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sexta-feira, 7 de março de 2025

CARNAVALESCO MAN

Bob

Para começar, o título é uma homenagem ao extinto programa Casseta & Planeta, dos anos 1990. Ele (o título) se explica pela referência explícita ao Carnaval, ou talvez a um super-herói questionável que espalhava o Carnaval por onde passava, com raios de purpurina e gritinhos. Mas estamos aqui para conectar o Carnaval brasileiro ao Cristianismo. Mais especificamente, a idéia é falar sobre Evangelho, "a boa notícia". Sim, parece sempre muito estranho que chamemos de Evangelhos a 4 textos (Marcos, Mateus, Lucas, João, nessa ordem cronológica) que contam, de modo narrativo (e diverso) a vida e morte de Jesus. Não a trajetória do Jesus Messias de Paulo, quem escreve a maioria dos outros textos do Novo Testamento, mas o Jesus humano, nazareno, pobre, mortal, raivoso, sofrido, traído, duvidado. Marcos é a base, supostamente reproduzindo as falas de um Pedro velho, que ele [Marcos] anotou. Mateus é o sonho. Lucas é a pesquisa, aquilo que o povo fala. João é o outro lado da história. E tudo isso trazido aqui, com a temática do Carnaval. Que pedante!

Calma lá, leitor. Vou só tentar te convencer que o Carnaval é uma festa Cristã do Bob Espoja. Pepepeperaí...

Esse texto deve ser sua 6ª versão. Ou outra, não faz mal. Ele surgiu da idéia (talvez absurda, e aí os muitos apagamentos têm algo a testemunhar) de discutir o Carnaval enquanto uma grande salada de crenças. Algumas Cristãs! Salada porque essas crenças são diversas como queijo, rúcula, limão e tomates; e porque nos chegam juntas, na melhor das intenções, mas nem sempre de forma boa. Olha só..

No Carnaval, eu identifico pelo menos 3 tribos tomando seus rumos: vou chamar elas de foliões ou Bob Esponjas (a não analogia é difícil para os fãs do desenho), querendo fazer o que der na telha, com suas purpurinas, batuques, trombones, etc; os Lula Moluscos, que só querem ficar em casa maratonando seriados, talvez; e os Crentes ou Siriguejos, que se reúnem para orar, jejuar, enfim fazer o contra dos Bob Esponjas. A analogia com o desenho parece instrutiva. Se você nunca viu, está perdendo. E a questão aqui é justamente O QUE O CARNAVAL CULTUA?

A resposta mais óbvia, penso eu, é que são as pessoas quem cultuam. Não é a data em si, nem as folias, mas as pessoas. E por isso as reparti em três bandos ou personagens. Os nomes do famoso desenho infantil vieram como forma de caracterizar os personagens carnavalescos. Copiei de um podcast que me fez rir muito. Bob Esponja é um rapaz (esponja do fundo do mar, mas é a cara dessas de lavar louça) que trabalha numa lanchonete, metido em um terninho. Ele faz tudo lá, na verdade é só ele quem sabe as receitas. Ganha quase nada e está sempre rindo da vida, das pessoas, até do próprio pé. Lula Molusco é outro funcionário (uma lula), vizinho do Bob no trabalho e na moradia, que tem aquele bom humor de tia velha da repartição pública combinado com diretora de escola em TPM. Em casa, sozinho, ele fica feliz. Desde que o Bob não apareça. E finalmente, Siriguejo é o dono da lanchonete (ele é um caranguejo), o capitalista que tenta lucrar com tudo, grita o tempo todo, demite todos umas 2 vezes por dia, possui de tudo e evita se misturar com a plebe, especialmente se ninguém pagar por isso.

No bloco dos Bobs, os seguidores de Paulo colocariam a placa "um culto da carne", ou simplesmente "dos prazeres". Dá para entender que aqui está o pessoal com chapéus engraçados, purpurinas, confetes, que segue os trios ou faz suas festinhas regadas a muita bagunça. A idéia original do Carnaval lá na Antiguidade era essa, de dar uns dias ao povo para se divertir independentemente da lei. Vale dizer que a lei Romana era imposta a muitos povos não-Romanos. O Carnaval era exatamente uma folga-de-Roma, inclusive para os Romanos. Cultuar a liberdade nesses dias era e é certamente compreensível, diria qualquer dirigente do Império. Não mudou muito.

Mas eu quero explorar isso. E fora da denominação de Paulo, que seguia o Platonismo grego, ou seja, o Espírito (intelecto) e a Carne (corpo) como inimigos entre si. Eu jamais conheci um corpo sem espírito (que fosse vivo) ou um espírito sem corpo (que também fosse vivo), por isso acho a idéia bizarra. Não estou sozinho nessa opinião.

O culto do prazer, por mais estranho que pareça, é corporal (de beber, dançar, beijar, abraçar, ser igual aos outros) e também espiritual (de ter prazer ao beber, de ter prazer ao beijar, de ter prazer ao abraçar, de ter prazer em ser mais um). Basicamente, ter prazer. Nosso cérebro carnal é preparado para escolher comidas e bebidas por prazer, e estar vivo enquanto você faz as muitas coisas que faz. E o cérebro espiritual (seja lá o que isso for, mas você entendeu a idéia) está amalgamado, misturado na coisa carnal. Diriam vários filósofos: é necessário ter prazer no que se está fazendo. Supostamente fomos feito com essa diretriz .. pelo Criador. Mas "ter prazer" se tornou algo ruim, pelo viés Platonista. Esse tema é complexo.

Há prazer em comer, há prazer na cerveja com os amigos, mas também na música. Há prazer em dormir. Há prazer em estar com seus filhos, e com seus pais. Há prazer em ver a arte nas igrejas Cristãs, e também em dançar para Orixás ou para as forças da Natureza. Há prazer em plantar, em colher e em ajudar um amigo. Há prazer em não fazer nada. Acredito que Jesus falava sobre isso quando contou do Bom Samaritano, que ajudava sem nada receber (além de prazer). Há prazer em desafiar as autoridades, e todo adolescente conhece isso. Jesus e todos os mártires também desafiaram autoridades. Há prazer em pintar e em cantar, porque a criatividade é prazerosa. Os Druidas antigos lá na Grã-Bretanha nunca se repetiam em seus cânticos, poemas e feitiços. Mas há prazer também em fazer o que você já faz bastante. Jesus ensinou o prazer de ver seu próximo estar bem. Quem poderia ter aprendido? 

Dentro do bloco carnavalesco dos Bobs, vale dizer que muitos rumos são possíveis. Nem todo prazer seu é prazer do outro e, talvez, atentar para esse "prazer do outro" seja uma lição valiosa para todos que embarcam na folia, atrás dos prazeres de si. Há caminhos para isso verdadeiramente religiosos, seja você Cristão ou não. Valorizar o prazer vai muito na direção do ensino de Jesus ao mostrar que seu pagamento é a própria ação, mas ela precisa trazer bem ao outro. Não é um compromisso estranho, eu lhe garanto. Alguém (Lá encima? Aqui do lado?) te fez justamente para isso, se ser feliz e fazer feliz.

Não esqueçamos os Lula Moluscos, quietos e  rindo seu canto escuro. Não tan´to mas são aqueles que só querem o feriado, a folga, para gastarem um tempo sozinhos. A analogia com o personagem é porque o Lula Molusco nunca quis encher o saco de ninguém. Nem quis ir a festa alguma. O que tem de errado nisso?

Dentro do mundo Capitalista, não tem nada errado. Cada um cuida de si. O Si é mais importante que todos, aliás. No mundo Socialista, alguém perguntaria "como você está servindo a sua comunidade?". Sim, ficar no seu mundinho particular pode então não ser bem visto. Mas não tem problema, desde que você saiba o que faz. Eventualmente, ficar longe de todos pode inclusive ser saudável para alguém se regular, apaziguar os próprios demônios. Se os Bobs querem festejar, os Moluscos só querem estar fora da festa. Mas a pergunta aqui é a mesma: quem você está cultuando quando faz isso?

Uns diriam Ninguém (isso quase sempre é mentira), outros diriam "eu mesmo" (o que seria verdade se você fosse completamente original, mas geralmente não é), outros diriam "a minha liberdade". A tal da Liberdade tem até uma estátua gigante, com tocha na mão e tudo. Não é ruim cultuar a Liberdade, especialmente se você o faz com ética. Nesse último caso, eu até recomendaria você o fizesse em outras épocas do ano, ou se tornasse até arauto desse movimento, pois as pessoas sofrem muito por falta de liberdade.

A parte ruim da liberdade - e vale dizer isso - é que ela costuma ser individualista, como o Molusco. Você basicamente pode ser você mesmo, sem ferir os demais, quando está sozinho. A tolerância ao outro costuma cair por terra quando nos deixamos ser livres, e isso é sintomático de que estamos, no fundo, separados. Apenas pelo que não é liberdade - ou seja, pela força ou o interesse - é que conseguimos estar juntos. Muitas vezes, nem casais conseguem ser livres enquanto juntos, como se o mundo fosse composto de regras estritas sobre o que fazer e não fazer, uma espécie de Roma legislativa sem espaço para a criatividade ou liberdade que nos caracterizam como seres pensantes e sensientes.

A Liberdade é importante para a vida, precisa ser cultuada e experimentada não apenas na solidão dos quartos e apartamentos, mas como inspiração para os demais. A Liberdade levou Jesus a jantar com Fariseus, Publicanos, Plebeus, Centuriões, Juízes, etc. Um nome (Romano) que não havia ainda, mas caberia em Jesus, é "libertino". Do tipo que pega o trigo "sagrado" para dar a homens famintos, ou sai fazendo coisas em pleno Shabat. Muitos O repeliram (os Evangelhos certamente não têm muito a dizer desses encontros ruins, que certamente se deram), mas outros gostaram tanto daquele tipo libertino que se inspiraram Nele. E daí a liberdade no Carnaval, mesmo naqueles tempos de Roma, seja mais Cristã do que você já pensou. "A verdade vos libertará", dizia Ele. E dessa forma, o Molusco é só um carnavalesco retraído quando quer ficar sozinho. Com certeza outros se juntariam a ele para preparar suas requintadas comidas, fazer suas miniaturas, suas esculturas ou tocar o seu trompete.

Sem fugir demais, resta falar sobre o clã dos Siriguejos. É o pessoal que repudia os festejos Pagãos fazendo seus festejos Cristãos. Por Pagão vamos relembrar que foram os Europeus não Romanos (pagani), depois os Europeus não Cristãos, depois os povos originários de África e América que os Europeus invadiram. Não sei se o nome ainda cabe, já tem gente demais dentro dele, incluindo denominações Cristãs diferentes da minha. O pessoal mais Cristão é ensinado a repudiar o pessoal Pagão, embora talvez compre verduras deles.. No Carnaval, isso se traduz em uma. comemoração parecida, mas com Jesus no nome. Talvez você tenha pago por ela igual um Bob pagou no abadá do seu carro alegórico.

Os Siriguejos, aqui, são o pessoal reacionário, que faz questão de ser diferente. Sem preconceitos, mas trata-se de organizar acampamentos, vigílias, etc que não acontecem noutras épocas do ano. É sempre uma possibilidade, no feriado. Mas quem eles cultuam com isso? Jesus Carnavalesco? Que não seja a si mesmos.

Há o problema de ser uma ação reacionária, ou seja, dependendo do outro e direcionada para se afastar ou diferenciar dele. Isso quer dizer que ela fortalece uma comunidade às expensas de declarar quem é o inimigo comum. Os Bobs, claro. Não é necessariamente alguém que vamos apedrejar, mas com certeza alguém que não queremos ser.. Há episódios de Jesus agindo assim, como os conflitos com os religiosos (em todos os Evangelhos, e sendo justo Ele o fundador involuntário de uma religião), com os vendedores no Templo e na instrução para os seguidores não voltarem a uma cidade onde tivessem sido rejeitados. Ide, mas não voltardes.

Esse grupo que "rejeita o mundo", como o Paulo platonista ensinava fazer, pode dizer de si que são os verdadeiros cultuadores de Jesus. Mas só uma parte, porque Ele não gostava de caixinhas e se juntava até com aquelas pessoas de quem mandava ficar longe. Os Siriguejos são esses que ficam longe, que não se misturam. E nesse fragmento de Jesus, estar longe, entre os seus, é um sinal de pureza. São as mesmas pessoas que dizem alegres "Eu evangelizei a Dna Alberta", mas não diriam "A Dna Alberta fez um bolo delicioso e comemos juntos". Não estar junto da Dna Alberta, no caso, se alia com evangelizar ela somente porque traz embutida uma noção de superioridade. Nesse pedestal que Jesus nunca quis, eu sou Cristão separado PORQUE eu sou superior. Comemorar diferente no dia da festa dos Bob Esponjas é o equivalente de fazer uma festa em minha casa NO DIA DO SEU ANIVERSÁRIO, e te dizer "cada escolhe onde ir; aqui ficarão os mais legais".

Rejeitar o mundo não necessariamente é ruim. Os mais religiosos e os mais psicóticos geralmente rejeitam. A diferença está em isso ser reacionário (isto é, no dia da festa dos Bobs) ou constante. Há santidade em "tirar o mundo que nos cega" para ver além. Porém, como aquele que monta um problema matemático a partir de um problema real e depois não retorna para a realidade, se o caminho de volta foi perdido, com certeza não estamos em bom rumo.

Comunicar-se com a sua divindade é maravilhoso para que ele/ela/elo nos instrua, mas essa mensagem tem de voltar aqui. Ou seja, o desligamento do real precisa trazer um alívio prático para os sofrimentos, porque não há como esquecê-los. A volta dos ensinos espirituais, seja quando forem (e talvez o feriado mais pagão seja a data que resta), precisa trazer mudanças e instrução. Principalmente no sentido de dizer às pessoas o que Jesus repete nos ouvidos faz muito tempo: "Cuide das minhas ovelhas". O Siriguejo, em seu "retiro de Carnaval" com gente semelhante, de mesma crença e renda, talvez traga muito menos de lá do que o Molusco, que ficou em casa.

Isso não quer dizer seja um programa de Carnaval matar os Bobs, muito menos ficar longe deles. Menos ainda evangelizar eles. Diante de tendas Cristãs montadas nas ruas onde passam os bloquinhos de Carnaval, será que a Dna Alberta ficou feliz de receber você? Porque será que ela gastou tempo (e gás) te fazendo um bolo? Quão PRÓXIMO você estava dela? Será que você estava mais disponível  do que ela estava PRÓXIMA de você? 

O propósito desse texto nunca foi trazer respostas, mas colocar perguntas que, se te foram difíceis, se te fizeram pensar, talvez tenham te evangelizado.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

SOBRE A BENÇÃO AOS CASAMENTOS HOMOSSEXUAIS

Recentemente, muito falatório circulou sobre a determinação do papa Francisco I sobre a benção aos casais homossexuais. Em geral, trataram-se de teorias sobre a Igreja Católica estar abrindo mão de uma exclusão antiga aos casamentos de pessoas do mesmo sexo - não no sentido de preconceito ou afastamento dos locais sagrados (como ocorre nas igrejas Protestantes / Evangélicas) - mas no sentido de não reconhecer uniões homossexuais.

O LADO DA LEI

No Brasil, a união civil de pessoas do mesmo serviço foi possibilitada pelo Projeto de Lei 580/07, do ex-deputado Clodovil Hernandes, onde a única condição imposta era de que as pessoas fixassem em contrato seus patrimônios. Sem haver ainda a anexação à Constituição, entretanto, a bancada Evangélica / Bolsonarista luta contra tal resolução através de outros projetos de lei, um do ex-deputado Capitão Lucínio Castelo de Assumção (PL) e outro do deputado pastor Francisco Eurico da Silva (também PL / Assembléia de Deus). Entre os argumentos contra a possibilidade de casamento homoafetivo estão que “a relação homossexual não proporciona à sociedade a eficácia especial da procriação" e a alegação de que o banimento da homossexualidade do catálogo de transtornos mentais (lá nos idos de 1973) foi uma intervenção político-ideológica na ciência.

Sinceramente, num planeta com 8 bilhões de pessoas, é difícil sustentar o valor inestimável da reprodução humana. Além disso, nenhum cientista (geralmente depreciados que são pela Igreja) apoia, hoje em dia, o tratamento medicinal da homossexualidade.

O LADO RELIGIOSO

A posição da Igreja como hostil aos homossexuais descende dos escritos moralistas de Paulo, lá nos anos 50 d.C.

Carta aos Romanos 1.19-32
Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou.
Porque as Suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o Seu eterno poder, como a Sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis.

Tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem Lhe deram graças. Antes, em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, aves, quadrúpedes e répteis.

Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si.
Mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém.

Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. Semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro.

Como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm. Estando cheios de toda a iniqüidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade; sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais e às mães; néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia.

Conhecendo a justiça de Deus (que são dignos de morte os que tais coisas praticam), não somente as fazem, mas também consentem aos que as fazem.

A rejeição aos homossexuais aparece no antigo sistema dos Fariseus (lá no Antigo Testamento), o que direciona para esse lado de maior rejeição as igrejas Evangélicas, junto com Testemunhas de Jeová e Mórmons. Os Protestantes Tradicionais/Históricos, Católicos, Muçulmanos e Judeus estão no meio do caminho, enquanto os Budistas e religiões Africanas situam-se no extremo de maior aceitação. Muitas vezes, os homossexuais são associados ao comportamento social da antiga cidade de Sodoma,destruída "devido a seus pecados" (Gênesis 19.1-11), sobre a qual o profeta Ezekiel escreveu:

Ezekiel 16.49
Eis que esta foi a iniqüidade de Sodoma, tua irmã [irmã de Gomorra, ambas incendiadas]: Soberba, fartura de pão, e abundância de ociosidade teve ela e suas filhas; mas nunca fortaleceu a mão do pobre e do necessitado.

No texto de Levítico, parte do longo código ditado a Moisés), os homossexuais estão excluídos daqueles aceitos por Deus (Levítico 18.22 e 20.13). Em sua 1ª Carta aos Coríntios, Paulo também listou os homossexuais entre aqueles que não entrarão no Reino de Deus, junto com idólatras, bêbados, ladrões e avarentos (1ª Coríntios 6.9). No mais atual Catecismo da Igreja Católica (1992, papa João Paulo II), a homossexualidade aparece descrita como "ato intrinsecamente desordenado", "contrário à lei natural porque fecha o ato sexual ao dom da vida", "em caso algum podendo ser aprovado". Ao contrário das igrejas mais Pentecostais, que atribuem a homossexualidade à possessão demoníaca ou afastamento do Espírito Santo, dentro da Igreja Católica apenas o ato sexual e os trejeitos são vistos como pecaminosos. Ao mesmo tempo em que a Igreja Católica afirma ser contra titular os homens por seu comportamento sexual, aos homossexuais ("dentro do armário") é prescrita a castidade eterna como forma de evitar o pecado que lhes tenta.

UM PAPA DESAFIADOR?

Diante desse posicionamento da Igreja Católica como hostil à união homossexual (hostilidade defendida fervorosamente pelos papas João Paulo II e Bento XVI), a declaração de Francisco I com relação à benção de homossexuais causou forte alvoroço. Cinco cardeais direcionaram ao "Dicastério para a Doutrina da Fé" uma carta contendo 5 "dubias", ou questionamentos acerca do posicionamento do papa. Trata-se de um novo nome para a "Suprema e Sacra Congregação do Santo Ofício", também já chamada "Suprema e Sacra Congregação da Inquisição Universal da Idade Moderna". O mesmo orgão que comandava as queimas de hereges e bruxas na Idade Média. Essa perguntas eram: (1) se devemos reinterpretar a Divina Revelação com base nas mudanças culturais e antropológicas; (2) se a prática de bênção das uniões com pessoas do mesmo sexo estaria de acordo com a Revelação; (3) se o Sínodo dos Bispos (assembléia que ajuda o papa nas diretrizes do Concílio Vaticano II, de aproximar a Igreja das comunidades desasistidas) é um órgão constitutivo da Igreja; (4) se a teologia da Igreja mudou e mulheres poderão ser sacerdotes; (5) se o perdão é um direito humano e o arrependimento não seria necessário para receber a benção.

Francisco I não apenas respondeu publicamente as questões no dia seguinte, mas juntou seus pareceres em forma detalhada no documento “Fiducia supplicans” (Confiança do Suplicante) publicado pelo Vaticano. Nas respostas e no texto, o papa abordou com "luvas de pelica" e admirável diplomacia a questão dos homossexuais. No fim, seu pronunciamento foi muito menos chamativo do que as teorias levantadas a respeito:

1) Não há nenhuma intenção da Igreja Católica em consentir ou abençoar uniões homossexuais. O casamento continua entendido como um sacramento da união de homem e mulher para a procriação. Assim, a união homossexual nem mesmo é considerada um "casamento" pela Igreja Católica.

2) A Igreja afirma não ter qualquer poder sobre relações que fogem ao prescrito na Bíblia. Isso se estende a todas as relações sexuais diferentes do casamento.

O ponto de Francisco I foi simplesmente estender o conceito de benção para um propósito da Igreja em aproximar os homens de Deus. A benção, segundo ele, é uma ferramenta para essa aproximação, pois Jesus abençoou as crianças, assim como os apóstolos no momento de sua Ascenção. Sem analisar nenhum dos dois grupos a respeito de sua retidão moral. Criticando uma postura elitista da Igreja ao requerer perfeição moral prévia das pessoas para aplicar aquilo que foi concedido gratuitamente por Jesus, o papa retratou a benção como algo que deve ser concedido a todos aqueles buscando a ajuda de Deus, independente de sua condição.

Mas também os homossexuais? Sim, a todos os homens que aceitam sua condição imperfeita e pedem a ajuda de Deus. As bênçãos têm como destinatários as pessoas, objetos de culto e devoção, imagens sagradas, lugares de
 vida, de trabalho e de sofrimento, os frutos da terra e do trabalho humano. No entanto, Francisco I ressaltou a diferença entre benção e sacramento, ou ato oficioso da entidade Igreja em aprovar e fortalecer algo. A benção gratuita não deve em momento algum se assemelhar a um sacramento: nem nos momentos em que esse é aplicado (como um casamento), nem com as mesmas roupas ou significados. Então os homossexuais podem ser abençoados, mas não se trata de estender o sacramento do matrimônio a uma união entre pessoas do mesmo sexo.

DETALHANDO AS COISAS

É interessante observar que a referência bíblica sobre a condenação dos homossexuais (e isso significa algo vago, que se estende na prática desde a perseguição e imposição de uma "cura gay pela fé", até afastamento dos espaços religiosos ou direcionamento à castidade) parte das cartas de Paulo, enquanto a determinação do que seria uma benção parte dos Evangelhos narrando a vida de Jesus. Até antes de Francisco I, as duas coisas pareciam inconciliáveis. Assim como em muitas outras situações, essa "rachadura interna" advém da origem fragmentada do Cristianismo: Marcos reproduziu o que ouviu de Pedro; Mateus "super-heroidizou" Jesus; Lucas recolheu narrativas das pessoas; João escreveu algo talvez mais idealizado, que construiu das andanças de Jesus por entre os  Samaritanos; Paulo misturou elementos Fariseus e Gregos para satisfazer a um Espírito Santo de perfeição moral.

Jesus não pareceu se importar com perfeição moral em qualquer um dos quatro diferentes Evangelhos. Entre Seus escolhidos, estavam pessoas comuns, cheias de conflitos e defeitos: um acreditava em luta armada, o outro em salvar a própria pele, etc. Justamente daí vinha seu conflito frequente com os Fariseus, que associavam perfeição e privilégio moral / social / político com a proximidade de Deus. No arrebanhamento da Igreja por Roma, as cartas de Paulo (e talvez muitas delas não escritas por ele) tiveram maior peso sobre a teologia Cristã do que o próprio Jesus. Como reflexo disso, hoje vemos pregações nas igrejas Cristãs que ressaltam muito mais a morte de Jesus como Sacrifício Vivo do que elementos da Sua vida; Jesus se  tornou alguém para reverenciar e não para imitar - o que devemos imitar é a perfeição moral que Paulo extraía do Espírito Santo.

Nesse caminho que o Cristianismo tomou, os homossexuais (e mais ainda sua união religiosa) estão bem longe de serem aceitos. Obviamente existem excessões bem mais aparentadas com o Jesus que pregava aos pescadores e Samaritanos do que com o Paulo Fariseu Romano. Dentro dessas esferas mais altas das instituições, a Igreja Católica deu um pequeno passo, entendendo os homossexuais (institucionalmente falando) como dignos de benção.

Certamente nada incomodaria mais ao Criador das galáxias, nebulosas e tudo o que é vivo ou morto do que alguém com preferências pelo mesmo sexo satisfazer suas preferências em uma relação duradoura com quem ama.

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NOS PORÕES QUE NÃO SÃO DO VATICANO

Júnior, J. e Haje, L. Comissão aprova projeto que proíbe o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Camara.leg.br, 10/10/2023.

Brabo, P. Em 6 passos o que faria Jesus. Ed. Garimpo, 2009. Cap. 1.




Sbardelotto, M. Papa responde às "dubia" de cinco cardeais. Ihu.unisinos.br, 03/10/2023. https://www.ihu.unisinos.br/categorias/632889-papa-responde-as-dubia-de-cinco-cardeais

sábado, 11 de novembro de 2023

Em tempos de guerra

São Porfírio, 20/10/2023

Chegamos em 31 de outubro de 2023 com várias situações trágicas pelo mundo. Afora desastres naturais como secas ou chuvas, calor ou frio afligindo populações inteiras, duas guerras mostram um velho lado sanguinário dos homens.

Seja em Gaza ou na Ucrânia, não se trata de situações simples com um povo "mau" ameaçando im povo "bom". Nem tampouco de situações perdoáveis com povos simplesmente tentando sobreviver ou políticos atrás de interesses financeiros e usando as populações incautas. São desafetos antigos, vinganças, colonizações e massacres resultados de uma história de inimizades e interesses,  principalmente acreditados como injustiças, com um povo ou governo possuindo aquilo que não merece ter. Na Ucrânia, trata -se das reservas e dutos de escoamento de gás natural, que abastecem a maior parte da Europa; em Gaza, trata-se da terra provedora de plantas e água que Palestinos e Judeus são incapazes de dividir equitativamente. Citando um velho filme sobre guerras, são pessoas que não haviam nascido quando a divisão foi feita, lutando contra alguém que não era nascido quando houve uma injúria.

Tanto numa batalha como outra, além dos exércitos, armas, bombas, aviões, mísseis e tudo mais, estão envolvidas as populações residindo no campo de batalha. São homens, mulheres, crianças, velhos e doentes com suas moradias sendo pisoteadas ou demolidas ou incendiadas ou explodidas em nome de expulsar os não-merecedores.

HISTÓRICO DE AJUDA?

Jesus, em Seu tempo, não conviveu exatamente com isso: embora a Galiléia e a Judéia fossem territórios ocupados por Roma, vigorava a Pax Romana: havia acordos entre o Império e as classes dominantes para evitar lutas armadas. Qualquer ameaça à paz era imediatamente combatida com o deslocamento de legiões. Jesus e Paulo viveram depois das guerras Romans contra os grandes reinos (500-100 a C.), e morreram antes das guerras contra os Judeus (70-140 d.C.). Bem depois de Paulo estar morto, o grande incêndio de Roma em 64 d.C. (os Judeus e Cristãos foram responsabilizados, provavelmente como bode expiatório) foi seguido por rebeliões Judaicas contra o Império entre 66 e 70 d.C. Antes de incendiar Jerusalém e dar fim ao Templo, estima-se que as legiões tenham matado 500 000 Judeus, o que se encaixaria nas previsões apocalípticas dos Evangelhos.

As vidas humanas nos territórios de disputas geralmente são de muito pouco valor. Na invasão da Ucrânia pela Rússia, estima-se que até agora tenham morrido 500 000 pessoas. Em Gaza, são 9300 Palestinos. Seja nos tempos de Roma, na Ucrânia ou Gaza, não estamos falando de baixas militares em batalha - são cidadãos desarmados com suas famílias que simplesmente estavam no caminho dos exércitos e foram exterminados como demoNstração de força para o inimigo.

Jesus e Paulo não deram testemunhos de atuação Cristã em tempos de guerra, porque viveram, apesar de tudo, em uma época e local de paz. Talvez essa falha de aconselhamento se ligue ao fato de que o Cristianismo nunca foi um bom exemplo de pacifismo, sendo marcado por episódios sanguinários. Podemos lamentar as Cruzadas no final da Idade Média, o extermínio de populações indígenas no séc. 16, a aniquilação dos impérios da África Ocidental nos sécs. 18-19 e até a aliança com os nazi-facistas na 2ª Guerra Mundial.

Pelo menos desde Francisco de Assis (1181-1226), que começou a vida como soldado, entretanto, diversos movimentos dentro do Cristianismo desenvolveram um lado pacifista envolvido com acolhimento, solidariedade, partilha e empatia. É curioso que Francisco de Assis tenha, segundo contam (muito de sua vida é descrita em obras muito posteriores a ele), pedido ao papa Inocêncio III para construir uma igreja abrigadora de sua nova ordem, mas o papa tenha recebido a visão de alguém que viria reconstruir a Igreja. Esse movimento amoroso (e de ligação com os pobres, no caso de Francisco), não vem diretamente dos Evangelhos, mas de se apoderar de algumas palavras de Jesus presentes principalmente nos Evangelhos de Mateus (com relação aos pobres) e João (que é provavelmente de origem Samaritana), além das cartas Joaninas, para falar de um Cristianismo devotado ao amor para com todos. Palavras que Jesus destinou, segundo Mateus, para o cuidado com vizinhos briguentos da Galiléia e os arrasados de uma Jerusalém destruída. E segundo João, para a aceitação dos não-Judeus dentro da nascente comunidade Cristã. Atualmente, o papa Francisco I (cujo nome representa justamente ser o primeiro franciscano nessa função), orienta os fiéis a rezarem pelos migrantes em massa que tentam fugir com suas famílias das regiões de conflito.

Conflitos, desastres naturais ou, simplesmente, a impossibilidade de levar uma vida digna e próspera na própria terra natal obrigam milhões de pessoas a partir(papa Francisco I)

Migrantes fogem por causa da pobreza, do medo, do desespero. No início da Colonização, o Brasil recebeu milhares de Judeus vindos de Portugal e Espanha, que haviam se abrigado em Portugal e depois foram perseguidos com a união dos dois reinos (1580 - 1640). No início do séc. 20, recebeu centenas de milhares de europeus, semitas e orientais fugidos da 1a Guerra Mundial e da recessão financeira dos anos 1930. Nos anos 1970 e 2000, muitos Sírios chegaram aqui, fugidos das diversas guerras de poder político no Oriente Médio que passaram por sobre o país. Logo depois, o terremoto no Haiti fez muitos percorrerem caminhos enormes entre seu país arrasado até o Brasil que sempre manteve a tradição de pais acolhedor do refugiados.

Segundo dados divulgados na última edição do relatório “Refúgio em Números” (Acnur ou Agência da ONU para Refugiados), cerca de 108,4 milhões de pessoas em todo o mundo foram forçadas a deixar suas casas. Entre elas estão 35,3 milhões de refugiados. Além de 4,4 milhões de apátridas, pessoas a quem foi negada a nacionalidade e que não têm acesso a direitos básicos como educação, saúde, emprego e liberdade de movimento. Apenas em 2022, no Brasil, foram feitas 50.355 solicitações da condição de refugiado, provenientes de 139 países. As principais nacionalidades solicitantes em 2022 foram venezuelanas (67%), cubanas (10,9%) e angolanas (6,8%).

Essas correntes migratórias acontecem também em outras partes do mundo, mais recentemente com a Itália recebendo gente que foge da pobreza na Namíbia, arriscando suas vidas para atravessar o Mediterrâneo em barcos despreparados e superlotados, além da Polônia e Alemanha recebendo muitos Ucranianos que 

fogem da invasão Russa. Ao mesmo tempo em que ficamos felizes de ver países de onde as pessoas fugiram no passado, como Polônia e Itália, agora abrigando os refugiados de outros cantos, é triste ver países um dia formados por refugiados, como Israel, agora atacando terras muito mais pobres como Gaza.

Cada qual segundo as próprias responsabilidades e empenho, que começa por nos perguntarmos o que podemos fazer, mas também o que devemos deixar de fazer. Devemos prodigalizar-nos para deter a corrida armamentista, o colonialismo econômico, a pilhagem dos recursos alheios e a devastação da nossa casa comum(papa Francisco I)

Esse ponto, como dito anteriormente, é difícil de ser cumprido. Entre tomar posse de campos de petróleo bilionários, comandar o fornecimento de gás e mercadorias marítimas a todo um continente ou controlar fontes de água e terras férteis, é bem simples escolher pela morte ou expulsão dos que habitam lá. O desejo por riquezas ou vantagens facilmente transforma pessoas exatamente iguais a nós em "outros" para com os quais não nos arriscamos a ter empatia. Sequestramos e matamos jovens, adultos, velhos e crianças, ou despejamos mísseis e artilharia aérea sobre bairros residenciais, escolas, hospitais e até campos de refugiados.

Lá no séc. 5 a.C., quando a comunidade Judaica estava se estabelecendo na Palestina, o livro de Levítico trazia instruções como “Se alguém migrar até vocês, e na terra de vocês estiver como estranheiro, não os oprimam. O estrangeiro será para vocês um concidadão. Você o amará como a si mesmo, porque fostes estrangeiros na terra do Egito. Eu sou Javé, o Deus de vocês” (Levítico 19.34-35). No séc. 1 d.C.,Paulo, quase sempre um estrangeiro, tentou resgatar essa tradição, ao mesmo tempo testemunhando que o primeiro ensinamento não produziu o fruto pretendido:

"Portanto, vocês dessa forma já não são estrangeiros e forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus” (Efésios 2.19).

Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: RACÁ (= sem valor), será réu do Sinédrio; e qualquer que lhe disser: 'Louco', será réu do fogo do inferno. (Mateus 5.22)

Não é simples receber estrangeiros. São pessoas que desistiram de seus lares, de seu povo, para tentar algo melhor bem longe. Mais do que isso, são pessoas que chegam sem laços de apoio, sem parentes ou amigos, sem emprego, sem saber o idioma, sem onde morar, e trazendo consigo uma cultura exótica. Oferecer algo a elas inevitavelmente é perder algo de si. Mas Jesus diz para encontrar o valor dessas pessoas, Paulo lembra que são nossos irmãos e Levítico nos lembra que todos podem ser ou já foram estrangeiros, algum dia.

Ninguém deixa a sua casa, sua história e suas pessoas sem ser por violência, miséria ou desigualdade. Muitos homens, mulheres e crianças acabam morrendo nesse caminho em busca de um sonho, sem chegar ao seu destino final com paz, um lar, um povo. Quão terrível é chegar e ser rechaçado! Quão absurdo é qualquer um temente a Deus expulsar as pessoas de suas casas por etnia, religião ou para tomar seu espaço!

PORQUE AJUDAR?

Nos países em guerra ou assolados por desastres político-financeiros, abundam desabrigados, desaparecidos, feridos e mortos. Nesses lugares, mais do que nunca, a Igreja tem como missão ser o pilar civilizatório. Enquanto Malaquias 3.10 é muito citada nos recolhimentos de dinheiro das igrejas, Deuteronômio 26.12, bem mais antigo, relaciona tais ganhos a haver mantimentos e usar esse dinheiro (ou animais, verduras, etc) para com os estrangeiros, órfãos e viúvas.

Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes. (Malaquias 3.10)

Quando acabares de separar todos os dízimos da tua colheita no ano terceiro, que é o ano dos dízimos, então os darás ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, para que comam dentro das tuas portas, e se fartem. (Deuteronômio 26.12)

Boa parte das igrejas, infelizmente, aloca seus recursos como empresas, investindo em canais de comunicação de massa, cantores, templos suntuosos, etc, ao invés de se prestar a um papel nem um pouco lucrativo que é o atendimento dos desabrigados.

OPINIÃO PÚBLICA 

Recentemente, algumas alterações sócio -bíblicas têm acontecido. Por um suposto parentesco com os Judeus (sim, muitas igrejas Protestantes são fortemente judaizadas), várias mega-igrejas têm se colocado favoravelmente a Israel nos recentes embates da Faixa de Gaza. Mesmo aqui no Brasil isso é preocupante, pois tais igrejas possuem políticos atuantes e direcionadores de recursos públicos.

Trata-se de uma situação política (não religiosa) em que Israel está agindo contra um ataque terrorista da mesma forma como os EUA agiram contra o Iraque na Guerra do Golfo, ou seja, usando a tragédia de uns como pretexto para massacrar milhares de outros. Foram 150 israelenses sequestrados numa Rave em Gaza, e isso tem sido justificativa para a morte não acidental de quase 10 mil Palestinos. Não é a primeira vez, só é um pretexto novo. Isso não tem qualquer motivação ou justificativa religiosa.

Como mostrado acima, nem a Torá Judaica nem os Evangelhos dão sustento a genocídios. Não estamos nos temos de Moisés ocupando a Palestina com seu povo fugido da escravidão no Egito - isso foi há 3500 anos. Estamos no tempo de Judeus chegados após a 1a Guerra em um território Palestino estarem massacrando os habitantes mais antigos do local. Até hoje, Israel não reconhece a existência de Gaza e a Cisjordânia como territórios Palestinos.

Apesar dos arroubos de saudosismo do Velho Testamento (600-400 a.C), a Igreja Protestante não possui qualquer parentesco histórico com os Judeus. O Cristianismo tem uma falha educativa em que os Cristãos em geral não conhecem a história Cristã de mais de 2000 anos, nem mesmo a produção intelectual ou teológica que houve, e muitas vezes nem mesmo o texto bíblico. O Protestantismo é uma das vertentes Cristãs (pois há muitas outras) que se popularizou a partir da Alemanha do séc. 16, como uma tentativa de resgate do texto bíblico e protestando contra a tradição Católica. Esse texto é realmente herdado dos Judeus (mas o Protestantismo rejeitou vários livros da Torá, que aparecem nas Bíblias Católicas) e sua parte verdadeiramente Cristã foi construída entre 50 e 150 d.C., com Paulo, seu autor mais antigo, evitando tendências judaizantes assumidas, por exemplo, por Pedro, quem parece ser a fonte da biografia de Jesus.

Várias igrejas Pentecostais passaram por uma "judaização", provavelmente no sentido de incorporar as figuras de profetas do Antigo Testamento, com pastores (nome que remete ao Bom Pastor, figura associada a Jesus) usando barbas longas, túnicas, quipás, cajados, menorás e até arcas com querubins esculpidos encima. Daí para chamar Israel de "nação de Deus" (lembrando que os Judeus estão espalhados pelo mundo) falta pouco. Na verdade, vimos Bolsonaro com um movimento nacionalista que hasteava as bandeiras dos EUA e de Israel (e não me seguro o riso, agora). E quem Israel ataca, mesmo por motivo egoísta e genocida, deve ser "inimigo de Deus".

Grande parte das igrejas Protestantes e também comunidades Católicas ligadas à extrema direita no Brasil e nos EUA, longe do conflito, infelizmente mantém o apoio a Israel, povo de Deus que defende seu território passando por um justo Colonialismo e expurgação genocida.

TENSÕES RELIGIOSAS

Na Ucrânia, a Igreja Cristã majoritária é a Igreja Ortodoxa, que funciona mais ou menos como a  Protestante, ou seja, com uma liderança descentralizada. Mas nem tanto: há uma hierarquia dos patriarcas dirigentes, com o principal deles na Grécia (Bartolomeu I, patriarcado de Constantinopla). Na Ucrânia, a Igreja Ortodoxa é dividida em Igreja de Epifânio (Ucraniana), Igreja de Onúfrio (Russa) e Igreja Grega, de acordo com o patriarca que as governa. O Mosteiro de Kiev-Petchersk, ou "mosteiro das cavernas" na capital Kiev, é um complexo de prédios subterrâneos históricos e alinhado com o governo Russo. Com a invasão, houve a suspeita de que o mosteiro deu algum suporte aos invasores e ele foi declarado inimigo do Estado, com ordens de evacuação. De fato, o patriarcado russo na Ucrânia tem sido continuamente atacado pelo governo e existe uma cisão entre as igrejas. Apesar disso, os templos do Patriarcado Russo foram os que mais sofreram com a guerra – pelo menos 143 foram destruídos ou transformados em bases militares russas.

"Mais uma vez, Patriarca Cirilo, você falou da unidade da Santa Rússia. ... O foguete da Federação Russa que você abençoou caiu no altar da catedral na festa dos Santos" (carta aberta do vigário da Catedral da Transfiguração em Odessa)

Os crentes das igrejas evangélicas na Ucrânia (pentecostais, batistas, adventistas, carismáticos, etc) foram particularmente afetados. Soldados russos ameaçaram repetidamente a destruição dos prédios e execução dos evangélicos, chamando-os de "espiões americanos", "sectários" e "inimigos do povo ortodoxo russo.

O QUE ESTÁ SENDO FEITO

Existe uma resposta da Igreja nessas situações de conflito. Em muitos locais, as igrejas próximas dos conflitos recrutam mantimentos e fornecem espaços para os refugiados. Nos desastres naturais, os templos religiosos frequentemente são usados como abrigos e hospitais. Quando um desastre ocorre (e aqui trata-se de um desastre humano), a Igreja consegue chegar mais rápido, antes mesmo de agentes de organizações humanitárias ou governamentais. Durante o furacão Mitch, em 1998, uma comunidade de Honduras junto ao rio Choluteca ficou isolada pelas águas por quase duas semanas. Nesse tempo, a igreja local mobilizou alimentos e trabalhadores para reparar as casas, recolher lenha e comida. Também após o furacão Katrina, em 2005, igrejas e templos em Louisiana forneceram abrigo por meses, com serviços hospitalares instalados ali, e mobilizaram 500 mil trabalhadores para reconstruir ou reparar casas destruídas.

Em Gaza, há apenas 2 igrejas Cristãs: São Porfírio (Ortodoxa, na verdade um grande complexo de prédios onde funcionava o Conselho da Igreja Ortodoxa Árabe) e Sagrada Família (Católica). Existem quase mil pessoas abrigadas nesses templos e, recentemente, São Porfírio foi atingida por um míssil israelense. Parte do prédio desabou, matando várias pessoas, mas outra parte ainda resiste como abrigo. Dentro de ambas as tradições, Católica e Ortodoxa, o batismo das crianças assegura seu acesso ao paraíso, caso morram. Por isso, pais Cristãos vão em número a esses locais para batizar seus filhos, com medo do que pode acontecer.
Construída no meio do séc. 12, São Porfírio recebeu o nome de um bispo de Gaza do sec. 5, quando o Cristianismo Grego chegou à região. Especialmente após a expulsão dos Palestinos do atual território de Israel em 1947, o santuário tem sido abrigo de muitas famílias Muçulmanas em épocas de conflito (essa é a 7ª crise no território). Os ataques israelenses infelizmente não pouparam mesquitas e escolas que abrigavam pessoas cujas casas foram explodidas, e também não pouparam São Porfírio. A Igreja da Sagrada Família, também abrigo de muitos Muçulmanos, recebeu ordens de evacuação imediata, partidas do exército israelense.

Na Polônia, para onde mais de 2 milhões de Ucranianos foram em fuga dos ataques Russos, as igrejas Católicas e missionários Protestantes se juntam em acolhimento a famílias inteiras. Sobretudo no forte inverno da região, a necessidade de espaço, alimentos e calefação é urgente. A maioria dos refugiados é composta de mulheres, idosos e crianças. A principal ajuda vem da organização Cáritas, que já movimentou U$ 20 milhões em ajuda e envolve dioceses, congregações religiosas, paróquias, comunidades e movimentos católicos, assim como muitos voluntários. Os poloneses vinculados estão acolhendo os refugiados da Ucrânia nas suas casas, incluindo os bispos.

"A primeira coisa era uma refeição quente, começava-se por isto. Depois um banho e dormir. Montamos um armazém para ter ao alcance as coisas mais necessárias, e havia muitos benfeitores da Polónia e do exterior. Perguntávamos às pessoas o que lhes era mais necessário para prosseguirem a viagem. Chegavam muito cansados, nos diziam que não se lavavam há dias. Às vezes, chegavam diretamente dos refúgios". (irmã Ewa Mehal, no mosteiro das Servas da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria de Stary Wieś, cidade polonesa de Przemyśl, perto da fronteira)

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NOS ESCOMBROS DE SÃO JOÃO

Artsyzki V. Odessa: bombas abençoadas na catedral. Ihu.unisinos.br, 26/07/2023

Câmara B. A guerra não conhece religião': a igreja mais antiga de Gaza abriga muçulmanos e cristãos, terra.com.br, 16/10/2023.

Dean J. Igrejas na Polônia se desdobram para servir aos Ucranianos, coalizaopeloevangelho.org, 29/03/2022.

Haidar D. Quem são os cristãos de Gaza, agora abrigados em duas igrejas. BBC.com, 01/11/2023.

Oliveira MJ. O dia em que os judeus foram expulsos de Portugal, observador.pt, 29/12/2016.

Prezzi L. Ucrânia: as igrejas e os venenos da guerra. Ihu.unisinos.br, 16/08/2023.

Rytel-Andrianik P. Como é que a Igreja na Polónia ajuda os ucranianos? Omnesmag.com, 01/94/2022.

Santos C. Igreja e Sociedade, Paulus.com.br, 29/09/2023.

Vatican News. Quase 500 locais de culto destruídos na Ucrânia em um ano de guerra, 25/02/2023.

Veja.abril.com.br. Ucrânia ordena que Igreja ortodoxa alinhada com Moscou deixe Kiev. 10/03/23.

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Bolsonarismo e Cristianismo - uma mesma coisa?

 

Os últimos 4 anos contam de profundas transformações no meio político e religioso brasileiros. Mais ainda, um se entrelaçou com o outro como não ocorria há muito tempo. Trato aqui da popularização do Bolsonarismo entre os Evangélicos.

"Isso não é assim"... Mas vamos a alguns fatos. Aproximadamente 70% dos Evangélicos votaram em Bolsonaro lá em 2018. Essa maioria só é superada pelos Mórmons, Testemunhas de Jeová e Adventistas, com 77% dos votos em Bolsonaro. Nas demais subdivisões religiosas, incluindo Ateus e Agnósticos, temos aproximadamente 55% dos votos em Bolsonaro. As regiões Centro-oeste, Sudeste e Sul, com maioria Evangélica, tiveram vitória de Bolsonaro em quase todas as cidades.


BOLSONARISMO

Precisamos definir o Bolsonarismo. E busquemos isso dentro da chamada “ala ideológica” do Governo, encorpada por Olavo de Carvalho, astrólogo, esotérico, colunista dos jornais Folha de São Paulo e O Globo, proclamado por si mesmo como Filósofo. O Bolsonarismo reuniu em torno do culto à figura do presidente elementos como crença em ações conspiratórias da Esquerda, negação de instâncias científicas, de movimentos sociais, de características culturais, da divisão de poderes dentro do governo, da imprensa e dos direitos humanos, em favor de um apoio à família, ao patriotismo e ao Movimento Evangélico. O Bolsonarismo lembra, em muitos pontos, o Facismo de Hitler e Mussolini. Ambos têm características de grande e rápida adesão social em torno de ideais são comportamentos sociais (família, patriotismo, religiosidade) para apoiar/justificar ações do Estado para centralizar poderes. A campanha de Bolsonaro, em 2018, espelhou fortemente a campanha de Hitler em 1932, incluindo o atentado na cervejaria Hofbräuhaus de Munique.

Ao longo da década de 1920, Adolf Hitler era pouco mais do que um ex-militar bizarro de baixo escalão, que poucas pessoas levavam a sério. Ele era conhecido principalmente por seus discursos contra minorias, políticos de esquerda, pacifistas, feministas, gays, elites progressistas, imigrantes, a mídia e a Liga das Nações, precursora das Nações Unidas. Em 1932, porém, 37% dos eleitores alemães votaram no partido de Hitler, a nova força política dominante no país. Em janeiro de 1933, ele tornou-se chefe de governo”. (OLIVER STUENKEL, Jornal El País, 8/10/2018)

Em 2020, o então ministro da cultura Roberto Alvim reproduziu publicamente um discurso de Joseph Goebbels, ministro de propaganda de Hitler. A semelhança não era casual, apesar das justificativas do governo: tanto o texto quanto o cenário utilizados eram idênticos. Hitler e Mussolini, líderes do Facismo Europeu e personagens terríveis da 2ª Guerra, tiveram, inicialmente, forte apoio da Igreja Católica em suas campanhas pela família, pelo nacionalismo e contra os Comunistas. Isso lembra algo? Na época da ascensão Nazista na Europa (anos 1930), as Igrejas Protestante e Católica também se voltaram ao Facismo como novo significador dos valores Cristãos. Mais atualmente, não faltam cenas de um Bolsonaro comendo pastéis, de chinelos, mostrando a simplicidade de sua vida. Em plena 2º Guerra Mundial, os jornais alemães publicavam fotos de um Hitler “saudável e de família”, brincando com os filhos e cachorros nas montanhas.


TRANSFORMAÇÕES RADICAIS

No Brasil, a situação é um pouco mais complexa. Os mesmos defensores religiosos do Bolsonarismo, em outros tempos declararam seu apoio ao Partido dos Trabalhadores. Mas tanto um como outro se modificaram nos últimos 20 anos. Lá pelos anos 2000, o PT incluiu em sua plataforma eleitoral sindicalistas, movimentos negros, feministas, gays, além dos Evangélicos (então confinados às comunidades mais pobres). Silas Malafaia (Assembleia de Deus Vitória em Cristo) e o bispo Robson Rodovalho (Sara Nossa Terra), por exemplo, declararam apoio a Lula em 2002. Nessa época, o PT era o principal representante da Esquerda e um partido muito mais articulado no "baixo escalão" político do que nas altas hierarquias. A ascensão do PT ao comando do país reuniu uma situação de  estabilidade econômica com um compromisso de beneficiar classes desfavorecidas e minorias.

No final de 2009, a revista The Economist noticiava o levantar da economia brasileira, enquanto os Evangélicos ultrapassavam os Católicos em n° de fiéis e algumas igrejas se tornavam mega-empresas. Essa transição foi crítica para os Evangélicos em termos de representação política. De minoria, passava a existir uma Bancada Evangélica dentro da Câmara dos Deputados. Esse grupo misturava interesses religiosos de Domínio (o [meu] Cristianismo deve ser a única religião) e Guerra Espiritual (quem se opõe a mim é inimigo de Deus) com interesses econômico-político de proteção às suas grandes empresas, cuja moeda de oferta era o voto em massa, mobilizado pela propaganda eleitoral em cima dos púlpitos. Irmão vota em irmão.

O PT também se transformou. De uma organização militante, passou a participar de grandes esquemas empresariais, como os que envolveram as negociações do pré-sal e o grupo Odebrecht. Decisões favoráveis às empresas tinham de ser tomadas e a forma de garantir maioria na Câmara dos Deputados era fazer pagamentos como os do Mensalão. Em vários setores, o PT mudou sua estratégia oposicionista para uma defesa de lucros como qualquer governo antecessor faria. Na Copa do Mundo, o governo federal maquiou investimentos com o evento (cujos dividendos são todos do setor privado) para serem vistos como investimentos em educação, usando, assim, largas verbas do BNDES. Boa parte desse dinheiro foi diretamente aos bolsos de empresários, em grandes desvios que marcaram as obras de infraestrutura.

Em 2012, em Natal (RN), ocorreu a Revolta do Busão. Foi a primeira de várias manifestações contra políticas neoliberais dentro do governo PT. Em 2013 no meio de várias manifestações semelhantes, ecoava a frase "O gigante acordou". Insolitamente, tratava-se do elogio de movimentos da Esquerda contra um governo de Esquerda. Nesse período, pequenos partidos do chamado Centrão passaram a dominar a tomada de decisões na Câmara dos Deputados. Pouco depois, 2016 marcou a derrocada do PT. Não exatamente por irregularidades, como se averiguou depois, mas porque diversos partidos queriam fatias maiores do bolo. Enquanto a Esquerda passava a ser melhor representada por partidos como PSOL e PCdoB, a Bancada Evangélica, mudou sua aliança para os partidos que garantissem privilégios aos novos grandes empresários, leia-se as megaigrejas.

A proposta de mudança no governo encontrou um clima anti-PT, igrejas capazes de produzir eleitorado e uma Câmara  barganhando alianças extra-partidárias. Esse clima anti-PT foi extremamente explorado pela campanha de Bolsonaro, associando o uso de redes como Twitter e Whatsapp com o semear de teorias conspiratórias ligadas às ações do PT: gays (personagens do movimento anti-homofobia) são uma ameaça à família; negros (personagens do movimento por cotas e anti-racistas) são vagabundos; indígenas são anti-produtivos (quem lhes deu posse dessa terra onde habitam há 1000 anos?);  universitários (tradicionalmente um grupo defensor da Esquerda) são maconheiros; professores (a quem podemos atribuir algum senso crítico nesse país) são doutrinadores; ONGs (que travam os empreendimentos de mineradoras e o agronegócio) são criminosas, militares (na verdade agentes governistas) são eficientes; Evangélicos são confiáveis. Apenas no caso dos Evangélicos, para fazer um comentário, a Bancada é líder em deputados com processos por corrupção. Toda essa propaganda anti-Esquerda foi despejada nas redes sociais e amplamente replicada nos setores mais conservadores: além das igrejas, a população mais velha.


ATOS DOS APÓSTOLOS DE BOLSONARO

Por volta de 2013, a Igreja Evangélica já se mobilizava pelo Bolsonarismo. Reparemos que não havia ainda um impeachment, nem coalizões de Direita, simplesmente havia a ascensão da Bancada Evangélica. De alguma forma, o Bolsonarismo de hoje era já o ideal político dessa nova classe. Um dos megapastores, Silas Malafaia, então afirmava estar agora “abrindo os olhos da Igreja” para os projetos “demoníacos” do PT. Entre esses projetos, e o mais atacado deles, estava a criminalização da homofobia. Sim, estamos falando de uma Igreja se levantando EM DEFESA DO PRECONCEITO E PREJUÍZO PROPOSITAL de pessoas baseado em sua vida sexual privada.

Sendo um deputado que basicamente defendia preconceitos e a volta da Ditadura Militar, inclusive o emprego de tortura pelo Estado, Bolsonaro teve seu 3º casamento transmitido publicamente como um evento DA IGREJA. Em geral, as igrejas Evangélicas mantêm o status de pureza excluindo das congregações gays, prostitutas (os), separados, moradores de rua, usuários de droga, fãs de rock, de certas modas, da maioria dos livros, etc. Bolsonaro mereceu um tratamento melhor. Seria pelo exemplo ou amor Cristão pregados?

Em 2018, o pastor José Wellington, líder da tradicional Assembleia de Deus, a congregação Protestante mais antiga no Brasil, pediu a milhares de fiéis o voto em Bolsonaro. Na sua campanha “Igreja de joelho, Nação em pé”, o Nacionalismo a la Bolsonaro se misturava com religiosidade. Era apelativo. O ideal de um Brasil Evangélico, passando por cima de toda a cultura e diversidade brasileiras (ver Cristianismo - catecismo, evangelismo ou desaculturação?), parecia se alinhar com um presidente Evangélico. Irmão vota em irmão. Não por acaso, o apelo ao voto religioso NÃO foi característica de outras campanhas: desde o fim do governo Imperial, em 1889, a República se comprometeu em não favorecer que uma fé brasileira suplantasse as outras. Trata-se de um ideal de pluralidade cultural que vai na contramão do conceito Evangélico de Domínio. O Brasil só será "do Senhor" quando todas as demais crenças forem apagadas. Em outras palavras, a pluralidade que permitiu a chegada dos missionários Evangélicos no começo do séc. 20 agora é combatida pela “política religiosa”.

Foi na Igreja Batista Atitude, Rio de Janeiro, que Bolsonaro foi recebido com as palavras "em outubro tenhamos uma resposta do céu sobre a vida do teu filho. E querendo, Senhor, no dia 1º de janeiro, este seu filho suba a rampa do Planalto para começar uma nova história do Brasil". Na Assembleia de Deus Vitória, próximo dali, a eleição do "escolhido de Deus" levou a igreja ao êxtase, enquanto exibiam a bandeira nacional no altar. Bolsonaro foi aclamado antes e depois da eleição como o "homem de Deus". Tal identificação é bastante problemática, se pensarmos em quais atos Cristãos seriam esperados de um "presidente segundo O Senhor". Dentro do imaginário Evangélico, o que aconteceu foi a santificação das obras do presidente. Pela 1ª vez na história da República, desde muito regida por medidas provisórias (e temporárias), tivemos a população concordando que os maus resultados de um presidente são culpa do retro-presidente, seu inimigo eleitoral, que governou 6 anos antes. Envolto no manto de "homem de Deus", toda ação de Bolsonaro, repetidamente expulso de partidos (inclusive os criados por ele mesmo) por não seguir regras, "deve ser para o bem maior", um dia entenderemos isso. Estão incluídas aí as disputas para O PRESIDENTE suplantar outros poderes republicanos (Judiciário e Legislativo), algo nunca visto fora da Ditadura Militar*.


OS NOVOS CRISTÃOS

Desde que a Igreja passou a interferir na política nacional brasileira, além da venda de votos congregacionais, o próprio Cristianismo brasileiro mudou. Essa alteração, no Brasil, começou sobretudo no período de urbanização que ocorreu nos anos da Ditadura Militar. Nesse tempo, os Católicos começaram a implantar as metodologias da Teologia da Libertação, baseada numa proteção dos mais pobres quanto ao sufocamento político. A Teologia da Libertação foi norteadora das ações do Vaticano com os papados de João 23º (1958-1963), Paulo 6º (1963-1978) e João Paulo 1º (1978), mas não prosseguiu com João Paulo 2º (1978-2005) e Bento 16º (2005-2013), voltando com alguma atividade no papado de Francisco 1º. Em outras palavras, mesmo após o Concílio Vaticano II, os Católicos brasileiros atuaram na Ditadura estando ao lado dos militares.

O distanciamento entre os Católicos e a Esquerda, bem nos anos 2000, deixou um espaço que foi ocupado pelos Evangélicos. No entanto, as megaigrejas não investiram mais em estrutura social como os Protestantes fizeram, lá no início do século 20. A nova geração Protestante tinha um espaço a ganhar onde outras fés já tinham fixado raízes, em especial os Católicos e a Umbanda. Nesse novo contexto, só importava prosperar enquanto empresas.

A guinada das igrejas para a Direita no ano de 2015 encontrou instituições que não foram, jamais, comprometidas com causas sociais e cuja aliança à Esquerda foi, de fato, oportunista. Nesse cenário, os Católicos também guardavam memória de aliança com a Direita, o que criou uma onda religioso-política difícil de controlar. Em especial, entre os Evangélicos, isso significou uma obediência a lideranças, e não a princípios ou ideias. Qualquer aliado político era santificado, qualquer inimigo político era demonizado. Incrivelmente, os púlpitos passaram a reproduzir palanques.

No início do séc. 20, por exemplo, os Evangélicos defenderam igualdade racial, educação gratuita, movimentos sindicais e coesão comunitária. As noções de igualdade foram substituídas pela de uma superioridade dos Evangélicos sobre todos os outros. A educação gratuita, antes necessária para que os iletrados pudessem ler na Bíblia, foi trocada pela ideia de que todas as Ciências devem confirmar a visão da igreja. As Ciências Biológicas foram demonizadas por falar de Evolução; as Humanas por discutir questões de Sexualidade. Os movimentos sociais foram ligados à rebeldia e insurreição, esquecendo-se que, noutros tempos, foram os Cristãos punidos por rejeitarem o culto Romano. Seria bobagem lembrar a fala de Lord Acton em 1887: "o poder corrompe" ? Curiosamente, Acton era um Católico promovendo a ideia de que as pessoas precisam ser responsáveis pelos seus atos. Ele se opunha ao poder ilimitado dos papas.

Nos EUA, a onda Conservadora também se manifestou, afinal as megaigrejas não são criação brasileira. Lá, também, foi reunida uma massa disposta a apoiar movimentos violentos, neonazismo e até luta contra a democracia para garantir direitos de Domínio para as igrejas. Domínio, no caso, é a teologia de que o mundo somente será salvo quando todo ele for totalmente Cristão, na contramão do Apocalipse bíblico em que o fim dos tempos se inicia com a ascensão do Diabo ao poder... Os Novos Cristãos, principalmente do lado Evangélico, são ainda praticantes de uma auto-suficiência assustadora: a maior obra que uma Igreja faz à comunidade é se expandir, converter os "inimigos". Em nome de Deus e para Deus, todos serão irmãos e obedecerão à mesma autoridade.


CIDADÃO DE BEM

Dificilmente alguém apoiaria todas as ideias do Bolsonarismo. No entanto, a polarização ideológica que se seguiu a 2018 fez com que as pessoas assumissem participar de grupos. Da mesma forma que os novos integrantes de uma igreja são "convertidos" a aceitar todos os dogmas, usos e costumes, entendimentos dali, a nova politização produziu fiéis entrelaçados nos dogmas de ambos os lados. Entre os Católicos, a conversão política não era necessária - de fato, lentamente estão se deslocando para a Esquerda. Entre os Evangélicos, a conversão para a Direita produziu fãs do militarismo e negacionismo da Pandemia COVID-19. Frases como "meu presidente não permite eu me vacinar" se tornaram, de absurdas, em comuns. Assim como a associação do satanismo Chinês com a produção do vírus e sua vacina. A promessa de crescimento político e Domínio conquistou lideranças, que firmaram estratégias, equipes de promoção e eleitorados.

Entre a classe média, o ressentimento pelos lugares ocupados pelos pobres também teve parte nessa onda. De repente, aeroportos haviam sido ocupados por pobres. Assim como locais turísticos, universidades, escolas privadas, pontos onde a classe mais alta se reconhecia. De fato, os lucros especulativos caíram e a importação aumentou, enquanto o PIB nacional teve sua melhor fase. Longe de seu lugar de destaque, a Classe Média sentiu que havia perdido algo, que disputava com gente demais, direitos em excesso. E o Neoliberalismo pregava uma volta, uma conservadora retomada de poderes e privilégios que não tinham seus representantes nos pobres. Assim nasceu o Cidadão de Bem.

O Cidadão de Bem é o Ariano de antigamente, é o pináculo da evolução humana. Quem não deseja ser Cidadão de Bem? O CdeB nasceu e foi criado numa família nacional e tradicional, branca e abençoada pela Prosperidade que Deus prometeu. Ele é um meritocrata de filho de político, cujo tio doou um terreno da prefeitura para a Igreja fazer seu escritório. Ele jamais seria um dissidente, pobre, trabalhador braçal, informal, pescador ou filho de carpinteiro. O CdeB se veste de Capitão-bandeira e pega em armas da Taurus para exterminar a petralhada, colocar na prisão, torturar ou fuzilar os meliantes, defender a família e a liberdade de expressão dele mesmo. O CdeB só não se importa em fazer o bem, porque o bem quem faz é a Igreja, quando a tudo dominar.

Esse personagem, por hilário que pareça, é alguém idealizado como futuro do Brasil. Como o Ariano dos anos 1940, é o Jesus das classes abastadas. Essa figura é propagandeada como representante de indivíduos absolutamente comuns, em sua maioria mestiços, que precisam dos serviços públicos, Bolsa-família, Seguro-desemprego, que pagam com dificuldade suas contas, que são soprados para a Esquerda ou Direita com compromisso único de sobreviverem. Muitas vezes, a filiação aqui ou acolá é a idealização de um herói posto, uma figura de pedra construída para simbolizar a luta contra um inimigo jamais visto, que pode te pegar durante a noite. Essa tem sido a estratégia Bolsonarista. Já foi a estratégia Trumpista, Hitlerista, Stalinista. Os resultados históricos de trocar a informação, o aprendizado e a política, no sentido de uma discussão de partes diferentes, por um ideal de um santo que comanda tudo, sempre foram terríveis.


FINAL

Obviamente, esse é um texto bastante político. Peço perdão pelo tema mas, infelizmente, a religião se tornou uma aliança política. Fé está se equivalendo a votos, e isso é assustador. Ainda mais entre os Cristãos, presumivelmente seguidores de alguém que perambulava nas casas de pescadores, centuriões, aristocratas, condenados e publicanos. Acho que essa filiação política em troca de favores nunca fez parte da mensagem de Jesus.



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* Entre 1964 e 1985, o Brasil esteve governado pelo que se chamou Ditadura Militar. A justificativa da tomada de poder pelos militares sempre foi uma Ameaça Socialista, vinda não se sabe de onde, praticada por quem você quiser que seja. O nome Ditadura surge porque, nessa situação DE GUERRA (contra quem?), os poderes da República são centralizados no Presidente. Ninguém contesta seus atos. Como resultado, milhares de pais, filhos, mães e filhas foram brutalmente torturados e mortos pelas Forças Armadas “defendendo” o governo brasileiro contra os brasileiros. Boa parte deles ainda estão enterrados em covas coletivas não identificadas, bem semelhante ao que o Nazismo fazia. Bolsonaro chamou o GOLPE MILITAR, que iniciou a Ditadura, de ATO PELO BRASIL e instituiu sua comemoração pública.


REFERÊNCIAS

Cristianismo - catequismo, evangelismo ou desaculturação? loungecba.blogspot.com,  24/01/2013.

FERREIRA, Matheus Gomes Mendonça; JÚNIOR, Fernando Tavares. DE 2013 A 2016: AS  RUAS E RESSIGNIFICAÇÕES POLÍTICAS. CSOnline-REVISTA ELETRÔNICA DE CIÊNCIAS SOCIAIS, n. 22, 2016.

GRACINO, Paulo; GOULART, Mayra; FRIAS, Paula. “Os humilhados serão exaltados”: ressentimento e adesão evangélica ao bolsonarismo. Cadernos Metrópole, v. 23, p. 547-580, 2021.

KERTZER, David I. Hitler, Mussolini e o Papa. Revista Piauí, n. 126, 03/2017.

STUENKEL, Oliver. Por que votamos em Hitler. Jornal El País, 08/10/2018.

terça-feira, 26 de abril de 2022

O Evangelho de Paulo



Basílica de São Paulo, em Roma - ilustração feita após o incêndio de 1823. Em um texto de Caio, o presbítero, do séc. 3, cita-se: 'Mas posso apontar a morada dos Apóstolos; pois se você for ao Vaticano ou à Via Ostiana, encontrará o repouso daqueles que fundaram esta Igreja'.

O Cristianismo começou com Pedro liderando o grupo que antes era encabeçado por Jesus. Mas essa crença foi disseminada sobretudo por Paulo de Tarso, em suas viagens pelo Mediterrâneo. Paulo era um Fariseu (isto é, um debatedor das Sinagogas) nascido na Grécia, bem educado e conhecedor da legislação Romana. Após um evento transformador no caminho entre Jerusalém e Damasco/Síria, ele aderiu ao Cristianismo e fundou muitas igrejas no mundo Romano, até morrer na prisão ou ser executado. Seus restos mortais estão guardados até hoje num prédio sagrado de Roma, chamado sugestivamente de Basílica de São Paulo. Grande parte do Novo Testamento são cartas que Paulo escreveu para as igrejas que ele mesmo fundou. Muitas dessas cartas foram produzidas enquanto ele estava encarcerado.

Sobre Paulo e muitas outras coisas, os sécs. 1 e 2 não deixaram tantos vestígios quando gostaríamos. Era uma época de conflitos internos muito sérios no Império Romano; até o grande incêndio de Roma (18-23 / julho / 64 d.C.) e a famosa erupção do Vesúvio (24-25 / outubro / 79 d.C.) aconteceram nesse período. Não sabemos o que Paulo pregava quando chegava nas cidades Romanas. As obras que temos são textos feitos para igrejas já existentes, ainda que jovens. Aparentemente, em muitas viagens missionárias Paulo estava acompanhado de uma mulher grega chamada Tecla, e os textos deixados por ele foram escolhidos ou modificados por seus aprendizes de forma a ocultar o nome dela. O detalhe intrigante é a data dessas cartas, escritas antes de 56 d.C. O Evangelho mais antigo, nomeado como da autoria de João Marcos, um aprendiz de Paulo e depois bispo de Alexandria, data de aprox. 60 d.C., depois de Paulo estar morto.

Não há pinturas ou prédios especiais retratando a vida de Jesus que sejam anteriores ao séc. 3 d.C. No entanto, se Marcos produziu seu texto pós-biográfico tardiamente, servindo de modelo para os textos seguintes, podemos estar certos que as informações sobre Jesus chegaram até ele. Aparentemente, era uma tradição oral, não um material escrito.

Em outras palavras, não faz sentido procurar nas cartas de Paulo por elementos dos Evangelhos: eles não existiam ainda, pelo menos não como textos. Seria mais correto procurar nos Evangelhos por elementos da pregação de Paulo. Também podemos pensar: o que Paulo sabia sobre Jesus, para ensinar às igrejas que fundava? Ele não andou com o Messias que pregava; então, exatamente o que Paulo sabia?

O APRENDIZADO DE PAULO

Paulo teve sua experiência religiosa em 34-37 d.C., na Síria. Ele passou por um tempo de estudo em comunidades Cristãs que já existiam fora de Jerusalém e então partiu como pregador para várias cidades costeiras no Mediterrâneo, eventualmente retornando para Antioquia/Síria. Já na 2ª viagem missionária, Paulo começa a escrever para as igrejas que fundou. A cronologia das cartas de Paulo é a seguinte: 1ª e 2ª Tessalonicenses (51 d.C., escritas em Corinto/Grécia), Gálatas e 1ª Coríntios (52 d.C., escritas em Antioquia), Filipenses, Filemon e 2ª Coríntios (53-54 d.C., escritas em Éfeso/Grécia e Jerusalém), Romanos (55-56 d.C., escrita em Corinto), Efésios, Colossenses, Filipenses, Filemon, 1ª e 2ª Timóteo, Tito (57-59 d.C., escritas enquanto Paulo era prisioneiro em Roma).

Paulo pode ter aprendido sobre o Cristianismo em Jerusalém, onde foi recrutado como oficial para perseguir os Cristãos. Desde pelo menos 30 d.C. já circulavam documentos Romanos sobre os Cristãos. Na sua conversão em Damasco/Síria, Paulo esteve com o grupo de Ananias e foi mandado para o grupo de Pedro, em Jerusalém. Depois, ele seguiu para a igreja de Antioquia, onde passou pelo menos 1 ano. Quando voltou a Jerusalém, novamente para encontrar Pedro, ele levou consigo o jovem João Marcos, que viria a ser o primeiro Evangelista. A partir de seu retorno a Antioquia, Paulo começou a percorrer as cidades do Mediterrâneo. Foram cerca de 15 anos e 2 viagens (ida/volta) entre Jerusalém e Antioquia antes de Paulo começar a enviar as cartas que temos na Bíblia, mas ele afirma na carta aos Gálatas que seu conhecimento de Jesus foi provido pelo próprio Senhor, e não por algum homem.

A partir dos ensinamentos de Pedro, que discursava para multidões, assim como dos grupos onde esteve, é difícil pensar que Paulo não tenha aprendido sobre a vida de Jesus. No entanto, chama a atenção que as cartas não são uma exposição biográfica, como os Evangelhos - antes, são discussões de como aplicar a fé Cristã na comunidade religiosa e no entendimento da vida, sobretudo as perseguições por parte de Roma.

Paulo não conta sobre o nascimento de Jesus, nem tampouco sobre sua vida andando pela Galiléia. No entanto, ele sabia sobre uma descendência real do Senhor, como é enfatizado por Mateus e depois Lucas através de curiosas linhagens.

Romanos, Cap. 1
2. Este Evangelho Deus prometera outrora pelos seus profetas na Sagrada Escritura, acerca de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor, descendente de Davi quanto à carne, que, segundo o Espírito de santidade, foi estabelecido Filho de Deus no poder por sua ressurreição dos mortos.

Fora esse detalhe, Paulo fala somente sobre a Última Ceia, que ele mesmo instituiu como um ritual ou Sacramento.

1ª Coríntios, Cap. 11
23. Eu recebi do Senhor o que vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão e, depois de ter dado graças, partiu-o e disse: Isto é o meu corpo, que é entregue por vós; fazei isto em memória de mim. Do mesmo modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a Nova Aliança no meu sangue; todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de mim.

Tal representação da Ceia é repetida por Marcos, Mateus e Lucas. O Evangelho de João, um texto provavelmente de origem Samaritana, traz uma lavagem dos pés dos discípulos. Paulo não apresenta o traidor, nem tampouco a prisão ou açoite de Jesus. Ele parte direto para o Sepultamento.

1ª Coríntios, Cap. 15
3. Eu vos transmiti primeiramente o que eu mesmo havia recebido: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado, e ressurgiu ao terceiro dia, segundo as Escrituras, apareceu a Cefas, e em seguida aos Doze. Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais a maior parte ainda vive (e alguns já são mortos). Depois, apareceu a Tiago, em seguida a todos os apóstolos. E, por último de todos, apareceu também a mim, como a um abortivo.

Esse relato de sepultamento de Jesus por Paulo é extremamente breve, sem referência a lugar, guardas ou anjos na tumba. Jesus simplesmente volta ao 3º dia, aparecendo para várias pessoas. Paulo não faz menção a Maria Madalena, única testemunha da ressurreição citada em todos os Evangelhos, nem às outras Marias (mal identificadas). Em Marcos, Jesus aparece para duas Marias e Salomé, depois para dois que iam ao campo, depois para os Onze (Judas já estava morto). Para Mateus, Jesus aparece a duas Marias e depois aos Onze, na Galiléia. Para Lucas, Jesus é visto por duas Marias e Joana, depois pelos Onze. Para João, a ressurreição é vista por Maria Madalena e depois pelos Onze. Então vemos, curiosamente, que a tradição relatada por Paulo sobre a Ressurreição não era a dos evangelistas que conhecemos!

Na verdade, Paulo foi até um pouco além e emendou, brilhantemente, sua própria experiência com Jesus, como se ele mesmo tivesse presenciado Jesus voltando dos mortos.

Quando Paulo fala sobre seu aprendizado do Cristianismo, também de forma breve, ele conta algo curioso:

Gálatas, Cap. 1
11. Asseguro-vos, irmãos, que o Evangelho pregado por mim não tem nada de humano. Não o recebi nem o aprendi de homem algum, mas mediante uma revelação de Jesus Cristo.

13. Certamente ouvistes falar de como outrora eu vivia no judaísmo, com que excesso perseguia a Igreja de Deus e a assolava. Avantajava-me no judaísmo a muitos dos meus companheiros de idade e nação, extremamente zeloso das tradições de meus pais. Mas, quando aprouve àquele que me reservou desde o seio de minha mãe e me chamou pela sua graça, para revelar seu Filho em minha pessoa, a fim de que eu o tornasse conhecido entre os gentios, imediatamente, sem consultar a ninguém, sem ir a Jerusalém para ver os que eram apóstolos antes de mim, parti para a Arábia. De lá, regressei a Damasco.

18. Três anos depois, subi a Jerusalém para conhecer Cefas, e fiquei com ele quinze dias. Dos outros apóstolos não vi mais nenhum, a não ser Tiago, irmão do Senhor.

O nome "Tiago" é repetido muitas vezes no Novo Testamento. Entre os Doze, por exemplo, aparecem Thiago Maior (filho de Zebedeu) e Thiago Menor (filho de Alfeu). Além disso, Marcos se refere a um Tiago irmão de Jesus.

Marcos, Cap. 6
3. Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria, o irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? Não vivem aqui entre nós também suas irmãs? E ficaram perplexos a seu respeito.

Possivelmente, Paulo se refere a esse último Tiago, que andaria no grupo de Pedro, em Jerusalém. O livro de Tiago é atribuído a ele. Embora o irmão de Jesus não seja contado entre os Doze, e também não apresente um Evangelho, podemos supor que tanto Pedro quanto ele guardassem uma narrativa em primeira mão sobre a vida de Jesus, de quem Paulo teria aprendido.

Ainda, vale pensar que essas duas testemunhas, assim como os outros Dez, na verdade, não deixaram relatos sobre a vida de Jesus. Tiago, em especial, deixa uma recomendação forte sobre cuidar dos mais necessitados. Isso não é diferente do ensino de ensino de Paulo aos Coríntios:

1ª Coríntios, Cap. 13
1. Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine.

2. Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada.

3. Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos Pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria!

2ª Coríntios, Cap. 9
12. Realmente, o serviço desta obra de caridade não só provê as necessidades dos irmãos, mas é também uma abundante fonte de ações de graças a Deus.

Tal serviço Cristão aparece muito nos Evangelhos, marginalmente ou, pelo menos, com a conotação textual de demonstrar a divindade de Jesus. É possível que o grupo de Pedro, do qual Paulo aprendeu, partilhasse entretanto da forma de Paulo ensinar.


O CRISTIANISMO SEGUNDO PAULO

Para Paulo, o Cristianismo não se iniciava com a vida de Jesus, e não havia o que imitar nos atos do Senhor. O Cristianismo era pós-Jesus, se iniciava com sua morte e ressurreição. De fato, ele via Jesus como tendo SE entregado para ser crucificado na forma de um sacrifício a Deus. Esse sacrifício significaria o perdão do Pecado Original e a aproximação definitiva entre Deus (na forma do Espírito Santo) e os homens. Tal aproximação separaria comportamentos Carnais (dirigidos pelo Pecado) de comportamentos Espirituais (dirigidos por Deus). Não há paralelo disso nos Evangelhos.

Romanos, Cap. 5
12. Por isso, como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim a morte passou a todo o gênero humano, porque todos pecaram... De fato, até a lei o mal estava no mundo. Mas o mal não é imputado quando não há lei.

14. No entanto, desde Adão até Moisés reinou a morte, mesmo sobre aqueles que não pecaram à imitação da transgressão de Adão (o qual é figura do que havia de vir).Mas, com o dom gratuito, não se dá o mesmo que com a falta. Pois se a falta de um só causou a morte de todos os outros, com muito mais razão o dom de Deus e o benefício da graça obtida por um só homem, Jesus Cristo, foram concedidos copiosamente a todos.Nem aconteceu com o dom o mesmo que com as conseqüências do pecado de um só: a falta de um só teve por conseqüência um veredicto de condenação, ao passo que, depois de muitas ofensas, o dom da graça atrai um juízo de justificação.

17. Se pelo pecado de um só homem reinou a morte (por esse único homem), muito mais aqueles que receberam a abundância da graça e o dom da justiça reinarão na vida por um só, que é Jesus Cristo!

18. Portanto, como pelo pecado de um só a condenação se estendeu a todos os homens, assim por um único ato de justiça recebem todos os homens a justificação que dá a vida. Assim como pela desobediência de um só homem foram todos constituídos pecadores, assim pela obediência de um só todos se tornarão justos.

20. Sobreveio a lei para que abundasse o pecado. Mas onde abundou o pecado, superabundou a graça. Assim como o pecado reinou para a morte, assim também a graça reinaria pela justiça para a vida eterna, por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor.

É interessante que, mesmo tendo sido compostos por seguidores de Paulo (pelo menos Marcos e Lucas), os Evangelhos Canônicos não apresentam Jesus com uma clara distinção entre Carne e Espírito.

Lucas, Cap. 24
38. Mas ele lhes disse: Por que estais perturbados, e por que essas dúvidas nos vossos corações? Vede minhas mãos e meus pés, sou eu mesmo; apalpai e vede: um espírito não tem Carne nem ossos, como vedes que tenho. E, dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e os pés. Mas, vacilando eles ainda e estando transportados de alegria, perguntou: Tendes aqui alguma coisa para comer?

Ao invés disso, a distinção "paulina" e de fato derivada dos ensinos de Platão (428-348 a.C.), aparece no evangelho de João, o mais tardio de todos.

João, Cap. 1
9. [O Verbo] era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem. Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o reconheceu. Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. Mas a todos aqueles que o receberam, aos que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus,os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da Carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus.

14. O Verbo se fez Carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade.

Assim, considerando a provável origem Samaritana do evangelho de João (séc. 2 d.C.), assim como a inimizade entre Judeus e Samaritanos, mesmo durante a ocupação Romana, podemos curiosamente pensar que o texto de João seja um fruto tardio da pregação paulina aos Gentios. O elemento paulino transparece muito menos nos Evangelhos Canônicos, amplamente influenciados pela tradição Judaica dos grupos onde foram compostos.

Paulo também tinha formação Judaica e trazia fortes sinais disso na sua crença sobre a Ressurreição. O Messias dos Judeus viria no último dia da humanidade, para resgatar seus fiéis, e Paulo via esse Messias em Jesus.

1ª Tessalonicenses, Cap. 4
16. Quando for dado o sinal, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, o mesmo Senhor descerá do céu e os que morreram em Cristo ressurgirão primeiro. Depois nós, os vivos, os que estamos ainda na terra, seremos arrebatados juntamente com eles sobre nuvens ao encontro do Senhor nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor.

Os Evangelhos também trazem essa idéia, como um evento futuro associado a Jesus.

Marcos, Cap. 14
61. Mas ele calou-se, e nada respondeu. O sumo sacerdote lhe tornou a perguntar, e disse-lhe: És tu o Cristo, Filho do Deus Bendito? E Jesus disse-lhe: Eu o sou, e vereis o Filho do homem assentado à direita do poder de Deus, e vindo sobre as nuvens do céu.

Sobre os eventos pós-Ressurreição, Paulo não diz nada. Nos Evangelhos, há relatos vagos sobre muitos feitos de Jesus ressuscitado. Marcos e Mateus falam sobre uma ordem para ir pelo mundo e batizar. Em Lucas, Jesus preside a uma ceia póstuma, come com os discípulos e leva-os de Jerusalém para Betânia. Em João, Ele fez “muitos feitos”, apareceu junto ao mar de Tiberíades, repetiu a pesca fantástica, comeu com os discípulos, falou em particular com Pedro. Pela data tardia de composição dos textos, esperaríamos encontrar detalhes dos feitos de Jesus, e não há nenhum (mesmo a pesca de João parece-se muito com a repetição de um trecho anterior). Isso faz pensar em uma tentativa de emendar no texto ditos sobre Jesus que não circulavam de forma organizada, como se alguém montasse uma colcha de retalhos. Há falta de sincronia entre os Evangelhos e o texto de Lucas, em especial, tem esse aspecto de retalhos emendados.

Possivelmente, os conhecimentos de Paulo sobre Jesus tinham essa forma desorganizada, anterior aos textos que conhecemos. Na composição desses textos, tanto a ordem dos fatos foi “editada” como alguns eventos foram retirados e se perderam no tempo.


ENSINOS DE JESUS

Por fim, dentro da idéia de um Evangelho oral, fragmentado, vale a pena trazer alguns outros ensinamentos Cristãos que aparecem nos textos de Paulo e mais tarde fariam parte dos Evangelhos.

No método de ensino Oriental, decorar e enumerar vários mandamentos, tradições, provérbios ou sabedorias era uma forma de demonstrar sapiência. Mateus e Lucas estendem bastante seu texto ao tentar reunir tais sabedorias - provavelmente disseminadas entre o povo da Galiléia - como falas de Jesus. Quando tentam “encaixar” assuntos muito diferentes, esses evangelistas produzem algo exótico e retalhado como o “texto” de Provérbios. Paulo também deixa transparecer seu conhecimento de alguns desses ensinos.

ABA - Um desses ensinamentos, bastante significativo, é o uso da expressão "Aba, pai", uma forma carinhosa de se dirigir a Deus como se fosse uma filho falando ao Pai. Trata-se de uma expressão única de Jesus, bastante incomum dentro do Judaísmo. Paulo, no entanto, a utiliza duas vezes:

Romanos, Cap. 8
15. Porquanto não recebestes um espírito de escravidão para viverdes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção pelo qual clamamos: Aba! Pai!

Gálatas, Cap. 4
6. A prova de que sois filhos é que Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!

AMOR AOS INIMIGOS - A escola de Salomão já sinalizava o perdão como forma de conseguir a paz. Esse comando é caracteristicamente repetido por Jesus e por Paulo.

Provérbios 25
21. Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe pão para comer; e se tiver sede, dá-lhe água para beber; porque assim lhe amontoarás brasas sobre a cabeça; e o Senhor te retribuirá.

Romanos, Cap. 12
17. Não pagueis a ninguém o mal com o mal. Aplicai-vos a fazer o bem diante de todos os homens. ... 19. Não vos vingueis uns aos outros, caríssimos, mas deixai agir a ira de Deus, porque está escrito: A mim a vingança; a mim exercer a justiça, diz o Senhor. Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber. Procedendo assim, amontoarás carvões em brasa sobre a sua cabeça.

Mateus, Cap. 5
38. Tendes ouvido o que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra. ... 43. Tendes ouvido o que foi dito: Amarás o teu próximo e poderás odiar teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos [maltratam e] perseguem. Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem assim os próprios publicanos?

PAGAMENTO JUSTO DAS DÍVIDAS - Num episódio bem característico, Jesus foi desafiado quanto a sua fidelidade (financeira) para com Roma. Paulo repete a fala icônica do mestre quase como aparece nos Evangelhos.

Romanos, Cap. 13
7. Pagai a cada um o que lhe compete: o imposto, a quem deveis o imposto; o tributo, a quem deveis o tributo; o temor e o respeito, a quem deveis o temor e o respeito.

Marcos, Cap. 12
14. ... É permitido que se pague o imposto a César ou não? Devemos ou não pagá-lo? Conhecendo-lhes a hipocrisia, respondeu-lhes Jesus: Por que me quereis armar um laço? Mostrai-me um denário. Apresentaram-lho. E ele perguntou-lhes: De quem é esta imagem e a inscrição? De César, responderam-lhe. Jesus então lhes replicou. Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. E admiravam-se dele.

AMOR AO PRÓXIMO - Esse ensino Cristão, bastante divulgado, aparecem no texto de Paulo sintetizado aos 10 Mandamentos.

Romanos, Cap. 13
8. A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, a não ser o amor recíproco; porque aquele que ama o seu próximo cumpriu toda a lei. Pois os preceitos: Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e ainda outros mandamentos que existam, eles se resumem nestas palavras: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. ... 10. A caridade não pratica o mal contra o próximo. Portanto, a caridade é o pleno cumprimento da lei.

Marcos, Cap. 12
29. Jesus respondeu-lhe: O primeiro de todos os mandamentos é este: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor; amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças. Eis aqui o segundo: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Outro mandamento maior do que estes não existe.

RESTRIÇÕES ALIMENTARES - Essa fala bastante notória de Paulo, que desafiava os preceitos alimentares dos Judeus e o conectava com a pregação aos Gentios, também surge nos Evangelhos. Apesar disso, a relação de Jesus com animais “impuros” como os porcos não é de proximidade.

Romanos, Cap. 14
14. Estou convencido no Senhor Jesus de que nenhuma coisa é impura em si mesma; somente o é para quem a considera impura.

Marcos, Cap. 7
15. Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa manchar; mas o que sai do homem, isso é que mancha o homem.

CHEGADA INESPERADA DO JUÍZO - A expectativa de um julgamento inesperado, antes que as pessoas tenham tempo de pedir perdão por seus atos, é um aviso bastante explorado por Mateus e Lucas, com diversas imagens evocadas.

1ª Tessalonicenses, Cap. 5
3. Quando os homens disserem: Paz e segurança!, então repentinamente lhes sobrevirá a destruição, como as dores à mulher grávida. E não escaparão.

Marcos, Cap. 13
30. Na verdade vos digo que não passará esta geração, sem que todas estas coisas aconteçam. Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão. Mas daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos que estão no céu, nem o Filho, senão o Pai. Olhai, vigiai e orai; porque não sabeis quando chegará o tempo.

Nos Evangelhos, esse anúncio da tragédia muitas vezes foi entendido como uma pós-fecia, ou seja, o anúncio futuro de algo que já aconteceu, como se Jesus previsse em 30 d.C. a destruição da Cidade Sagrada pelos Romanos, o que se deu em 70 d.C. Sem dúvida é provável que Mateus e Lucas tenham feito essa conexão (pois foram escritos após o fim de Jerusalém) e estendido os relatos sobre o Apocalipse. Porém, Paulo e Marcos são sucintos e não dão a entender um período de torturas, mas simplesmente o final.

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Paulo deixou escrito no muro

Evans CA, Jesus tradition in Paul, in: Encyclopedia of the historical Jesus, p. 446-450, ed. Routledge, 2008.

Furnish VP, Jesus in Paul's Gospel, in: Jesus according to Paul - chap. 4, Cambridge University Press, p. 66-92, 2010.

https://www.conformingtojesus.com/charts-maps/en/paul%27s_letters-journeys_chart.htm