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segunda-feira, 27 de novembro de 2023

O Fim está próximo

Dilúvio - quadro feito a pena e nanquim pelo ilustrador francês Gustave Doré (1832 - 1883)

Seguem 4 textos sobre o Dilúvio para serem lidos, antes de tudo.

1. DILÚVIO ASSÍRIO (Epopéia de Gilgamesh, Uruk, 2000 a.C.)

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Gilgamesh então disse a Utnapishtim, o Longínquo: "Olho para ti, Utnapishtim, e vejo que és igual a mim; não há nada estranho em tuas feições. Pensei que fosse encontrar um herói preparado para a batalha, mas aqui estás, confortavelmente refestelado. Conta-me a verdade, como foi que vieste a te juntar aos deuses e ganhaste a vida eterna?" Utnapishtim disse a Gilgamesh: "Eu te revelarei um mistério; eu te contarei um segredo dos deuses."

Naqueles dias, a terra fervilhava, os homens multiplicavam-se e o mundo bramia como um touro selvagem. Este tumulto despertou o grande deus (Anu). Enlil (o guerreiro) ouviu o alvoroço e disse aos deuses reunidos em conselho: 'O alvoroço dos humanos é intolerável, e o sono já não é mais possível por causa da balbúrdia.' Os deuses então concordaram em exterminar a raça humana. Foi o que Enlil fez, mas Ea, por causa de sua promessa, me avisou num sonho.

Ele denunciou a intenção dos deuses sussurrando para minha casa de colmo: 'Casa de colmo, casa de colmo! Parede, oh, parede da casa de colmo, escuta e reflete. Oh, homem de Shurrupak, filho de Ubara-Tutu, põe abaixo tua casa e constrói um barco. Abandona tuas posses e busca tua vida preservar; despreza os bens materiais e busca tua alma salvar. Põe abaixo tua casa, eu te digo, e constrói um barco. Eis as medidas da embarcação que deverás construir: que a boca extrema da nave tenha o mesmo tamanho que seu comprimento, que seu convés seja coberto, tal como a abóbada celeste cobre o abismo; leva então para o barco a semente de todas as criaturas vivas.' 

Quando compreendi, eu disse ao meu Senhor: 'Sereis testemunha de que honrarei e executarei aquilo que me ordenais, mas como explicarei às pessoas, à cidade, aos patriarcas?' Ea então abriu a boca e falou a mim, seu servo: 'Dize-lhes isto: Eu soube que Enlil está furioso comigo e já não ouso mais caminhar por seu território ou viver em sua cidade; partirei em direção ao golfo para morar com o meu Senhor Ea. Mas sobre vós ele fará chover a abundância, a colheita farta, os peixes raros e as ariscas aves selvagens. A noite, o cavaleiro da tempestade vos trará uma torrente de trigo.'

Ao primeiro brilho da alvorada, toda a minha família se reuniu ao meu redor; as crianças trouxeram o piche e os homens todo o resto necessário. No 5º dia eu aprontei a quilha, montei a ossatura da embarcação e então instalei o tabuado. O barco tinha um acre de área e cada lado do convés media 120 côvados, formando um quadrado. Construí abaixo mais 6 conveses, num total de 7, e dividi cada um em 9 compartimentos, colocando tabiques entre eles. Finquei cunhas onde elas eram necessárias, providenciei as zingas e armazenei suprimentos. Os carregadores trouxeram o óleo em cestas. Eu joguei piche, asfalto e óleo na fornalha. Mais óleo foi consumido na calafetagem, e mais ainda foi guardado no depósito pelo capitão da nave. Eu abati novilhos para a minha família e matava diariamente uma ovelha. Dei vinho aos carpinteiros do barco como se fosse água do rio, vinho verde, vinho tinto, vinho branco e óleo. Fez-se então um banquete como os que são preparados à época dos festejos do ano-novo; eu mesmo ungi minha cabeça. No 7º dia, o barco ficou pronto.

Foi com muita dificuldade então que a embarcação foi lançada à água; o lastro do barco foi deslocado para cima e para baixo até a submersão de 2/3 de seu corpo. Eu carreguei o interior da nave com tudo o que eu tinha de ouro e de coisas vivas: minha família, meus parentes, os animais do campo - os domesticados e os selvagens - e todos os artesãos. Eu os coloquei a bordo, pois o prazo dado por Shamash (o Sol) já havia se esgotado; e ele disse: 'Esta noite, quando o cavaleiro da tempestade enviar a chuva destruidora, entra no barco e te fecha lá dentro.'

Era chegada a hora. Caiu a noite e o cavaleiro da tempestade mandou a chuva. Tudo estava pronto, a vedação e a calafetagem; eu então passei o timão para Puzur-Amurri, o timoneiro, deixando todo o barco e a navegação sob seus cuidados. Ao primeiro brilho da alvorada chegou do horizonte uma nuvem negra, que era conduzida por Adad, o Senhor da tempestade. Os trovões retumbavam de seu interior, e, na frente, por sobre as colinas e planícies, avançavam Shul-lat e Hanish, os arautos da tempestade. Surgiram então os deuses do abismo; Nergal destruiu as barragens que represavam as águas do inferno; Ninurta, o deus da guerra, pôs abaixo os diques; e os 7 juizes do outro mundo, os Anunnaki, elevaram suas tochas, iluminando a terra com suas chamas lívidas. Um estupor de desespero subiu ao céu quando o deus da tempestade transformou o dia em noite, quando ele destruiu a terra como se despedaça um cálice. Por um dia inteiro o temporal grassou devastadoramente, acumulando fúria à medida que avançava e desabando torrencialmente sobre as pessoas como os fluxos e refluxos de uma batalha; um homem não conseguia ver seu irmão, nem podiam os povos serem vistos do céu. Até mesmo os deuses ficaram horrorizados com o dilúvio; eles fugiram para a parte mais alta do céu, o firmamento de Anu, onde se agacharam contra os muros e ficaram encolhidos como covardes.

Foi então que Ishtar, a Rainha do Céu, de voz doce e suave, gritou como se estivesse em trabalho de parto: 'Ai de mim! Os dias de outrora estão virando pó, pois ordenei que se fizesse o mal; por que fui exigir esta maldade no conselho dos deuses? Eu impus as guerras para a destruição dos povos, mas acaso estes povos não pertencem a mim, pois fui eu quem os criou? Agora eles flutuam no oceano como ovas de peixe.' Os grandes deuses do céu e do inferno verteram lágrimas e se calaram.

Por 6 dias e 6 noites os ventos sopraram; enxurradas, inundações e torrentes assolaram o mundo; a tempestade e o dilúvio explodiam em fúria como dois exércitos em guerra. Na alvorada do 7º dia o temporal vindo do sul amainou; os mares se acalmaram, o dilúvio serenou. Eu olhei a face do mundo e o silêncio imperava; toda a humanidade havia virado argila. A superfície do mar se estendia plana como um telhado. Eu abri uma janelinha e a luz bateu em meu rosto. Eu então me curvei, sentei e chorei. As lágrimas rolavam pois estávamos cercados por uma imensidade de água. Procurei em vão por um pedaço de terra. A quatorze léguas de distância, porém, surgiu uma montanha, e ali o barco encalhou.

Na montanha de Nisir o barco ficou preso; ficou preso e não mais se moveu. No 1º dia ele ficou preso; no 2º dia ficou preso em Nisir e não mais se moveu. Um 3º e um 4º dia ele ficou preso na montanha e não se moveu. Um 5º e um 6º dia ele ficou preso na montanha. Na alvorada do 7º dia eu soltei uma pomba e deixei que se fosse. Ela voou para longe, mas, não encontrando um lugar para pousar, retornou. Então soltei uma andorinha, que voou para longe; mas, não encontrando um lugar para pousar, retornou. Então soltei um corvo. A ave viu que as águas haviam abaixado; ela comeu, voou de um lado para o outro, grasnou e não mais voltou para o barco. Eu então abri todas as portas e janelas, expondo a nave aos quatro ventos.

Preparei um sacrifício e derramei vinho sobre o topo da montanha em oferenda aos deuses. Coloquei quatorze caldeirões sobre seus suportes e juntei madeira, bambu, cedro e murta. Quando os deuses sentiram o doce cheiro que dali emanava, eles se juntaram como moscas sobre o sacrifício. Finalmente, então, Ishtar também apareceu; ela suspendeu seu colar com as jóias do céu, feito por Anu para lhe agradar. 'Oh, vós, deuses aqui presentes, pelo lápis-lazúli que circunda meu pescoço, eu me lembrarei destes dias como me lembro das jóias em minha garganta; não me esquecerei destes últimos dias. Que todos os deuses se reúnam em torno do sacrifício; todos, menos Enlil. Ele não se aproximará desta oferenda, pois sem refletir trouxe o dilúvio; ele entregou meu povo à destruição.'

Quando Enlil chegou e viu o barco, ele ficou furioso. Enlil se encheu de cólera contra o exército de deuses do céu. 'Alguns destes mortais escaparam? Ninguém deveria ter sobrevivido à destruição.' Então Ninurta, o deus das nascentes e dos canais, abriu a boca e disse ao guerreiro Enlil: 'E que deus pode tramar sem o consentimento de Ea? Somente Ea conhece todas as coisas.' Então Ea abriu a boca e falou para o guerreiro Enlil: 'Herói Enlil, o mais sábio dos deuses, como pudeste tão insensatamente provocar este dilúvio?

Inflige ao pecador o seu pecado, 
Inflige ao transgressor a sua transgressão, 
Pune-o levemente quando ele escapar, 
Não exageres no castigo ou ele sucumbirá; 
Antes um leão houvesse devastado a raça humana 
Em vez do dilúvio, 
Antes um lobo houvesse devastado a raça humana 
Em vez do dilúvio, 
Antes a fome houvesse assolado o mundo 
Em vez do dilúvio. 
Antes a peste houvesse assolado o mundo 
Em vez do dilúvio.

Não fui eu quem revelou o segredo dos deuses; o sábio soube dele através de um sonho. Agora reuni-vos em conselho e decidi sobre o que fazer com ele.'

Enlil então subiu no barco, pegou a mim e a minha mulher pela mão e nos fez entrar no barco e ajoelhar, um de cada lado, com ele no meio. E tocou nossas testas para abençoar-nos, dizendo: 'No passado, Utnapishtim era um homem mortal; doravante ele e sua mulher viverão longe, na foz dos rios.' Foi assim que os deuses me pegaram e me colocaram aqui para viver longe, na foz dos rios.

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2. DILÚVIO GREGO (Mitos reunidos por Thomas Bulfinch, séc. 6 a.C.)

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A mais dura e a pior das idades foi a de Ferro. Uma torrente de crimes eclodiu; a modéstia, a verdade e a honra desapareceram. Em seu lugar vieram a fraude, a dissimulação, a violência e a ambição sem limites.

Então os marinheiros ergueram suas velas aos ventos, e as árvores foram tiradas das montanhas para servir de quilhas aos navios, que arranharam a face do oceano. A terra, que até agora tinha sido cultivada coletivamente, começou a ser dividida em propriedades. Os homens, não satisfeitos com aquilo que a superfície produzia, resolveram rasgar as entranhas da terra para tirar de lá os minérios e metais. O ferro nocivo e o ainda mais nocivo ouro foram produzidos.

Estouraram as guerras utilizando-se de ambos como armas; o hóspede já não se sentia seguro na casa de seu amigo; e os genros e sogros, irmãos e irmãs, maridos e esposas não podiam mais confiar uns nos outros. Filhos desejavam que seus pais estivessem mortos, de modo que pudessem receber a herança; o amor familiar caiu prostrado. A terra estava molhada pelo sangue dos massacres, e os deuses a abandonaram, um por um, até restar apenas Astreia (Inocência), que finalmente partiu também.

Ao ver esse estado de coisas, Júpiter ardeu em fúria. Reuniu os deuses em conselho. Atendendo ao chamado, eles tomaram a estrada para o palácio no céu. A estrada, que qualquer um pode enxergar em noite clara, se estende através da face do céu, e é chamada de Via Láctea. Às margens da estrada erguem-se palácios de deuses ilustres; a plebe celestial vive à parte, de ambos os lados da estrada.

Júpiter dirigiu-se à assembleia, relatando as condições assombrosas das coisas na terra, e terminou revelando suas intenções de exterminar todos os seus habitantes e de criar uma nova raça diferente da primeira, uma raça que seria mais digna de viver e mais devota aos deuses. Assim dizendo, tomou um raio nas mãos e já estava prestes a lançá-lo para destruir o mundo pelo fogo, mas, lembrando-se do perigo que tal conflagração poderia representar caso o próprio céu se incendiasse, mudou os seus planos e resolveu inundar o planeta.

O vento norte que espalha as nuvens foi seguro; o vento sul foi enviado, e logo cobriu a superfície do céu com um manto de negra escuridão. As nuvens, carregadas em bloco, ressoaram com grande estrondo; chuvas torrenciais caíram; as plantações foram arrasadas; o trabalho de um ano do agricultor pereceu em uma hora.

Júpiter, não satisfeito com suas próprias águas, chamou o seu irmão Netuno para ajudá-lo. Este deixou que os rios se derramassem sobre a terra. Ao mesmo tempo, a sacudiu com um terremoto, e trouxe para os litorais o refluxo dos oceanos. Rebanhos, homens e casas foram varridos, e os templos com seus objetos sagrados foram profanados. Se algum edifício permaneceu de pé, foi encoberto pelas águas e suas torres se encontram ocultas sob as ondas. Agora tudo se tornou mar, mar sem litoral.

Aqui e ali alguns indivíduos sobreviveram sobre o topo das montanhas, e alguns outros em barcos, puxando remos onde costumavam puxar o arado. Os peixes agora nadavam entre as copas das árvores; as âncora presas em um jardim. No lugar em que os graciosos carneirinhos brincavam, as focas desajeitadas fazem malabarismos. O lobo nadava entre as ovelhas, os leões amarelos e os tigres se debatiam na água. A força do javali não mais lhe servia, nem a ligeireza do cervo. Com as asas exaustas, os pássaros caiam dentro da água, sem encontrar terra em que pudessem descansar. Os seres vivos que a água poupara caíram em decorrência da fome.

De todas as montanhas, apenas o Parnaso ultrapassava a altura das ondas; e ali Deucalião e sua esposa Pirra, da raça de Prometeu, encontraram refúgio - ele, um homem justo, e ela, uma fiel adoradora dos deuses. Júpiter, quando viu que ninguém havia sobrevivido além desse casal e recordando-se da inofensiva vida deles e de sua conduta piedosa, ordenou aos ventos do norte que levassem as nuvens para longe e revelassem os céus para a terra e a terra para os céus. Igualmente Netuno deu ordens a Tritão que soasse a sua concha, provocando o recuo das águas. As águas obedeceram, e o mar voltou aos seus limites, e os rios retornaram aos seus leitos.

Então Deucalião assim dirigiu-se a Pirra: “Ó esposa, única mulher sobrevivente, unida a mim primeiro pelos laços de parentesco e do casamento, e agora pela experiência de um perigo comum, tivéssemos nós o poder de nosso ancestral, Prometeu, e renovaríamos a raça tal como ele fez a princípio! Mas, como não podemos, vamos àquele templo consultar os deuses sobre o que nos resta a fazer”.

Eles entraram no templo, deformado que estava, cheio de lodo, e se aproximaram do altar, no qual não ardia fogo algum. Ali caíram prostrados em terra e rogaram à deusa que lhes informasse o modo de reaver sua miserável vida. O oráculo respondeu: “Deixai o templo com a vossa cabeça coberta por um véu e com as vestes abertas, e lançai para trás de vós os ossos de vossa mãe”. Eles ouviram essas palavras com assombro. Pirra quebrou o silêncio: “Não podemos obedecer; não ousamos profanar os restos de nossos pais”. Eles procuraram um lugar seguro na floresta e ali refletiram sobre o que lhes dissera o oráculo.

Mais tarde, Deucalião disse: “Ou a minha sagacidade me engana, ou devemos obedecer à ordem sem receio. A terra é a grande mãe de todos; as pedras são seus ossos; são essas que devemos lançar para trás; penso que esse é o significado do que nos disse o oráculo. Pelo menos não haverá dano em tentá-lo”. Eles colocaram o véu sobre as faces, abriram as vestes, apanharam pedras e as jogaram atrás de si. As pedras (maravilhosamente) tornaram-se macias e assumiram formas, que, em diferentes graus, se assemelhavam à silhueta humana, como obras inacabadas nas mãos de um escultor. A umidade e o lodo, que estavam próximos, tornaram-se carne; as pedras tornaram-se ossos; os veios tornaram-se veias, mudando o seu uso e mantendo o nome semelhante. As pedras lançadas pelo homem deram origem a homens, e aquelas lançadas pela mulher tornaram-se mulheres. Era uma raça robusta, bem adaptada ao trabalho, tal como somos nós hoje, fato que denuncia claramente a nossa origem.

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3. DILÚVIO JUDEU (Bíblia, Gênesis 6.1 a 8.22, séc. 6 a.C.)

E aconteceu que, como os homens começaram a multiplicar-se sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas, viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram.

Então disse o Senhor: Não contenderá o meu Espírito para sempre com o homem; porque ele também é carne; porém os seus dias serão cento e vinte anos. Havia naqueles dias gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens e delas geraram filhos; estes eram os valentes que houve na antiguidade, os homens de fama.

E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente. Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem sobre a terra e pesou-lhe em seu coração. E disse o Senhor: Destruirei o homem que criei de sobre a face da terra, desde o homem até ao animal, até ao réptil, e até à ave dos céus; porque me arrependo de os haver feito.

Noé, porém, achou graça aos olhos do Senhor. Estas são as gerações de Noé. Noé era homem justo e perfeito em suas gerações; Noé andava com Deus. E gerou Noé três filhos: Sem, Cam e Jafé.

A terra, porém, estava corrompida diante da face de Deus; e encheu-se a terra de violência. E viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque toda a carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra.

Então disse Deus a Noé: O fim de toda a carne é vindo perante a minha face; porque a terra está cheia de violência; e eis que os desfarei com a terra. Faze para ti uma arca da madeira de gofer; farás compartimentos na arca e a betumarás por dentro e por fora com betume. E desta maneira a farás: De trezentos côvados o comprimento da arca, e de cinqüenta côvados a sua largura, e de trinta côvados a sua altura. Farás na arca uma janela, e de um côvado a acabarás em cima; e a porta da arca porás ao seu lado; far-lhe-ás andares, baixo, segundo e terceiro.

Porque eis que eu trago um dilúvio de águas sobre a terra, para desfazer toda a carne em que há espírito de vida debaixo dos céus; tudo o que há na terra expirará.

Mas contigo estabelecerei a minha aliança; e entrarás na arca, tu e os teus filhos, tua mulher e as mulheres de teus filhos contigo. E de tudo o que vive, de toda a carne, dois de cada espécie, farás entrar na arca, para os conservar vivos contigo; macho e fêmea serão. Das aves conforme a sua espécie, e dos animais conforme a sua espécie, de todo o réptil da terra conforme a sua espécie, dois de cada espécie virão a ti, para os conservar em vida. E leva contigo de toda a comida que se come e ajunta-a para ti; e te será para mantimento, a ti e a eles. Assim fez Noé; conforme a tudo o que Deus lhe mandou, assim o fez.

Depois disse o Senhor a Noé: Entra tu e toda a tua casa na arca, porque tenho visto que és justo diante de mim nesta geração. De todos os animais limpos tomarás para ti 7 e 7, o macho e sua fêmea; mas dos animais que não são limpos, dois, o macho e sua fêmea. Também das aves dos céus 7 e 7, macho e fêmea, para conservar em vida sua espécie sobre a face de toda a terra.

Porque, passados ainda sete dias, farei chover sobre a terra 40 dias e 40 noites; e desfarei de sobre a face da terra toda a substância que fiz.

E fez Noé conforme a tudo o que o Senhor lhe ordenara. E era Noé da idade de 600 anos, quando o dilúvio das águas veio sobre a terra. Noé entrou na arca, e com ele seus filhos, sua mulher e as mulheres de seus filhos, por causa das águas do dilúvio.

Dos animais limpos e dos animais que não são limpos, e das aves, e de todo o réptil sobre a terra, entraram de 2 em 2 para junto de Noé na arca, macho e fêmea, como Deus ordenara a Noé. E aconteceu que passados 7 dias, vieram sobre a terra as águas do dilúvio.

No ano 600 da vida de Noé, no mês 2º, aos 17 dias do mês, naquele mesmo dia se romperam todas as fontes do grande abismo, e as janelas dos céus se abriram, e houve chuva sobre a terra 40 dias e 40 noites. E no mesmo dia entraram na arca Noé, seus filhos Sem, Cam e Jafé, sua mulher e as mulheres de seus filhos. Eles, e todo o animal conforme a sua espécie, e todo o gado conforme a sua espécie, e todo o réptil que se arrasta sobre a terra conforme a sua espécie, e toda a ave conforme a sua espécie, pássaros de toda qualidade. E de toda a carne, em que havia espírito de vida, entraram de dois em dois para junto de Noé na arca. E os que entraram eram macho e fêmea de toda a carne, como Deus lhe tinha ordenado; e o Senhor o fechou dentro.

E durou o dilúvio 40 dias sobre a terra, e cresceram as águas e levantaram a arca, e ela se elevou sobre a terra. E prevaleceram as águas e cresceram grandemente sobre a terra; e a arca andava sobre as águas. E as águas prevaleceram excessivamente sobre a terra; e todos os altos montes que havia debaixo de todo o céu, foram cobertos. Quinze côvados acima prevaleceram as águas; e os montes foram cobertos. E expirou toda a carne que se movia sobre a terra, tanto de ave como de gado e de feras, e de todo o réptil que se arrasta sobre a terra, e todo o homem. Tudo o que tinha fôlego de espírito de vida em suas narinas, tudo o que havia em terra seca, morreu.

Assim foi destruído todo o ser vivente que havia sobre a face da terra, desde o homem até ao animal, até ao réptil, e até à ave dos céus; e foram extintos da terra; e ficou somente Noé, e os que com ele estavam na arca. E prevaleceram as águas sobre a terra 150 dias.

E lembrou-se Deus de Noé, e de todos os seres viventes, e de todo o gado que estavam com ele na arca; e Deus fez passar um vento sobre a terra, e aquietaram-se as águas. Cerraram-se também as fontes do abismo e as janelas dos céus, e a chuva dos céus deteve-se. E as águas iam-se escoando continuamente de sobre a terra, e ao fim de 150 dias minguaram. E a arca repousou no 7º mês, no dia 17 do mês, sobre os montes de Ararate.

E foram as águas indo e minguando até ao 10º mês; no 10º mês, no 1º dia do mês, apareceram os cumes dos montes. E aconteceu que ao cabo de 40 dias, abriu Noé a janela da arca que tinha feito. E soltou um corvo, que saiu, indo e voltando, até que as águas se secaram de sobre a terra. Depois soltou uma pomba, para ver se as águas tinham minguado de sobre a face da terra. A pomba, porém, não achou repouso para a planta do seu pé, e voltou a ele para a arca; porque as águas estavam sobre a face de toda a terra; e ele estendeu a sua mão, e tomou-a, e recolheu-a consigo na arca. E esperou ainda outros 7 dias, e tornou a enviar a pomba fora da arca. E a pomba voltou a ele à tarde; e eis, arrancada, uma folha de oliveira no seu bico; e conheceu Noé que as águas tinham minguado de sobre a terra. Então esperou ainda outros sete dias, e enviou fora a pomba; mas não tornou mais a ele.

E aconteceu que no ano 601, no 1º mês, no 1º dia do mês, as águas se secaram de sobre a terra. Então Noé tirou a cobertura da arca, e olhou, e eis que a face da terra estava enxuta. E no 2º mês, aos 27 dias do mês, a terra estava seca. Então falou Deus a Noé dizendo: Sai da arca, tu com tua mulher, e teus filhos e as mulheres de teus filhos. Todo o animal que está contigo, de toda a carne, de ave, e de gado, e de todo o réptil que se arrasta sobre a terra, traze fora contigo; e povoem abundantemente a terra e frutifiquem, e se multipliquem sobre a terra. Então saiu Noé, e seus filhos, e sua mulher, e as mulheres de seus filhos com ele. Todo o animal, todo o réptil, e toda a ave, e tudo o que se move sobre a terra, conforme as suas famílias, saiu para fora da arca.

E edificou Noé um altar ao Senhor; e tomou de todo o animal limpo e de toda a ave limpa, e ofereceu holocausto sobre o altar. E o Senhor sentiu o suave cheiro, e o Senhor disse em seu coração: Não tornarei mais a amaldiçoar a terra por causa do homem; porque a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice, nem tornarei mais a ferir todo o vivente, como fiz. Enquanto a terra durar, semeadura e sega, e frio e calor, e verão e inverno, e dia e noite, não cessarão.

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4. DILÚVIO ISLÂMICO (Alcorão, 11ª Surata 25-49, Hüd, séc. 7 d.C.)

Enviamos Noé ao seu povo: “Eu sou para vocês um admoestador claro. Vocês não adorarão ninguém além de Deus. Senão, temo por vocês a agonia de um dia doloroso.” Os notáveis que descreram entre seu povo disseram: “Não vemos em você nada além de um homem como nós, e vemos que apenas os piores entre nós o seguiram, aqueles de julgamento imaturo. E vemos que você não tem vantagem sobre nós. Na verdade, achamos que você é mentiroso.”

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Eles disseram: “Ó Noé, você discutiu conosco e discutiu muito. Agora traga sobre nós aquilo com que você nos ameaça, se for sincero". Ele disse: “É Deus quem fará isso sobre vocês, se Ele quiser, e vocês não poderão escapar”.

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E foi revelado a Noé: “Ninguém do seu povo acreditará, exceto aqueles que já acreditaram, então não se preocupe com o que eles fazem. Construa a Arca, sob Nossos olhos e com Nossa inspiração, e não se dirija a Mim a respeito daqueles que fizeram o mal; eles serão afogados.”

Enquanto Noé construía a arca, sempre que alguns do seu povo passavam por ele, zombavam dele. Ele disse: “Se vocês nos ridicularizarem, nós ridicularizaremos vocês, assim como vocês nos ridicularizam. Vocês certamente saberão sobre quem virá um tormento que o humilhará e sobre quem cairá um tormento duradouro.”

Até que, quando chegou Nossa ordem, e as fontes da Terra jorraram, dissemos: “Embarque um par de cada tipo, e sua família – exceto aqueles contra quem a sentença já foi proferida – e aqueles que acreditaram”. Mas aqueles que acreditaram com Noé foram poucos. Ele disse: “Embarque. Em nome de Deus será a sua navegação e o seu ancoradouro. Seu Senhor é realmente Indulgente e Misericordioso.”

Assim navegou com eles em meio a ondas como colinas. E Noé chamou seu filho, que havia se afastado: “Ó meu filho! Embarque conosco e não fique com os descrentes.” Ele disse: “Vou me refugiar em uma montanha – ela me protegerá das águas”. Noé disse: “Não há proteção contra o decreto de Deus hoje, exceto para aquele de quem Ele tem misericórdia”. E as ondas surgiram entre eles, e ele estava entre os afogados.

E foi dito: “Ó terra, engula suas águas” e “Ó céu, limpe”. E as águas baixaram, e o evento foi concluído, e caiu sobre os Judeus, e foi proclamado: “Fora com as pessoas más”. Noé chamou seu Senhor, dizendo “Ó meu Senhor, meu filho é da minha família, e Tua promessa é verdadeira, e Tu és o mais sábio dos sábios”.

Ele disse: “Ó Noé, ele não é da sua família. É uma ação injusta. Portanto, não Me pergunte sobre algo sobre o qual você nada sabe. Eu o advirto, para que você não seja um dos ignorantes.” Noé disse: “Ó meu Senhor, busco refúgio em Ti, para te perguntar sobre coisas que não tenho conhecimento. A menos que você me perdoe e tenha misericórdia de mim, serei um dos perdedores.”

Foi dito: “Ó Noé, desembarca com a Nossa paz, com bênçãos sobre você e sobre as comunidades daqueles que estão com você. E a outras comunidades concederemos prosperidade, e então um doloroso tormento nosso cairá sobre elas.”* Estas são algumas histórias do passado que lhe revelamos. Nem você nem seu povo os conheciam antes disso. Então seja paciente. O futuro pertence aos piedosos.

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O mistério da própria criação sempre foi tema da mitologia dos povos. Aqui, apresento 4 textos antigos sobre a Gênese do mundo que podemos comparar: um da antiga Assíria (2000 a.C.), um da mitologia Judaica (600 a.C.), outra da Grega (600 a.C.), e um texto Islâmico (700 d.C.). Essas datas, obviamente aproximadas, são referências da última versão oral ou fragmentos que deu origem ao texto escrito que nos chegou. Possivelmente são mais antigas, e talvez descendentes uma da outra. Mas é exatamente sobre isso que desejo falar.

O evento narrado é o mesmo: o Dilúvio, uma inundação universal que destruiu todos os homens e animais, com exceção de um seleto grupo favorito do(s) deus(es), e do qual todos na atualidade do texto seriam então descendentes. Trata-se de algo mitológico - uma estória que fornece explicações - até onde sabemos. A Terra guarda registros de inundações, secas, extinções em massa, habitações humanas. Assim como a Jericó fortificada não existia mais nos tempos em que os Hebreus chegaram na Palestina, também não há evidências de uma grande inundação quando os homens já eram capazes de fazer embarcações. Apesar disso, entre tantos mitos de cada povo e época, o relato do Dilúvio aparece preservado entre culturas muito diferentes, enquanto centenas de outros mitos não foram compartilhados. Mas o que esse relato explica? Porque justamente ele se manteve?

Alguns apontamentos merecem ser feitos. Primeiro, todos os textos falam sobre a divindade extinguir os humanos que Lhe irritavam, por motivos vários. No texto Assírio, o era o barulho que não deixava os deuses dormirem; no Judeu, a terra estava corrompida pela maldade e violência; o mesmo motivo aparece no texto Grego; no texto Islâmico, era a descrença no Deus único. Uma vez que a motivação de divindades só pode ser inferida, e geralmente isso é feito de modo a produzir alguma advertência no presente, vemos que cada povo tinha seus ideais. Os Assírios queriam silêncio, os Judeus e Gregos queriam paz, os Muçulmanos queriam monoteísmo. A ameaça de uma catástrofe costuma ser útil para obter comportamentos. E o conto sobre uma catástrofe punitiva costuma desestimular que as pessoas busquem no seu passado a justificativa para seus atos.

Cada um dos textos também revela detalhes ao leitor sobre a mecânica do mundo, e assim conquista seu interesse. No Assírio, sabemos que os deuses dormem, brigam entre si, podem sentir raiva, medo e tristeza, que alguns controlam grandes reservatórios de água. No texto Judeu, sabemos da ira e do arrependimento de YHWH, assim como seu controle sobre as chuvas e os ventos. Na versão Grega, sabemos da ira e as preocupações de Júpiter, assim como seu parentesco com Netuno e o controle dos raios e águas. No texto Muçulmano, vemos um testemunho do poder de Allah, preocupado com o destino de cada fiel. Esse ensino teológico está contido nas obras maiores onde o conto sobre o Dilúvio foi incrustado para preservar, pela expansão de situações, o pensamento sobre onde perceber a divindade. Nomeando cada personagem e seus poderes, os textos dão ao leitor uma ferramenta para dialogar com quem controla o mundo. Nós não desejaríamos algo assim?

A divindade escolheu o afogamento coletivo como meio para purificar Seu povo. Esse é um ponto comum dos textos - a destruição do mundo pela água. Certamente algo familiar a qualquer povoamento que já tenha passado pela inundação incontrolável das chuvas, dos rios ou do mar. Mas porque não outro meio, como a simples morte de todos, ataque de um povo conquistador, pragas, terremotos ou incêndio? O Antigo Testamento apresenta destruições de nações por todas essas formas. Mas, aqui, era essencial salvar uma testemunha ocular. A água parece mais adequada, então. Essa intenção se torna clara quando vemos que, a despeito do plano de destruir tudo, alguém foi detalhadamente instruído sobre a data do desastre e o modo de escapar (com exceção da versão Grega). No texto Assírio, um dos deuses instrui Utnapishtim (futuro imortal) sobre como fazer um grande barco; esse mesmo meio aparece no texto Judeu, com Noé. Igualmente, a divindade dita medidas e instruções precisas. No texto Muçulmano, o personagem também é Noé, um profeta a quem Allah fala, mas não há esse detalhamento. No texto Grego não há barco, mas simplesmente uma grande montanha, o Parnaso, onde morava Deucalião. Outro detalhe: apenas nos textos Assírio e Judeu (povos mais agro-pastoris) há o comando para salvar animais, indicando uma catástrofe universal.

Foram salvos aqueles mais bem-quistos da divindade. Utnapishtin tinha uma promessa do deus Ea, que o comanda a enganar a população. Não sabemos de onde veio essa promessa. Noé andava com Deus, era justo e perfeito no que fazia (texto Judeu), um "admoestador claro" (texto Muçulmano). Deucalião era da raça de Prometeu, justo e fiel aos deuses do Olimpo (texto Grego). Esses personagens exemplares são o cerne do texto, aqueles em quem o leitor deve se espelhar para não sofrer o castigo divino. E dos quais ele descende - pois todos os outros morreram. Na verdade, o texto Grego aponta que, aqui e ali, alguns outros se salvaram. Assombrosamente, os próprios Gregos seriam filhos das pedras - não deste nobre Deucalião. No texto Muçulmano, mesmo um filho de Noé é tragado pelas ondas, no momento em que creditou a si mesmo a capacidade para escapar.

Após o Dilúvio, é refeito o pacto entre homens e a divindade. Utnapishtin oferece um sacrifício atraente, os deuses Assírios discutem entre si e Enlil se desculpa abençoando os sobreviventes. Noé também oferece um sacrifício e JHWH diz que não tornará a destruir o mundo. Na versão Muçulmana, Allah abençoa Noé e sugere que nem todos morreram (11.48, marcado com *). No texto Grego, o oráculo de um templo enlameado fala a Deucalião, sinal de seu bem-querer no Olimpo. Esse pacto refeito é o sinal de que há esperança para os viventes que ouvem o texto. Eles são filhos de um homem de fé preservado e de um acordo refeito após o fim de todos os desobedientes. Poderia haver situação que melhor combinasse estímulo e ameaça?

É nesse sentido que o mito trabalha - moldando seu leitor. Esse mito, que ultrapassou a fronteira entre as culturas, hoje faz haver pessoas assegurando ter encontrado os restos da Arca, em montanhas diferentes pelo mundo. Ele se mostrou amplamente útil ao ensino. Não podemos dizer que todas as versões sejam exatamente parentes: duas versões são politeístas e duas são monoteístas; enquanto uma versão se preocupa em listar descendentes para assegurar a posse de terras no mundo pós-Dilúvio, outra versão nem mesmo nomeia as pessoas salvas; os nomes dos deuses e personagens nas estórias são radicalmente distintos; muitos outros mitos postos nos mesmos livros não foram copiados. Mas o valor do Dilúvio, talvez transmitido como poema ou canção (essa dissonância do contexto fica clara nos textos Assírio e Grego) o colocou como escolhido para ser lembrado, pois diz ao homem atual que ele descende de um servo amado e que todos os não-servos foram afogados (por motivos variados, é verdade). Portanto, que tome cuidado!

As versões Assíria (onde Utnapishtin de fato se torna imortal) e Judaica vão além, dizendo que todos os animais PERTENCEM ao mesmo povo, pois foram salvos junto com o preferido dos deuses. A versão Grega não é tão exigente; a versão Muçulmana, permeada de outros discursos entre Allah e o Profeta, somente se preocupa com Noé. 

Seria errado dizer que cada povo adaptou o Dilúvio ao seu mundo, com grandes montanhas ou sem elas. Na verdade, parece que cada um fez o seu próprio Dilúvio, com os antecedentes, salvos e pactos que servissem ao propósito educativo do seu próprio mito. Talvez algo tenha vindo de uma versão mais antiga, e muitas partes sejam novas. Mas, uma vez que a estória foi usada, ela moldou pessoas. Os Assírios souberam que um imortal, testemunha dos deuses, habitava a foz dos rios - para o herói Gilgamesh, ele testemunhou que apenas os deuses podiam conceder a imortalidade. Para os Judeus, Noé findou a época dos patriarcas que se dizia viverem milênios ou séculos. Seus filhos também inauguraram 3 raças a colonizar o mundo agora desabitado: Sem deu origem ao povo de Canaã (Semitas), Cam gerou os africanos e Jafé os Persas. Para os Gregos, Deucalião e suas pedras fizeram um povo vigoroso. Para os Muçulmanos, Noé foi um dos muitos que precederam Muhammad em anunciar um Deus único e poderosíssimo. Esse mito também fez alguns mais silenciosos, outros mais tementes aos deuses, ou ao Deus único, e deu a outros uma explicação de porque são fortes. De modos diferentes, o Dilúvio fez a todos que ouviram sobre ele serem mais entrosados com seu mundo espiritual, dentro do medo de que o desastre voltasse a acontecer, cada vez que uma tempestade se formava.

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O QUE LER NUM BARCO CHEIO DE ANIMAIS


A epopéia de Gilgamesh, Ed. Martins Fontes.

Bulfinch, Thomas. O livro da Mitologia: a idade da fábula - São Paulo: Martin Claret, 2020.


segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Sobre a re-escritura da Bíblia

Imagens de um manuscrito Bizantino do final do séc. 12, contendo os 4 evangelhos. As capas dos livros são gravuras dos evangelistas Marcos, Mateus, Lucas e João. As partes em dourado são finíssimas folhas de ouro cortadas e coladas sobre o papel.


versão em PDF

Esse título parece bizarro, eu sei. Como assim reescrever a Bíblia? Um texto de 6000 anos pelo menos? Que loucura é essa?


Espero que de fato isso não aconteça, porque valorizo o texto bíblico. Não que o considere algo gravado por Deus em folhas de papiro, ou um tesouro particular da Antiguidade, mas porque aprendi a ver nele os traços de quem o escreveu. Exista ou não a participação divina nisso, foi um texto feito por homens que acreditavam em Deus e deixaram seu registro dessa crença.


Sobre a participação divina, serei breve. Não é o que vou falar aqui. Mas lembro muito das palavras de um sábio pastor que disse, certa vez, que Deus não escreve com tinta - isso fazem os homens. Deus escreve com as vidas dos homens, e cada um relata sua experiência como a viveu, e como quer que os outros se lembrem dela. A assinatura Dele está lá, nas entrelinhas de tudo, até nos minerais que serviram de corante para fazer a tinta com que os textos foram escritos.


O que pretendo tratar aqui é a re-escritura do texto bíblico por homens, no sentido de refazer ele de acordo com suas realidades. Os Evangelhos passaram muito por isso, a ponto de haver 4 versões deles, pelo menos, desiguais e guardadas juntas, no pacote sagrado que denominamos Novo Tratamento. Deixo já claro que não há nada de original aqui: os textos bíblicos são objeto de estudo desde sua confecção, e apenas compilo informações que outros compilaram, de quem as obteve estudando demoradamente os textos.


Um ponto crítico dos Evangelhos é trazerem um personagem sagrado, Jesus, que não deixou o Seu testamento. Paulo fez isso - deixou um testamento em suas cartas - e tais cartas continuam sendo as cartas de Paulo por quase 2000 anos. Quando não deixou algo escrito, Jesus e seus mais próximos e mais próximas permitiram que outros, bem depois, escrevessem Sua vida por Ele. Biografia póstuma.


Temos uma versão de Jesus no texto de Marcos, outra no texto de Mateus, outra em Lucas, mais uma em João e ainda outras no Alcorão e no Livro de Mórmon. E há muitas outras ainda. Essas versões oficiais tiveram um privilégio não dado a muitos grupos que fizeram suas próprias versões da vida de Jesus. Isso foi reescrever o texto bíblico, muitas e muitas vezes. Algumas reedições já haviam aparecido no VT, por exemplo com Êxodo, Deuteronômio e Juízes sobrepondo suas histórias, também com divergências. Nos Evangelhos, tantas reedições e reformulações são validadas sob o tremendo guarda-chuvas de não haver uma versão "assinada pelo autor".


MARCOS


Marcos foi composto por volta do ano 60 d.C., às pressas, baseado nas estórias que Pedro contava e que foram supostamente redigidas por João Marcos, ex-seguidor de Paulo. Marcos fez isso já como bispo em Alexandria, no Egito. Foi uma versão forte, validada pelo grupo de Cristãos mais antigo, pescadores da Galiléia, e pelo líder organizador que Paulo era. O texto de Marcos foi escrito ainda enquanto a Galiléia dos Zelotes era devastada pelas legiões no começo da 1ª Guerra Judaico-romana. João Marcos precisava apresentar Jesus como filho de Deus, e fez somente isso. O texto termina de forma breve, com Jesus indo para a Galiléia (de onde ele provinha e onde as guerras estavam), investindo os apóstolos de poder e logo indo para sentar-se “à direita de Deus”. Sem mais detalhes.


MATEUS


Mateus ganhou forma na época do cerco de Jerusalém. A cidade sagrada seria devastada pelas catapultas Romanas, uma parcela imensa da população seria exterminada tentando fugir, o Templo seria saqueado, incendiado e demolido. Mateus anunciava um Jesus messias, salvador, um personagem sagrado que viria sobre as nuvens controlando os raios e solidificando os mares. Jesus viria, em outras palavras, salvar Jerusalém como um super-herói enviado por Deus.


Noutros tempos, havia estórias sobre o Anjo-do-Senhor defendendo Jerusalém contra os AssÍrios, e Miguel defendendo o Templo contra os Gregos (2ª Macabeus 3). Jesus agora precisava Se inserir na história Judaica como o enviado de Deus. Por isso, Mateus toma na Íntegra o texto de Marcos. Mas essa narrativa sai das páginas escritas, ganha espaço oral e retorna apresentando Jesus como legítimo descendente do antigo rei Davi, andando sobre o Mar da Galiléia (na verdade um grande lago), proferindo um grande sermão onde convoca os pobres ao Reino de Deus (Mateus 5) e apresentando parábolas onde explica o Seu Reino detalhadamente (Mateus 13). No final de tudo, Jesus aparece ressuscitado em uma montanha sagrada da Galiléia (seria o monte Gerizim, onde ficava o Templo dos Samaritanos?) e comanda Seus discípulos a saírem pelo mundo.


LUCAS


Lucas também traz outra versão de Jesus. Não tão carismática quanto Mateus, porém mais detalhista. Seria o equivalente a uma "versão original", não fosse posterior e de outra origem. Lucas (o texto, não o autor) nasce de um grego andando pelas terras destruídas já em meados do séc. 2. A destruição passou, o Salvador não veio, mas virá. Lucas tem um Jesus que não reúne Judeus, mas sim os pobres.


Lucas 7.22

Respondeu-lhes Ele: Ide anunciar a João o que tendes visto e ouvido: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, aos pobres é anunciado o Evangelho.


Em Lucas, Jesus fala com pessoas de todas as castas sociais -  Fariseus, Centuriões, homens comuns. Jesus reúne as pessoas transitando pelas planícies e até prepara lanches. Lucas é um livro particularmente diferente dos outros porque não encerra sua narrativa com a volta de Jesus: ele a prossegue com um novo capítulo, sobre a reunião da Igreja e o surgimento do grupo comandado por Paulo, aquilo que convencionamos separar e chamar de Atos dos Apóstolos. Nas versões mais antigas, Lucas e Atos eram um único livro..


JOÃO


João também fez sua revisão do Evangelho, marcando um momento e situação bem singulares da Igreja na virada do séc. 1 para o séc. 2. Primeiro, o contato de João (o texto) com Marcos é parcial, bem diferente das outras versões. O que sugere que era o texto base de uma comunidade separada de Pedro e Paulo. A falta de contato na verdade é mais sutil: João parece negar boa parte do que os outros evangelistas apresentam. João Batista é uma figura breve que, no evangelho de João Evangelista, não batiza Jesus. O texto de João também desfaz os ritos que Paulo instituiu (como a Ceia), coloca Jesus em contato com os Samaritanos e desdenha da ancestralidade de Jesus. A repetição do título de Profeta para Jesus até mesmo dá a entender que João seja uma obra Samaritana, pois os Judeus eram repletos de profetas (sendo Isaías o maior deles, depois de Moisés), enquanto os Samaritanos reconheciam apenas Moisés e o Messias.


Outro aspecto de João é a colocação do "discípulo amado". Esse personagem propositalmente anônimo é um "Forrest Gump", sempre no lugar e hora certos. O texto faz parecer que se trata de João Boanerges, filho de Zebedeu, mas no relato herdado de Pedro (dos Evangelhos Sinóticos), esse personagem está sempre em companhia de Simão Pedro e Tiago Boanerges, o que não acontece no evangelho de João. Há bons motivos para supor que o "discípulo amado" é apenas uma criação literária para  reportar as falas de um Jesus também literário, que expressava os pensamentos da comunidade Samaritana uns 70 anos após a morte de Jesus. Era uma comunidade não aceita entre os Judeus e tentando se inserir entre os Cristãos, na medida em que esses deixavam as sinagogas (em João, as Sinagogas são citadas muitas e muitas vezes). Ao contrário da ritualidade "farisaica" do grupo de Paulo, que aparece nos outros textos, João tem pretensões bem mais espirituais e filosóficas.


ALCORÃO


Uma outra revisão bastante notável ocorreu no séc. 7, com a estruturação dos textos que compõem o Alcorão. O texto árabe não é uma narrativa centrada em Jesus, como os Evangelhos, mas tem uma estrutura mais ou menos cronológica - como a Bíblia - onde Ele aparece de forma esparsa em textos como Os Humanos (livro/surata 114, último do Alcorão), As Fileiras (surata 61), O Ferro (surata 57), etc. Como em João, o distanciamento dos textos tradicionais não é casual, mas uma espécie de negativa deles. O Alcorão encontra a Cristandade definida como um império de cultura grega, com capital em Constantinopla, repleto de ritos sagrados, superpoderes e todo tipo de exacerbação das características de Jesus. Por isso, apresenta um Jesus que nega pessoalmente tudo isso: nega sua divindade, nega a Trindade e nega mesmo a Crucificação. O Jesus corânico se parece bem mais aos profetas do VT, anunciando inclusive a vinda de Muhammad ou Maomé.


Esse novo Jesus abraça as tradições Judaica e Árabe sem se oficializar com nenhuma delas, além de textos Cristãos que circulavam e depois foram abandonados pela tradição oficial (como o Evangelho de Barnabé). O profeta Jesus curava e fazia milagres, distanciando-se dos Evangelhos Cristãos não tanto na sua vida, mas nos eventos “fora de sua pessoalidade”, como Seu nascimento (que se dá sob uma tamareira) e sua posição nas tramas divinas. No Alcorão, Jesus simplesmente anunciaria um profeta novo e teria sido levado aos céus em vida (com Judas transfigurado em Jesus e sendo crucificado pela sua própria traição). Jesus foi recebido entre os profetas destinados a voltarem como herdeiros da nova Terra, no fim dos tempos. O significado redentor de Jesus, propagado sobretudo por João e por Paulo, é combatido por essa versão da história. Jesus é profeta, Allah é o redentor.


MÓRMONS


Uma grande revisão mais recente apareceu no séc. 19 e deu origem ao Mormonismo. Inicialmente uma seita Cristã e ainda em processo de vinculação ou desvinculação ao sistema majoritário, os Mórmons introduziram uma nova versão da história Judaica, com um certo Lehi levando "os fiéis" para fora de Jerusalém antes de sua tomada por Nabucodonosor II (587 a.C.). Eles cruzaram a Arábia pela margem leste do Mar Vermelho e depois navegaram através do Golfo de Adem (extremidade sul do Mar Vermelho) ao redor da África e pelo Atlântico, até as Américas, mais especificamente na costa leste dos EUA. Esse novo povoamento Judeu tem sua história descrita no livro deixado por Mórmon, seu último profeta.


Em sua Ascensão, Jesus foi visitar também esse seu outro povo escolhido (Nephitas), que guardou seus ensinamentos a despeito da mentira plantada pelos Cristãos (e, apesar disso, a imensa maioria da cristologia Mórmon é idêntica à descrita nos Sinóticos). Tal povo colono foi extinto no séc. 5 e, claro, os Espanhóis não os encontraram no séc. 16. Finalmente, no séc. 19, um profeta da região foi avisado por um anjo/espírito antigo (Moroni) sobre placas douradas enterradas numa montanha perto de Nova York, a partir das quais ele traduziu todo o livro de Mórmon e recuperou a história esquecida dos seguidores de Cristo, assim como Seus verdadeiros ensinamentos.


A teologia Mórmon é extremamente sensível a ordenações. As pessoas recebem de Deus visões e sabedorias na medida das funções que lhes são atribuídas por autoridades da Igreja. A autoridade eclesiástica, por sua vez, deriva do próprio Joseph Smith, que foi assim investido por Deus e Jesus (em pessoa(s)), o anjo Moroni e os anjos de João Evangelista, Pedro, Thiago Boanerges, etc. Obviamente essa estrutura hierárquica cria um sistema vertical de comando equivalente ao que fez a Igreja Católica medieval.


OUTRAS REVISÕES


Eu citei algumas revisões da vida de Jesus dentre as mais bem documentadas. As revisões sobre entendimento e prática do Cristianismo são inúmeras, indo desde o movimento Franciscano até o apoio das megachurchs a regimes ultradireitistas. Mas tudo o que nos restou daquele culto de 2000 atrás foram textos, e eles mesmos são revisões.


A história da Igreja está crivada dessas re-escrituras do Evangelho. Re-interpretar e re-fazer a história de Jesus, e principalmente o que ele deixou após a morte, tem sido um componente importante  para respaldar - via um texto sagrado, que não poucos julgam escrito por Deus - doutrinas que emergem de um certo Cristianismo e vêem essa versão anterior como franca ameaça. Para que o novo rei possa existir, o antigo precisa ser destruído.


A ameaça do "Cristianismo escrito" é justamente por sua existência enquanto prática (seja lá o que significa dar um mesmo nome a uma multidão de cultos), e não como algo que se possa trancafiar no armário. A história Judaica antiga, por exemplo, deixou de ser ameaça desde que o Templo foi destruído. A partir de então, os Cristãos se nomeiam herdeiros dos Judeus (claro que os Judeus são contra isso, e eventualmente um grupo tentou matar o outro várias vezes), tal como os Muçulmanos (conflitos com Cristãos e Judeus são inúmeros). Os Mórmons se apropriaram da história Judaica mesclando ela com restos de civilizações indígenas ainda visíveis no oeste estadunidense do séc. 19 (no caso, os indígenas americanos seriam os Lamanitas apóstatas, cruéis, etc que um defensor de Cristo não sentiria culpa em matar). Em cada caso, a história de Deus e Jesus contada pelo grupo mais antigo foi dada como falsa, apóstata, demoníaca ou boba


O SURGIMENTO DO CRISTO INSTITUCIONAL


Antes da organização do Cânon Cristão, ou "aquelas obras que são verdadeiras", não se usava uma biblioteca de 5000 anos como obra de referência, como se tudo ali estivesse conectado. Então as muitas obras foram selecionadas por sua conectividade, e organizadas numa sequência lógica que também não foi sua sequência de elaboração, e finalmente tudo pareceu conectado, como sílabas ordenadas para formar uma palavra.


Lá pelos séc. 2 e 3, os livros que hoje são partes da Bíblia eram usados como referência de vários cultos diferentes. O Alcorão nos dá uma margem para pensar que, mais longe de Roma, tais textos sobreviveram em circulação até meados do séc. 7. Hoje, tais obras sacras estão esquecidas como material de devoção e somente são estudadas como peças de museu. Nós as chamamos de apócrifos, palavra que significa “obscuro ou desconhecido”, pois sua leitura era permitida somente aos membros da hierarquia Cristã.


Eles dão uma ideia de outras muitas revisões feitas sobre os Evangelhos, com maior ou menor proximidade entre si, e seria altamente indesejável que os fiéis duvidassem da mão de Deus montando o Cânon tal como foi selecionado. Ou, pior ainda, que acreditasse em tais obras e se desviassem da linha única, central (e podemos dizer intolerante) definida pelo mix Igreja + monarquia. Mais recentemente, acredita-se que até várias mãos e fontes contribuíram para cada Evangelho, sendo Muhammad e Joseph Smith não menos autorizados que eles.


A DUREZA EM ADMITIR FLEXIBILIDADE


Muitos teólogos diriam que não pode haver flexibilidade, e talvez justifiquem isso unindo um versículo de Salomão (séc. 10 a.C.) com outro de Paulo, mil anos depois, ao qual Lucas (seu cronista, em Atos) poderia se opor, além de Jesus. Muito surpreende a variedade de Jesuses e Deuses desenhados a partir da multidão de textos e entendimentos que Os representam aqui na Terra.


Se o texto fornece aprovação ou rejeição, é preciso que o divino fale com seus fiéis? Isso faria alguma diferença? E se o que as pessoas escutam de Deus também é loucamente variável, indo da caridade irrestrita ao apedrejamento do próximo e a automutilação, é realmente um único Deus lhes falando? Se divertindo, talvez? Essas são apenas algumas perguntas provocativas, e de uma provocação bem desdenhada há tempos, se pensarmos num(s) texto pétreo, feito e refeito para ser o entreposto entre a palavra de Deus e a mente humana. O texto não deixou, afinal, muita liberdade para Deus falar.


O assunto é especialmente sério porque esse texto, inicialmente de alguma forma disperso e variante, mesclado com a experiência e a necessidade humanas, foi recortado, colado e interpretado como um compêndio de leis. Curiosamente, se trata da(s) narrativa(s) de vida de alguém executado como fora-da-lei.. A partir de um pária agindo segundo o Amor, a lei Cristã em certo tempo ganhou o poder de ser imposta por bem - que Deus o faça - ou por mal - esse eu mesmo farei - se as pessoas não concordam com o trato. Jesus representava a autoridade de Deus, e seus representantes levavam a autoridade Dele. A autoridade vigora por poder e força, passando por cima das vontades pessoais. Mas não é o detentor de todo poder que transforma as pessoas em obedientes (há livre arbítrio!), nem quem as pune porque o arbítrio não é tão livre assim. Quem pune é a Igreja.


A Igreja deve punir para que não seja punida, uma espécie de esquema militar com Deus no quartel general blindado duma capital, enquanto a Igreja é Seu exército e os fiéis a Sua linha de frente contra o resto do mundo. Essa ideia traduz as melhores literaturas religiosas, desde que o Evangelho de João fala assim. Mas em momento algum os Joaninos foram maioria, em momento algum se serviu vinho nas festas da Igreja e raro se ensinou os fiéis a lavarem os pés uns dos outros. O exército chamado Igreja (a série britânica Doctor Who fez questão de retratar a Igreja do séc. 40 assim), se invocarmos a história de uns 2000 anos para trás, raras vezes esteve armado com qualidades celestiais contra o sofrimento, a fome, a destruição da Natureza ou o desdém e exploração de uns pelos outros. Costuma ser um exército contra as outras religiões, contra os desvios do grupo. Todo bem ou prosperidade ou felicidade que possa advir vêm da fidelidade militar ao grupo, e não tê-los dentro do grupo já é um indício de infidelidade. Tê-los fora do grupo é abominação.


No meio de tantas revisões da experiência de Cristo na Terra, ou dos contatos de Deus com o mundo humano, como exercemos a nossa liberdade de escolher e contar essa experiência? Será que podemos argumentar que não somos (a Igreja) um grupo heterogêneo lutando por si mesmo, e mais tarde (?) entre si? Será que Jesus não poderia ter escolhido divulgadores mais parecidos ou que fossem capazes de dizer “A paz esteja convosco” uns para os outros, como Ele mesmo fazia?


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TEXTOS TRANCAFIADOS NA TORRE INVISÍVEL


Alcorão online em português

Chambers TL, New Testament words and quotations in the Book of Mormon, IOSR Journal Of Humanities And Social Science (IOSR-JHSS), v. 22, n.2, p.120-147, 2017.

Livro de Mórmon online

Pelos muitos caminhos de Deus - Desafios do pluralismo religioso à Teologia da Libertação, ASETT, Ed. rede, 2003.

Reynolds NB, The Gospel according to Mormon, Interpreter: A journal of Latter-day Saint Faith and Scholarship, v.29, p. 85-104, 2018.

* Vasconcellos PL, Curso Jesus na História, canal Paz e Bem, 2020.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Guerras Desreligiosas

Cerco da cidade of Acre - 1291, pintura de Dominique Papety (1815–1849). Embora as Cruzadas até hoje vigorem como maior empreendimento da Igreja, seu propósito e desenrolar não se amostram de forma alguma nos ensinamentos de Jesus.

Texto adaptado de David L. Perry, 'Ética ao meio-dia', ciclo de palestras realizadas na Universidade de Santa Clara em 25 de setembro de 2001. Perry foi professor de Estudos Religiosos e diretor do Programa de Ética no Centro Markkula de Ética Aplicada, Universidade de Santa Clara.

Provérbios 6
"Seis Coisas há que o Senhor odeia e uma sétima que lhe é abominação: olhos altivos; língua mentirosa; mãos que derramam sangue inocente; um coração que maquina projetos perversos; pés pressurosos em correr ao mal; um falso testemunho que profere mentiras e aquele que semeia discórdias entre irmãos".

Cristãos, Judeus e Muçulmanos compartilham a crença em um Deus compassivo e justo. Suas comunidades geralmente homenageiam pessoas que exemplificam a bondade e o compromisso corajoso com a justiça, ambas características de seu Deus. Por isso, a grande maioria dos Muçulmanos, como seus colegas Judeus e Cristãos, fica horrorizada e enojada com o terrorismo.

TEMPOS TENEBROSOS

Apesar dos nobres ideais, o passado das 3 religiões, conta histórias terríveis que frequentemente são motivo de repulsa pelos ateus, outros grupos religiosos não raro entre eles.

Os Judeus supostamente aniquilaram, sob o comando de Deus, os povos Cananeus (ex. Moabitas, Amonitas, etc) entre os sécs. 14 e 10 a.C.¹ Os livros de Êxodo e Josué, imortalizados na Bíblia e na Tanakh, tratam justamente sobre isso - Deus, desgostoso com os povos Cananeus, deu sua terra aos Hebreus que estavam saindo de um período de escravidão no Egito. Para ocupar o vale fértil ao redor do rio Jordão, que já tinha moradores, os Hebreus 'passaram ao fio da espada' homens, mulheres, crianças e até o gado do território ao redor do Mar Morto e a margem oeste do rio, até as terras a leste do grande Lago da Galiléia.

Os Cristãos foram bastante perseguidos por apresentarem um deus novo² entre os sécs. 1 e 3. Lá pelo séc. 4 eles aliaram-se a Roma e passaram a justificar, pelo comando da Igreja, os empreendimentos militares Romanos. No final do séc. 11, isso chegou a sua apoteose com os assaltos ao Oriente Médio, para reconquistar a Terra Santa. O então papa Urbano II, num discurso famoso no Concílio de Clermont-Ferrand, no centro da Franca, convocou os reis Cristãos a recuperar as terras da Antiga Igreja no Oriente Médio. Ele supostamente declarou também que as terras Muçulmanas eram 'TERRA NULLIUS', sem dono, e por isso podiam ser reclamadas por qualquer rei Cristão que as tomasse. Como consequência disso, as expedições ao Oriente Médio não fizeram menos que banhar em sangue os cavaleiros medievais.

Os relatos do estudioso Ali Ibn al-Athîr no lado Muçulmano e os padres Albert de Aix-la-Chapelle (relatos dos cavaleiros), Ralph de Caen e Fulcher de Chartres (participantes da 1ª Cruzada), nos lados Normando e Francês, nos contam que nalgumas batalhas os vencidos foram mortos até o último deles, homens, mulheres e crianças, a ponto de haver sangue nas ruas até os tornozelos, além de eventualmente serem empalados ou até assados vivos e comidos pelos cavaleiros. Para quem pensar em homens agindo pela barbárie, independente da fé, todas essas investidas foram acompanhadas, abençoadas e depois relatadas por padres juntos dos exércitos.

Os Islâmicos não foram menos agressivos durante a sua expansão, a partir de Medina. As batalhas de Badr (624 d.C.) e das Trincheiras (627 d.C.) terminaram com a decapitação de todos os dissidentes do Profeta. Outro exemplo foi a batalha de al-Qadisiyah, travada uns 5 anos depois, entre o Califa Umar ibn al-Khattāb (2º Califa, após Muhammad e Abu Bakr) e o Império Persa Sassânida (zoroastrista) pelo controle do que hoje é o Iraque. No séc. 14, o historiador Ibn Battuta referiu que a cidade, outrora grandiosa, havia sido reduzida a uma vila frequentada por mercadores. Na batalha do séc. 7, primeiro o Califa mandou um ultimato ao rei Persa exigindo sua conversão ao Islã (dado sua inferioridade de força) e chamando os Persas de adoradores do fogo. Esse ultimato foi respondido com a afirmação de que o fogo representava aos Persas o que havia de mais positivo em seu deus Ahura Mazda, que os Árabes haviam sido pobres e selvagens no passado. Depois disso, já em negociações de guerra, o general Persa ofereceu provisões ao general Islâmico, dizendo saber que eram pobres. A oferta foi recusada, al-Qadisiyah tomada, grande parte da população trucidada, outra parte convertida à força, e outros ainda foram banidos para oeste, se fixando no centro do deserto Iraniano, onde hoje está a província de Yetz, ou seguindo até Bombay, na Índia. Considerando as metodologias dos Islâmicos, seria justo dizer que foram menos violentos que os Cristãos que os sucederiam, séculos mais tarde.

AS VIOLÊNCIAS MODERNAS

Hoje, investidas violentas em nome do Judaísmo são raríssimas (as investidas existem, porém com declarada motivação política). Em nome dessa política, a atividade militar em Israel parece às vezes recuperar a agressividade da Guerra Fria, incluindo a manipulação por governos estrangeiros.

As violências do Cristianismo geralmente são disfarçadas. Estão principalmente restritas às zonas mais tradicionais e menos desenvolvidas do oeste Africano; como sempre, de forma aliada a empreendimentos militares de Estados não tão simpáticos à própria população. Isso sem contar o financiamento de exércitos dos EUA pelas principais igrejas, além de certos regimes populistas ao redor do mundo.

As investidas do Islã, embora manifestando publicamente suas pretensões teológicas - das quais os piores exemplos são Boko Haram e Estado Islâmico - não costumam ser sansionadas pela Comunidade Islâmica internacional. Por outro lado, os países onde esses grupos transitam também não fazem muito para contê-los.

A VISÃO POPULAR DA BARBÁRIE

Por que, então, alguns membros de comunidades religiosas professando um deus de amor, justiça e caridade acreditam que é sua obrigação moral empreender guerras, aniquilar inocentes em nome de Deus? Que aspectos de suas escrituras e tradições tendem a apoiar a violência contra "infiéis"? Que princípios éticos - religiosos e não religiosos - podemos afirmar em resposta a às idéias e atrocidades que elas às vezes geram?

A religião claramente não é o único, nem o principal catalisador da violência indiscriminada. Por exemplo, apenas alguns dias antes dos ataques de 11/09/2001 nos EUA, um jovem da região de Sacramento matou toda a família e entrou para a lista dos mais procurados pelo FBI. Exércitos não costumam ser liderados por profetas, mas por líderes políticos. Esses líderes e seus seguidores parecem capazes de todo tipo de lógica que justifique matar, sem recorrer à vontade de Deus, exceto para estampar bandeiras e discursos. E algumas das atrocidades mais terríveis da história estão enraizadas não na religião em si, mas no ódio racial ou de classe. Pode até haver uma tendência em nossa espécie, como em nossos parentes chimpanzés, de atacar e matar só porque alguém "não é um de nós". (Wrangham e Peterson)

Mas a violência religiosa pode assumir um caráter particularmente intenso e cruel, se os objetos dessa violência são vistos como blasfemando ou insultando a Deus. Às vezes, fazendo isso por simplesmente levarem suas vidas como sempre fizeram. O problema da guerra santa no Judaísmo, Cristianismo ou Islamismo é que eliminar os "diferentes" está profundamente enraizado em suas tradições e história, mesmo que não esteja nas suas sagradas escrituras. As mesmas tradições religiosas que afirmam que Deus é compassivo, misericordioso e justo também retratam como heróis os líderes do passado que massacraram povos em nome de sua fé. Precisamos encarar essas propagandas de frente e questionar a justificativa moral da guerra santa.

A  BÍBLIA FALANDO DE GUERRA

Um dos mandamentos mosaicos proíbe o assassinato (Êxodo 20.13). Por que o assassinato está errado, além do óbvio conflito com o amor ao próximo?

Levítico 19
17. Não odiarás o teu irmão no teu coração. Repreenderás o teu próximo para que não incorras em pecado por sua causa.18. Não te vingarás; não guardarás rancor contra os filhos de teu povo. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor.

Essencialmente, porque as pessoas são feitas à imagem de Deus (Gênesis 1.26-27, 9.6). Pode-se inferir dessa ideia que nenhuma matança de pessoas seria permitida, um dever absoluto de não matar pessoas. Mas não foi isso que os antigos Hebreus concluíram. Muitas ofensas estavam sujeitas à pena de morte  (veja exemplos em Êxodo 21-22). Portanto, talvez possamos interpretar a idéia da imagem de Deus como um direito básico de as pessoas não serem mortas. Mas podemos prendê-las se cometerem um crime suficientemente grave. Isso também seria consistente ao punir apenas os culpados de crimes (Deuteronômio 24.16) e limitar o uso de força mortal à defesa de pessoas inocentes ou de si mesmo. Provavelmente, é isso que a maioria dos Judeus e Cristãos afirma hoje.

Mas punições coletivas e guerra também foram ordenadas ou aprovadas na Bíblia Hebraica, especialmente em casos de idolatria. O primeiro dos mandamentos mosaicos proibiu os israelitas de adorar outros deuses além do Senhor. Deus exigiu pureza e estrita obediência, e a idolatria e a blasfêmia foram punidas com a morte (Êxodo 20.3, 5). Os não-israelitas que viviam na área de Canaã foram vistos como uma grande tentação para eles abandonarem sua fé, e justificou o massacre de comunidades inteiras (Deuteronômio 20.10-18).

Suas guerras santas eventualmente inspiraram guerras semelhantes muitos séculos depois por Cristãos que admiravam os guerreiros do AT como Josué: "[o exército de Josué matou todos em Jericó], homens e mulheres, jovens e velhos, bois, ovelhas e burros ... Josué derrotou toda a terra ... ele não deixou ninguém remanescente, mas destruiu completamente tudo o que respirava, como o SENHOR Deus de Israel havia ordenado". (Josué 6.21 e 10.40)

A DUALIDADE GUERRA-PAZ NO ALCORÃO

Na tradição islâmica, há uma mistura semelhante de valores que restringem a guerra, juntamente com outros que a promovem. O Alcorão se refere repetidamente a Deus como compassivo e justo. Também diz que "não há compulsão na religião" (2.256): a submissão a Deus deve ser livremente escolhida, não forçada. O Alcorão pede aos Muçulmanos que usem a "bela pregação" para persuadir as pessoas a aceitar o Islã e que "argumente 'bem" com Judeus e Cristãos, que são vistos como adorando o mesmo Deus.

16.125 Convoca [os homens] à senda do teu Senhor com sabedoria e uma bela exortação; dialoga com eles de maneira benevolente, porque teu Senhor é o mais conhecedor de quem se desvia da Sua senda, assim como é o mais conhecedor dos encaminhados.

29.46 E não disputeis com os adeptos do Livro, senão da melhor forma, exceto com os iníquos, dentre eles. Dizei-lhes: Cremos no que nos foi revelado, assim como no que vos foi revelado antes; nosso Deus e o vosso são Um e a Ele no vis submetemos.

Esta é provavelmente a atitude da maioria dos Muçulmanos hoje. As comunidades Judaica e Cristã têm sido frequentemente toleradas e protegidas pelo domínio Muçulmano.

Diz-se que Muhammad praticou a não-violência no início de sua carreira profética, mas logo passou a acreditar que Deus ordenava o uso da força, não apenas em defesa de sua crescente comunidade religiosa, mas também na forma de Jihad ofensiva para expandir o território do Islã. (Kelsay; Firestone)

22.39 Ele permitiu (o combate) aos que foram atacados; em verdade, Deus é Poderoso para socorrê-los. 40 São aqueles que foram expulsos injustamente dos seus lares, só porque disseram: Nosso Senhor é Deus! E se Deus não tivesse refreado os instintos malignos de uns em relação aos outros, teriam sido destruídos mosteiros, igrejas, sinagogas e mesquitas, onde o nome de Deus é freqüentemente celebrado. Sabei que Deus secundará quem O secundar, em Sua causa, porque é Forte, Poderosíssimo.

A palavra Jihad, a propósito, significa luta ou esforço. A Jihad pode se referir à luta do Muçulmano individual para conformar sua vontade à de Allah, ou a um esforço pacífico para convencer os outros a aceitar o Islã. Mas a Jihad também pode significar guerra santa. De fato, há um sentido em que a única guerra completamente justa em termos Islâmicos é uma guerra santa, uma vez que precisa ser aprovada pelas autoridades religiosas apropriadas e travada para defender ou promover o Islã ou a comunidade muçulmana. (Kelsay; Johnson)

Apesar da declaração do Alcorão contra forçar a religião de outras pessoas, os líderes Muçulmanos às vezes ameaçam matar os incrédulos se não aceitarem o Islã (Peters). Embora o Islã tenha se espalhado para algumas partes do mundo como a Indonésia principalmente por meio de "belas pregações", boa parte de sua expansão em outros lugares se deveu a guerras ofensivas, primeiro por Muhammad para unificar a Arábia, depois por seus seguidores na conquista da Palestina, Síria, Iraque, Pérsia, partes da Índia, norte da África, Espanha, Turquia e Balcãs.

Muhammad e seus sucessores expressaram algumas regras morais importantes para as guerras santas: mulheres, crianças e idosos não deveriam ser atacados diretamente (embora pudessem ser escravizados). A Jihad não deveria ser uma guerra envolvendo assassinatos.

Mas líderes Muçulmanos foram autorizados a matar todos os soldados capturados e civis do sexo masculino, se não fossem Muçulmanos ou tivessem abandonado o Islã. O fato de você ser um civil ou um soldado que se rendeu não necessariamente o protegeria de ser morto após o término de uma batalha. Assim, o Islã tradicionalmente não possuía um princípio genérico de imunidade aos não combatentes. Hoje, entretanto, muitos líderes muçulmanos defendem esse princípio. (Kelsay; Johnson)

Certamente, os Muçulmanos são tão propensos quanto Cristãos e Judeus a ver em suas escrituras sagradas apenas o que desejam, ignorando outras passagens que contradizem suas crenças preconcebidas. Alguém deduzindo um mandato de guerra a partir do ayat 9.5, "Mate os idólatras onde quer que os encontre", só poderia fazê-lo ignorando o contexto histórico específico dessa passagem. 

9.1 Sabei que há imunidade, por parte de Deus e do Seu Mensageiro, em relação àqueles com quem pactuastes, dentre os idólatras. 2 Percorrei (ó idólatras) a terra, durante quatro meses, e sabereis que não podem frustrar a Deus, porque Ele aviltará os incrédulos. 3 E eis aqui a advertência de Deus e de Seu Mensageiro aos homens, para o dia da grande peregrinação: Deus e seu Mensageiro não são responsáveis pelos idólatras. Se vos arrependerdes, será melhor para vós; porém, se vos recusardes, sabei que não podereis frustrar Deus! Notifica, pois, aos incrédulos, que sofrerão um doloroso castigo. 4 Cumpre o ajuste com os idólatras, com quem tenhais tratados, e que não vos tenham atraiçoado e nem tenham colocado ninguém contra vós; cumpre o tratado até à sua expiração. Sabei que Deus estima os tementes. 5 Mas quando os meses sagrados do pacto houverem transcorrido, matai os idólatras, onde quer que os acheis; capturai-os, acossai-os e espreitai-os. Caso se arrependam, observem a oração e paguem o zakat, abri-lhes o caminho. Sabei que Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo.

Versículos em outros lugares exigem usos defensivos e limitados da força, como no ayat 2.190: "Combatei pela causa de Deus aqueles que vos combatem; porém, não pratiqueis agressão, porque Deus não estima os agressores".

PACIFISMO JUDAICO-CRISTÃO

Voltando ao Cristianismo, sua história inicial foi caracterizada por uma forma bastante estrita de pacifismo, reunindo Judeus e Gregos, soldados, cobradores de impostos, etc. Essa abordagem deu lugar lentamente a uma aceitação da violência em defesa dos inocentes, entre os sécs. 4 e 8. E, infelizmente, alguns líderes cristãos acabaram advogando a força contra hereges e infiéis, e até guerra no interesse de defender e expandir a fé, diga-se bem, as terras de reis Cristãos, nos sécs. 10 a 16. (Bainton)

Apesar do teor amoroso e pacífico de seus ensinamentos e do exemplo geral, mesmo Jesus demonstrou raiva na ocasião em que confrontou os comerciantes no Templo (João 2. 13-16). O Rabi também mostrou seu parentesco com João Batista ao destilar palavras duras contra Saduceus e Fariseus, as quais Ele não chegou usar contra possessos por demônios.

Não há sinal de que Jesus repelisse militares; mas nenhum deles, até onde se sabe, o acompanhava de fato. Essa mesma não-repulsa aos militares aparece entre Pedro e Paulo.

Paulo, em Romanos 13, declarou: "Toda pessoa fique sujeita às autoridades governantes. Pois não há autoridade exceto de Deus, e as que existem foram instituídas por Deus". Este texto foi citado por muitos Cristãos posteriores como justificativa divina para a força militar. A situação ficou entretanto complexa para os Cristãos, quando a tarefa dada por Jesus era 'ide e pregai' mas as autoridades Romanas insistiram em proibir isso. E ficou especialmente fora de contexto quando as autoridades usavam exércitos Cristãos para matar, conquistar e destruir.

Jesus estabeleceu padrões éticos muito altos para seus seguidores, incluindo uma disposição ilimitada de perdoar más ações, não retaliação contra o mal e amor aos inimigos (Mateus 5). Três dos evangelhos dizem que Ele repreendeu Pedro por usar uma espada para defendê-lo, quando foi preso. Muitos de seus primeiros seguidores parecem ter interpretado as ordens de Jesus de proibir todos os usos da força pelos Cristãos, mesmo em defesa dos inocentes.

Paulo ecoou a mensagem de não-violência de Jesus em sua carta aos Romanos, cap. 12: "Não retribuis a ninguém o mal pelo mal ... nunca se vinguem". Mais de 1 século depois, Tertulliano argumentou que ocupar cargos públicos e ser soldado exigiria inevitavelmente ações proibidas aos Cistãos; em sua opinião, "é mais permitido ao Cristão ser morto do que matar". Hipólito também pensava que os Cristãos não deveriam se juntar ao exército; mas se eles já estavam no exército, eles deveriam desobedecer às ordens de matar.

A NOVA ONDA DO CRISTIANISMO

Embora alguns Cristãos tenham servido como soldados romanos durante o início da história da Igreja, ocorreu uma mudança muito significativa no pensamento Cristão sobre a guerra no séc. 4, quando o imperador Constantino começou a usar o Estado Romano para apoiar a Igreja. Segundo o bispo Eusébio de Cesaréia (265-339 d.C.), o pacifismo Cristão deveria ser estritamente para clérigos, monges e freiras; os Cristãos leigos poderiam se obrigados a defender o Império pela força. (Bainton; Swift)

Ambrósio de Milão (340-397 d.C.), outro bispo importante da época, sustentou que os Cristãos não poderiam usar a força em legítima defesa pessoal. Mas ele também achava que o amor Cristão implicava o dever de usar a força para defender terceiros inocentes - de fato, um Cristão que se recusasse a impedir ferimentos a outra pessoa seria tão ruim quanto aquele que o infligia. Ambrósio mudou o foco da preocupação moral Cristã do ato de violência para a atitude do agente: os soldados Cristãos deveriam amar seus inimigos, mesmo quando os repelissem com força mortal! Com efeito, Ambrósio "batizou" as virtudes militares romanas para fins Cristãos: 'arriscar a vida para defender o Império' tornou-se corajoso, justo e nobre para os Cristãos. (Ibidem)

Mas ele e seu famoso aluno Santo Agostinho (354-430 d.C.) também acreditavam que deveria haver limites morais à guerra. Mesmo nos casos em que Agostinho considerava a guerra o menor dos males, ele considerava a morte como trágica, exigindo sempre uma atitude de luto e arrependimento por parte dos Cristãos. Em parte devido à sua influência, durante a maior parte do período medieval, matar na guerra foi considerado um pecado muito sério. Se um soldado Cristão matasse um soldado inimigo, mesmo em uma guerra considerada justa, o soldado Cristão teria que fazer penitência pelo assassinato, geralmente em jejum e oração por um ano ou mais. (Verkamp)

A partir do século 8, já com a antiga Roma suplementada pela nova capital Constantinopla e os reinos do Oeste sendo unificados pela Igreja pós-Carlos Magno, ocorreu outra importante evolução do pensamento Cristão. Matar os incrédulos foi declarado pelos papas Leão IV e João VIII como espiritualmente benéfico para os soldados Cristãos: seus pecados poderiam ser apagados se eles matassem em defesa da Igreja. No ano de 1095, o Papa Urbano II lançou a Primeira Cruzada, solicitando os líderes europeus a resgatar as terras sagradas Cristãs de seus ocupantes não-cristãos. Ele se referiu aos Muçulmanos que controlavam a Palestina como uma "nação impura" que poluiu os lugares sagrados Cristãos. Matar Muçulmanos tornou-se uma forma de penitência para os Cristãos, pela remissão de seus pecados!

As regras morais que governavam a conduta da guerra foram abandonadas e táticas ilimitadas foram permitidas em nome da fé. Em nome daquele Galileu pacifista! Ninguém estava imune ao ataque de cruzados Cristãos; cidades inteiras foram massacradas.(Halsall)

SOBRE A ÉTICA DE BATALHAS

Tragicamente, alguns defensores da guerra religiosa ainda podem ser encontrados no Judaísmo, no Cristianismo e no Islamismo. O que eles não podem legitimamente reivindicar, porém, é que sua posição é a expressão autêntica de sua fé. Toda tradição religiosa importante contém princípios éticos incompatíveis com a guerra.

Pessoas de todas as religiões podem concordar, espero, que civis inocentes nunca devem ser diretamente alvejados; que armas e táticas nunca devem ser usadas de maneira a produzir grandes baixas civis; que soldados capturados não devem ser torturados ou executados, mas tratados humanamente. Espero também que, em nossa atual crise, possamos resistir à tentação de desculpar o assassinato "indireto" de pessoas como "dano colateral" de uma "necessidade militar ".

Explicitamente no campo religioso, um passo necessário para alcançar um consenso sobre essas coisas é o reconhecimento e o repúdio de valores às vezes enraizados nas escrituras e tradições religiosas. Muitas delas foram forjadas num ambiente de guerra, em que o diferente era tratado como ameaça e fazer isso seria aprovado pela sua versão particular de Deus. Essa versão espelharia a luta humana, girando conta as versões de outros. 

Das principais religiões no mundo, a mais antiga e mais escriturada desses valores é o Judaísmo. Eles tiveram tempo suficiente para abandonar tais práticas. Absorver os textos antigos de uma época de barbárie e trazer a barbárie extinta de volta, pretendendo com isso agradar a Deus, não parece sensato. É como se obrigar a viver de leite materno, sendo adulto, porque Deus te fez assim no início.

Em muitos cultos Cristãos, é uma prática comum alguém ler em voz alta uma passagem da Bíblia e indicar o final da passagem dizendo: "A Palavra do Senhor", após a qual a congregação responde: "Graças a Deus". Imagine que você está sentado em sua congregação respeitosa, ouvindo as seguintes leituras:

"Cantarei louvores ao teu nome, ó Altíssimo. ... Com efeito, perseguistes as nações, destruístes o ímpio; apagastes, para sempre, o seu nome. Meus inimigos pereceram, consumou-se sua ruína eterna; demolistes suas cidades, sua própria lembrança se acabou. ... O Senhor é rei eterno, as nações pagãs desaparecerão de seu domínio" (Salmo 9)

"O rei confiou no Senhor, que não será abalado. Que tua mão, ó rei, apanhe teus inimigos, atinja os que te odeiam.Tu os tornarás como fornalha ardente, quando apareceres diante deles. Que o Senhor em sua cólera os consuma, e que o fogo os devore. Que faça desaparecer da terra a posteridade deles, e a sua descendência dentre os filhos dos homens". (Salmo 21)

Essas palavras terríveis podem e já foram usadas para inflamar populações a ir para a guerra. Muitas vezes, contra um 'inimigo' que não as estava atacando. Outras:

"Quantas populações de cidades exterminamos por sua iniqüidade, e suplantamos por outras? ...Disseram: 'Ai de nós!' Em verdade, fomos iníquos! E não cessou esta sua lamentação, até que os deixamos inertes, tal qual plantas segadas" (Sura 21)

Nos escritos Judeus e Islâmicos, há situações em que agredir é justificado. Mas essa agressão deve parar com a submissão do agredido. Seja aqui ou lá, entre Judeus, Cristãos ou Muçulmanos, os textos sagrados passaram pela guerra e pela paz, trazem instruções de sabedoria, sobre tolerância e amor, mas também instruções de ódio e destruição. É difícil julgar situações de milênios atrás, se seria melhor isso ou aquilo, porque não sabemos e nunca poderemos saber como seria o mundo transcorrido de outra forma.

Também é complexo juntar tudo - amor, justiça e o comando de matar a todos - num único Deus. Mas sempre é uma escolha dentro de todo o texto sagrado, já íntegro, pegar essa passagem ou aquela. Qual for escolhida fará toda a diferença sobre como o não seguidor do seu Deus vai ver você que O segue, se vai sentir-se querendo abraçar essa idéia ou se vai se proteger. Maior ainda é a responsabilidade de autoridades religiosas que inspiram as atitudes daqueles que os seguem.

Considere a possibilidade de que, havendo ensinamentos de paz e compaixão nas escrituras sagradas, você não blasfema ou insulta Deus ao tomar esses princípios morais e não aqueles. Dizer o que Deus faria ou deseja é bastante presunçoso da parte de qualquer homem e, geralmente, quem o faz tem seus próprios ganhos a partir do sacrifício de outros.

ALGUNS PENSAMENTOS FINAIS

Se pudermos concordar juntos na rejeição da guerra, ainda assim precisamos lutar com algumas perspectivas éticas conflitantes sobre o uso da força.

De acordo com os Evangelhos de Mateus e Lucas, Jesus disse para "dar a outra face" quando atingido, para não resistir ao mal ou retaliar contra ele. Mas é realmente errado usar a força para defender uma pessoa inocente (incluindo você mesmo) contra um agressor injusto e violento? E não é correto prender e aprisionar pessoas que cometem crimes horríveis? Observe que um sistema de justiça criminal quase sempre exige algum grau de força usada para manter a ordem.

Também de acordo com os evangelhos de Mateus e Lucas, Jesus disse para amarmos nossos inimigos, pois amar aos amigos todo mundo consegue. Mahatma Gandhi (Hindu, 1869-1948) e Abdul Ghaffār Khān (Muçulmano, 1890-1988), Martin Luther King Jr. (Cristão, 1929-1968), Chen Alon (Judeu, 1967-) e muitos outros mostraram que é possível converter alguns inimigos em amigos através de respostas não violentas à injustiça. Mas seria possível amar mesmo um inimigo que te ataca?

Eu posso optar por amar ou perdoar meus agressores se eles mostrarem remorso. Talvez eu possa ser moralmente obrigado a fazê-lo. Mas tenho o direito de amar ou perdoar alguém que mata ou estupra outra pessoa? O personagem Ivan, de Fyodor Dostoevsky, no capítulo "Rebelião" de Irmãos Karamazov, conta diversos casos sobre crianças brutalmente torturadas por soldados, por terceiros, pelos próprios pais, e emenda que ele pode entender o castigo aos adultos, que comeram do fruto proibido e conheceram o bem e o mal, tentando ser como deuses. Mas que não poderia aceitar jamais um Deus que castiga crianças despidas até mesmo desse pecado original, que abraçavam seus torturadores.

Em suma, se a compaixão deve moderar nossa fúria e nos impedir de travar guerras, também haverá momentos em que a justiça deve anular a nossa misericórdia?

Pós-escrito: Na discussão pública após o meu discurso, os colegas do corpo docente sugeriram que era necessária uma definição de "amor". Aqui está o que proponho que seja incluído nesse conceito: sentimentos benevolentes em relação a pessoas específicas; um desejo de que eles floresçam, que consigam coisas boas e sejam felizes; empatia pelo sofrimento deles; respeito por sua dignidade, direitos e autonomia racional. Com esse conceito em mente, considere novamente se é possível amar um  inimigo e, se sim, se somos moralmente obrigados a fazê-lo.

Fontes citadas:

Abdullah Yusuf Ali, O Significado do Sagrado Alcorão (Amana Publications, 1989).

Roland Bainton, Atitudes Cristãs em relação à Guerra e à Paz (Abingdon Press, 1960).

Reuven Firestone, Jihad: A Origem da Guerra Santa no Islã (Oxford University Press, 1999).

Paul Halsall, coleção de textos da era das Cruzadas, http://www.fordham.edu/halsall/sbook1k.html

James Turner Johnson, A idéia da guerra santa nas tradições ocidentais e islâmicas (Pennsylvania State University Press, 1997).

John Kelsay, Islam and War (Westminster / John Knox Press, 1993).

A Nova Bíblia Anotada de Oxford: Nova Bíblia Inglesa Revisada com os Apócrifos (Oxford University Press, 2001).

Rudolph Peters, Jihad no Islã Clássico e Moderno (Markus Wiener, 1996).

Louis Swift, Os Primeiros Pais na Guerra e no Serviço Militar (Michael Glazier, 1983).

Bernard Verkamp, O tratamento moral dos guerreiros que retornam no início dos tempos medievais e modernos (Universidade de Scranton Press, 1993).

Richard Wrangham e Dale Peterson, Homens Demoníacos: Macacos e as Origens da Violência Humana (Houghton Mifflin, 1996).

Outras leituras recomendadas:

Anthony Coates, A Ética da Guerra (Manchester University Press, 1997).

John Ferguson, Guerra e Paz nas Religiões do Mundo (Oxford University Press, 1977).

Peter Harvey, Uma Introdução à Ética Budista (Cambridge University Press, 2000), cap. 6, "Guerra e Paz".

David Perry, uma lista de sites recomendados sobre ética e guerra,

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LITERATURA DOS DEMÔNIOS PAGÃOS

Abraão em questão, loungecba.blogspot.com, mar/2018.
Jackson AVW, Perdida, past and present, The Zoroastrians of Yezd (Chapter 23), 1906.
Yucel CK, Worship my true god or die, exmuslimsofnorway.com

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¹ Os rastreamentos genéticos sugerem algo diferente. Aparentemente, os Judeus de hoje são 94% semelhantes com os esqueletos Cananeus anteriores a 1400 a.C. Isso sugere não uma substituição de populações, mas uma mistura delas ou simplesmente a troca de identidade nacional, religião, etc, sem mudar os moradores do local.

² Segundo as próprias escrituras religiosas, o Deus louvado por Judeus, Cristãos e Muçulmanos e único, compartilhando uma mesma hagiografia e, portanto, o mesmo. Nas zonas pacificamente ocupadas por mais de um grupo, as conversões sempre foram comuns. As formas de culto diferentes, no entanto, muitas vezes fizeram com que um grupo matasse os do outro sob o nome de infiéis.