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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Cultivando um vício


Mais uma vez apelando ao antigo Imitação de Cristo, achei que seria útil discutir um pequeno trecho desse livro à luz da Bíblia.

Para quem perdeu postagens anteriores, o Imitação de Cristo é um livro formado por 4 manuscrito feitos provavelmente entre 1220-1240 por João Gersen, abade do mosteiro de S. Estevão, em Vercelli (Itália). Os manuscritos originais foram depois organizados por Tomás de Kempis no séc. 15. Ele foi usado em larga escala para o ensino religioso em toda Europa, como uma espécie de “código” dos mosteiros, de onde as cidades se refizeram após o esfacelamento de Roma, e de onde ocorreu a cristianização da Europa. Pode-se dizer que boa parte do que conhecemos por Cristianismo está associado a esse livro.

cap IX, parágrafo 4
“Se cada ano extirpássemos um só vício em breve seríamos perfeitos. Mas agora, pelo contrário, muitas vezes experimentamos que éramos melhores, e nossa vida mais pura, no princípio da nossa conversão que depois de muitos anos de profissão. O nosso fervor e aproveitamento deveriam crescer, cada dia; mas, agora, considera-se grande coisa poder alguém conservar parte do primitivo fervor. Se no princípio fizéramos algum esforço, tudo poderíamos, em seguida, fazer com facilidade e gosto.”

Poderíamos discutir a questão do “primeiro amor”de que João fala em Apocalipse 2. No entanto, eu gostaria de abordar algo mais prático, que é justamente o que o início do parágrafo aborda: seria possível evitarmos os vícios, ou hábitos que nos afastam de Deus. No entanto, isso é coisa a que raramente se dá atenção e mais raro ainda se aborda de forma sistemática, apesar da famosa pregação “Sede santos, porque eu sou santo” (1ª Pedro 1.16). De fato, Pedro ainda repete a instrução dada a Moisés muito antes: “Portanto santificai-vos, e sede santos, pois eu sou o Senhor vosso Deus” (Levítico 20.7). Nos tendo feito a sua imagem e semelhança, Deus parece querer continuar a Se ver em nós!

Vício (do latim "vitium", que significa "falha" ou "defeito"). Contrário de virtude. É um hábito repetitivo que degenera ou causa algum prejuízo ao viciado e aos que com ele convivem.

Jesus também abordou a necessidade de um “comportamento correto” de sua forma terrivelmente intimista e prática:

Eu falo do que vi junto de meu Pai, e vós [Fariseus] fazeis o que também vistes junto de vosso pai. Responderam, e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão. Jesus disse-lhes: Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão. Mas agora procurais matar-me, a mim, homem que vos tem dito a verdade que de Deus tem ouvido; Abraão não fez isto. Vós fazeis as obras de vosso pai.
...
Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira. Porque vos digo a verdade, não me credes. (João 8.38-45)

Na prática, somos tentados a acreditar que as regras sociais de “bom comportamento” são aquelas a que a Bíblia se refere: usar roupas longas e de cores sóbrias, não beber, não ouvir rock, não fazer tatuagem, não furar fila, não falar palavrão, ir à igreja, etc. O que proponho aqui é vasculhar a Bíblia atrás do que realmente é posto como degenerador do ser humano. Eis que reuni alguns, para que pensemos em fazer como recomenda a Imitação de Cristo. Ou seja, combatê-los sistematicamente em nós mesmos, começando pelos que cada um tiver em maior conta.

A variedade de nomes e palavras aqui reflete as variedades de tradução para o português. Organizei os vícios em 6 grupos de acordo com uma similaridade que percebi examinando os textos onde são citados, e que explicarei abaixo.

1. Falta de amor a Deus; idolatria; feitiçaria; imoralidade sexual; fornicação; orgias; falta de fé

O amor a Deus é o 1º Mandamento da Lei ditada a Moisés, e também o 1º dos Mandamentos proferidos por Jesus. Ao procurar na Bíblia um significado exato para o que seria “não amar a Deus”, o que encontramos é justamente a substituição do culto a Jeová/Javé por outros deuses como Apis (o boi), Baal, Asherá, Qemosh/Camos, Moloque, Astarte/Astarote, etc, aos quais os israelitas em algum momento creditaram a fertilidade da terra, sua liberdade ou a vitória sobre os povos vizinhos.

Os deuses rivais eram entidades pagãs, deuses ou forças “da natureza”. Quando os israelitas foram absorvidos por potências como a Babilônia ou Roma, eles também encontraram imperadores se nomeando como deuses e exigindo culto a sua pessoa, estátuas suas ou mesmo tronos. Os profetas se opuseram diretamente a outro culto que não o de Javé, mas repetidas vezes o povo foi punido por se desviar e seguir deuses pagãos ou os imperadores.

O culto dos deuses pagãos parecia estar sempre ligado à fertilidade da terra… que era celebrada ou evocada através de atos sexuais e prostituição nos templos. Tratavam-se de sexo ritual entre homem-mulher e entre homens, em duplas ou coletivamente. A cidade de Sodoma, por exemplo, parecia ser adepta dos cultos orgíacos. Dessa forma, inevitavelmente ficaram associados o sexo (público) ao culto pagão, a ponto de o sexo ser considerado pecado! Curiosamente não haveria outra forma de produzir cada ser humano sobre a Terra.

Desde o século 18, os deuses pagãos foram substituídos terrivelmente pelo individualismo e pelo não-culto. Assim, hoje somos muito mais tentados a creditar nossos sustento, nossas virtudes e nossa liberdade ao dinheiro (Mamon) ou ao próprio merecimento, ao governo (no caso dos países desenvolvidos), ao status social (para quem o tem), a algum conhecido influente, etc. São deuses que não requerem agradecimento algum, e de fato nos abençoam tanto quanto Baal aos seus profetas, quando foram desafiados por Elias! (1ª Reis 18)

2. Falta de amor ao próximo; inimizades; partidos; furtos; ódios; iras; brigas; discórdia; traçar planos perversos; amargura

O “amor ao próximo” foi o ponto crítico da pregação de Jesus, sem o qual - ele explicava repetidamente - a Lei é inútil. Mas não se tratou de uma fala original: Elifaz de Temã, no livro de Jó, já acusava aqueles que não ajudavam aos mais fracos. Vários ítens da lei, como “não matar”, “não roubar”, “não cobiçar a mulher ou o gado alheios”, etc também recaem inevitavelmente nesse ponto em que a nossa sociedade competitiva nos ensina a fazer o contrário do que Deus manda, justamente ajudar aquele para quem podemos perder algo.

Afinal, “amar ao próximo” sempre vai nos condenar a precisar do Pai - e não de nós mesmos ou do apoio social - para vivermos. Quem em sã consciência faria algo assim? Abraão e o rei de Salém* instituíram o dízimo como uma ação “socialista” da Igreja. Salomão já ensinava: “Quem dá aos pobres não passará necessidade, mas quem fecha os olhos para não vê-los sofrerá muitas maldições” (Provérbios 28.27). Malaquias bem nos deixou “Tragam o dízimo todo ao depósito do templo, para que haja alimento em minha casa. Ponham-me à prova", diz o Senhor dos Exércitos” (Malaquias 3.10). João fez isso, Jesus também e ainda aconselhou seus seguidores assim: “O Rei responderá [no Último Dia]: ‘Digo-lhes a verdade: o que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’” (Mateus 25.40). Estranha, Judasmente ou capitalisticamente, mesmo a Igreja e nós temos nos esquecido de “dar aos pobres”, mas não de arrecadar a prosperidade oferecida por Deus.

3. Impureza; desonestidade; mentiras; calúnias; injustiças; imitar “o mundo”

O que é ser PURO? Biblicamente, essa palavra é usada muitas vezes, com poucas explicações. Aparentemente, a “pureza” é atribuída aquilo que se pode ver através e àquilo que não muda, que é constante. Assim, o indivíduo puro é aquele que nada esconde, e que também é perfeitamente justo ou igualitário. Em outras palavras, estamos falando de um sujeito incapaz de privilegiar a si mesmo ou até um conhecido em desfavor de qualquer outra pessoa.

Estou limpo e sem pecado; estou puro e sem culpa. (Jó 33.9)

Quem subirá ao monte do Senhor, ou quem estará no seu lugar santo? Aquele que é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à vaidade, nem jura enganosamente. (Salmos 24.3-4)

Jesus atribui o “domínio desse mundo” a um Príncipe sobretudo mentiroso e injusto (João 14.30), e Paulo aprofunda isso afirmando que a injustiça faz parte do que a nossa carne deseja (Gálatas 5). Seria, portanto, natural às pessoas deixar a pureza e acostumarem-se à injustiça, da qual se tornam praticantes e colaboradoras. Jesus chega a nomear essas pessoas de “filhos do Diabo” (João 8.44).

4. Libertinagem; palavras torpes; gritaria; insujeição; obscenidades

Libertino: aquele que é desregrado em sua conduta; devasso, dissoluto. Pessoa livre da disciplina da fé religiosa; livre-pensador.

Eis aqui o abandono das leis, da moral, de toda regra que confronte a vontade individual e tente fazer as pessoas agirem juntas para algum propósito. É interessante notar que Moisés esmerou-se em produzir um código de leis escritas e constantes, quando outros povos se pautavam na vontade dos reis. Josias resgatou essa Lei, que se perdera na invasão de Jerusalém pelos assírios. Esdras, depois, fez da Lei o símbolo da continuidade de Judá após o cativeiro na Babilônia. Jesus veio quando a Lei estava sendo praticada de forma fria, sem amor a Deus e como um fim em si mesma, fonte de lucro e status ao invés de um auxílio para a vida dos homens.

E se a Lei estabelecia uma forma para os homens agirem entre si, delimitando os limites de cada um, Jesus propunha mais: “Quem quiser ser o maior, seja o menor entre todos” (Lucas 22.26). Não bastava que um deixasse de prejudicar o seu próximo. Era necessário servi-lo, devotar-se a ajudá-lo! Ao invés de uma Lei que exercesse coerção nos homens para moldar seu comportamento, Jesus propunha que a Lei fosse desnecessária porque seu objetivo seria o mesmo no coração das pessoas.

Por outro lado, há algo de terrível na liberdade e que motiva pessoas a uma vida religiosa legalista. Ser livre significa ser responsável pelos seus atos. Estando por detrás de uma doutrina ou lei, os Fariseus mesmo cobiçavam a fortuna, o status e [por isso] eram tidos como “santos”. Quando Jesus disse que a Lei tinha um propósito e não superava as necessidades dos homens, aqueles “santos” que obedeciam a “não matarás” organizaram como Ele seria morto e procuraram alguém [impuro] para fazer isso. E o dinheiro envolvido também não deveria ser ofertado no Templo, para não contaminar a sua pureza. Quem puder ver a superficialidade aí, sinta-se abençoado.

5. Ambição; inveja; ciúme; indignação; olhos altivos

Ambição: motivação dos comportamentos por um desejo forte de recompensa ou superioridade em relação aos demais.

Inveja: ação coercitiva ou agressiva dirigida a um concorrente e motivada por sentimento de posse.

Ciúme: ação coercitiva ou agressiva dirigida a um objeto ou pessoa disputados e motivada por sentimento de posse.

A definição exata dos significados de ambição, inveja e ciúme é necessária aqui, porque não existem comportamentos “de ambição”, “de inveja” ou “de ciúme”. Todos são sentimentos presumidos pela própria pessoa ou por outros que sabem mais do que está sendo mostrado em um discussão irritada, por exemplo. Além disso, embora o Ciúme seja condenado, é traduzido em algumas versões que “o Espírito que em nós habita tem ciúmes” (Tiago 4.5), ou que Deus manifestou ciúmes pelo Templo onde Ezequiel viu colocadas imagens de outros deuses, na porta norte do pátio (Ezequiel 8.3).

Mas que espécie de Deus nos recomenda sermos como Ele e nos proíbe o ciúme, quando Ele mesmo o manifesta? Exatamente um Deus QUE NOS POSSUI, e jamais entregaria a outro.

Lembrem-se dos dias do passado; considerem as gerações há muito passadas. Perguntem aos seus pais, e estes lhes contarão... Quando o Altíssimo deu às nações a sua herança, quando dividiu toda a humanidade... Numa terra deserta ele os encontrou, numa região árida e de ventos uivantes. Ele o protegeu [a Seu povo] e dele cuidou... O Senhor sozinho o levou; nenhum deus estrangeiro o ajudou. Mas eles o deixaram com ciúmes por causa dos deuses estrangeiros, e o provocaram com os seus ídolos abomináveis. Sacrificaram a demônios que não são Deus, a deuses que não conheceram, a deuses que surgiram recentemente, a deuses que os seus antepassados não adoraram. (Deuteronômio 32)

Tão ruim quanto é se as pessoas tomam como deuses a si próprios e dizem aos outros “Eu fiz isso”, ou “Eu sou responsável por aquilo”. Comportalmentalmente falando, isso aparece quando alguém recusa ajudas ou reprimendas porque “não estão à sua altura”. Tal orgulho é citado entre as coisas que Deus mais odeia.

6. Conversas tolas; bebedeiras; gracejos imorais; insensatez; falta de exortação; falta de ensino

Sem pestanejar, o Livro de Provérbios atribui muitos adjetivos a isso, mas o principal é INSENSATO, ou TOLO, aquele que não pensa, e cujo destino será a própria destruição. Esse personagem caricato não apenas se afasta dos bons conselhos, mas tenta arrastar outros para sua falta de sabedoria ou loucura. Ele não personifica o mal, nem a obra da maldade, apenas se afasta irresponsavelmente dos ensinos que o Senhor proveu. E jamais ensinará o que é certo aos demais, antes ensinará como bom o que é pior.

Como que atribuindo uma culpa por simplesmente desprezar o ensino do Senhor, esse talvez seja o vício mais gravemente ligado à natureza humana. Para o repetirmos e empoderarmos, basta não nos instruirmos no que Deus ensinou ao longo de 10 mil anos e mais de 300 gerações de sábios, profetas e santos. Basta ignorar, deixar de fazer, rir e esnobar aos outros a própria ignorância como se fosse um tesouro a se guardar. É só não fazer nada...

Certamente muitas pessoas com dificuldades para ser felizes também vão enxergar aí a desculpa perfeita para si mesmos: ao invés de fazer o bem a mim ou qualquer outro, vou me afundar no biblicalismo e recitar para o vento o que há na Bíblia. Jesus fez isso mesmo. Ah, não fez?! Como no começo da frase, a quem isso vai ajudar? Qual faminto será alimentado, qual doente será curado, e qual injustiçado terá ajuda nisso? Não é a Bíblia feita de vidas ao invés de enunciados? Como Ele mesmo disse, “também está escrito...”

O jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo? Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo? (Isaías 58.6-7)

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Certamente que cada um de nós pode enxergar nessa lista de desventuras algumas que lhe cabem. Não somos perfeitos, e Paulo mesmo argumenta que a carne nos conduz ao mau. Mas não é sem valor que cada um invista tempo e esforço em fazer como recomenda o pequeno parágrafo lá no início. De pouco em pouco, podemos nos tornar mais próximos ao que agrada Deus.

*Salém era uma das cidades situadas no terreno fértil às margens do Mar Morto. Numa histórica batalha, os reis de Sinar, Elasar, Elão e Goim se uniram para dominar as outras cidades. Sabendo que seu irmão Ló estava prisioneiro (pois Sodoma era uma das cidades atacadas), Abraão reuniu outros reis para fazer oposição aos primeiros. Entre eles estava o rei de Salém, Melquizedeque, chamado honrosamente de "sacerdote do Deus Altíssimo". Davi freqüentou um tabernáculo em Salém, o que sugere que se tratava de um lugar religioso.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A carta perdida


Certa feita uma carta não foi entregue. Quem deveria levá-la, deixou-a sobre um muro, onde todos pudessem pegar.

Passou um homem feliz, rindo-se da vida e tudo nela. Em seu cérebro, quando via uma formiga estouravam milhares de descargas de serotonina, que lembravam da antiga casa de criança; e lembravam do afeto da mãe quando via uma senhora, do cão amigo quando passava um vira-latas. O homem viu a carta ali... Que ótima surpresa alguém ter deixado uma carta para ele! Abriu e leu atentamente... De repente uma gargalhada. Devia ser uma carta do seu amável pai, e que bom era ter feito uma surpresa assim. O homem voltou a carta onde estava e foi cantarolando comprar um presente para o pai.

Minutos depois veio um menino, resmungando a bronca que levara por ter batido no irmão. Nada de serotonina para ele, ao invés disso, muita noradrenalina. Chutou uma lata, atirou um pau no cachorro no meio-fio e agarrou a carta, amassando-a entre os dedos. Olhou o remetente. Ele o conhecia e tinha medo dele. Será que estava no muro dele? Olhou em volta, preocupado. Colocou a carta no lugar e fugiu.

Um senhor passou, procurando o neto. Quando se apoiou no muro, pôs acidentalmente a mão sobre a carta. Não era para ele, mas ficou curioso. Abriu-a e passou meia hora lendo, admirando-se com os detalhes. Era um milagre! A carta falava de toda a sua vida, e das vidas de muita gente que ele conhecia, falava até onde estava o seu neto. O senhor a fechou cuidadosamente, desamassando e a voltou no lugar. Voltaria para agradecer o dono daquela casa, mas antes precisava buscar o garoto. Tomou seu rumo e saiu, pensativo.

Um bêbado passou, segurando no muro. Tinha pisado no “presente” que um cão deixara no meio da rua. Quando viu a carta, foi incisivo: limpou seu sapato com ela, amassou e jogou por sobre o muro.

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Em um livro famoso, B.F. Skinner fala sobre o “mundo sob a pele”, que é todo o entendimento de uma pessoa sobre si mesmo. E todo esse entendimento é só dela! Quando aprendemos algo, toda informação desse mundão de Deus precisará pular o “muro” que separa o “fora de nós” do mundo “dentro de nós”. Não é pouca coisa: do lado de dentro da mente há trilhões de conexões entre células eletro-químicas, que de alguma forma assombrosa formam um ser organizado, como um grande cardume de pequenos peixes que juntos fingem ser um peixe grande. Nesse mundo não há letras nem sons e as idéias são muito reais, como ondas passando pela multidão de pequenos seres.

Para pular esse muro, passar para o lado de dentro, tudo na verdade é traduzido. A bola vermelha se transforma em “idéia da bola” e “idéia do vermelho”. A idéia da bola é construída com pedaços de antigas recordações sobre uma forma redonda, enquanto a idéia do vermelho é buscada entre todo o vermelho já visto na vida. Uma bola vermelha, ali, não é uma bola nem é vermelha. Ela é uma coletânea de todas as bolas, em todos os tempos, e de todos os vermelhos. Essa gigantesca biblioteca que se chamará “bola vermelha” vai, algum dia, ser buscada quando pular para dentro outro objeto redondo ou outro objeto vermelho, como a coleira vermelha de um cão. E idéias NÃO SÃO só informações desses objetos, elas carregam as emoções relativas a cada um. Essas emoções são repassadas a novas idéias, são modificadas, mes sempre estão lá.

O que dizer da Palavra de Deus? Como ela vai para esse mundo surreal que é o nosso interior?

Quando lemos, a imagem de cada palavra pula o muro porque é traduzida por informações prévias de toda leitura que já foi aprendida. Lá, não são mais palavras: são idéias de cenas já vistas, de experiências vividas, de expectativas (quando há baixa serotonina associada), desagrados (quando há noradrenalina associada), são muitas emoções e recordações que se unem para traduzir a leitura em idéia. Dependendo do humano, cada um faria a sua interpretação particular da Palavra (e de fato o fazem...).

A unidade das interpretações, da tradução de palavra escrita em vida (pois idéias são vivas e dependem de haver vida) e dada pelo Espírito Santo, segundo conta Pedro:

Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo. (2Pedro 1:20-21)

Não há ciência que explique isso; como o fluxo de informações eletroquímicas gerando uma idéia pode ser cirurgicamente guiado. Parece curioso que, ao invés do livre-entendimento, possamos querer contar com um entendimento direcionado! Mas o Espírito Santo não apenas modifica as idéias, Ele também ensina. Paulo não foi um seguidor de Jesus quando ele andava entre os homens. Enquanto Jesus ensinava, Paulo era um instruído fariseu, de família rica, que se tornara oficial romano (Roma sempre usou forças locais em seus exércitos e administração) e atuara junto ao Sinédrio para coibir o alastramento da “seita” cristã.

No caminho de Damasco, Jesus produziu uma mudança gigantesca em Paulo. Não apenas o tornou um cristão (e não haviam escritos cristãos onde ele pudesse aprender), mas iluminou-o com conhecimento/inspiração para escrever as cartas das quais recebemos instrução milhares de anos depois. Ao contrário dos profetas, que receberam instrução sobre o que haveria de vir, Paulo recebeu conhecimento profundo do presente e pôde saber das bases espirituais sobre as quais o mundo se constrói, longe das vistas de todos. Quantos inspirados por Deus andarão entre os homens, falando da Palavra de Deus sem terem sido instruídos pelo ensino humano? E quantos andarão enganados, inspirados por homens e achando que falam de Deus?

Enquanto os católicos defendem que apenas o sumo pontífice - sucessor funcional de Pedro - é capaz de interpretar a palavra de Deus, desde o século XVI os protestantes argumentam que qualquer um PODE ser inspirado a ter a compreensão apropriada do que está escrito. 

E, chegando Jesus às partes de Cesaréia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem? E eles disseram: Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas. Disse-lhes ele: E vós, quem dizeis que eu sou? E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus. Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus. (Mateus 16:13-19)

Enquanto dependermos do lado humano lendo, buscando conhecimento, está claro que muitas opiniões diferentes existirão, e estão por aí centenas de teologias para mostrar que isso acontece. Quando porém somos agraciados com o entendimento que Deus fornece, todas essas filosofias e diferenças sucumbem a uma voz maior. Seremos capazes de ouvi-la?

Algum de nós quererá falar com o autor da carta?

terça-feira, 23 de agosto de 2011

As aparências enganam - olhando por dentro...

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Esse vídeo é realmente belo. Ele mostra algo que nos faz bem lembrar: somos exemplo para os filhos. Se eles produzirão bons frutos, muito será resultado dos valores aprendidos dos pais e das pessoas que os rodeiam. Em outras palavras, nós mesmos. Isso é sério: nós somos modelo para muito mais gente que os filhos.

Talvez você seja aquele que chega cumprimentando “A paz do Senhor, irmão”. Você cumprimenta assim só os membros da tua congregação? Quem sabe você fale um “igrejês” fluente, capaz de ser reconhecido como evangélico onde pisar. Talvez você use o igrejês na igreja e o mundanês fora dela; pode ser que fale igrejês ou mundanês em todo lugar. Ou então use uma roupa específica, algum tipo de moda culto. De repente você vai aos cultos de havaianas e bermuda mesmo... Na verdade, não faz diferença alguma. Jesus - que deve ser o nosso modelo - não usava roupas diferentes ou falava diferente quando estava junto aos discípulos, nem eles faziam isso entre si.

Na falta que o mundo moderno tem de sociedade - isto é, pessoas agindo juntas por alguma razão - a igreja tem grandes chances de se tornar a “sociedade” sua. Ou ser, pelo menos, “uma das” sociedade suas. De fato, vemos muitas pessoas que usam uma vestimenta, um jeito, um modo de agir e falar no trabalho e outro - bem igrejês - quando está na congregação, nos cultos. Esse é o crente de duas caras, famoso frequentador das congregaçoes. Trata-se de um camarada que não vê na vida proposta por Jesus uma forma de viver, mas conseguiu achar “na igreja” um lugar para ser aplaudido pelos valores mundanos. Quem está mais errado? Quem representa ou quem aplaude? Fiquemos com essa pergunta.

Ficaremos aqui com o pessoal de uma cara só. Ou seja, aqueles que são na igreja o que são fora dali - com igrejês onipresente ou oniausente. Pelo menos são gente sincera.

Aqueles que nunca vestem o igrejês, ou seja, que agem da forma mais mundana possível no meio da congregação, esses de fato nunca entraram na igreja. Vai uma dica de como achá-los: são sexualmente imorais, teriam vergonha de contar suas práticas mesmo para um grupo de adultos; conhecem a lei de Deus mas dão umas “escapadinhas” de vez em quando; têm coisas que consideram mais sagradas que as leis de Deus; valorizam a ira, o poder de si mesmo sobre os outros; são egoístas e dão bem menos aos outros do que a si mesmos; causam divisões entre as pessoas, ao invés de uni-las; se embriagam; dão enorme valor ao prazer próprio. Não fui eu quem marcou essas características. Foi Paulo e, portanto, reclame com ele ou rasgue da sua bíblia a carta que ele escreveu às igrejas da Galácia. Gostaria que você reparasse, nessa lista infame, a falta de características externas, da aparência.

Para a turma que veste igrejês, que tem AQUELA CARA de crente, eu gostaria de propor uma consideração. Que avaliem em si quanto demonstram de amor; de alegria; quanta paz levam onde vão; quanta paciência são capazes de ter; quanta gentileza costumam expressar; o tanto de bondade podem oferecer; a mansidão que podem demonstrar e quanta responsabilidade assumem pelas próprias ações. De novo, essa lista é de Paulo. Se Jesus falava sério em conhecer a árvore pelos frutos, o cristão deveria ser reconhecido por avolumar essas características que, de novo, nada falam sobre a aparência. Talvez Paulo não se importasse em nada com o que as pessoas aparentam do lado de fora da pele, mas sim com o que elas são no lado de dentro.

Por atributos ruins que não tem e atributos bons que deveria ter, o cristão não se mostra pela aparência exterior. Já contava Alguém que o Reino de Deus não viria de forma que se apontasse para ele e se dissesse “Olha ele ali !”, como fazemos com muitos “crentes”. O camarada daquela igreja tanto falada nas crônicas de Atos certamente é reconhecível, mas isso se dá pelas pequenas ações que faz, pelo jeito que interfere com as pessoas e lugares. É algo muito mais delicado do que usar paletó ou saia numa praça, cabelo assim ou assado, dizer este ou aquele bordão. Se fôssemos bons pais, mostraríamos essa imagem sutil e delicada aos nossos filhos. Se fôssemos bons cristãos, mostraríamos ela a todos.

Ei, mas como mostrar aquilo que não somos, oferecer o fruto que não temos? Eis o ponto. Essa questão foi abordada por um sábio plantador das praias, há muito tempo, que dizia “Noite e dia, quer o homem durma ou se levante, a semente germina e cresce, embora ele não saiba como. A terra por si própria produz o grão. Quando o grão fica maduro, o homem lhe passa a foice, porque chegou a colheita" (Mc 4.26-29). O grão é o que esse plantador nos deixou, a terra somos nós - que ao pó voltaremos - e o homem já mandou seu filho dizer que ele tarda, mas vem. Ou seja, cabe a nós mesmos buscar gerar esse fruto, pelo que o semeador mandou o Espírito Santo nos lembrar constantemente como fazer as coisas corretamente (Jo 14.26).

A menos que o Espírito Santo esteja muito esquecido, desde o batismo (de fogo) nós sempre sabemos o que é certo e o que é errado. Em vez esquecer quem somos ou nos fantasiarmos de crentes - para quem também não sabe o que é isso aplaudir - convém remexer nossos espíritos para fazer aquilo que o outro Espírito (ainda mais sem aparência) vem ensinar.

O homem disse que vem.

domingo, 15 de maio de 2011

Quando você orar



Através da oração, chegamos mais perto de Deus. Ele sabe o que fazemos, e sabe o que pensamos, SEMPRE. Mas nós somos pecadores - há momentos em que envergonhamos nosso Senhor, fazemos que Ele vire o rosto para não ver as maldade que cometemos. As crianças cometem maldades assim: quebram coisas, batem uns nos outros, gritam, mentem. Elas de fato não sabem o que sentimos quanto a elas. Quando as vemos fazendo algo errado, sempre tentamos fazer com que se lembrem de alguma lição, a qual elas têm dificuldade de reter. Colocamos elas de castigo, passamos tempo tentando fazê-las entender, mas como é difícil transmitir-lhes alguns valores e evitar que tenham de sofrer fazendo coisas erradas! Imagino que Deus sinta-se assim conosco, também.

Quase sempre, oramos a Deus pedindo algo. Pedimos pela ajuda Dele, mas nos esquecemos de perguntar o que Ele sente quanto a nós. esquecemos até de agradecer o que recebemos. É através da oração que podemos ter comunhão com Deus como um filho que se senta junto ao pai para ouvi-lo falar. Através da oração, através da leitura da Palavra, podemos conhecer o coração Dele: essa é a única forma que temos para não magoar quem mais nos ama. Por isso Jesus instrui todos a orarem. Ele não manda orar em público, gritar orações. Ele apenas manda orar.

Um filho que ama seu pai (e a maioria dos filhos são assim) e o entende (essa parte é bem mais difícil) zela por fazê-lo feliz, por fazê-lo orgulhoso, ao invés de receber punições. Não há como conhecer a Deus sem saber de tudo o que Ele já fez por nós, e Ele deixou muitos ensinamentos (passados verbalmente e por ações explícitas) para nós. Seria bobagem ignorá-los, mas nós o fazemos! Poderíamos então falar com Ele diretamente, ouvi-Lo dizer o que quer de nós. Mas nós também esquecemos disso! Ou, como nesse vídeo, trocamos ambas as coisas boas por um comportamento tal que digamos uns aos outros: “Puxa, como você é um bom cristão!”

Jesus mostrou que amava a humildade. O que está em nosso interior (e isso é o que agrada a Deus, visto que Jesus desprezou todas as honras na Terra) não muda segundo o comportamento que temos na frente dos outros, para ser vistos, mesmo que pareçamos humildes, corajosos, ousados ou benignos. Saibamos que o Pai nos vê por dentro e por fora, todo o tempo. ESTAMOS REALMENTE SENDO HUMILDES EM NOSSO CORAÇÃO? Nada muda por conta das regras sociais que nós mesmos fazemos! E se tentamos usar a Bíblia para nos justificar, então usamos muito mal o que nos foi dado, como aquele filho que diz ao irmão: “Se você não me obedecer, vou contar isso ou aquilo ao pai”. Não é para um dominar o outro que lhes ensinamos regras ou que agimos com severidade.

Digamos que você veja seus filhos agindo assim, pervertendo o que você ensina. Que espécie de coisa um pai diria a tal filho quando estivessem a sós um com o outro? Ainda que você se ache "seguro em sua fé", como diz o bom evangeliquês, nunca se esqueça de perguntar a Ele pois, de fato, ninguém mais importa. Muitas pessoas choram quando oram verdadeiramente, e Deus lhes mostra a própria imundice comparada a Sua beleza. Realmente, trata-se de uma experiência estarrecedora se ver ao mesmo tempo tão vil e tão querido. Mas NÃO SE TRATA DE SENTIMENTO. Deus não diz que tenha necessidade de lágrimas

São lágrimas nossas, e mostram que alguma comunhão tivemos com Ele, que alguma coisa do que Ele diz nós pudemos ouvir. Apenas assim nos transformamos: ouvindo a Deus, e praticando o que Ele ensina, para que sejamos solo onde esse amor possa frutificar. Comover-se apenas mostra que você é humano. Jesus sempre insistiu que nenhuma sabedoria seria capaz de mostrar ao homem o que é certo; Paulo, educado entre os grandes mestres judeus e sábios gregos, disse que desprezava toda sabedoria pelo amor de Deus! O amor de Deus tem esse poder, essa grandiosidade. Pela oração e pela prática, busquemos a Ele.

Mt 23.1. Então, Jesus disse à multidão e aos seus discípulos: "Os mestres da lei e os fariseus se assentam na cadeira de Moisés. Obedeçam-lhes e façam tudo o que eles lhes dizem. Mas não façam o que eles fazem, pois não praticam o que pregam. Eles atam fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos homens, mas eles mesmos não estão dispostos a levantar um só dedo para movê-los. "Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens. Eles fazem seus filactérios bem largos e as franjas de suas vestes bem longas, gostam do lugar de honra nos banquetes e dos assentos mais importantes nas sinagogas, de serem saudados nas praças e de serem chamados ‘rabis’. "Mas vocês não devem ser chamados ‘rabis’; um só é o mestre de vocês, e todos vocês são irmãos.

... O maior entre vocês deverá ser servo. Pois todo aquele que a si mesmo se exaltar será humilhado, e todo aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado. "Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas, porque percorrem terra e mar para fazer um convertido e, quando conseguem, vocês o tornam duas vezes mais filho do inferno do que vocês. ... Hipócritas! Vocês dão o dízimo até da hortelã, do endro e do cominho, mas têm negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês devem praticar estas coisas, sem omitir aquelas. Guias cegos! Vocês coam um mosquito e engolem um camelo. ... Vocês limpam o exterior do copo e do prato, mas por dentro eles estão cheios de ganância e cobiça.
Fabrizio

sábado, 4 de dezembro de 2010

Igreja ladeira abaixo


Por mais que busque justificativas para as bizarrices encontradas no meio das igrejas, não encontro. Parece-me uma luta inglória. Estou ficando enjoado e enojado diante daquilo que tenho visto e ouvido. A grande marca das igrejas é a estreiteza de mente e uma busca implacável pela mediocridade. Tirando um percentual de comunidades que ainda preservam a Sã Doutrina, esbarramos em número assustador de comunidades e principalmente as neo-pentecostais praticando um anti-cristinianismo.

Gostaria de apontar algumas situações que tem me levado a obviar tais comunidades e líderes.

1 - Tenho visto com muita freqüência uma nociva insistência por parte de um grande percentual da liderança evangélica em desprezar o saber e principalmente o saber teológico. 

Insistem em desprezar a história e suas lições. Insistem em abandonar os marcos deixados e fazendo assim encontram-se sem parâmetros para seus comportamentos. Creio que a busca por uma teologia sadia é mais dolorosa do que a aceitação tácita de heresias grotescas. O grande problema é que quanto mais as lideranças distanciam da Sã Doutrina mais comprometidas ficam com os erros doutrinários e depois não possuem a hombridade de voltar atrás. Muitos líderes ouviram o galo cantar e não sabem onde. Ouviram algumas afirmações no passado e nunca procuraram saber se eram ou não verdadeiras.

Em meu tempo de mocidade, havia um livro que fez muito sucesso. Seu autor era Don Gosset e o livro era Há Poder Em Suas Palavras. Virou best seller. Aceitávamos como verdade as palavras do autor, pois, este era americano e se era bom para os americanos, deveria ser bom para os brasileiros. Conceitos distorcidos que durante anos vivi. Mas como Paulo disse em sua carta aos coríntios, chegou o tempo de deixar as coisas de menino e buscar as coisas de adulto.

Aprendi na faculdade que é preciso dialogar com os autores e checarmos as bases de suas afirmações. Procurar encontrar o cerne ideológico dos mesmos e separar joio do trigo. Depois de muitos anos, percebo que boa parte da liderança evangélica ainda aceita acriticamente os livros e nunca empreendem um diálogo com seus autores. Estão assentados em bases frágeis e se aferrenham a elas como bóias salva-vidas. Quase sempre não se abrem para outros pontos de vistas e insistem em argumentos ultrapassados e com data de validade vencida.

Realmente existe uma resistência à pureza do Evangelho simplesmente por falta de amor à verdade, como Paulo disse. “Que aprendem sempre, e nunca podem chegar ao conhecimento da verdade”. II Tm. 3:7 - II Tes. 2:10.

2 – Tenho visto com freqüência uma atitude de lassidão em relação ao pecado.

E isso acontece no meio da liderança evangélica e se espalha pelo corpo de Cristo. Destaco o fato de que pecados cometidos por líderes não são tidos como coisas hediondas, mas normais. Sempre apresentam o mesmo argumento idiotizante que não podemos julgar para não sermos julgados. Fico pensando, se julgar é incompatível com a fé cristã como denunciaremos os erros dentro de nossos arraiais? Se existe incompatibilidade entre julgamentos e o crer em Deus então logo não existe pecado nem erros, pois, os mesmos não podem ser julgados. Atribuem esse julgamento a Deus somente. Se assim fora, teremos que erradicar do Novo Testamento as denúncias de Paulo e Pedro que abertamente apontaram para o pecado e mostraram o que fazer. Eis alguns exemplos: I Cor. 5:1-5; II Tm. 2:14-18; II Pe. 2.

Pecados de lideranças devem ser tratados com a maior intensidade possível, pois, seus exemplos são seguidos por muitos. Cristo disse que “... e, a qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá, e ao que muito se lhe confiou, muito mais se lhe pedirá”. Lc. 12:48.

Ficou normal um líder se divorciar e permanecer na mesma igreja como se nada tivesse acontecido. A igreja perdoa e tudo continua bem. Isso é uma aberração em nosso meio. Como permanecer na liderança aquele que não governou bem sua casa? Se houve adultério por parte da liderança, que exemplo foi dado para a igreja principalmente para os jovens? Muitos pensarão e agirão assim: “se o pastor pode, também nós podemos”.

E o que dizer sobre os pecados contra a Palavra? Afirmações grotescas que ultrapassam e contradizem a Palavra de Deus são tidas como verdadeiras. Quem faz tais afirmações por ter grande visibilidade torna-se oráculo celestial inquestionável e infalível.

Aqui está em foco a igreja, seus membros. Essa tendência de aceitação acrítica de tudo que é exarado dos púlpitos é algo doentio. Pessoas com grandes capacidades mentais em seus segmentos de atuações se anulam dentro das igrejas, pois, têm medo de pecar contra Deus. Vêm as maiores aberrações sendo derramadas sobre suas mentes e nada dizem. Tais pessoas andam no limite da idiotice. Não existe incompatibilidade entre fé e conhecimento. Nunca existiu. Qualquer afirmação que Deus revelou ou falou deve passar pelo crivo, crivo da Santa Palavra de Deus e, se se constatar desvio, deve ser desprezada por completo.

3 – Tenho visto com freqüência uma insistência em desprezar a Palavra em troca de revelações estapafúrdias.

No meio neo-pentecostal isso é contumaz. Aceitam tudo como sendo de Deus e mesmo que ofenda a Palavra vale mais a pseudo-revelação. Isso da enjôo em qualquer um. Vi uns vídeos postados no youtube onde o pregador advinha a rua, o número da casa e trabalho das pessoas. O pregador dizia o tempo todo assim: “to entendendo Jesus, to entendendo Jesus...”. O que mais me entristeceu foi que pessoas que conheço pessoalmente aceitaram acriticamente tais coisas e achavam que eram revelações de Deus. Esse tipo de revelação já virou coisa comum no meio evangélico. A postura desses pregadores dá a entender que possuem uma comunhão especial com Cristo e que recebem revelações diretas e se intitulam profetas de Deus. Não pregam a Palavra, mas promovem espetáculos para as massas. Como diziam os romanos: “panis et circenses”.

As pessoas rodopiam, caem, são arrebatadas, pulam como cangurus, choram e depois percebem que nada mudou. Paulo nos adverte contra tais homens: “Se alguém ensina alguma outra doutrina, e se não conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com a doutrina que é segundo a piedade, é soberbo, e nada sabe, mas delira acerca de questões e contendas de palavras, das quais nascem invejas, porfias, blasfêmias, ruins suspeitas, Contendas de homens corruptos de entendimento, e privados da verdade, cuidando que a piedade seja causa de ganho; aparta-te dos tais. Mas é grande ganho a piedade com contentamento”. I Tm. 6:3-6.

Creio firmemente que as igrejas neo-pentecostais e suas lideranças inaptas estão jogando o evangelho ladeira abaixo. Creio que os estragos feitos são irreparáveis. Creio que o desprezo pelo ministério tem trazido mais vergonha do que glória para o nome de Cristo. Creio que o momento da igreja tenha passado no Brasil. Creio que os maiores culpados são aqueles que se calam covardemente diante de tais atrocidades. Creio que cada pastor consagrado sem o devido preparo, guardando as devidas proporções, será uma porta aberta para heresias e comportamentos exóticos e anti-bíblicos.

Por haver uma insistência em desprezar a Palavra, o que sobra é a exaltação das emoções. Vale mais o sentir. Vale mais o arrepio. Vale mais o sensorial. Estou cansado de ver idolatria na igreja. Sim, idolatria mesmo. Quantos cultos têm como maior atrativo a entrada de um modelo da arca da aliança com seus querubins etc! Os líderes se vestem com longas batas e o povo e incentivado a tocar neste embuste em forma de arca da aliança. Em uma galeria em Belo Horizonte existe boxe somente para vender coisas ligadas à idolatria como: candelabro de sete pontas, modelos variados da arca da aliança, óleos especiais para unções variadas etc. Fiquei sabendo que em uma cidade do interior mineiro abriram uma loja gospel que vende kits para campanhas nas igrejas. Tudo já vem pronto é só pegar e distribuir. Se os kits não estiverem no balcão abrem um catálogo e você escolhe o que melhor lhe convier.

Precisamos encontrar o equilíbrio entre razão e emoção. Nossos cultos podem e precisam ser vivenciados com emoção, mas nunca emoção desprovida de razão. Paulo aponta para que nossos cultos sejam racionais e íntegros, mas isso virou carência.

4 – Tenho visto com freqüência uma insistência pelo imediatismo e pragmatismo.

Como vivemos em uma sociedade Fast Food, as soluções para vida também devem ter essa característica. As igrejas estão oferecendo soluções milagrosas a qualquer custo. Estão oferecendo soluções que nunca chegarão. Afirmações mentirosas e incabíveis são feitas para atrair os incautos. As pessoas querem o imediato o curto prazo. Daí termos profecias esdrúxulas e mundanas. Quem não se interessa ou quer ter vitória financeira rapidamente? Quem não ofertaria dinheiro para alcançar cura, salvação e libertação financeira? Em um país que tem um governo assistencialista e uma população que quer levar vantagem em tudo, tais promessas ou profecias são juntar o útil ao agradável.

Por pensar somente no curto prazo estamos degradando o meio ambiente, multiplicando os assaltos, matando desavergonhadamente no útero materno. Vi um vídeo onde Edir Macedo defende o aborto como programa de planejamento familiar. Trata o aborto como solução para criminalidade e pobreza. Tais posturas somente apontam para o curto prazo. Quem deveria defender a vida a processa, condena e executa sua sentença de morte em menos de sete minutos de vídeo.

Pastores oferecem soluções mágicas para verem suas igrejas cheias e seus caixas abarrotados de dinheiro, pois, assim, ganharão prestígio socialmente. Oferecem ocuidade para o vazio do homem. Fazem das pessoas massa de manobra para alcançarem seus objetivos mundanos. Esquecem-se que prestarão contas das almas a Cristo o Senhor. Perderam o temor do Senhor e tratam a Sua Obra como empresas e não como igreja.

O certo é que esta visão de curto prazo não leva lugar algum. Somente aumenta o vazio do homem e fortifica a desesperança já reinante.

Soli Deo Gloria (Só a Deus a Glória)

Pr. Luiz Fernando R. de Souza
pastor sênior da Igreja Batista da Aliança em Belo Horizonte, formado em história e teologia, pós graduado em ADM Financeira. Conferencista e autor do livro Ossos dos Meus Ossos e Carne da Minha Carne.

retirado de http://ministerioforcaparaviver.blogspot.com/2010/08/igreja-ladeira-abaixo.html

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Versículos bíblicos que não existem... mas que são usados em pregações





1. “Onde está seu coração, ali está o seu tesouro."
Este “versículo” é tão usado pelos presbíteros, e citado pelos cristãos em geral, que é difícil encontrar alguém que identifique sua falsidade. De forma que podemos considerá-lo até como um “aspirante a versículo”. Na verdade, a maioria dos evangélicos acredita que, tão certo quanto o fato de Deus ser composto por três Pessoas, estas palavras são da própria Bíblia. A confecção deste texto inverídico deve ter sido feita após uma leitura desatenta do Sermão da Montanha, especificamente na parte em que o Mestre prega sobre o ajuntamento ilícito de riquezas na terra. Repare a diferença entre o trecho original e o texto distorcido pelos homens:

“Porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.” (Mt 6.21)

Os descuidados invertem o dito do Senhor Jesus: colocam “coração” onde está escrito “tesouro” e põe “tesouro” onde está escrito “coração”. Isso para que dê a aparência de que Cristo ensinava que não importa a quantidade de bens materiais que a pessoa possua: bastaria ela colocar o coração em Deus que estaria tudo resolvido. O que Jesus disse, realmente, é que nós podemos saber onde está o coração de uma pessoa observando onde ela ajunta suas riquezas: no céu ou na terra.

Vale lembrar que isso não condena o enriquecimento material, defendido como uma bênção divina em toda a Bíblia (Ec 5.19; 1Tm 6.17). O Messias estava apenas usando um recurso semítico de linguagem, comum na Bíblia, onde o lado natural era enfraquecido para enfatizar o lado espiritual. Por exemplo:

a) "Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna..." (Jo 6.27)

Será que Jesus estava condenando o hábito de trabalhar pelo sustento material, ou Ele queria apenas dar importância ao ato de buscar as coisas de Deus? Outro exemplo do recurso semítico usado por Jesus é encontrado no Antigo Testamento, onde José diz:

b) "...não fostes vós que me enviastes para cá, e, sim, Deus…" (Gn 45.8)

Assim, poderíamos concluir que os irmãos de José não o mandaram para Egito. Mas, quatro versículos antes, ele havia dito: "Eu sou José, vosso irmão, a quem vendestes para o Egito" (vs. 4). Pregando sobre a forma de amar aos semelhantes, o apóstolo João declara:

c) "Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade." (1Jo 3.18)

Fica claro que João não desejava proibir o uso de palavras no exercício do amor, mas somente afirmar que o amor não pode se limitar ao uso delas. De qualquer forma, não devemos e não podemos criar textos bíblicos para defender o ajuntamento de riquezas terrenas, pois a própria se encarrega de fazer tal defesa em inúmeras outras porções.

2. “A fé vem pelo ouvir, e ouvir a Palavra de Deus.”

Igual ao versículo anterior, esta frase é corriqueiramente declarada aqui e ali, sempre que o assunto tocado é fé. Ele é tão engenhosamente elaborado que muitos homens e mulheres de Deus o “soltam” de vez em quando, crendo piamente de que estão proferindo a Palavra de Deus. Na verdade, o que a Bíblia ensina é:

“De sorte que a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela Palavra de Deus.” (Rm 10.17) [ARC]

O apóstolo dos gentios está afirmando que o “ouvir” é produzido pela Palavra de Deus, e que é por esse “ouvir” que vêm a fé. É bem diferente do que os descuidados fazem a Bíblia parecer ensinar, pois, conforme a “pérola” pseudo-escriturística que eles criaram, é o ouvir do homem que gera a fé. Para entender melhor a diferença entre as versões de Rm 10.17, veja o que diz a Revista e Atualizada:

“E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo.”

A palavra “ouvir”, empregada em várias traduções, tem o sentido de “entender”, “compreender” a mensagem do evangelho, por meio da pregação expositiva, e não ao mero ato de escutar.

3. “Os anjos queriam pregar o Evangelho, mas Deus reservou esta tarefa aos homens.”

É difícil entender de onde se originou esta tese teológica. Ela é tão espalhada pelas igrejas que se tornou quase um “adendo” popular à Bíblia, um versículo extraído da cartola mágica cada vez que se fala sobre a necessidade de levar as boas-novas aos perdidos. Apesar da raiz desta árvore infrutuosa não ser de tão fácil identificação, podemos sugerir que ela se encontra nas palavras de Pedro, o apóstolo dos judeus:

“A eles foi revelado que, não para si mesmos, mas para vós outros, ministravam as coisas que, agora, vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho, coisas essas que anjos anelam perscrutar.” (1Pe 1.12)

Talvez alguém que não conhece o sentido do termo “perscrutar” tenha lido o texto e daí tirado uma falsa conclusão, imaginando que o pescador de homens teria escrito que as “coisas” que os anjos anelam perscrutar é a atividade da pregação, e que perscrutar significa “fazer”. Embora seja essencial conhecer o sentido dos termos usados na Bíblia, o indivíduo que fez o versículo “abíblico”, que estamos desmascarando, vir à luz, não precisava recorrer ao dicionário para interpretar adequadamente o escrito de Pedro.

Veja o que diz a Revista e Corrigida:

“..para as quais coisas os anjos desejam bem atentar.”

A tradução dos monges de Maredsous reza:

“Revelações estas, que os próprios anjos desejam contemplar.”

O que os seres celestiais desejam receber são as revelações proféticas de Deus, e não o encargo de levar o evangelho aos pecadores.

4. “E vi uma taça de ouro no céu. E perguntei: Que é isso, meu senhor? E me respondeu: Lágrimas de santos.”

Diferentemente das revelações divinas que os anjos queriam conhecer, as invenções humanas que vimos até aqui são pérolas baratas, recolhidas nas águas rasas do relaxo para com a Palavra de Deus. O pseudo-versículo transcrito acima foi citado duas ou três vezes por um querido pastor, a quem considero como grande pregador, e que possui uma igreja de tamanho médio, o que prova que ninguém está livre de soltar das suas “furadas” de vez em quando.

Este presbítero afirmou, com uma certeza tão segura quanto sua fé na auto-existência de Deus, que o diálogo acima foi tecido durante uma visão do apóstolo João, no livro de Apocalipse. Por incrível que pareça, ele não se preocupou em procurar este texto na Bíblia, quer antes de citá-lo, quer após, na repetição de seu erro. O mais próximo que lemos no livro das revelações ao que o referido pastor disse é o que segue:

“E, quando tomou o livro, os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo cada um deles uma harpa e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos.” (Ap 5.8)

“Um dos anciãos tomou a palavra, dizendo: Estes, que se vestem de vestiduras brancas, que são e donde vieram? Respondi-lhe: meu Senhor, tu o sabes. Ele, então, me disse: São os que vêm da grande tribulação, lavaram suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro (...) E Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima.” (Ap 7.13,14,17).

A junção desalinhada destes versículos deve ter resultado naquela prole híbrida que, infelizmente, foi apresentada no púlpito daquela congregação ao povo que ali estava, como sendo a Palavra de Deus. Resta saber quem foi o pai da criança, o qual não apareceu na apresentação da bastarda.

5. “Ficai em Jerusalém até que seja glorificado do alto”.

Igual ao versículo anterior, esta “muamba” é o resultado da fusão de dois textos inspirados. O que o torna mais abominável que todos os outros é que tem, em sua genealogia, um problema semelhante ao visto na distorção de 1Pe 1.12: a falta de compreensão acerca de uma determinada palavra.

“Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de águas vivas. Isto ele disse com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele cressem; pois o Espírito até aquele momento não fora dado, porque Jesus não havia sido ainda glorificado.” (Jo 3.37-39)

“E, comendo com eles, determinou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, a qual, disse ele, de mim ouvistes” (At 1.4)

Durante um estudo bíblico que ocorria em uma célula um certo rapaz, a quem estimo e tenho como um servo de Deus, disse que havia uma parte da Bíblia em que Jesus aconselhava seus apóstolos a ficarem em Jerusalém até que Ele fosse glorificado, ocasião em que o Espírito Santo desceria sobre eles. De acordo com aquele jovem, isso significava que Cristo ficou esperando que os discípulos o louvassem, glorificando-o, a fim de que o batismo no Espírito Santo fosse concedido a eles. Na realidade, o apóstolo do amor, em sua biografia de Jesus, não empregou a palavra “glorificado” com o sentido de “elogiado” ou “louvado”. Eles quis dizer que Jesus, como homem, ainda não havia sido “engrandecido”, ou “exaltado”, o que só ocorreria quando fosse levado à presença de Deus, a fim de se sentar ao lado do trono e ser reconhecido como Deus por Sua criação (Fp 2.9-11; cf. Is 45.23).

Confira o que a Bíblia na Linguagem de Hoje verte em Jo 7.39:

“Jesus estava falando a respeito do Espírito Santo, que aqueles que criam nele iriam receber. Essas pessoas não tinham recebido o Espírito porque Jesus ainda não havia voltado para a presença gloriosa de Deus.”

O apóstolo Pedro confirmou que Cristo foi glorificado por Deus, na ocasião de sua assunção e exaltação divina:

“Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis. (...) Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.” (At 2.33,36)

6. “Toda a terra se encherá da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar.”

Esta passagem fictícia é muito bonita – existe até uma canção que entoamos sobre ela em minha igreja – mas não faz parte dos escritos inspirados. Na realidade, o que a Bíblia afirma é:

“Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte, porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar.” (Is 11.9)

“Pois a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar.” (Hc 2.14)

Como se vê, em momento algum se afirma que a terra se encherá da glória do Senhor. E isso para o desgosto dos que, mesmo com dezenas de anos de Evangelho nos ombros, tinham a frase supra-citada como sendo uma autêntica profecia divina.

7. “E Moisés disse: Que hei de fazer, Senhor? Pois eis que os egípcios se reúnem contra mim e contra este povo, a quem escolheste. E o Senhor disse a Moisés: Toca na águas.”

Deus não ordenou que Moisés tocasse no mar, e, realmente, não foi isso o que este profeta fez. Leia o relato singelo que se contrasta com a idéia exposta acima:

“Disse o Senhor a Moisés: Por que clamas a mim? Dize aos filhos de Israel que marchem. E tu, levanta o teu bordão, estende a mão sobre o mar e divide-o, para que os filhos de Israel passem pelo meio do mar seco.(...) Então, Moisés estendeu a mão sobre o mar, e o Senhor, por um forte vento oriental que soprou toda aquela noite, fez retirar-se o mar, que se tornou terra seca, e as águas foram divididas.” (Êx 14.15,16,21)

Para quem possui dúvidas, basta atentar em que Moisés dividiu o mar não pelo toque de seu bordão na água do mar, mas pelo fato de estendê-lo sobre a água, fazendo com que um vento leste soprasse por toda a noite até dividir aquela massa líquida, que teria se juntado ao sangue hebreu caso Deus não houvesse intervindo com tal milagre (que, repetindo, não envolveu nenhum toque de vara).

Parece que há pessoas que não gostam do legislador de Israel, pois, como se não bastasse ele haver tocado na pedra para dela extrair água – desobedecendo à ordem de Deus para somente falar à pedra –, ainda querem fazê-lo incorrer em um delito de igual gravidade. Deste jeito, não era nem preciso esperar chegar nos limites de Canaã: nem mesmo da terra do Egito o escolhido de Deus teria passado. Tsc, tsc, tsc...

8. “Jovens, vós sois a força da igreja.”

A fim de defender a importância dos cristãos jovens, um querido e dedicado líder de igreja tinha por costume citar este “versículo”, a fim de dizer que eles seriam o motor do Corpo de Cristo. Isso é uma distorção grosseira e irresponsável da Palavra de Deus, que afirma algo muito diferente, porém também honroso acerca dos jovens convertidos do 1º século:

“Jovens, eu vos escrevi, porque sois fortes, e a palavra de Deus permanece em vós, e tendes vencido o Maligno.” (1Jo 2.14)

Oremos fervorosamente para que os jovens da Igreja Contemporânea também exibam estas três características, removendo e enterrando o que é velho (cf. At 5.5,6) para dar lugar às coisas novas do Senhor, uma nova porção do Espírito que caia como vinho fresco sobre a Igreja (Lc 5.37-39; Ef 5.18), abundando em conhecimento da Palavra (Mt 13.51,52; 1Jo 2.20,27), para que esta venha a ter cumprimento: “...e os jovens terão visões” (At 2.17).

9. “E, aconteceu que, subindo a arca do Senhor a Jerusalém, ao som da harpa, do alaúde e da cítara, Davi dançava no Espírito, com todas as suas forças.”

Hoje em dia, há pessoas que não aceitam o que a Bíblia ensina, em sua totalidade, acerca do louvor a Deus. Apesar de tão espirituais, elas são atingidas por uma “micalite aguda” (cf. 2Sm 6.20), que soa como um gongo pseudo-moralista toda vez que, numa reunião de culto, um crente se coloca a expressar sua gratidão e alegria ao Senhor usando todo o seu corpo, além dos lábios e das mãos. Para disfarçar essa mentalidade carnal, alguns afirmam que Davi – e também a profetiza Miriã –, dançou tomado pelo Espírito Santo, em uma ocasião única e inigualável, ignorando outras porções escriturísticas (Jz 21.19,20; Sl 149.3; 150.4; At 3.8).

É certo que o rei hebreu dançou mesmo no Espírito. Afinal, tudo o que os servos de Deus fazem é sob a direção Dele.

“Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito.” (Gl 5.25)

Se a dança davídica não fosse espiritual, o Senhor não teria se agradado dela, da mesma forma que Ele não se agrada quando alguém lhe entoa um cântico “na carne”, sem meios de render-lhe sacrifícios de louvor com os lábios (Hb 13.15). Mas afirmar que o rei foi possuído por Deus enquanto levava a arca, dançando em estado de êxtase, é forçar o que está escrito e ir além da verdade – embora estas experiências fossem comuns entre os profetas daquele tempo.

10. “Tocava Davi sua harpa no palácio de Saul. E havia que, subindo sua adoração ao Senhor, o rei era liberto do espírito que o atormentava.”

Esse é um dos maiores mitos disseminados entre os evangélicos. As Escrituras não afirmam que Davi louvava a Deus perante o rei Saul, e tampouco que o demônio saía deste em razão da sua “adoração ungida”. Na verdade, os toques do jovem israelita, dedilhando as cordas de seu instrumento, acalmava a mente perturbada do monarca, causando-lhe um efeito terapêutico. Isso era meramente paliativo, pois o espírito voltava a atacar periodicamente, necessitando que Davi tocasse novamente para reverter o estado frenético em que o rei d’Israel ficava ao ser controlado por aquele demônio de loucura.

“E sucedia que, quando o espírito maligno, da parte de Deus, vinha sobre Saul, Davi tomava a harpa e a dedilhava; então, Saul sentia alivio e se achava melhor, e o espírito maligno se retirava dele.” (1Sm 16.23)

Isso revela que, muitas vezes, métodos humanos podem surtir efeitos benéficos sobre vítimas de espíritos de cegueira, epilepsia, mudez, transtornos mentais, e outros.

11. “Cristo virá, e os mortos ressuscitarão; num instante, num abrir e fechar de olhos, nós subiremos a ele, e para sempre estaremos com o Senhor.”

Creio que este seja um dos dez principais contrabandos, vendidos nas igrejas evangélicas, como autênticos versículos bíblicos. É de uma natureza tão torpe, que é triste averiguar a imensa popularidade que conquistou em todas as camadas, dos novos convertidos até os maiores mestres da Palavra. Veja por si mesmo o que ensina a Palavra divina:

“Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados; Num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados.” (1Co 15.51,52)

O que o ministro dos gentios está dizendo? Que o arrebatamento será tão rápido como um piscar d’olhos, ou que a transformação dos nossos corpos –de mortais a incorruptíveis– será assim? É claro que a segunda opção é correta.

Esta história de Jesus voltar e os cristãos serem transformados e transladados, num milésimo de segundo, conseguiu se entremear nas páginas bíblicas em razão da aceitação do dispensacionalismo, um sistema escatológico que ensina que a Igreja não passará pela Grande Tribulação. Como os crentes poderiam ser arrebatados sem que o mundo os visse subindo até o Senhor? A resposta está neste texto pseudo-escriturístico.

12. “Não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução; antes, embriagai-vos com o Espírito Santo.”

Esse é usado para defender as experiências de êxtase, nas quais os crentes balançam, caem, riem e fazem outras coisas mais. É uma tolice recorrer a uma invencionice tão descarada para embasar estas coisas. Há textos verídicos que abrem espaço para crermos que o Espírito Santo pode fazer as pessoas ficarem como ébrias. Para saber mais sobre isso, consulte o estudo “As Escrituras e os Êxtases Espirituais".

13. “Em verdade, em verdade vos digo: o diabo vem para matar, roubar e destruir. Mas eu vim para tenhais vida, e vida em abundância.”

“O ladrão não vem senão para matar, roubar e destruir. Mas eu vim para que tenhais vida, e vida em abundância.” (Jo 10.10)

Quem é o ladrão que mata, rouba e destrói? O contexto clarifica a identidade de tal personagem:

“Todos quantos vieram antes de mim são ladrões e salteadores; mas as ovelhas não os ouviram.” (vs. 8)

No vs. 10, Cristo não está especificando uma pessoa em particular como “ladrão supremo”, que seria Satanás, mas afirmando um conceito genérico: uma pessoa que recebe o título de “ladrão” tem por ocupação a apropriação total do bem alheio, mesmo que isso inclua roubar, destruir e matar aos outros. Contrariamente a isso, Jesus não é ladrão, pois Sua obra é o oposto disso: trazer a vida abundante, que é a vida eterna, espiritual. Em momento algum o Mestre cita a existência ou atuação do diabo.

14. “Buscai, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, e todas as coisas vos serão acrescentadas.”

15. “Vós escolhestes a Saul sobre vós e vossos filhos, mas eu, o Senhor, não o escolhi; eis agora a Davi, homem segundo o meu coração, a quem tirei do aprisco de seu pai para reinar em Israel.”

16. “Irmãos, não desfaleçais; pois nos últimos dias virá o enganador, transfigurado em anjo de luz, o diabo e Satanás, que seduzirá a terra inteira. Ele surgirá como homem, falando e enganando a muitos, mas os escolhidos não lhe darão crédito.”

17. “E Sansão crescia em força e graça diante do povo de Israel; e era o varão mais forte de toda a terra, pois ninguém se igualava a ele entre os hebreus, os filisteus, os egípcios ou dos do lado da banda do oriente.”

18. “Aproveitando o sono de seu marido, Dalila foi e cortou-lhe as madeixas da cabeça, nas quais não passara navalha desde o nascimento; pelo que perdeu ele suas forças.”

19. “E, após os apóstolos terem visto o Senhor manifestado, chegou Tomé ao lugar em que estavam reunidos; contando-lhe os discípulos que o Senhor ressuscitara, e que havia aparecido a eles, não creu ele, pois era incrédulo, e duro de coração.”

20. “Vigiando em todo o tempo acerca do vosso falar e do vosso trato com os outros, pois Satanás anda em derredor, anotando nossas palavras; vede, portanto, que vossos dizeres não sejam usados para condenação, mas para glória no Dia do Senhor Jesus.”

21. “Acautelai-vos, pois Satanás, vosso inimigo, aguarda o momento de vosso desânimo para vos arrastar para o inferno, onde há pranto e ranger de dentes.”

22. “O diabo marca toda palavra que falamos.”

23. “E aconteceu que, com a pregação de Pedro, mais de três mil almas se converteram no dia de Pentecostes.”

Com certeza, muitos outros versículos “falseados” tem aparecido pelo mundo afora. Estes são os que conheci até hoje, sem contar as conclusões totalmente infundadas que alguns têm feito sobre textos bíblicos, tais como:

a) Pregar que Jesus levou nossas doenças físicas, baseando-se em Is 53.4,5, que é uma profecia do Antigo Testamento, que deveria ser interpretada à luz do Novo Testamento, em Mt 8.16,17 e 1Pe 2.24;

b) Ensinar que a prosperidade é um direito dos cristãos, com base nas promessas de Dt 28.1-14, enquanto as instruções sobre as guerras aos cananeus são espiritualizadas;

c) Declarar que a Igreja será arrebatada antes da Grande Tribulação, construindo um castelo de areia sobre 1Ts 5.9, em vez de ler este versículo à luz de Ap 14.10;

d) Isolar o texto de Dt 6.4 para negar a pluralidade de Pessoas na unidade de Deus, enquanto o Novo Testamento ensina que essa unicidade é formada por “o Pai, a Palavra e o Espírito Santo” (1Jo 5.7, Almeida), sendo que o próprio Antigo Testamento já deixa isso implícito (Gn 1.26 c.c. Is 44.24).

Além disso, ouvimos também as frases engraçadas, que são facilmente identificadas por qualquer conhecedor mediano das Escrituras:

“Me ajude, e Eu te ajudarei”.

“Quem pariu Mateus que o cuide”.

E por aí vai.

O autor é estudante e ex-atirador do TG 02-010 em Araçatuba (SP). Design e conteúdo: Copyright © 2003-2010 Cleber Olympio. Todos os direitos reservados. Não traduzimos a opinião oficial das Forças Armadas do Brasil, nem a de instituições religiosas.