sexta-feira, 29 de junho de 2018

Os dois lados de uma Cleópatra

Duas moedas selêucidas, identificadas como tendo os rostos de Cleópatra/Alexandre Balas e Cleópatra/Antíoco Grypus

PRÓLOGO

Desde o retorno dos Judeus libertados pelo rei Ciro em 540 a.C., não houve rei em Israel. As reconstruções seguiram sob o comando do sacerdote Esdras (aprox. 460 a.C.) e depois o governador Neemias (aprox. 430 a.C.), mas Israel permaneceu muito tempo sob a regência dos Persas. Após Malaquias (aprox. 420 a.C.), também não houve outro grande profeta. O controle (pacífico) dos Persas foi quebrado, em 330 a.C., pela chegada de um imenso exército dos Macedônios sob o comando de Alexandre o Grande.

Esse texto fala sobre Cleópatra Thea, uma rainha do Período Inter-testamentário que viveu no centro de um furacão bíblico envolvendo Egito, Grécia, Macedônia, Fenícia, Judéia e Pártia; algo como uma Guerra Mundial do mundo antigo. Grande parte do que escrevo aqui está descrito como crônicas de guerra no livro de 1ª Macabeus, encontrado nas Bíblias Católicas, mas não nas Protestantes¹, e conta como pano de fundo o estabelecimento de um novo reinado em Israel, no ano de 140 a.C. A nova linhagem de reis duraria até a vinda de Júlio César, o Romano, em 37 a.C.

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Era uma vez um príncipe do reino da Macedônia, chamado Alexandre. Ele conquistou mais terras do que qualquer outro homem, por isso foi chamado Alexandre o Grande. Seu reino ia do Egito até a Índia, tão grande que ao amanhecer de um lado já era meio-dia de outro. No Egito, fizeram-lhe até uma das 7 maravilhas do mundo, a cidade gloriosa de Alexandria.

Infelizmente, Alexandre morreu jovem. Seu império foi, então, repartido entre os fiéis generais. Cada um deles fez uma coroa para si, iniciando uma família de reis. O Egito coube a Ptolomeu, fundador dos Ptolomai. Cleópatra Thea (164-121 a.C.; Thea = divina) nasceu nessa família real, a filha mais velha de Ptolomeu VI e Cleópatra II.

Do leste da Síria até o Irã governou Seleuco, primeiro dos Selêucidas. Entre um reino e outro estavam as terras da Fenícia, famosa comerciante naval no Mediterrâneo, além da Galiléia (terras baixas ao norte de Israel) e Judéia (terras montanhosas aos sul). Esses territórios assistiram a duelos infindáveis entre os Ptolomai e os Selêucidas.

Os Ptolomai foram os primeiros a governar a Judéia. Eles foram bons reis para os judeus, concedendo liberdade de culto em troca de apoio militar e impostos. Mas os Ptolomai também davam altos cargos no governo para quem lhes favorecesse entre os sacerdotes e doutores da lei, e acabaram atraindo a cobiça dos fariseus e saduceus.

Os judeus se dividiram por isso em conservadores/pobres (radicalmente contra os gregos), moderados (que aceitavam alguns costumes) e helenizantes/favorecidos. Os helenizantes defendiam usar o grego nos documentos, participar dos torneios de homens nus e até reverenciar deuses gregos como Zeus e Apolo.

Afora conflitos pequenos e silenciosos, houve paz até 200 a.C. Nesse ano, Antíoco III o Grande, dos Selêucidas, investiu contra o Egito e derrotou Ptolomeu V, tomando-lhe a Judéia e a Fenícia. Com isso, Selêucida iria do Mar Persa (Golfo Pérsico) até o Mar Vermelho e seria uma potência marítima. Depois que viu seu poderio militar, o herdeiro e braço direito, príncipe Antíoco IV Epiphanes (epiphanes = imagem de Deus), retornou para a capital Antioquia saqueando todo reino que não lhe jurasse obediência irrestrita. Foi o que aconteceu com a Judéia.

Quando Antíoco IV subiu ao trono da Selêucida (175 a.C.), sentiu-se desafiado pelos judeus, seu Jeová e seu Templo. Considerava-os selvagens e inferiores, por isso tentou convencer as pessoas a trocarem a cultura judaica pela dos gregos. Uma de suas medidas foi substituir o sumo sacerdote Onias III (um tradicionalista, mal visto entre seus pares) pelo irmão Jasão (um helenista, por cujo cargo o rei Antíoco aceitou 440 talentos de prata - umas 10 toneladas e meia). Um Gymnasium grego foi instalado ao lado do Templo, para horror dos sacerdotes conservadores.

... Logo que subiu ao poder, Jasão arrastou seus concidadãos para o helenismo. … Foi com alegria que fundou um ginásio ao pé da própria acrópole, alistou os mais nobres jovens e os educou ao pétaso. Por causa da perversidade inaudita do ímpio Jasão, que não era de modo algum pontífice, obteve o helenismo tal êxito e os costumes pagãos uma atualidade tão crescente, que os sacerdotes descuidavam o serviço do altar, menosprezavam o templo, negligenciavam os sacrifícios, corriam, fascinados pelo disco, a tomar parte na palestra e nos jogos proibidos. Não faziam caso das honras da pátria e amavam muito mais os títulos helênicos. (2ª Macabeus 4.10-15)

O MARTELO JUDEU

Nesse tempo, circulava secretamente um perigoso boato entre os líderes judeus. Falava-se sobre uma fortuna em ouro guardada nas salas mais profundas do Templo, onde só os altos sacerdotes tinham acesso². Não demorou para que essa notícia chegasse aos oficiais selêucidas e traçasse seu rumo até os ouvidos do rei Antíoco. Certo dia, um homem chamado Menelau, que era oficial judeu e foi mandado até Antíoco para negociar o pagamento dos tributos do Templo, denunciou  existência desse ouro. Em sinal de fidelidade, Menelau até ofereceu todo ouro ao rei para sua campanha no Egito, contra os Ptolomai. Pouco tempo depois, o sacerdote Jasão foi deposto, assim como os demais sacerdotes.

O Santo dos Santos ganhou uma estátua de mármore de Zeus e o Templo foi saqueado, revirado em busca do ouro (169 a.C.), terminando por virar um prédio abandonado.

[Antíoco] Penetrou cheio de orgulho no santuário, tomou o altar de ouro, o candelabro das luzes com todos os seus pertences, a mesa da proposição, os vasos, as alfaias, os turíbulos de ouro, o véu, as coroas, os ornamentos de ouro da fachada, e arrancou as embutiduras. Tomou a prata, o ouro, os vasos preciosos e os tesouros ocultos que encontrou. Arrebatando tudo consigo, regressou à sua terra, após massacrar muitos judeus e pronunciar palavras injuriosas. Foi isso um motivo de desolação em extremo para todo o Israel. … No dia quinze do mês de Casleu, do ano cento e quarenta e cinco, edificaram a abominação da desolação por sobre o altar …. rasgavam e queimavam todos os livros da lei que achavam; em toda parte, todo aquele em poder do qual se achava um livro do testamento, ou todo aquele que mostrasse gosto pela lei, morreria por ordem do rei. (1ª Macabeus 1.21-25, 54-57)

Esse foi estopim do “martelo” judeu. Um dos sacerdotes da cidade de Modi’im, Matatias, reuniu seus 5 filhos e mataram os oficiais selêucidas que os obrigavam a sacrificar aos deuses gregos. Tornando-se um criminoso, ele refugiou-se com seus “Macabeus” nas montanhas de Judá e iniciou uma revolta nacionalista que ganharia mais soldados por onde passasse.

Matatias morreu nos 1os anos da guerrilha, sendo sucedido em comando pelo filho mais velho Judas [Macabeu]. Embora um grande estrategista militar, Judas e seu irmão João acabaram mortos nos confrontos contra os Selêucidas. O terceiro irmão, Jônatas Macabeu, reuniu um exército poderoso que reconquistou Jerusalém³ e tornou-se peça importante nas disputas entre os Ptolomai e os Selêucidas, a ponto de ambos os lados o temerem. Jônatas libertou muitas cidades do controle dos gregos, tornando-se conhecido até mesmo nas terras vizinhas. Em nome de uma Israel que falava por si própria, Jônatas renovou as relações diplomáticas com Roma e o Egito, mantendo a segurança de Jerusalém através de acordos com os dois lados e o rei Antíoco.

VENCEMOS, VENHA CLEÓPATRA!

Nesse ponto da história é que aparece a princesa de Ptolomeu VI do Egito.

Antíoco III o Grande havia sido derrotado pelos romanos, e cada rei Selêucida foi obrigado a deixar seu filho como refém dos romanos**. Antíoco IV era um desses reis educados em Roma. Quando ele foi coroado, Roma libertou seu irmão Seleuco IV e tomou o filho deste, Demetrius I. Seleuco subiu ao trono para servir aos interesses de Roma, mas seu reinado foi curto e acabou assassinado pelo amoroso tio Antíoco, de quem já falamos.

Os anos passaram, Demetrius I cresceu e adquiriu poder militar para reconquistar seu reino. Por causa dele, a Selêucida assistiu gerações de guerra entre duas famílias reais irmãs: os de Seleuco e os Antíoco. A Revolta dos Macabeus conviveu com alianças, traições, vitórias e derrotas de 3 gerações Selêucidas. Um desses líderes, filho de Antíoco IV, foi Alexandre Balas. Ele aparece na narrativa como grande inimigo de Demetrius I Soter (o pequeno que havia ficado em Roma), transformado num rei detestável pela sua má administração e uso indiscriminado de mercenários trazidos de Creta.

Era uma vez um príncipe Alexandre Balas, filho de um rei tirano e derrotado chamado Antíoco IV. Balas cresceu a protegido dentro da nobreza Selêucida, até que concebeu a idéia de ser o rei daquele país. Balas conseguiu conquistou o exército de Ptolemaida e assim reuniu forças, para, no que todos  chamariam de golpe, reaver seu trono. Além disso, ele intencionava reunificar o império dos Macedônios fazendo aliança com o respeitado monarca do Egito.

Quando Balas repeliu Demetrius, tanto os Ptolomai quanto as nações vizinhas lhe prestaram atenção. Tendo Demetrius I como um inimigo em igual, Jônatas Macabeu viu em Alexandre Balas um rei honrado (ao contrário do pai) e travou amizade com ele.

Então Alexandre [Balas] enviou embaixadores a Ptolomeu do Egito, com a missão de lhe dizer: “Eis-me de volta ao solo do meu reino e assentado no trono de meus pais; recobrei o poder, derrotei Demétrio e entrei na posse de meu país. Travei batalha com ele, venci-o com seu exército e subi ao trono onde ele reinava. Façamos agora laços de amizade, dá-me tua filha por esposa e serei teu genro, e vos cumularei, a ti e a ela, com presentes dignos de vós.”

O rei Ptolomeu respondeu: “Venturoso o dia em que entraste na terra de teus pais e te assentaste no trono de seu reino! Por isso dar-te-ei o que me pedes, mas vem ter comigo em Ptolemaida**, para que nos vejamos, e farei de ti o meu genro como desejas.” Saiu Ptolomeu do Egito com sua filha Cleópatra, e foi a Ptolemaida no ano cento e sessenta e dois. Deu-a em casamento a Alexandre, que lhe veio ao encontro e celebrou as bodas com real magnificência. 

O rei Alexandre escreveu também a Jônatas, para que viesse procurá-lo, e este se dirigiu a Ptolemaida, com pompa, onde encontrou os dois reis. Ofereceu-lhes, como também a seus amigos, prata, ouro e numerosos presentes e conquistou sua confiança inteiramente. … Ordenou até mesmo que se tirassem as vestes de Jônatas, para revesti-lo de púrpura, o que foi feito; e o rei fê-lo assentar-se junto de si. (1ª Macabeus 10.51-62)

Cleópatra Thea era uma princesa poderosa. Mas ela entra na nossa narrativa em 150 a.C. da melhor maneira, como esposa de um rei adorado e justo, prometendo celebrar a re-unificação dos grandes reinos Ptolomai e Selêucida para trazer paz a todas as terras do Oriente Médio. Seu casamento suntuoso foi noticiado em todas as partes do mundo, ganhou lugar até nos livros de história. Logo mais, em 148 a.C., próximo ao grande triunfo de Roma sobre seu pior rival, a cidade de Cartago, nasce o mais esperado herdeiro, Antíoco VI Dionísio, provavelmente herdeiro de tudo o que já fora de Alexandre o Grande.

Mas havia uma ameaça no sul. Demetrius I ainda lutava, e por isso Alexandre Balas mandou seu filho para longe da guerra, para ser guardado no território árabe.

A VINGANÇA DOS GUERREIROS

A paz pareceu reinar quando Demetrius I acabou derrotado por Alexandre Balas. Estava constituído um novo império gigantesco. Na ilha de Creta, entretanto, crescia Demetrius II, treinado para a guerra no mesmo lugar de onde saíam os soldados do pai. Aos 15 anos, em 147 a.C., o jovem Demetrius II também desembarcou na Fenícia com um exército de mercenários.

Demetrius investiu poderosamente contra Alexandre Balas. Um dos generais de Balas, Diodotus Tryphon, prevendo sua queda, foi à Arábia buscar o pequeno rei para coroá-lo sem demora. E Cleópatra Thea, no Egito, viu seu pai Ptolomeu tomar uma inédita decisão: ele a separaria de Alexandre para entregar a Demetrius II Nicator. O pai queria unir os reinos, mas apostava agora no outro braço da família real.

O novo casamento deu-se em Antioquia, em 145 a.C., 5 anos após o 1º casamento e estando ela pelo menos 2 anos separada do filho. Certamente 145 a.C. seria um ano terrível para todos os reis.

Tryphon era um hábil general. Em 145 a.C. ele repeliu Demetrius, que deslocou suas tropas muito a leste e acabou capturado pelas tropas da Pártia. Mas Ptolomeu já havia conquistado boa parte da Selêucida.

Enquanto o rei Ptolomeu triunfava, Alexandre chegou à Arábia, para procurar ali um asilo, mas o árabe Zabdiel mandou cortar-lhe a cabeça e enviou-a ao rei do Egito. Ptolomeu morreu três dias depois, e as guarnições que ele havia posto nas fortalezas foram massacradas pelos habitantes das cidades vizinhas. (1ª Macabeus 11.16-18)

Alexandre também deslocou suas tropas para o sul, pressionado por uma invasão vinda do Egito. Lá, ele acabou morto por um partidário árabe de Ptolomeu VI. O próprio rei do Egito acabou ferido numa queda de seu cavalo e morreu, antes do final do ano.

Assim, no mesmo ano, a rainha Cleópatra perdeu seu antigo esposo, separado à força, o novo esposo e também o pai. Mesmo ela já estava ameaçada pela sombra de Tryphon, mas ele tinha outros planos. Com Demetrius II derrotado, Ptolomeu e Alexandre Balas mortos, o general Tryphon sentiu-se muito apto a tomar o trono da Selêucida para si. O jovem rei todo poderoso (até chamado deus Dionísio) Antíoco VI era uma criança, e Tryphon tinha em suas mãos o exército. Seu único adversário era ainda o companheiro do antigo rei, nosso general e sacerdote Jônatas Macabeu.

Tryphon usou de toda astúcia e falsidade possíveis para resolver isso: primeiro convidou Jônatas a se reunir com ele em Ptolemaida, depois pediu que dispensasse seu exército, pois estava em território amigo. Jônatas consentiu, mantendo apenas 1000 homens consigo. Ao chegarem em Ptolemaida, subitamente os dois reis encontraram as portas da cidade fechadas. Era uma emboscada, e os homens de Jônatas não foram suficientes para protegê-lo. Assim Jônatas acabou preso e mais tarde executado perante os homens de Tryphon. Foi-lhe feita a tumba de um rei, e ninguém mais se oporia a Tryphon.

Em 142 a.C., no seu próprio palácio de Antioquia, o rei Antíoco IV Dionísio (com 8 anos de idade) foi executado. Tryphon noticiou que a criança morrera durante uma cirurgia, ao que ninguém acreditou. E rapidamente Tryphon coroou-se rei da Selêucida.

Quando levaram-lhe a notícia, Cleópatra declarou Tryphon inimigo de toda a linhagem dos Ptolomai e dos Selêucidas.

O RETORNO DO REI

Do 2º casamento, Cleópatra Thea concebeu dois filhos: Seleuco V Philometor (philometor = preferido da mãe) e Antíoco VIII Grypus (grypus = narigudo). Logo após o nascimento dos filhos, Tryphon fez com que seu esposo Demetrius fosse capturado. Ele permaneceu 10 anos além das fronteiras do reino, em algum lugar da Pártia...

Nesse tempo, Cleópatra encontrou um novo fiel. O irmão de Demetrius, Antíoco VII Sidetes, jurou-lhe que destruiria Tryphon. De fato, 4 anos depois chegariam notícias de que Sidetes encurralou Tryphon e o executou em sua terra natal, Apamea. Quando voltou a Ptolemaida, Sidetes pediu a mão de Cleópatra e a desposou, tornando-se o novo rei da Selêucida. E por 6 anos reinou a paz em toda terra.

Certo dia, em 130 a.C, chegou a Ptolemaida a notícia de que Demetrius havia entrado em Selêucida, com uma grande escolta de mercenários. Ele voltava do cativeiro casado com uma princesa guerreira da Pártia, Rhodogune, em sinal de sua fidelidade àquele reino. 

Cleópatra se negou a receber Demetrius de volta em Ptolemaida. Por fim ela soube, anos depois, que ele sofrera derrotas seguidas defendendo seu país contra os Ptolomai do Egito (pois a invasão não cessara). Demetrius havia se tornado um alcoólatra e foi assassinado pelas próprias tropas, quando lhe faltou meios de pagá-los.

QUE FIM LEVOU CLEÓPATRA?

Cleópatra comandou toda Selêucida e manteve relações pacíficas  com os Ptolomai por 3 ou 4 anos, enquanto seus príncipes cresciam. Dois eram filhos de Demetrius II e um filho era filho de seu irmão, chamado Antíoco IX Cyzicenus (cyzicenus = piedoso). Além disso, ela tinha mais 4 filhos que não eram sucessores ao trono. Cleópatra sabia que os herdeiros lutariam pelo trono, então tentou mantê-los alternadamente no poder à medida que completavam 15 anos. Cada qual teve a coroa da Selêucida por um ou dois anos, governando sob a tutela da mãe.

Mas o terceiro filho, Grypus, conhecido por suas habilidades de caça, mostrou-se um jovem tirano logo que assumiu o trono. Em menos de 1 ano ele desafiou o Egito demais membros da família real,  prometendo devolver o reino a uma guerra de dinastias. Em desespero, a mãe tentou matá-lo com vinho envenenado. Suspeitando do comportamento da mãe, Grypus chamou seus soldados e a obrigou a beber do vinho que lhe oferecia. Isso matou Cleópatra no palácio de Ptolemaida em 121 a.C., aos 37 anos de idade.

Com a morte de Jônatas Macabeu, seu irmão Simão Macabeu assumiu a posição de general e sumo sacerdote de Israel. Ele veria a Selêucida ruir na sua guerra de dinastias, e estabeleceria a paz com o Egito, Roma e Esparta, dando início à linhagem dos reis Hasmoneus em Judá. Eis a inscrição deixada sobre ele:

No dia dezoito do mês de Elul, do ano cento e setenta e dois, o terceiro ano do pontificado de Simão, em Asaramel, na grande assembléia dos sacerdotes do povo, dos chefes da nação e dos anciãos do país, foi declarado isto: No momento em que as guerras renasciam sem cessar no país, Simão filho de Matatias, descendente de Jarib, e seus irmãos, expuseram-se ao perigo e resistiram aos inimigos de sua raça, para salvar o templo e a lei, levando seu povo a uma grande glória. Jônatas reuniu seu povo e tornou-se o sumo sacerdote; depois foi juntar-se aos seus mortos. Os inimigos quiseram invadir o país para devastá-lo e lançar a mão sobre os lugares santos, mas então se levantou Simão. Combateu por sua nação, distribuiu uma grande parte de seus bens para armar os homens de seu exército e pagar seu soldo. Fortificou as cidades da Judéia: Betsur, que se acha na fronteira, outrora arsenal do inimigo, onde ele estabeleceu uma guarnição judia; Jope, que se acha na costa; Gazara, na região de Azot, outrora povoada de inimigos, que ele substituiu por judeus. E muniu todas estas cidades com o que era necessário para sua defesa. O povo viu o procedimento de Simão e a glória que ele queria adquirir para a sua raça. Escolheram-no para chefe e sumo sacerdote, por causa de tudo o que ele havia efetuado, pela justiça e fidelidade que guardou à sua pátria e porque procurava de todo modo exaltá-la. (1ª Macabeus 14.27-35)

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¹ Macabeus é uma palavra hebraica para “martelo”, significando uma força revolucionária da Judéia que a protegeu das influências gregas nos anos após Alexandre o Grande (330 a.C.). Os livros dos Macabeus (1 a 9) são crônicas dessa resistência dos Judeus em um mundo dominado - em todos os lados - por impérios gregos. Os dois principais livros, 1ª e 2ª Macabeus, foram preservados como partes da Torá e, depois, na Bíblia Septuaginta, de onde se originou a versão Católica. Até o séc. 16, houve consenso de que tais livros eram inspirados divinamente e portanto foram mantidos na Bíblia. Na Reforma Protestante, os livros dos Macabeus foram considerados somente crônicas de guerras humanas e portanto foram tirados do Livro Sagrado. Eles cobrem justamente o período entre a chegada dos gregos na Judéia (330 a.C.) e a dominação romana (37 a.C.).

² Os boatos sobre o tesouro dentro do Templo eram antigos (2ª Macabeus 3.2). Eles parecem ter começado com uma denúncia de Simão o Benjamita, que desejava controlar o mercado dentro do Templo. O enviado do rei Seleuco IV (irmão de Antíoco IV), Heliodorus, acabou assassinado dentro do Templo. Supostamente sua morte foi atribuída ao aparecimento de anjos em vestimentas douradas, que defendiam o lugar sagrado.

³ A reconquista de Jerusalém teve um impacto profundo na mentalidade dos judeus. A cidade sagrada estava nas mãos de judeus, o Templo foi restaurado e re-dedicado. O poderio de Jônatas como líder militar pode ser atestado por sua aliança com Demetrius II Nicator (nicator = vitorioso), rei Selêucida filho de Alexandre Balas (170-146 a.C.) (1ª Macabeus 11.42-52), com Roma e Esparta (1ª Macabeus 12.1-23). A partir da morte de Jônatas (143 a.C.), instaurou-se uma dinastia de reis judeus conhecida como Hasmoneus (140-37 a.C.). Essa dinastia clamava descendência de um alto sacerdote Hashmonay e começou com Simão Macabeu, um dos filhos de Matatias. Ele aproveitou-se das guerras internas entre as famílias Selêucidas e seus descendente manobraram relações pacíficas de poder com os Selêucidas, os Ptolomai e o crescente poder Romano, após a derrota de Cartago (146 a.C.).

* Era costume de Roma tomar por reféns os herdeiros daqueles reis que derrotava. Ao invés de confiná-los em calabouços, os romanos alojavam esses príncipes prisioneiros como hóspedes de suas famílias mais ricas. Sendo jovens, eram educados por professores romanos de forma que adquirissem lealdade ao império para, em momento oportuno, assumirem seus tronos como clientes/fiéis de Roma. Ao contrário de ser uma prática inovadora, ela já havia sido muito utilizada por Nabucodonozor II (634-562 a.C.) durante seu longo reinado entre os Caldeus. Daniel, Hananiah (Sadraque), Mishael (Mesaque), Azariah (Abednego), Ezekiel, Jeremias e Isaías estavam entre a elite de Jerusalém que foi feita refém pelos Caldeus. Os 4 primeiros, em especial, eram príncipes e foram alojados no próprio palácio de Nabucodonozor.

** Ptolemaida era a cidade natal de Ptolomeu I Soter (soter = salvador), melhor amigo e general que acompanhou Alexandre o Grande em suas batalhas. Após a morte de Alexandre, ainda jovem, ele coroou-se Faraó e fundou a nova dinastia do Egito, onde nasceram 15 rainhas denominadas Cleópatras.

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LIVROS BANIDOS DO REINO

3rd century BC - wikivividly
Antiochus, Encyclopaedica iranica, iranicaonline.org
Books of the Maccabees - wikipedia
Cleopatra Thea - wikipedia
Gilad E,  Meet the Hasmoneans: a brief history of a violent epoch, Haaretz, 23dez2014
Hasmonean dynasty - wikipedia
I Maccabees - wikipedia
Josephus, Antiquities of the Jews - Book XIII
Maccabean Revolt - wikipedia
Marans D, Baumann N, The real history of Hanukkah is more complicated than you thought, Huffington Post, 24dez2016
Millington UMC on the Fox, Old testament vs. secular historical timeline, 7ago2013
Oates H, The Maccabean revolt, Ancient History Encyclopedia, 29out2015
Onias III - wikipedia
The Onias dinasty, losthistory.com

domingo, 17 de junho de 2018

Criacionismo

detalhe do teto da Capela Sistina (do papa Sixtus IV), pintado por Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni em 1510, onde aparecem Adão e Deus

Um tópico interessante sobre o Brasil (e outros lugares) é o que alguns já chamaram de “superficialidade tecnológica”. Em poucas palavras, esse termo significa fazer uso de ferramentas ou instrumentos sem ter a menor noção de como eles funcionam. Significa usar um computador sem saber o que é um software, ou energia elétrica. O conceito surgiu para ser aplicado em tecnologia, mas serve bem a outras áreas. Por exemplo, os povos europeus que os romanos dominaram eram “tecnologicamente superficiais” quanto às suas construções. Desde a queda de Roma Ocidental (480 d.C.) até por volta do ano 1000, os europeus habitaram ruínas e adoraram estátuas, pinturas, etc como obras de deuses de um outro mundo. Para eles, o latim era um “idioma mágico” (Harry Potter que o diga). Em questões de fé, ser “tecnologicamente superficial” significa, por exemplo, crer que a Bíblia e tudo que ela contém são eventos imediatamente acontecidos (ex. ontem), dentro da própria congregação onde você está ou ainda gravados no papel pelo próprio Deus. Quem já não viu bíblias abertas sobre pedestais, talvez jamais folheadas, como se para emanar algum poder? Quem já não presenciou alguém furioso numa encenação de Páscoa, tentando defender Joaquim-vestido-de-Jesus contra um centurião romano com espada de papelão e capacete de plástico?

A situação fica ainda mais curiosa quando ciência e fé se misturam. E isso não é tão difícil, pois muitos textos bíblicos tratam do cotidiano das pessoas entre talvez 2000 a.C. e o final do séc. 1 d.C. O livro de Levítico proíbe o consumo de “animais imundos” como frutos do mar e porcos. Será que Deus estava raivoso quando criou esses seres? Ou podemos pensar que os 100 Km montanhosos que separam Jerusalém do mar demorassem um tempo para ser percorridos, o suficiente para transformar ouriços e ostras em algo com cheiro muito suspeito. Quanto aos porcos, são famosos transmissores de parasitas humanos. Não duvido que Deus inserisse algumas medidas “sanitárias” para proteger Seu povo das pestilências, como fez com respeito à lepra. E também não duvido que tais medidas possam ser uma fortuita obra humana, associadas a uma revelação divina¹. Seria hilário tentar viver, hoje, estritamente segundo as regras de 1400 a.C., data provável da compilação do Pentateuco segundo Moisés².

Mas a Ciência produz ferramentas para o conforto e para responder questões filosóficas. O uso de agricultura, ao mesmo tempo que proveu mais alimentos para as comunidades, colocou dúvidas sobre a participação divina nos frutos e cereais. Se o cereal não fosse plantado por homens, ele não nasceria! O texto de Levítico conclama ao Senhor todo cereal ou fruto que nasce sem ter sido plantado. Lá por volta de 1000 - 800 a.C. o autor de Eclesiastes também escrevia:

Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da mulher grávida, assim também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas. (Eclesiastes 11.5)

Hoje, invalidamos a 1ª parte dessa sentença. Seria pecaminoso ver a previsão do tempo ou fazer ultrassons pré-natais? O escritor bíblico mentiu? Descobrimos todas as obras de Deus? Não, não e não. O vento era imprevisível na época de Eclesiastes, mas Jesus já cobrava dos homens os seus conhecimentos sobre a agricultura. De forma semelhante, poderíamos seguir para o Gênesis e ver o que Moisés supostamente falou a Criação. 

O RELATO

“Supostamente” não é por falta de fé no texto bíblico: trata-se de um autor desconhecido, que não deve ter assistido (em 3ª pessoa, como observador externo) Deus criando o mundo. Tradicionalmente, diz-se que o texto é de Moisés, que viveu(ram) (ver O Êxodo fora da novela) por volta de 1400 a.C. Mas sabemos, pelo estilo e outros registros, que foi redigido em seu formato final no reinado do rei Josias de Judá, após seus sábios/sacerdotes organizarem manuscritos que encontraram dentro do Templo (ver História do nome de Deus). E temos, daí, um relato onde Deus faz o 1º homem do barro, faz a 1ª mulher de sua carne e, depois de Lhe desobedecerem pela 1ª vez, o Mau invadiu-os e a toda Criação. Deus os tira do Éden para colocar em uma terra onde teriam de trabalhar pelo seu sustento, onde se reproduziram e geraram os 50 bilhões de pessoas que já viveram, além dos quase 8 bilhões atualmente vivos.

Devemos, entretanto, lembrar que, além da criação do Homem a partir do barro, faziam parte da cosmologia do VT a Terra ser plana como uma moeda, o Sol e a Lua girarem ao redor dela (Josué 10.12,13) e o céu azul ser um imenso oceano (Gênesis 1.7).

A EVIDÊNCIA

A versão científica é radicalmente diferente. Nesta, o homem atual resulta da mistura e extinção de vários outros “humanos”. Trata-se de uma espécie única desde os últimos 100 mil anos, que divergiu dos primatas mais próximos há 3.5 milhões de anos. Espécie única significa que os outros “humanos” morreram até o último indivíduo ou que uma espécie se misturou irreversivelmente com a outra. Os famosos Neandertais, por exemplo, viviam na Europa e tinham crânio e corpo maiores que o homem atual, com pernas bem mais curtas. Essa espécie “humana” usava ferramentas, mas desapareceu (não deixou mais esqueletos) desde 40 mil anos atrás. Comparações de DNA antigo extraído de esqueletos sugerem que se fundiram à espécie Homo sapiens sapiens atual. Ao mesmo tempo, amostras de lugares diferentes indicam que os homens como os conhecemos dominaram o sul do Saara há 3.5 milhões de anos, enquanto outras espécies semelhantes dominaram a Europa e o sul da África na mesma época. É isso que significa divergir evolutivamente: duas raças semelhantes e equivalentemente poderosas dizimam seus concorrentes, cada qual no seu território. Os “homo” sul-saarianos aprenderam a usar ferramentas; os da Europa e do sul africano tornaram-se respectivamente pequenos e ágeis puladores de árvores ou intimidadores macacos terrestres de 300 Kg. “Tornaram-se” também não pode parecer algo mágico - significa que as raças foram divergindo e, passo a passo, uma poderosa dizimou outra um pouco menos dotada.

CIÊNCIA OU BÍBLIA

As evidências da(s) Criação(ões) Bíblica e Científica também são muito diferentes. O texto Bíblico provém talvez de Moisés, ou de uma fonte muito mais antiga. Historicamente, podemos inferir que venha do Egito, onde os hebreus passaram por uma grande modernização cultural. Se bem que o Éden é posicionado, biblicamente, no Mar Vermelho ou no Golfo Pérsico. São relatos orais que, alguma hora, foram transcritos no papel e re-copiados desde então. Na melhor hipótese, podemos supor que sejam fruto de uma revelação divina a um profeta. Já o texto científico tem sua base em um caminhar-para-trás no tempo a partir de suposições testáveis feitas sobre de esqueletos antigos que fornecem anatomia, idade, posição geográfica e restos de DNA. Como ambas são bem diferentes, muita gente já teve de escolher entre uma e outra. Especialmente porque isso tem implicações, e a mais notável é o papel de Jesus nesse mundo.

JUIZ JESUS

Tanto a Ciência quanto o relato bíblico merecem credibilidade. A Ciência, pela metodologia com que investiga, buscando sempre o que é mais correto. O relato bíblico, pelas fontes de que dispõe, isso é, a revelação do próprio Criador passada oralmente e depois escrita, de geração em geração. Quando ambos discordam, temos o clássico dilema policial de acreditar nas evidências ou nas testemunhas. Jesus, ou pelo menos o que os evangelistas escreveram Dele, dá sinais de concordar com o VT. Mas sempre podemos pensar que os evangelistas eram, eles próprios, judeus que tinham a Criação Bíblica como seu conhecimento de base. Em nenhum momento Jesus foi interrogado explicitamente sobre o início do mundo, ou falou abertamente sobre esse assunto, então o que nos resta é analisar figuras de linguagem da narrativa de terceiros.

Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo. … Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante. (1ª Coríntios 15.21-45)

Além dos profetas, a palavra de Jesus é o testemunho com maior credibilidade que temos. Ele cita Abel, filho de Adão, como um profeta, o que está registrado nos textos de Mateus (Mateus 23.34-36) e Lucas (Lucas 11.49-51). Não podemos imaginar que Jesus tivesse um entendimento limitado ou restrito pela cultura do Seu tempo! Segundo Paulo, Jesus veio à terra para desfazer o castigo da mortalidade imposto sobre Adão e Eva, quando desobedeceram a Deus. Se não temos um Adão e uma Eva (como diz o Gênesis humano científico), então sobre o que Paulo está falando? Ainda que possamos supor que Paulo misturava a iluminação divina com seu conhecimento do 1ª século, Jesus faz uma referência a Adão que não podemos ignorar.

Por outro lado, está bem claro que todos os Cristãos são mortais. Não sabemos sobre João, mas todos os demais apóstolos morreram. Inclusive Pedro, famoso por presenciar milagres. Jesus, então, apesar de ter ressuscitado fisicamente algumas pessoas, incluindo a Si próprio, veio à terra para preparar o Reino de Deus (Mateus 12.28), assinalar o perdão dos homens (Mateus 12.31) e anunciar a Ressurreição ao final dos tempos (Mateus 22:28-30). Ele anunciou um re-nascimento após a morte, que não é exatamente reverter a mortalidade de Adão, mas fazer algo inexistente antes. A mortalidade de todos os demais seres viventes, castigados junto com Adão, não foi sequer abordada por Jesus.

Lembremos que, no VT, o pecado de um pesava sobre o destino de todos. O homem puro teria vida longa, enquanto o pecador morreria, matado por Deus ou outros homens. Sempre terminava com a morte sendo o fim completo e definitivo. No tempo dos gregos (330 - 130 a.C.), introduziu-se o conceito do Hades, um mundo sombrio onde os mortos ficavam depositados, aguardando por toda eternidade. Embora Paulo, o grego, tenha se esforçado em anunciar Adão e Jesus como o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim da Humanidade, precisamos avaliar seriamente se isso era uma revelação dada a ele ou parte de sua retórica figurativa, uma vez que Jesus não colocou tais termos. De fato, a única referência criacionista de Jesus, ainda sob a palavra de Seus narradores Mateus e Lucas, é citar Abel como um profeta (coisa que o VT mesmo não faz).

UMA NÃO-CONCLUSÃO

É significativo que Jesus não tenha abordado esse tema; talvez não fosse uma questão na moda em Sua época, mas seria algo que muitos hoje gostariam de Lhe perguntar. Talvez valha a fala de Jesus: “Quem me constituiu juiz ou árbitro entre vós?” (Lucas 12.14). A misteriosa Carta aos Hebreus diz que não se chega a Deus senão por meio da fé (Hebreus 11.6), o que significa, raciocinando, que provavelmente Deus se faz invisível à Ciência. Ao contrário do que clamam alguns argumentos Criacionistas de que os cientistas são ateus, muitos se debruçam sobre Seu rastro, como mostram as freqüentes notícias eufóricas sobre alguém ter descoberto a “assinatura matemática”, "química" ou “cósmica” de Deus.

Ser “teologicamente superficial”, aqui, significa não se questionar sobre a Criação, aceitar passivamente a opinião mais vantajosa. Cerca de 40% dos estadounidenses acredita na Criação a partir do barro. Outros 40% acreditam numa evolução guiada pela mão divina e, finalmente, 20% fica puramente na Ciência. Entre os escolares brasileiros, cerca de 30% acreditam na Criação a partir do barro, contra 40% que aceitam alguma forma de evolução do Homem (assustadores 30% são indecisos, talvez tentando conciliar as duas teorias). Mas é possível conciliá-las? Sem ferir gravemente a uma delas, somente pensando uma revelação feita a um profeta, na medida do conhecimento da época (2000 a.C., pelo menos), onde Adão e Abel tenham sido, para além da alegoria, pessoas reais, talvez líderes de clãs em algum lugar próximo ao Golfo Pérsico. Esse seria o limite de alcance do relato, ainda que não o início de tudo, mais ou menos como quando alguém lhe pergunta sobre sua lembrança mais antiga.

JESUS SEM ADÃO?

E quanto ao papel de Jesus como Salvador, de um Homem que não surgiu pecando? Talvez devêssemos, aí mesmo, nos perguntar porque os homens se admitem pecadores, carregadores de uma culpa congênita. Lembremos que essa culpa era irremediável (e pouco representativa) no VT. Apesar disso, mesmo os mais seguidores da Lei permaneciam suspeitos da própria pureza (Isaías 6.5).

Segundo Jesus, o pecado reside em (I) não amar a Deus acima de todas as coisas; (II) não amar ao próximo e a si mesmo igualmente (Mateus 22.36-40, 1ª João 4.21). Parecem condições simples, mas são muito abrangentes. Do fim para o começo, “amar ao próximo” significa ter seu prazer no bem estar, na felicidade e no crescimento do outro. É uma construção social de outras espécies também, e pode-se citar muitos animais que defendem o seu grupo às próprias custas. Nos humanos, essa atitude pode ser inata ou não, e fica mais fraca especialmente em grupos grandes. Pode-se até imaginar uma gama de crianças e adultos, homens e mulheres, ricos e pobres, que entra facilmente em pecado II (ou seja, que escolhe pelo dano ao próximo) a menos que seja ensinada não fazer isso.

Paulo falava sobre a Lei ser uma condenação (Romanos 3.19-24). Mas alguém pode aprender a amar o próximo? A parábola do semeador mesmo adverte que apenas uma parte aprende o Evangelho. E isso é talvez diferente de crer em Jesus, pois é uma regra moral (eu posso crer em Jesus e cometer crimes contra meu próximo). Depois de amar inatamente³, imitar o amor de Jesus é, ainda que muitas vezes impossível ou difícil, segundo nos instrui a parábola, o melhor caminho para escapar ao pecado II. Contemos com a interferência divina para isso!

Amar a Deus acima de tudo significa ter prazer proporcionado por Deus, não por meios naturais. Significa que Deus te faz feliz mais do que outras coisas. Pode significar rir de felicidade quando tudo ao seu redor desaba, mas também cria a pergunta: o que é o “estímulo Deus”?

Havendo uma ordem diretiva do Senhor, “amar a Deus” significa obedecer ela. Mas, lembrando, ordens psicóticas têm também essa característica diretiva e com obediência. De fato, a referência religiosa em pessoas delirantes é tão comum que motivou investigações sobre a conexão de religião e insanidade. Apesar disso, em João 3.1-10 o próprio Jesus fala para Nicodemus, fariseu renomado, sobre aquele que é 'nascido de novo' ter instruções diretamente de Deus*.

Não havendo uma ordem diretiva, “amar a Deus” pode significar não desobedecer regras objetivas. Há muitas delas em Êxodo e Levítico, inclusive muitas que criam o pecado II através da punição ou morte de quem faz ou se recusa a fazer algo. Tolerar o prejuízo causado por alguém, ainda que seja socialmente injusto, não parece menos amoroso com o próximo de que matá-lo a pedradas. Jesus mesmo argumentou pelo produto maior das ordens ou da Lei, de forma que elas evitassem o pecado II. Assim, é preciso pensar além do texto, e às vezes flexibilizá-lo muito para não criar outros pecados. Boa parte da literatura rabínica se dedica justamente a isso.

“Amar a Deus” não é uma faculdade animal (pelo menos não parece ser, apesar do "Tudo o que tem vida louve o Senhor" de Salmos 150.6), mas é uma ação muito antiga entre os humanos. Todas as culturas tiveram ou têm seus deuses. Mas não se trata necessariamente do Senhor dos Exércitos de 1000 a.C., YHWH ou o Pai de Jesus. Nesse caso, “amar a Deus” pode depender completamente de entender Jesus como Seu representante, algo ensinado por Ele e não conhecido de outra forma (o que de fato constitui o Cristianismo como religião independente do Judaísmo).

O BOM PASTOR

Resumindo, a colocação “simples” de Jesus sobre o pecado não inclui um Pecado Original, herdado de Adão. Na verdade, ela permite que algumas pessoas escapem naturalmente ao pecado II de não amar ao próximo, mas tornam improvável que alguém escape ao pecado I sem ser um Seu seguidor. Jesus só não arrebanha para Si alguns dentre aqueles que ouvem Deus diretamente, como os profetas.

Independentemente de Adão, a obra de Jesus se concentra sobre livrar os homens do pecado I, o que apenas destoa das teologias mais difundidas. Ele não deixa claro porque precisaria morrer, mas afirma que era seu destino e que salvaria os homens. A conexão entre as duas coisas é teórica, e foi onde Paulo colocou seu ponto. Embora frequentemente se argumente que, sem Adão, não haveria um Pecado Original pelo qual precisasse haver um sacrifício, temos a exposição de Jesus feita na festa de Hanukkah**:

Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas. Mas o mercenário, e o que não é pastor, de quem não são as ovelhas, vê vir o lobo, e deixa as ovelhas, e foge; e o lobo as arrebata e dispersa as ovelhas. Ora, o mercenário foge, porque é mercenário, e não tem cuidado das ovelhas. Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido. Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas. Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor. (João 10.11-16)

Imagens pastoris eram comuns na Judéía e Grécia mas, ao se referir como “o Bom Pastor”, Jesus se apropriou de um símbolo forte dos gregos, associado com Hermes o Salvador. Esse símbolo era usado desde 500 a.C., amplamente conhecido na Judéia e Roma. Isto é, não dá para dizer que Jesus o criou. O texto de João é muito pobre de alegorias, dando a entender que isso também não era uma parábola. Jesus falou claramente em dar sua vida (pois ninguém poderia tomá-la) e depois a recuperar conforme Ele mesmo quisesse. Ele não fala em pagar pelos pecados de Adão, mas que dar Sua vida era a tarefa Dele junto ao Pai. E talvez a ligação com Adão seja só vista por Paulo.

Na simbologia grega, o Bom Pastor dava sua vida para salvar as ovelhas do ataque dos lobos; além do peixe, esse o Bom Pastor (que já era usado na Grécia e Roma) logo se tornou o principal símbolo Cristão. Resta saber a que lobo Jesus se referia; normalmente esse inimigo é identificado com o Diabo.

EU SOU O CAMINHO

É importante que cada povo sinta-se vinculado a sua terra. Geralmente, esse vínculo é feito por mitos da Criação que trazem elementos do povo em questão associados ao surgimento da própria terra. No Cristianismo e no Islamismo, isso se complica pelo fato de serem religiões que valorizam sua exportação a outras terras e povos.

No Islã, o laço com a terra inicial (Meca) é mantido pela obrigatoriedade das peregrinações - embora grande parte do mundo islâmico seja composta por pobres com pouca probabilidade de viajarem até o Oriente Médio. O Catolicismo contornou essa dificuldade criando peregrinações a muitos lugares santos espalhados pelo mundo, mas principalmente na Europa. No Protestantismo, a aversão aos ícones retirou não só as imagens e pinturas dos templos, transformando-os em prédios puramente funcionais, como uma empresa, mas também destituiu de valor todos os lugares sagrados.

Apesar disso, especialmente entre os Protestantes fortaleceu-se a noção da Criação a partir do barro, como relatado no Gênesis, a ponto de pessoas rejeitarem sumária e coletivamente as evidências históricas e científicas em contrário. Num estado de “superficialidade tecnológica”, tudo depende das influências sociais sobre cada pessoa. Afora os artifícios retóricos e desqualificadores de criacionistas e cientificistas, como dito no início desse texto, ambas as teorias - a Criacionista e a Científica - têm seus valores e metodologias diferentes, cabendo inevitavelmente a cada um escolher entre elas, uma vez que sua conciliação é difícil. Como uma velha árvore não guarda vestígios da semente onde germinou, estamos muito longe no tempo desde a Criação para obter algo mais que teorias.

Analisando o principal dilema da teoria Científica, que é a perda do papel de Jesus sem o pecado de Adão, acabamos vendo que Jesus é, dentro do sistema criado por ele próprio, essencial do contato entre os homens e Deus, com ou sem Adão. Ainda que tenhamos antepassados vivendo há milhões de anos que viveu no sul do Saara, não há como chegar a Deus sem a intervenção de Jesus, mesmo se estivermos entre as almas puras e boas que nasceram e permaneceram amando ao próximo.

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¹ Diversos teólogos, desde o séc. 1 d.C., já defenderam Deus como o sentido da razão humana. Esse é justamente o ponto de João 1.1. Os teólogos gregos como Cerinthus separavam Deus, Jesus e a Razão. João afirmava que todos eram uma única identidade, tendo sido seguido nessa filosofia por Policarpo (69-156 d.C.) e Irineu (130-202 d.C.). Segundo eles, e também em parte segundo o livro de Provérbios, o conhecimento em si é uma obra divina, que brota não da experiência humana, mas da concessão de Deus.

² A experiência de Arnold Stephen Jacobs em 2006 talvez seja de grande valia sobre isso. Ele passou 1 ano seguindo à risca o texto bíblico, tal como está escrito. Você pode ler o livro dele, uma reportagem ou uma entrevista dele aqui.

³ Uma observação curiosa sobre esse amor inato, primal e puro aparece no Pastor de Hermas.

* Alguns pesquisadores cognitivistas já consideraram a religiosidade como doença mental. Embora a motivação religiosa de delírios seja comum, o comportamento religiosamente motivado também é, podendo ser encontrado em 35 a 85% das pessoas, sem que isso se reflita na ocorrência de psicopatologias. Também, não há maior interferência da religiosidade com uma patologia mental (ex. Ansiedade) do que com outra (ex. Esquizofrenia). Entre os poucos estudos que abordam de forma metodológica essa ligação de religiosidade e psicopatologias, aparece como indicativo de doenças mentais o entendimento não convencional (ou incomum) de contextos religiosos, como por exemplo, no Cristianismo, receber mensagens de Deus através do rádio/televisão ou sentir-se ordenado a sacrificar alguém para agradá-Lo.

** Em 330 a.C., a Judéia e grande parte do mundo foram anexados ao Império Macedônio por Alexandre o Grande. Alexandre só viveu 12 anos após seus feitos, mas deixou imensos territórios para serem governados por seus generais. Esses generais estabeleceram linhagens reais que logo entraram em guerra umas com as outras, pelo controle de terras. A Judéia ficou inicialmente sob o domínio dos reis greco-egípcios Ptolomai (as famosas Cleópatras são dessa linhagem), enquanto a Síria e territórios a leste ficaram sob os Seleucos. Até cerca de 200 a.C., os Ptolomai deram liberdade de culto aos judeus. No entanto, Antíoco III o Grande, dos Seleucos, expandiu seu território, derrotou Ptolomeu V, e anexou a Judéia. Ele iniciou um período de forte pressão para que os costumes e a religião nativos fossem abandonados em favor dos costumes gregos. Seu filho Antíoco IV Epiphanes (175 a.C.), em especial, saqueou o 2º Templo e destituiu o sacerdócio judeu, o que iniciou a revolta dos Macabeus em 167 a.C. A revolta foi liderada pelo sacerdote Matatias e seus 5 filhos. O 2º líder da revolta, Judas Macabeu, obteve êxito em retomar Jerusalém e o Templo.

Judas e seus irmãos disseram então: Eis que nossos inimigos estão aniquilados; subamos agora a purificar e consagrar de novo os lugares santos. Reunido todo o exército, subiram à montanha de Sião. Contemplaram a desolação dos lugares santos, o altar profanado, as portas queimadas, os átrios cheios de arbustos que tinham nascido como num bosque ou sobre as colinas, os aposentos demolidos. Rasgando suas vestes, eles se lamentaram muito e cobriram as cabeças com cinza, prostraram-se com o rosto por terra, tocaram as trombetas e ergueram clamores ao céu. Então Judas encarregou alguns homens de combater os soldados da cidadela, enquanto purificavam o templo. (1ª Macabeus 4.36-41)

Essa re-dedicação do Templo passou a ser comemorada, nos anos seguintes, com a festa de Hannukah. Tradicionalmente, a festa prossegue por 9 dias, até que todas as velas do Menorah tenham sido acesas, uma por dia.

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TEXTOS CHATOS DEMAIS PARA SEREM LIDOS

Good Shepherd - wikipedia
Hanukkah - wikipedia
Kriophoros - wikipedia
Moss S, Defying Darwin, The Guardian, 17fev2009
Oliveira GS, Estudantes e a evolução biológica: conhecimento e aceitação no Brasil e Itália, tese de doutorado na Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, 2015
Pettit J, God or meaningless morality, notsodeepthoughts.org
Sanderson S, Vandenberg B, Paese P, Authentic religious experience or insanity?, Journal of Clinical Psychology 55(5):607-616, 1999
Valério M, A falsa inerrância científica bíblica, evo.bio.br, jan2004

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Quando uma igreja não é igreja

Igreja de Saint George, em Lalibela, Etiópia. A igreja de 25m de altura é uma única peça de rocha vulcânica, esculpida externa e internamente no séc. 12.

Esse é um texto que poderia ser do Tuco Egg (olha o link dele aí do lado), mas não é. Esse foi produzido por Katherine Stewart e publicado no jornal The New York Times em 16/abril/2018. Brinquei um pouco com o texto dela.

Com o pagamento dos impostos bem próximo, considere que, através do milagre dos incentivos fiscais, seu dinheiro vai financiar campanhas contra o casamento gay e contra o desarmamento da população. Vários grupos financiados pelos impostos também o usarão para fins políticos, sem se reportar às entidades públicas. Por quê? Eles têm Deus do seu lado.

No outono passado, por exemplo, de acordo com formulários protocolados no Internal Revenue Service (a Receita Federal estadounidense), a “Focus on the Family” (tradução: Foco na Família), uma organização Cristã conservadora em termos de política pública e familiar, declarou-se uma igreja. A “Focus on the Family” não tem um local de congregação, não realiza cultos, nem casamentos ou funerais. Com seu orçamento anual de quase US $ 90 milhões, o que a entidade faz é produzir programas de rádio. Muitas vezes, são programas políticos direcionados a 38 milhões de ouvintes nos Estados Unidos e além. Eles fazem campanhas contra legisladores estaduais que lutam pelos L.G.B.T. e combatem o que chamam de "ativismo gay" nas escolas públicas.

Por que um grupo assim gostaria de chamar a si mesmo de igreja? Resposta curta: dinheiro. As igrejas podem fazer deduções nos impostos com mais facilidade do que outras organizações sem fins lucrativos. Eles também desfrutam de isenções de impostos sobre a propriedade para membros do clero (ou seriam personalidades do rádio?). As igrejas também podem aproveitar os benefícios do capital “negro”: não são obrigadas a revelar a origem dos seus fundos. E a “Focus on the Family”, como vários outros grupos da direita religiosa, se preocupa com a possibilidade de que sua oposição a relacionamentos gay os torne foras-da-lei. Afinal de contas, os “padrões de comportamento moral” nas suas diretrizes proíbem “atos homossexuais”.

O “Family Research Council” (tradução: Conselho de Pesquisa da Família), um parceiro próximo que, por algum tempo, se fundiu ao “Focus on the Family”, é registrado como uma organização não religiosa. Mas um dos principais objetivos do Conselho é converter as igrejas conservadoras em células políticas partidárias. Ele procura colocar o que chama de “equipes de impacto cultural” nas igrejas para “promover os valores do Reino na arena pública”.

Segundo a “Focus on the Family” e o “Family Research Council”, a Bíblia oferece informações específicas sobre como as pessoas deveriam votar. As Escrituras, dizem eles, opõem-se à assistência pública por princípio (“Deus encarregou os crentes de ajudar os pobres, viúvas e órfãos”, explica o manual da equipe de impacto cultural do Conselho). Aparentemente, a Bíblia também é contra o desarmamento e apóia a privatização de escolas. E, claro, que as relações homossexuais são uma abominação. Eles também são contra as mulheres terem acesso a cuidados reprodutivos. O Ambientalismo, de acordo com a fonte que o manual recomenda aos grupos religiosos, é uma ladainha do Dragão Verde¹ e uma das maiores ameaças à sociedade e à igreja. Outras fontes recomendadas pelo manual promovem a noção de que a Terra tem 6000 anos.

Não há mistério sobre qual partido político a Bíblia apóia, pelo menos como esses grupos vêem. No período que antecedeu as eleições de 2016, James Dobson, fundador da “Focus on the Family”, elogiou Donald Trump e explicou que a perspectiva de uma presidência de Hillary Clinton "assusta até a morte". Mas eles se dizem não partidários.

Se você se preocupa que o gasto público/político de dinheiro é alto, imagine o que acontece quando se adiciona uma exceção divina. Isto é, quando recebedores dos impostos repassam dinheiro aos candidatos livremente, sob a cobertura das igrejas. Não obstante a Emenda Johnson² proíba que igrejas façam campanha eleitoral, isso está acontecendo.

Em 2016, Ralph Reed, presidente da "Coalizão Fé e Liberdade", falou na "Road to Majority Conference" (tradução: Conferência Caminho para a Maioridade), que reuniu políticos e líderes da direita religiosa. Reed prometeu distribuir 35 milhões de guias eleitorais "não-partidárias" através das igrejas e ajudar a levar os eleitores às urnas. Ninguém que financiasse sua operação ou ouvisse seu discurso teria dúvida sobre quem se beneficiaria do trabalho. Mais tarde naquele dia, depois que Reed saiu do palco, o Sr. Trump chegou para falar. A prova da efetividade dessa máquina político-religiosa pôde ser lida nas pesquisas de boca-de-urna em 2016. 80% dos evangélicos brancos³ apoiaram Donald Trump.

Quando questionados sobre o flagrante ativismo partidário, esses grupos invariavelmente clamam que sua liberdade religiosa está sob ataque. Não está. Eles podem expor suas opiniões livremente em praça pública. A questão aqui é a transparência sobre uso do dinheiro público. Os incentivos fiscais são uma das maneiras pelas quais o governo usa o que arrecada nos impostos. E se o governo vai alocar dinheiro em algo, você deveria saber para onde ele está indo (a questão da transparência fiscal, no Brasil, é bem mais séria).

Esse processo de politização corrompe a religião. A maioria dos líderes religiosos nos Estados Unidos respeitou a separação entre Igreja e Estado, e esse arranjo serviu bem ao país. Sob a lei atual, os grupos religiosos estão isentos de encargos fiscais e de relatórios sobre suas atividades (as empresas declaram suas atividades financeiras, não?). Grupos políticos não são isentos. As igrejas precisam decidir de que lado elas querem estar.

Quanto ao Sr. Trump, ele lançou-se candidato a presidente da principal democracia no mundo acusando o México de exportar “estupradores”. Ele já começara a carreira política inaugurando uma teoria da conspiração de que o primeiro presidente negro daquele país não era um cidadão de verdade. Jornalistas e cientistas políticos bradaram que ele jamais ganharia a nomeação do seu partido. Ele ganhou e, durante a campanha, as regras sobre respeito foram rasgadas de vez. Num comício, ele usou o palavrão mais censurado no seu idioma para referir-se a um adversário político. Noutro, imitou um repórter com deficiência física. Declarou que um juiz não era capacitado para julgá-lo por ter ascendência mexicana. Por fim, menos de um mês antes da eleição, vazou um vídeo em que ele gabava-se de assediar mulheres. Mas Donald Trump foi eleito presidente, com apoio de parte da Igreja. Talvez não ainda sob esse nome atual, mas sim, por pessoas que se afirmam religiosas o suficiente para justificar pela Bíblia as suas ações. Lembremos que, na sua única aparição declarada, o Diabo usou partes da Escritura para tentar Jesus.

Alianças improváveis na Igreja não são coisa tão nova. Em 1932, um candidato democraticamente eleito com uma plataforma racista pôs em curso uma política pública que matou 6 milhões de pessoas, sobretudo judeus, negros, ciganos, comunistas e LGBTs. Hitler teve apoio dos industriais da época, arruinados com o empobrecimento da classe média. Inicialmente, os católicos alemães eram proibidos de ingressar no Partido Nazista e os padres recusavam a comunhão às pessoas usando a suástica. Essa antipatia inicial do Partido com a Igreja Católica foi resolvida de forma amigável, com um tratado de não influência mútua entre Pio XI e Hitler, em 1933. Claro que Hitler nem se importou com o acordo, mas ele era um fechar de olhos quanto às atrocidades que o Partido comandava. Quase por tabela, os judeus, negros, ciganos, comunistas e LGBTs passaram a ser considerados, na Alemanha e territórios subordinados, como destituídos da graça e até da observância de Deus.

Nos EUA, e talvez no Brasil, é preocupante pensar que acordos políticos sejam feitos ou influenciados pela Igreja. Especialmente acordos que, às vezes, retiram a ajuda do Estado sobre algum grupo de pessoas. Ou que fecham os olhos da Igreja sobre as más ações de políticos, empresas, etc porque são declarados bons aos olhos do Deus - apesar de agirem em próprio interesse.

Com certeza não vivemos na Igreja de Jesus, nem de Pedro e Paulo. A Igreja de 2018 somente pode se apoiar nos que vieram imediatamente antes de nós. Existimos como resultado dos movimentos Protestantes e Católicos no começo dos anos 1980, das transformações ideológicas que o Vaticano trouxe à América Latina nos anos 1950, dos grupos estadounidenses de 1900, do movimento protestante no século 19, e vamos assim até a Igreja romana estatizada do séc. 4 e os Cristãos ricos do séc. 2. Ok, o que aprendemos da Igreja enquanto evangelizados, na melhor das hipóteses, é o que está na Bíblia. É a Igreja inicial, do séc. 1. Mas é difícil e provavelmente impossível resgatar a “santa Igreja” dos tempos bíblicos, como se 2000 anos não tivessem passado*. Mas deveríamos pensar, enquanto Igreja, no que temos feito HOJE do nome de Jesus.

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¹Dragão Verde é um personagem do escritor James Wanliss. O Dragão Verde seria uma pseudo-entidade espiritual, uma espécie de demônio, que faz as pessoas desprezarem a obra de Deus. Graduado em Física, Wanliss atualmente tem se renomado como ambientalista e religioso, com obras que tentam atrelar o Cristianismo ao Ambientalismo. Ver Jesus naturalista.

²A “Emenda Johnson” foi feita em 1954 pelo senador Lyndon B. Johnson, futuro presidente dos EUA. Ela restringia a atuação de Organizações sem Fins Lucrativos (como as igrejas) quanto a intervirem em campanhas eleitorais. Recentemente, houve tentativas de Donald Trump de alterar essa emenda.

³Nos EUA, ao contrário do Brasil, há uma separação racial, política e ideológica entre as Igrejas protestantes "branca" e "negra". Enquanto a "igreja branca" é de maioria caucasiana, direitista/nacionalista, conservadora quanto aos costumes e luterana/tradicional, a "igreja negra" é de maioria latina/afro, esquerdista, liberal quanto aos costumes e mais próxima ao pentecostalismo. Ver A igreja do outro mundo.

*Nunca faltaram, curiosamente, novos profetas prontos a re-iniciar o Cristianismo. Em poucas situações esses movimentos tiveram algum sucesso, por destoarem fortemente da ideologia de sua época e contarem, portanto, apenas com a própria força para crescerem. Na maioria das vezes, a estratégia para repelir outras versões do Cristianismo é adotar um Velho Testamento ou um Novo Testamento completamente re-feitos, o que configura a nova doutrina como uma seita ou heresia.

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NEM QUEIRA LER

Green DB, 1933: The Vatican and Nazi Germany sign an agreement, revista Haaretz, 20/julho/2016
Mais LA, O racismo como razão de voto, revista Piauí, 17/maio/2018
Reichskonkordat - wikipedia

segunda-feira, 21 de maio de 2018

A invisibilidade Cristã

Imagem da cúpula da catedral Hagia Sophia, em Istambul (antiga Constantinopla), datada do séc. 4 d.C.

Emendei aqui 2 artigos muito relevantes de Douglas Boin, professor de história greco-romana na Saint Louis University, que foram publicados na Biblicalarchaeology.org

Estamos sempre correndo atrás do próximo artefato Cristão: caixas de ossos, manuscritos codificados com mensagens secretas, fragmentos de papiros menores que os recibos que enfiamos em nossos bolsos. Eles prometem respostas para as muitas perguntas que a Bíblia deixa. Se olharmos melhor, se cavarmos mais, um dia encontraremos Aquela evidência do tempo de Jesus e seus seguidores. Para muitos, essa é uma missão arqueológica urgente, com profundas implicações para a história da fé.

Por quase 200 anos após a crucificação, as cidades romanas foram totalmente desprovidas de qualquer vestígio dos cristãos primitivos. Até hoje, ninguém encontrou um objeto indubitavelmente conectado a eles. Como arqueólogo e historiador, acho que é hora de começarmos a levar esse silêncio a sério e parar de tentar preenchê-lo com mais "descobertas" sensacionais. Os seguidores de Jesus dos primeiros 3 séculos da nossa Era não queriam ser encontrados.

Não é isso que vem à mente quando pensamos nos 1os Cristãos, mas a evidência é insuperável. Por 400 anos, não houve sequer um presépio toda Roma. Não havia crucifixos em casas ou escolas. Não havia nem Bíblias nos bancos das igrejas. Na verdade, nem sabemos como eram as "igrejas", até meados do 3º século. Para uma comunidade que viria a lembrar sua história como perseguições cruéis, respondida com atos de martírio, esse silêncio arqueológico representa um problemão. Sabemos sobre eles, mas não vemos suas pegadas. Onde andaram os 1os Cristãos?

Há duas suposições famosas para explicar o silêncio. A primeira é que o 2º Mandamento de Moisés proibia os seguidores de Jesus de fazerem qualquer coisa artística. A segunda é que os Cristãos eram muito pobres para deixar artefatos duráveis. Mas novas pesquisas arqueológicas e históricas sugerem que nenhuma dessas explicações é correta.

"Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra, ou nas águas debaixo da terra.” (Êxodo 20.4, Deuteronômio 5.8)

Trabalhos recentes sobre a cultura material judaica ao final do período do Segundo Templo lançaram uma nova luz sobre este tópico. No centro do quadro está Alexandre, o Grande, conquistando o mundo aos 20 anos. Ele mudou o leste do Mediterrâneo Oriental a partir do séc. 3 a.C. e impactou o que seriam as culturas judaica e Cristã. As dinastias Selêucida (na Turquia, Síria, Jordânia, Israel, Palestina, Líbano e Chipre) e Ptolomai (no Egito) difundiram a arte grega para todo Mediterrâneo, especialmente no Oriente.

Uma visita a duas cidades histórias deixa isso claro. Na cidade de Marisa helenística (hoje conhecida como Maresha, perto de Belém), os arqueólogos encontraram túmulos com pinturas de animais e paisagens semelhantes a Vergina, na Grécia, um local importante para os reis da Macedônia. Os animais retratados em Maresha podem até ter sido inspirados por um famoso zoológico grego, organizado pelos Ptolomai em Alexandria. As pinturas de Maresha foram datadas dos sécs. 3 e 2 a.C.

Em Jerusalém não houve menos intercâmbio cultural. Pinturas de navios e âncoras aparecem em muitos túmulos de Jerusalém datados da época de Jesus. Algumas tumbas monumentais construídas no Vale do Cedron, à sombra do Segundo Templo, incorporam colunas e pirâmides de pedra populares no mundo grego, como a tumba dos filhos de Hezir¹ (séc. 2 a.C.) e a Tumba de Absalão² (século 1 d.C.). Em outras palavras, o 2º Mandamento não impediu que os judeus fizessem imagens; porque deveríamos pensar que os Cristãos - parte judeus e parte gentios - também se sentissem ceifados em suas artes?

Não levem nem ouro, nem prata, nem cobre em seus cintos; não levem nenhum saco de viagem, nem túnica extra, nem sandálias, nem bordão; pois o trabalhador é digno do seu sustento. (Mateus 10.9,10)

Na busca por artefatos do início do Cristianismo, os historiadores e arqueólogos poloneses estão atônitos com notícias de um Evangelho de Marcos do séc. 1 d.C. Se for verdade (e sejamos francos, ninguém tem certeza ainda), permitirá aos crentes contemplarem as primeiras palavras já escritas do Novo Testamento. O texto também pode confirmar uma verdade inconveniente que os historiadores vêm pregando há décadas: os seguidores de Jesus eram muito mais ricos e instruídos do que nos ensinaram. E isso pode até iluminar a luta através da qual os Cristãos terminaram por conquistar seus direitos na Roma do séc. 3 d.C.

Embora a missão da Igreja para com os pobres e marginalizados possa ser uma posturas admirável ​​do Cristianismo atual, não se pode dizer todos os seguidores de Jesus faziam parte dos menos favorecidos. Paulo, um seguidor ardente que ficou famoso em todo mar Egeu, foi o 1º a nos fornecer informações de dentro do grupo. Ele próprio era um fariseu-romano de alta classe, e nunca disse que sua fortuna simplesmente desapareceu. Fazer as muitas viagens que ele relata (e que iniciaram a proliferação dos Cristianismo entre os gentios) não era algo acessível à maioria dos homens. Ler, escrever e o equipamento necessário (tinta, pena, pergaminhos) também eram recursos greco-romanos bem caros. Possuir isso abria portas; Paulo certamente estava entre os 10% mais ricos da sociedade. No final do séc.1 d.C. - época em que o evangelho de Marcos foi composto; sua cópia mais antiga é de pelo menos 100 anos depois - um abastado casal de Pompéia estava tão orgulhoso de ler e escrever que retrataram-se segurando uma pena, rolagem e prancheta.

Os correspondentes de Paulo eram desses mesmos círculos cultos. Sabemos pelas cartas que ele escreveu para eles. As convenções de escrita usadas sugerem uma familiaridade com práticas sociais da elite. Escrever de forma educada também era importante, em Roma! Seu contato Cloe, em Corinto, organizou reuniões em sua casa (1ª Coríntios 1.11). Assim também Febe na cidade vizinha Cencréia (Romanos 16.1), bem como Priscila e seu marido Áquila (Romanos 16.3). Não precisamos supor que esses Cristãos estavam entre os mais ricos para ter suas propriedades, mas uma boa estimativa os colocaria nos 33% superiores da pirâmide socioeconômica. E também podemos ver que, quando os Cristãos se reuniam, divisões sociais ser ferozes.

Depois que Paulo deixou Corinto, ele ouviu que muitos membros do grupo estavam tratando a Ceia do Senhor como um jantar luxuoso. Os mais privilegiados comiam e bebiam, indo para casa bêbados³, enquanto os membros da classe baixa saíam com fome (1ª Coríntios 11.20,21). Apesar dos ensinamentos, não era uma comunidade igualitária! Essas divisões econômicas não seriam resolvidas com o passar do tempo. Um século depois, Cristãos abastados em Alexandria celebravam a Ceia do Senhor “com carne gordurosa e molhos finos”, disse Clemente, o bispo de Alexandria*, no final do séc. 2. Pratos primorosamente trabalhados em ouro e prata estavam sendo usados ​​na refeição comunal instituída por Jesus. "E essas pessoas ousam chamá-la de Ceia do Senhor!", disse Clemente, exasperado.

Muitos Cristãos tinham idéias pessoais sobre como seguir a Jesus - e isso envolvia se relacionar politicamente. Em meados do séc. 3 d.C., na Síria, uma comunidade Cristã convenceu um residente local fazer da sua casa um grande salão para reuniões. O proprietário até instalou um batistério e fez pinturas de cenas do Novo Testamento nas paredes. Essa casa transformada é o 1º exemplo de arquitetura Cristã que temos. E ela foi produzida num período em que os Cristãos supostamente eram perseguidos. No entanto, a casa de Dura-Europos** antecede a legalização do Cristianismo por meio século, e isso pode mudar a maneira como pensamos a história Cristã.

Roma era muito grande e, ao contrário do que pensamos, os Cristãos dificilmente se escondiam em toda ela. Com efeito, o triunfo político do Cristianismo pode ter sido o produto de algo tão mundano quanto aliados bem posicionados e apoio financeiro. Isso poderia inspirar Nero a afrontá-los em 64 d.C., quando as perseguições começaram.

Mas resta a pergunta: porque os Cristãos do 1º século não deixaram nada além de textos?

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¹A Tumba dos filhos de Hezir é uma grande construção funerária do séc. 2 a.C., encravada no Vale do Cedron, destinada a abrigar os restos de uma família nobre de Jerusalém, chamada ‘filhos de Hezir’. Possivelmente trata-se da linhagem do príncipe que firmou aliança com Neemias em Neemias 10.20.

²A Tumba de Absalão é uma torre de 20m de altura, apoiada num pedestal de pedra de 7m, incrustado no Monte das Oliveiras. É um monumento bastante decorado do lado de fora, com propósito incerto. A ligação com Absalão, filho de Davi que tentou usurpar o trono, é alegórica. Dentro da torre, encontrou-se a inscrição “Esta é tumba de Zacarias, o mártir, alto sacerdote, pai de João”. Mas os estilos e a tecnologia de escultura são muito posteriores a isso. Há teorias de que se trate da tumba de Herodes Agrippa, rei da Galiléia a quem Jesus foi apresentado, ou ainda um monumento para indicar o sistema de cavernas funerárias Jehoshaphat.

³Embora a Ceia do Senhor tenha se tornado um ritual estilizado com sacerdote, óstia, suco e pedacinhos de pão, somos instruídos pela leitura do Novo Testamento, costumes judeus e a história de que realmente se tratava de uma refeição grupal. Para os romanos, gregos e judeus sentar-se à mesa para comer e beber com alguém era um sinal de igualdade e até a posição das pessoas tinha seu significado. Por isso, quando Jesus começou a reunir seus seguidores em uma mesa (para jantar, é isso que Ceia significa), ele debochou das divisões sociais como mesmo Pedro não ousou fazer (Gálatas 2.11,12).

*Em sua obra Paedagogus (que significa Mestre, Professor), Clemente de Alexandria (150-215 d.C.) se referiu a Cristo como alguém que ensinou a Humanidade. Para construir seu discurso, ele usou fartamente de autores gregos como Platão (A República) e Homero (A Odisséia). Para ele, o pecado fazia parte do involuntário e irracional humano, com Deus dando ao homem sua parte racional. Ele também fala de um Deus sem sexo, até apontando o vinho da Eucaristia como ‘leite do Pai’, e usando exemplos gregos e bíblicos de mulheres inspiradoras, que deveriam compor a liderança da Igreja. Clemente também defendeu a moderação dos costumes, sendo contra as riquezas mas também contra a pobreza voluntária, pois os Cristãos deveriam ser capazes de louvar a Deus com festas e felicidade.

**Dura-Europos era uma cidade síria de maioria judaica, nas bordas do Império, que logo foi invadida pelos Persas. A casa em questão continha cenas de Adão e Eva, Davi e Golias, o Bom Pastor, Jesus e Pedro andando sobre as águas e as Três Marias visitando a tumba de Jesus. Lá também foram encontrados fragmentos de pergaminho usados em batismos, altamente semelhantes ao texto da Didache.

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Leituras de além do tempo

Boin D., site Religious Dirt
Boin D., The archaeological quest for the earliest Christians, 02/jan/2018. 2ª parte

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Relendo o Pastor de Hermas

'O semeador', ou uma das telas com esse nome, de Vincent van Gogh

Esse texto faz parte de um material composto por

O Pastor de Hermas (PH) é um daqueles livros da antiguidade Cristã que está rodeado de mistérios. O primeiro deles é a data em que foi escrito: o autor é realmente um homem chamado Hermas, irmão de Pio, bispo de Roma entre 142 e 155 d.C. Mas, no texto, há uma referência para que seja entregue a Clemente, supostamente uma autoridade em Roma. E houve um Clemente, bispo de Roma por volta de 96 d.C. A teoria mais aceita é o livro que tenha sido composto em partes e depois reunido entre 96 e 150 d.C. Se isso for verdade, o Pastor de Hermas foi escrito logo após as cartas de Paulo.

Mas porque isso é importante? No começo da Era Cristã, tanto os Evangelhos quanto as cartas de Paulo, Pedro, etc eram textos que circulavam em separado, copiados a mão, passados de comunidade em comunidade como preciosidades. O PH fez parte dessas jóias da evangelização, por tanto tempo que causou grande alvoroço quando foi rejeitado como obra sagrada pela Igreja. Embora não tenha pontos teológicos fortemente disputados (como outros livros, a exemplo a Sabedoria e o livro de Tobias), o PH não se encaixa no critério para ser um livro sagrado. Ele não traz o relato de alguém que viu Jesus pessoalmente (se bem que João Marcos e Lucas, evangelistas, provavelmente também não O viram).

O segundo ponto misterioso é o conteúdo do livro. Ele traz mandamentos, parábolas e visões, assemelhando-se a uma versão particular do Novo Testamento (NT) sem os detalhes cronológicos dos evangelhos, os detalhes históricos do livro de Atos ou a discussão filosófico-teológica das cartas de Paulo. O PH são estórias, estranhamente encadeadas, de um autor que recebe ensinamentos Cristãos diretamente de anjos-pastores. Fica evidente, nele, a analogia com a figura do “bom pastor”, usada fartamente no NT, especialmente por Lucas e João.

O PH usa visões como as de João, no livro de Apocalipse. É através dessas visões que ele acompanha e conversa com os anjos-pastores. A estrutura explicativa da Parábola do Semeador é constante ao longo da obra, ainda que não haja uma transcrição dessa parábola. Aquele anjo que se intitula ‘anjo da Penitência’ acompanha Hermas boa parte do tempo, ensinando-o... precisamente os ensinamentos que estão nos evangelhos e nas cartas de Paulo! Mas não há a citação direta de personagens dos Evangelhos, do Velho Testamento (VT), transcrições dos evangelistas ou de Paulo, como se o PH fosse uma obra completamente independente.

O estilo em que o livro foi escrito é definitivamente Cristão¹ e romano. As estórias são repetitivas e detalhistas, com cenas rurais simples de explicação complicada. Esse estilo aparece de modo mais suave no Apocalipse e perduraria até o final da Idade Média, em obras como o Decameron (1350). Roma recebeu a visita de Paulo e foi sede do ministério de Pedro até sua morte, por isso impressiona que o PH possa ser uma obra Cristã independente. Por outro lado, quase todo o texto do PH reflete a Parábola do Semeador, encontrada nos livros de Mateus, Marcos e Lucas, mas com um papel maior no livro de Marcos, o mais antigo deles (66-70 d.C.). Mesmo a explicação

Para que, vendo, vejam, e não percebam; e, ouvindo, ouçam, e não entendam; para que não se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados. (Marcos 4.12)

que faz um paralelo de Isaías 6.9-10, é conservada e re-explicada em muitas partes ao longo do livro. Por exemplo, em suas visões, Hermas é a todo momento questionado: “Vês isso e não entendes?”

A obra enfatiza a Salvação obtida por meio de Penitência, isto é, pelo sofrimento produzido para expiação dos pecados. O próprio Hermas é castigado pelos pecados de seus filhos. Esse conceito é bem distinto dos evangelhos e das cartas de Paulo. Trata-se, na verdade, de um entendimento particular do NT: Jesus sofrendo para expiar os pecados humanos e os apóstolos vítimas da perseguição judaico-romana aos Cristãos tornam-se uma espécie de modelo de conduta. E os Cristãos foram, nos 1os anos da nova doutrina, direcionados a buscar o sofrimento para a Salvação de si e dos outros.

Mas a teologia ensinada pelo PH tem outras nuances. Logo no início do livro, vemos:

Cap 6. 5O Senhor jurou por sua glória e respeito de seus eleitos: se depois deste dia, fixado como limite, ainda se cometer um só pecado, eles não obterão a salvação, pois a penitência para os justos tem limite. Terminaram os dias de penitência para todos os santos. Contudo para os pagãos, a penitência pode ser feita até o último dia.

Em outras palavras, Hermas introduz sua obra como um divisor de eras mais importante até do que o ministério de Cristo. Após ela, os Cristãos não deveriam pecar jamais, pois teriam sido informados de todos os pormenores necessários à Salvação. Trata-se de um entendimento tão radical quanto a anunciação do Quran a Maomé, que justificaria até os Cristãos se ofenderem com alguém que não conhece o PH.

Uma curiosa referência aos judeus é feita numa pequena passagem:

Cap 7. 'Dize a Máximo: Eis que chega a tribulação. Se te parece bem, renega de novo. O Senhor está próximo daqueles que fazem penitência, como está escrito no livro de Eldad e Medad, que profetizaram para o povo no deserto.

Não se sabe porque Hermas introduziu essa passagem. Eldad e Medad são homens da Israel liderada por Moisés durante a peregrinação pelo deserto. Eles foram abençoados como profetas que estavam fora do acampamento quando Moisés pediu tal dom a Deus. Um manuscrito do séc. 11 atesta que os versos 35 e 36 de Números 10 não são obra de Moisés, mas de Eldad e Medad. Nos manuscritos Masoretas, as marcas laterais indicam que tais versos foram adicionados depois. E vários escritos antigos levam a crer que existiu um livro de Eldad e Medad. Tal livro foi dado como apócrifo pelos judeus e desapareceu ainda na antiguidade, mas Hermas parece ter tido contato com ele, o que torna a composição do PH ainda mais misteriosa. Seria o mais canônico dos livros gnósticos²?

Outra referência curiosa de Hermas é o cereal “espelta” (cap 12), um trigo avermelhado e doce que foi cultivado na Europa até a Idade Média. Desde então, ninguém mais citou tal cereal.

Hermas faz mais uma referência ao VT quando transcreve o jejum de Isaías 58, que aparece repartido em dois trechos:

Cap 54. "Senhor, estou jejuando." "Escuta. 4Deus não deseja esse jejum vazio. Com efeito, jejuando desse modo para Deus, não farás nada para a justiça. Jejua do seguinte modo: 5Não faças nada de mau em tua vida e serve ao Senhor de coração puro; observa seus mandamentos, andando conforme seus preceitos, e que nenhum desejo mau entre em teu coração, e crê em Deus. Se fizeres isso e o temeres, abstendo-te de toda obra má, viverás em Deus. Se cumprires essas coisas, farás um jejum grande e agradável ao Senhor." … Cap 56. 5Eis como observarás o jejum que queres praticar: 6Antes de tudo, guarda-te de toda palavra má, de todo desejo mau, e purifica teu coração de todas as coisas vãs deste mundo. Se observares isso, teu jejum será perfeito. 7E jejuarás do seguinte modo: depois de cumprir o que foi escrito, no dia em que jejuares, não tomarás nada, a não ser pão e água. Calcularás o preço dos alimentos que poderias comer nesse dia e o porás à parte para dar a uma viúva, a um órfão ou necessitado e, desse modo, te tornarás humilde. Graças a essa humildade, quem tiver recebido ficará saciado e rogará ao Senhor por ti.

VISÕES

Uma das primeiras visões de Hermas se refere a uma mulher que lhe apresenta a Grande Torre, símbolo da Igreja, erguida com pedras tiradas de dentro de um rio e depois da terra. Noutro ponto do livro, as pedras – que representam as pessoas salvas – são tiradas de um abismo, de uma planície e também de montanhas. Todos são representações de grupos de pessoas, através de uma elaborada explicação, semelhante à Parábola do Semeador.

Cap 10. 4Não estás vendo diante de ti uma grande torre que está sendo construída sobre as águas, com pedras quadradas e brilhantes? 5Com efeito, ela estava sendo construída em forma quadrada pelos seis jovens que tinham vindo com ela. Outros milhares e milhares de homens carregavam as pedras, uns do fundo da água, outros da terra, e as entregavam aos seis jovens, que as recebiam e construíam.

Quando a Torre estivesse pronta, chegaria o dia do Juízo Final.

Cap 13. As pedras quadradas e brancas, que se ajustam bem entre si, são os apóstolos, os bispos, os doutores e os diáconos ... Estes são os que estiveram sempre de mútuo acordo, conservaram a paz entre si e se ouviram reciprocamente. É por isso que na construção da torre suas junturas se ajustavam bem.

A hierarquia da Igreja é apontada como possuindo o tipo de pessoa mais adaptada à Igreja. Para Hermas, a participação na organização religiosa é a forma mais segura de obter a Salvação. Tal conceito deriva da reverência aos fundadores e foi criado dentro do Catolicismo romano (não está presente no NT). Ele foi responsável por uma incrível filiação de pessoas aos monastérios durante a Idade Média, na Europa. Com o enchimento dos monastérios, apenas os pertencentes a famílias ricas e poderosas passaram a ter direito à filiação religiosa e, em outras palavras, à Salvação. Isso sem dúvida foi uma inversão surpreendente da rejeição de Jesus aos mestres judeus e suas regalias! Mais recentemente, até no séc. 19, era prática que os membros de famílias poderosas fossem enterrados não menos do que dentro das igrejas Católicas. Mas, ainda, estamos no séc. 2 e, como dizia Jesus, os ricos não eram dignos da Igreja.

Cap 15. 7Aprende contigo mesmo: enquanto eras rico, eras inútil; agora, porém, és útil e frutuoso para a vida. Tornai-vos úteis para Deus! Tu mesmo foste uma dessas pedras.

Uma das expressões usadas no mesmo cap. 15 é “dureza de seus corações”, expressão típica do livro de Marcos e das cartas de Paulo. João Marcos, o evangelista, foi um seguidor de Paulo aceito no grupo pela intervenção de Barnabé, com quem viajou de Antioquia para Chipre (Atos 15.36-40). Dentro do mundo romano, Hermas pode ter adquirido essa expressão tanto de Marcos quanto de Paulo, sendo parente de um dos primeiros bispos romanos.

Outra particularidade do PH é colocar repetitivamente os negócios e ocupações mundanas como agentes de um afastamento entre as pessoas e Deus. Novamente, ele evoca a Parábola do Semeador.

Cap 19. Da mesma forma, enfraquecidos pelos negócios do mundo, vos tendes deixado levar pelo abatimento e não entregastes ao Senhor as vossas preocupações.

A 2ª visão de Hermas é o encontro com uma enorme fera. Não há descrições precisas, mas de um animal multi-colorido, no qual, claro, cada cor representa algo.

Cap 22. Mas ela aumentava cada vez mais e eu suspeitei que fosse algo divino. Nesse momento, o sol brilhou um pouco, e então pude ver uma fera enorme, parecida com a baleia. E da sua boca saíam gafanhotos de fogo.

Hermas escapa da fera simplesmente por “entregar sua preocupação a Deus”, mediante a intervenção do anjo Tegri, senhor das feras selvagens. O nome “Tegri” é até hoje um mistério, mas dada a semelhança entre as visões de Hermas e as passagens de Daniel, é possível que o autor tivesse algum contato com os textos hebraicos. Além disso, a palavra aramaica usada para o verbo de “fechou a boca dos leões” em Daniel 6.22 é Sgr ou Segri, que poderia, por uma mudança de pronúncia, se transformar em Tegri. Dessa forma, o anjo de Hermas seria o mesmo anjo de Daniel, desvelando novamente um conhecimento do VT pelo autor do livro.

Noutra visão, Hermas presencia uma grande árvore, de onde um grande anjo cortava ramos e os entregava aos homens.

Cap 67. 1Ele me mostrou um grande salgueiro, que cobria planícies e montanhas, e ao abrigo do salgueiro tinham-se recolhido todos os que são chamados pelo nome do Senhor. ... Cap 69. 2Ele me respondeu: "Escuta. Essa grande árvore que cobre planícies, montanhas e toda a terra, é a lei de Deus dada ao mundo inteiro, e essa lei é o Filho de Deus anunciado até os confins da terra. Os povos que se encontram debaixo da árvore são aqueles que ouviram o anúncio e creram. 3O anjo grande e glorioso é Miguel, que tem o poder sobre esse povo e o governa. É ele que dá a lei e grava no coração daqueles que crêem.

O anjo então recolhia os ramos de volta e, dependendo do estado em que voltavam, distribuía penitências aos que receberam tais ramos. Havia desde os que voltavam com frutos até aqueles que voltavam secos e fendidos. E temos, mais uma vez, uma semelhança da Parábola do Semeador, onde aparece o nome do anjo Miguel.

Miguel é uma figura do livro de Daniel (Daniel 10.21), do livro de Judas (Judas 1.9) e do Apocalipse (Apocalipse 12.7), tido como protetor de Israel e um dos espíritos que andam junto de Deus (Miguel, Gabriel, Rafael e Uriel, segundo o livro de Enoque). Também foi uma figura bastante reverenciada na Idade Média, sugerindo que algo da tradição mística judaica foi absorvida pelo Cristianismo de Roma Ocidental e repassada com sucesso às comunidades Cristãs na Europa. O PH possivelmente foi uma ferramenta desse processo, deixando claro que Hermas absorveu (de forma simples, talvez por tradição oral) elementos de textos judaicos importantes como Daniel e Isaías.

Noutra visão, Hermas visita a terra de Arcádia, na Grécia, uma grande ilha ligada ao continente pela passagem de Corinto. As grandes planícies de Arcádia (planícies não são comuns na Grécia!) renderam ao lugar uma imagem de terra fértil, onde habitavam pastores. Na mitologia grega, Arcádia é o lar de Pan, o deus-bode senhor dos sátiros. Mesmo na Roma Ocidental antiga, essa imagem de Arcádia como uma terra antiga, fértil, sagrada e pacífica já existia no imaginário popular.

Cap 78. 4Então me transportou para a Arcádia, sobre um monte de forma cônica. Fez-me sentar no topo da montanha, e me mostrou uma grande planície e, ao redor da planície, outras doze montanhas, cada uma com aspecto diferente. 5A primeira era negra como fuligem; a segunda, seca e sem vegetação; a terceira, cheia de espinhos e cardos; ... A décima segunda montanha era inteiramente branca; seu aspecto era muito exuberante, e a montanha em si mesma era belíssima. ... Cap 79. 1 No meio da planície, ele me mostrou uma grande rocha branca que se erguia da planície. Era mais alta que as montanhas, e quadrada, de modo a conter o mundo inteiro. 2A rocha era antiga, e havia nela uma porta escavada, que parecia ter sido escavada recentemente. Resplandecia mais do que o sol, e eu me maravilhava com tal esplendor.

Arcádia, em outras palavras, era o local da torre de Hermas. É muito significativo que ele não a tenha colocado em locais bíblicos como Jerusalém, Nazaré, Éfeso, Corinto (ok, Arcádia é vizinha de Corinto), etc. Um leitor dos textos bíblicos facilmente colocaria o centro do mundo num desses locais, como Jerusalém era tida por centro-do-mundo na Idade Média. Hermas preferiu uma localização mais místico-imaginária, denunciando que a obra tem um fundo de 1º contato com o Cristianismo, ou de uma obra Cristã para ser lida por não Cristãos.

MANDAMENTOS

Assim como um substituto aos textos bíblicos, o PH traz tanto Mandamentos quanto Parábolas. Supõe-se, assim, que desde o início o livro foi tratado como uma obra didática de evangelismo.




LISTAS

Um formato de apresentar virtudes e defeitos humanos aparece na famosa lista de Paulo contrastando os frutos do Espírito e as obras da carne (Gálatas 5.19-23), assim como em outras obras Cristãs. Esse formato com uma lista de aspectos positivos emparelhada a uma lista de aspectos negativos é bastante usada no PH:

Os frutos da Cólera, são amargura, ocupações, estultícia, leviandade, estupidez, irritação; furor, ressentimentos. Os frutos da Paciência são força poderosa e sólida, alegria, despreocupação, glória ao Senhor, doçura e calma (Hermas 34.1-7);

Os frutos da Justiça são delicadeza, modéstia, doçura, suavidade, castidade, santidade temperança. Os frutos do Mal são cólera, amargor, insensatez, desejos de atividade, gastos loucos, bebidas inebriantes, orgias, requintes variados e supérfluos, paixões pelas mulheres, grande riqueza, orgulho e altivez (Hermas 36.1-10);

Os males de que nos abster são adultério, fornicação, excesso na bebida, prazer depravado, comer em demasia, luxo da riqueza, ostentação, orgulho, altivez, mentira, maledicência, hipocrisia, rancor, blasfêmias, roubo, mentira, fraude, falso testemunho, avareza, desejos maus, engano, vanglória, arrogância e outros vícios semelhantes. As boas ações são fé, temor do Senhor, caridade, concórdia, palavras justas, verdade, perseverança, assistir às viúvas, visitar os órfãos e necessitados, resgatar da escravidão os servos de Deus, ser hospitaleiro, não criar obstáculos para ninguém, ser calmo, inferior a todos, honrar os anciãos, praticar a justiça, conservar a fraternidade, suportar a violência, ser paciente, não nutrir rancor, consolar os aflitos na alma, não afastar da fé os escandalizados, mas convertê-los e dar-lhes coragem, corrigir os pecadores, não oprimir os devedores e necessitados, e outras ações semelhantes (Hermas 38.3-10);

Eu pedi: "Senhor, dize-me o nome das virgens e das mulheres trajadas de preto." Ele respondeu: "Escuta o nome das virgens mais fortes, que estão nos ângulos (da porta). A primeira é a Fé; a segunda, a Temperança; a terceira, a Força; a quarta, a Paciência. As outras, colocadas entre as primeiras, chamam-se: Simplicidade, Inocência, Castidade, Alegria, Verdade, Inteligência, Concórdia, Caridade. Aquele que leva esses nomes e também o nome do Filho de Deus, poderá entrar no Reino de Deus. Escuta também os nomes das mulheres trajadas de preto. Quatro delas são mais fortes: a primeira é a Incredulidade; a segunda, Intemperança; a terceira, Desobediência; a quarta, Engano. As que se seguem chamam-se: Tristeza, Maldade, Dissolução, Cólera, Falsidade, Insensatez, Maledicência e Ódio. O servo de Deus que leva esses nomes verá o Reino de Deus, mas nele não entrará." (Hermas 92.1-3)

É provável que tanto Paulo quanto Hermas tenham se apropriado desse estilo ítem-a-ítem, como a lei mosaica, do tipo “faça isso”, “não faça aquilo”. No caso de Paulo e sua comunidade da Galácia (descendentes de gauleses, celtas e gregos), tal listagem era uma metodologia quase militar de conversão. Para os pregadores como Hermas, parecia ser também uma forma didática de ensinar sobre o Cristianismo aos romanos, como numa espécie de fábula com heróis e vilões.

ESTRUTURA DO TEXTO

Algumas passagens do PH são especialmente significativas na condução da sua narrativa. Elas introduzem idéias que são muito mais aceitas como teologia hoje, muito após o contato com o Islã e a Reforma Protestante do que no 2º século. Talvez muitas delas pareçam surpreendentemente atuais.

O arrependimento é valioso
Cap 30. Não te parece que o fato de se arrepender é em si mesmo inteligência? O arrependimento é ato de grande inteligência. Com efeito, o pecador compreende que fez o mal diante do Senhor, e que o ato que ele cometeu entra no coração, então se arrepende e não pratica mais o mal. Ao contrário, ele se empenha com todo o zelo a praticar o bem, humilha e experimenta a sua alma, pois ela pecou.

Deus castiga, mas acaba concedendo o perdão
Cap 39. 3De fato, Deus não é como os homens rancorosos; ele não conhece o rancor e tem compaixão de sua criatura. ... E se alguma vez pedires alguma coisa ao Senhor e ele tardar em concedê-la, não duvides porque não obtiveste logo o pedido da tua alma; certamente, tardas a receber o que pediste, por causa de alguma provação ou de algum pecado que ignoras.

Hermas até conhece o anjo do Castigo, que trata as pessoas distantes de Deus com prejuízos, indigência, doenças, insegurança, injúrias por pessoas indignas e calamidades (Hermas 63)

Sem cuidados religiosos, a alma se afasta de Deus
Cap 40. As vinhas, antes belas, por falta de cuidados, secam por causa dos espinhos e ervas daninhas de todo tipo. (novamente, uma imagem da Parábola do Semeador)

A tristeza sinaliza um afastamento de Deus
Cap 42. 2O homem triste pratica sempre o mal ... Com efeito, a oração do homem triste jamais tem a força de subir ao altar de Deus ... O vinho misturado com vinagre não tem o mesmo sabor. Igualmente acontece com a tristeza: misturada com o Espírito Santo, não conserva a própria oração.

O mal/diabo atinge aqueles que se afastaram de Deus
Cap 48. 3Quando um homem enche de bom vinho recipientes apropriados e entre estes deixa alguns semi-cheios, ao voltar para os recipientes ele não se preocupa com os que estão cheios, pois sabe que estão cheios; observa, sim, os que estão semi-cheios, temendo que tenham azedado, e o vinho perca o sabor. 4O mesmo acontece com o diabo: Ele vai e tenta todos os servos de Deus. Os que estão cheios de fé lhe resistem fortemente, e o diabo se afasta deles, pois não encontra por onde entrar. Então, ele vai até os que estão semi-cheios e, encontrando lugar, entra neles, faz o que quer, tornando-os seus escravos.

Todo prazer é insensato e vazio para os servos de Deus
O cap 45 traz precisamente essa frase. Reparemos a semelhança com a obra de Santo Agostinho³.

O favor de Deus é merecido
Cap 46. Escuta. Pratica a justiça e a virtude, a verdade e o temor do Senhor, a fé, a mansidão e todas as coisas boas semelhantes a essas. Praticando essas coisas, serás servo agradável de Deus e viverás nele. Todo aquele que servir ao desejo bom viverá em Deus.

Os ricos e os pobres têm funções distintas para Deus
Cap 50. 9De fato, o Senhor vos enriqueceu, para que presteis a ele tais serviços.

Cap 51. Escuta. O rico tem muitos bens, mas aos olhos do Senhor ele é pobre, porque se distrai com suas riquezas. A oração e a confissão ao Senhor não lhe são importantes e, se ele as faz, são breves, fracas e sem nenhum poder. Contudo, se o rico se volta para o pobre e atende às suas necessidades, crendo que o bem que ele fez ao pobre poderá encontrar sua retribuição junto a Deus (porque o pobre é rico por sua oração e confissão, e sua oração tem grande poder junto de Deus), então o rico atende sem hesitação às necessidades do pobre. 6Assim, o pobre, socorrido pelo rico, reza por ele e agradece a Deus pelo seu benfeitor; este, por sua vez, redobra o zelo para com o pobre, para que não lhe falte nada na vida, pois sabe que a oração do pobre é bem acolhida e rica junto a Deus.

Os justos e os pecadores serão distinguidos no outro mundo
Cap 52. Porque os justos e os pecadores não se distinguem neste mundo, mas são semelhantes. De fato, para os justos este mundo é inverno, e eles não se distinguem, pois nele habitam juntamente com os pecadores.

Cap 53. 3No verão, os frutos de cada árvore aparecem e se pode saber de que espécie são.

O fim está próximo
Nos sécs. 1 e 2, principalmente, a literatura Cristã era bastante voltada à anunciação de que Jesus retornaria em pouco tempo, para o Juízo da humanidade. No PH, essa visão é discreta, mas presente:

Cap 89. 2O Filho de Deus nasceu antes de toda a Criação, embora ele tenha sido o conselheiro de seu Pai para a Criação. … 3Ele respondeu: "Porque Ele se manifestou nos últimos dias da consumação. A porta foi feita recentemente, para que os que devem salvar-se entrem por ela no Reino de Deus."

Filhinhos, é já a última hora; e, como ouvistes que vem o anticristo, também agora muitos se têm feito anticristos, por onde conhecemos que é já a última hora. (1ª João 2.18)

O Cristianismo foi ensinado aos mortos
Desde o início do Cristianismo, surgiu um problema teológico: “Se a Salvação vem através de Jesus, o que aconteceu aos que viveram antes Dele?” A resposta que surgiu então, ainda susceptível de várias interpretações, era de que Jesus desceu ao Hades (mundo dos mortos, na tradição greco-romana) e resgatou de lá os espíritos dos que haviam morrido antes Dele.

Cap 93. 5Eu perguntei: "Senhor, por que as quarenta pedras também sobem com eles do abismo, visto que estas já haviam recebido o selo?" Ele respondeu". "Porque esses apóstolos e doutores que anunciaram o nome do Filho de Deus, adormecidos no poder e na fé do Filho de Deus, o anunciaram também àqueles que tinham morrido antes deles, e lhes deram o selo do anúncio. 6Desceram com eles à água e novamente subiram. Contudo, desceram vivos e subiram vivos, enquanto os que estavam mortos antes deles desceram mortos e subiram vivos. E graças a eles que estes últimos receberam o nome do Filho de Deus.

Pois também Cristo sofreu pelos pecados uma vez por todas, o justo pelos injustos, para conduzir-nos a Deus. Ele foi morto no corpo, mas vivificado pelo Espírito, no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão que há muito tempo desobedeceram, quando Deus esperava pacientemente nos dias de Noé, enquanto a arca era construída (1ª Pedro 3.18-20) … Por isso mesmo o evangelho foi pregado também a mortos, para que eles, mesmo julgados no corpo segundo os homens, vivam pelo Espírito segundo Deus. (1ª Pedro 4.6)

Tanto a passagem de Pedro como a de Hermas falam do resgate de espíritos antigos. Hermas parece limitar o número dos salvos a 40, mas era um uso linguístico do Oriente Médio chamar “muitos” de 40, como dizemos hoje “já falei mais de 1000 vezes”. Quando Hermas usa essa 'prosódia' em Roma, sabemos que ele foi influenciado pelo linguajar do Oriente Médio. Pedro e Paulo em Roma foram instrumentos dessa influência!

Segundo Hermas, os próprios patriarcas, apóstolos e doutores do Cristianismo foram ao Hades resgatar os mortos pré-Cristo. Trata-se de algo bem diferente da carta de Pedro, mostrando que não havia um consenso nesse assunto (ainda hoje não há), além de destacar que O PH e as cartas de Pedro não absorveram materiais um do outro.

Os inocentes são herdeiros do reino de Deus
Cap 106. 1Os fiéis que vieram da décima segunda montanha, a branca, são os seguintes: são como crianças pequeninas, em cujo coração não entra maldade nenhuma. Eles nem sequer sabem o que é o mal, e sempre permaneceram na inocência. 2Tais homens certamente habitarão no Reino de Deus, pois em nada violaram os mandamentos de Deus, mas perseveraram todos os dias de sua vida na inocência e no mesmo sentimento. 3Todos vós que assim perseverardes e fordes sem malícia, como crianças pequenas, sereis mais gloriosos do que todos os anteriores. Com efeito, todas as crianças são gloriosas diante de Deus e os primeiras diante dele.

Essa fala aparece no Sermão da Montanha de Mateus, no Sermão da Planície de Lucas e noutras falas de Jesus. A idéia é muito bem sintetizada por Hermas nesse trecho acima, mas vai prontamente em contrário de um “pecado original”. Como se houvesse aqueles ‘naturalmente herdeiros’, que,não precisam ser modificados por Cristo.

CONCLUSÃO

Desde a época de Titus Flavius Clemens, ou Clemente bispo de Alexandria (150 – 215 d.C. - não confundir com Clemente bispo de Roma, citado por Hermas) houve uma crescente resistência das hierarquias Cristãs em aceitar o PH como livro inspirado por Deus. A principal crítica foi justamente quanto às visões de Hermas, que fomentavam algo do Gnosticismo. Apenas as visões do Apocalipse de João foram aceitas como inspiradas, talvez por sua semelhança com Daniel.

Embora o PH pareça uma obra independente, desvinculada do Velho e do Novo Testamentos, nalguns pontos ele transparece o contato com conhecimentos judeus e, provavelmente, o texto de Marcos. Sabemos que Hermas era alguém instruído no Cristianismo, numa transição entre o paganismo greco-romano e a nova doutrina.

A história nos conta como o PH foi importante na Europa romana. Há relatos de largo uso dele como instrumento de evangelização, até o séc. 4 d.C., quando a própria Roma começou a desmoronar. O PH não foi conhecido ou difundido pelo Cristianismo oriental, baseado em Alexandria e Constantinopla. Muitos conceitos do PH foram combatidos e discutidos dentro da Igreja por séculos. Por fim, diversos deles foram resgatados (não necessariamente a partir do PH) a partir do séc. 16 dentro de algumas subdivisões do Protestantismo.

* O texto do Pastor de Hermas, em português, pode ser lido em Leia!

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¹ Não é simples definir uma obra como Cristã. O Cristianismo tem muitas vertentes e mudou muito ao longo dos séculos. O conceito que estou usando aqui é de uma obra que se referencie a Jesus como divino e Senhor (as obras islâmicas e judaicas são diferentes quanto a isso, quando falam de Jesus) e que seja coerente com a filosofia Cristã de alguma época. Assim, obras que falem de Jesus como profeta, mago ou entidade metafísica não seriam chamadas de Cristãs, assim como aquelas apresentando uma teologia única, que ninguém mais replicou.

² Os Gnósticos eram, originalmente, um secto dos judeus. Mas foram/são um grupo de teologia fluida, cujos preceitos são continuamente revelados por Deus na forma de visões. Por isso, não faltam escritos Gnósticos que sejam “Cristãos”. O material literário dos Gnósticos inclui inserções de muitas culturas e revelações que aparentemente não se encaixam, cuja busca de um significado é o cerne do gnosticismo.

³ Aurelius Augustinus Hipponensis (354-430 d.C.), chamado também de Santo Agostinho, foi um dos maiores teólogos de todos os tempos. Sua obra “Confissões” marcou a história do Cristianismo ao unir os conceitos de Platão sobre “mundo terreno” e “mundo ideal” com a perspectiva Cristã de “mundo terreno” e “mundo espiritual”. Assim, o corpo e todas as suas necessidades se tornaram antíteses do espírito e tudo que existe de divino. Mesmo a fome, a sede, o desejo sexual se mostraram fontes de pecado para Agostinho. E o prazer, em especial, seria o maior de todos os pecados, tentando os homens desde seu nascimento até a morte. Somente a racionalidade fria, planejada, voltada à Igreja era uma forma correta de se viver. Agostinho foi terrivelmente influente sobre a mentalidade da Europa Medieval, introduzindo muitos conceitos Cristãos que vemos em uso até hoje.

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PERGAMINHOS MAIS VELHOS QUE PAPIRO

Arcadia - wikipedia
Blumenthal F, Eldad and Medad. Jewish Bible Quarterly, 36(2):88, 2008.
Galatians 5:1, 13-25 "Where is the list?" - Midway Presbiterian Church, 2013.
Gospel of Mark - wikipedia
Leiman SZ, The Inverted nuns at Numbers 10: 35-36 and the Book of Eldad and Medad, Journal of Biblical Literature, 93(3):348-355, 1974.
Michael - biblehub.com
Wilford JN, Archaeologists find celts in unlikely spot: turkey, New York Times, 2001.