Há veículos como Facebook, Whatsapp, sites particulares e “revistas de fofoca” que não assumem qualquer responsabilidade pelo que disseminam. Uma publicação recente da organização Ipsos de pesquisa social avaliou o quanto as pessoas sentem-se expostas a informações falsas. Entre 30% (Alemanha), 73% (Brasil) e 82% (Argentina) das pessoas acreditam ser alvo de mentiras produzidas por organizações. Entre 29% (Itália) e 62% (Brasil) dos entrevistados relata já ter sido vítima disso. Entre 66% (Sérvia), 25% (Brasil) e 18% (Itália) das pessoas atribuem tais mentiras a políticos. Em outras palavras, poucos brasileiros sentem-se vítimas de informações falsas divulgadas com fins eleitorais; a maioria as atribuem a organizações/empresas com as quais têm algum contato.

Mas há veículos conhecidos pela sua reputação de transparência, riqueza de conteúdo e análise crítica. Entre esses, aparecem nomes como Le Monde Diplomatique, Piauí e Carta Capital que propositalmente fazem análises “esquerdistas”. Há aqueles como Veja, Estado de São Paulo (antes neutro), Folha de São Paulo e O Globo que propositalmente trazem análises “direitistas”. E há aqueles mais ou menos neutros, como The New York Times, British Broadcasting Corporation (BBC), The Economist e El País (se você não conhece vários desses nomes, sinta-se muito mal informado). A credibilidade desses meios se dá em nível de qualidade, mas evidentemente, cada pessoa seleciona seus próprios veículos em quem deposita confiança. Vendo a influência que notícias fabricadas tiveram em vários países, incluindo o Brasil, está óbvio que a maioria de nós deposita sua confiança nos piores veículos e sim, somos vítimas de políticos oportunistas. Como se diz, “é melhor não ter nenhuma fonte do que ter apenas uma”.

ESQUERDA E DIREITA

O desconhecimento dos brasileiros sobre esquemas políticos ficou claro na última eleição, quando pouquíssimas pessoas entrevistadas foram capazes de sequer citar as propostas de seu candidato. Mesmo assim, de forma geral as populações mais pobres se aliaram ao candidato de Esquerda e as mais afortunadas ao candidato de Direita. Isso geograficamente falando. Em cada local, fossem pobres ou ricos, as bolhas de disseminação de informações produziram maiorias esmagadoras de preferência que incluíam tanto pobres quanto ricos.

Esquerda e Direita são nomes que se originaram no Parlamento francês antes da Revolução de 1789, que propagou ao mundo todo a luta de classes. Os parlamentares sentados à esquerda da tribuna defendiam leis voltadas aos comerciantes, assim como a não influência da Igreja sobre o Estado. Os parlamentares do lado direito defendiam privilégios sociais (uma classe de nobres poderosos para decidir tudo), assim como a autoridade do Papa sobre o governo. Embora muito tenha mudado desde então, hoje temos Comunistas (extrema esquerda, defendendo um Estado que distribua igualmente a renda), Esquerdistas (defensores de leis protegendo os trabalhadores), Direitistas (favoráveis à livre concorrência entre as pessoas por ganhos, pois as diferenças sociais seriam evolutivamente saudáveis) e Fascistas (extrema direita, pregando ações do estado para garantir o lucro dos grandes empresários). No Brasil, pelo menos, existe um Centro que se afilia aqui ou acolá de acordo com os interesses pessoais e imediatos.

Políticos e legisladores acreditam na forma "esquerdista" ou "direitista" de administrar as finanças do Estado. Os partidários da linha Esquerda se embasam muito nos trabalhos do filósofo, sociólogo e jornalista Karl Marx. Este acreditava em uma luta perene de classes econômicas com interesses conflitantes: os trabalhadores e os empresários. Aos trabalhadores interessa maiores salários, mas isso reduz os lucros do empresário. Por outro lado, são os trabalhadores que consomem a produção das empresas, que fazem o dinheiro circular, e então é importante que tenham meios de consumir. Por isso, Marx acreditava que a melhor administração econômica se daria com uma diferença tênue de ganho entre empresário e trabalhadores, o que é contrário aos interesses dos empresários. Caberia ao Estado aliar-se com os trabalhadores e ditar leis que favorecessem essa equidade, contra as pretensões naturais dos mais ricos. Alguns governos adotaram o modelo de Marx. Na versão mais extrema, temos a antiga União Soviética, Cuba e China. Numa versão mais leve, França e Alemanha. Tais governos historicamente construíram legislações trabalhistas poderosas, com forte intervenção do governo no funcionamento das empresas, além de serviços públicos garantidos para todos. Embora os mais extremistas tenham recorrido à restrição militar do comportamento dos cidadãos (são os empresários que controlam suas empresas), outros menos radicais produziram sociedades pacíficas, produtivas e bastante igualitárias.

Os partidários da linha Direita se embasam no trabalho do economista e filósofo Adam Smith. Ele descreveu, bem antes de Marx, a presença de interesses distintos entre trabalhadores e empresários, ou mais especificamente entre pobres e ricos. Smith via nessa distinção de classes o motor da economia, isto é, o pacto entre trabalhadores e empresários se dava pelo interesse dos primeiros em receber dinheiro e a capacidade dos últimos em fornecer isso. Portanto, não era necessário que o Estado interviesse na economia. Mas como leis são importantes para manter a paz social, elas deveriam ser elaboradas pela classe com visão mais global dos assuntos, ou seja, os mais ricos. Além disso, Smith reconhecia que a Igreja era tanto um grande detentor de capital quanto um manipulador de opiniões, de forma que precisava estar atrelada ao governo. Alguns seguiram essa linha, como Inglaterra, EUA, Alemanha (até a 2ª Guerra), Itália e Japão (após a 1ª Guerra). São governos com pouco fornecimento de serviços ao cidadão (esses serviços são contratados como produtos de empresas), protecionismo às indústrias e liberalidade nos contratos de trabalho. Novamente, houve casos extremistas como os governos Nazistas/Fascistas que utilizaram as forças armadas para controlar os trabalhadores, mas também casos de elevado desenvolvimento industrial como nos EUA e Inglaterra, o que também proporciona fartura de empregos. Apesar disso, tais países são marcados pela desigualdade social e pode-se dizer que sua estabilidade política ocorre pela grande entrada de capital estrangeiro. Em épocas menos prósperas, a contenção dos desempregados se dá pelo clamor ao nacionalismo, à religião ou militarismo. Nos EUA dos anos 60-80, por exemplo, a perseguição aos Comunistas ocupou a mídia enquanto a economia estava seriamente danificada pelos gastos excessivos com no setor militar.

Esquerda e Direita são termos políticos relativos ao Capitalismo e, portanto, não há uma referência bíblica sobre eles. Sendo bastante criativos, podemos pensar em forças de Esquerda gerando igualdade social e influência popular, assim como as de Direita gerando privilégios e partindo dos governantes. As leis de Moisés foram poderosas igualadoras dos homens (e portanto são leis de Esquerda), mas também há a defesa de uma classe eleita para decidir sobre todos os assuntos, o que é uma prerrogativa da Direita. No Velho Testamento, inclusive, a estrutura político-religiosa dos judeus era composta pelos nobres e sacerdotes determinados pela descendência (Direita), mas também por profetas itinerantes capazes de destituir ou eleger reis. Esses profetas surgiam pelo reconhecimento popular de ações divinas e, assim, seriam uma força de Esquerda. No Novo Testamento, todo o funcionamento da Igreja é popular, com pouquíssima evidência de autoridades, sendo portanto uma igreja de Esquerda. Talvez o ápice dessa organização de Esquerda apareça no livro de Atos:

Todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um possuíam de melhor. Perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração. (Atos 2.44-46)

POSICIONAMENTO POLÍTICO DA IGREJA

A história do Cristianismo tem mudanças e misturas de posicionamentos; é importante lembrar essas mudanças para entender os rumos da Igreja. A partir de um movimento popular esquerdista começado por Jesus, a Igreja perseguida lentamente adquiriu aliados ricos e poderosos nos sécs. 1 a 3, a ponto de ser legalizada por Constantino I (313 d.C.), adotada por Theodosius I (391 d.C.) e se tornar a religião principal no lado oriental do Império, até o séc. 15. Em sua fase inicial, a Igreja era organizada por concílios entre as dioceses de Roma (capital antiga), Constantinopla (capital nova), Jerusalém (Judéia), Antioquia (Síria) e Alexandria (Egito). Nesse momento podemos pensar em uma estrutura esquerdista, em que a variedade de opiniões criava liberdades de culto. Com a fragmentação de Roma (final do séc. 5), a diocese de Roma passa a negociar com as famílias reais da Europa e assume uma posição direitista; Constantinopla assume a vinculação Igreja-Estado e as demais dioceses são destruídas pela expansão do Islã sobre o Oriente Médio e norte da África. É dessa forma que a Igreja entra na Idade Média: vinculada aos reinados do Ocidente (principalmente os Francos) e Oriente (Bizâncio), numa fase completamente direitista que chegou a seu apogeu durante o reinado de Carlos Magno (768-814 d.C.).

Um secto esquerdista da Igreja foi produzido no séc. 5 pela lenta adesão dos Scotts e Pictos do norte (sobretudo na Irlanda e Gales) ao Cristianismo, independentemente das administrações Cristãs, através de um urbanismo propagado pelos missionários. Tornar-se missionário era uma forma de pagar pecados e muito da cultura Cristã no norte foi produto dessa atividade, o que até resultou em algumas bizarrices como a inclusão de deuses vikings na descendência de Noé. A partir do séc. 8, Roma usou exércitos da Holanda e Bretanha para esmagar o Cristianismo esquerdista do norte (ver Cristãos do norte).

O aspecto direitista da Igreja significava apoiar e ser apoiada pelos nobres, além de constituir uma força de separação social (isto é, os pobres não tinham acesso à administração religiosa). As monarquias da Europa desde o séc. 10 criaram exércitos da Igreja como os Templários e Hospitalários (Jesus certamente não esperava essa), comandados por Roma e Constantinopla, para reconquistar as terras do Islã. Estar “a serviço de Deus” nas Cruzadas perdoraria tanto os pecados passados como atuais. No entanto, diversas vezes, uma diocese lançou seus exércitos sobre a outra, para saquear e enfraquecer o “rival”, até que em 1024 as duas Igrejas separaram-se em Católica (que significa “universal”, centrada em Roma) e Ortodoxa (que significa “correta”, centrada em Constantinopla). Os monges Beneditinos e Cistercianos, organizadores das cidades medievais, pregavam a pseudo-divindade dos nobres (retratados e enterrados nas igrejas, alguns até canonizados) e obediência dos pobres a esse sistema social.

No séc. 12, a Itália presenciou um renascimento das forças de Esquerda dentro da Igreja. Com isso estamos falando em comunidades não lideradas “de cima para baixo”, nem atreladas à realeza e suas riquezas, mas altamente entremeadas de elementos populares. Giovanni di Pietro di Bernardone, ordenado Francisco, abandonou as propriedades da família e constituiu a 1ª Ordem Mendicante, isto é, de religiosos devotados à pobreza. Lembrando, no Novo Testamento o cuidado com as riquezas é posto como barreira ou “espinhos” afastando o homem do contato com Deus. Desde os Franciscanos, que existem até hoje, houveram diversas outras ordens mendicantes, como os Cistercianos, Augustinianos, Carmelitos, Ambrosianos, etc. Alguns movimentos de Esquerda dentro da Igreja foram até punidos com sua conversão em Ordem Mendicante. Hoje, a tumba de Francisco é uma capela de ouro maciço dentro de uma catedral.. Com o enriquecimento das cidades da Holanda, França e norte da Itália no séc. 13, as forças de direita dentro da Igreja Ocidental a converteram em estrutura militar. A Inquisição delimitou o domínio sobre o povo e os nobres. Embora fosse propagandeada como uma “força purificadora” para retirar hereges de entre os Cristãos, a Inquisição se ocupou quase sempre de destituir terras, que eram repassadas a Roma. Os acusados-condenados eram invadidos, caçados, incendiados pelo exército religioso (novamente, fico pensando o que aquele Jesus escolhendo 12 discípulos dentre os mais diferentes possíveis pensaria disso). Várias vezes Roma lançou a Inquisição sobre reinos insubmissos usando acusações de heresia, magia negra e bruxaria.

A Idade Média terminou com a derrota do Islã na Europa e norte da África (1415) e, coincidentemente, a invasão de Constantinopla pelo Islã (1453). Os aprimoramentos navais dessas operações militares logo levaram às grandes navegações, com a invasão das costas Americana, Africana e Indiana nos sécs. 15 e 16. Interessava o poder e riqueza que os reis proporcionavam ao clero, por isso a Inquisição  logo chegou às colônias. Um movimento de Esquerda começou na Europa com a Reforma Protestante, a re-edição da Bíblia a partir de texto judaicos e a tradução da mesma para os idiomas falados (até então, todas as Bíblias estavam em latim). Mas a Reforma logo se converteu em movimento de Direita quando se aliou a monarquias em troca de poderio contra Roma.

Com a tomada de Constantinopla (1453) pelo Islã, fundando o Império Ottomano na atual Turquia, a Igreja Ortodoxa se submeteu ao governo islâmico e gozou de relativa liberdade, mas forçosamente foi convertida em uma organização de Esquerda que protegia ou instruía o povo, desprovida de poderes políticos ou dinheiro. Mais ao norte, os povos russos se converteram ao Cristianismo Ortodoxo e surgiu o reinado Cristão dos tzares (Bulgária) e czares (Rússia) (ambos são pronúncias de César, título dos imperadores romanos). Ainda no séc. 16 surgiu uma ordem liderada por Inácio de Loyola com a missão de educar e desenvolver/proteger os povos nativos, chamados de “novos Cristãos”. Os Jesuítas, como passaram a ser chamados os membros da Companhia de Jesus, eram religiosos com extenso conhecimento sócio-cultural e organizados de forma militar, mas com o propósito de gerar conversões voluntárias entre os governos pagãos. Foram bastante ativos na América, Índia e sudeste asiático. No entanto, quando a conversão e educação dos povos colonizados se opôs aos interesses escravistas das monarquias européias, a Igreja Católica retirou os Jesuítas de suas áreas, converteu-os em Ordem Mendicante, excomungou e até perseguiu muitos. Alguns acabaram queimados vivos como hereges.

O séc. 17 assistiu uma série de re-organizações na Europa. Os movimentos esquerdistas/republicanos se fortaleceram, enquanto os países se repartiam entre Catolicismo, Protestantismo e Anglicanismo (uma versão inglesa do Protestantismo atrelando a direção da Igreja ao rei). Na ausência de uma autoridade central dos Protestantes, esses naturalmente se alinharam com os republicanos. Uma parte desses revolucionários foi banida da Inglaterra, com liberdade para se assentarem em colônias como EUA (chamado então de Nova Inglaterra), Índia e Austrália. No séc. 18, tais grupos sem organização central fortaleceriam a derrubada das monarquias. Nos países Católicos, a Igreja produziu governos extremamente poderosos (pois os exércitos de Roma podiam ser convocados em casos de guerra), mas com dificuldade de administrar a mudança do trabalho rural para a vida urbana. Nas cidades, os esquemas de servidão não favoreciam comerciantes coloniais muito ricos e armados. Como se poderia esperar, o final do séc. 18 e início do séc. 19 foram marcados por movimentos esquerdistas, em que os Protestantes não deixaram de estar envolvidos, e que resultaram na substituição de várias nobrezas por presidentes e parlamentos.

As colônias também começaram a fazer tentativas de livrar-se dos europeus. Os governos Católicos saquearam e destruíram os governos das colônias. Noutras, as próprias colônias foram convertidas em reinos Católicos, mostrando a forte tendência direitista da Igreja. As colônias Protestantes enfrentaram guerras menores, que terminaram em acordos de mútuo reconhecimento e entrelaçamento comercial. A virada do séc. 19, entretanto, mostrou um afastamento entre a Igreja e os governos. Enquanto movimentos escravistas se fortaleciam duma economia que agora precisava de trabalhadores urbanos e não escravos, os Protestantes fizeram pouco ou nada para gerar mudanças políticas. Os Católicos não auxiliaram tampouco. Em todo mundo, houve um afastamento da religiosidade tradicional, abrindo caminho para novas práticas que consolassem escravos e pobres. As religiões de base Espírita ganharam força na Europa e América. No Brasil, as religiões Afro se organizaram. O Protestantismo então passou por reformas, dando origem aos Pentecostais. Na Igreja Ortodoxa, a sua auto-organização a tornou resistente às eventuais investidas de governantes islâmicos.

Assim, chegamos a um séc. 20 em que haviam movimentos de Esquerda e de Direita dentro das várias vertentes do Cristianismo. Os de Esquerda que mais se destacaram foram os avivamentos Protestantes nos EUA, Brasil e África Ocidental. Os de Direita foram a atuação Católica nos governos da América Latina e Europa. Em especial, as crises monetárias globais e as duas Guerras Mundiais atrelaram os Católicos com a Extrema Direita ou Fascismo, além de golpes militares. Alguns países enfraqueceram seus sistemas religiosos (a Igreja Ortodoxa, no caso da Rússia; o Catolicismo no caso de Cuba), outros fortaleceram o vínculo religião-política (o Catolicismo, no caso da América Latina, o Protestantismo, no caso dos EUA), outros fundiram elementos islâmicos e Cristãos (centro-sul da África), outros ainda separaram tanto quanto possível a Igreja e o Estado (Europa). De fato, nos tempos da União Soviética (1921-1991), o Estado fez o possível para eliminar todas as crenças religiosas, o que converteu a Igreja Ortodoxa a uma força de esquerda perseguida pela Extrema Esquerda, mantida às escondidas pelo povo. Com o fim da URSS, os países soviéticos passaram a exibir níveis variados de Cristianismo Ortodoxo, Judaísmo, Islamismo e Ateísmo.

A variedade pós-moderna do séc. 20 chegou mesmo a colocar partes de uma mesma igreja em franca oposição. Na 1ª metade do século, enquanto a Igreja Católica fomentava movimentos militares na Europa, o Brasil militar teve os serviços mais básicos como Educação e Saúde providos pela Igreja. Nos anos 1960, o Concílio Vaticano II inaugurou um secto de Esquerda dentro da Igreja Católica, que cresceu sob o nome de Teologia da Libertação. Esse ramo da Igreja Católica foi ativo nas ditaduras militares da América Latina, assim como em movimentos militares na Ásia, mas não como agentes dentro do governo. Sendo um ramo fortemente esquerdista, sua atividade foi sobretudo organizar ações de religiosos (Cristãos ou não) junto da população e longe dos olhos de Bispos e Cardeais, que representavam a força Direita da Igreja junto aos militares. O grupo punido e desligado da Igreja em 2005, após a posse de Bento XVI, mas ainda possui muitos membros em atividade na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e agindo como organizadores sociais independentes.

ATUALIDADE MESTIÇA

No Brasil, a partir do fim da Ditadura Militar (1985) estabeleceram-se denominações Protestantes de alto poderio econômico que atrelaram-se ao Estado como manipuladores eleitorais e investidores, mais poderosos que a Igreja Católica. Por isso, a última eleição (2018) trouxe à tona algo extremamente raro e improvável em outros tempos: Católicos agindo em favor da Esquerda trabalhadora/socialista e Protestantes agindo em favor da Direita empresarial/militar.

Como vimos, o engajamento político da Igreja tem já seus 1700 anos. No Brasil, presenciamos uma fase de transição: os Protestantes passam à Direita (o que significa que abandonam estruturas de proteção aos pobres e trabalhadores, em troca de concentração de renda e poder através do Estado) e os Católicos (pelo menos enquanto Francisco I governar) passam à Esquerda, agora talvez re-assumindo a missão dos Jesuítas pela organização de serviços sociais, como escolas, hospitais e agências de emprego. Atualmente, esses serviços da Igreja são caros (alguns são até luxuosos) e utilizados sobretudo pela população mais rica.

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LEIA DA ESQUERDA PARA A DIREITA

Adam Smith - wikipedia
Bolsonaro, sobre os bispos brasileiros: “eles são a parte podre da Igreja católica”, Revista do Instituto Humanitas Unisinos online, out/2018.
Fake news - wikipedia

domingo, 23 de setembro de 2018

O mito eleitoreiro

Em época de eleições, vemos candidatos divulgando idéias sobre as questões sociais que assolam o país (e também assolavam na eleição passada). Infelizmente, tem se cultivado entre os candidatos o hábito de deixar as exposições de ideias para aproveitar todo e qualquer momento de mídia repetindo um “monólogo de si próprio” indiferente a questionamentos e diálogos. Num debate recente na televisão, por exemplo, onde 8 candidatos estiveram presentes, pouco se disse além de promessas genéricas como apoiar saúde e educação (talvez os candidatos desconheçam a PEC 241 de 2016, limitando investimentos nessas áreas menos importantes) e combater a corrupção (que é atribuição da polícia).

Além dos ataques mútuos típicos dessa fase de batalha eleitoral, também têm chamado à atenção os episódios de exaltação Cristã. Afora as críticas (legítimas) sobre a influência religiosa em ideias para governar um Estado laico, é presumível que pessoas religiosas se guiem por diretrizes religiosas na tomada de decisões. O Brasil é um país de absoluta maioria Cristã e está claro que os candidatos pretendem estabelecer isso como vínculo com os eleitores. Mas vale muito a pena entender o que os candidatos querendo esse “voto Cristão” entendem, de fato, como sendo diretrizes Cristãs de funcionamento. A imensa variedade de cultos Cristãos apenas no Brasil já dá margem a múltiplos entendimentos do que “Cristão” pode significar.

IDENTIDADE DE GÊNERO

Num diálogo entre Cabo Daciolo (Patriotas) e Jair Bolsonaro (PSL), por exemplo, os dois debateram sobre o “kit gay”, além da “liberação” do aborto. Colocando-se como defensores da família tradicional brasileira e tementes a Deus, se posicionaram contrários a essas medidas. Ambos atacaram ferrenhamente uma publicação incentivadora da homossexualidade que seria veiculada como material didático. Só que bem diferente do que afirmavam os candidatos, o tal “kit” era a publicação do MEC  “Caderno Escola sem Homofobia”, destinado a professores, gestores e profissionais, para que abordem a questão de orientação sexual com alunos do Ensino Médio. Um posicionamento semelhante foi feito “contra a liberação do aborto”, dando a entender que há uma proposta de reverter a atual proibição da prática para uma futura ausência de restrições. Jair Bolsonaro então até questionou a moralidade de Marina Silva (Rede) que, sendo Evangélica, defende um plebiscito para a legalização da maconha e do aborto. O argumento de Marina era de evitar que mulheres recorram a métodos inseguros e clínicas clandestinas para fazer o procedimento, diminuindo assim o risco de morte da genitora.

No Novo Testamento, existem raríssimas abordagens da homossexualidade, nenhuma delas registrada como palavras de Jesus. Muito menos há uma abordagem de como mestres devem tratar o tema com seus alunos. E também não há qualquer instrução acerca do aborto, quanto mais da consulta pública sobre o tema. Por isso percebemos que, no vigor de iniciar uma discussão sobre o quanto cada um é Cristão, os candidatos “fabricaram” um objeto de discussão e na verdade divulgaram uma retidão moral que não encontramos entre os seguidores de Jesus, mas que se aproxima muito mais da perfeição farisaica que Jesus acusava de serpentes, víboras e “filhos do diabo”.

SOCIALISMO

Cabo Daciolo levantou uma discussão sobre a “URSAL” (União das Repúblicas Socialistas da América Latina), que seria um movimento militar-socialista¹ de apoio entre governos para a mudança do regime econômico. Uma evidência de tal movimento seria a receptividade do Brasil aos imigrantes venezuelanos. Afora a tradição diplomática de asilo político que sempre foi característica do Brasil, a preocupação com manter o capitalismo apareceu como uma atitude Cristã. Olhando para a história de toda América Latina, entretanto, observamos massacres de indígenas e de pobres, sobretudo em El Salvador, Guatemala, Nicarágua, Argentina, Chile e no Brasil durante os tempos de ditaduras militares altamente capitalistas e que se instauraram, cada uma, objetivando conter supostos movimentos socialistas contra a propriedade privada. Foram governos que, sem exceção, produziram milhões de pobres e miseráveis em favor da concentração de renda nas mãos de poucos (vários deles membros do governo). E olhando o livro de Atos encontramos, para o espanto geral, que os primeiros Cristãos justamente vendiam suas propriedades para alimentar um grupo pautado na coletividade, o que facilmente se poderia chamar de “socialistas”. Dessa forma, o que quer que a URSAL possa significar - não há evidências de que exista, mesmo como projeto - ela teria muito mais a ver com o Cristianismo, especialmente o defendido pela Teologia da Libertação - do que o modelo capitalista pregado pelos candidatos Cristãos do Patriotas e PSL.

Em todos esses países supostamente socialistas, é bom lembrar que existem milhões de pobres vítimas de decisões políticas, econômicas e financeiras sobre as quais não têm nenhuma influência. Dizem as Escrituras que Deus escuta seus gritos, e um dos profetas chega a dizer que as blasfêmias que proferem por causa da dor, Deus as escuta como súplicas (Salmo 102, Isaías 30.18,19). As eleições sempre trazem alguma esperança de que novos líderes tragam políticas sociais que diminuam as desigualdades mas, é notório, nosso país é conhecido mundialmente pela enorme desigualdade social, maior que em todos os irmãos latino-americanos e comparável à realidade africana. Aqui, o pobre vive melhor só quando há crescimento econômico. Nas supostas potências socialistas, tão temidas, a desigualdade menor é manchada por uma pobreza que ninguém inveja. Receber refugiados em fuga de um sistema que os mata lentamente, como ocorre hoje na Venezuela, parece muito condizente com a pregação de Jesus.

Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te?” Respondendo o Rei, lhes dirá: “Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” (Mateus 25.37-40)

(DES)ARMAMENTO

Jair Bolsonaro tem, como propostas muito apoiadas, a castração química de estupradores e o porte de arma para mulheres “de bem e preparadas”. Novamente vemos que existe uma preocupação com a violência contra mulheres, mas é um esquivar-se do Estado seguido de “protejam a si mesmas”. Junto, a velha noção de moralidade; quem não possuir tais atributos (e considerando outros dizeres do candidato, é a mulher pobre, negra, mãe solteira, prostituta, etc) está longe da “proteção” do Estado... e que se vire. Uma abordagem bem dramática desse tema de defender-se por armas aparece na cena da prisão de Jesus:

Pedro, estendendo a mão, puxou da espada e, ferindo Malco, o servo do sumo sacerdote, cortou-lhe uma orelha. Então Jesus disse-lhes: “Deixai-os, basta. Embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão. Não beberei eu o cálice que o Pai me deu?” E, tocando-lhe a orelha, o curou. (Mateus 26.51-52, Lucas 22.51, João 18.11)

O Estatuto do Desarmamento (Lei nº 10.826) foi aprovado por maioria do Congresso em 2003. Calcula-se que quase 200 mil mortes tenham sido evitadas por isso, desde então. Também não é difícil imaginar que Jesus preferiria um Estado onde pessoas não são ameaçadas ao invés de um onde cada um se defende como pode. Essa ideia não foi capaz de proteger nem o próprio Jair Bolsonaro, vítima de um atentado em plena campanha. Mas assusta pensar que tal é a visão Cristã nos EUA, país basicamente fundado por Protestantes Puritanos. E, de uma forma insidiosa, essa pode tornar-se a visão Cristã no Brasil. Com a ressalva de que o Estado é quem garantiria o porte de armas para as pessoas “de bem e preparadas”, as quais por outro lado não podem recorrer ao mesmo Estado por saúde, moradia, oportunidade de trabalho, educação de qualidade e, quem sabe, nem segurança.

Posteriormente, em entrevista, Bolsonaro disse que não se lembrava com certeza, mas estava se referindo a passagem bíblica de Paulo onde Jesus diz para os discípulos empunharem espada. A passagem referida está, no entanto, no livro de Lucas.

E disse-lhes: Quando vos mandei sem bolsa, alforje, ou alparcas, faltou-vos porventura alguma coisa? Eles responderam: Nada. Disse-lhes pois: Mas agora, aquele que tiver bolsa, tome-a, como também o alforje; e, o que não tem espada, venda a sua capa e compre-a. Porquanto vos digo que importa que em mim se cumpra aquilo que está escrito: E com os malfeitores foi contado. Porque o que está escrito de mim terá cumprimento. E eles disseram: Senhor, eis aqui duas espadas. E ele lhes disse: Basta. (Lucas 22.35-38)

O entendimento dessa passagem é nebuloso. Ela tem aspectos bem diferentes em nos livros de Mateus e João, mas está claro que pelo menos Pedro foi armado para o bosque do Getsêmane. Exceto Bolsonaro, entretanto, nenhum bibliologista (ex. Jacques Ellul, John Howard Yoder, Archie Penner, John Gill, etc) jamais afirmou que Jesus mandava seus seguidores portarem armas. A interpretação mais aceita é de que 2 espadas obviamente não seriam capazes de oferecer proteção contra a guarda do Sinédrio, nem há um planejamento de ação defensiva. Segundo eles, Jesus anunciava um período de sofrimento em que os discípulos não contariam com a proteção divina, ou ainda que anunciava a perseguição aos Cristãos na Judéia.

AH, AS MULHERES!

Em outro bate-boca com Marina Silva sobre políticas de proteção à mulher, Bolsonaro afirmou que tal coisa já está prevista em lei e não é mais responsabilidade do Estado. Arremedou dizendo para a candidata ler o livro de Paulo, onde uma passagem machista reforça a submissão das mulheres aos homens:

As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é vergonhoso que as mulheres falem na igreja. (1ª Coríntios 14.34-35)

Há algumas coisas a esclarecer sobre essa passagem. Primeiro, Paulo era um pregador grego entre os gregos de Corinto. Tratava-se de uma sociedade fortemente patriarcal e Paulo não intencionava abolir tais leis, assim como não se pronunciou contra o sistema escravista. Logo, as cartas de Paulo, assim como todo o texto bíblico, são condicionadas a posições sócio-culturais de cada época. O trecho de 1ª Coríntios 11.5, além de falar sobre a submissão das mulheres como lei divina, fala sobre regras de vestimenta, mas mostra que as mulheres tinham papel importante nos cultos Cristãos. O texto de 1ª Coríntios, em especial, trata de estabelecer normas de conduta numa igreja que Paulo considerava desordenada, onde as pessoas pareciam falar em línguas mas eram “como que falando ao ar”, que seriam “considerados loucos”. Paulo não pretendia senão estabelecer as regras em tal comunidade, regras que eram de sua cultura, época e local. Faz tanto sentido aplicar essas regras hoje e no Brasil como seguir as restrições alimentares e higiênicas de Levítico.

INDÍGENAS E QUILOMBOLAS

Entre alguns candidatos disputando o “voto Cristão”, chamam a atenção do mundo inteiro os discursos de ódio (que lembram Hitler e, mais recentemente, Donald Trump), falas vexatórias, piadas criminosas, apologias à violência e distorção dos acontecimentos durante a Ditadura Militar. Cogita-se, por exemplo, a remoção das terras garantidas pelo Estado a indígenas e quilombolas, pois são “terras ricas em depósitos minerais” ou que podem ser “utilizadas para o agronegócio”. De um modo muito estranho, vemos a mesma pessoa entoando um discurso denominado Cristão e também defendendo os interesses capitalistas mais cruéis. Como se uma coisa e outra fossem semelhantes, mas não são.

Davi, que era o melhor dos homens segundo Deus, fez questão de pagar pelas terras de Araúna, o jebuseu, onde ofereceria sacrifícios ao Senhor, mesmo sendo por direito senhor daquelas terras e do próprio Araúna (2ª Samuel 24.18-25). Jesus se negou a comer no deserto (Lucas 4.2-4), recusou a promessa de governar todo o mundo (Lucas 4.5-8), distribuiu alimentos (Mateus 14.16-21) e curas sem ganhar nada físico com isso. Ele ainda exaltou a doação da viúva pobre, por menor que fosse, devido ao significado daquilo para ela mesma (Marcos 12.41-44). E, por fim, horrorizou os fariseus ao curar pessoas (Lucas 13.14-16) e instruir que seus discípulos colhessem trigo no sábado, a fim de não passarem fome (Lucas 6.1-4). “Apesar da história”, e da expressão “Reino de Deus” largamente utilizada no Novo Testamento, o Cristianismo nunca teve bases muito compatíveis com os governos centralizadores de qualquer tipo, por pregar valores como humildade e igualdade entre os homens. Duvido muito que Jesus, enquanto governante, expulsasse pessoas de suas terras ancestrais porque tais terras possuem um bom valor comercial.

POBRES E EXCLUÍDOS

Que haja Cristãos escolhendo presidenciáveis da extrema direita, ultra-radicais e beirando o Fascismo² em suas falas é, sem sombra de dúvidas, uma desonestidade intelectual. Além da distorção/inversão de princípios bíblicos, os princípios de retidão moral exaltados por eles são tão semelhantes ao farisaísmo rigorista e sectário que assustam. São ideias bem contrárias ao que de melhor já aconteceu no Cristianismo, como o movimento dos Franciscanos no séc. 13 e o Concílio Vaticano II, nos anos 1960, para que a Igreja se posicionasse em favor dos pobres que não podem recorrer a seus governos. Bem pouco tempo atrás, a reforma trabalhista aprovada trouxe grandes prejuízos e retrocessos para os trabalhadores, naturalizando as desigualdades, produzindo baixos salários, alta rotatividade de empregados e informalidade. Mesmo o papa Bento XVI, religioso direitista da Igreja Católica, escreveu em sua Carta Encíclica Caritas in Veritate: “infelizmente a corrupção e a ilegalidade estão presentes no comportamento dos sujeitos sociais e políticos dos países ricos, antigos e novos, como nos próprios países pobres. No número de quantos não respeitem os direitos humanos dos trabalhadores, contam-se, às vezes, grandes empresas transnacionais e também grupos de produção local”.

Aqui, a Comissão Nacional dos Bispos do Brasil produziu documentos onde se lê claramente que “as injustiças, as desigualdades excessivas e ordem econômica ou social, a inveja, a desconfiança e o orgulho que grassam entre os homens e as nações ameaçam sem cessar a paz e causam as guerras. Tudo o que for feito para vencer essas desordens contribui para edificar a paz e evitar a guerra” ... “a atuação cristã dos leigos no social e no político não deve ser considerada ministério, mas serviço cristão ao mundo na perspectiva do Reino” ... “a participação consciente e decisiva dos cristãos em movimentos sociais, entidades de classe (sindicatos), partidos políticos, conselhos de políticas públicas e outros, sempre à luz da Doutrina Social da Igreja, constitui-se num inestimável serviço à humanidade e é parte integrante da missão de todo o povo de Deus”. Quão longe essas linhas da V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe de 2007 estão do posicionamento supostamente Cristão da extrema direita!

Para Jair Bolsonaro, a demarcação de terras indígenas, dentre outras demandas, não passa de uma besteira inventada e utilizada como massa de manobra pela “esquerda” para desperdiçar dinheiro com a Fundação Nacional do Índio (Funai). Entre suas ideias estão, ainda, o fim de medidas como as Cotas Raciais destinadas e equilibrar a desigualdade produzida desde a Abolição entre brancos e negros quanto à Educação Superior, medida que foi amplamente apoiada pela Igreja em nome das pessoas feitas à imagem e semelhança de Deus. A Igreja se fez finalmente solidária aos afro-americanos nas reivindicações pelas defesas de seus territórios, direitos e consciência de negritude, por isso é totalmente incoerente que se justifique - a não ser pelos interesses mais capitalistas - o apoio de medidas em contrário. Há até quem chame seu grupo de bancada BBB, iniciais de Bala-Boi-Bíblia.

POSICIONAMENTOS

Entre as medidas propagandistas de Jair Bolsonaro estão a ampla reprodução de textos e “curtidas digitais” por redes de celulares operados remotamente, a fim de criar uma falsa publicidade; estão também a exposição de “testemunhos” de simpatizantes que sequer moram no Brasil, além da completa distorção dos resultados de entrevistas em telejornais. Em suma, tudo vale pela popularidade, que é na verdade uma mentira, assim como a Cristandade declarada aos quatro ventos. Se é assustador que pessoas comuns pensem em apoiar as ideias dele no séc. 21, após conhecermos os horrores da Guerras e da perseguição escancarada de minorias pelo Estado, após termos vivido pesadelos nas mãos truculentas de militares, é mais pavoroso ainda que justamente Cristãos pensem assim.

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¹ O Socialismo, em sua origem, significava o Estado como proprietário de tudo dentro de um país. Isto é, a minha casa, o meu carro, até os meus móveis e o lugar onde trabalho são patrimônio público e, claro, todos são funcionários públicos. Ao invés de comprar com meu salário a minha comida, a minha educação, a minha saúde e os meus bens, todos eles são fornecidos "gratuitamente" pelo Estado, em troca da minha força de trabalho no emprego que eu não escolhi, mas me foi designado segundo as necessidades do Estado. O conceito de desemprego não existe, numa economia socialista. A proposição original teria como resultado o fim das desigualdades sociais, pois tanto o trabalhador mais braçal como o mais técnico praticamente não recebem salários. Na prática, os países que assumiram o Socialismo como modelo econômico (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, China, Cuba, Vietnã, Coréia do Norte) tiveram de usar estratégias militares para impedir as pessoas de possuírem bens, além de enriquecerem a classe dominante - no caso, o Partido Comunista - enquanto a população foi mantida pobre e alheia de qualquer decisão política. A URSS investiu dinheiro demais em armamentos e entrou a em colapso econômico, fragmentando-se em 1991. O Vietnã foi ocupado pelas forças armadas estadounidenses em 1975. Cuba foi isolada do comércio internacional por imposição dos EUA, desde 1960. A China e a Coréia do Norte se mantém graças a exploração de mão de obra (pois tais países não reconhecem legislações trabalhistas) e regimes militares bastante restritivos.

² Fascismo é uma palavra italiana, derivada de fascio ou feixe, sendo mais conhecido pelo seu nome alemão: Nazismo. O Fascismo surgiu quase conjuntamente com o Socialismo, supostamente sendo uma derivação deste. Tal regime propunha um controle absoluto do Estado sobre os indivíduos, ao invés de absorver todas as propriedades. Assim, nos regimes Fascistas (Alemanha, Itália, Japão e o Brasil bem que tentou, nos anos 1940) ficavam mantidas as propriedades de cada um, mas o Estado podia permitir ou proibir qualquer coisa para qualquer pessoa. Obviamente isso requer estratégias militares de controle. Em geral, tais países retiraram todo o patrimônio e direito de minorias (ex. negros, judeus, muçulmanos) para direcioná-los aos industriais mais ricos, que também podiam usar e abusar dessas minorias como mão de obra "escrava". Todos os governos fascistas tiveram como característica a substituição completa de rádio, TV, jornais, etc pela propaganda do sucesso e força estatais. O controle do Estado sobre os indivíduos chegava ao ponto de o Estado determinar quem teria filhos com quem, de forma a priorizar os indivíduos "mais bem capacitados" na sua população. O Brasil foi impedido de seguir sua trajetória fascista por intervenção militar dos EUA. A Alemanha, Itália e Japão foram, um a um, derrotados durante a 2ª Guerra Mundial.

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#ELENÃO LEU

Alessi G, Estatuto do Desarmamento salvou 160.000 vidas, calcula estudo, brasil.elpais.com, 15mai2015
Bento XVI, Carta Encíclica Caritas in Veritate, http://w2.vatican.va, 29jun2009
Boff L, Um problema nunca resolvido: o sofrimento dos inocentes, leonardoboff.wordpress.com, 14set2018
Conferência Nacional do Bispos do Brasil (CNBB), V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, mai2007
Lacerda M, A “URSAL” é uma síntese do pensamento de extrema-direita no Brasil, pragmatismopolitico.com.br, 14ago2018
Marciano C, Reflexões sobre a exaltação bíblica no 2º debate presidencial, pragmatismopolitico.com.br, 27ago2018
Rocha BL, Bolsonaro e as forças armadas - a desastrosa imagem associada, revista IHU online, 13ago2018