terça-feira, 18 de junho de 2019

Por cima das muralhas de Jericó

metade 1, esquerda acima - túmulo de Tuthankhamon/Egito. 1323 a.C.; metade 1 esquerda abaixo - ilustração das carruagens Maryannu em Jericó, 1550 a.C. (repare nas rodas); metade 1 direita - organização da cidade antiga e suas muralhas, séc. 16 a.C.; metade 2 esquerda - ruínas da torre de Jericó; metade 2 direita acima - uma das fontes de Jericó; metade 2 direita abaixo - Jericó nos dias atuais.

Artigo escrito por Art Ramos e publicado em 19/set/2016

A montanha Tell es-Sultan (Colina do Sultão) se levanta no meio das férteis planícies agrícolas envolta do Mar Morto, perto da sua margem norte. Trata-se de uma colina oval com 250 m em sua parte mais longa e uns 150 m na parte mais estreita, subindo até os 200 m de altura. O lugar já teve diversos nomes, sendo mais conhecido aquele que é mais antigo: Jericó.

A lendária cidade é lembrada pela história no livro de Josué, a respeito de sua destruição pelos israelitas. Escavações arqueológicas revelaram que Jericó foi um dos primeiros assentamentos humanos no Oriente Médio, datando de 9000 a.C. Essa cidade também teve a parede protetora mais antiga do mundo e torres de pedra ainda mais antigas que a parede. A razão para tal antiguidade são as várias nascentes, dentro e perto da cidade, formando uma espécie de oásis que fornece até hoje água suficiente para sustentar uma grande população. Nessa matéria, vamos cobrir o assentamento de Jericó desde seus primórdios até a batalha relatada na Bíblia.

PRIMEIRO ASSENTAMENTO

Jericó começou como um acampamento de caçadores-coletores da cultura Natufiana¹, em 10000 a.C. Os assentamentos permanentes começaram quando o frio e a seca causados pela última Era do Gelo terminaram, por volta de 9600 a.C. Jericó já era uma pequena aldeia antes da invenção da cerâmica², que usava a água da fonte Ein as-Sultan (mais tarde chamada Fonte de Elias. Por volta de 9400 a.C., o assentamento cresceu para 70 casas. Eram moradias circulares com 5 m de diâmetro, feitas de argila e palha.

O MURO DE JERICÓ

Evidências arqueológicas revelam que, em 8000 a.C., Jericó cresceu para 40.000 m² (200 x 200m) e foi cercada por um muro de pedras com 3,6 m de altura e 1,8 m de largura na base. No centro da cidade havia uma torre de pedras de 8,5 m de altura e 9 m de largura na base. A torre tinha uma escada interna com 22 degraus. As únicas torres do mundo mais antigas do que esta foram encontradas em Tell Qaramel, na Síria. Acredita-se que a parede protegia a cidade das águas das inundações nos rios próximos. A torre era uma aparato cerimonial. Viviam em Jericó umas 3000 pessoas. Os habitantes aprenderam a cultivar trigo, cevada e leguminosas, usando irrigação por canais para levar água das fontes até suas plantações. Como não haviam criadouros de animais, imagina-se que praticassem a caça de animais selvagens.

O SEGUNDO ASSENTAMENTO

Depois de alguns séculos, por volta de 7000 a.C., Jericó foi ocupada por um povo invasor que absorveu os habitantes originais em sua cultura. Ainda era uma vila Neolítica. Este novo assentamento ampliou o leque plantas cultivadas e apareceram criadouros de ovelhas. Os prédios da cidade agora eram retangulares, feitos com tijolos de barro. Cada edifício consistia em várias salas em torno de um pátio central. Os quartos tinham chão de tijolos e o pátio tinha chão de barro. Outros avanços incluíam ferramentas como pontas de flechas, foices, buris (usados ​​como cinzéis), raspadores e machados. Também foram encontradas pedras de amolar, martelos e machados de pedra. Haviam pratos e taças esculpidos em pedra calcária.

Essa nova cultura conservava as cabeças dos parentes falecidos, rebocando os crânios com barro, conchas e pintando os traços da pessoa sobre essa argamassa toda. Os crânios eram mantidos em casa, talvez como algo sagrado, enquanto o resto do corpo era enterrado. Eles viveram em Jericó até 6000 a.C., quando a cidade foi misteriosamente abandonada. Ela ficou assim, deserta, pelos próximos 1000 anos.

IDADE DO BRONZE

A partir de 6000 a.C., novos assentamentos foram estabelecidos em Jericó periodicamente. Ainda eram vilas Neolíticas, mas há evidências de que já produziam cerâmica. Tornou-se uma cidade murada novamente por volta de 3000 a.C. Evidências mostram que as paredes foram reconstruídas muitas vezes, a maior versão delas em 2600 a.C. feita pelos Amorreus. Por volta de 2300 a.C., a cidade foi novamente desabitada.

Os Cananeus chegaram em 1900 a.C. e transformaram a cidade em uma metrópole entre 1700 e 1550 a.C. Haviam aristocratas utilizando carruagens Maryannu, inventadas no império Hitita a leste e comercializadas ao longo dos rios até o Egito, a oeste. Essas carruagens (e mais particularmente suas rodas de metal) foram encontradas na parte norte da cidade - eram um veículo típico da nobreza. Toda a área próxima a Jericó foi urbanizada. Haviam então duas paredes ao redor da cidade, que ficava no alto de uma montanha, feitas com de tijolos de barro. A parede externa ficava no topo de uma base de pedra. Embora essas construções fossem impressionassem em tamanho, ainda mais para quem vinha das terras baixas envolta, elas não eram estáveis.

Por volta de 1573 a.C., um grande terremoto destruiu a cidade. Madeira carbonizada encontrada no local sugere que os restos da cidade foram queimados. Largos suprimentos de grãos enterrados também sugerem que ela não foi capturada numa guerra, mas simplesmente incendiou-se como Sodoma e Gomorra (que aliás são próximas dali) ou foi incendiada posteriormente, como se para “limpar o terreno”. O local permaneceu desocupado até o final do século 9 a.C., época do império de Davi e Salomão, quando foi reconstruída.

OS ISRAELITAS E A BATALHA DE JERICÓ

De acordo com a Bíblia, por volta de 1400 a.C. (séc. 14 a.C.), Jericó foi a primeira cidade atacada pelos israelitas vindos do Egito, depois que eles cruzaram o rio Jordão e entraram em Canaã. O muro de Jericó foi destruído quando os israelitas andaram em volta dele por 7 dias carregando a Arca da Aliança. No sétimo dia, Josué ordenou a seu povo que tocassem as trombetas feitas de chifre de carneiro e gritassem, até que as paredes finalmente caíssem. As escavações do local revelam uma rede de muros desmoronados que datam do final do século 17 a.C. ou início do século 16 a.C., portanto bem antes da invasão dos Hebreus.

A causa mais provável do colapso das muralhas foi um terremoto. Descrições extra-bíblicas de destruição na região após terremotos (1267 d.C. e 1927 d.C.) correspondem muito bem às ruínas de paredes desmoronadas como a Bíblia relata. Em cada um desses eventos, as falésias acima do rio Jordão caíram no rio e represaram-no temporariamente, ao que seguiu-se uma avalanche de água e destroços carregando tudo rio abaixo até o Mar Morto. Estudiosos acreditam que a história da Bíblia é uma espécie de alegoria, contada sobre ruínas que os Hebreus encontraram já desabitadas. O texto bíblico de fato foi escrito após 722 a.C., no reinado do rei Josias, muito depois do evento que narram. Essa descrição de batalha foi usada pelos reis para reivindicar o território de Israel.

QUESTÕES QUE AINDA NÃO SE EXPLICAM BEM

As evidências sobre Jericó apontam para uma destruição por terremoto, mas algumas peças também se dão bem ao relato Bíblico, e outras são contra ambos. Em Jericó, as escavações ali revelaram largos depósitos de grãos simplesmente deixados para trás, o que condiz com a destruição da cidade por terremoto, mas o incêndio da cidade é difícil de explicar. Há depósitos subterrâneos de betume na região (o betume é inflamável e muito difícil de apagar), ao que se atribui o incêndio das antigas Sodoma de Gomorra, na margem do Mar Morto, mas Jericó em especial ocupava o topo de uma montanha de rochas.

A Bíblia fala de uma invasão “punitiva”, sem saque senão do que fosse de metal (não foram encontradas preciosidades de metal), sem cerco da cidade até que se rendesse por fome, e sem pilhagem dos alimentos, o que não era tradicional. Segundo o relato Bíblico,

A cidade e tudo quanto havia nela queimaram a fogo; tão-somente a prata e o ouro, e os vasos de metal e de ferro, deram para o tesouro da casa do Senhor. (Josué 6.24)

Por outro lado, tanto a teoria do terremoto quanto a Bíblia são patentes quanto à destruição da cidade. Isto é, diz-se que não sobraram habitantes morando em Jericó após o séc. 16 a.C., o que era algo comum na longa história da cidade. Mas ao escavar o cemitério a noroeste de Jericó, foram encontrados diversos amuletos egípcios, bastante usados na região para selar correspondências e escritos. Neles se liam os nomes dos faraós da rica 18ª Dinastia (época em que o Egito expandiu seus domínios sobre o Oriente Médio) como Tuthmosis III (1504-1450 a.C.), rainha Hatshepsut (1503-1483 a.C.) e Amenhotep III (1386-1349 a.C.). São faraós anteriores à migração dos Hyksos³, mas também posteriores à chegada dos Hebreus em Canaã e, ainda, posteriores à destruição de Jericó.

Dessa forma, só podemos pensar que após a tal devastação da cidade, seja por terremoto ou pelos Hebreus, Jericó continuou habitada (e fazendo comércio com o Egito) pelo menos até a chegada dos Hyksos. Isso pode significar que a “queda” de Jericó não foi um único evento, de uma noite ou uma semana, mas uma sucessão de catástrofes dos sécs. 16 a 14 a.C., entre terremotos, invasões oportunistas e pequenas batalhas, que foram condensadas de forma fantástica na narrativa bíblica.

Segundo a Bíblia, Jericó permaneceu abandonada até que Hiel, o betelita, se estabeleceu lá no século 9 a.C. A partir de então, a cidade tornou-se um povoado judeu como muitos outros próximos de Jerusalém. 

E, saindo eles de Jericó, seguiu-o grande multidão. E eis que dois cegos, assentados junto do caminho, ouvindo que Jesus passava, clamaram, dizendo: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós! E a multidão os repreendia, para que se calassem; eles, porém, cada vez clamavam mais, dizendo: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós! Jesus, parando, chamou-os, e disse: ‘Que quereis que vos faça?’
Disseram-lhe eles: ‘Senhor, que os nossos olhos sejam abertos.’ Então Jesus, movido de íntima compaixão, tocou-lhes nos olhos, e logo seus olhos viram; e eles o seguiram. (Mateus 20.29-34)

-----------------------------------------------------

¹ Os Natufianos foram um povo que inaugurou a vida sedentária na Palestina. Formavam pequenas aldeias permanentes, erguidas geralmente com casebres de pedra, domesticavam cães e faziam cultivo de cereais selvagens da região. Toda sua cultura parecia girar em torno do trabalho com cereais, produzindo moinhos, pedras de bater e recipientes para um tipo de cerveja primitiva. Curiosamente, os Natufianos não criavam animais para alimentação, de forma que se instalavam em lugares naturalmente frequentados pelos animais selvagens.

² Na história humana, os povos Neolíticos são aqueles capazes de lapidar ferramentas como pontas de flecha, lanças, pedras de amolar e pedras de moinho. A produção de cerâmica é considerada uma aquisição tecnológica que anuncia o fim do tempo Neolítico, pois trata-se de uma invenção significando que o povo em questão já é capaz de controlar o fogo e fabricar seus próprios instrumentos, independente do que encontram à disposição na natureza. A cerâmica também vem sempre junto com a criação de rituais funerários, arte de pinturas e símbolos nacionais como bandeiras e deuses.

³ Os Hyksos foram um povo semita (do Oriente Médio) que habitou a região costeira do Egito entre os séc. 18 a 16 a.C. Eles construíam cidades poderosas como Avaris, mercante marítima e exportadora de vinhos valiosos. O Egito então era repartido entre diversas famílias nobres controlando largas porções de terras ao longo do Nilo, com os vários reinos separados pelas cachoeiras no rio. Os Hyksos foram repelidos do Egito quando a 18ª dinastia de Thebas ganhou poder e dominou as demais famílias reais, além de espalhar seus exércitos para o Oriente Médio. Sua migração populacional do Egito para a Palestina corresponde a uma mudança cultural drástica, que se associa com algumas descrições do Êxodo Bíblico. Canaã teve as cidades convertidas para a cultura hebraica, mas é muito questionável se isso foi um processo rápido e violento ou se foi uma transição lenta, mais comercial do que militar e sob a tutela política do Egito.

-----------------------------------------------------

PEDRAS DESMORONADAS NO CAMINHO

O Êxodo fora da novela, loungecba.blogspot.com, abr/2017.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe um comentário!