sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Uma história dos diabos

Acima, "Jesus separando carneiros e bodes", mosaico do séc. 6, Basilica de Sant'Apollinare Nuovo, Ravenna, Itália (repare o Diabo como um anjo azul). Abaixo, Mephistópheles, cartaz da ópera Faust, de Gounod, Paris, 1869. À direita, "Satanás", Codex Giga (coleção de livros da Bíblia), séc. 13, República Tcheca.

Uma abordagem desse tema do Diabo já foi feita em O Diabo do Novo Testamento

Aqui, gostaria de apresentar algumas interpretações Cristãs pós-bíblicas do Diabo. Uma delas, bem inicial, é sua associação com a serpente no jardim do Éden.

Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus tinha feito. E ela perguntou à mulher: "Foi isto mesmo que Deus disse: ‘Não comam de nenhum fruto das árvores do jardim’?" (Gênesis 3.1) … Então o Senhor Deus declarou à serpente: "Já que você fez isso, maldita é você entre todos os rebanhos domésticos e entre todos os animais selvagens! Sobre o seu ventre você rastejará, e pó comerá todos os dias da sua vida. (Gênesis 3.14)

Se observarmos cuidadosamente o texto que se refere à serpente, supostamente escrito por Moisés (aprox. 1400 a.C.) e, sabemos, re-compilado pelos profetas do rei Josias (640-609 a.C.), não há uma ligação entre a serpente e o Diabo. Para falar a verdade, a maldição “sobre o seu ventre rastejarás” parece bem pouco adequada a um anjo rebelde e muito mais semelhante a um mito de criação do réptil sem patas. Pelo menos na concepção hebraica, parece que a condenação de Adão e Eva se deu por uma ação deles mesmos, no máximo influenciada por uma cobra (realmente uma cascavel, sucuri, etc) no sentido literal. Ok, é menos degradante pensar nos 1os humanos sucumbindo a um poderoso ente celestial maligno que estaria lá no Éden “disfarçado de serpente”, mas as Escrituras não falam nada sobre isso. Falam sobre um réptil astuto, enganador e tagarela.

A associação da serpente com o Diabo pode ter surgido nos tempo do Velho Testamento pelo contato dos Judeus com povos cultuadores desses animais (ex. Egípcios, Cretenses, Sumérios, etc), mas as escrituras de fato falam da disputa religiosa com crenças Cananéias como Baal (senhor das tempestades), Astarte (senhora dos céus, das estrelas especificamente), Asherá (senhora das matas) e Moloque (deus da fertilidade agrícola). Em nenhum desse cultos as serpentes tinham algum significado especial. Os Judeus também absorveram muito da cultura Neo-babilônica durante seu cativeiro (597-539 a.C.), mas isso não incluiu os deuses babilônicos como Marduk ou Sin, que também não incluíam serpentes. Mesmo no período greco-romano (332 a.C.-70 d.C.), os Judeus sempre se preservaram de absorver novos deuses; e esses povos também não cultuavam serpentes. No Novo Testamento, entretanto, João faz uma profecia em Patmos, relativa ao fim do mundo, ligando o Diabo à serpente:

E houve batalha no céu. Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os seus anjos. Mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou nos céus. E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo. Ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele. …. E eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do Seu testemunho; e não amaram as suas vidas até à morte. Por isso alegrai-vos, ó céus, e vós que neles habitais. Ai dos que habitam na terra e no mar; porque o diabo desceu a vós, e tem grande ira, sabendo que já tem pouco tempo. (Apocalipse 12.7-12)

Essa passagem coloca o Diabo, Satanás, na Terra após uma espécie de guerra nos Céus. E mais, o coloca na forma de um grande dragão, semelhante ao Tiamat da Acádia (antiga Babilônia, aprox. 2000 a.C.) ou ao Jörmungandr viking (séc 10 d.C.). Ainda que o chame de “antiga serpente”, é algo bem diferente de uma cobra como costumamos pensar, e de como parece ser o caso na cena do Éden. João também fez sua profecia cerca de 1500 anos após o texto de Moisés, e talvez 9000 anos após a tal batalha (ver O que Deus fazia antes de Noé). Apesar disso, desde a tradição Cristã mais antiga, associou-se a serpente no Éden com o Diabo.

LÚCIFER, IMAGINO

Um ponto inicial é o nome assumido para essa entidade: Lúcifer. Tal nome não é hebraico e provavelmente não está na sua Bíblia.

Uma parte da origem de “Lúcifer” se deve à Bíblia do rei James I da Inglaterra (1566-1625; uma tradução mais adequada do seu nome Cristão seria Tiago I). Como sucessor da linhagem Protestante de reis, James I organizou uma tradução da Bíblia a partir dos textos latinos e gregos mais antigos, e sua versão se tornaria uma das mais populares da história. Várias expressões linguísticas do Inglês surgiram a partir dos textos bíblicos dessa tradução, como "bite the dust” (“comer poeira", cair morto, fracassar, “beijar o chão”), "mosca na sopa" e "sagacidade". Foi nela que o nome “Lúcifer” se popularizou, citado pelo profeta Isaías:

Como você caiu do céu, ó Lúcifer, filho da alvorada! Como és reduzido ao chão, o que enfraqueceu as nações! (Isaías 14.12)

O texto original usado pelos tradutores do rei James I era uma outra tradução, feita por São Jerônimo, ou Jerônimo de Stridônia (347-420), um estudioso Cristão famoso por compilar uma das 1as versões da Bíblia. No seu texto, em latim, a passagem de Isaías se lê como:

Quomodo cecidisti de caelo lucifer qui mane oriebaris? Corruisti in terram, qui vulnerabas gentes?

Refazendo a tradução do latim de forma mais cuidadosa, podemos ficar também com o formato final:

Como você caiu dos céus, ó estrela da manhã, filho da alvorada! Como foi atirado à terra, você, que derrubava as nações! (Isaías 14.12)

São formas semelhantes de escrever mas, aqui, o nome Lúcifer simplesmente não existe. Na verdade, se lermos o texto de Isaías, veremos que se trata de uma profecia sobre a queda do Império Babilônico (626-429 a.C.). Mais especificamente, Isaías profetiza o fim triste do imperador Nabucodonosor II (reinou de 605 a 562 a.C.)¹. Em outras palavras, a versão do rei James I parece criar o nome “Lúcifer” onde Isaías colocou somente uma exaltação sarcástica ao rei de Babilônia, que havia invadido a Judéia, e não a uma entidade espiritual.

É interessante que Isaías iguala Nabucodonosor (o título, pelo menos) à “estrela da manhã”, nome usado na Antigüidade para o planeta Vênus, que aparece como astro mais brilhante no céu 1-2h antes do nascer do Sol. No tempo de Isaías, Vênus era cultuado pelos Egípcios como Sekhmet/Hator e pelos Babilônicos como símbolo da deusa Ishtar. Os gregos associaram-no com a deusa Vênus (de quem levou o nome atual) e os romanos da era republicana associaram o planeta-estrela com Afrodite. No latim que São Jerônimo usou para escrever, o nome do planeta Vênus era Lúcifer, que significava “o mais brilhante”.

O DIABO ANTIGO

Sem trocadilho, as composições por detrás da imagem do Diabo eram muito tentadoras. De um lado, João deixou a idéia de um grande dragão celestial combatido pelo anjos, que arrastou consigo (para a Terra) um terço das estrelas. De outro, São Jerônimo traduziu o texto de Isaías para dar um nome ao ser que caíu do céu: Lúcifer, a estrela-da-manhã. O dragão ainda era uma serpente, como aquela no Éden.

Um nome que o NT usa é Belzebu, príncipe dos demônios (Lucas 11.15). Esse nome é registrado, muito antes, como Baal-Zebube, deus de Ecrom (cidade-estado dos Filisteus) e “Senhor das moscas”, pensando-se em um divindade que expulsa as pestilências (2ª Reis 1). A demonização da divindade dos Filisteus é presumível, mas a sua imagem prevaleceu como símbolo do mal. A representação mais antiga de Baal é de Ur (de 2000 a.C., bem antes dos Caldeus), sendo um homem segurando um machado com o qual lançava relâmpagos (segura essa, Thor!). Na Judéia, entretanto, a associação de Baal com a fertilidade das terras lhe rendeu a imagem de um touro enfeitado de ouro. O deus Dagon dos Fenícios também fez sua contribuição ao apresentar uma divindade rival meio-homem, meio-animal (1ª Samuel 5.2-4). Os Judeus mais ortodoxos não demoraram a associar esse Baal agrícola com o bezerro de ouro dos seguidores de Moisés, de forma que o “Diabo”/Belzebu ao qual associaram Jesus era uma figura mais profana do que medonha, sendo às vezes representado como touro ou homem-touro.

Os Judeus não costumavam fazer representações divinas ou mesmo de demônios, entendendo-os mais como forças sobrenaturais do que como entidades que precisavam de rosto e forma. Na verdade, incomodava-os a adoração a qualquer tipo de imagem, fosse homem ou animal. Uma espécie de Satanás aparece no Tanach³, mais especificamente no apócrifo Livro dos Jubileus (150 a.C.), onde Yahweh concede a Satanás/Mastema autoridade sobre um grupo de anjos caídos para tentar os humanos e puni-los. Reparemos a semelhança com os Djins árabes (espíritos tentadores do deserto) e com o Satanás descrito no evangelho de Lucas. Essa era provavelmente a representação mais popular no imaginário da época de Jesus: um espírito tentador ou punitivo, às vezes o Belzebu profano com chifres de touro.

Nos sécs. 1 e 2 d.C., quando Roma impunha seu poder aterrorizante sobre Judeus e Cristãos, as estátuas imperiais eram vistas como “abominações” e representavam imperadores, mas também divindades portando lanças, espadas, escudos e tridentes. E foi assim que o Diabo ganhou sua ferramenta favorita. Com o apocalipse de João, esse ser maligno ganhou ainda coroa e símbolos de rei que seriam as marcas do Anticristo e suas bestas. Tal Diabo “coroado” aparece em figuras da Idade Média, nos estudos de demonologia do séc. 18 e, recentemente, no filme “Hellboy”.

Uma mudança significativa aconteceu com a institucionalização do Cristianismo (séc. 4 d.C.). Uma preocupação típica dos religiosos nessa época era a dualidade corpo-espírito, onde as cartas de Paulo e a obra Confissões, de Santo Agostinho, ajudaram a formar uma concepção de que o mal residia em tudo que fosse animal, carnal, instintivo. Como consequência, o Diabo pré-medieval era praticamente um lobo ou fera andando sobre duas patas, coberto de pelos, com dentes pontiagudos e cauda.

Mais ao norte da Europa, a disputa religiosa entre Cristãos romanos e Pagãos romanos lhe dava a imagem dos bodes europeus, bastante cultuados como sinal de fertilidade da terra pelos Romanos e demais povos. Por isso a representação preferida que a Igreja fazia do Diabo no norte era esse ser com chifres, pêlos e cabeça de bode. Os cavaleiros medievais deixaram muitas figuras desse tipo para simbolizar seu maior temor, o qual também esteve envolvido na perseguição feita a feiticeiros e bruxas desde o séc. 10 d.C.

No Alcorão (séc. 7 d.C.), Shaitan ou Iblis é uma entidade feita de fogo (pois o fogo era considerado o mais divino dos 4 elementos) como os demais anjos, que foi expulso do Céu porque se recusou a obedecer Alá e se curvar perante o recém-criado Adão. Cheio de mágoa, Iblis transforma seus seguidores em Djinns que habitam os desertos para incitar os humanos ao pecado, infectando suas mentes com wiaswās (sugestões malignas). Reparemos que bem diferente do conceito Cristão de um Diabo habitando entre os homens, os árabes entendiam um Diabo que era perigoso às pessoas sozinhas. No 1º caso se trataria de um ser mágico oferecendo favores em troca do culto humano; no 2º caso seria um ser mais perto do molde judaico, fazendo mágicas que perturbem a harmonia humana.

UM DIABO MODERNO

A idéia de que o Diabo governa o inferno parece ter uma fonte bem mais recente, no poema de Dante Alighieri, A Divina Comédia², publicado por volta de 1320. O poema descreve a viagem do próprio Dante através do Inferno, Purgatório, Paraíso e Céu, guiado por 3 seres: Virgílio (guia no Inferno e Purgatório), Beatriz (guia no Paraíso) e São Bernardo (guia no Céu). Virgílio foi um grande poeta romano (70 a.C. - 19 a.C.); Beatriz foi a 1ª esposa e grande amor de Milton; São Bernardo (1090-1174) foi o fundador da Ordem dos Cavaleiros Templários. Na cosmogonia registrada por Dante, Deus criou o inferno quando expulsou o Diabo e seus demônios do Céu. A ira divina foi tão grande que produziu um enorme buraco no centro da terra, onde os demônios foram habitar. Dante retratou o Diabo como uma criatura alada grotesca com três rostos - cada um mastigando um pecador desonesto - cujas asas sopravam ventos gelados por todo o Inferno.

Em 1654, o holandês Joost Van den Vondel fez de Lúcifer o protagonista e título de uma de suas grandes peças teatrais. Seu interesse pelo VT o levou a produzir também “Adão Banido” e “Noé”. A peça Lúcifer era uma trama envolvendo apenas os anjos. Nela, o anjo Appolion descreve o Éden que ele viu, com seres feitos do barro e no entanto perfeitos, comandando um lugar mais belo que o Céu. Gabriel então anuncia que Deus havia reservado também o Céu para suas novas criaturas, que reinariam sobre os anjos. Lúcifer, o preferido de Deus, se rebela e comanda diversos anjos a se oporem aos desejos de Deus, mantendo os homens na Terra (reparemos a influência árabe). Deus manda Gabriel repreender os seguidores de Lúcifer e Rafael anunciar que serão perdoados, caso se conformem às ordens do Senhor. Em desespero, Lúcifer se vê diante dos seguidores a avisa que haviam ido longe demais para recuarem. Após uma feroz batalha, ele e seus parceiros são derrotados e caem do Céu. Durante a guerra, no entanto, Lúcifer trama impedir que os homens cheguem ao Céu envenenando e corrompendo-os, para que Deus jamais os queira. Lúcifer é transformado numa mistura de 7 bestas, representando os pecados capitais. Enquanto isso, Gabriel aparece entre os anjos leais para avisar que Belial, disfarçado como serpente, havia entrado no Éden e corrompido os homens. A peça termina com os anjos, chorosos, expulsando Adão e Eva do Éden. Pouco depois de sua composição, a peça foi proibida pela Igreja da Holanda, só voltando aos teatros no séc.19.

Em 1667, o diabo também ganha a posição de protagonista no livro do inglês John Milton que, cego, escreveu sua obra prima descrevendo a queda do anjo Lúcifer até se tornar Satanás. Fala-se de uma Guerra Celestial, onde Deus (noutra parte do livro é Jesus) lança todos os raios dos céus contra os rebeldes. No início do livro, os anjos estão caídos num inferno de “fogo e enxofre”. Lúcifer se torna rei deles e seus seguidores (Belzebu, Belial, Mamon, etc) constroem um grande palácio de ouro (Pandemônio), onde se reúnem para planejar a vingança contra Deus. Aos poucos ele deixa a aparência angelical (que Gustave Doré ilustrou como um jovem herói grego com asas, imenso para os padrões humanos) para se tornar um ser não só maligno, mas também destituído de beleza, aparentado com um animal voador. Mudando de forma, Lúcifer escala O Abismo e faz várias tentativas de infiltrar-se no Éden, mas é visto pelos anjos, até que consegue entrar disfarçando-se como serpente. Como o nome sugere, a obra termina com a expulsão de Adão e Eva do Éden. Ao contrário da peça de Vondel, o Paraíso Perdido se tornou um dos livros mais lidos no Ocidente e influenciou decisivamente a cultura Cristã.

Em 1806, o alemão Johann Wolfgang von Goethe publicou sua obra Fausto. Apropriando-se do livro de Jó e do conceito de um diabo tentador, Goethe misturou tais idéias com as estórias sobre um médico-bruxo alemão, Johann Faust, que ficou famoso por volta de 1530. Ele imaginou que o diabo deveria ser atraente e fazer todas as suas maldades de forma oculta. A fantasia clássica desse personagem inclui maquiagem com rosto sinistro e sorridente, além de uma roupa vermelha com capa. Na famosa peça teatral, o demônio Mephistópheles vai ao Céu e aposta com Deus de que ele seria capaz de seduzir seu humano favorito, Fausto. Na Terra, Fausto queria ser capaz de resolver todos os problemas. Buscando na Bíblia suas respostas, ele não as encontra. Nem tampouco na Filosofia ou na Magia. Desamparado com a futilidade dos homens (há vários trechos copiados de Eclesiastes, na peça), ele tenta se matar e falha. Na volta para casa, é seguido por um cão que se transforma em Mephistópheles. O demônio promete a Fausto realizar qualquer desejo seu na Terra, e Fausto o serviria no inferno. Mas Fausto coloca um porém: Mephistópheles poderia levá-lo apenas quando estivesse plenamente feliz. O demônio ajuda Fausto a seduzir Gretchen, a moça que ele admirava, e ainda induz Gretchen a sem saber matar sua mãe com uma dose excessiva de sonífero, para que Fausto pudesse ir ao seu quarto. Ela depois descobre que está grávida. Seu irmão vai atrás de Fausto e morre ao chegar perto dele. Gretchen tem o bebê e, sendo um ilegítimo, mata a criança e vai presa. O demônio ajuda Fausto a ir libertá-la da prisão, mas Gretchen recusa-se a ir. Fausto vai embora ouvindo anjos que o avisam de que Gretchen estava salva. Finalmente, Fausto morre mas, como jamais havia sido plenamente feliz, o demônio assiste enquanto ele sobe ao Céu.

Devil as a tailor, Jerome Witkin, 1978

Em 1978, o pintor Jerome Witkin produziu um “retrato” do diabo como alfaiate ou costureiro musculoso e sinistro, semelhante aos gênios da Disney, tecendo os uniformes de soldados. Essa idéia de alguém agindo “por trás das cortinas”, influenciando as ações dos homens, foi bastante aproveitada em obras como Hellblazer (1988, DC Comics), de onde surgiu o personagem cinematográfico John Constantine. De quimera boi-homem ou bode-homem, o diabo moderno ganhou ares de poderoso empresário e ser controlador dos homens que nem sabem sobre serem suas vítimas.

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¹ Nabucodonosor II foi um rei-símbolo do Império Neo-babilônico. Vários sucessores usaram seu nome como se fosse um título, assim como aconteceu com César, em Roma. Ele teve um reinado extremamente longo e não morreu de forma humilhante como Isaías previu, tendo inclusive conduzido seu reino a um auge de poder e riqueza. Certamente esse nome foi usado por seu penúltimo sucessor Nabonidus (reinou de 556 a 539 a.C.), que pode ser a vítima predita por Isaías. Nabonidus era na verdade um religioso, que se isolou da função de rei em um oásis para cultuar a deusa ancestral Sin (representada pela Lua). Ao desprezar o deus maior de Babilônia, Marduk, ele revoltou os altos sacerdotes, que o culparam pela invasão dos Persas liderados por Ciro, o grande. Apesar disso, não se sabe dizer se mesmo Nabonidus teve o fim desonroso que Isaías prevê. Ciro era famoso por seu respeito aos reis conquistados e, segundo a única fonte escrita descrevendo o fim de Nabonidus, ele foi exilado como administrador de terras do rei.

² A palavra Comédia não significava, para Dante, o que significa para nós hoje. Trata-se de uma palavra aparentada com Cômico, no sentido de ser teatral, novelístico. Talvez uma tradução atual para o nome da obra pudesse ser “Novela Divina”. Ainda hoje se usa, no inglês, a palavra Comics para descrever não obras engraçadas, mas sim fictícias ou fantasiosas e com uma arte visual.

³ Tanach é o equivalente hebraico do Velho Testamento. Há outros livros sagrados, no Judaísmo. Tanach é a junção das iniciais de Torá (a Lei) + Neviim (os Profetas) + Chetuvim (as Escrituras). A Torá é a junção de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Neviim é o conjunto formado por Josué, Juízes, 1ª Samuel, 2ª Samuel, 1ª Reis, 2ª Reis, Isaías, Jeremias, Ezequiel, Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias. Chetuvim compreende Salmos, Jó, Provérbios, Rute, Cântico dos Cânticos, Eclesiastes, Lamentações, Ester, Daniel, Esdras, Neemias, 1ª Crônicas e 2ª Crônicas.

Todos são livros muito antigos. A tradução utilizada nas Bíblias vem das versões em grego e latim desses livros, que foram produzidas a partir de 37 a.C., com a anexação da Judéia ao Império Romano. Apesar disso, versões mais antigas foram preservadas na Babilônia (atual Irã/Iraque), que são utilizadas na Tanach.

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PALAVRAS DO ORCO

Beelzebub - wikipedia
Casonatto OD, O que quer dizer Tanach?, abiblia.org, ago/2012
Dillon KJ, Sekhmet, Venus goddess of ancient Egypt, scientiapress.com
Dunne C, The changing face of Satan, from 1500 to today, fastcompany.com, ago/2014
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Harries DR, Joost van den Vondel and his drama, ‘Lucifer’, davidronaldharries.wordpress.com, jan/2014
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James VI and I - wikipedia
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Satan - wikipedia
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Völuspá - wikipedia
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domingo, 23 de setembro de 2018

O mito eleitoreiro

Em época de eleições, vemos candidatos divulgando idéias sobre as questões sociais que assolam o país (e também assolavam na eleição passada). Infelizmente, tem se cultivado entre os candidatos o hábito de deixar as exposições de ideias para aproveitar todo e qualquer momento de mídia repetindo um “monólogo de si próprio” indiferente a questionamentos e diálogos. Num debate recente na televisão, por exemplo, onde 8 candidatos estiveram presentes, pouco se disse além de promessas genéricas como apoiar saúde e educação (talvez os candidatos desconheçam a PEC 241 de 2016, limitando investimentos nessas áreas menos importantes) e combater a corrupção (que é atribuição da polícia).

Além dos ataques mútuos típicos dessa fase de batalha eleitoral, também têm chamado à atenção os episódios de exaltação Cristã. Afora as críticas (legítimas) sobre a influência religiosa em ideias para governar um Estado laico, é presumível que pessoas religiosas se guiem por diretrizes religiosas na tomada de decisões. O Brasil é um país de absoluta maioria Cristã e está claro que os candidatos pretendem estabelecer isso como vínculo com os eleitores. Mas vale muito a pena entender o que os candidatos querendo esse “voto Cristão” entendem, de fato, como sendo diretrizes Cristãs de funcionamento. A imensa variedade de cultos Cristãos apenas no Brasil já dá margem a múltiplos entendimentos do que “Cristão” pode significar.

IDENTIDADE DE GÊNERO

Num diálogo entre Cabo Daciolo (Patriotas) e Jair Bolsonaro (PSL), por exemplo, os dois debateram sobre o “kit gay”, além da “liberação” do aborto. Colocando-se como defensores da família tradicional brasileira e tementes a Deus, se posicionaram contrários a essas medidas. Ambos atacaram ferrenhamente uma publicação incentivadora da homossexualidade que seria veiculada como material didático. Só que bem diferente do que afirmavam os candidatos, o tal “kit” era a publicação do MEC  “Caderno Escola sem Homofobia”, destinado a professores, gestores e profissionais, para que abordem a questão de orientação sexual com alunos do Ensino Médio. Um posicionamento semelhante foi feito “contra a liberação do aborto”, dando a entender que há uma proposta de reverter a atual proibição da prática para uma futura ausência de restrições. Jair Bolsonaro então até questionou a moralidade de Marina Silva (Rede) que, sendo Evangélica, defende um plebiscito para a legalização da maconha e do aborto. O argumento de Marina era de evitar que mulheres recorram a métodos inseguros e clínicas clandestinas para fazer o procedimento, diminuindo assim o risco de morte da genitora.

No Novo Testamento, existem raríssimas abordagens da homossexualidade, nenhuma delas registrada como palavras de Jesus. Muito menos há uma abordagem de como mestres devem tratar o tema com seus alunos. E também não há qualquer instrução acerca do aborto, quanto mais da consulta pública sobre o tema. Por isso percebemos que, no vigor de iniciar uma discussão sobre o quanto cada um é Cristão, os candidatos “fabricaram” um objeto de discussão e na verdade divulgaram uma retidão moral que não encontramos entre os seguidores de Jesus, mas que se aproxima muito mais da perfeição farisaica que Jesus acusava de serpentes, víboras e “filhos do diabo”.

SOCIALISMO

Cabo Daciolo levantou uma discussão sobre a “URSAL” (União das Repúblicas Socialistas da América Latina), que seria um movimento militar-socialista¹ de apoio entre governos para a mudança do regime econômico. Uma evidência de tal movimento seria a receptividade do Brasil aos imigrantes venezuelanos. Afora a tradição diplomática de asilo político que sempre foi característica do Brasil, a preocupação com manter o capitalismo apareceu como uma atitude Cristã. Olhando para a história de toda América Latina, entretanto, observamos massacres de indígenas e de pobres, sobretudo em El Salvador, Guatemala, Nicarágua, Argentina, Chile e no Brasil durante os tempos de ditaduras militares altamente capitalistas e que se instauraram, cada uma, objetivando conter supostos movimentos socialistas contra a propriedade privada. Foram governos que, sem exceção, produziram milhões de pobres e miseráveis em favor da concentração de renda nas mãos de poucos (vários deles membros do governo). E olhando o livro de Atos encontramos, para o espanto geral, que os primeiros Cristãos justamente vendiam suas propriedades para alimentar um grupo pautado na coletividade, o que facilmente se poderia chamar de “socialistas”. Dessa forma, o que quer que a URSAL possa significar - não há evidências de que exista, mesmo como projeto - ela teria muito mais a ver com o Cristianismo, especialmente o defendido pela Teologia da Libertação - do que o modelo capitalista pregado pelos candidatos Cristãos do Patriotas e PSL.

Em todos esses países supostamente socialistas, é bom lembrar que existem milhões de pobres vítimas de decisões políticas, econômicas e financeiras sobre as quais não têm nenhuma influência. Dizem as Escrituras que Deus escuta seus gritos, e um dos profetas chega a dizer que as blasfêmias que proferem por causa da dor, Deus as escuta como súplicas (Salmo 102, Isaías 30.18,19). As eleições sempre trazem alguma esperança de que novos líderes tragam políticas sociais que diminuam as desigualdades mas, é notório, nosso país é conhecido mundialmente pela enorme desigualdade social, maior que em todos os irmãos latino-americanos e comparável à realidade africana. Aqui, o pobre vive melhor só quando há crescimento econômico. Nas supostas potências socialistas, tão temidas, a desigualdade menor é manchada por uma pobreza que ninguém inveja. Receber refugiados em fuga de um sistema que os mata lentamente, como ocorre hoje na Venezuela, parece muito condizente com a pregação de Jesus.

Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te?” Respondendo o Rei, lhes dirá: “Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” (Mateus 25.37-40)

(DES)ARMAMENTO

Jair Bolsonaro tem, como propostas muito apoiadas, a castração química de estupradores e o porte de arma para mulheres “de bem e preparadas”. Novamente vemos que existe uma preocupação com a violência contra mulheres, mas é um esquivar-se do Estado seguido de “protejam a si mesmas”. Junto, a velha noção de moralidade; quem não possuir tais atributos (e considerando outros dizeres do candidato, é a mulher pobre, negra, mãe solteira, prostituta, etc) está longe da “proteção” do Estado... e que se vire. Uma abordagem bem dramática desse tema de defender-se por armas aparece na cena da prisão de Jesus:

Pedro, estendendo a mão, puxou da espada e, ferindo Malco, o servo do sumo sacerdote, cortou-lhe uma orelha. Então Jesus disse-lhes: “Deixai-os, basta. Embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão. Não beberei eu o cálice que o Pai me deu?” E, tocando-lhe a orelha, o curou. (Mateus 26.51-52, Lucas 22.51, João 18.11)

O Estatuto do Desarmamento (Lei nº 10.826) foi aprovado por maioria do Congresso em 2003. Calcula-se que quase 200 mil mortes tenham sido evitadas por isso, desde então. Também não é difícil imaginar que Jesus preferiria um Estado onde pessoas não são ameaçadas ao invés de um onde cada um se defende como pode. Essa ideia não foi capaz de proteger nem o próprio Jair Bolsonaro, vítima de um atentado em plena campanha. Mas assusta pensar que tal é a visão Cristã nos EUA, país basicamente fundado por Protestantes Puritanos. E, de uma forma insidiosa, essa pode tornar-se a visão Cristã no Brasil. Com a ressalva de que o Estado é quem garantiria o porte de armas para as pessoas “de bem e preparadas”, as quais por outro lado não podem recorrer ao mesmo Estado por saúde, moradia, oportunidade de trabalho, educação de qualidade e, quem sabe, nem segurança.

Posteriormente, em entrevista, Bolsonaro disse que não se lembrava com certeza, mas estava se referindo a passagem bíblica de Paulo onde Jesus diz para os discípulos empunharem espada. A passagem referida está, no entanto, no livro de Lucas.

E disse-lhes: Quando vos mandei sem bolsa, alforje, ou alparcas, faltou-vos porventura alguma coisa? Eles responderam: Nada. Disse-lhes pois: Mas agora, aquele que tiver bolsa, tome-a, como também o alforje; e, o que não tem espada, venda a sua capa e compre-a. Porquanto vos digo que importa que em mim se cumpra aquilo que está escrito: E com os malfeitores foi contado. Porque o que está escrito de mim terá cumprimento. E eles disseram: Senhor, eis aqui duas espadas. E ele lhes disse: Basta. (Lucas 22.35-38)

O entendimento dessa passagem é nebuloso. Ela tem aspectos bem diferentes em nos livros de Mateus e João, mas está claro que pelo menos Pedro foi armado para o bosque do Getsêmane. Exceto Bolsonaro, entretanto, nenhum bibliologista (ex. Jacques Ellul, John Howard Yoder, Archie Penner, John Gill, etc) jamais afirmou que Jesus mandava seus seguidores portarem armas. A interpretação mais aceita é de que 2 espadas obviamente não seriam capazes de oferecer proteção contra a guarda do Sinédrio, nem há um planejamento de ação defensiva. Segundo eles, Jesus anunciava um período de sofrimento em que os discípulos não contariam com a proteção divina, ou ainda que anunciava a perseguição aos Cristãos na Judéia.

AH, AS MULHERES!

Em outro bate-boca com Marina Silva sobre políticas de proteção à mulher, Bolsonaro afirmou que tal coisa já está prevista em lei e não é mais responsabilidade do Estado. Arremedou dizendo para a candidata ler o livro de Paulo, onde uma passagem machista reforça a submissão das mulheres aos homens:

As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é vergonhoso que as mulheres falem na igreja. (1ª Coríntios 14.34-35)

Há algumas coisas a esclarecer sobre essa passagem. Primeiro, Paulo era um pregador grego entre os gregos de Corinto. Tratava-se de uma sociedade fortemente patriarcal e Paulo não intencionava abolir tais leis, assim como não se pronunciou contra o sistema escravista. Logo, as cartas de Paulo, assim como todo o texto bíblico, são condicionadas a posições sócio-culturais de cada época. O trecho de 1ª Coríntios 11.5, além de falar sobre a submissão das mulheres como lei divina, fala sobre regras de vestimenta, mas mostra que as mulheres tinham papel importante nos cultos Cristãos. O texto de 1ª Coríntios, em especial, trata de estabelecer normas de conduta numa igreja que Paulo considerava desordenada, onde as pessoas pareciam falar em línguas mas eram “como que falando ao ar”, que seriam “considerados loucos”. Paulo não pretendia senão estabelecer as regras em tal comunidade, regras que eram de sua cultura, época e local. Faz tanto sentido aplicar essas regras hoje e no Brasil como seguir as restrições alimentares e higiênicas de Levítico.

INDÍGENAS E QUILOMBOLAS

Entre alguns candidatos disputando o “voto Cristão”, chamam a atenção do mundo inteiro os discursos de ódio (que lembram Hitler e, mais recentemente, Donald Trump), falas vexatórias, piadas criminosas, apologias à violência e distorção dos acontecimentos durante a Ditadura Militar. Cogita-se, por exemplo, a remoção das terras garantidas pelo Estado a indígenas e quilombolas, pois são “terras ricas em depósitos minerais” ou que podem ser “utilizadas para o agronegócio”. De um modo muito estranho, vemos a mesma pessoa entoando um discurso denominado Cristão e também defendendo os interesses capitalistas mais cruéis. Como se uma coisa e outra fossem semelhantes, mas não são.

Davi, que era o melhor dos homens segundo Deus, fez questão de pagar pelas terras de Araúna, o jebuseu, onde ofereceria sacrifícios ao Senhor, mesmo sendo por direito senhor daquelas terras e do próprio Araúna (2ª Samuel 24.18-25). Jesus se negou a comer no deserto (Lucas 4.2-4), recusou a promessa de governar todo o mundo (Lucas 4.5-8), distribuiu alimentos (Mateus 14.16-21) e curas sem ganhar nada físico com isso. Ele ainda exaltou a doação da viúva pobre, por menor que fosse, devido ao significado daquilo para ela mesma (Marcos 12.41-44). E, por fim, horrorizou os fariseus ao curar pessoas (Lucas 13.14-16) e instruir que seus discípulos colhessem trigo no sábado, a fim de não passarem fome (Lucas 6.1-4). “Apesar da história”, e da expressão “Reino de Deus” largamente utilizada no Novo Testamento, o Cristianismo nunca teve bases muito compatíveis com os governos centralizadores de qualquer tipo, por pregar valores como humildade e igualdade entre os homens. Duvido muito que Jesus, enquanto governante, expulsasse pessoas de suas terras ancestrais porque tais terras possuem um bom valor comercial.

POBRES E EXCLUÍDOS

Que haja Cristãos escolhendo presidenciáveis da extrema direita, ultra-radicais e beirando o Fascismo² em suas falas é, sem sombra de dúvidas, uma desonestidade intelectual. Além da distorção/inversão de princípios bíblicos, os princípios de retidão moral exaltados por eles são tão semelhantes ao farisaísmo rigorista e sectário que assustam. São ideias bem contrárias ao que de melhor já aconteceu no Cristianismo, como o movimento dos Franciscanos no séc. 13 e o Concílio Vaticano II, nos anos 1960, para que a Igreja se posicionasse em favor dos pobres que não podem recorrer a seus governos. Bem pouco tempo atrás, a reforma trabalhista aprovada trouxe grandes prejuízos e retrocessos para os trabalhadores, naturalizando as desigualdades, produzindo baixos salários, alta rotatividade de empregados e informalidade. Mesmo o papa Bento XVI, religioso direitista da Igreja Católica, escreveu em sua Carta Encíclica Caritas in Veritate: “infelizmente a corrupção e a ilegalidade estão presentes no comportamento dos sujeitos sociais e políticos dos países ricos, antigos e novos, como nos próprios países pobres. No número de quantos não respeitem os direitos humanos dos trabalhadores, contam-se, às vezes, grandes empresas transnacionais e também grupos de produção local”.

Aqui, a Comissão Nacional dos Bispos do Brasil produziu documentos onde se lê claramente que “as injustiças, as desigualdades excessivas e ordem econômica ou social, a inveja, a desconfiança e o orgulho que grassam entre os homens e as nações ameaçam sem cessar a paz e causam as guerras. Tudo o que for feito para vencer essas desordens contribui para edificar a paz e evitar a guerra” ... “a atuação cristã dos leigos no social e no político não deve ser considerada ministério, mas serviço cristão ao mundo na perspectiva do Reino” ... “a participação consciente e decisiva dos cristãos em movimentos sociais, entidades de classe (sindicatos), partidos políticos, conselhos de políticas públicas e outros, sempre à luz da Doutrina Social da Igreja, constitui-se num inestimável serviço à humanidade e é parte integrante da missão de todo o povo de Deus”. Quão longe essas linhas da V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe de 2007 estão do posicionamento supostamente Cristão da extrema direita!

Para Jair Bolsonaro, a demarcação de terras indígenas, dentre outras demandas, não passa de uma besteira inventada e utilizada como massa de manobra pela “esquerda” para desperdiçar dinheiro com a Fundação Nacional do Índio (Funai). Entre suas ideias estão, ainda, o fim de medidas como as Cotas Raciais destinadas e equilibrar a desigualdade produzida desde a Abolição entre brancos e negros quanto à Educação Superior, medida que foi amplamente apoiada pela Igreja em nome das pessoas feitas à imagem e semelhança de Deus. A Igreja se fez finalmente solidária aos afro-americanos nas reivindicações pelas defesas de seus territórios, direitos e consciência de negritude, por isso é totalmente incoerente que se justifique - a não ser pelos interesses mais capitalistas - o apoio de medidas em contrário. Há até quem chame seu grupo de bancada BBB, iniciais de Bala-Boi-Bíblia.

POSICIONAMENTOS

Entre as medidas propagandistas de Jair Bolsonaro estão a ampla reprodução de textos e “curtidas digitais” por redes de celulares operados remotamente, a fim de criar uma falsa publicidade; estão também a exposição de “testemunhos” de simpatizantes que sequer moram no Brasil, além da completa distorção dos resultados de entrevistas em telejornais. Em suma, tudo vale pela popularidade, que é na verdade uma mentira, assim como a Cristandade declarada aos quatro ventos. Se é assustador que pessoas comuns pensem em apoiar as ideias dele no séc. 21, após conhecermos os horrores da Guerras e da perseguição escancarada de minorias pelo Estado, após termos vivido pesadelos nas mãos truculentas de militares, é mais pavoroso ainda que justamente Cristãos pensem assim.

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¹ O Socialismo, em sua origem, significava o Estado como proprietário de tudo dentro de um país. Isto é, a minha casa, o meu carro, até os meus móveis e o lugar onde trabalho são patrimônio público e, claro, todos são funcionários públicos. Ao invés de comprar com meu salário a minha comida, a minha educação, a minha saúde e os meus bens, todos eles são fornecidos "gratuitamente" pelo Estado, em troca da minha força de trabalho no emprego que eu não escolhi, mas me foi designado segundo as necessidades do Estado. O conceito de desemprego não existe, numa economia socialista. A proposição original teria como resultado o fim das desigualdades sociais, pois tanto o trabalhador mais braçal como o mais técnico praticamente não recebem salários. Na prática, os países que assumiram o Socialismo como modelo econômico (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, China, Cuba, Vietnã, Coréia do Norte) tiveram de usar estratégias militares para impedir as pessoas de possuírem bens, além de enriquecerem a classe dominante - no caso, o Partido Comunista - enquanto a população foi mantida pobre e alheia de qualquer decisão política. A URSS investiu dinheiro demais em armamentos e entrou a em colapso econômico, fragmentando-se em 1991. O Vietnã foi ocupado pelas forças armadas estadounidenses em 1975. Cuba foi isolada do comércio internacional por imposição dos EUA, desde 1960. A China e a Coréia do Norte se mantém graças a exploração de mão de obra (pois tais países não reconhecem legislações trabalhistas) e regimes militares bastante restritivos.

² Fascismo é uma palavra italiana, derivada de fascio ou feixe, sendo mais conhecido pelo seu nome alemão: Nazismo. O Fascismo surgiu quase conjuntamente com o Socialismo, supostamente sendo uma derivação deste. Tal regime propunha um controle absoluto do Estado sobre os indivíduos, ao invés de absorver todas as propriedades. Assim, nos regimes Fascistas (Alemanha, Itália, Japão e o Brasil bem que tentou, nos anos 1940) ficavam mantidas as propriedades de cada um, mas o Estado podia permitir ou proibir qualquer coisa para qualquer pessoa. Obviamente isso requer estratégias militares de controle. Em geral, tais países retiraram todo o patrimônio e direito de minorias (ex. negros, judeus, muçulmanos) para direcioná-los aos industriais mais ricos, que também podiam usar e abusar dessas minorias como mão de obra "escrava". Todos os governos fascistas tiveram como característica a substituição completa de rádio, TV, jornais, etc pela propaganda do sucesso e força estatais. O controle do Estado sobre os indivíduos chegava ao ponto de o Estado determinar quem teria filhos com quem, de forma a priorizar os indivíduos "mais bem capacitados" na sua população. O Brasil foi impedido de seguir sua trajetória fascista por intervenção militar dos EUA. A Alemanha, Itália e Japão foram, um a um, derrotados durante a 2ª Guerra Mundial.

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#ELENÃO LEU

Alessi G, Estatuto do Desarmamento salvou 160.000 vidas, calcula estudo, brasil.elpais.com, 15mai2015
Bento XVI, Carta Encíclica Caritas in Veritate, http://w2.vatican.va, 29jun2009
Boff L, Um problema nunca resolvido: o sofrimento dos inocentes, leonardoboff.wordpress.com, 14set2018
Conferência Nacional do Bispos do Brasil (CNBB), V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, mai2007
Lacerda M, A “URSAL” é uma síntese do pensamento de extrema-direita no Brasil, pragmatismopolitico.com.br, 14ago2018
Marciano C, Reflexões sobre a exaltação bíblica no 2º debate presidencial, pragmatismopolitico.com.br, 27ago2018
Rocha BL, Bolsonaro e as forças armadas - a desastrosa imagem associada, revista IHU online, 13ago2018

sábado, 8 de setembro de 2018

O Cristianismo negro - 3ª parte

À esquerda, uma Igreja Batista em Arkansas, estado do Alabama, em 1935. À direita, o coral da Morgan State University, fundada pela Igreja Episcopal Metodista no estado de Maryland.

Esse é o terceiro de uma série de artigos visando resgatar a importância dos negros na construção do Cristianismo. Aqui, em especial, tratarei do desenvolvimento atual do Cristianismo, a partir da metade do séc. 19 (quando encerrou-se o tráfico negreiro, por aprisionamento dos navios pela marinha inglesa) até a atualidade. Essa história envolve, ainda, 3 cenários: a África, o Brasil e os EUA. Leia nos links abaixo os artigos anteriores nessa mesma temática:

O Cristianismo negro - 2ª parte (sécs 15-19, época do tráfico negreiro)
O Cristianismo negro - 1ª parte (sécs. 1-15, os reinos Cristãos africanos)

ÁFRICA

Distribuição de religiões no continente africano, segundo o Pew Forum on Religion and Public Life, abr/2010. Afro indica as religiões autóctones tradicionais. Repare que, em alguns países, há forte sobreposição de pelo menos 2 religiões.

Benin foi o último reino Yorubá destruído pela marinha inglesa, no final do séc. 19. Como se recusavam a seguir as ordens de cessar a compra de escravos do Malí e as execuções humanas, a marinha arquitetou a tomada completa de sua capital Egbo. Os obás reagiram atacando seguidamente os postos da marinha a partir de 1890, mas 7 anos depois um ataque final arrasou a capital, expulsou  as populações nativas e levou para a Inglaterra todos os seus tesouros.

A cristianização da África havia começado na metade do séc. 19, com a chegada de missionários católicos nas terras Yorubá, enviados pela Coroa Portuguesa e destinados a facilitar o comércio com os europeus. A aliança entre a Igreja Católica e as famílias reais européias se fez extremamente presente na África: em favor dos ganhos com a venda de escravos, a Igreja não apenas tornou a escravidão negra aceitável, como passou a batizar os escravos a serem embarcados nos navios negreiros. Muitas vezes, a cruz do batismo era gravada a ferro quente na pele dos escravos. Tal postura com relação à escravidão só mudou no Concílio Vaticano II, em 1962. Dos países protestantes chegavam negros libertos, resgatados pela marinha inglesa dos navios negreiros; e junto com eles foram para a Sierra Leone na África missionários Anglicanos, Luteranos e Metodistas. Esses negros livres eram chamados de Saros, Amaros (colônias inglesas), Creoles (colônias francesas) ou Agudas (colônias portuguesas). Ao se fixarem próximo a litoral, eles levaram para a África a arquitetura americana, desenvolveram criações de animais, plantações de noz de cola (um fruto rico em cafeína, que se tornou ingrediente de muitas bebidas) e a indústria naval a partir da foz do rio Níger.

O destino dos missionários eram  os povos Bérbere e Etíope ao norte do Saara, e mais ao sul os Malí, Yorubá e Hausa. As semelhanças teológicas forjaram híbridos com o Cristianismo e o Islã que só existem na África: nas religiões tradicionais existia uma hierarquia de espíritos, com um deus criador, abaixo do qual estavam os ancestrais lendários¹, depois os deuses dos lugares (que se acreditava recompensarem e punirem os seres humanos de acordo com sua conduta). Os africanos acreditavam em um espírito imortal, que se reunia ao antepassados após a morte e que eles mesmos, os antepassados, habitavam entre os vivos influenciando suas ações e sua sorte. Quanto aos deuses, haviam muitos e variados, associados ao lugar sagrado onde o povo se originara, o rei e seus familiares eram enterrados. Os deuses que tinham revelado poder possuíam altares por toda a parte, e povos vencidos adotavam os deuses dos vitoriosos. Também fazia parte de suas práticas o teste do veneno, em que a verdade e a força de uma autoridade eram testadas bebendo uma mistura de plantas tóxicas; se sobrevivesse, o governante mostrava ao povo que era apoiado por uma divindade.

Os Bérberes do norte eram islâmicos desde o séc. 7, mas os europeus os reduziram a grupos espalhados pelo Saara, a partir do séc. 15. No final do séc. 19, o Egito e a Etiópia eram islâmicos e tinham boas relações comerciais com a Europa. Não faltaram incursões do Islã para a costa leste e as planícies ao sul do Saara. Por isso, os povos Etíope, Hausa e Malí foram fortemente islamizados. No entanto, a fragmentação natural de seus reinos por volta do séc. 18 criou um território fértil para novas experiências religiosas, onde geralmente um rei era declarado divino. Esses arranjos despertaram movimentos islamizantes mais radicais que fundaram, ao sul do Saara, reinos teocráticos como Futa-Djalon, Futa-Toro, Sokoto e Bornu. Tais reinos fundamentalistas lembravam muito os califados guerreiros que existiram na Arábia durante a implantação do Islã.

Hoje, talvez um dos produtos mais visíveis do Islã africano seja a cultura Swahili, da região dos grandes lagos, rodeados por savanas e uma fauna de elefantes, girafas, leões e rinocerontes que se tornou símbolo da África. Os Swahili misturaram o Islã com sua cultura tradicional, produzindo uma arte destituída de imagens, seja de pessoas ou animais, mas poderosa na combinação de formas geométricas e cores. A vestimenta típica dos Swahili, a Kanga, se tornou famosa em todo mundo: panos multicoloridos retangulares que são enrolados no tronco, até os joelhos e deixando os braços nus, geralmente com uma manta de cor vermelha ou branca cobrindo a parte superior e o pescoço. Sua filosofia positivista (hakuna matata = não há problema) também foi difundida com os clássicos personagens do desenho “O Rei Leão”. Embora se considerem islâmicos, os Swahili utilizam o Alcorão de forma bastante mística, como fonte de adivinhações e mensagens proféticas, semelhantemente a algumas denominações do Cristianismo Pentecostal.

Os europeus fizeram poucas tentativas de tomar terras islâmicas, com as quais havia tratados comerciais. Como dizia uma  funcionário francês em 1912: “Os negros islamizados são geralmente pessoas amáveis, reconhecendo a segurança que nossas armas lhes trouxeram; eles não pensam senão em viver em paz, à sombra de nosso poder”. Muitos africanos até consideravam o Islã uma religião nativa, pois os negros islâmicos eram altamente entrosados na sociedade, ao contrário dos Cristãos.

Os missionários Cristãos fizeram notáveis progressos na interiorização do continente a partir de 1850. Essas missões, além de evangelistas, pretendiam substituir a cultura africana (considerada ausência de cultura) pela européia, a única digna de seres humanos. Assim, os missionários abriram caminho para as empresas colonizadoras inglesas, belgas, holandesas, francesas e alemãs estabelecerem postos comerciais na África. Longe de serem postos de desenvolvimento, tais instalações direcionavam os produtos extrativistas (diamantes, ouro e marfins) e agrícolas (frutas e óleos) para os portos no Atlântico em troca de pagamentos mínimos à população ou, ainda, apenas ao governante local, muitos estabelecidos à força de armas pelos colonizadores. Uma figura que ficou conhecida nesse final do séc. 19 foi o médico inglês Dr. David Livingstone, movido para a África como missionário da Igreja Congregacional, uma denominação protestante. Hoje, várias cidades africanas mantém estátuas de Livingstone como herói civilizador.

Livingstone lutou contra o tráfico negreiro na região do rio Zambezi. Ele acreditava que o escravismo desapareceria quando fosse substituído por uma atividade comercial legítima, que viria da cristianização dos povos, sua educação, serviços sociais e organização europeia das cidades. Foi pessoalmente responsável pela implantação de serviços médicos e comerciais num lugar que sofria anualmente com epidemias de malária. Décadas após sua morte, os seus seguidores de fato levaram à abolição do tráfico negreiro por alguns povos, como os Swahili.

Os missionários Cristãos e os reis africanos duelavam quanto ao individualismo. Os primeiros ensinavam sobre um mundo secular, terreno, e um mundo espiritual, habitado pelo Espírito Santo. As consequências dos atos humanos eram cobrados de cada pessoa. Já as religiões africanas enfatizavam uma noção de todo, como no Velho Testamento, onde ações boas ou ruins recairiam sobre todo o povo, todos os seres e até mesmo o clima. A negação do contato com os mortos também era crítica, pois a noção de ser a todo momento observado e ajudado por seus antepassados eram um dos pilares da organização de vida africana. Outro ponto era o desprezo Cristão pela feitiçaria: os africanos não apenas a praticavam, mas se filiavam a esse ou aquele deus e até se mudavam para outra terra como proteção de ameaças mágicas. Frequentemente, os africanos abandonavam as missões se um feiticeiro declarasse que mataria todos ali. Esse embate levou certos povos a declararem guerra aos missionários, atacando suas aldeias, escolas e igrejas.

A resposta das empresas coloniais também foi hostil: exércitos expulsaram povos de suas terras sagradas, destruíram santuários aos deuses locais e os governantes tornaram crime algumas práticas que marcavam as pessoas como seguidor deste ou daquele deus. Sociedades secretas como os Poro (Sierra Leone) e os Maji Maji (Quênia) se organizaram para, através da religião tradicional, expulsar os estrangeiros. Entre suas práticas estava a confecção de bebidas sagradas que, acreditavam, os protegeria das balas dos colonizadores. Na esfera política, tais sociedades conseguiram tantos afiliados que semearam os futuros movimentos de independência. Os Nyabingi, uma vertente dos Maji Maji, por exemplo, conseguiram desestruturar 3 governos coloniais de Ruanda, até 1934.

Assim como no caso do Islã, alguns povos misturaram o Cristianismo e as religiões tradicionais para preservar sua cultura e afastar as perseguições coloniais. Em 1935, surgiram os Bamucapi, no Zâmbia, que vestiam roupas européias e visitavam aldeias convocando uma refeição ritual para o deus local. Quando os aldeões chegavam, eles os olhavam no espelho para identificar feiticeiros, e então exigiam seus ingredientes de poções e feitiços. Os Bamucapi também invocavam a ajuda de Deus para produzir poções que, diziam, levariam os feiticeiros à presença de Jesus ou protegeriam as pessoas contra seus poderes.

O Cristianismo deu acesso à educação e saúde para os povos africanos. Mas sua aliança ao Colonialismo também transformou a sociedade, criando órfãos e idosos abandonados onde isso não existia antes. Não por acaso, a palavra em Sierra Leone para Cristãos e brancos era a mesma: “poto”. Aos poucos, o registro dos falares africanos levou ao surgimento da literatura escrita. Para os missionários, alfabetizar os nativos era habilitar seu contato com a Bíblia. Na teologia de grupo dos africanos, isso teve o efeito de transformar cada convertido ao Cristianismo em um propagador da nova fé, resultando numa explosiva cristianização dos povos ocidentais ao sul do Saara e na parte sul do continente. Conforme Livingstone anunciara, a economia se modificou em torno das missões: as plantas estrangeiras como cacau (América Central), café (Etiópia), tabaco (Américas), algodão (Índia) e cana-de-açúcar (Índia) fizeram partes da África serem regiões agrícolas proeminentes no início do séc. 20. Mas ao contrário do que ele previu, o novo sistema produziu a escravidão de africanos por outros africanos. O escravismo só foi efetivamente abolido com os movimentos republicanos após a 2ª Guerra Mundial.

Os primeiros grupos a aceitar o Cristianismo foram aqueles subjugados ou de baixa hierarquia. Leprosos, inválidos e doentes eram prontamente aceitos pelas missões e, logo, foram transformados em mestres alfabetizadores. Alguns célebres missionários foram Canon Apoio Kivebulaya (1866-1933), que trabalhou entre os pigmeus do Congo Belga, o bispo anglicano Samuel Ajayi Crowther (1809-1891), que produziu materiais escritos na línguas Yorubá, o profeta itinerante William Wade Harris (1860-1929), da Libéria, que converteu centenas de milhares na Costa do Marfim e na Costa do Ouro, fundando a Église Harriste (Igreja Harrista, Costa do Marfim) e a Twelve Apostles Church (Igreja dos Doze Apóstolos, Costa do Ouro). Em especial organizaram--se igrejas de orientação fortemente Pentecostal, como nos EUA, que enfatizavam a posse pelo Espírito Santo, cura, profecia, dom de falar por línguas e a livre confissão dos pecados. Algumas chegavam a incluir a circuncisão dos meninos entre suas práticas.

Em 1910, falava-se na possibilidade de cristianizar toda África em uma única geração. Não houve tanto sucesso assim quanto aos países islâmicos do leste, nem houve o desaparecimento das religiões nativas como se esperava. Uma das mais notáveis igrejas unindo elementos Cristãos e nativos foi a Musama Disco Christo (1923-), que se desligou a partir de igreja Metodista. Seu fundador intitulou-se fundador de uma linhagem de direito divino, chamando a esposa de rainha-mãe. A igreja até possui uma língua própria. Os números de Cristãos saltaram de 10 milhões (1900) para 143 milhões (1970) e depois 393 milhões (2000). Estima-se que 1 em cada 5 africanos seja Cristão, concentrados no oeste e sul do continente. Hoje, a África é um exportador de pregadores protestantes, que constituem a maioria dos pastores em atividade na Europa.

BRASIL

Uma ligação entre os negros e o Cristianismo brasileiro ocorreu ainda em terras africanas, durante a época do escravismo. No Congo e Moçambique, enquanto colônias portuguesas, a Igreja Católica implantou a devoção a Nossa Senhora do Rosário. Em muitos aspectos seu culto foi ligado à deusa-orixá das águas, pois segundo a mitologia afro, uma imagem de Nossa Senhora do Rosário emergiu das águas (não se sabe se no Congo ou em Moçambique) ao som de tambores africanos. Sendo ambos países de onde provinham escravos, muitos negros chegaram ao Brasil no séc. 18 já cristianizados, expressando a devoção à santa-mãe. Esses escravos católicos se concentraram sobretudo no interior de Minas Gerais. Posteriormente, com o estabelecimento do santuário de Nossa Senhora Aparecida em São Paulo, formado ao redor de uma imagem-ícone de Nossa Senhora da Conceição que perdeu a pintura e escureceu sob as águas do rio Paraíba do Sul, a Igreja Católica do séc. 19 esforçou-se para associar as duas figuras e assim arrebanhar os escravos alforriados. Em muitos lugares, Nossa Senhora Aparecida é mesmo entendida como uma santa negra. Outras figuras como São Benedito (o mouro)², santo Siciliano negro do séc. 16, também foram focos de atração para os negros a partir da metade do séc. 19, sobretudo nas regiões mineradoras de Minas Gerais, Paraíba, Goiás e Mato Grosso. Em diversos lugares, o culto de Nossa Senhora do Rosário até a re-denominou Nossa Senhora Quilombola, com uma Comunhão feita usando pão e vinho (tradição Cristã), mas também alimentos rituais dos Orixás, atabaques e dança dos sacerdotes.

Em contrário aos EUA, no Brasil a Igreja Católica forneceu ideologias e protegeu o comércio escravista, até adquirindo escravos para as instituições religiosas. Obviamente, em tratando-se de algo que vai contra tudo que o Novo Testamento possa ensinar, desde o séc. 16 alguns nomes se posicionaram em contrário. Aqueles que não se declaravam abertamente podiam visitar as propriedades rurais para evitar revoltas e o excesso de violência dos senhores. Os que se opunham abertamente enfrentavam o alto clero, que removia os padres para Portugal (assim, para longe dos senhores e escravos). Os jesuítas Gonçalo Leite (1546-1603) e Miguel Garcia (1550-1614), por exemplo, foram considerados “inquietos” e devolvidos a Lisboa, de onde Leite escreveu: “... Bem se podem persuadir os que vão ao Brasil que vão a salvar almas, mas vão a condenar as suas. Sabe Deus com quanta dor de coração isto escrevo, porque vejo os nossos padres confessar homicidas e roubadores da liberdade, fazenda e suor alheio, sem restituição do passado, nem remédio dos males futuros, que da mesma sorte cada dia se cometem.” Já o missionário italiano Gabriel Malagrida (1689-1761), que questionava a Igreja e a Coroa Portuguesa sobre o tratamento dos escravos no Brasil, foi declarado herege pela Inquisição e queimado vivo, em Lisboa.

Até religiosos com voto de pobreza e humildade chegaram a possuir escravos. No séc. 18, registra-se que o Convento Franciscano de Salvador/Bahia possuía 86 escravos para 81 religiosos e o Mosteiro do Desterro das Clarissas possuía 298 escravas para 81 freiras. Desde a época colonial (1500-1820) até a Guerra do Paraguai (1864-1870), a Igreja Católica brasileira serviu, portanto, como um apaziguador das tensões sociais do sistema escravista. Bem pouco havia mudado desde a assustadora descrição do jesuíta Cláudio Aquivava em 1584:

Nas fazendas e engenhos há grande cópia de escravos, os quais nunca ouvem missa, ainda que se tenha neles sacerdotes que as digam. Por serem as Igrejas pequenas e os escravos andarem nus; e pelo mau cheiro, não os deixam os seus senhores ficarem nem dentro nem fora das Igrejas. Além disso, logo em amanhecendo, nos dias santos, vão buscar de comer pelos matos, por seus senhores não lhos darem cousa alguma. Pelo que nos parece que seria de muito serviço de Nosso Senhor alcançar do Papa que estendesse o privilégio que temos de dizer duas missas ao dia em diversos lugares, a dizerem-se no mesmo lugar, em diversos tempos. Uma, logo pela manhã, aos escravos; e outra, aos portugueses, como se costuma. E se este privilégio se estende aos clérigos seculares, para o mesmo efeito, seria grande bem, porque todas estas 15 ou 20 mil almas parece que não têm mais que o nome de cristãos e não se poderão salvar, se não forem melhor cultivados e ensinados nas coisas da fé.

Nas cidades grandes como Salvador e Rio de Janeiro, onde a chegada de africanos era maior, a cultura Yorubá foi alimentada nas senzalas, de forma que o descuido católico permitiu a continuidade, mesmo que às escondidas, da sua religião nativa. Com o aparecimento dos primeiro escravos alforriados, vieram também os terreiros de Candomblé e Umbanda³. Rapidamente esses terreiros arrebanharam a quase totalidade dos negros nas imediações. A segregação dos negros FORA do Cristianismo fez com que, ainda hoje, as principais medidas da Igreja Católica para trazê-los esbarrem na controversa aceitação e inclusão de elementos do Candomblé. Alguns desses elementos, como o culto aos mortos após 7 ou 30 dias, tornaram-se típicos da América Latina, mostrando que algo das religiões afro-indígenas já foi sutilmente absorvido ao longo dos anos.

Ainda, como a Igreja Católica atuou como centralizador na composição da maioria das cidades brasileiras, as cidades menores receberam ex-escravos e seus descendentes após a Guerra do Paraguai e também no início do séc. 20, após a Abolição. Essa população foi efetivamente catequizada mas, em muitos lugares, o aparecimento dos terreiros gerou uma dupla religiosidade. A expressividade das benzedeiras na tradição médica popular de toda América Latina é um bom exemplo disso. Suas práticas combinam rezas e imagens católicas com roupas-de-santo, mágicas e uso de ervas curativas (muitas das quais associadas a uma entidade, sem qualquer valor medicinal real) para tratar os clientes que as procuram.

Com os protestantes, a inclusão do negro como “servo de Deus” não foi muito diferente. Uma revista da Igreja Episcopal Anglicana (no Brasil desde 1889), afirmava em 1908 que o negro devia ocupar seu lugar, que não era certo desejar lugares que ele não poderia ocupar e encerra dizendo: “o problema com o negro é que ele está o tempo todo tentando obter reconhecimento, quando o que devia estar fazendo é obter algo para reconhecer”. De fato a imprensa anglicana diversas vezes comparou os negros com animais selvagens, intelectualmente inferiores, grosseiros e incapazes de boas maneiras. Essa concepção tem a ver com o fato de que os missionários protestantes no Brasil vieram da parte sul dos EUA em busca de uma continuidade do sistema rural escravista, da chamada “igreja dos brancos”, e carregando fortes noções de um apartheid social que devia ser reproduzido na Igreja. Apesar disso, era objetivo dos pregadores protestantes evangelizar os ex-escravos: sabe-se de igrejas Batistas em Salvador que compravam escravos a fim de que pudessem assistir aos cultos. Embora aliviassem sua carga e talvez trouxessem algum conforto, isso não parece ter desobrigado esses negros da servidão. Robert Reid Kalley (1809-1888), fundador da igreja Fluminense em 1858, abriu uma classe de estudos bíblicos para homens negros. Seus frequentadores já eram alforriados, pois os escravos não podiam ter religião. Mas Kalley foi além: em 1865, ele ficou conhecido pela indignação de um membro da alta sociedade, quando afirmou que “escravizar alguém é um roubo violento da liberdade alheia de que todos nós temos direito, e que o senhor que escraviza alguém é inimigo de Cristo e não pode ser membro da Igreja de Jesus”.

Assim como se procedeu na África, as igrejas Protestantes viam a cultura afro como uma ausência de cultura e, logo, qualquer traço cultural que restara do povo Yorubá deveria ser apagado, substituído por um “cristianismo branco” estadounidense. As 1as denominações protestantes no Brasil - Metodista (1836), Presbiteriana (1859) e Batista (1859) - no máximo pregavam, quanto aos negros, que deveriam ser bem tratados, mas que o escravismo era uma questão do Estado e não da Igreja. Por esse distanciamento das questões sociais, a pregação protestante brasileira no início do séc. 20 foi fundamentalmente proselitista e moralista, mantendo longe as camadas mais populares da sociedade.

O primeiro pregador protestante negro no Brasil, acredita-se, foi Agostinho José Pereira, alfaiate e letrado que atuava ruas de Recife. Aclamado como “Lutero negro” em 1841, ele fundou a Igreja do Divino Mestre, uma das 1as igrejas protestantes no país. Seu grupo reunia outros alforriados e teve em torno de 300 membros. Recife era uma ex-colônia holandesa e, como na África, a igreja esmerou-se no letramento dos negros, para que tivessem acesso ao texto bíblico. Em tempos escravistas, contudo, o movimento de Agostinho não se espalhou para outras capitais do nordeste. As autoridades, a imprensa de Recife e a Igreja Católica também foram fortes oposições e até levaram a sua prisão, que durou pouco, anunciando nos jornais a revolução escrava do Haiti e a insurreição dos negros muçulmanos na Bahia, um perigo que viam no envolvimento religioso dos negros de Agostinho.

Os períodos de ação militar (1934-1945 e 1964-1985) também foram particularmente agressivos às populações negras, resultando na sua quase totalidade dentro do Catolicismo. Desde o início da República existiam leis criminalizando o espiritismo, magia, sortilégios e curandeirismo. Em 1940 o Código Penal passou a especificar os crimes de charlatanismo e curandeirismo, o que foi largamente usado contra os cultos afro. No final dos anos 1970, formaram-se as igrejas pentecostais ligadas à Teologia da Prosperidade*, como Igreja Universal do Reino de Deus (Rio de Janeiro, 1977), Igreja Internacional da Graça de Deus (Rio de Janeiro, 1980), Igreja Renascer em Cristo (São Paulo, 1986), Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra (Brasília, 1992), Ministério Internacional da Restauração (Manaus, 1992) e Igreja Mundial do Poder de Deus (Sorocaba/SP, 1998). Dentro da visão de atingir as camadas mais populares, tais igrejas se aplicaram na valorização de autoestima, transformação do fiel em pessoa especial pelo batismo com o Espírito Santo e diminuição da distância entre os líderes e leigos. Assim como o sincretismo criou “mães quilombolas” e missas afro, dentro do Protestantismo a cultura Yorubá apareceu nos frequentes exorcismos das igrejas pentecostais, onde a entidade exorcizada do fiel não é um demônio do deserto ou esbravejador como no Novo Testamento, mas usualmente um Exú dos cultos de Umbanda.

Ao contrário da Teologia da Libertação que pretendia a construção do pobre como sujeito conscientizado, marxista, ou do Protestantismo Histórico que pretendia formar sujeitos autônomos e críticos, o Pentecostalismo atingiu os pobres, e em especial a população negra, num plano que não era cognitivo, mas emocional, por um discurso de consolo e prática terapêutica. Como resultado quase imediato, um imenso contingente negro deslocou-se do Catolicismo e até das religiões afro (demonizadas pelas Pentecostais) para os novos cultos. Hoje, contabiliza-se há 60x mais negros protestantes do que nas religiões afro, sendo 72,6% deles pentecostais. Em termos proporcionais, contudo, as religiões afro ainda detém o posto de culto com maior parcela dos fiéis sendo negros (48%).

ESTADOS UNIDOS

Na metade do séc. 19, as maiores cidades estadounidenses estavam todas no litoral Atlântico. Os estados do norte absorveram a estrutura industrial inglesa e desenvolveram-se como cidades altamente urbanizadas, muitas exportando roupas (o sul produzia quase 70% de todo algodão comercializado no mundo), artigos de couro, ferramentas e armas de fogo (compradas pelas colônias européias na África, Índia e China). Os estados do sul, por outro lado, mantiveram uma estrutura agrícola espanhola, baseada no plantio de algodão e colheita com mão de obra escrava (cada escravo era capaz de colher 50 a 250 kg de algodão por dia). Por isso, os interesses econômicos futuros também divergiram: ao norte interessava absorver a mão de obra negra não só nas indústrias, mas no mercado consumidor (ainda que a abolição da escravatura não fosse um objetivo direto), enquanto ao sul interessava manter o escravismo.

Bem na foz do rio Mississipi, onde chegavam as barcas carregando algodão e ancoravam os cargueiros ingleses e franceses, haviam ilhas que ainda eram colônias francesas. Toda a região da foz, com proeminência da cidade de New Orleans/Louisiana era, assim, um grande porto comercial. Esse ambiente para onde vinham escravos do sul, fazendeiros vendendo seu algodão, negociantes franceses e ingleses divulgando movimentos libertários, espanhóis mercadores e até mesmo piratas, criou, na iminência da Guerra Civil Americana, um lugar pluri-cultural onde poucas leis eram obedecidas e, em especial, os negros gozavam da mesma liberdade que teriam se não fossem escravos. A religiosidade do lugar foi moldada pelos franceses, com a chegada a Ordem de Santa Úrsula em 1727, e depois pelos ingleses e estadounidenses, com protestantes Batistas, Metodistas e Presbiterianos. A ordem de Santa Úrsula equipou a região com orfanatos, escolas, hospitais e deu assistência aos pobres. Apesar disso, em pouco tempo, as igrejas protestantes eram 7-8x mais numerosas que as congregações católicas. Cerca de ⅓ delas eram “igrejas de negros”. O trabalho missionário era feito principalmente sobre os judeus até 1830 e, depois, sobre os negros, por pregadores itinerantes.

Embora as igrejas protestantes fossem numerosas, New Orleans estava longe de ser uma área religiosa. A maior parte dos pregadores protestantes mal passava 6 meses na região. Apenas a Igreja Metodista mantinha congregações permanentes de negros, o que um jornal local citou certa vez como “expedições missionárias à beira do barbarismo”.

Os católicos em New Orleans não separavam cultos, nem enterros de brancos e negros. Alguns padres, como Adrien Rouquette, até ficaram conhecidos por suas pregações abolicionistas. Mas havia forte separação quanto a outros serviços como escolas (as dos negros tinham mínimos conteúdos, pois eles não eram autorizados a ler) e hospitais. Cerca de 20% dos católicos eram negros. Longe do controle das plantações, os negros de New Orleans tiveram a oportunidade de desenvolver a cultura Yorubá que trouxeram de Benin (povos Bini, Congo, Hausa e Dahomei). Por isso, grande dos negros católicos também atendia aos serviços de líderes Voodoo, similar à Umbanda brasileira, o que se intensificou com a migração dos franceses a partir do Haiti. Pelo menos 15 mães Voodoo controlaram a região, antes da Guerra Civil e, ainda hoje, existem muitos grupos em atividade nessa parte dos EUA.

Embora de diferentes origens africanas, alguns até islâmicos, os negros de toda a costa atlântica dos EUA foram aderentes ao Protestantismo Pentecostal. No final do séc. 18, cerca de 15% deles já praticavam a nova religião. As congregações dos negros eram separadas, inicialmente conduzidas por pregadores brancos Metodistas ou Batistas, mas se tornaram comuns as conduzidas por negros nas fazendas e, logo, também nas cidades. Os cultos eram centrados na figura de Moisés como libertador de um povo escravizado. Os mortos, após o funeral, estariam livres para se unirem aos ancestrais, como nos cultos Yorubá. Na região sul dos EUA, que recebeu escravos até 1808, muitas igrejas de negros dos estados de Carolina do Sul, Geórgia e Flórida chegaram a conduzir cultos em dialetos como Gullah e Geechee, usados lá até hoje. Esses dialetos, inicialmente usados para que os escravos se comunicassem em segredo, são similares ao Creole falado no Caribe e na África Ocidental, misturando o inglês com a pronúncia afro.

As danças e movimentos largamente introduzidos no Cristianismo Pentecostal também são um resultado desse mix cultural: eles contém uma versão corporal dos movimentos e tambores de cultos Yorubá, que foram proibidos pelos senhores de escravos. Tal musicismo religioso baseado nos vocais, hoje chamado de Gospel (contração de God Spell = palavra de Deus), foi o responsável pelo surgimento, na região central da Costa Atlântica, de ritmos como Jazz e Blues, que despontaram no início do séc. 20. A maioria dos grandes cantores como Ella Fritzgerald (1917-1996), Nat “King” Cole (1919-1965), Sarah Vaughan (1924-1990), Louis Armstrong (1901-1971), Dinah Washington (1924-1963), Ray Charles (1930-2004), etc e mesmo Tina Turner (1939-) foram membros de corais Gospel na região sul dos EUA.

Após a Guerra Civil (1861-1865), os estados da costa atlântica do norte derrotaram os estados da costa atlântica do sul, e os EUA se unificaram sob o governo de Abraham Lincoln, com uma política voltada ao desenvolvimento industrial e inclusão dos negros entre a mão de obra. Muitas das igrejas “negras” pentecostais serviram, durante a guerra, como pólos de organização dos soldados nortistas. Findada a guerra, contudo, iniciou-se um movimento de apartheid que pretendia segregar, dentro das cidades e lugares de trabalho, os brancos e os negros.

As “igrejas de negros” separaram-se de suas matrizes brancas Batistas e Metodistas após a guerra. Os cultos de tais igrejas passaram a ser geridos por pastores negros, iniciando com uma oração devocional, depois o canto e danças de um coral convidando os membros a participar, seguido por uma pregação altamente emotiva. Uma força especial ao movimento Pentecostal foi dada por William Joseph Seymour (1870 – 1922), que iniciou o Avivamento da Rua Azusa em Los Angeles/Califórnia. Suas experiências com o Espírito Santo foram muito noticiadas nos jornais, atraindo crentes brancos e negros, apesar do código racial que imperava no país. Seu movimento durou até 1914, encontrando forte oposição dos religiosos brancos, mas deixou como marcas do “2º batismo” o falar em línguas e a integração racial dentro da Igreja. O jornal Los Angeles Times referia-se ao grupo assim: “As reuniões acontecem em um prédio decadente da rua Azusa, e os devotos de doutrinas estranhas praticam os ritos mais fanáticos, pregam as mais extravagantes teorias e se colocam em um estado de louca euforia quando se entregam ao fervor pessoal.

Entre a 1ª Guerra Mundial (1914-1918) e a 2ª Guerra Mundial (1939-1945), os negros ainda não possuíam direito de voto, mas as “igrejas de negros” serviram como centros organizadores e os líderes religiosos destas tiveram atuação poderosa sobre as decisões municipais e estaduais estadounidenses. À medida que reiniciaram os movimentos raciais contra os negros, as igrejas “de negros” se tornaram abrigo e refúgio, além de denunciar publicamente os ataques sofridos por grupos racistas-religiosos como a Ku Klux Klan**.

O mesmo ativismo do pós-Guerra Civil renasceu após a 2ª Guerra Mundial, em defesa de direitos iguais, o que tornou as “igrejas de negros” alvos dos militantes pelo apartheid. Em 1963, a Igreja Batista da Rua 16 em Birmingham, Alabama, sofreu um histórico atentado a bomba, que foi o estopim de sucessivos protestos, até a Carta de Direitos Civis de 1968. O movimento negro ganhou força com o Concílio Vaticano II, finalizado em 1965, e a Teologia da Libertação, que voltava o trabalho religioso (dos Católicos) para a proteção de populações desfavorecidas. Religiosos (protestantes) que ficaram famosos por sua luta pela igualdade de direitos foram Martin Luther King Jr. (igreja Batista, 1929-assassinado em 1968), seu amigo Ralph David Abernathy (1ª igreja Batista, 1926-1990), Bernard Lee (teólogo, 1935-1991), Fred Lee Shuttlesworth (igreja Batista de Bethel, 1922-2011), Wyatt Tee Walker (igreja Batista Canaã do Harlem, 1928-2018) e Cordy Tindell Vivian (movimento Every Church a Peace Church, 1924-).

Nos anos 1970, o apartheid social (mas não legal) americano evitava fazer empréstimos bancários aos negros, o que deslocou os trabalhadores negros para bairros “baratos” dentro de grandes cidades, que funcionariam mais ou menos como guetos. Nesses lugares, as “igrejas de negros” ganharam força como promotoras de serviços sociais ligados à educação e assistência. Ainda hoje, muitas “igrejas de negros” são centros sociais lutando por condições de emprego e moradia, e também contra o tráfico/uso de drogas entre os jovens desses bairros. Embora preservem suas lideranças negras, as populações atendidas desde os anos 1980 são sobretudo imigrantes caribenhos e latinos.

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¹ A crença em ancestrais lendários foi comum a povos europeus também, como Hércules para os gregos ou os faraós divinos para os egípcios.

² Benedito o Mouro, ou Benedetto da San Fratello (1526-1589) não tem relação alguma com o fundador da ordem Beneditina, muito mais antigo. O pseudônimo “mouro” nem devia ser usado enquanto era vivo, por se tratar de um religioso em franca oposição aos Mouros de Córdoba/Espanha, que eram islâmicos. Aparentemente trata-se de um sufixo adicionado depois, para designar sua cor negra. Ex-escravo e monge da ordem Franciscana, ele ficou conhecido pela cura de doentes ainda em vida, sendo-lhe atribuídos muitos milagres de cura após sua morte.

³ As religiões afrobrasileiras são religiões do transe, do sacrifício animal e do contato direto com os deuses como meio de comungar valores e estabelecer sociabilidades em comunidades relativamente pequenas. No candomblé jeje-nagô cultuam-se entidades designadas pelos termos Orixá e Vodum, nomes genéricos dos deuses Yorubá. No candomblé angola cultuam-se os Inquices, deuses da África Central, e caboclos, entidades que representam os espíritos da população indígena brasileira. Nenhum desses deuses já teve forma humana, mas habitam lugares sagrados na terra. O Exú do Candomblé é um espírito guerreiro e destruidor, responsável pelas transformações boas ou más. A Umbanda é uma religião sincrética que une deuses africanos, santos católicos e espiritismo kardecista. Na Umbanda, há um esquema evolucionário, onde santos e Orixás ocupam os degraus mais altos e são tidos como espíritos de luz. Os caboclos e os pretos-velhos (espíritos dos africanos escravizados) são considerados espíritos intermediários. Exús e pombagiras são tidos como o lado esquerdo ou “espíritos das trevas” e estão no degrau mais baixo.

* A Teologia da Prosperidade foi um desenvolvimento de vários aspectos do Protestantismo e culminou nos anos 1950 como um movimento que mede a benção de Deus sobre cada indivíduo segundo seus bens materiais. Desde os EUA, essa forma de pregar fez-se atrativa aos mais pobres. É usual que as orações e o cerne dos cultos seja a petição por ganhos financeiros, além do fato de que tais cultos valorizam muito a oferta de dinheiro e bens (para a Igreja) por parte dos fiéis. As igrejas vinculadas à TP usualmente exibem edifícios grandes e ostentadores como símbolo do sagrado mas, por sua ligação às camadas populares, não deixam de investir em dezenas ou centenas de filiais menores, que são cobradas quanto ao seu crescimento patrimonial. Seus recursos mais atuais incluem propaganda televisiva, agências de marketing, vinculação política e testemunhos constantes de respostas divinas quanto a cura e erguimento financeiro dos fiéis.

** A KKK se organizou em 3 épocas, com objetivos diferentes. A 1ª organização (1865) foi após a Guerra Civil, pretendendo impedir o movimento abolicionista ou até expulsar os negros alforriados da região sul dos EUA. A 2ª organização (1915) pregava o fundamentalismo protestante e se opôs de forma agressiva ao estabelecimento de imigrantes, sobretudo católicos, nas áreas rurais. A 3ª organização (1946) levantou as bandeiras do fundamentalismo protestante e do ódio racial, sendo responsável por atentados como a explosão de uma igreja Batista “de negros” em 1963.

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ESCRITO EM PAPÉIS PRETOS

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