quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Retornamos ao Velho Testamento?

"Armandinho", tira de Alexandre Beck, de 5/abr/2015

Uma curiosidade talvez pouco observada nas igrejas é a valorização do Velho Testamento (VT). Enquanto os Católicos modestamente se lembram que o VT existe, os Protestantes são muito afeitos a pregá-lo em seus cultos. E essa valorização é tanto maior quanto mais contemporânea for a filosofia da Igreja. Em muitas delas, parece que o VT já ultrapassou seu substituto mais Novo.

Seguindo a linha Igrejas Históricas > Pentecostais > Neopentecostais, o VT aparece cada vez mais nas pregações e práticas. Enquanto algumas Pentecostais adotam a última moda no séc. 19 (nascimento do Pentecostalismo!), outras descambam para regras Judaicas descritas por Paulo, o Fariseu. Chegam ao ponto de um arsenal do séc. 10 a.C. composto por cajados, água-do-rio-Jordão, tronos sagrados e arcas-da-aliança como objetos de veneração. Mais recentemente, foi erguido todo um Templo de Salomão¹ em São Paulo, feito com materiais sagrados da Terra Prometida. As mensagens pregadas também vão nessa linha: São Pedro e São Paulo para os Católicos, Daniel, Levítico e Deuteronômio para os Neopentecostais. Desafiando a roupagem antiga (alguns pastores chegam a usar barbas longas e o Quipá Judeu na cabeça), os Rabinos de hoje distam muito dos Fariseus do tempo de Jesus². Mas inovador mesmo é conciliar o VT com o Espírito Santo bradado nas congregações Pentecostais..

O VELHO VELHO

Os livros que compõem o VT, bem como sua ordem e nomes, diferem entre as denominações Cristãs. O VT Católico tem 46 livros; o Ortodoxo tem 51; o Protestante tem 39. Esses 39 livros comuns a todos os VTs Cristãos correspondem a 24 livros da Tanakh Judaica, com algumas diferenças de ordem e poucas diferenças no texto. São chamados “deuterocanônicos” aqueles livros que fazem parte dos VT Cristãos, sem estarem no Judaico, e justamente esses não aparecem no VT Protestante. Eles estão em algumas versões dos Anglicanos e Luteranos, que hoje são considerados Protestantes.

O VT e o Novo Testamento (NT) apresentam muito mais divergências do que pontos em comum. Para começar, a continuidade histórica entre um e outro, descrita nos livros dos Macabeus, não é aceita pela maioria da Cristandade. Trata-se de um período de lutas dentro de uma Israel invadida pelos Gregos e depois pelos Romanos, onde os principais líderes Judeus aliam-se aos traditoriamente aos dominadores ou sacrificam-se (literalmente) por sua tradição. Os Cristãos do séc. 4 jamais aceitaram uma Era de Mártires antes do Cristianismo, por isso deram para esse tempo inter-testamentário o sugestivo nome de Período do Silêncio (de Deus) e muitos removeram os livros dos Macabeus das suas Bíblias.

A Teologia sempre se ocupou de arrumar meios para concordar um e outro Testamentos. Por isso, a presença do VT na Bíblia Cristã representa muito mais uma alegação de continuidade do “povo de Deus” do que uma ligação histórica real. Não há dúvidas de que Jesus e seus seguidores liam a Torá Judaica, mas eles não apenas foram perseguidos e caçados pelos Judeus (devido às diferenças ideológicas) como fizeram mais aliados entre os Gregos, Turcos e Sírios do que jamais tiveram entre os Judeus. Mais tarde, o Islã também apelaria a essa “continuidade do povo de Deus” trazendo vários elementos Judaicos no Alcorão e até Jesus como um profeta, embora com uma ideologia também diferente de um e de outro, além da alegação de que todo o testemunho dos 1os Cristãos foi perdido e adulterado.

Enquanto o VT sumariamente apresenta um Deus que premia os puros, aqueles que seguem os preceitos e as leis*, o Novo Testamento traz um Deus não apenas humano e sensível à dor dos Seus filhos, mas anunciando o sofrimento de todos aqueles que O seguirem (alguém pegou a inversão, aí?). As ações humanas são simplesmente o reflexo de uma graça já alcançada sem mais pré-requisitos que a fé.

DEIXANDO O NOVO PARA TRÁS

Pareceria natural que a Igreja Cristã seguisse o NT, apelando ao VT por elementos históricos e profecias (se bem que muitas falas de Jesus e todo o Apocalipse já são bastante proféticos). De fato foi isso que aconteceu entre os Católicos e Ortodoxos, com pelo menos 1600 anos de intromissões filosóficas e históricas. Os Protestantes, que iniciaram seu movimento pelo séc. 16, começaram re-traduzindo a Bíblia a partir do Hebraico e Grego antigos para se “limparem” das possíveis alterações feitas pelos Católicos. Além disso, a maioria dos elementos históricos e tradicionais foram eliminados, ao ponto de que os templos Protestantes ficaram destituídos até mesmo das pinturas de cenas bíblicas.

O Pentecostalismo (1900s-até hoje) e o Neopentecostalismo (1970s-até hoje) foram paridos pelos Protestantes, como parte de um movimento de pregação leiga. Se o Espírito Santo pode dizer a cada um o que pregar, porque precisa ser alguém estudado em Teologia, ou mesmo que conheça o texto bíblico? Tanto um grupo como outro fazem apelos muito mais fortes ao poder divino aqui e agora, ao invés do estudo bíblico tradicional das Igrejas Históricas ou simplesmente Protestantes.

No Neopentecostalismo, as passagens bíblicas passaram a ser usadas para justificar a pregação (e não o contrário), esta geralmente afirmando que pode-se obter qualquer coisa de Deus, só não sendo o fiel atendido por falta de fé (na Igreja)**. Dado o discurso intelectual/filosófico de Paulo e a interpretação rasa da vida de Jesus pelos evangelistas (João é diferente), precisamos concordar que o VT se parece muito mais exato, fácil de entender. E também está mais vinculado aos procedimentos mundanos/carnais sobre o que as Igrejas Pentecostais e Neopentecostais se apoiam.

Através do VT, um pastor pode cobrar roupas, falas e ações da sua congregação. Como ele faria com um Jesus extremamente desobediente e libertário para distribuir graça? Numa época em que cada Cristão torna-se slogan vivo da sua Igreja (e elas são variadas como os grãos de areia da praia, no Neo/Pentecostalismo), inclusive na internet e na televisão, é preciso mostrar. Os valores de “amor a Deus” e “amor ao próximo” são infelizmente muito mais difíceis de retratar do que jargões como “estou na fé”, “está amarrado em nome de Jesus” ou o sucesso financeiro, simbolizado por carros, casas, empresas e roupas de grife. Os testemunhos de sucesso e cura, então, como negar tal poder de Deus?

Desde os anos 1980, o Catolicismo tem perdido espaço no cenário religioso brasileiro. E o grande responsável por isso tem sido a expansão rápida do Pentecostalismo e do Neopentecostalismo. Essa mudança, além da troca de ideologias, representa uma valorização crescente do VT nas igrejas. Por tradição, o Catolicismo preparou os brasileiros para uma postura passiva nos cultos. À medida que essas pessoas migram para igrejas Neo/Pentecostais, com mais participatividade, muitos assumem a função de pregadores leigos que são identificáveis pelo linguajar, roupas, ações. Essa "identidade Cristã" equivale mais ou menos aos homens puros do Templo na época de Jesus.

Não estamos falando de mestres, doutores, Saduceus ou Fariseus, mas dos homens preferidos que formavam a linha de frente gritando “Crucifica-o!” diante de Pôncio Pilatos. Homens corretos, honrados e reconhecidos pelos sacerdotes, que eram chamados a ler as Escrituras nas Sinagogas. As Igrejas Neo/Pentecostais em geral têm esse grupo seleto.

QUASE CRISTÃOS

O grupo são aqueles que proferem mensagens, testemunhos e visões confirmando a mensagem do pastor. São pessoas santas (ou seja, puras), elevadas por obras feitas em acordo com a Igreja. Para um Deus que usou até mulas falantes e um Messias que distribuía graça de graça, aos quatro ventos, o grupo seleto talvez pareça uma boa piada. O Jesus que fisgou seus seguidores entre homens incultos, de fé duvidosa, romanos e mulheres mal-vistas talvez premiasse esse grupinho “santo” com gargalhadas regadas de água feita em vinho. Mas não era assim entre os Judeus: os mais puros e corretos eram dignos de Deus, eram aqueles teoricamente protegidos (na verdade, os Romanos trucidaram todos que não tivessem alguma ligação com eles, em 70 d.C.). Por isso, não seria errado disparatar que a valorização do VT nas Igrejas Neo/Pentecostais está muito em acordo com uma fé Cristojudaica, ao invés de algo Cristão.

No VT, a base da fé era a Lei de Moisés, com preceitos bem específicos. Alguém que os violasse traria desgraça a todo o povo e deveria ser excluído ou morto. Haviam atenuantes muito poderosos, como o próprio Jesus salientava (ex. quando Davi e seus homens comeram os pães do Templo), além dos profetas itinerantes que construíram grande parte da tradição Judaica enfrentando e consagrando reis. Mas esses profetas desapareceram após o Exílio Babilônico, e nem Ageu, Zacarias, Malaquias, Ana, Simeão ou João Batista chegaram a gozar de uma fração do respeito devido a predecessores como Samuel, Natã, Elias, etc. Os últimos profetas tiveram de lidar com reis e sacerdotes mais duros, mais politicamente engajados e atrelados a uma rede de poderes fora do Templo.

No NT, “amar a Deus acima de todas as coisas” representa um compromisso religioso acima de toda autoridade, além de uma busca da imitação de Jesus. No Neo/Pentecostalismo poderia significar instruir-se diretamente com o Espírito Santo. Já “amar o próximo como a si mesmo” conduz, no seu extremo, a um comportamento de cuidado com o outro e busca de igualdade. Na prática, muitas vezes significa auto-sacrifício. A igualdade afrontava Fariseus e Saduceus, assim como era blasfêmia para os Católicos antes do séc. 18 e passou a ser um absurdo leviano para os Neo/Pentecostais mais recentes. O auto-sacrifício, valorizado pelos Católicos na Idade Média (e não depois), ressurgiu entre os Neo/Pentecostais de uma forma tremendamente empresarial: ninguém se sacrifica pelo próximo, isso viola a coletividade, o rótulo. O Cristão se sacrifica pela instituição Igreja, e assim alcança (o rótulo da) graça.

A Lei e a exclusão estão bem presentes nas Igrejas Protestantes atuais; na verdade é o principal motor da cisão de congregações e nascimento de novas denominações Neo/Pentecostais. Os atenuantes são raros, na falta de autoridades religiosas extra-congregação. Os profetas itinerantes existem, mas não com poder. O compromisso religioso foi devotado às Igrejas enquanto rótulos. A imitação de Jesus está fora de moda. O Espírito Santo não se atreve muito a falar fora do culto, salvo em sonhos e visões que são, na verdade, uma combinação do velho e pagão shamanismo (informações vagas recebidas espiritualmente) com o “pensamento positivo” de Schopenhauer***. Amar ao próximo só entre santos e olha lá. Cuidado com alguém e busca de igualdade, logo serão estipulados como crimes contra a meritocracia. Dessa forma, pela negação de quase tudo no Cristianismo bíblico e adoção de vários elementos do VT, será que o NT ainda nos é algo importante?

Os Católicos e Ortodoxos ainda usam o NT, porém com participação mais legislativa do que próxima ao público. Não podemos negar alguns movimentos bastante genuínos (como os Franciscanos) ou bastante controversos (como a Teologia da Libertação). Os Protestantes tradicionais, ao menos no Brasil, se fecharam em seus grupos, às vezes misturados a ou imitando organizações comerciais como a Maçonaria. Os Neo/Pentecostais envolveram-se na mesma estrutura de títulos e influências que caracterizava a Igreja Medieval.

Havendo um Templo de Salomão, estamos no aguardo das piscinas milagrosas e reinício dos sacrifícios animais para espiação.

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¹ O Templo era o centro de culto Judeu, onde o próprio Deus vinha à Terra. O primeiro Templo foi erguido por Salomão antes de 930 a.C. O Templo foi destruído na invasão de Jerusalém por Nabucodonosor em 587 a.C. Mais tarde, quando Ciro o Persa libertou os Judeus, eles reergueram o prédio em 515 a.C., que ficou conhecido como Segundo Templo. Em 167 a.C., durante a invasão dos Gregos, os sacerdotes foram mortos e o Templo foi profanado com uma estátua de Zeus, terminando por ser abandonado. Em 165 a.C., Judas Macabeu, 2º na linhagem que lutava contra o domínio estrangeiro, re-dedicou o Templo. Herodes o Grande, rei da Judéia subordinado a Roma, iniciou obras de expansão do Templo, que terminaram por volta de 19 a.C., quando o prédio ficou conhecido como Templo de Herodes. O edifício foi incendiado e demolido por Roma durante a rebelião da Judéia, em 70 d.C.

O Templo de Salomão brasileiro foi terminado em 2014, sendo a sede mundial da Igreja Universal do Reino de Deus, no bairro do Brás, em São Paulo. Sua construção seguiu as descrições bíblicas do 2º Templo, utilizando pedras vindas de Israel.

² O Judaísmo, como todas as religiões antigas, sofreu grandes transformações ao longo do tempo. Como religião organizada, o Judaísmo surgiu a partir de Moisés (aprox. 1400 a.C.), durante o deslocamento para o sul ao longo do Mar Vermelho, pelo sul das montanhas Sinai e depois para o norte pelo Golfo de Aqaba, na tenda-tabernáculo erguida pelo profeta. O Judaísmo desenvolveu-se mais ou menos em templos independentes, visitados e presididos por profetas itinerantes, em meio às várias religiões de Canaã, até o séc. 7 a.C. Pouco depois que o Judaísmo foi unificado pelos sábios do rei Josias (o que resultou na Torá, ou história), as terras foram tomadas por pelo rei Nabucodonosor, da Caldéia. O retorno dos Judeus sob o governo Persa marcou a organização dos Talmudes (tradição oral = Mishná + discussões dos anciãos = Guemará).

A partir da re-dedicação do Templo em 165 a.C., numa Judéia dominada pelos Gregos, os Judeus se dividiram em grandes clãs: Fariseus (fundamentalistas crentes no Talmude, contrários à adoção de costumes Gregos), Saduceus (fundamentalistas da Torá, rejeitavam o Talmude e eram abertos aos costumes Gregos) e Essênios (devotos de uma vida simples ao extremo e inspirada por visões, como João Batista).

Após a destruição de Jerusalém (70 d.C.), os Fariseus conduziram uma unificação dos Judeus dos diversos clãs, tornando-se muito menos rígidos em prol da preservação de sua cultura dentro do mundo Romano. Esse período dos Rabinos viu a organização de diversas “escolas” de estudiosos voltados a discutir, preservar e estudar os escritos antigos. A Tanakh (Bíblia Judaica) foi organizada até o séc. 5 d.C., quando passou a ser usada também como parte da Bíblia Cristã.

* Jó, Eclesiastes e Ezekiel argumentam contra isso. Jó se apresenta como modelo de pureza e perseverança, enquanto lhe são destinados sofrimentos e o tormento sentencioso dos “amigos”, que o estudam para estabelecer a causa das suas agruras. O Livro de Jó é sobretudo uma peça moral contra as fantasias que possamos fazer a respeito do julgamento de Deus. Eclesiastes, supostamente (mas provavelmente não) escrito pelo rei Salomão, traz uma visão pessimista sobre o quanto tudo é passageiro e pouco proveitoso ao homem. Sendo um livro moral, Eclesiastes anuncia que justos e injustos são agraciados com o que não mereceram, terminando todos com o mesmo fim. Ezekiel (622 a.C. - 570 a.C.) foi um dos profetas deportados na invasão de Jerusalém por Nabucodonosor (os outros foram Isaías, Jeremias e Daniel). Sendo o livro com mais referências geográficas e temporais da Bíblia, o texto filosófico de Ezekiel continuamente questiona Deus: “até quando o ímpio vai prosperar?”.

** Na verdade, o Judaísmo dos Fariseus e Saduceus, na época de Jesus, já se assemelhava ao Neopentecostalismo atual. Os Judeus estavam havia 3 séculos sob domínio estrangeiro e um homem tinha poucas possibilidades de ascensão social a menos que se aliasse aos governos estrangeiros, o que era vergonhoso segundo a lei Mosaica. Por outro lado, a mesma lei expressava que o justo prosperaria. Então, as classes dominantes - aliadas de uma forma ou outra aos estrangeiros - argumentavam por sua prosperidade através de uma pureza que João Batista e Jesus jogavam continuamente em seus rostos.

*** O filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) divulgou a idéia de que todo o mundo como o conhecemos é a expressão de uma confusa teia de vontades e pensamentos. Não necessariamente a matéria reflete o que alguém pensa, mas a forma como percebemos a matéria depende desse pensamento. Sua obra “Die Welt als Wille und Vorstellung” (O mundo como vontade e representação) divulgou a idéia de que era possível mudar completamente a nossa visão de mundo através de treinos mentalistas.

Essa filosofia se tornou muito popular no séc. 19, sendo deveras aproveitada por Phineas Parkhurst Quimby (1802 - 1866), um relojoeiro estadounidense que nos anos 1830-1840 ficou famoso por seu trabalho de indução mental terapêutica. Uma de suas aprendizes fundou a Igreja da Ciência Cristã em 1879, dando início a uma sacralização do Pensamento Positivo como forma de oração e, claramente falando, controle da intenção de Deus.

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Arthur Schopenhauer - wikipedia
Bible - wikipedia
Brown W, Early Judaism, Ancient History Encyclopedia, 25out2017
Hanukkah - wikipedia
Pharisees - wikipedia
Phineas Quimby - wikipedia
Old Testament - wikipedia
Oliveira CJ, Costa PC, A cristologia neopentecostal no Brasil pós-moderno: continuidade e ruptura, Tese de doutorado em Teologia na PUC-Rio, 2016
Second Temple - wikipedia
Solomon's Temple - wikipedia
Student G, O que é o Talmud?, chabad.org.br
Tirasarmandinho - facebook.com
Wilson RF, The route of the Exodus, jesuswalk.com

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

A Caridade está fora de moda

"Pode ser hora de deixar por completo de criticar ou de falar do capitalismo. Pode ser hora de começar a criticá-lo ignorando-o por completo e passando a contar histórias sobre alternativas superiores – histórias que pertençam ao domínio do passado, do presente ou do imaginado, porque não faz diferença. Todas as histórias falam do ser humano e ao ser humano falam."

Fazendo uma homenagem ao texto de Paulo Brabo.

A Caridade é uma coisa que temos sido desensinados a fazer, ao ponto de a acharmos, hoje em dia, abusiva e mal intencionada. Com certeza, quem faz Caridade estimula a preguiça, o "pedir sem precisar", o "aproveitar-se da boa vontade alheia". No dicionário atual, Caridade indica uma prática Cristã, ou pelo menos uma qualidade moral e espiritual de amor pelo próximo. No dicionário tiagológico bíblico, Caridade traduz esse amor em ajudar os desvalidos, dar ajuda ou donativos aos pobres, dar esmola. No linguajar cristológico de Lucas, é compaixão e benevolência em relação a alguém que se encontra em situação difícil (pode até ser um viajante Jerusalense encontrado por um Samaritano). O dicionário português sugere que Caridade é sinônimo de filantropia, humanitarismo, benevolência, piedade, favor, benefício.

Se o mundo fosse repleto de Caridade, ninguém precisaria se descabelar com as contas. Bastaria dizer ao cobrador que não pode pagar e, além do perdão ele talvez até lhe desse algo. A Caridade, seja como forma ideológica ou espiritual, se faria carne ao impedir ele de cobrar de alguém menos afortunado e ainda instigaria que lhe oferecesse ajuda gratuita. Por outro lado, essa mesma Caridade impediria você de fechar as portas de casa, mesmo à noite; pois como você negaria dar ao próximo aquilo que tens e ele não? Agindo sobre o mundo desvairadamente, a Caridade seria um agente tão esquerdista que renegaria a necessidade de um governo: com todos se ajudando mutuamente, em muito poucas coisas precisaríamos de alguém decidindo pelo outro ou mesmo tendo de julgar alguma disputa.

Quando Jesus ensinava sobre fazer Caridade (e não há como desvincular ela do “amor ao próximo”, até porque ambos são ensinados nas mesmas passagens), Ele também estava pregando algo que, naqueles tempos, era terrivelmente anti-romano e anti-judeu. Os romanos organizavam sua vida segundo as decisões de uma hierarquia superior. Embora sua ordo seclorum, ou "a forma como o mundo funciona" estivesse atrelada à prosperidade de toda nação, estava muito mais obediente à prosperidade e propriedade de algumas famílias que faziam toda a costa do Mediterrâneo girar ao redor de si. Isso não era absolutamente ruim para o povo, visto os problemas que surgiram quando Roma se espedaçou; mas várias vezes as famílias reais sacrificaram cidades inteiras para obter o que consideravam seu direito. Dessa forma, Roma tinha um pé no que se poderia chamar de Anti-caridade, ou seja, prejudicar o próximo para que eu seja beneficiado.

Pouco tempo depois, tomado de amor por um Jesus que conheceu depois de morto, Paulo rabiscou para seus seguidores de Roma, Éfeso e Corinto que a graça de Deus é distribuída imerecidamente. Podemos até supor que Jesus pensasse assim, visto a variedade de pessoas que Ele ajudava e ensinava, indo de centuriões romanos a leprosos e mulheres adúlteras. Seu preço parecia ser apenas a fé, coisa que não é rara em alguém desesperado. Se Jesus professava essa graça imerecida, que não exigia sequer o cumprimento dos muitos preceitos Judaicos, podemos entender porque a alta classe de Jerusalém o detestava. Em suma, Jesus desdenhava de seus pilares Romano - a autoridade - e Judeu - a pureza ritual. Com Ele ninguém tinha graça porque ela foi concedida de algum superior, nem porque foi merecida, nem porque foi herdada. Nada de meritocracia.

Nem lá no séc. 1 o mundo de Jesus cabia nesse mundo aqui, mesmo sendo totalmente gratuito. Os 1os discípulos já descobriram que, para fazer o que o Deus Vivo ordenara, seria preciso erguer uma cerca, fazer um grupo fechado, separado do restante, com outras regras ou, na exata interpretação da palavra, um grupo “santo”. O complicado era que, segundo o Mestre, eles também deveriam ir a todas as pessoas e convidá-las para seu grupo, que era dentro de onde a Caridade podia ser feita livremente. Indo ao ápice na famosa ceia com os doze, Jesus lavava os pés de quem o seguia e dividia tudo conforme cada um quisesse, para desfazer a noção da Anti-caridade de que uns podiam ser expropriados em favor de outros. Viver assim era muito anti-romano e aceitar qualquer um ao grupo era também muito anti-judeu. Por isso Ele estava cultivando algo que dependia do amor dos de fora, mas que tinha a cultura daquela época e lugar ensinando todos a odiar e temer.

Se olharmos como a ideia de Caridade se espalhou pelo tempo e espaço (nós a colocamos no dicionário com as referências do Oriente Médio do séc. 1), veremos que ela apaixonou a muitos. Jesus sabia o quanto era atraente; até avisou Seus seguidores que morreriam por ela, sabendo que nem assim eles desistiriam. Os missionários da diocese de Alexandria (Egito), nos sécs. 4 e 5, possivelmente foram os 1os responsáveis por levar isso Europa adentro. Sua estratégia não foi muito diferente do pessoal descrito em Atos dos Apóstolos: formaram grupos fechados, onde se praticava a Caridade, convidando todos a entrarem. E logo perceberam que, para alimentar um grupo assim, que dá gratuitamente, era preciso fazer um acordo com a Anti-caridade. Seria dada a graça aos mais ricos em troca de algum dinheiro, não mas de graça. Com esse dinheiro poderiam ajudar os pobres que esses mesmos ricos expropriaram. A Igreja entrou no circuito da autoridade e passou até a considerar o merecimento, pois eram bocas demais a alimentar e o conforto do dinheiro era bem merecido pelos santos.

Foi muita evolução e revolução até os dias de hoje, mas vimos a Igreja daquele que desafiava Romanos e Judeus fazer extermínios até piores do que os feitos pelos primeiros. Hoje, nem pensamos mais em encontrar a graça dando sopa por aí, muito menos a Caridade, e esta última não esperamos encontrar sequer dentro dos redutos da Igreja. Francisco de Assis, nascido na Itália do séc. 12 e tido como o 2º Cristão mais reverenciado desde Jesus, fez exatamente essa barbaridade. Também visitado por um Jesus re-afirmando sua culpa na ideia, como Paulo ele jogou para o alto seu merecimento e desafiou as autoridades quando, diz-se, criou um grupo de ambulantes dedicados à Caridade. Mas até os seguidores de Francisco - que não poderiam ser melhores que os de Jesus - quase sempre encontram-se trancafiados em círculos de santos, protegidos e à margem do mundo que a Anti-caridade governa. Mas aquela coisa plantada pelo Nazareno continuou apaixonante, tentadora pelo quanto é fácil e gratuita.

O mundo não tem outra alternativa a não ser fazer que tudo e todos ao nosso redor fale contra a Caridade. Aquele que pede ajuda na rua certamente não a merece: provavelmente vai usar qualquer dinheiro para comprar drogas ou beber. Aquele conhecido que está endividado, com certeza não estudou ou não trabalhou tão bem que pudesse garantir um futuro próspero. Até o rapaz mal educado na padaria não teve boa família ou educação que o ensinasse a se portar. A Anti-caridade faz questão de escancarar a falta de merecimento, de autoridade e de pureza, e muitas vezes não está mentindo.

Mas a questão de Jesus é justamente mandar isso às favas, porque a Caridade só se importa em ajudar, em igualar, sem sequer esperar um obrigado. Fora dos círculos de santos protegidos, até contratuados com o oposto da Igreja de Jesus, a Caridade pode ser, hoje, tudo que nos resta para semear o que Jesus teve a ufana ambição de chamar de Reino.

“Mas a economia demonstra que a desigualdade social atrapalha o crescimento, veja os números” tem a mesma precisa eficácia de dizer “mas Deus é amor, leia o versículo”. Defender a ciência econômica é como defender Deus: é inútil e contraproducente, e não é da índole nem de um nem do outro.

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Papai Noel avisou que não passaria lá

Bacelar T, A maquina da desigualdade, Le Monde Diplomatique Brasil, 8/nov/2007
Mapa das desigualdades do Distrito Federal 2016 - movimentonossabrasilia.org.br
Mapa da desigualdade na Grande São Paulo 2017 - nossasaopaulo.org.br
Pernías TR, O crescimento da desigualdade no capitalismo contemporâneo, Le Monde Diplomatique Brasil, 14/dez/2018

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Congo 1900 - a lembrança de uma barbárie que os livros apagaram

Vítimas do Estado Livre do Congo e os ingleses que denunciaram Leopold II. Estas não são as piores imagens da época, que incluem soldados belgas enforcando crianças e pais chorando ao lado de partes dos seus filhos esquartejados.

Muitos experimentos antropológicos e psicológicos feitos no pós-2ª Guerra mostraram como pessoas comuns, educadas segundo os valores tradicionais de cultura e religião, podiam ser levadas a reproduzir as crueldades perpetradas contra os Judeus se estivessem imersas no ambiente adequado. Especialmente com os facilitadores e pressionadores sociais voltados para que tais atrocidades fossem premiadas e a hesitação ao fazê-las, punida.

Estamos novamente em tempos nos quais a Igreja brasileira (e não só aqui) se volta para favorecer uma organização de cima para baixo, hierárquica, quase militar de atuação. Por isso, tendo passado recentemente talvez um dos últimos feriados da Consciência Negra, trago aqui o lembrete de uma atuação particularmente nefasta de homens brancos e negros, guiados por essa frutífera organização vertical de poder, sobre uma região particularmente castigada da raça humana, o Congo. Como a nossa Educação despreza por completo a África e o Oriente Médio, provavelmente você jamais ouviu falar da terrível história do Congo. Talvez nem sequer saiba onde fica essa região e as almas que vivem lá. Geograficamente, trata-se de uma grande planície da África Ocidental bem na mesma latitude que o estado do Amapá, ao redor do rio Congo, onde hoje se encontram a República Democrática do Congo, o Congo, República Centro-africana e Guiné. Historicamente, ali floresceram os povos negros Kongo e Hausa na antiguidade, os 1os colonizados por Portugal e os últimos pelo Islã, que chegou através das caravanas do Saara e pelos Malí.

No séc. 16, o reino Kongo era bem pouco urbanizado, em comparação com outros reinos da África Ocidental. Havia uma capital na margem sul do rio, muitos quilômetros acima do litoral, com cerca de 100 mil habitantes e fartas áreas agrícolas ao redor. O rei (Manikongo) Nzinga foi levado a conhecer Portugal e retornou chamando-se João I, convertido ao Cristianismo Católico e junto com vários religiosos. Ele e seu sucessor, Afonso I, criaram uma versão sincrética do Catolicismo misturado à religião animista tradicional (resultando algo parecido com a Umbanda brasileira e a Santeria caribeña). Havia terrenos sagrados, como o cemitério dos reis, e a palavra para Bíblia era nkanda ukisi, algo como livro-amuleto. Essa religião (os grupos se auto-denominam Católicos, apesar da vertente afro) permanece muito disseminada no Congo até hoje.

Longe da capital, a população do Congo estava organizada em aldeias agrícolas de uma centena de pessoas próximas aos afluentes do grande rio. Os missionários Católicos e Protestantes contribuíram na interiorização da região pelos europeus a partir de 1850; as missões, além de evangelistas, abriram caminho para as empresas colonizadoras estabelecerem postos comerciais. Longe de serem postos de desenvolvimento, tais instalações direcionavam os produtos extrativistas (marfins, como se isso significasse fazer uma colheita) para os portos no Atlântico em troca de pagamentos mínimos à população ou, ainda, apenas ao governante local, muitos estabelecidos à força de armas pelos colonizadores. Graças a uma miríade de tratos comerciais, de empobrecimento de algumas nações e enriquecimento de outras, ao final do séc. 19 o Congo era habitado por cerca de 20 milhões de pessoas, metade delas Cristãos, repartido entre a Bélgica e a Inglaterra.

A DENÚNCIA

Foi Joseph Conrad, o escritor inglês e aventureiro, quem primeiro descreveu as condições de ocupação do Congo em 1889, quando esteve na África. Seu famoso livro Heart of Darkness (O Coração das Trevas) refletia as próprias experiências. Tendo navegado para o interior do Congo em um barco a vapor, ele ouviu pessoas e testemunhou abominações que chocaram a Europa. Ele descreveu como até mesmo as mentes mais bem intencionadas, encapsuladas na figura fictícia do agente de marfim Kurtz, poderiam afundar nas profundezas da depravação, insanidade e maldade, ante a disponibilidade de riquezas e ausência de restrições morais. E estamos falando aqui de europeus Cristãos, que aprenderam sobre “amai-vos uns aos outros”...

Na década de 1880, dezenas de europeus aventureiros ou com apetite por riqueza rápidas desembarcaram no Congo em resposta ao chamado colonial de "civilizar e desenvolver”. Isso literalmente significava participar de uma empresa de comércio ou posto do governo cuja principal obra era extrair o máximo de marfim possível (quem precisa dos elefantes que Deus criou?). Havia uma pressão enorme, desde o rei belga Leopold II até o gerente mais humilde, para obter esse marfim a qualquer custo. Além disso, disputavam espaço a noção de que os africanos deviam conhecer a Cristo e a noção de que simplesmente não eram humanos, e portanto não valiam mais do que a caça. Enquanto na América os escravos eram chicoteados até certo ponto para que não morressem, pois eram caros, no Congo esses “animais” eram gratuitos, disponíveis aos montes em cada aldeia.

A fartura de marfim no Congo e a disponibilidade de escravos para coletá-lo logo fizeram a região ganhar notório interesse da coroa Belga. Ao invés de estabelecer o Congo como uma colônia tradicional, o rei Leopold II usou de todas as artimanhas legais para propagandear a necessidade iminente de desenvolver e cristianizar a região, trazendo-a para a luz da civilização, para o que precisava ter o Congo como sua propriedade particular, sem interferência do Estado. Sua petição foi baseada na expedição de Henry Morton Stanley, famoso por ter encontrado o missionário Britânico David Livingstone em 1871 (descrito em seu livro “Through the Dark Continent”). Não conseguindo atrair o interesse Britânico para a região do Congo, Stanley começou a trabalhar para o rei Leopold, organizando a construção de uma estrada. Enquanto percorria as aldeias, Stanley estabeleceu tratados com os chefes locais onde nenhum deles tinham idéia de que assinando um papel estavam transferindo suas terras ao rei Belga. Na Conferência de Berlim em 1885, Leopold II apresentou seu planos de banir o tráfico de escravos na região, combatendo mercadores árabes do Zanzibar como Hamad bin Muhammad bin Juma bin Rajab el Murjeb (conhecido por Tippu Tip). As reivindicações e documentos trazidos pelo rei Belga foram tidas em grande honra e uma pequena parte da região ficou sob administração conjunta dos parlamentos Inglês e Belga, enquanto a maior parte das terras foi atribuída ao rei como seu direito privado, o que ficou conhecido como Estado Livre do Congo. Mas as alegações de Leopold II não podiam ser mais falsas...

BORRACHA

A descoberta de látex no Congo mudou todo o curso da história.. Conrad retrata o que viu em Heart of Darkness quando seu protagonista, Marlow, descreve a chegada de alguns infelizes que haviam trabalhado até a morte e foram abandonados, como se fossem animais dispensáveis.

Formas negras agachadas ou deitadas, sentadas entre as árvores, encostadas nos troncos, agarradas à terra, meio que saindo, meio apagadas na penumbra, em todas as atitudes de dor, abandono e desespero... Estavam morrendo lentamente - era muito claro. Eles não eram inimigos, não eram criminosos, não eram nada terreno agora - nada além de sombras negras de doença e fome, confusos na escuridão esverdeada. Trazidos de todos os recessos da costa em toda a legalidade dos contratos, perdidos em ambientes incontestáveis, alimentados com comida desconhecida, eles adoeceram, tornaram-se ineficientes, e então foram autorizados a rastejar para longe e descansar para sempre…” (Conrad J, Heart of Darkness)

Esses primeiros rumores da máquina de exploração do rei Leopold II não eram nada comparados com o que viria a seguir. Apesar dos esforços da administração colonial para aumentar a produção, os lucros do comércio de marfim não conseguiam acompanhar os custos de urbanizar a Bélgica com obras portentosas. Leopold, cada vez mais desesperado à medida que as dívidas se acumulavam, teria que encontrar outra maneira de garantir sua fortuna. A inocente criação, por volta de 1888, do primeiro pneu inflável pelo inventor escocês John Boyd Dunlop (então usado somente em bicicletas) sem querer deu um passo gigantesco rumo à industrialização do transporte. O próprio Dunlop começou a fabricar pneus em 1890, sendo seguido por uma legião de empreendedores.

As vendas de látex decolaram. Quase da noite para o dia, a borracha bruta tinha a lucratividade do ouro e vários países no mundo se dedicaram a sua produção. Brasil, Indonésia e o Congo despontaram entre os grandes produtores de borracha para a indústria européia. Diferentemente das árvores seringueiras que eram plantadas em todo entorno da Amazônia no Brasil, a borracha do Congo vinha de videiras ou trepadeiras nativas (Landolphia owariensis gentilii), espalhadas por toda a mata da região. Retirar o látex geralmente significava rasgar a planta com uma faca. E o lucro fabuloso que o mercado de borracha oferecia (algo da ordem de 10 000%) dependia basicamente da colheita dessas trepadeiras e de levá-las ao mercado em quantidade máxima, com a máxima rapidez e eficiência. Por isso foram feitos acordos com companhias de exploração, distribuídas concessões territoriais e facilitada a criação de uma força de trabalho massiva. Essas companhias eram projetadas para levar os congoleses a produzir borracha implacavelmente, num período que ficaria conhecido como o "Terror da Borracha".

ABIR

A história de apenas uma dessas empresas já lança muita luz sobre a natureza do empreendimento. A Anglo Belgian India Rubber (Empresa Anglo-Belga de Borracha da Índia, ou ABIR), foi criada em 1882 pelo coronel britânico John Thomas North, que fez uma fortuna especular extraindo salitre no Chile. Ele reuniu investimentos Ingleses e Belgas, recebendo de Leopold II a concessão exclusiva de exploração no norte do Congo em 1892. Essa exploração era feita taxando os habitantes como num sistema feudal, isto é, cada aldeia e cada pessoa devia entregar semanalmente uma quantidade de látex à empresa colonial, pelo direito de habitar as terras que anteriormente eram dos seus ancestrais. Mas sair da terras também não era uma opção.. O sistema de coleta da borracha girava em torno dos “postos de desenvolvimento” ao longo dos dois principais rios da concessão. Cada posto era comandado por um agente europeu e tinha guarnições armadas para impor pagamentos e punir os rebeldes.

A ABIR aproveitou bem o “boom” do preço do látex no final da década de 1890, vendendo 1 Kg de borracha na Europa por até 10 francos, o que lhes custara apenas 1,35 francos para coletar e transportar. Esse dinheiro, ainda, eram os gastos em munição dos agentes, não o que era pago aos congoleses. Estes eram ameaçados com prisão, flagelação e outras punições corporais. Como a coleta destruía as trepadeiras de onde o látex era extraído, o processo de extração fazia elas se tornarem cada vez mais escassas e, em 1904, os lucros começaram a cair. Durante o início do século XX, a fome e a “doença do sono” se espalharam pela concessão, um desastre considerado “natural”. Os anos 1900 viram revoltas generalizadas contra o domínio de ABIR e tentativas de migração em massa para o Congo Francês ou para o sul. Esses eventos normalmente resultavam em a ABIR mobilizar um exército para “restaurar a ordem”.

Esse exército eram 50-100 “sentinelas armadas” por posto, na maioria das vezes unidades da Force Publique de Leopold II, mas também poderia significar ex-escravos, ex-prisioneiros ou aldeões locais mais egoístas, ansiosos por serem elevado ao status de "policiais" (recusar o recrutamento era punido com a morte). Esses Askaris ou recrutas andavam armados com fuzis e chicotes, sendo regularmente enviados pela ABIR contra as aldeias para disciplinar e punir. Homens, mulheres e crianças deviam se esforçar até a morte para conseguir a cota de látex exigida, abandonando plantações e a própria alimentação, pelo que apenas o líder da aldeia recebia, quando muito, algumas quinquilharias.

ATROCIDADES

Ao contrário da obra de Joseph Conrad, no Congo de 1900 não havia apenas um “Kurtz” descontrolado em sua ambição, mas havia muitos “Kurtz's” em altos postos da ABIR e também na Force Publique. Mais recentemente, outro livro que abordou essa tragédia humana foi “The King Leopold’s Ghost” (O Fantasma do Rei Leopold), de Adam Hochschild, um historiador que decifrou Kurtz como possivelmente um Belga de nome Leon Rom. Este era um um rapaz de pouca instrução que se juntou ao exército com 16 anos em 1880 e, aos 25, estava servindo no Congo, em busca de aventuras. Ele tornou-se comissário de distrito em Matadi e mais tarde foi encarregado das tropas Askari. A brutalidade de Rom não conheceu limites. Era tal que até os brancos servindo junto a ele ficaram chocados.

"Quando Rom era chefe de estação em Stanley Falls", revela Hochshild, "o governador-geral enviou um relatório a Bruxelas sobre alguns agentes reputados por ter matado massas de pessoas por razões mesquinhas". Ele menciona o notório canteiro de flores de Rom, enfeitado com cabeças humanas, e acrescenta: "Ele mantém uma forca permanentemente erguida em frente à estação".

Enquanto o sistema feudal se estendia pelo Congo como uma praga, a resistência naturalmente aumentava. Muitos congoleses fugiam para dentro das florestas ou através das fronteiras, alguns até contra-atacando, outros arrancando as trepadeiras de onde vinha o látex. Para enfrentar essa resistência, os agentes da ABIR simplesmente aumentaram suas crueldades na forma de ataques punitivos em aldeias. Foram feitos muitos massacres para servir de exemplo a outras aldeias. Os congoleses capturados eram chicoteados, espancados e mutilados, especialmente as mulheres e crianças, pois os homens eram mão de obra necessária à colheita do látex.

Como o Congo oferecia muita caça, especialmente aos mercadores de pele e marfim, Leopold II criou uma legislação que dava poder de matar aos oficiais que soubessem do desperdício de balas. Desperdiçar balas significava atirar em animais, não em seres humanos: o Congo recebia, mensalmente, carregamentos fartos de munição. Para cada cartucho disparado, os soldados da Force Publique deviam entregar a mão direita do homem que tivessem matado, como prova de que fizeram “bom uso” da munição. Mas ao invés de coibir a caça “ilegal”, qualquer soldado que atirasse em um animal passou a simplesmente decepar a mão direita do primeiro aldeão que encontrasse. Estabeleceu-se, até, um comércio de cestos cheios de mãos humanas recolhidas pelos Askari e usadas como moeda de troca por marfins e peles. Embora os livros de história não contem, essa prática de decepar mãos também foi usada por Cristóvão Colombo na ilha caribenha de Hispaniola (Haiti+ República Dominicana), onde ele e seus oficiais massacraram o povo nativo Taino para cumprissem suas pesadas cotas de ouro e algodão.

Mas voltemos a um exemplo mais detalhado de como outro "Kurtz", o comissário distrital Leon Fievez, reforçou o Terror da Borracha no Congo, novamente citando o livro de Hochshild. Um padre católico que registrou histórias orais meio século depois cita um homem, Tswambe, falando de um oficial do estado particularmente odiado chamado Fievez, que aterrorizou um distrito ao longo do rio 300 Km ao norte de Stanley Pool:

Todos os negros viram este homem como o diabo... De todos os corpos mortos no campo, você tinha que cortar as mãos. Ele queria ver o número de mãos cortadas por cada soldado, que tinha que trazê-las em cestas... Uma vila que se recusasse a fornecer borracha seria completamente limpa. Quando jovem, eu vi o soldado Molili [de Fievez], então guardando a aldeia de Boyeka, pegar uma rede grande de pesca, colocar 10 homens presos nela, amarrar em grandes pedras e jogar no rio. A borracha causou tormentos; é por isso que não queremos mais ouvir o seu nome. Soldados fizeram homens jovens matarem ou estuprarem suas próprias mães e irmãs.

Um oficial da Force Publique que passou pelo posto de Fievez em 1894 cita o próprio Fievez descrevendo o que ele fez quando as aldeias vizinhas não conseguiram abastecer suas tropas com o peixe e a mandioca que ele havia exigido: “Eu fiz guerra contra eles. Um exemplo foi o suficiente. Uma centena de cabeças foi cortada, e desde então há muitos suprimentos na estação. Meu objetivo é basicamente humanitário. Eu matei cem pessoas... mas isso permitiu que outras quinhentas pessoas vivessem.

Reparemos, como Cristãos, que esse modo de pensar de Fievez é pior do que a concupiscência ou lascividade bíblica. É se perdoar o mal pela simples possibilidade de fazer mais mal ainda. Está registrado que esse auto-descrito "humanitário" Fievez, "matou cerca de 1.300 congoleses, queimou 162 aldeias, cortou plantações e destruiu hortas - levando indiretamente a inúmeras outras mortes pela fome". O incentivo para os congoleses desafiarem a floresta em busca de látex não eram os pequenos pagamentos, mas o medo da punição. Se um homem não cumprisse sua cota, sua família poderia ser tomada como refém pela ABIR. Se a aldeia não cumpresse sua cota, o chefe seria preso. Em julho de 1902, um dos registros apontava que havia 44 chefes de aldeias nas prisões de Bongandanga e Mompono. Um documento semelhante, de 1899, revelava as condições das mesmas prisões: de 3 a 10 prisioneiros morriam nelas, todos os dias.

Os congoleses que resistissem às imposições da ABIR eram levados para campos de trabalhos forçados. Havia pelo menos três desses campos, um em Lireko, um no alto rio Maringa e um no alto rio Lopori. Além do encarceramento, havia seções de até 200 chicotadas. Quando os coletores de látex desapareciam nas matas, mulheres e crianças da comunidade seriam mantidas como reféns até que voltassem. Se não voltavam, elas eram transportadas para a costa e vendidas. Um missionário sueco descreveu ver “um grupo de 700 mulheres acorrentadas e transportadas”, a caminho de serem vendidas como escravas.O notável relato do cônsul britânico Roger Casement, que abriu caminho para as intervenções humanitárias no Congo, descreveu a passagem de um oficial belga pelo rio:

... chegaram em canoas em uma aldeia, ... Eles atacaram os nativos até conseguirem apoderar-se de suas mulheres; essas mulheres foram mantidas como reféns até que o chefe do distrito trouxe o número exigido de quilos de borracha. Tendo a borracha sido trazida, as mulheres foram vendidas de volta a seus homens por um par de cabras cada uma, e assim ele continuou de aldeia em aldeia até que a quantidade necessária de borracha fosse coletada.

Desnecessário dizer que muitas dessas esposas presas foram estupradas e abusadas pelos guardas, conforme documentado por missionários e outros durante o Terror de Borracha. Assim, a humilhação sexual foi acumulada sobre as mutilações, morte sem fim e a vasta injustiça contra os nativos do Estado Livre do Congo. O Terror só diminuiu quando metade da população havia sido dizimada pela fome, “doença do sono” (parente mais agressiva da nossa “doença de Chagas”), e as barbaridades praticadas pelo sistema de Leopold II. Entre os sobreviventes, um sem número de pessoas mutiladas e violentadas. A partir da denúncia feita pelo cônsul britânico Roger Casement em 1904, iniciou-se um movimento internacional de direitos humanos para retirar a posse do território de Leopold II e entregá-la ao parlamento Belga.

Nas palavras de Roger Casement:

Na aldeias S., depois que a confiança em nós foi restaurada e os fugitivos começaram a sair da floresta onde eles haviam se escondido, eu vi mulheres carregando seus bebês, seus utensílios domésticos, e até a comida que haviam arrebatado às pressas. Quando me aproximava, elas disseram, sorrindo: ‘Nós pensamos que você era Bula Matadi’ (isto é, "homens do governo"). Um medo desse tipo era anteriormente desconhecido no Alto Congo; há muitos anos, o povo vinha de todos os lados para saudar um estranho branco. Mas hoje a aparição de um barco a vapor era o sinal para fugirem.

Dois casos chegaram ao meu conhecimento quando eu estava no lago. Um homem jovem, cujas duas mãos haviam sido cortadas com as lâminas dos fuzis contra uma árvore, o outro, um garoto de 11 ou 12 anos de idade, cuja mão direita fora decepada no pulso. Esse garoto descreveu as circunstâncias de sua mutilação e, em resposta a minha pergunta, disse que, embora ferido, ele estava perfeitamente consciente quando arrancaram-lhe a mão, mas fingiu estar morto porque temia que, se se movesse, o matariam. Em ambos os casos, os soldados do governo [Askaris] estavam acompanhados por oficiais brancos cujos nomes foram dados a mim. De 6 nativos (um menina, três meninos, um jovem e uma velha) que haviam sido mutilados dessa maneira durante o regime de borracha, todos, exceto um, estavam mortos quando voltei ao lugar tempos depois. A velha tinha morrido no começo deste ano e sua sobrinha me contou como se dera sua mutilação.

As multas infligidas às aldeias por delitos insignificantes eram assustadoras: o oficial impusera como punição uma multa de 55.000 barras de latão (2.750 francos ou 110 libras). Essa quantia eles tinham sido forçados a pagar e, como não tinham meio de levantar uma soma tão grande, foram obrigados a vender seus filhos e suas esposas. Não vi nenhum tipo de criação de animais na aldeia W. - salvo pouquíssimas aves - possivelmente uma dúzia - e parecia, de fato, como essas pessoas afirmavam, que tivessem grande dificuldade em garantir seus suprimentos. Um pai e uma mãe saíram e disseram que tinham sido forçados a vender seu filho, um garotinho chamado F., por mil barras de latão, para cobrir sua parte na multa. Uma viúva veio e declarou que tinha sido obrigada, a fim de cumprir sua parte na multa, a vender sua filha G., uma menininha que, segundo sua descrição, julgava ter 10 anos de idade.

Isso foi o que um deles me relatou. ‘Costumava demorar dez dias para encher as vinte cestas de borracha necessárias - estávamos sempre na floresta e, quando nos atrasávamos, éramos mortos. Tínhamos que ir cada vez mais longe na floresta para encontrar as trepadeiras, ficávamos sem comida e nossas mulheres tinham que abandonar os campos e os jardins. Então nós passamos fome. Os leopardos da floresta mataram alguns de nós quando estávamos trabalhando, outros se perderam ou morreram de fome. Imploramos aos homens brancos que nos deixassem em paz, dizendo que não conseguiríamos mais borracha, mas os eles e seus soldados disseram: ‘Vocês são apenas bestas; você é nyama (carne).’ Nós tentamos, sempre indo mais longe na floresta, e quando nós falhávamos e havia pouca borracha, os soldados vinham para nossas cidades e nos matavam. Muitos foram baleados, alguns tiveram suas orelhas cortadas; outros foram amarrados pelos pescoços e levados embora. Os homens brancos nos postos às vezes não sabiam das coisas ruins que os soldados faziam a nós, mas eram eles que enviavam os soldados para nos punir.’

Embora as repercussões do relato de Roger Casement tenham sido imensas, houve um movimento do governo Britânico (sem falar do governo Belga) para silenciá-lo. Após os desenvolvimentos que terminaram com a retirada da posse de Leopold II sobre o Congo, o cônsul Casement foi afastado de suas funções e até incriminado como traidor da coroa. Apesar disso, aliados seus fizeram questão de incluir partes do relato de Casement em obras literárias, para que suas palavras chegassem ao público. Um desses divulgadores, amigo pessoal de Casement, foi o célebre Sir. Arthur Conan Doyle, autor das popularíssimas obras sobre o detetive Sherlock Holmes. Uma parte significativa do documento de Casement foi copiado na íntegra em seu livro “The Crime of the Congo”, em 1909, de forma a alarmar toda a população européia que falasse inglês sobre o que estava acontecendo na África. Doyle ainda frisava a falta de atuação da Igreja contra os massacres da população africana:

A organização da Igreja Católica é mais disciplinada e menos individualista que os órgãos religiosos defensores de direitos no Congo. Os sacerdotes estavam, sem dúvida, tão horrorizados quanto todos os outros, mas os meios de expressão lhes eram negados. M. Colfs, ele próprio Católico, disse na Câmara Belga: ‘Nossos missionários têm menos liberdade do que os missionários estrangeiros. Eles são ordenados a manter silêncio .... Há uma mordaça colocada na boca dos missionários Belgas’".

Deve-se admitir que a Igreja Católica Romana, como um corpo organizado, não levantou a voz na questão do Congo. ... Falamos com orgulho daquela igreja que, nos dias sombrios da história do homem, era a força que permanecia entre o opressor e o oprimido. Esta nobre tradição foi tristemente esquecida no Congo, onde as missões têm, como eu entendo, feito excelente trabalho, mas onde o poder da Igreja nunca foi invocado contra as barbaridades do Estado. Os principais estabelecimentos Católicos estão rio [Congo] abaixo e longe das zonas de borracha. … mais que uma disputa entre credos rivais, há realmente uma disputa entre humanidade e civilização de um lado e cruel ganância do outro.

Leopold II conseguiu silenciar os missionários católicos Belgas. Boatos circulavam para desacreditá-los como se fossem dissidentes da Igreja; editores foram subornados; críticos foram acusados ​​de realizar campanhas secretas para promover as ambições coloniais de outros países. Até mesmo os relatos de missionários como William Henry Sheppard foram rejeitados como tentativas dos Protestantes para difamar os padres Católicos. Por pelo menos uma década, as críticas ao Estado Livre do Congo foram contidas.

Mas devido ao sistema extrativista e matança da mão de obra, as exportações de borracha continuaram a cair após 1900 e as rebeliões aumentaram, resultando no Estado Livre assumindo o controle da concessão de território da ABIR em 1906. A empresa continuou a receber uma parte dos lucros das exportações de borracha e em 1911 foi refundada como uma empresa de plantação de seringueira (no entanto, não se registra a real agricultura dessas trepadeiras, no Congo). A história posterior da empresa é desconhecida, mas ainda estava ativa em 1926.

EPÍLOGO

O Estado Livre do Congo existiu entre 1885 e 1908, quando seu território foi anexado à região controlada pelo parlamento Belga. Nesse período, estima-se que 10 milhões de pessoas tenham morrido assassinadas, por fome ou contágio de doenças. Após a publicação de Heart of Darkness, Edmund Dene Morel, jornalista inglês e chefe de comércio com o Congo numa empresa de navegação, publicou que os navios trazendo borracha do Congo só retornavam para lá carregados com armas e munição. Morel nutria-se dos relatos, documentos e fotografias fornecidos por missionários Protestantes no Congo e tornou-se uma espécie de inimigo público do rei Leopold. Ele abandonou o cargo na navegação e fundou sua própria revista - The West African Mail - onde difundia documentos roubados da ABIR e críticas severas ao rei Belga. Assim fez com que as notícias sobre as atrocidades no Congo corressem não só por toda Europa, mas também chegassem aos jornais estadounidenses. Diante da difamação da Bélgica, o parlamento começou a organizar a retirada das terras africanas sob posse do rei. Mais tarde, Morel se tornou amigo dos escritores Arthur Conan Doyle e Mark Twain*, atuando como mediador de paz em conflitos internacionais. Ele até derrotou Winston Churchill (primeiro ministro durante a 2ª Guerra) nas eleições para o parlamento Britânico, durante a 1ª Guerra.

Infelizmente, como Jesus predisse dos seus seguidores, a vida não recompensou nenhum dos que lutaram contra a crueldade no Congo. Casement foi executado por alta traição em 1916, na Irlanda. Morel foi preso por escrever artigos contra o império Britânico. Bertrand Russell, um pacifista amigo de Casement, relatou sua libertação: "... seu cabelo era completamente branco (quase não havia um tom de branco antes). Quando ele saiu, desmaiou por esgotamento físico e mental”.

Leopold II enriqueceu muito com a exploração do Congo. Ele ergueu numerosos edifícios particulares e públicos com esse dinheiro, o que lhe rendeu o epíteto de "Rei Construtor". Suas obras incluem o Hipódromo de Wellington, as Galerias Reais e o Hendrikapark em Ostende, o Museu Real da África Central em Tervuren, os parques Cinquentenário e Duden em Bruxelas, e a estação de trens em Antuérpia. Suas propriedades privadas alcançaram luxo até então não visto. Quando Leopold perdeu a posse do Congo, os fornos do palácio em Bruxelas passaram mais de uma semana queimando documentos que pudessem incriminá-lo. As autoridades Belgas impediram o acesso ao que restava dos arquivos por quase 20 anos.

Nessa terrível história de um Holocausto contra o povo do Congo, fica notória a participação nefasta dos Belgas aventureiros e ansiosos por riquezas (custasse isso vidas ou não), a persuasão de nativos a trucidar sua própria gente e a quase ausência de atuação da Igreja (Católica e Protestante) a esse respeito. Não é tão diferente do que ocorreu na 2ª Guerra quanto ao massacre dos Judeus. Mas, ao contrário da imprensa que sensibilizou todo o mundo quanto ao genocídio dos Judeus, a tragédia do Congo foi considerada “natural” ou “de pouca importância”. Possivelmente você nunca ouviu falar de semelhante coisa.. Infelizmente, essa possibilidade de considerar vidas humanas como “dispensáveis” ou “tão valiosas quanto a caça” costuma ser uma consequência comum de esquemas verticais de governo, onde um pequeno grupo controla outros, que controlam toda uma população. Não há nenhum exemplo bíblico de Jesus ou de qualquer dos Seus agindo dessa forma, muito pelo contrário, o que torna evidente o quanto a “Igreja de Deus” pode se tornar terrivelmente mundana segundo os parâmetros de “amar a Deus e ao seu próximo como a si mesmo” pregados por Jesus.

Tenhamos a Sabedoria de “temer a Deus” e ser diferentes.

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* Mark Twain (1835-1910; seu verdadeiro nome era Samuel Langhorne Clemens) já era um escritor estadounidense famoso por obras como “As aventuras de Tom Sawyer” e “Huckleberry Finn”. Em 1905 ele publicou um panfleto satírico sobre Leopold II se defendendo das críticas internacionais, dizendo que não tomou nenhum dinheiro do governo, que não usou o Congo para ganhos pessoais e que tais afirmações foram feitas pelos "intrometidos missionários americanos", "cônsules britânicos" e "tagarelas belgas". Todos os críticos seriam traidores, além de que criticar um rei era blasfêmia. O livro trazia o relatório do missionário William Henry Sheppard sobre 80 pessoas massacradas numa cobrança de impostos. O “Leopold de Twain” ainda dizia que seus críticos só falavam do que lhe era desfavorável, como os impostos injustos, a fome e o extermínio de aldeias inteiras, mas não citavam os perversos missionários enviados para evangelizar aquele povo.

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Papéis que sobraram

ABIR Congo Company - wikipedia
Congo Free State - wikipedia
E D Morel - wikipedia
Mac McKinney, The horror crescendos, www.laprogressive.com
Mark Twain - wikipedia
O Cristianismo negro - 2ª parte, www.loungecba.blogspot.com
O Cristianismo negro - 3ª parte, www.loungecba.blogspot.com
The crime of the Congo, www.online-literature.com
The real heart of darkness, The telegraph, 31/mai/1999
Thornton JK, Afro-Christian syncretism in the Kingdom of Kongo, The Journal of African History, 54(1), 53-77, 2013.
Twain M, King Leopold's soliloquy (PDF)

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

A política da Igreja

Templo de Salomão (esq.) construído pela Igreja Universal do Reino de Deus em São Paulo, 2014. Interior revestido em ouro da Igreja de São Francisco da Penitência (dir.), construída pela Igreja Católica no Rio de Janeiro, 1773.

Com a turbulência das últimas eleições no Brasil, algumas questões para além da política afloraram no país. Primeiro, a credibilidade dada pelos brasileiros para fontes pouco confiáveis de informação. Segundo, a ignorância quase completa dos eleitores acerca de termos como “direita” e “esquerda” usados na política. Terceiro, o posicionamento político da igreja, que é o que finalmente nos importa aqui.

CREDIBILIDADE

Obviamente, é trabalhoso conferir cada informação sobre a qual falamos e sobre o que ouvimos. Por isso, a todo tempo emprestamos Credibilidade a conteúdos imaginários, literalmente apostando que podemos confiar neles. Quando nos sentamos numa cadeira, por exemplo, estamos certos de não passar através dela; ninguém confere isso. E, antes que você grite que é impossível, devo lembrar-lhe que você acredita em um homem detentor de todo conhecimento, pré-existente antes de nascer, previsto séculos antes por profecias, que morreu e voltou à vida; mais fácil seria acreditar em uma cadeira se desmaterializando. Mesmo quando falamos, evocamos lembranças de nosso aprendizado que são re-escritas a cada lembradas; portanto, a chance de falarmos errado sobre algo mais antigo é imensa. E são justamente essas lembranças antigas nas quais mais confiamos.

Existem muitos fatores associados à credibilidade emprestada às informações. Um deles é sua relação com nossos conhecimentos prévios. Você não acredita em cadeiras se desvanescendo porque nunca viu isso acontecer. Mas acredita que fritar pele de porco produz algo bom (torresmo); essa está entre as comidas consideradas mais bizarras no mundo. Em outras palavras, as coisas são mais “acreditáveis” quanto mais próximas forem das suas experiências, da sua forma de pensar. E como cada um de nós cerca-se de pessoas com personalidades, cultura e até idade semelhantes, acabamos criando ao nosso redor uma espécie de “bolha”. Ali, quase só existem produtores de informação com conteúdos que conhecemos, que são semelhantes a nós mesmos. Cada um de nós faz parte dessa “bolha”. Certos cientistas sociais até brincam com isso. Quem se lembra daquele reality-show “Troca de família”, produzido pela TV estadounidense Fox e veiculado pela Record? O programa consistia em filmar os conflitos produzidos quando donas-de-casa eram levadas a morar por alguns dias em famílias distantes das suas, com outra cultura, outros valores.

Levando esse pensamento para o lado jornalístico, os meios de comunicação têm seus vieses de escolher essa ou aquela notícia como mais importante. Mas o que nós escolhemos assistir ou ler? Há uma decisão prévia quanto aos conteúdos. Escolhemos aquilo em empenhamos credibilidade. E hoje, com a velocidade das redes sociais, repassamos informações que nos parecem confiáveis; que fortalecem a nossa bolha. Nas últimas eleições brasileiras, empresas de produção de conteúdo descobriram esse nicho, essa forma de ganhar dinheiro. Sabe-se desse mecanismo alterando os resultados das eleições desde 2009 na Austrália, mas a partir de 2015 ele tem ganhado força em diversas partes do mundo, às vezes produzindo sérios conflitos étnicos como em Myanmar/2015. Basicamente, empresas foram pagas para prejudicar a imagem pública de candidatos. Houve uma fartura de notícias errôneas, pela metade, repassadas por pessoas que não tinham nada a ganhar financeiramente com isso. E criou-se um grande caldo de informações frágeis, incompletas, falsas.

O tolo não tem prazer na sabedoria, mas só em que se manifeste aquilo que agrada o seu coração. (Provérbios 18.2); Tens visto o homem que é sábio a seus próprios olhos? Pode-se esperar mais do tolo do que dele. (Provérbios 26.12); O tolo revela todo o seu pensamento, mas o sábio o guarda até o fim. (Provérbios 29.11)

Esses trechos do Livro de Provérbios, de aprox. 1000 a.C., dão uma amostra de que a disseminação de informações errôneas é muito antiga. Esse disseminador mentiroso, que o livro nomeia repetidamente como “tolo”, não é alguém que fica calado. Pelo contrário, o tolo espalha suas mentiras aos 4 ventos, sem saber que são mentiras, porque elas lhe agradam o coração. Infelizmente, a disseminação de mentiras eleitorais e seu forte impacto sobre várias eleições no mundo mostra, sem muita contestação, que somos uma dentre várias nações de tolos que foram usados pelo poder de políticos endinheirados.

Mas um outro fato importante na credibilidade é a origem da informação. Elegemos líderes para que eles produzam informação confiável, porque lhes atribuímos mais credibilidade do que aos outros. No entanto, tanto líderes podem mentir (voluntariamente ou não) quanto veículos de informação. Uma vez que os veículos de informação não são eleitos (mas a busca deles é voluntária) e os materiais que veiculam são registrados, não é difícil medir o quanto cada um mente. Em sua campanha presidencial, o então candidato Donald Trump foi questionado por um jornalista quanto ao grande nº de informações falsas que ele proferia em seus discursos. A resposta de Trump foi “Eu minto, mas as pessoas concordam comigo”. Os EUA também foram vítima das empresas divulgadoras de mentiras, e Trump se beneficiou delas porque alimentavam sua bolha, davam energia a cada um que concordava com suas estórias. No fim das contas, as mentiras partiram de alguém intencionado e alimentaram a mente dos tolos, que as espalharam; o que mostra que é possível produzir poder e governo a partir de falsidades. Sem mencionar o fato de ser um candidato Cristão à presidência dos EUA, Trump nos ensina que a fé pode ser simplesmente um jogo de oportunismos. Lembremos que, nas vésperas de uma Páscoa há muito tempo atrás, os judeus escolheram matar Jesus e soltar Barrabás.

Nos meios de comunicação, onde há menos poderes políticos envolvidos, ocorrem também certas bolhas. Há veículos como Facebook, Whatsapp, sites particulares e “revistas de fofoca” que não assumem qualquer responsabilidade pelo que disseminam. Uma publicação recente da organização Ipsos de pesquisa social avaliou o quanto as pessoas sentem-se expostas a informações falsas. Entre 30% (Alemanha), 73% (Brasil) e 82% (Argentina) das pessoas acreditam ser alvo de mentiras produzidas por organizações. Entre 29% (Itália) e 62% (Brasil) dos entrevistados relata já ter sido vítima disso. Entre 66% (Sérvia), 25% (Brasil) e 18% (Itália) das pessoas atribuem tais mentiras a políticos. Em outras palavras, poucos brasileiros sentem-se vítimas de informações falsas divulgadas com fins eleitorais; a maioria as atribuem a organizações/empresas com as quais têm algum contato.

Mas há veículos conhecidos pela sua reputação de transparência, riqueza de conteúdo e análise crítica. Entre esses, aparecem nomes como Le Monde Diplomatique, Piauí e Carta Capital que propositalmente fazem análises “esquerdistas”. Há aqueles como Veja, Estado de São Paulo (antes neutro), Folha de São Paulo e O Globo que propositalmente trazem análises “direitistas”. E há aqueles mais ou menos neutros, como The New York Times, British Broadcasting Corporation (BBC), The Economist e El País (se você não conhece vários desses nomes, sinta-se muito mal informado). A credibilidade desses meios se dá em nível de qualidade, mas evidentemente, cada pessoa seleciona seus próprios veículos em quem deposita confiança. Vendo a influência que notícias fabricadas tiveram em vários países, incluindo o Brasil, está óbvio que a maioria de nós deposita sua confiança nos piores veículos e sim, somos vítimas de políticos oportunistas. Como se diz, “é melhor não ter nenhuma fonte do que ter apenas uma”.

ESQUERDA E DIREITA

O desconhecimento dos brasileiros sobre esquemas políticos ficou claro na última eleição, quando pouquíssimas pessoas entrevistadas foram capazes de sequer citar as propostas de seu candidato. Mesmo assim, de forma geral as populações mais pobres se aliaram ao candidato de Esquerda e as mais afortunadas ao candidato de Direita. Isso geograficamente falando. Em cada local, fossem pobres ou ricos, as bolhas de disseminação de informações produziram maiorias esmagadoras de preferência que incluíam tanto pobres quanto ricos.

Esquerda e Direita são nomes que se originaram no Parlamento francês antes da Revolução de 1789, que propagou ao mundo todo a luta de classes. Os parlamentares sentados à esquerda da tribuna defendiam leis voltadas aos comerciantes, assim como a não influência da Igreja sobre o Estado. Os parlamentares do lado direito defendiam privilégios sociais (uma classe de nobres poderosos para decidir tudo), assim como a autoridade do Papa sobre o governo. Embora muito tenha mudado desde então, hoje temos Comunistas (extrema esquerda, defendendo um Estado que distribua igualmente a renda), Esquerdistas (defensores de leis protegendo os trabalhadores), Direitistas (favoráveis à livre concorrência entre as pessoas por ganhos, pois as diferenças sociais seriam evolutivamente saudáveis) e Fascistas (extrema direita, pregando ações do estado para garantir o lucro dos grandes empresários). No Brasil, pelo menos, existe um Centro que se afilia aqui ou acolá de acordo com os interesses pessoais e imediatos.

Políticos e legisladores acreditam na forma "esquerdista" ou "direitista" de administrar as finanças do Estado. Os partidários da linha Esquerda se embasam muito nos trabalhos do filósofo, sociólogo e jornalista Karl Marx. Este acreditava em uma luta perene de classes econômicas com interesses conflitantes: os trabalhadores e os empresários. Aos trabalhadores interessa maiores salários, mas isso reduz os lucros do empresário. Por outro lado, são os trabalhadores que consomem a produção das empresas, que fazem o dinheiro circular, e então é importante que tenham meios de consumir. Por isso, Marx acreditava que a melhor administração econômica se daria com uma diferença tênue de ganho entre empresário e trabalhadores, o que é contrário aos interesses dos empresários. Caberia ao Estado aliar-se com os trabalhadores e ditar leis que favorecessem essa equidade, contra as pretensões naturais dos mais ricos. Alguns governos adotaram o modelo de Marx. Na versão mais extrema, temos a antiga União Soviética, Cuba e China. Numa versão mais leve, França e Alemanha. Tais governos historicamente construíram legislações trabalhistas poderosas, com forte intervenção do governo no funcionamento das empresas, além de serviços públicos garantidos para todos. Embora os mais extremistas tenham recorrido à restrição militar do comportamento dos cidadãos (são os empresários que controlam suas empresas), outros menos radicais produziram sociedades pacíficas, produtivas e bastante igualitárias.

Os partidários da linha Direita se embasam no trabalho do economista e filósofo Adam Smith. Ele descreveu, bem antes de Marx, a presença de interesses distintos entre trabalhadores e empresários, ou mais especificamente entre pobres e ricos. Smith via nessa distinção de classes o motor da economia, isto é, o pacto entre trabalhadores e empresários se dava pelo interesse dos primeiros em receber dinheiro e a capacidade dos últimos em fornecer isso. Portanto, não era necessário que o Estado interviesse na economia. Mas como leis são importantes para manter a paz social, elas deveriam ser elaboradas pela classe com visão mais global dos assuntos, ou seja, os mais ricos. Além disso, Smith reconhecia que a Igreja era tanto um grande detentor de capital quanto um manipulador de opiniões, de forma que precisava estar atrelada ao governo. Alguns seguiram essa linha, como Inglaterra, EUA, Alemanha (até a 2ª Guerra), Itália e Japão (após a 1ª Guerra). São governos com pouco fornecimento de serviços ao cidadão (esses serviços são contratados como produtos de empresas), protecionismo às indústrias e liberalidade nos contratos de trabalho. Novamente, houve casos extremistas como os governos Nazistas/Fascistas que utilizaram as forças armadas para controlar os trabalhadores, mas também casos de elevado desenvolvimento industrial como nos EUA e Inglaterra, o que também proporciona fartura de empregos. Apesar disso, tais países são marcados pela desigualdade social e pode-se dizer que sua estabilidade política ocorre pela grande entrada de capital estrangeiro. Em épocas menos prósperas, a contenção dos desempregados se dá pelo clamor ao nacionalismo, à religião ou militarismo. Nos EUA dos anos 60-80, por exemplo, a perseguição aos Comunistas ocupou a mídia enquanto a economia estava seriamente danificada pelos gastos excessivos com no setor militar.

Esquerda e Direita são termos políticos relativos ao Capitalismo e, portanto, não há uma referência bíblica sobre eles. Sendo bastante criativos, podemos pensar em forças de Esquerda gerando igualdade social e influência popular, assim como as de Direita gerando privilégios e partindo dos governantes. As leis de Moisés foram poderosas igualadoras dos homens (e portanto são leis de Esquerda), mas também há a defesa de uma classe eleita para decidir sobre todos os assuntos, o que é uma prerrogativa da Direita. No Velho Testamento, inclusive, a estrutura político-religiosa dos judeus era composta pelos nobres e sacerdotes determinados pela descendência (Direita), mas também por profetas itinerantes capazes de destituir ou eleger reis. Esses profetas surgiam pelo reconhecimento popular de ações divinas e, assim, seriam uma força de Esquerda. No Novo Testamento, todo o funcionamento da Igreja é popular, com pouquíssima evidência de autoridades, sendo portanto uma igreja de Esquerda. Talvez o ápice dessa organização de Esquerda apareça no livro de Atos:

Todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um possuíam de melhor. Perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração. (Atos 2.44-46)

POSICIONAMENTO POLÍTICO DA IGREJA

A história do Cristianismo tem mudanças e misturas de posicionamentos; é importante lembrar essas mudanças para entender os rumos da Igreja. A partir de um movimento popular esquerdista começado por Jesus, a Igreja perseguida lentamente adquiriu aliados ricos e poderosos nos sécs. 1 a 3, a ponto de ser legalizada por Constantino I (313 d.C.), adotada por Theodosius I (391 d.C.) e se tornar a religião principal no lado oriental do Império, até o séc. 15. Em sua fase inicial, a Igreja era organizada por concílios entre as dioceses de Roma (capital antiga), Constantinopla (capital nova), Jerusalém (Judéia), Antioquia (Síria) e Alexandria (Egito). Nesse momento podemos pensar em uma estrutura esquerdista, em que a variedade de opiniões criava liberdades de culto. Com a fragmentação de Roma (final do séc. 5), a diocese de Roma passa a negociar com as famílias reais da Europa e assume uma posição direitista; Constantinopla assume a vinculação Igreja-Estado e as demais dioceses são destruídas pela expansão do Islã sobre o Oriente Médio e norte da África. É dessa forma que a Igreja entra na Idade Média: vinculada aos reinados do Ocidente (principalmente os Francos) e Oriente (Bizâncio), numa fase completamente direitista que chegou a seu apogeu durante o reinado de Carlos Magno (768-814 d.C.).

Um secto esquerdista da Igreja foi produzido no séc. 5 pela lenta adesão dos Scotts e Pictos do norte (sobretudo na Irlanda e Gales) ao Cristianismo, independentemente das administrações Cristãs, através de um urbanismo propagado pelos missionários. Tornar-se missionário era uma forma de pagar pecados e muito da cultura Cristã no norte foi produto dessa atividade, o que até resultou em algumas bizarrices como a inclusão de deuses vikings na descendência de Noé. A partir do séc. 8, Roma usou exércitos da Holanda e Bretanha para esmagar o Cristianismo esquerdista do norte (ver Cristãos do norte).

O aspecto direitista da Igreja significava apoiar e ser apoiada pelos nobres, além de constituir uma força de separação social (isto é, os pobres não tinham acesso à administração religiosa). As monarquias da Europa desde o séc. 10 criaram exércitos da Igreja como os Templários e Hospitalários (Jesus certamente não esperava essa), comandados por Roma e Constantinopla, para reconquistar as terras do Islã. Estar “a serviço de Deus” nas Cruzadas perdoraria tanto os pecados passados como atuais. No entanto, diversas vezes, uma diocese lançou seus exércitos sobre a outra, para saquear e enfraquecer o “rival”, até que em 1024 as duas Igrejas separaram-se em Católica (que significa “universal”, centrada em Roma) e Ortodoxa (que significa “correta”, centrada em Constantinopla). Os monges Beneditinos e Cistercianos, organizadores das cidades medievais, pregavam a pseudo-divindade dos nobres (retratados e enterrados nas igrejas, alguns até canonizados) e obediência dos pobres a esse sistema social.

No séc. 12, a Itália presenciou um renascimento das forças de Esquerda dentro da Igreja. Com isso estamos falando em comunidades não lideradas “de cima para baixo”, nem atreladas à realeza e suas riquezas, mas altamente entremeadas de elementos populares. Giovanni di Pietro di Bernardone, ordenado Francisco, abandonou as propriedades da família e constituiu a 1ª Ordem Mendicante, isto é, de religiosos devotados à pobreza. Lembrando, no Novo Testamento o cuidado com as riquezas é posto como barreira ou “espinhos” afastando o homem do contato com Deus. Desde os Franciscanos, que existem até hoje, houveram diversas outras ordens mendicantes, como os Cistercianos, Augustinianos, Carmelitos, Ambrosianos, etc. Alguns movimentos de Esquerda dentro da Igreja foram até punidos com sua conversão em Ordem Mendicante. Hoje, a tumba de Francisco é uma capela de ouro maciço dentro de uma catedral.. Com o enriquecimento das cidades da Holanda, França e norte da Itália no séc. 13, as forças de direita dentro da Igreja Ocidental a converteram em estrutura militar. A Inquisição delimitou o domínio sobre o povo e os nobres. Embora fosse propagandeada como uma “força purificadora” para retirar hereges de entre os Cristãos, a Inquisição se ocupou quase sempre de destituir terras, que eram repassadas a Roma. Os acusados-condenados eram invadidos, caçados, incendiados pelo exército religioso (novamente, fico pensando o que aquele Jesus escolhendo 12 discípulos dentre os mais diferentes possíveis pensaria disso). Várias vezes Roma lançou a Inquisição sobre reinos insubmissos usando acusações de heresia, magia negra e bruxaria.

A Idade Média terminou com a derrota do Islã na Europa e norte da África (1415) e, coincidentemente, a invasão de Constantinopla pelo Islã (1453). Os aprimoramentos navais dessas operações militares logo levaram às grandes navegações, com a invasão das costas Americana, Africana e Indiana nos sécs. 15 e 16. Interessava o poder e riqueza que os reis proporcionavam ao clero, por isso a Inquisição  logo chegou às colônias. Um movimento de Esquerda começou na Europa com a Reforma Protestante, a re-edição da Bíblia a partir de texto judaicos e a tradução da mesma para os idiomas falados (até então, todas as Bíblias estavam em latim). Mas a Reforma logo se converteu em movimento de Direita quando se aliou a monarquias em troca de poderio contra Roma.

Com a tomada de Constantinopla (1453) pelo Islã, fundando o Império Ottomano na atual Turquia, a Igreja Ortodoxa se submeteu ao governo islâmico e gozou de relativa liberdade, mas forçosamente foi convertida em uma organização de Esquerda que protegia ou instruía o povo, desprovida de poderes políticos ou dinheiro. Mais ao norte, os povos russos se converteram ao Cristianismo Ortodoxo e surgiu o reinado Cristão dos tzares (Bulgária) e czares (Rússia) (ambos são pronúncias de César, título dos imperadores romanos). Ainda no séc. 16 surgiu uma ordem liderada por Inácio de Loyola com a missão de educar e desenvolver/proteger os povos nativos, chamados de “novos Cristãos”. Os Jesuítas, como passaram a ser chamados os membros da Companhia de Jesus, eram religiosos com extenso conhecimento sócio-cultural e organizados de forma militar, mas com o propósito de gerar conversões voluntárias entre os governos pagãos. Foram bastante ativos na América, Índia e sudeste asiático. No entanto, quando a conversão e educação dos povos colonizados se opôs aos interesses escravistas das monarquias européias, a Igreja Católica retirou os Jesuítas de suas áreas, converteu-os em Ordem Mendicante, excomungou e até perseguiu muitos. Alguns acabaram queimados vivos como hereges.

O séc. 17 assistiu uma série de re-organizações na Europa. Os movimentos esquerdistas/republicanos se fortaleceram, enquanto os países se repartiam entre Catolicismo, Protestantismo e Anglicanismo (uma versão inglesa do Protestantismo atrelando a direção da Igreja ao rei). Na ausência de uma autoridade central dos Protestantes, esses naturalmente se alinharam com os republicanos. Uma parte desses revolucionários foi banida da Inglaterra, com liberdade para se assentarem em colônias como EUA (chamado então de Nova Inglaterra), Índia e Austrália. No séc. 18, tais grupos sem organização central fortaleceriam a derrubada das monarquias. Nos países Católicos, a Igreja produziu governos extremamente poderosos (pois os exércitos de Roma podiam ser convocados em casos de guerra), mas com dificuldade de administrar a mudança do trabalho rural para a vida urbana. Nas cidades, os esquemas de servidão não favoreciam comerciantes coloniais muito ricos e armados. Como se poderia esperar, o final do séc. 18 e início do séc. 19 foram marcados por movimentos esquerdistas, em que os Protestantes não deixaram de estar envolvidos, e que resultaram na substituição de várias nobrezas por presidentes e parlamentos.

As colônias também começaram a fazer tentativas de livrar-se dos europeus. Os governos Católicos saquearam e destruíram os governos das colônias. Noutras, as próprias colônias foram convertidas em reinos Católicos, mostrando a forte tendência direitista da Igreja. As colônias Protestantes enfrentaram guerras menores, que terminaram em acordos de mútuo reconhecimento e entrelaçamento comercial. A virada do séc. 19, entretanto, mostrou um afastamento entre a Igreja e os governos. Enquanto movimentos escravistas se fortaleciam duma economia que agora precisava de trabalhadores urbanos e não escravos, os Protestantes fizeram pouco ou nada para gerar mudanças políticas. Os Católicos não auxiliaram tampouco. Em todo mundo, houve um afastamento da religiosidade tradicional, abrindo caminho para novas práticas que consolassem escravos e pobres. As religiões de base Espírita ganharam força na Europa e América. No Brasil, as religiões Afro se organizaram. O Protestantismo então passou por reformas, dando origem aos Pentecostais. Na Igreja Ortodoxa, a sua auto-organização a tornou resistente às eventuais investidas de governantes islâmicos.

Assim, chegamos a um séc. 20 em que haviam movimentos de Esquerda e de Direita dentro das várias vertentes do Cristianismo. Os de Esquerda que mais se destacaram foram os avivamentos Protestantes nos EUA, Brasil e África Ocidental. Os de Direita foram a atuação Católica nos governos da América Latina e Europa. Em especial, as crises monetárias globais e as duas Guerras Mundiais atrelaram os Católicos com a Extrema Direita ou Fascismo, além de golpes militares. Alguns países enfraqueceram seus sistemas religiosos (a Igreja Ortodoxa, no caso da Rússia; o Catolicismo no caso de Cuba), outros fortaleceram o vínculo religião-política (o Catolicismo, no caso da América Latina, o Protestantismo, no caso dos EUA), outros fundiram elementos islâmicos e Cristãos (centro-sul da África), outros ainda separaram tanto quanto possível a Igreja e o Estado (Europa). De fato, nos tempos da União Soviética (1921-1991), o Estado fez o possível para eliminar todas as crenças religiosas, o que converteu a Igreja Ortodoxa a uma força de esquerda perseguida pela Extrema Esquerda, mantida às escondidas pelo povo. Com o fim da URSS, os países soviéticos passaram a exibir níveis variados de Cristianismo Ortodoxo, Judaísmo, Islamismo e Ateísmo.

A variedade pós-moderna do séc. 20 chegou mesmo a colocar partes de uma mesma igreja em franca oposição. Na 1ª metade do século, enquanto a Igreja Católica fomentava movimentos militares na Europa, o Brasil militar teve os serviços mais básicos como Educação e Saúde providos pela Igreja. Nos anos 1960, o Concílio Vaticano II inaugurou um secto de Esquerda dentro da Igreja Católica, que cresceu sob o nome de Teologia da Libertação. Esse ramo da Igreja Católica foi ativo nas ditaduras militares da América Latina, assim como em movimentos militares na Ásia, mas não como agentes dentro do governo. Sendo um ramo fortemente esquerdista, sua atividade foi sobretudo organizar ações de religiosos (Cristãos ou não) junto da população e longe dos olhos de Bispos e Cardeais, que representavam a força Direita da Igreja junto aos militares. O grupo punido e desligado da Igreja em 2005, após a posse de Bento XVI, mas ainda possui muitos membros em atividade na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e agindo como organizadores sociais independentes.

ATUALIDADE MESTIÇA

No Brasil, a partir do fim da Ditadura Militar (1985) estabeleceram-se denominações Protestantes de alto poderio econômico que atrelaram-se ao Estado como manipuladores eleitorais e investidores, mais poderosos que a Igreja Católica. Por isso, a última eleição (2018) trouxe à tona algo extremamente raro e improvável em outros tempos: Católicos agindo em favor da Esquerda trabalhadora/socialista e Protestantes agindo em favor da Direita empresarial/militar.

Como vimos, o engajamento político da Igreja tem já seus 1700 anos. No Brasil, presenciamos uma fase de transição: os Protestantes passam à Direita (o que significa que abandonam estruturas de proteção aos pobres e trabalhadores, em troca de concentração de renda e poder através do Estado) e os Católicos (pelo menos enquanto Francisco I governar) passam à Esquerda, agora talvez re-assumindo a missão dos Jesuítas pela organização de serviços sociais, como escolas, hospitais e agências de emprego. Atualmente, esses serviços da Igreja são caros (alguns são até luxuosos) e utilizados sobretudo pela população mais rica.

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LEIA DA ESQUERDA PARA A DIREITA

Adam Smith - wikipedia
Bolsonaro, sobre os bispos brasileiros: “eles são a parte podre da Igreja católica”, Revista do Instituto Humanitas Unisinos online, out/2018.
Fake news - wikipedia