segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Madalena Arrependida - estudo da personagem

Pinturas evidenciando Maria Madalena. Os símbolos mais comuns associados a ela são a nudez, pintura, jóias e cabelo enfeitado (prostituta), o manto vermelho (riqueza), o frasco (essência de nardo) e o crânio (vida de reclusão).

Maria Madalena é uma personagem curiosa no Cristianismo. Principalmente porque há muitas tradições sobre ela. O sobrenome “Madalena”, na verdade, foi adicionado para indicar seu nascimento na cidade de Magdala, na margem oeste do Mar da Galiléia ou Lago de Tiberíades. Próximo dali ficava a cidade de Cafarnaum, onde Jesus passou um grande tempo. Ela é referida como uma das mulheres que acompanhavam o ministério de Jesus e lhe davam suporte “dos seus recursos”, o que pode significar que não era alguém pobre¹ (Lucas 8.2-3). O mesmo trecho acrescenta que Jesus havia expulsado 7 demônios dela, o que pode indicar a cura de uma doença. Essa última informação, Lucas pode tê-la obtido do texto de Marcos (Marcos 16.3).

Maria Madalena também é relatada como expectadora da Crucificação (junto com João, Maria mãe de Tiago e José (primos de Jesus), Salomé, a esposa de Zebedeu e a esposa de Cleophas, Mateus 27.56, Marcos 15.40, Lucas 23.49, João 19.25). Não bastasse isso, Maria Madalena foi a 1ª testemunha da Ressurreição² (Mateus 29.9, Marcos 16.9, João 20.8-18). As referências a ela nos Evangelhos são tantas que seria fácil cogitar-se uma relação mais íntima entre Jesus e ela do que com outras mulheres.

O historiador bíblico Bart Denton Ehrman ressalta, em alguns trabalhos, que a sociedade judaica desqualificava testemunhos femininos, e uma postura assim foi seguida pelos Cristãos a partir do séc. 2 d.C. Logo, o papel assumido por Maria Madalena nos Evangelhos parece autêntico, ainda que os relatos da Ressurreição tenham sido montados posteriormente, a partir de várias tradições, provavelmente seguindo algo ainda mais breve que o relato de Marcos. Os relatos e crenças populares, no entanto, foram muito além: Maria Madalena foi vista como amante de Jesus, prostituta arrependida, líder de movimentos e visionária. Boa parte desse material apareceu escrito em evangelhos apócrifos escritos do séc. 2 em diante, dos quais pouca informação é consubstanciada pelas Escrituras canônicas (isto é, os livros aceitos para a Bíblia).

MARIA NA ANTIGUIDADE

O Diálogo do Salvador, um texto Gnóstico do séc. 1 recuperado das cavernas de Nag Hammadi, no Mar Morto, apresenta Jesus, Judas Iscariotes, Tomé, Mateus e Maria Madalena em um diálogo. Reparemos nas figuras mal-afamadas: Judas que entregaria Jesus ao Sinédrio, Tomé o apóstolo descrente, Mateus o cobrador de impostos e Maria Madalena dos 7 demônios. Nessa estranha conversa, com Jesus expondo uma filosofia grega sobre o cosmos, algumas falas de Maria Madalena são atribuídas a Jesus, nos Evangelhos. Em outro texto Gnóstico do séc. 2, chamado Pistis Sophia, Jesus responde a perguntas dos apóstolos. A maioria delas vêm de Maria Madalena, a quem Ele se refere como "Maria, abençoada, a quem aperfeiçoarei em todos os mistérios das alturas, fala em franqueza, tu, cujo coração é elevado ao reino dos céus mais do que a todos os teus irmãos" e também "Você é mais abençoada do que todas as mulheres da Terra, porque você será a plenitude da plenitude e a conclusão da conclusão". No Evangelho de Tomé, do início do séc. 2 e semelhante ao de Mateus, Pedro pede que Maria Madalena deixe o grupo, pois as mulheres não eram merecedoras da Vida. Jesus responde: “Eis que eu a conduzirei, para fazê-la em homem, a fim de que ela também possa se tornar um espírito vivo como vocês, homens. Porque toda mulher que se faz homem entrará no reino dos céus”. No Evangelho de Filipe, do séc. 3, aparece: “E a companheira do salvador era Maria Madalena. Cristo amava Maria mais do que todos os discípulos e costumava beijá-la com frequência. Os outros discípulos ficavam ofendidos e expressavam desaprovação. Eles disseram a Ele: ‘Por que você a ama mais ela do que todos nós?’”. A resposta de Jesus é bastante obscura: “Quando um homem que vê e um cego estão nas trevas, eles são iguais. Mas quando a vem a luz, aquele que enxerga vê a luz, e o cego permanece nas trevas”.

Essas obras do início da Cristandade, algumas bem curtas, de formas diferentes (e às vezes bizarras) são concordantes com o fato de que Maria Madalena desempenhou um papel significativo, geralmente associado a um conhecimento especial sobre Jesus. Essa participação, não relatada nos textos canônicos, teria se dado pessoalmente (dando suporte e acompanhando Jesus) ou no imaginário das 1as comunidades Cristãs. Talvez a obra mais expressiva sobre isso seja o Evangelho de Maria [Madalena], um texto inteiro do séc. 2 sobre essa personagem. O início do texto é sobre as obras de Jesus após a Ressurreição; o restante é um diálogo entre Maria Madalena e os apóstolos, com a exposição (por Maria Madalena) de toda uma cosmogonia Gnóstica e debates sobre a escolha dela como a portadora dos ensinamentos de Jesus. Curiosamente, a outra Maria (mãe de Tiago e José, os primos de Jesus) também esteve na Crucificação e no túmulo de Jesus, mas não ganhou qualquer importância religiosa.

O teólogo Origen de Alexandria (184-253 d.C.) escreveu a respeito de uma crença difundida de que o testemunho de Maria Madalena seria uma fábula, contrastando isso com a descrição de Mateus onde Maria Madalena e a Maria mãe de Tiago e José são recepcionadas, na tumba, por um anjo radiante (Mateus 28). Por outro lado, a igreja de Dura-Europos (233-256 d.C.), na Síria, a construção Cristã mais antiga conhecida, retrata a cena de Marcos 16 com Maria Madalena e mais 2 mulheres indo ao túmulo de Jesus para encontrar um anjo de branco. Na cena retratada, a tumba está fechada. Esses relatos mostram que, embora os Gnósticos tenham fantasiado muito sobre Maria Madalena, até o séc. 3 d.C. não era costume da Igreja falar sobre ela mais do que expresso nas Escrituras.

A CRIAÇÃO DA PROSTITUTA

No séc. 2 d.C., o teólogo Tertuliano, na cidade romana de Cartago, norte da África, escreveu muito sobre as mentiras nas publicações Gnósticas. Ele usou a sensibilidade de Jesus ao toque da mulher pecadora, em Lucas, para afirmar que Cristo não era de qualquer forma imaterial, mas um ser humano. Em seu tratado, ele chama essa mulher de Madalena.

Um dos fariseus convidou-o para jantar com ele. Jesus, entrando na casa do fariseu, tomou lugar à mesa. Havia na cidade uma mulher que era pecadora; ela, sabendo que ele estava jantando na casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro com perfume e, pondo-se-lhe aos pés, chorando, começou a regá-los com lágrimas, e os enxugava com os cabelos da sua cabeça, e beijava-lhe os pés e ungia-os com o perfume. (Lucas 7.36-38)

Não há qualquer ligação entre o texto bíblico e Maria Madalena, de forma que Tertuliano já devia ser influenciado por uma tradição dentro da Igreja. No início do séc. 3 d.C., o teólogo Hippolytos, em Roma, também escreveu contra as heresias e acomodação de crenças pagãs dentro do Cristianismo. Em um sermão, ele mistura Maria Madalena, Maria de Betânia (Lucas 10.39, João 12.3) e a Sulamita procurando seu esposo (ver O Cântico da Sulamita) na cena de João 20, onde Maria Madalena pensa que Jesus ressuscitado é o jardineiro. Essa fusão de figuras bíblicas mostra uma tendência comum dessa época, que produzia personagens ricos e impressivos, mas difíceis de discutir a partir das Escrituras. No caso, temos uma Maria Madalena fictícia, apaixonada por Jesus, emocionada ao vê-lo como a pessoa mais valiosa de todas. No séc. 4 d.C., essa fusão de personagens já havia produzido, num hino composto por Ephraim, da Síria, uma mistura elaborada da Maria de Betânia e Maria Madalena:

Pelo óleo, Maria, de quem sete demônios saíram, mostra o mistério de Sua mortalidade, que pelo Seu ensino mortificou a concupiscência de sua carne. Então, a mulher pecadora, pelo fluxo de suas lágrimas, foi recompensada com a remissão dos pecados junto aos Seus pés

Essa imagem foi difundida dentro da Igreja, como um exemplo da mulher pecadora arrependida. A “concupiscência de sua carne” já era uma visão de Maria Madalena como prostituta, devido à fama de sua cidade³. Alguns teólogos discordavam dessa fusão de personagens, como Ambrósio, bispo de Milão no séc. 4 e seu aluno Santo Agostinho, bispo de Hippona Regia, norte da África, no início do séc. 5. Mas a criação da “Madalena prostituta” em grande parte é atribuída à Homilia 33 do papa Gregório I, publicada no final do séc. 6:

Sempre que pondero o espírito penitencial de Maria Madalena, sinto mais vontade de chorar do que de falar. Pois as lágrimas desta mulher pecaminosa amolecerão até mesmo um coração de pedra, em direção à ideia de fazer penitência. Tendo refletido sobre o que ela havia feito, ela não queria estabelecer limites para o que deveria fazer. Ela entrou, sem ser convidada, depois que a refeição começou, e trouxe suas lágrimas ao banquete. Veja com que dor ela devia queimar, quando ela não teve vergonha de chorar nem mesmo em um banquete.

Aquela que Lucas chama a mulher pecadora, a quem João chama Maria, acreditamos ser a Maria de quem sete demônios saíram, de acordo com Marcos. O que esses sete demônios significam, se não todos os vícios? É claro que a mulher usou anteriormente o unguento para perfumar sua carne em atos proibidos. O que ela mostrou, portanto, mais escandalosamente, ela agora estava se oferecendo a Deus de uma maneira mais louvável. Ela cobiçou com os olhos terrenos, mas agora através da penitência eles são consumidos pelas lágrimas. Ela usou o cabelo para enfeitar o rosto, mas agora seu cabelo seca as lágrimas. Ela falou coisas orgulhosas com a boca, mas beijando os pés do Senhor, ela agora plantou a boca nos pés do Redentor. Para cada deleite, portanto, que ela tinha em si mesma, agora ela se imolava. Ela transformou o número de seus crimes em virtudes, a fim de servir a Deus inteiramente em penitência”. (Homilia* XXXIII)

Nesse texto, o papa descaradamente mistura as figuras de Maria Madalena e mulher pecadora de Lucas, atribuindo a esta última a imagem de prostituta. Após a fragmentação de Roma Ocidental (490 d.C.), foi essa a imagem difundida entre o clero. É interessante que os Cristãos de Roma Oriental (Bizâncio) e do norte da África jamais associaram as imagens da várias Marias para criar as personagens do Ocidente. Assim, é possível que tal processo combinatório tenha a ver com a diminuição de uso da escrita no Ocidente e o fortalecimento das tradições orais durante a Idade Média.

DETALHES FABRICADOS E REVELADOS

Pouco antes do início das Cruzadas (1095), os pequenos reinos pagãos-cristãos da Europa começaram a se tornar militarmente fortes. Os primeiros a exibir essa tendência foram os Vikings, nas atuais Noruega, Suécia e Dinamarca. À medida que o Cristianismo se difundia, encontrou caminho entre a nova nobreza pós-romana. Uma vez que a nova sociedade estava radicalmente organizada em torno de famílias reais ricas e poderosas, senhoras de terras e de homens, os personagens bíblicos adquiriram ares da nobreza. No final do séc. 9 já existiam contos sobre uma Maria Madalena riquíssima, descendente de famílias nobres que governavam Magdala e Betânia! Após ter cometido adultério contra seu poderoso esposo, ela se retirara para viver em um mosteiro, na floresta ou no deserto, dependendo da tradição. Por isso as pinturas dessa época a retratam cheia de jóias e geralmente contemplativa ou lendo a bíblia, em um cárcere ou área natural.

Maria Madalena, por El Greco, 1580. Repare a cena de montanha, com um deserto e tendas atrás, além dos tradicionais objetos-símbolos.

MODERNIDADE TRANSVIADA

O relato mais fabuloso sobre Maria Madalena vem de “A Lenda Dourada”, uma coleção de histórias de santos medievais compilada por volta de 1260 pelo escritor italiano e frade dominicano Jacobus de Voragine. Neste relato, Maria Madalena é "fabulosamente rica, insanamente bela e escandalosamente sensual", mas desiste de sua vida de riqueza e pecado para se tornar uma seguidora de Jesus. Após a Crucificação, os judeus jogam Maria Madalena (e de Betânia também), seu irmão Lázaro, os futuros santos Maximin e Cedônio num barco sem leme no Mar Mediterrâneo, para morrerem. O barco desemboca em Marselha, no sul da França, onde Maria Madalena convence o governador da cidade a se converter ao Cristianismo. Ela prova ao governador o poder de Cristo orando para sua esposa ficar grávida. O governador e sua esposa viajam para Roma encontrar o apóstolo Pedro, mas seu navio é atingido por uma tempestade. A esposa morre no parto e ele a deixa em uma ilha com o bebê ainda vivo em seu peito, recuperando-o (ainda amamentado) ao voltar para a mesma ilha 2 anos depois. A esposa do governador ressuscita e diz a ele que Maria Madalena a trouxe de volta. Em Marselha, os anjos haviam passado os últimos 30 anos levando-a para ouvir suas canções no céu.

Por volta do séc. 16, a Reforma Protestante viu nos pecados sexuais um inimigo a ser combatido e a penitente Maria Madalena servia bem a esse propósito. Martinho Lutero, famoso iniciador da Reforma, não apenas reforçava que as 3 Marias (Maria Madalena, Maria de Betânia e a pecadora que entrou na casa do fariseu) eram a mesma Maria Madalena, como identificava essa figura também com a mulher adúltera que Jesus protegeu (João 8.3-11). Lutero ia até mais longe, afirmando que Jesus haveria pecado com Maria Madalena, culminando na famosa cena do “Não me toques!” (João 20.17). Embora os textos Gnósticos não tenham chegado até a Alemanha para influenciarem alguma coisa, não se pode descartar que a motivação de Lutero e dos Gnósticos tenha sido a mesma. Nos tempos de Lutero ainda, a separação entre Católicos e Protestantes era um tema religioso, político e muito delicado. Lutero, em seus escritos, optou por não duvidar de uma autoridade como Gregório I. Apesar dessa ideia forjada sobre Maria Madalena, a penitente ou arrependida, os Protestantes lutaram tanto contra os culto de Maria que vigorava na Igreja Católica que as referências a ela quase desapareceram.

Enquanto isso, uma pregação que se tornou muito comum nas missas católicas e em alguns cultos protestantes foi a comparação de Maria, mãe de Jesus, pobre e virgem, com a Maria Madalena, adúltera, prostituta e rica. Principalmente no séc. 18, muitos textos religiosos usavam essa imagem para identificar Cristo como um unificador de ricos e pobres, santos e pecadores. A partir do séc. 19, com a descoberta e tradução dos textos Gnósticos preservados em jarros nas cavernas do Mar Morto, diversos grupos Cristãos novamente aderiram a uma “verdade escondida pela Igreja” onde Maria Madalena ressurgiu como uma concubina ou mesmo esposa secreta de Jesus, portadora de ensinamentos secretos.

A Igreja Ortodoxa sustenta que a Maria Madalena foi para a cidade grega de Éfeso, no litoral mediterrâneo da atual Turquia, com Maria mãe de Jesus. Lá ela viveu e morreu, e seus ossos foram levados para Constantinopla em 886, onde ainda estão. A Igreja Católica sustenta outra versão, menos fabulosa que a do séc. 13, onde Maria Madalena, irmã de Lázaro, Marta e Lázaro, com alguns outros discípulos, foram expulsos pelos judeus depois da Ascensão de Cristo. Eles foram postos no mar Mediterrâneo num barco sem remos nem velas, que a correnteza levou em segurança até Marselha, no sul da França. Lá eles fundaram uma igreja, da qual Lázaro se tornou bispo. Sua pregação converteu ao Cristianismo toda a região de Provença, antes território pagão. Maria Madalena se retirou para uma colina próxima, em La Sainte-Baume, onde se entregou a uma vida de penitência durante 30 anos. A igreja local guarda como relíquia um crânio, preservado dentro de uma caixa com armações de ouro, que afirma ser de Maria Madalena.

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Obs. Nesse texto, foram usados links da versão wikipedia da Tradução Brasileira da Bíblia.

¹ Há muitos mistérios sobre a divisão de funções segundos os sexos, no início da Cristandade. Embora pensemos numa sociedade judaica muito patriarcal, Jesus teve seus maiores diálogos com mulheres. Uma sinagoga em Aphrodisias, na atual Turquia, listava muitas mulheres entre seus contribuidores. Também, a primeira revelação de Jesus após sua ressurreição foi para uma mulher. E o livro de Atos se refere a algumas comunidades Cristãs lideradas por mulheres. Embora todos esses sinais falem em favor de uma equidade entre os sexos, nenhum pronunciamento de Jesus abordou essa temática ou sequer uma mulher é listada entre os que receberam a missão de propagar o Evangelho.

² Há várias divergências quanto ao enterro de Jesus e a Ressurreição. Paulo, por exemplo, escreve que “[Jesus] foi ressuscitado ao terceiro dia segundo as Escrituras, e apareceu a Cefas e então aos doze. Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais a maior parte permanece até agora, mas alguns já dormiram. Depois apareceu a Tiago, então a todos os apóstolos, por último de todos apareceu também a mim, como a um abortivo” (1ª Coríntios 15.4-8). Essa descrição é importante porque data de antes da elaboração dos Evangelhos. Lucas, que seguia Paulo e escreveu muitas de suas estórias, também não relata a aparição para as mulheres. Segundo ele, Jesus se manifestou primeiro para Cleophas e um amigo Cristão, que caminhavam na estrada de Emaús (Lucas 24).

³ A Igreja desde cedo descreveu Magdala como uma cidade de prostituição, mas não há evidências refutando ou confirmando isso. Magdala era uma cidade próspera na margem do lago de Tiberíades, entre os sécs. 2 a.C. e 3 d.C. Referências antigas citam a fartura de peixes no porto de Magdala. Até a construção da cidade de Tiberíades, no tempo de Jesus, Magdala era o principal posto administrativo de Roma na região e funcionava como um centro de controle das mercadorias sendo transportadas entre a Galiléia e a Judéia, que depois empobreceu pelo deslocamento das autoridades romanas para a cidade vizinha. Lá foi descoberta a mais antiga sinagoga da Galiléia, construída por volta de 50 a.C. e também foi a cidade natal do famoso historiador judeu-romano Flavius Josephus. Sendo uma cidade portuária, era provável que sediasse muitas prostitutas, como as demais cidades portuárias romanas. Josephus descreve que Magdala foi arrasada pelos romanos durante a rebelião de 67 d.C., pouco antes que Jerusalém também fosse destruída, mas escavações recentes mostram que a cidade continuou funcionando por pelo menos mais 200 anos.

* Homilia é uma palavra derivada do latim que significa “conversa”. No Catolicismo, mais precisamente, trata-se de uma interpretação bíblica elaborada ou lida durante a Missa.

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ESCRITOS LENDÁRIOS

Althaus-Reid M, Liberation Theology and Sexuality, SCM Press, 2009
Devotion to our lady, devotiontoourlady.com
Dura Europos church - wikipedia
Emmel S, Dialogue of the savior, earlychristianwritings.com
Garza-DiazB A, The archaeological excavations at Magdala, ancient.eu, 19abr2018
Gospel of Philip - wikipedia
Gospel of Mary - wikipedia
Henderson JF, The disappearance of the feast of Mary Magdalene from the Anglican liturgy, .jfrankhenderson.com, 2004
Magdala - wikipedia
Mary Magdalene - wikipedia
Saint Louis Community College, Dura Europos - Christian house church, 2014
Symbols of Saint Mary Magdalene, http://biblesaints.blogspot.com, 5nov2011
Was Mary Magdalene wife of Jesus? Was Mary Magdalene a prostitute?, biblicalarchaeology.org, 17mar2018
Witcombe CLCE, Investigating Mary Magdalen, Pope Gregory the Great's homily 33 and the identification of Mary Magdalen as a prostitute, http://arthistoryresources.net, 2015

sábado, 28 de julho de 2018

Idarte Média

Quadro Accolade, de Edmund Leghton, 1901. Essa imagem retrata uma visão romântica da Idade Média, com votos de fidelidade (que eram reais), títulos de nobreza concedidos mediante façanhas militares e reis/rainhas adorados pelos seu povo. Não era raro que princesas e rainhas fossem governantes, pois a mortandade entre os nobres era alta, geralmente envolvidos em peregrinações e batalhas. As cidades muradas da Idade Média também eram a única proteção dos camponeses contra um rei invasor, o que frequentemente levava a massacres antes que todos pudessem se abrigar ou como resultado do cerco de uma cidade. Se a cidade não pudesse se defender, o cerco podia matar de fome e sede todos ali dentro.

A Idade Média (mais ou menos 500-1500 d.C., na Europa) foi quando o Cristianismo se espalhou pelo Velho Mundo. Quando Roma oficializou a nova religião, houve um significativo embrace pelas altas classes, que responde pela difusão no Leste Europeu e na Ásia Menor. Mas no norte da África e na Europa, que mais tarde seriam centros difusores, o crescimento inicial do Cristianismo se deu justamente nas classes mais baixas, num período marcado por misticismo.

Chamamos de Idade Média o tempo entre a desconstrução do Mundo Antigo e a construção do Novo. Tanto uma Era como outra têm a extensão e o fluxo das rotas comerciais como maior símbolo da civilização e estabilidade. Por isso, o apogeu do Mundo Antigo, para a Europa, foi a unificação de todos os reinos sob Alexandre da Macedônia (330 a.C.) e depois Roma (50 a.C.). Isso fez com que sedas e incenso chegassem da distante Índia (com a qual Alexandre estabeleceu tratados políticos, e onde o apóstolo Tomé fundou uma comunidade Cristã) até as ilhas Britânicas (de onde supostamente saiu o cavaleiro denominado Saint Georges, símbolo das Cruzadas). Metais e grãos seguiam na direção contrária. O Mundo Moderno nasceu em aproximadamente 1500, com a re-criação dessas rotas comerciais. Elas assumiram sua forma mais poderosa com as Companhias das Índias (Orientais e Ocidentais), que novamente iam até a China e as Américas buscando especiarias, sedas, porcelanas, ouro, frutas, etc e os levavam por todo mundo em grandes caravelas.

AS VARIADAS IDADES MÉDIAS

Embora fixemos datas de começo e fim da Idade Média, foram séculos para um e para outro. A própria Idade Média foi diferente em cada lugar. No contexto europeu, o começo se deu com a desintegração ou recuo do Estado Romano Ocidental, a partir de 450 d.C. Roma estava repartida em dois impérios irmãos desde 400 d.C., por ter se tornado grande demais. Roma Ocidental (ou apenas Roma) recuou seguidamente frente ao fortalecimento de reinos guerreiros, até desintegrar-se por completo em 500 d.C. Já Roma Oriental (ou Bizâncio) enriqueceu enormemente com o comércio entre os reinos no Mediterrâneo e no Golfo Pérsico. Por isso, a Idade Média teve significados muito diferentes no Ocidente (Europa) e no Oriente (Grécia, Romênia e Turquia). E foi mais diferente ainda na África, que finalmente teve suas portas abertas desde a expansão do Islã.

A imagem mais popular é a do Ocidente, com cidades romanas reduzidas a ruínas, habitadas por povos misturando a magia pagã com o Cristianismo, vivendo com situação sanitária precária em minusculas vilas, sem sistemas legais, basicamente defendendo-se uns dos outros com espadas e armaduras. Mas Oriente romano, esse mesmo período foi marcado pela construção de castelos e igrejas fabulosos, grande evolução nas artes e na música, tecnologia naval, peregrinações suntuosas da realeza e emprego simultâneo de várias línguas em manuscritos e documentos. Muito do material que foi escolhido para ser parte da Bíblia foi preservado como literatura religiosa de Roma Oriental, mais conhecida pelo nome de sua capital Bizâncio (no original) ou Constantinopla (após Constantino I o Grande). Aliás, foi Constantino I quem autorizou a propagação do Cristianismo em Roma.

No Oriente Médio, os tempos medievais representaram a expansão do Islã desde a Arábia até a Índia, Ásia Menor, Síria, Norte da África e Espanha. Foi um período de unificações, grandes Califas, comércio, navegações, batalhas históricas e riqueza para o Islã. Nesse tempo, muitas mesquitas absorveram a arte hindu e passaram a ter portas lembrando um coração invertido. As artes islâmicas e tecnologia evoluíram sobremaneira, assim como o uso de animais para cavalaria e peregrinações.

Enquanto o território de Roma Ocidental regredia a uma rede de vilas isoladas, muradas e cultuando as pinturas dos prédios romanos invadidos pela vegetação, o Islã florescia com astronomia, veleiros cruzando o oceano Índico, cirurgias com ópio indiano como anestésico e poesia histórica. Roma Oriental não ficava por menos, ostentando linhagens centenárias de papas e reis, exércitos com armaduras decoradas, arquitetura grega em escala nunca vista nas cidades, aquedutos e piscinas públicas, teatro, missas e canto gregoriano. Esse reinado de luxúria só terminou justamente devido à expansão islâmica, com o sultão Mehmed o Conquistador e seus navios de guerra batendo às portas de Constantinopla, em 1492. Mesmo assim, no séc. 10, tanto o imperador de Bizâncio quanto o patriarca de Constantinopla (equivalente grego do Papa ocidental) reconheceram a autoridade política e religiosa de Simão I da Bulgária, que oficializaria a linhagem dos Czares (repare a semelhança fonética com César), garantindo um braço de Roma Oriental na atual Rússia. Os Czares levaram tanto o Cristianismo medieval quanto a escrita grega tradicional até meados do séc. 20.

ARTE SACRA

Páginas do livro de Kells. Confeccionado no séc. 8, o livro recuperado da Abadia de Kells, Irlanda, é talvez o mais belo exemplo de arte medieval. Trata-se de uma composição de 340 folhas de pele de carneiro, contendo os 4 Evangelhos e ricamente ilustrado. Além dos corantes caríssimos para a época, boa parte das letras e gravuras foi feita com fios de ouro. O livro portava, originalmente, uma capa de ouro e pedras, que fez com que fosse roubado num ataque viking, em 1007. No séc. 12, o livro voltou à abadia, mas foi tomado pelas forças republicanas do séc. 17. Desde então, ele permanece no Trinity College em Dublin, Irlanda. Outro detalhe fantástico é que, embora trate-se de um texto Cristão, todo o estilo das figuras e mesmo das letras é tipicamente Celta, mostrando a fusão de culturas que ocorreu no norte da Europa. Como não era o estilo dos monges Beneditinos incorporar culturas, cogita-se que as missões Cristãs nessa parte do mundo sejam anteriores à desintegração de Roma, quando Alexandria era um centro importante de formação de missionários. Retirado de en.wikipedia.org

A maior parte do que conhecemos da arte medieval é do tipo sacro, ou seja, voltada a um ambiente religioso. Isso não quer dizer que os homens medievais fossem extremamente religiosos, mas que as pessoas com habilidade para produzir arte eram, em geral, religiosos. Os camponeses estavam bastante ocupados com lavouras e desconheciam a cultura romana. Os nobres em geral estavam ocupados com atividades militares. Restava, então, aos religiosos a educação, dinheiro e tempo necessários a produzir pinturas e esculturas que eram usados figurativamente nas missas. O livro de Kells é um grande exemplo disso: embora muito tempo tenha sido usado em produzir pinturas traçadas/costuradas quase fio a fio, o texto contém muito erros, sugerindo que não era realmente um objeto de leitura. Nas igrejas medievais sem bancos e com missas em latim, sem bíblias, exibir imagens nas paredes ou em um enorme e fabuloso livro dourado era uma forma extravagante de conduzir os serviços religiosos. Era também como contar estórias para uma criança apontando as figuras no livro.

Mas o livro de Kells também nos conta um pouco da história da arte religiosa: quem produziu o livro deixou marcas do seu trabalho. As ovelhas usadas foram criadas entre a Irlanda e a Escócia, o couro foi trabalhosamente refinado, carvão, nozes e cascas de árvores foram usadas para desenhar as letras, bile, clara de ovo, cola e mel foram usados para fixar os corantes e até pão foi usado para limpar partes das páginas. Apesar de trabalhoso, esse era um modo artesanal de produzir: no séc. 13 surgiriam monges copistas profissionais capazes de trabalhar rapidamente e apenas com tintas. Até as letras seriam simplificadas em favor da velocidade de produção.

Da Roma Ocidental e seus paganismos nos chegaram misturas bem elaboradas da cultura Cristã e dos imaginários Celta e Nórdico/Germânico. São dragões, unicórnios, mandrágoras mágicas e grifos. O universo medieval sempre assombrou com seus monstros, mas eles não eram apenas para assustar: num tempo onde o alfabeto romano foi preservado apenas por religiosos e magos, as gravuras de monstros e heróis ensinavam através das histórias que se contavam a partir delas. Impunham preconceitos e hierarquias sociais, ou inspiravam momentos ​​de empatia. Eram a propaganda da ciência, arte, teologia e ética, tudo de uma só vez.

Até a palavra “monstro” traz sérios problemas de entendimento. O verbo latino “monstrare” significa literalmente “mostrar”, mas ao longo dos séculos, “monstrum” passou a significar um presságio - talvez bom, talvez ruim. Em francês ou inglês antigo, “monstre” servia para criaturas maravilhosas ou de alguma forma diferentes. No séc. 14, finalmente passou a significar um ser aterrorizante e fantástico.

Henry VI (1420-1471). A Europa foi rica em reis e nobres ostentando nomeações pela Igreja, alguns sendo até consagrados como santos. Apesar disso, havia bem pouco Cristianismo na forma como os reis combatiam entre si ou até como lidavam com seu povo. A coroa, como usada por Henry, é um objeto que ficou famoso em todo mundo por ser ostentado na cabeça dos reis. Esse formato de coroa é uma herança dos reis romanos que cultuavam o Sol Invictus, do séc. 3 em diante. Retirado de themorgan.org

A figura acima mostra Henry VI da Inglaterra em pé sobre um grande monstro manchado com olhos perversos e avermelhados. O monstro é chamado - no texto - de antílope, embora tenha pouco em comum com o assustadiço animal das savanas (mas lembremos que a África ficou fechada aos europeus por toda idade Média). Além dos chifres afiados (que, conta-se, cortavam árvores), e cauda demoníaca bifurcada, nessa ilustração ele ganha até marfins de javali. Mas é apenas um indicativo do poder de Henry: o medo do antílope e do rei se misturam.

Página de um Livro das Horas - esse tipo de livro era uma ferramenta dos monges Beneditinos* para ensinar a administração do tempo. Em geral muito ilustrados, eles lembravam os Almanaques que circularam no Brasil e outros países do início do séc. 20 até os anos 1980. Traziam um calendário com ênfase nos dias sagrados, festas, dias de plantio e colheita, passagens dos Evangelhos, salmos penitenciais (6, 31, 37, 50, 101, 129) e orações dedicadas a certos santos Católicos como Santa Bárbara, Santa Margarete de Antioquia, Santo Antônio e São Sebastião. Retirado de amphilsoc.org

Esses monstros surpreendentes existem, pelo menos em parte, porque fazer as imagens era um processo lento e cuidadoso. Os artistas tinham bastante tempo para refletir sobre os significados de seu trabalho. No antigo território de Roma Ocidental, o fim das rotas comerciais tornou os pigmentos muito raros: enquanto o negro podia ser feito de carvão e o ocre vermelho de argila, outros, como o azul marinho, só chegavam à Europa através das perigosas e abandonadas estradas até o Oriente Médio. Usar ouro nas ilustrações também era comum, e produzir uma única cópia ilustrada do Livro das Horas, um dos mais populares devocionais Cristãos da Idade Média, com anjos e a Virgem Maria portando luminosas capas azuis, podia significar muito. Era o resultado de uma viagem de anos, um preço considerável e ainda um trabalho minucioso de muitos dias ou meses do artesão. Nesse meio tempo pessoas poderosas se tornavam gigantes, assim como personagens pavorosos ganhavam mais dentes, chifres e força descomunal.

O HILÁRIO MUNDO DOS MONSTROS

Livro das Horas, séc. 15. A princesa atrás das montanhas, como se fosse um gigante, é a governante de Trebizonde, um reino Cristão ao sul do Mar Negro. Esse reino foi fundado por cavaleiros da 4ª Cruzada, reunidos de toda Europa e enviados para reconquistar Jerusalém. O reino ficava no litoral de onde hoje é a Turquia e se desligou de Bizâncio após a tomada de Constantinopla. Essa figura retrata bem as peregrinações envolvidas nos tempos das Cruzadas contra os reinos não-Cristãos: Saint Georges é supostamente um cavaleiro inglês (não há qualquer registro sobre ele além da tradição), que viajou pela Bélgica, Bizâncio e Turquia. Retirado de pinterest.co.uk

Examinando uma das ilustrações de um Livro das Horas belga do século 15, você pode ver quanto amor e cuidado os artistas medievais colocavam em seus monstros. A cena - uma das mais emblemáticas do Cristianismo - mostra Saint Georges perfurando com a lança a cabeça de um dragão. Para os olhos do séc. 21, o heroísmo de Georges pode parecer um pouco cômico - o dragão é do tamanho de um cachorro, parece deitado de barriga para cima e ainda está sendo pisado pelo cavalo. No entanto, o olhar do artista para os detalhes atordoa mais de 500 anos depois: você ainda pode distinguir as escamas na cauda do monstro e as expressão em seus olhos redondos. Não pela primeira ou última vez, o vilão fraco faz o herói parecer quase humorístico.

Livro das Horas de Henry VIII, França. O Tarasque era um monstro que habitava a margem do rio Reno, com cabeça de dragão, carapaça de tartaruga e cauda de escorpião, que incendiava tudo em que tocava. Sua destruição marca, supostamente, o começo da habitação humana naquelas terras. Abaixo está Marta, pregando aos habitantes da região, que assumiram o Cristianismo após ver seu milagre. Retirado de themorgan.org

Noutra cena fantástica, o Tarasque é trazido para fora de sua caverna por uma Santa Marta medieval, embora seu culto a identifique com a Marta em cuja casa Jesus encontrou Lázaro e sua outra irmã Maria. A tradição explica que Marta, Maria e Lázaro seguiram até a Europa de barco, após a ascensão de Jesus. Mas a região do rio Reno, na verdade, não possui montanhas ou cavernas. O Tarasque, nalgumas pinturas, também é pequeno como o dragão de Saint Georges. Na lenda, a santa serve de atrativo e distrai o monstro para que os cavaleiros o matem. Nessa pintura, em especial, ele lembra por demais um cão obediente, com olhar de são bernardo, sendo puxado por sua dona. O monstro obediente simboliza o triunfo sem batalha do bem (civilização) contra o mal (vida selvagem), bem no sentido inverso das lendas de Grimm, onde lobos se fantasiam de homens para enganar crianças.

XENOFOBIAS

Judeu de Bern, provavelmente a origem da lenda germano-brasileira sobre o “homem do saco”. Trata-se de uma peça de madeira esculpida em 1546. Embora tenha sido muito usada como representação para assustar crianças desobedientes, o chapéu judeu da criatura é bem característico. Retirada de slate.com

Mas nem todos os monstros medievais eram tão carismáticos. Muitos foram inspirados em mesquinhez e violência. O anti-semitismo - que poderia ser plausivelmente definido como a representação de judeus como monstros - era indiscutivelmente central para a cultura européia da época. Ogros judeus sedentos de sangue serviram como personagens em inúmeras peças, histórias e poemas. Como na época do Nazismo, os judeus eram obrigados a usar um chapéu amarelo ou listrado pontiagudo. No meio da cidade suíça de Bern, a escultura de uma fonte ainda traz um desses pavorosos judeus-monstro simplesmente tirando crianças de um saco para as devorar. Em nenhuma prática judaica já foi documentado semelhante coisa, então somos levados a pensar na disposição do artista e autoridades da época em criar uma imagem que justificasse as ações de Cristãos contra os judeus.

Talvez o exemplo mais famoso desse tipo de história esteja na coleção The Canterbury Tales, do poeta inglês Geoffrey Chaucer. Nessa obra, um judeu mata uma criança Cristã e joga seu corpo em um monte de lixo. Quase tão famosa é a lenda do judeu de Bourges, que queima seu próprio filho, mais ou menos como nos ritos de Moloque, que os judeus nos contaram a respeito dos povos Cananeus. Uma ilustração francesa do início do século 14 retrata o judeu de Bourges com grandes olhos revirados e um nariz de porco enquanto empurra seu filho para uma fornalha. A imagem, em toda sua histeria racista e sentimentalismo grotesco, não é tão diferente das charges antissemitas que Julius Streicher publicou no auge do Terceiro Reich de Adolf Hitler. Outras caricaturas da Idade Média incluem muçulmanos, mulheres, pobres e doentes mentais. Essas imagens, vistas hoje, parecem ressaltar as poucas diferenças genuínas entre Cristãos e pagãos quanto a seu trato com “o diferente”.

MONSTROS SANTÍSSIMOS

Martírio de São Bartolomeu. Existem pelo menos 4 versões sobre a morte do apóstolo às vezes nomeado como Bartolomeu, às vezes como Natanael. Numa versão da Armênia, ele foi flexado e depois decapitado. Noutra, a mais popular, ele foi crucificado de cabeça para baixo, como Pedro. Ainda noutra, retratada aqui, ele batizou o rei Polymius, sendo então torturado e morto pelo irmão do rei. Numa última versão, possivelmente a mais verdadeira, Bartolomeu navegou até a Índia, talvez na mesma missão de Tomé, onde morreu na cidade de Kalyan. Retirado de br.pinterest.com

Uma ironia ainda maior das imagens de monstros medievais é que piedosas figuras bíblicas - mártires, discípulos de Cristo e até mesmo o próprio Cristo - eram retratadas como monstruosas. As histórias sangrentas de São Bartolomeu sendo esfolado vivo e de São Denis ou São Firmino, que dizem terem carregado suas próprias cabeças depois de cortadas, inspiraram infinitas obras religiosas. Uma representação húngara do martírio de Bartolomeu, do século 14, mostra o santo com sua pele meio removida, a boca presa em um sorriso de gato do País das Maravilhas. Ainda mais estranho é uma versão do artista do século 12 da Santíssima Trindade como um mutante de quatro olhos e três cabeças. Imagens como essas - não menos do que as dos dragões ou judeus matadores de crianças - procuram aterrorizar, mas por uma razão diferente: sugerir que o medo é parte da fé religiosa.

O EXÓTICO CRISTIANISMO

Por fim, é preciso dizer que boa parte do espanto com a arte Cristã medieval se dá porque a cultura Cristã da época nos parece muito exótica, 5 séculos depois. Sem dúvida o Cristianismo mudou muito nesse tempo. Duas influências grandes sobre a arte Cristã foram as Cruzadas (séc. 11 a 14) - que encheram o imaginário europeu com monstros e coisas terríveis dos Mouros - e a Peste Negra (metade do séc. 14). A Peste originou-se no Mar Cáspio e espalhou-se rapidamente pela Europa, seguindo o litoral e a rota das embarcações. A quantidade de mortos, a deformidade dos corpos e o sofrimento dos contagiados invadiu o imaginário popular com imagens de demônios em forma de cadáveres e atormentando os moribundos. Isso acabou desembocando em uma série de obras Cristãs conhecidas como Ars Moriendi, ou Arte de Morrer.

Ars Moriendi, Holanda, 1460. Nessa gravura do livro, um moribundo é tentado por várias coroas relativas às riquezas, orgulho, poder, etc. Enquanto o moribundo parece extremamente confortável em sua cama, aparecem diversos demônios risíveis ao seu redor. Tais figuras lembram bastante os desenhos de Pieter Bruegel sobre monstros, demônios e a loucura. Retirado de en.wikipedia.org

Essas obras dispunham sobre a forma correta de um Cristão morrer, de maneira a escapar dos tormentos de demônios. Na versão mais longa que foi preservada, aparecem ilustrações de demônios que lembram muito os anões da Branca de Neve, alguns com longas orelhas de coelho, ou línguas enormes, chapéus longos com as pontas enroladas, etc. Eles carregam as tentações que levam ao pecado e sua aparência bizarra, parecendo cruzamentos de humanos com animais que estão sem saber o que fazer pelo mundo, de fato fazem uma referência cruel aos doentes mentais. Levar-se pelo pecado é um símbolo de deficiência. Os moribundos, por outro lado, são explicitamente instruídos a manter uma aparência serena. Não apenas no Ars Moriendi, mas em toda a arte medieval, as pessoas parecem morrer completamente desinteressadas e passivas. Mesmo que isso seja sob apedrejamento, devorados por feras, perfurados por lanças ou decapitados. A face serena era, segundo o Ars Moriendi, uma forma de manter longe os demônios.

ÍCONES

Mas talvez a maior representação da arte medieval seja os ícones. Trata-se de pinturas ou esculturas religiosas que são, elas próprias, canais de comunicação com o divino. A Cristandade romana encheu a Europa, Ásia menor e norte da África com imagens de cenas bíblicas, mártires, reis, papas e patriarcas. Como no caso dos gregos que adoraram como deuses novos as estátuas quebradas nas ilhas que povoavam, civilização após civilização, os homens medievais encontraram essas obras de artes de homens antigos, de um reino antigo, e lhes atribuíram o papel de mensageiros divinos. Pinturas romanas deram origem a santos e, mais do que isso, as próprias pinturas foram tidas como sagradas, lugares para onde as pessoas peregrinavam em busca de cura, iluminação ou por subserviência. A Igreja Oriental até mesmo formulou uma teologia para explicar o poder das imagens: assim como Deus assumiu a forma humana em Cristo, Ele poderia assumir a forma material de pinturas e esculturas.

Imagem de Nossa Senhora da Conceição, cultuada em todo Brasil e que favoreceu a proclamação da Independência por fazer com que, na colônia, se desenvolvesse um importante centro Católico. Em 1978, a imagem (esquerda) foi destruída em um atentado religioso, produzindo mais de 200 fragmentos que foram cuidadosamente colados no Museu de Arte de São Paulo (MASP) (direita). A coloração original era clara, com pinturas em dourado, azul e vermelho, como era o estilo do escultor. Hoje ela é castanho escuro, acumulando uma camada de cera e fuligem do templo. Nos sécs. 8 e 9, um movimento iconoclasta dentro da Igreja Católica destruiu boa parte dos ícones, com exceção dos ossos e resquícios de santos. Retirado de padrerodrigomaria.com.br

Além do papel evangelizador que tiveram numa época onde a escrita se tornou raramente usada, essas obras religiosas foram a representação material e poderosa de Deus, como a Arca da Aliança levada nos conflitos entre judeus e filisteus. No Brasil, um exemplo tardio dos ícones foi a imagem de Aparecida. Obra de um monge escultor do século 17**, a estatueta com cabeça quebrada foi recuperada de um rio e venerada como a própria Virgem, ganhando um santuário que hoje é o segundo maior templo católico em atividade no mundo.

Como na Rússia dos Czares, a Idade Média de algum modo se estendeu para além do seu tempo devido à falta de contato tecnológico entre o Brasil-colônia e o restante do mundo. Isso para não falar nos livros e filmes que, desde o séc. 19, encantam o imaginário de adultos e crianças desagradados com a mesmice da ciência racional e um Estado estável.

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* Os monges Beneditinos foram uma força poderosa da civilização durante a Idade Média. Afora o caráter evangelizador de suas missões na Europa, os Beneditinos seguiam uma organização quase militar de delimitação de territórios e propagação da cultura romana. Quando chegavam a uma localidade, os monges tratavam de cercar um território para o mosteiro (às vezes até usavam de nobres armados para isso) e organizavam meticulosamente seu dia sobre os princípios de trabalho e culto coletivo. Assim, enquanto alguns monges entoavam por horas a fio um canto de homenagem a Deus ou algum santo, outros trabalhavam na horta e outros na construção do prédio. Em horários específicos as equipes trocavam suas tarefas. Esses mosteiros foram centros de alfabetização e educação na Idade Média, além de manterem viva a ideia de um Estado que ia além das pequenas vilas, mesmo sendo a distante autoridade de um abade ou bispo em Roma ou outra cidade papal.

** Uma análise meticulosa do estilo usado na imagem de Aparecida atribuiu sua origem ao paulista Frei Agostinho de Jesus, famoso produtor de estátuas sacras. Trata-se de uma estátua de barro. Aparentemente, a cabeça da imagem quebrou-se e, segundo a tradição, a mesma foi jogada no rio, onde permaneceu tempo suficiente embaixo d’água para que sua pintura fosse quase totalmente removida. Desde sua descoberta no rio Paraíba do Sul, em Guaratinguetá/SP, diversos milagres e estórias fabulosas foram-lhe atribuídos, como uma pesca milagrosa e a estátua ter ficado tão pesada que os pescadores não puderam carregá-la.

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EM LETRAS PINTADAS COM OURO

Ars moriendi - wikipedia
Book of Kells - wikipedia
Medieval monsters: terrors, aliens, wonders, apollo-magazine.com, 8jun2018
Mark JJ, Book of Kells, ancient.eu, 30jan2018
Tsar - wikipedia

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Jesus e a Teologia da Libertação


O Bom Samaritano - quadro de William Henry Margetson, 2012

Em 1962, o papa João XXIII convocou um Concílio do Vaticano. Ao longo da história Cristã, cada Concílio foi uma mudança de rumo histórica, abrangendo o entendimento de toda a Igreja. Os 1os Concílios foram no séc. 3 d.C., para estruturar o Cristianismo.. já essa reunião deveria discutir sobre as populações carentes ao redor do globo. Foram convocados 2.200 bispos, cujos discursos foram cuidadosamente gravados em fitas magnéticas. O Concílio durou até 1965, com várias participações do próprio papa nas discussões.

"O Concílio?" Ele disse enquanto se movia em direção a uma janela, gesticulando como se para abri-la. "Espero dele um pouco de ar fresco ... Devemos nos livrar da poeira imperial que se acumulou no trono de São Pedro desde Constantino". (João XXIII)

Um fruto direto dessa reunião histórica foi a Carta Encíclica orientando que os Católicos não tolerassem diferenças de dignidade entre as pessoas. Indiretamente, ela também gerou o que se chama hoje Teologia da Libertação. Trata-se de um entendimento da Igreja como instrumento de Deus contra as injustiças sociais. E ela exatamente “sacudiu o trono de São Pedro”, pois tirou sacerdotes de sob as asas dos ricos para desafiarem ditadores, o capitalismo e ajudarem os mais pobres "condenados a morrer lentamente, sem nenhuma misericórdia". Muitos religiosos adeptos foram presos ou mortos pelos movimentos militares na América Latina entre 1960 e 1980. Para vários, adeptos e contrários, era levar o ideal revolucionário de Karl Marx para dentro da Igreja, tanto que o papa Bento XVI mais tarde ordenaria a reclusão de todos os seguidores de Jon Sobrino¹.

Outras particularidades muito controversas da Teol. Lib. eram o entendimento de Jesus como uma figura estritamente humana enquanto aqui na Terra e a aceitação de que a fé Católica não seria a forma exclusiva de chegar à Salvação.

Dentro do Cristianismo, Salvação é a expectativa de um julgamento favorável de Deus após a morte. E, no Catolicismo em especial, acredita-se que a Salvação decorre primeiramente do batismo - quando o pecado original de Adão é removido mediante uma aliança com o sacrifício de Jesus - e, secundariamente, de uma reconciliação com Deus através da Confissão dos pecados ou pela Penitência². Esse entendimento é diferente em outras divisões do Cristianismo.

PREGAR NÃO É COMBATER

Ao argumentar em favor da Teol. Lib., Tissa Balasuriya’’’, do Sri Lanka, levantava a questão de “como o ensinamento tradicional e exclusivista de Igreja, a respeito da Salvação, pode ser conciliado com a obra salvadora de Cristo?” Seu argumento incluía a lembrança de que, muitas vezes, a Igreja empreendeu massacres e alianças com homens terríveis, fundamentada no fato de que os massacrados não eram Cristãos e, portanto, estavam destituídos de um lugar no Reino de Deus.

Voltando no tempo, porém, vemos que os não-cristãos também motivaram missionários Luteranos e Protestantes nos sécs. 18 e 19, os empreendimentos Jesuítas³ no séc. 16, as missões Beneditinas e Alexandrinas nos sécs. 4 e 5 e as viagens de Paulo no séc. 1, relatadas no livro de Atos e em suas cartas às igrejas. Mesmo as viagens dos apóstolos, não tão bem documentadas, foram movidas pelas palavras de Jesus após a Ressurreição: “Ide, pregai o evangelho a toda criatura, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado, para que creiam e sejam salvos, começando por Jerusalém” (Mateus 28.19-20, Marcos 16.15-16, Lucas 24.46-47). João, cuja obra é explicitamente didática, emenda ao final “este livro foi escrito para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em Seu nome” (João 20.30-31). Dessa forma, embora o aprendizado sobre Cristo não seja obviamente condenatório (aos que não aprendem), tanto os Evangelhos como a tradição Cristã sugerem fortemente que seja um passo necessário à Salvação. Como “pregai” tornou-se “matai” só pode ser explicado por interesses bem não-cristãos inseridos dentro da Cristandade.

Entendendo a Salvação como uma espécie de cura, a prerrogativa de "ide, pregai" se soma ao fato de que Jesus curou pessoas perguntando, primeiramente, a respeito de sua fé. A cura do servo do centurião, o paralítico, a mulher com fluxo de sangue, Bartimeu e mais dois cegos, a mulher cananéia, o menino epilético, quando os discípulos se desesperaram com as ondas no lago de Genesaré, ou com a falta de pão para as multidões, ou ainda com Pedro afundando: todos foram salvos ou curados mediante sua fé em Jesus. E, tendo os eventos finais da vida de Cristo e a crucificação ocorrido em Jerusalém, também é possível pensar que a Salvação iniciou-se a partir daí. Mas, assim como em vários outros assuntos, Jesus deixou uma lacuna quanto ao destino dos que nunca o conheceram. Há sugestões de julgar a todos segundo os preceitos Cristãos, independentemente de sua fé (João 12.48), aplicar as regras da fé de cada um (Mateus 7.2) e até evangelizar os mortos (João 5.25), mas são construções teológicas. Além disso, reparemos que o texto de Apocalipse fala em um grande julgamento no último dia, segundo as obras de cada um e não segundo a filiação religiosa (Apocalipse 20.12-13).

SOBRE ACEITAR OUTRAS TEOLOGIAS

Marcelo Barros''', falando sobre a Teol. Lib., é um dos que defendem absorção de teologias ou cristianismos populares dentro do Cristianismo. “Cristianismos populares” são versões sincréticas do Cristianismo dos colonizadores europeus do séc. 16, que por sua vez é um sincretismo de tradições gregas, romanas e judaicas. Na América Latina, África e Ásia, o Cristianismo europeu sofreu adaptações populares para reunir elementos católicos (mas às vezes protestantes) com crenças nativas/pagãs* indígenas, afro e depois espíritas, já no séc. 19. Um dos pontos centrais de tais credos é a repulsão à pressão colonizadora, militar e social, para a adoção do Cristianismo.

Os "Cristianismo populares" são versões da religião oficial mais palatáveis, descentralizadas e organizadas pelos pobres. Mas esse movimento produziu a adoração a santos (isso já ocorrera, séculos antes, na Europa, sendo absorvido pela Igreja Romana), locais, plantas e alimentos sagrados, fórmulas mágicas de oratória, energias, chás purificadores, etc. Uma expressão bem brasileira desse Cristianismo poli-sincrético são as benzedeiras, figuras locais (geralmente mulheres) que oferecem rezas, tratamentos espirituais, medicina tradicional, magia e intercessão por seus clientes.

Marcelo argumenta que, embora o Cristianismo romano nos pareça bastante estéril de magias e contatos de Deus com os homens, na verdade ele só parece assim quando visto através de lentes européias. Para os Judeus, por exemplo, cada lugar relatado nos Evangelhos traz a alma do seu povo; seja o poço de Jacó seu ancestral, a cidade trono-de-deus ou o rio com cuja água os profetas curavam. Para os Gregos, a sabedoria de Salomão e as visões de Paulo ou de João sempre foram a forma de os deuses falarem com os homens. Para os Romanos, a caridade e refeições comuns eram sinais sinceros de devoção, assim como as missões de Lucas, Paulo, Silas, Timóteo e Barnabé registradas em Atos eram a forma mais correta de demonstrar fidelidade a um Senhor.

No contexto latino-americano, porém, essas narrativas passam como estórias pouco significativas. Na tradição Yorubá que importamos do Congo, por exemplo, os deuses comumente se manifestam através de plantas que curam, alucinam ou matam. Na tradição indígena/cabocla, um líder espiritual é aquele capaz de desafiar e obter, pela força e coragem, a aliança com os deuses. A falta de lugares sagrados que se possam ver, plantas mágicas e sacerdotes guerreiros no Novo Testamento provavelmente foi o que produziu os sincretismos e até diversos cristos como o Bom Jesus da Lapa, Nosso Senhor do Bonfim, Jesus de Pirapora e um sem-número de Marias-mãe-de-Jesus, que incluem santas negras ou similares de Iemanjá. Mesmo no lado supostamente tradicional da Igreja, encontramos músicas e objetos abençoados/sagrados, pastores capazes de ordenar tarefas a Deus e os demônios, visionários, etc. O que Jesus falaria disso?

Sabemos que o Filho de Deus conhecia de perto a religião dos romanos, gregos, cananeus, samaritanos e o judaísmo tradicional (que já era bastante diversificado). Em sua breve passagem por território Cananeu, Jesus encontrou o que poderia ser um soldado romano insano habitando um lugar/cemitério de culto. Ao invés de abençoar/amaldiçoar aquele solo, Jesus se ocupou apenas do insano. Sobre os romanos e gregos Ele também nada disse, e se dirigiu a um romano não-crente apenas nos seus momentos finais. Jesus não foi ofensivo ou provocador nem mesmo com Pôncio Pilatos ou os soldados assistindo a Crucificação. Ele também não mostrou qualquer atitude favorável aos romanos. Em sua conversa com a Samaritana, Jesus se opôs à adoração confinada a um lugar sagrado, o que por tabela se estendia ao 2º Templo. Entre os mais criticados por Jesus estavam os líderes “templistas” do judaísmo tradicional. Mas Ele enaltecia a figura de João Batista, um líder profeta e andarilho dentro do mesmo judaísmo. Jesus ordenava o amor a Deus e aos homens, de forma indiferente a suas filiações religiosas. E, ao mesmo tempo, Jesus era profundamente Cristão ao afirmar-se como a verdade e a vida, sem a qual ninguém chega ao Pai (João 14.6). Em outras palavras, talvez possamos resumir a posição de Jesus como (1) não se importando com outras crenças e atrelando a Salvação ao (2) reconhecimento de Deus/Ele mesmo como Maior e (3) o amor aos homens.

Isso não é pouco. A posição de Jesus contraria as religiões não-cristãs e mesmo diversas vertentes do Cristianismo, apoiadas no culto a santos, espíritos, anjos e autoridades humanas. E, mesmo para as vertentes mais alinhadas, resta o cumprimento pessoal da posição (3) que pode requerer, como no caso do jovem rico, uma entrega total à questão religiosa. Apesar disso, a postura de Jesus não dá suporte a ofensas, guerras, Cruzadas e martírios (de si ou dos outros) pela fé. No Velho Testamento, a ideia judaica era de combate ferrenho aos outros cultos; após Jesus, Paulo pareceu se ater à estruturação do Cristianismo, mantendo como foco o papel centralizador e único de Jesus, propositalmente ignorando outras entidades:

Pois mesmo que haja os chamados deuses, quer no céu, quer na terra, como de fato há muitos "deuses" e muitos "senhores", para nós, porém, há um único Deus, o Pai, de quem vêm todas as coisas e para quem vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, por meio de quem vieram todas as coisas e por meio de quem vivemos. (1ª Coríntios 8.5-6)

Também, quando Marcelo Barros defende o culto de Cristo junto a Orixás, ou dentro da teologia Kanambe no Kênia, os 3 pontos de Jesus não são exatamente restritivos. E mesmo considerando as palavras do Velho Testamento, deduz-se que tal situação é mais provavelmente digna de evangelização e valorização do Jesus histórico, para que Deus seja reconhecido ali, do que digna de uma ação restritiva (Isaías 65.1-7). Mesmo que a teologia (não Cristã) de Isaías em nada possa ser tolerante com os ideais afro de interação com a Natureza ou os ideais caboclo-indígenas de autoridade sacerdotal, o julgamento parece ter sido evitado por Jesus. Marcelo e outros teólogos, como Frei Betto, defendem que o Jesus humano da Bíblia se distancia muito das figuras espirituais, idealizadas ou até imaginárias que serviram de base ao Cristianismo pré-alfabetização, cujo impacto foi essencialmente negativo sobre as camadas mais exploradas da sociedade. Afinal, um Jesus conhecedor de tudo, invencível, incorruptível, etc era por demais diferente dos homens que ouviam sobre Ele. Enquanto o Jesus ensinado parecia muito distante, o Jesus bíblico poderia ter sido tão mais bem recebido quanto o “bom pastor” descrito nos textos gregos e romanos do séc. 1 d.C.

O CRISTIANISMO EM MEIO A DISPUTAS

Jesus fez pouco em termos de criar uma nova tradição, não especificando regras de conduta, datas comemorativas, o funcionamento da Igreja, etc. Por isso, nos 40-50 anos que se seguiram à Crucificação, as pessoas Lhe atribuíram títulos como mestre, profeta, etc e o fizeram sancionar (no pós-morte) todas as múltiplas respostas possíveis para essas questões. Esse processo continua até hoje, em parte re-desenhando vertentes que se encaixam bem aos pré-requisitos de Jesus (mas não dispensam o comprometimento com o amor ao próximo), em parte incluindo dentro da Cristandade muitas pessoas - às vezes em situação de autoridade - virtualmente contrárias a esse amor. A Teol. Lib. vai um tanto no sentido revolucionário, quase Macabeu, de resgate desse amor pelo próximo dentro da Igreja. Um resgate que, talvez lembrando as palavras de Tissa Balasuryia e Marcelo Barros, dentre outros, passa por “consertar a imagem de Cristo” pregada entre os povos, entendendo a necessidade, mas sem a pretensão de que ela venha a ser acolhida por todos.

“O semeador saiu a semear. Enquanto lançava a semente, parte dela caiu à beira do caminho, e as aves vieram e a comeram. Parte dela caiu em terreno pedregoso, onde não havia muita terra; e logo brotou, porque a terra não era profunda. Mas quando saiu o sol, as plantas se queimaram e secaram, porque não tinham raiz. … Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça" (Mateus 13.3-9)

Não são poucos os defensores da Teol. Lib. que falam em favor de um Cristianismo com menos regras. Ivone Gebara''', por exemplo, argumenta sobre a liberalidade anunciada por Jesus quando se refere ao Espírito Santo como um "vento que sopra onde quer, do qual ouvimos a voz, mas não sabemos de onde vem e para onde vai" (João 3.8). Segundo ela, o Jesus das Escrituras era inteiramente imerso em sua cultura, sua história, seus problemas cotidianos e até a luta política de seu povo. "Christos" (Χριστός), do grego, significa "ungido, preparado"; Jesus de Nazaré era um home da periferia judaica; O Verbo era o poder criativo de Deus; e Jesus simplesmente era todos esses, e ainda um pregador itinerante sem importância para Roma. Se a Igreja agir como uma Torre de babel, impondo a mesma língua, os mesmos modos e um pode vertical, ela não age diferente dos poderosos e ricos desse mundo, que filtram todo conhecimento, autoridade e liberdade de um modo desigual, excludente, para favorecer a alguns e oprimir a muitos em nome de uma unidade e uniformidade.

De fato, se tomarmos os 3 pontos de Jesus sobre o que seria ser Cristão (e entendamos Cristão como um imitador de Jesus, não um submisso ou afiliado de qualquer outra coisa), são tantas as possibilidades girando em torno de colocar Jesus acima de tudo e amar ao próximo que podemos ter aí desde Cristãos profetas itinerantes até ricaços intelectuais, desde líderes populares hiper-ortodoxos até ícones femininos e cobradores. De fato, os seguidores de Jesus eram assim variados, mas dentro de um limite que o próprio Pedro nos ensinou a não ultrapassar, que é o de amar mais a si ou ao mundo do que a Cristo. Sem atar pesados fardos aos homens para ser vistos, enriquecer e ser honrados pelos homens (Mateus 23.3-7). Acho que era esse o recado.

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¹ Jon Sobrino é um jesuíta espanhol fixado em El Salvador, um pequeno país da América Central. Ordenando-se em 1969, ele se destacou como líder intelectual dentro da Teologia da Libertação, sendo seguido por expoentes como os padres Oscar Romero, Ignácio Ellacuría (mortos em El Salvador), Leonardo Boff e Frei Betto (Brasil). A reclusão ordenada em 2006 levou muitos outros seguidores de Jon Sobrino a produzirem documentos criticando fortemente a posição da Igreja Católica quanto aos pobres.

² Existem variações ao longo da história quanto ao significado exato da Confissão dos pecados e da Penitência. Por um lado, desde o Concílio de Trento (1545-1563), a Confissão é um sacramento e necessita da figura de um sacerdote. Por outro, entende-se que Deus não é dependente da ação sacerdotal e, assim, uma confissão ao próprio Deus pode ser aceita. Também existem muitas variações no tempo e regionais quanto ao significado da Penitência. O entendimento mais antigo, associado ao livro Pastor de Hermas (séc. 2 d.C.), é a vivência dócil de uma situação de sofrimento criada por Deus. Mas, ao longo da história Cristã, a Penitência foi entendida também como jejum, a doação de favores ou somas em dinheiro para a Igreja, o auto-banimento para uma vida de missionário em terras distantes, enclausuramento, auto-açoitamento, etc. No Catolicismo, a Penitência pode mesmo ser realizada após a morte, em uma dimensão espiritual diferente do Paraíso e do Inferno, conhecida como Purgatório.

³ A Sociedade de Jesus, ou Ordem Jesuíta, foi fundada em 1534 por Inácio (Íñigo) López de Loyola, abade e general espanhol na luta contra os franceses na fronteira sul dos dois países. Os Jesuítas foram inicialmente organizados de forma simplista e militar, para agirem como evangelistas no Oriente Médio. Depois, dispersaram-se nas colônias espanholas e portuguesas da Argentina, Brasil, México, Índia e China. Suas características marcantes são o voto de pobreza e o elevado nível educacional em argumentação teológica, culturas e línguas. A Sociedade sempre foi criticada por ações desvinculadas das monarquias européias. Nos sécs. 16 e 17, implantaram sistemas educacionais e médicos nas colônias, sendo convertidos a uma “ordem mendicante” no séc. 18. No final do séc. 19, a ordem foi re-ativada e, hoje, tem o papa Francisco I como um de seus membros.

* O nome Paganismo passou a ser usado no séc. 4 d.C. para se referir aos povos que pagavam tributos a Roma, então tornada um império Cristão. Era um termo pejorativo usado pela nobreza, designando principalmente as religiosidades Celtas, mas também Germânica, Grega, Árabe, etc. A partir do séc. 5 d.C., o termo foi efetivamente utilizado para designar alvos militares de Roma, cujo Estado tornou-se hilariamente dependente da hierarquia Cristã para manter sua unidade. Num contexto atual, Paganismo pode se referir a qualquer crença fundamentalmente diferente da majoritária. Na América Latina, aparecem sobretudo crenças Andinas e Amazônicas (geralmente associadas a espíritos ancestrais, forças da natureza, animais sagrados, a morte, etc), além das tradições afro, principalmente Yorubá.

''' Tissa Balasuriya (1924-2013) foi um padre e teólogo do Sri Lanka, país de maioria Budista, que teve amplo contato com as culturas portuguesa e inglesa implantadas nos tempos coloniais. A partir dos anos 1970, ele desvinculou-se de suas funções sacerdotais tradicionais para fundar e organizar centros de atenção humanitários. Marcelo Barros de Sousa (1944) é um monge beneditino, escritor e teólogo baiano. Ele dedica-se ao estudo dos diálogos do Cristianismo com outras religiões e é conhecido por suas ações entre os movimentos dos Sem-terra. Ivone Gebara (1944) é uma freira, filósofa e teóloga de Recife envolvida com causas ecológicas e feministas, em especial às ligadas á pobreza das populações marginais urbanas.

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COMPARSAS DOS REVOLUCIONÁRIOS

Balasuriya T, Questions to CDF regarding Jon Sobrino’s notification, in: Getting the poor down from the cross, EATWOT, 2007
Barros M, Jesus of Nazareth, spirit of compassion: elements of an afro-Brazilian christology, in: Getting the poor down from the cross, EATWOT, 2007
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Edmonds SJ P, Faith in the Gospels, thinkingfaith.org, 13nov2012
Eufrásio J, Benzedeiras atraem pessoas de diversas religiões em busca de paz espititual, Correio Brasiliense, 29abr2018
Gebara I, Plural christologies, in: Getting the poor down from the cross, EATWOT, 2007
Jon Sobrino - wikipedia
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Lowe D, What caused the massive spread of Christianity, quora.com, 23abr2014
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sexta-feira, 29 de junho de 2018

Os dois lados de uma Cleópatra

Duas moedas selêucidas, identificadas como tendo os rostos de Cleópatra/Alexandre Balas e Cleópatra/Antíoco Grypus

PRÓLOGO

Desde o retorno dos Judeus libertados pelo rei Ciro em 540 a.C., não houve rei em Israel. As reconstruções seguiram sob o comando do sacerdote Esdras (aprox. 460 a.C.) e depois o governador Neemias (aprox. 430 a.C.), mas Israel permaneceu muito tempo sob a regência dos Persas. Após Malaquias (aprox. 420 a.C.), também não houve outro grande profeta. O controle (pacífico) dos Persas foi quebrado, em 330 a.C., pela chegada de um imenso exército dos Macedônios sob o comando de Alexandre o Grande.

Esse texto fala sobre Cleópatra Thea, uma rainha do Período Inter-testamentário que viveu no centro de um furacão bíblico envolvendo Egito, Grécia, Macedônia, Fenícia, Judéia e Pártia; algo como uma Guerra Mundial do mundo antigo. Grande parte do que escrevo aqui está descrito como crônicas de guerra no livro de 1ª Macabeus, encontrado nas Bíblias Católicas, mas não nas Protestantes¹, e conta como pano de fundo o estabelecimento de um novo reinado em Israel, no ano de 140 a.C. A nova linhagem de reis duraria até a vinda de Júlio César, o Romano, em 37 a.C.

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Era uma vez um príncipe do reino da Macedônia, chamado Alexandre. Ele conquistou mais terras do que qualquer outro homem, por isso foi chamado Alexandre o Grande. Seu reino ia do Egito até a Índia, tão grande que ao amanhecer de um lado já era meio-dia de outro. No Egito, fizeram-lhe até uma das 7 maravilhas do mundo, a cidade gloriosa de Alexandria.

Infelizmente, Alexandre morreu jovem. Seu império foi, então, repartido entre os fiéis generais. Cada um deles fez uma coroa para si, iniciando uma família de reis. O Egito coube a Ptolomeu, fundador dos Ptolomai. Cleópatra Thea (164-121 a.C.; Thea = divina) nasceu nessa família real, a filha mais velha de Ptolomeu VI e Cleópatra II.

Do leste da Síria até o Irã governou Seleuco, primeiro dos Selêucidas. Entre um reino e outro estavam as terras da Fenícia, famosa comerciante naval no Mediterrâneo, além da Galiléia (terras baixas ao norte de Israel) e Judéia (terras montanhosas aos sul). Esses territórios assistiram a duelos infindáveis entre os Ptolomai e os Selêucidas.

Os Ptolomai foram os primeiros a governar a Judéia. Eles foram bons reis para os judeus, concedendo liberdade de culto em troca de apoio militar e impostos. Mas os Ptolomai também davam altos cargos no governo para quem lhes favorecesse entre os sacerdotes e doutores da lei, e acabaram atraindo a cobiça dos fariseus e saduceus.

Os judeus se dividiram por isso em conservadores/pobres (radicalmente contra os gregos), moderados (que aceitavam alguns costumes) e helenizantes/favorecidos. Os helenizantes defendiam usar o grego nos documentos, participar dos torneios de homens nus e até reverenciar deuses gregos como Zeus e Apolo.

Afora conflitos pequenos e silenciosos, houve paz até 200 a.C. Nesse ano, Antíoco III o Grande, dos Selêucidas, investiu contra o Egito e derrotou Ptolomeu V, tomando-lhe a Judéia e a Fenícia. Com isso, Selêucida iria do Mar Persa (Golfo Pérsico) até o Mar Vermelho e seria uma potência marítima. Depois que viu seu poderio militar, o herdeiro e braço direito, príncipe Antíoco IV Epiphanes (epiphanes = imagem de Deus), retornou para a capital Antioquia saqueando todo reino que não lhe jurasse obediência irrestrita. Foi o que aconteceu com a Judéia.

Quando Antíoco IV subiu ao trono da Selêucida (175 a.C.), sentiu-se desafiado pelos judeus, seu Jeová e seu Templo. Considerava-os selvagens e inferiores, por isso tentou convencer as pessoas a trocarem a cultura judaica pela dos gregos. Uma de suas medidas foi substituir o sumo sacerdote Onias III (um tradicionalista, mal visto entre seus pares) pelo irmão Jasão (um helenista, por cujo cargo o rei Antíoco aceitou 440 talentos de prata - umas 10 toneladas e meia). Um Gymnasium grego foi instalado ao lado do Templo, para horror dos sacerdotes conservadores.

... Logo que subiu ao poder, Jasão arrastou seus concidadãos para o helenismo. … Foi com alegria que fundou um ginásio ao pé da própria acrópole, alistou os mais nobres jovens e os educou ao pétaso. Por causa da perversidade inaudita do ímpio Jasão, que não era de modo algum pontífice, obteve o helenismo tal êxito e os costumes pagãos uma atualidade tão crescente, que os sacerdotes descuidavam o serviço do altar, menosprezavam o templo, negligenciavam os sacrifícios, corriam, fascinados pelo disco, a tomar parte na palestra e nos jogos proibidos. Não faziam caso das honras da pátria e amavam muito mais os títulos helênicos. (2ª Macabeus 4.10-15)

O MARTELO JUDEU

Nesse tempo, circulava secretamente um perigoso boato entre os líderes judeus. Falava-se sobre uma fortuna em ouro guardada nas salas mais profundas do Templo, onde só os altos sacerdotes tinham acesso². Não demorou para que essa notícia chegasse aos oficiais selêucidas e traçasse seu rumo até os ouvidos do rei Antíoco. Certo dia, um homem chamado Menelau, que era oficial judeu e foi mandado até Antíoco para negociar o pagamento dos tributos do Templo, denunciou  existência desse ouro. Em sinal de fidelidade, Menelau até ofereceu todo ouro ao rei para sua campanha no Egito, contra os Ptolomai. Pouco tempo depois, o sacerdote Jasão foi deposto, assim como os demais sacerdotes.

O Santo dos Santos ganhou uma estátua de mármore de Zeus e o Templo foi saqueado, revirado em busca do ouro (169 a.C.), terminando por virar um prédio abandonado.

[Antíoco] Penetrou cheio de orgulho no santuário, tomou o altar de ouro, o candelabro das luzes com todos os seus pertences, a mesa da proposição, os vasos, as alfaias, os turíbulos de ouro, o véu, as coroas, os ornamentos de ouro da fachada, e arrancou as embutiduras. Tomou a prata, o ouro, os vasos preciosos e os tesouros ocultos que encontrou. Arrebatando tudo consigo, regressou à sua terra, após massacrar muitos judeus e pronunciar palavras injuriosas. Foi isso um motivo de desolação em extremo para todo o Israel. … No dia quinze do mês de Casleu, do ano cento e quarenta e cinco, edificaram a abominação da desolação por sobre o altar …. rasgavam e queimavam todos os livros da lei que achavam; em toda parte, todo aquele em poder do qual se achava um livro do testamento, ou todo aquele que mostrasse gosto pela lei, morreria por ordem do rei. (1ª Macabeus 1.21-25, 54-57)

Esse foi estopim do “martelo” judeu. Um dos sacerdotes da cidade de Modi’im, Matatias, reuniu seus 5 filhos e mataram os oficiais selêucidas que os obrigavam a sacrificar aos deuses gregos. Tornando-se um criminoso, ele refugiou-se com seus “Macabeus” nas montanhas de Judá e iniciou uma revolta nacionalista que ganharia mais soldados por onde passasse.

Matatias morreu nos 1os anos da guerrilha, sendo sucedido em comando pelo filho mais velho Judas [Macabeu]. Embora um grande estrategista militar, Judas e seu irmão João acabaram mortos nos confrontos contra os Selêucidas. O terceiro irmão, Jônatas Macabeu, reuniu um exército poderoso que reconquistou Jerusalém³ e tornou-se peça importante nas disputas entre os Ptolomai e os Selêucidas, a ponto de ambos os lados o temerem. Jônatas libertou muitas cidades do controle dos gregos, tornando-se conhecido até mesmo nas terras vizinhas. Em nome de uma Israel que falava por si própria, Jônatas renovou as relações diplomáticas com Roma e o Egito, mantendo a segurança de Jerusalém através de acordos com os dois lados e o rei Antíoco.

VENCEMOS, VENHA CLEÓPATRA!

Nesse ponto da história é que aparece a princesa de Ptolomeu VI do Egito.

Antíoco III o Grande havia sido derrotado pelos romanos, e cada rei Selêucida foi obrigado a deixar seu filho como refém dos romanos**. Antíoco IV era um desses reis educados em Roma. Quando ele foi coroado, Roma libertou seu irmão Seleuco IV e tomou o filho deste, Demetrius I. Seleuco subiu ao trono para servir aos interesses de Roma, mas seu reinado foi curto e acabou assassinado pelo amoroso tio Antíoco, de quem já falamos.

Os anos passaram, Demetrius I cresceu e adquiriu poder militar para reconquistar seu reino. Por causa dele, a Selêucida assistiu gerações de guerra entre duas famílias reais irmãs: os de Seleuco e os Antíoco. A Revolta dos Macabeus conviveu com alianças, traições, vitórias e derrotas de 3 gerações Selêucidas. Um desses líderes, filho de Antíoco IV, foi Alexandre Balas. Ele aparece na narrativa como grande inimigo de Demetrius I Soter (o pequeno que havia ficado em Roma), transformado num rei detestável pela sua má administração e uso indiscriminado de mercenários trazidos de Creta.

Era uma vez um príncipe Alexandre Balas, filho de um rei tirano e derrotado chamado Antíoco IV. Balas cresceu a protegido dentro da nobreza Selêucida, até que concebeu a idéia de ser o rei daquele país. Balas conseguiu conquistou o exército de Ptolemaida e assim reuniu forças, para, no que todos  chamariam de golpe, reaver seu trono. Além disso, ele intencionava reunificar o império dos Macedônios fazendo aliança com o respeitado monarca do Egito.

Quando Balas repeliu Demetrius, tanto os Ptolomai quanto as nações vizinhas lhe prestaram atenção. Tendo Demetrius I como um inimigo em igual, Jônatas Macabeu viu em Alexandre Balas um rei honrado (ao contrário do pai) e travou amizade com ele.

Então Alexandre [Balas] enviou embaixadores a Ptolomeu do Egito, com a missão de lhe dizer: “Eis-me de volta ao solo do meu reino e assentado no trono de meus pais; recobrei o poder, derrotei Demétrio e entrei na posse de meu país. Travei batalha com ele, venci-o com seu exército e subi ao trono onde ele reinava. Façamos agora laços de amizade, dá-me tua filha por esposa e serei teu genro, e vos cumularei, a ti e a ela, com presentes dignos de vós.”

O rei Ptolomeu respondeu: “Venturoso o dia em que entraste na terra de teus pais e te assentaste no trono de seu reino! Por isso dar-te-ei o que me pedes, mas vem ter comigo em Ptolemaida**, para que nos vejamos, e farei de ti o meu genro como desejas.” Saiu Ptolomeu do Egito com sua filha Cleópatra, e foi a Ptolemaida no ano cento e sessenta e dois. Deu-a em casamento a Alexandre, que lhe veio ao encontro e celebrou as bodas com real magnificência. 

O rei Alexandre escreveu também a Jônatas, para que viesse procurá-lo, e este se dirigiu a Ptolemaida, com pompa, onde encontrou os dois reis. Ofereceu-lhes, como também a seus amigos, prata, ouro e numerosos presentes e conquistou sua confiança inteiramente. … Ordenou até mesmo que se tirassem as vestes de Jônatas, para revesti-lo de púrpura, o que foi feito; e o rei fê-lo assentar-se junto de si. (1ª Macabeus 10.51-62)

Cleópatra Thea era uma princesa poderosa. Mas ela entra na nossa narrativa em 150 a.C. da melhor maneira, como esposa de um rei adorado e justo, prometendo celebrar a re-unificação dos grandes reinos Ptolomai e Selêucida para trazer paz a todas as terras do Oriente Médio. Seu casamento suntuoso foi noticiado em todas as partes do mundo, ganhou lugar até nos livros de história. Logo mais, em 148 a.C., próximo ao grande triunfo de Roma sobre seu pior rival, a cidade de Cartago, nasce o mais esperado herdeiro, Antíoco VI Dionísio, provavelmente herdeiro de tudo o que já fora de Alexandre o Grande.

Mas havia uma ameaça no sul. Demetrius I ainda lutava, e por isso Alexandre Balas mandou seu filho para longe da guerra, para ser guardado no território árabe.

A VINGANÇA DOS GUERREIROS

A paz pareceu reinar quando Demetrius I acabou derrotado por Alexandre Balas. Estava constituído um novo império gigantesco. Na ilha de Creta, entretanto, crescia Demetrius II, treinado para a guerra no mesmo lugar de onde saíam os soldados do pai. Aos 15 anos, em 147 a.C., o jovem Demetrius II também desembarcou na Fenícia com um exército de mercenários.

Demetrius investiu poderosamente contra Alexandre Balas. Um dos generais de Balas, Diodotus Tryphon, prevendo sua queda, foi à Arábia buscar o pequeno rei para coroá-lo sem demora. E Cleópatra Thea, no Egito, viu seu pai Ptolomeu tomar uma inédita decisão: ele a separaria de Alexandre para entregar a Demetrius II Nicator. O pai queria unir os reinos, mas apostava agora no outro braço da família real.

O novo casamento deu-se em Antioquia, em 145 a.C., 5 anos após o 1º casamento e estando ela pelo menos 2 anos separada do filho. Certamente 145 a.C. seria um ano terrível para todos os reis.

Tryphon era um hábil general. Em 145 a.C. ele repeliu Demetrius, que deslocou suas tropas muito a leste e acabou capturado pelas tropas da Pártia. Mas Ptolomeu já havia conquistado boa parte da Selêucida.

Enquanto o rei Ptolomeu triunfava, Alexandre chegou à Arábia, para procurar ali um asilo, mas o árabe Zabdiel mandou cortar-lhe a cabeça e enviou-a ao rei do Egito. Ptolomeu morreu três dias depois, e as guarnições que ele havia posto nas fortalezas foram massacradas pelos habitantes das cidades vizinhas. (1ª Macabeus 11.16-18)

Alexandre também deslocou suas tropas para o sul, pressionado por uma invasão vinda do Egito. Lá, ele acabou morto por um partidário árabe de Ptolomeu VI. O próprio rei do Egito acabou ferido numa queda de seu cavalo e morreu, antes do final do ano.

Assim, no mesmo ano, a rainha Cleópatra perdeu seu antigo esposo, separado à força, o novo esposo e também o pai. Mesmo ela já estava ameaçada pela sombra de Tryphon, mas ele tinha outros planos. Com Demetrius II derrotado, Ptolomeu e Alexandre Balas mortos, o general Tryphon sentiu-se muito apto a tomar o trono da Selêucida para si. O jovem rei todo poderoso (até chamado deus Dionísio) Antíoco VI era uma criança, e Tryphon tinha em suas mãos o exército. Seu único adversário era ainda o companheiro do antigo rei, nosso general e sacerdote Jônatas Macabeu.

Tryphon usou de toda astúcia e falsidade possíveis para resolver isso: primeiro convidou Jônatas a se reunir com ele em Ptolemaida, depois pediu que dispensasse seu exército, pois estava em território amigo. Jônatas consentiu, mantendo apenas 1000 homens consigo. Ao chegarem em Ptolemaida, subitamente os dois reis encontraram as portas da cidade fechadas. Era uma emboscada, e os homens de Jônatas não foram suficientes para protegê-lo. Assim Jônatas acabou preso e mais tarde executado perante os homens de Tryphon. Foi-lhe feita a tumba de um rei, e ninguém mais se oporia a Tryphon.

Em 142 a.C., no seu próprio palácio de Antioquia, o rei Antíoco IV Dionísio (com 8 anos de idade) foi executado. Tryphon noticiou que a criança morrera durante uma cirurgia, ao que ninguém acreditou. E rapidamente Tryphon coroou-se rei da Selêucida.

Quando levaram-lhe a notícia, Cleópatra declarou Tryphon inimigo de toda a linhagem dos Ptolomai e dos Selêucidas.

O RETORNO DO REI

Do 2º casamento, Cleópatra Thea concebeu dois filhos: Seleuco V Philometor (philometor = preferido da mãe) e Antíoco VIII Grypus (grypus = narigudo). Logo após o nascimento dos filhos, Tryphon fez com que seu esposo Demetrius fosse capturado. Ele permaneceu 10 anos além das fronteiras do reino, em algum lugar da Pártia...

Nesse tempo, Cleópatra encontrou um novo fiel. O irmão de Demetrius, Antíoco VII Sidetes, jurou-lhe que destruiria Tryphon. De fato, 4 anos depois chegariam notícias de que Sidetes encurralou Tryphon e o executou em sua terra natal, Apamea. Quando voltou a Ptolemaida, Sidetes pediu a mão de Cleópatra e a desposou, tornando-se o novo rei da Selêucida. E por 6 anos reinou a paz em toda terra.

Certo dia, em 130 a.C, chegou a Ptolemaida a notícia de que Demetrius havia entrado em Selêucida, com uma grande escolta de mercenários. Ele voltava do cativeiro casado com uma princesa guerreira da Pártia, Rhodogune, em sinal de sua fidelidade àquele reino. 

Cleópatra se negou a receber Demetrius de volta em Ptolemaida. Por fim ela soube, anos depois, que ele sofrera derrotas seguidas defendendo seu país contra os Ptolomai do Egito (pois a invasão não cessara). Demetrius havia se tornado um alcoólatra e foi assassinado pelas próprias tropas, quando lhe faltou meios de pagá-los.

QUE FIM LEVOU CLEÓPATRA?

Cleópatra comandou toda Selêucida e manteve relações pacíficas  com os Ptolomai por 3 ou 4 anos, enquanto seus príncipes cresciam. Dois eram filhos de Demetrius II e um filho era filho de seu irmão, chamado Antíoco IX Cyzicenus (cyzicenus = piedoso). Além disso, ela tinha mais 4 filhos que não eram sucessores ao trono. Cleópatra sabia que os herdeiros lutariam pelo trono, então tentou mantê-los alternadamente no poder à medida que completavam 15 anos. Cada qual teve a coroa da Selêucida por um ou dois anos, governando sob a tutela da mãe.

Mas o terceiro filho, Grypus, conhecido por suas habilidades de caça, mostrou-se um jovem tirano logo que assumiu o trono. Em menos de 1 ano ele desafiou o Egito demais membros da família real,  prometendo devolver o reino a uma guerra de dinastias. Em desespero, a mãe tentou matá-lo com vinho envenenado. Suspeitando do comportamento da mãe, Grypus chamou seus soldados e a obrigou a beber do vinho que lhe oferecia. Isso matou Cleópatra no palácio de Ptolemaida em 121 a.C., aos 37 anos de idade.

Com a morte de Jônatas Macabeu, seu irmão Simão Macabeu assumiu a posição de general e sumo sacerdote de Israel. Ele veria a Selêucida ruir na sua guerra de dinastias, e estabeleceria a paz com o Egito, Roma e Esparta, dando início à linhagem dos reis Hasmoneus em Judá. Eis a inscrição deixada sobre ele:

No dia dezoito do mês de Elul, do ano cento e setenta e dois, o terceiro ano do pontificado de Simão, em Asaramel, na grande assembléia dos sacerdotes do povo, dos chefes da nação e dos anciãos do país, foi declarado isto: No momento em que as guerras renasciam sem cessar no país, Simão filho de Matatias, descendente de Jarib, e seus irmãos, expuseram-se ao perigo e resistiram aos inimigos de sua raça, para salvar o templo e a lei, levando seu povo a uma grande glória. Jônatas reuniu seu povo e tornou-se o sumo sacerdote; depois foi juntar-se aos seus mortos. Os inimigos quiseram invadir o país para devastá-lo e lançar a mão sobre os lugares santos, mas então se levantou Simão. Combateu por sua nação, distribuiu uma grande parte de seus bens para armar os homens de seu exército e pagar seu soldo. Fortificou as cidades da Judéia: Betsur, que se acha na fronteira, outrora arsenal do inimigo, onde ele estabeleceu uma guarnição judia; Jope, que se acha na costa; Gazara, na região de Azot, outrora povoada de inimigos, que ele substituiu por judeus. E muniu todas estas cidades com o que era necessário para sua defesa. O povo viu o procedimento de Simão e a glória que ele queria adquirir para a sua raça. Escolheram-no para chefe e sumo sacerdote, por causa de tudo o que ele havia efetuado, pela justiça e fidelidade que guardou à sua pátria e porque procurava de todo modo exaltá-la. (1ª Macabeus 14.27-35)

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¹ Macabeus é uma palavra hebraica para “martelo”, significando uma força revolucionária da Judéia que a protegeu das influências gregas nos anos após Alexandre o Grande (330 a.C.). Os livros dos Macabeus (1 a 9) são crônicas dessa resistência dos Judeus em um mundo dominado - em todos os lados - por impérios gregos. Os dois principais livros, 1ª e 2ª Macabeus, foram preservados como partes da Torá e, depois, na Bíblia Septuaginta, de onde se originou a versão Católica. Até o séc. 16, houve consenso de que tais livros eram inspirados divinamente e portanto foram mantidos na Bíblia. Na Reforma Protestante, os livros dos Macabeus foram considerados somente crônicas de guerras humanas e portanto foram tirados do Livro Sagrado. Eles cobrem justamente o período entre a chegada dos gregos na Judéia (330 a.C.) e a dominação romana (37 a.C.).

² Os boatos sobre o tesouro dentro do Templo eram antigos (2ª Macabeus 3.2). Eles parecem ter começado com uma denúncia de Simão o Benjamita, que desejava controlar o mercado dentro do Templo. O enviado do rei Seleuco IV (irmão de Antíoco IV), Heliodorus, acabou assassinado dentro do Templo. Supostamente sua morte foi atribuída ao aparecimento de anjos em vestimentas douradas, que defendiam o lugar sagrado.

³ A reconquista de Jerusalém teve um impacto profundo na mentalidade dos judeus. A cidade sagrada estava nas mãos de judeus, o Templo foi restaurado e re-dedicado. O poderio de Jônatas como líder militar pode ser atestado por sua aliança com Demetrius II Nicator (nicator = vitorioso), rei Selêucida filho de Alexandre Balas (170-146 a.C.) (1ª Macabeus 11.42-52), com Roma e Esparta (1ª Macabeus 12.1-23). A partir da morte de Jônatas (143 a.C.), instaurou-se uma dinastia de reis judeus conhecida como Hasmoneus (140-37 a.C.). Essa dinastia clamava descendência de um alto sacerdote Hashmonay e começou com Simão Macabeu, um dos filhos de Matatias. Ele aproveitou-se das guerras internas entre as famílias Selêucidas e seus descendente manobraram relações pacíficas de poder com os Selêucidas, os Ptolomai e o crescente poder Romano, após a derrota de Cartago (146 a.C.).

* Era costume de Roma tomar por reféns os herdeiros daqueles reis que derrotava. Ao invés de confiná-los em calabouços, os romanos alojavam esses príncipes prisioneiros como hóspedes de suas famílias mais ricas. Sendo jovens, eram educados por professores romanos de forma que adquirissem lealdade ao império para, em momento oportuno, assumirem seus tronos como clientes/fiéis de Roma. Ao contrário de ser uma prática inovadora, ela já havia sido muito utilizada por Nabucodonozor II (634-562 a.C.) durante seu longo reinado entre os Caldeus. Daniel, Hananiah (Sadraque), Mishael (Mesaque), Azariah (Abednego), Ezekiel, Jeremias e Isaías estavam entre a elite de Jerusalém que foi feita refém pelos Caldeus. Os 4 primeiros, em especial, eram príncipes e foram alojados no próprio palácio de Nabucodonozor.

** Ptolemaida era a cidade natal de Ptolomeu I Soter (soter = salvador), melhor amigo e general que acompanhou Alexandre o Grande em suas batalhas. Após a morte de Alexandre, ainda jovem, ele coroou-se Faraó e fundou a nova dinastia do Egito, onde nasceram 15 rainhas denominadas Cleópatras.

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LIVROS BANIDOS DO REINO

3rd century BC - wikivividly
Antiochus, Encyclopaedica iranica, iranicaonline.org
Books of the Maccabees - wikipedia
Cleopatra Thea - wikipedia
Gilad E,  Meet the Hasmoneans: a brief history of a violent epoch, Haaretz, 23dez2014
Hasmonean dynasty - wikipedia
I Maccabees - wikipedia
Josephus, Antiquities of the Jews - Book XIII
Maccabean Revolt - wikipedia
Marans D, Baumann N, The real history of Hanukkah is more complicated than you thought, Huffington Post, 24dez2016
Millington UMC on the Fox, Old testament vs. secular historical timeline, 7ago2013
Oates H, The Maccabean revolt, Ancient History Encyclopedia, 29out2015
Onias III - wikipedia
The Onias dinasty, losthistory.com