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quinta-feira, 4 de junho de 2020
terça-feira, 7 de janeiro de 2020
Drogas Cristãs
Cena do casamento em Caná da Galiléia, pintura feita em 2007 pelo artista egípcio Samy Henes na cúpula da igreja de Mar Girgis (São Jorge) el Ballas, em Alexandria, no Egito.
“Ao terceiro dia, fizeram-se umas bodas em Caná da Galiléia; e estava ali a mãe de Jesus. Foram convidados Jesus e os seus discípulos. Faltando vinho, a mãe de Jesus lhe disse: ‘Não têm vinho’. Disse-lhe Jesus: ‘Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora’. Sua mãe disse aos serventes: ‘Fazei tudo quanto ele vos disser’. Estavam ali postas seis talhas de pedra, para as purificações dos judeus, e em cada uma cabiam dois ou três almudes. Disse-lhes Jesus: ‘Enchei de água essas talhas’. E encheram-nas até em cima. Tirai agora, e levai ao mestre-sala’. E levaram. Logo que o mestre provou a água feita vinho (não sabendo de onde viera, se bem que o sabiam os serventes que tinham tirado a água), chamou ao esposo e disse-lhe: ‘Todo o homem põe primeiro o vinho bom e, quando já têm bebido bem, então o inferior; mas tu guardaste até agora o bom vinho’.” (João 2.1-10)
Existe até hoje um ponto de discordância dentro do Cristianismo, no que se refere ao uso de drogas psicoativas. Isso abrange questões culturais, como tomar café; questões teológicas, como o uso do vinho, que foi produzido e usado por Jesus; e questões bem mais recentes como a utilização de medicamentos psicoativos. Penso em usar esse texto para clarear alguns pontos.
O LADO CIENTÍFICO
Há muitas drogas psicoativas naturais disponíveis e nossos ancestrais ensinaram como preparar e usá-las. No Brasil, algumas muito conhecidas são café, chimarrão (estimulantes), capim limão, camomila e maracujá (soníferos), álcool (ansiolítico), ayahuasca (alucinógeno). Outras que chegaram de fora são a cocaína (estimulante) e maconha (ansiolítico e alucinógeno). Desde os anos 1950, ainda, a indústria produziu muitos psicoativos que não existem na natureza. Psicoativo é tudo aquilo que influencia o fluxo dos pensamentos, e essas plantas são capazes disso.
Um psicoativo pode ser usado sob prescrição, com um propósito definido, como aquele café oferecido a alguém sonolento ou embriagado. Pode também ser usado por prazer, como o álcool tomado em uma comemoração. E pode misturar ambos, quando a própria pessoa se prescreve: "estou cansado, vou tomar um café", ou "estaria melhor com uma cerveja". A maioria das pessoas não tem problemas com esses psicoativos citados.
Mas algumas pessoas desenvolvem problemas. Eles geralmente consistem de compulsão (uso de doses altas), aceitação de riscos (ex. procurar criminosos ou usar apesar de danos sérios a saúde) e abstinência (sofrimento pela simples falta da droga). Qualquer um desses elementos é sinal de perigo, e raramente aparecem sozinhos.
Cada droga tem sua periculosidade, mais em uns do que em outros. Trinta porcento dos tomadores de café têm abstinência. Cinquenta porcento dos alcoolistas são compulsivos ou aceitam riscos. Noventa porcento dos usuários de crack (a forma mais perigosa da cocaína) têm abstinência. Pessoas com ansiedade ou depressão são até 3x mais compulsivas com o uso de todas as drogas. Filhos de dependentes são mais propensos a serem dependentes, mesmo que de outra droga.
Os medicamentos psicoativos foram desenvolvidos para aliviar o sofrimento causado por doenças da mente, como esquizofrenia, ansiedade, depressão, etc. Podem ser úteis ou necessários a um tratamento, dependendo de cada caso e da gravidade do problema. Obviamente, os medicamentos foram pensados para seguirem prescrições. Mas num país onde as regras são frouxas e os serviços de saúde são caros e escassos, é natural que as pessoas apelem para a auto-prescrição. Ansiosos usam álcool ou maconha; depressivos usam café ou guaraná em altas doses. Cultos religiosos usam ayahuasca ou maconha. Entre 5 e 10% dos usuários de medicamentos, especialmente os ansiolíticos, infelizmente, também tornam-se dependentes ou fazem uso compulsivo.
Os medicamentos psicoativos foram desenvolvidos para aliviar o sofrimento causado por doenças da mente, como esquizofrenia, ansiedade, depressão, etc. Podem ser úteis ou necessários a um tratamento, dependendo de cada caso e da gravidade do problema. Obviamente, os medicamentos foram pensados para seguirem prescrições. Mas num país onde as regras são frouxas e os serviços de saúde são caros e escassos, é natural que as pessoas apelem para a auto-prescrição. Ansiosos usam álcool ou maconha; depressivos usam café ou guaraná em altas doses. Cultos religiosos usam ayahuasca ou maconha. Entre 5 e 10% dos usuários de medicamentos, especialmente os ansiolíticos, infelizmente, também tornam-se dependentes ou fazem uso compulsivo.
A QUESTÃO BÍBLICA
Religião não é apenas o texto sagrado, mas a forma de interpretar e usá-lo. Essa segunda parte depende da cultura, da época e da tradição. Por isso, grupos diferentes dentro do Cristianismo têm entendimentos variados a respeito das drogas psicoativas, usando o mesmo texto sagrado. Ainda, essa interpretação muda ao longo da história, num mesmo grupo Cristão.
O álcool provavelmente é a droga com maior polêmica. Trata-se de algo muito fácil de fazer: todas as culturas humanas têm bebidas alcoólicas, desde 4000 a.C. pelo menos. Sais orgânicos típicos da fermentação de cereais e frutas foram encontrados em cerâmicas Chinesas de 9000 a.C. Alguns teóricos do desenvolvimento social até cogitam que o surgimento das civilizações mais antigas na planície entre os rios Tigre e Eufrates, muito antes que existisse agricultura, só foi possível porque esses povos aprenderam a fermentar os cereais selvagens, obtendo numa espécie de cerveja-hidromel alguns nutrientes essenciais que não teriam outra forma de conseguir ... e assim eles teriam começado a cultivar justamente cereais capazes de produzir bebidas, como centeio e cevada. O vinho, uma das bebidas mais antigas, é um produto natural do processamento da uva, fruta plantada em abundância em toda costa do Mediterrâneo, onde o Cristianismo começou.
Para fazer álcool, basta um carboidrato e leveduras. Geralmente o carboidrato vem de frutas ou cereais, a levedura das próprias cascas das plantas ou do hábil cultivo humano delas. As leveduras fermentam o carboidrato até produzir 5-15% de álcool (cervejas, vinhos, sidras). No séc. 9, os turcos aprenderam a destilar as bebidas fermentadas para chegar facilmente a 40% de álcool (conhaques, whisky, absinto, vodkas, cachaças). Essa tecnologia se espalhou rapidamente pela Europa, que já destilava perfumes havia muito tempo.
Dentre os povos produtores de vinho, se destacaram grandemente os Judeus. O Egito tornou-se grande exportador de vinho a partir da chegada dos Judeus na região leste do baixo Nilo (aprox. 2000 a.C). Quando retornaram para Canaã, os Judeus valorizaram justamente as uvas disponíveis na região. A Grécia desenvolveu grandemente sua produção de vinho desde a conquista da Judéia (300 a.C.), assim como Roma (37 a.C.). Posteriormente, com a fragmentação de Roma Ocidental (500 d.C.), o vinho europeu foi substituído em grande parte pela cerveja dos Gemânicos.
Jesus, segundo João o evangelista, produziu vinho em Seu primeiro milagre como pregador. Além disso - não segundo o mesmo João - Ele solicitou explicitamente aos discípulos que O invocassem em jantares cerimoniais com vinho, equivalente do Seu sangue, até que Ele retornasse. Embora Jesus não mostrasse reservas nem excessos quanto ao vinho, o álcool está ligado a 3 problemas para o Cristianismo pós-Jesus: a satisfação dos prazeres carnais, o afastamento da razão de seu estado natural e o desenvolvimento de vícios.
A Bíblia é ambivalente quanto ao vinho. No Velho Testamento, o vinho é um símbolo de fartura, usado para honrar pessoas e mesmo Deus. O Novo Testamento continua a tradição vinícola dos Judeus, associando mesmo parábolas de Jesus com as vinhas. Por outro lado, até os provérbios de Salomão (séc. 9 a.C.) alertam contra os efeitos inebriantes e enganadores do vinho. Os reis e sacerdotes são instruídos a ficar longe dessa bebida.
Nos tempos de Paulo, o vinho era aconselhado para tratar o estômago (1ª Timóteo 5.23) e também era repreendido por seu excesso na igreja de Corinto, especialmente em divisão desigual com os pobres daquela congregação (1ª Coríntios 11.21).
"Esses dois aspectos do vinho, seu uso e abuso, seus benefícios e danos, sua aceitação por Deus e sua abominação, são entrelaçados no Velho Testamento. Ele alegra o coração do homem (Salmos 104.15) ou faz a mente se perder (Isaías 28.7). O vinho pode ser associado com gratidão (Eclesiastes 10.19) ou com desleixo (Isaías 5.11), pode desnudar a vergonha de Noé (Gênesis 9.21) ou, nas mãos de Melquisedeque, pode honrar Abraão (Gênesis 14.18,19) … As referências ao vinho no Novo Testamento são menores em número, mas outra vez os dois aspectos - bom e mau - estão aparentes" (Fitzsimmonds, 1982).
A TRADIÇÃO RELIGIOSA
No tempo de Jesus, a produção de uvas na Galiléia era intensa. Tanto a colheita como a prensa das uvas empregava muita gente, homens e mulheres. A prensa, ainda, era feita em grupo e com cantorias, com as pessoas pisoateando as frutas enquanto dançavam em tablados de pedra por onde o suco escoava até uma grande bacia, também esculpida. Entre 6 a 12h após pensado, o suco começava a fermentar. Até 2 a 3 dias depois, a fase "borbulhante" passava e a bebida podia ser armazenada em ânforas de barro romanas ou bolsas judaicas de pele de cabra, onde passaria até 2 anos. O vinho jovem era preferido, com semanas ou meses, mas a mercadoria chegava já mais velha em Roma, onde era altamente consumida. Os Romanos gostavam de vinhos brancos, mas revendiam enormes quantidades de vinho tinto para suas terras ao norte e oeste, sobretudo a Gália, onde hoje temos as terras vinícolas da França e Espanha.
Os Gregos tinham por hábito misturar o vinho com água para evitar a embriaguez. Apesar disso, tinham seus dias de festividade onde o mínimo que se esperava das pessoas era ficarem bêbadas. Esse costume grego provavelmente foi implantado em Israel entre os séculos 3 e 1 a.C., quando governaram a região. Os Romanos, por outro lado, tomavam vinho puro no dia a dia, cerca de 1 L por pessoa por dia. Os Judeus misturavam os costumes grego e romano, dependendo de suas posses, o que lança algumas luzes sobre uma certa festa de casamento em Caná da Galiléia. Os fariseus e sacerdotes, por outro lado, eram proibidos de beber vinho.
Os religiosos Cristãos sempre se dividiram em 3 grupos: os "proibicionistas", que vêem o vinho e demais bebidas como fontes do pecado; os "abstencionistas", que valorizam o vinho como criação de Deus mas, devido a um ideal de santidade, preferem não beber; e os "moderacionistas", que entendem a dualidade bíblica nesse assunto como a necessidade de uma escolha humana a cada contato com a bebida. Os três grupos variaram suas ações coletivas ao longo da história.
Não sabemos exatamente o que Jesus usou em sua famosa ceia. Possivelmente vinho com água, que era a bebida usual dos pobres (além disso, os costumes romanos não eram bem vistos). No final do séc. 1, textos como a Didache dão a entender que esse era o rito Cristão. Paulo no entanto advertiu quanto ao excesso de bebida por volta de 60 d.C. e o mesmo fez Clemente, bispo de Roma no fim do séc. 1. Podemos dizer que a Igreja iniciou como "moderacionista".
Gregório de Nyssa, no final do séc. 4, falava ainda sobre dois tipos de vinho: um que entorpece os sentidos e destrói o corpo, outro que alegra o coração. João Crisóstomo, no começo do séc. 5, afirmava que o vinho era criação de Deus, mas a embriaguez era do Diabo.
No séc. 5, o lado Ocidental de Roma empobreceu e acabou por se fragmentar, com suas terras tomadas por Saxões, Francos e Germânicos. Esses povos substituíram a produção de vinho por cerveja. No lado Oriental, porém, o uso de vinho (com água, segundo o costume grego) continuou. Os monges Beneditinos passaram a ser os representantes do Cristianismo no Ocidente, e então consideravam o vinho como grande luxo, evitando-o em nome de uma vida simples. Evitar significava restringir seu uso a meio litro por pessoa por dia. E tornaram-se grandes produtores de cerveja, considerada um equivalente do pão, que consumiam na função de alimento. O uso de cerveja pelos religiosos era de uns 5 litros por pessoa por dia. No meio do séc. 6, São Benedito de Núrsia, o fundador da ordem religiosa, aconselhava que as pessoas se abstivessem completamente da glutonaria do vinho.
Até o séc. 13, desenvolveu-se o entendimento de que o "fruto da videira" citado por Jesus na sua famosa ceia poderia ser SUCO de uvas. Isso levou ao surgimento dos "abstencionistas", que consideravam o vinho como desnecessário e, portanto, possivelmente pecaminoso. Alguns santos medievais, entretanto, eram explicitamente associados à fabricação de vinhos e cervejas: Santo Adriano¹ (patrono das cervejas), Santo Amando² (patrono dos cervejeiros), São Martinho³ (patrono dos vinhos) e São Vicente* (patrono dos vinhateiros). Os monges foram responsáveis pela introdução de culturas de uva em quase toda Europa Ocidental.
Os primeiros líderes Protestantes, Zwinglio e Calvino, empreenderam uma luta contra a embriaguez e as tavernas. Mas o próprio Calvino recebia parte de seu salário na forma de barris de vinho. No séc. 17, enquanto os Católicos não se opunham ao comércio de bebidas e introduziam o vinho na América do Sul, os Protestantes as cultivavam na América do Norte e fundavam as primeiras cervejarias ali. Os Metodistas, Batistas e Luteranos então compartilhavam a visão "moderacionista" da Bíblia.
No séc. 18, o líder Metodista John Wesley passou a proclamar as bebidas destiladas como corruptoras de homens, enquanto pregava ideais de santidade e perfeição moral. No entanto, muitas dessas bebidas eram usadas como medicamento (quem não se lembra do Biotônico?), o que manteve seu uso mesmo entre os religiosos.
Entre o final do séc. 18 e a metade do séc. 19, os EUA passaram por grandes transformações. Entre elas estavam a formação de fortes grupos Protestantes (ex. os Batistas) e o empobrecimento do país devido a guerras internas e a falência do sistema colonial. Essas crises produziram muito desemprego e uma população enorme de negros não absorvidos pela sociedade. O alcoolismo e a violência ganharam força, especialmente na parte sudeste do país. Por isso, as novas igrejas Protestantes passaram a oferecer a liberdade de tais vícios como a bebida, o que significava opor-se totalmente ao álcool. O suco de uva passou a ser servido na Eucaristia e alguns grupos tornaram-se militantes da total abolição do álcool.
O 2º Avivamento, por volta de 1840, fortaleceu muito os ideais "farisaicos" de pureza e perfeição moral entre os Protestantes. Devido a extensão social do Movimento, mesmo os grupos Católicos importaram muitas dessas idéias. Esse movimento anti-álcool ganhou força na virada dos sécs. 19/20, com o crescimento do World Christian Temperance Union, fundado em 1874. O movimento, de bases feministas e defensor do voto das mulheres, usava fundamentos filosóficos (Xenophon) e Cristãos para propagandear o banimento completo do álcool na sociedade estadunidense. Ele se somou ao Catholic Total Abstinence Union, um movimento que anos antes havia pregado a mesma coisa. Juntos, chegaram a meio milhão de pessoas.
Na medida em que ganhou aliados políticos, o movimento foi um dos responsáveis pela proibição legal do comércio de bebidas nos EUA entre 1919 e 1933. Outras drogas, como o tabaco, ópio e cocaína, então comercializados com fins medicinais, tiveram seus potenciais de vício estudados (a própria definição de dependência química data dessa época) e muitas foram terminantemente proibidas.
USOS E PROIBIÇÕES
No séc. 17, a produção de cerveja em solo Americano foi iniciada pelos Puritanos vindos da Inglaterra. Os habitantes da Nova Inglaterra, por outro lado, rapidamente associaram o tabaco americano a problemas de saúde (isso não ocorreu na Europa). Em Nova Amsterdã (hoje Nova York), o fumo foi proibido em 1639. Tal proibição abrandou-se com o passar dos anos. Na planície do Mississípi, na mesma época, os pastores Anglicanos eram pagos em tabaco.
No 2º Avivamento de 1840, os Batistas, Metodistas e Presbiterianos ficaram conhecidos por sua grandes "feiras santas", com pregações emocionadas ao ar livre. Os Mórmons e Adventistas são frutos desse movimento. Entre os Mórmons, preservou-se a proibição de ingerir qualquer psicoativo, mesmo o chá (Indiano) e o café (do Oriente Médio).
No final do séc. 19, o 3º Avivamento deu ainda mais forças ao Woman's Christian Temperance Union que, aliado às igrejas Protestantes, intensificou a guerra contra os destilados, pornografia e prostituição, além de defender igualdade legal para as mulheres. Nas igrejas, eles foram os principais responsáveis pelo proibicionismo quanto ao álcool. Na medida em que o movimento ganhou enorme força com os eventos de "batismo pelo Espírito Santo" na rua Azusa, em 1906, os Metodistas e Batistas lideraram o movimento de santificação.
Após a crise dos anos 1930 e a 2ª Guerra, o consumo de bebidas nos EUA e em todo Ocidente voltou a subir. Entretanto, as igrejas Protestantes mantiveram seu perfil de evitação das drogas em geral. Muitas incluem nesse rol, infelizmente, os medicamentos psiquiátricos.
Hoje, os "moderacionistas" são compostos por Católicos, Ortodoxos, Anglicanos, Luteranos, Testemunhas de Jeová e as igrejas reformadas. Os "abstencionistas" são compostos por Batistas, Nazarenos, Metodistas e Pentecostais. Os "proibicionistas", que vêem as bebidas como uma forma de pecado, são compostos por alguns Batistas e os Adventistas. Vários desses grupos defendem que o vinho bíblico na verdade se tratava de outra coisa, como suco de uvas.
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COISAS QUE NINGUÉM ESTÁ LENDO AGORA
Alcohol in Christian history and tradition - religion.wikia.org
Curry A, Our 9,000-year love affair with booze, National Geographic Magazine, fev/2017
Curry A, Our 9,000-year love affair with booze, National Geographic Magazine, fev/2017
Fitzsimmonds, F. S. (1982). "Wine and Strong Drink". In Douglas, J. D. (ed.). New Bible Dictionary (2nd ed.). Downers Grove, Illinois: InterVarsity Press.
O que são drogas psicotrópicas, CEBRID, Unifesp.br
Second Great Awakening - wikipedia
Where did evangelical objections to smoking and drinking come from?, Christianity Today, Ago/2008
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¹ Adriano era pretor da Guarda Real da cidade grega de Nicomedia, na atual Turquia, nos 1os anos do séc. 4 d.C. Ao presidir a tortura de um grupo de Cristãos, ele teria perguntado porque se sacrificavam e, ouvindo seu testemunho de fé, teria se convertido de imediato. Sua atitude levou ao enclausuramento e posterior execução do desertor, em 306 d.C., tornando-se um dos mártires reverenciados da Igreja Ortodoxa. Sua associação com a proteção espiritual dos cervejeiros e soldados é uma curiosa lembrança dos hábitos de militares romanos.
² Segundo a tradição Católica, Amando (584-679 d.C.) era um nobre da rica região de Flandres (norte da França e Holanda), que se desligou da família e passou a viver em completa pobreza num monastério. Ele evangelizou a cidade Belga de Ghent, conseguindo amigos e inimigos entre os reis Francos. Tentou evangelizar os Eslavos, nos Leste Europeu, mas sem sucesso. Voltando à França, retomou suas missões entre os pagãos Francos e fundou vários monastérios. Sua associação com os cervejeiros também faz uma bela referência à tradição que os monges aprenderam dos Francos e Germânicos, difundindo-a por toda Europa.
³ São Martinho de Tours (336-397 d.C.) foi bispo da cidade francesa de Tours. Ele serviu na cavalaria romana da Gália, mas converteu-se ao Cristianismo e, recusando-se a lutar, foi posto desarmado na frente das tropas. Ao invés da morte que lhe pretendiam, os Germânicos se renderam prontamente. Conta-se que, durante o serviço militar, repartiu suas roupas com um andarilho durante o inverno. Aos 30 anos entrou para o serviço religioso. Atuou muito na conversão dos pagãos locais, mas se opôs à destruição dos asceta Priscillianos. Voltando a Roma, combateu o Arianismo e fundou vários monastérios. Sua associação com a fabricação de vinho provavelmente está associada à introdução das vinhas romanas na Gália.
* Vicente foi educado na cidade espanhola de Saragossa no final do séc. 3, quando ordenou-se diácono do bispo Valerius. Como o bispo tinha problemas de fala, Vicente tornou-se seu orador. Quando o imperador romano Diocleciano começou a perseguir os Cristãos, Vicente e Valerius foram levados ante o governador Dacianus e interrogados. Recusando-se a renegar os textos Cristãos, ambos foram aprisionados. Vicente, mais pobre, foi torturado até a morte, em 304 d.C., enquanto Valerius acabou sendo solto. Seu carcereiro, assistindo aos sofrimentos, converteu-se prontamente (ver a estória de Adriano da Nicomedia). O corpo foi jogado no mar, quando os corvos rodearam-no até que Cristãos o resgatassem. Sua sepultura então foi rodeada de corvos. Em 542 d.C., uma basílica foi erguida em Saragossa sobre sua tumba, a igreja da Santa Cruz de São Vicente, de onde espalhou-se o cultivo de uvas na região. Durante a dominação islâmica da região, o geógrafo marroquino Al-Idrisi, no séc. 12, chamou o lugar de Kanīsah al-Ghurāb (Igreja dos Corvos).
quinta-feira, 27 de dezembro de 2018
A Caridade está fora de moda
"Pode ser hora de deixar por completo de criticar ou de falar do capitalismo. Pode ser hora de começar a criticá-lo ignorando-o por completo e passando a contar histórias sobre alternativas superiores – histórias que pertençam ao domínio do passado, do presente ou do imaginado, porque não faz diferença. Todas as histórias falam do ser humano e ao ser humano falam."
Fazendo uma homenagem ao texto de Paulo Brabo.
A Caridade é uma coisa que temos sido desensinados a fazer, ao ponto de a acharmos, hoje em dia, abusiva e mal intencionada. Com certeza, quem faz Caridade estimula a preguiça, o "pedir sem precisar", o "aproveitar-se da boa vontade alheia". No dicionário atual, Caridade indica uma prática Cristã, ou pelo menos uma qualidade moral e espiritual de amor pelo próximo. No dicionário tiagológico bíblico, Caridade traduz esse amor em ajudar os desvalidos, dar ajuda ou donativos aos pobres, dar esmola. No linguajar cristológico de Lucas, é compaixão e benevolência em relação a alguém que se encontra em situação difícil (pode até ser um viajante Jerusalense encontrado por um Samaritano). O dicionário português sugere que Caridade é sinônimo de filantropia, humanitarismo, benevolência, piedade, favor, benefício.
Se o mundo fosse repleto de Caridade, ninguém precisaria se descabelar com as contas. Bastaria dizer ao cobrador que não pode pagar e, além do perdão ele talvez até lhe desse algo. A Caridade, seja como forma ideológica ou espiritual, se faria carne ao impedir ele de cobrar de alguém menos afortunado e ainda instigaria que lhe oferecesse ajuda gratuita. Por outro lado, essa mesma Caridade impediria você de fechar as portas de casa, mesmo à noite; pois como você negaria dar ao próximo aquilo que tens e ele não? Agindo sobre o mundo desvairadamente, a Caridade seria um agente tão esquerdista que renegaria a necessidade de um governo: com todos se ajudando mutuamente, em muito poucas coisas precisaríamos de alguém decidindo pelo outro ou mesmo tendo de julgar alguma disputa.
Quando Jesus ensinava sobre fazer Caridade (e não há como desvincular ela do “amor ao próximo”, até porque ambos são ensinados nas mesmas passagens), Ele também estava pregando algo que, naqueles tempos, era terrivelmente anti-romano e anti-judeu. Os romanos organizavam sua vida segundo as decisões de uma hierarquia superior. Embora sua ordo seclorum, ou "a forma como o mundo funciona" estivesse atrelada à prosperidade de toda nação, estava muito mais obediente à prosperidade e propriedade de algumas famílias que faziam toda a costa do Mediterrâneo girar ao redor de si. Isso não era absolutamente ruim para o povo, visto os problemas que surgiram quando Roma se espedaçou; mas várias vezes as famílias reais sacrificaram cidades inteiras para obter o que consideravam seu direito. Dessa forma, Roma tinha um pé no que se poderia chamar de Anti-caridade, ou seja, prejudicar o próximo para que eu seja beneficiado.
Pouco tempo depois, tomado de amor por um Jesus que conheceu depois de morto, Paulo rabiscou para seus seguidores de Roma, Éfeso e Corinto que a graça de Deus é distribuída imerecidamente. Podemos até supor que Jesus pensasse assim, visto a variedade de pessoas que Ele ajudava e ensinava, indo de centuriões romanos a leprosos e mulheres adúlteras. Seu preço parecia ser apenas a fé, coisa que não é rara em alguém desesperado. Se Jesus professava essa graça imerecida, que não exigia sequer o cumprimento dos muitos preceitos Judaicos, podemos entender porque a alta classe de Jerusalém o detestava. Em suma, Jesus desdenhava de seus pilares Romano - a autoridade - e Judeu - a pureza ritual. Com Ele ninguém tinha graça porque ela foi concedida de algum superior, nem porque foi merecida, nem porque foi herdada. Nada de meritocracia.
Pouco tempo depois, tomado de amor por um Jesus que conheceu depois de morto, Paulo rabiscou para seus seguidores de Roma, Éfeso e Corinto que a graça de Deus é distribuída imerecidamente. Podemos até supor que Jesus pensasse assim, visto a variedade de pessoas que Ele ajudava e ensinava, indo de centuriões romanos a leprosos e mulheres adúlteras. Seu preço parecia ser apenas a fé, coisa que não é rara em alguém desesperado. Se Jesus professava essa graça imerecida, que não exigia sequer o cumprimento dos muitos preceitos Judaicos, podemos entender porque a alta classe de Jerusalém o detestava. Em suma, Jesus desdenhava de seus pilares Romano - a autoridade - e Judeu - a pureza ritual. Com Ele ninguém tinha graça porque ela foi concedida de algum superior, nem porque foi merecida, nem porque foi herdada. Nada de meritocracia.
Nem lá no séc. 1 o mundo de Jesus cabia nesse mundo aqui, mesmo sendo totalmente gratuito. Os 1os discípulos já descobriram que, para fazer o que o Deus Vivo ordenara, seria preciso erguer uma cerca, fazer um grupo fechado, separado do restante, com outras regras ou, na exata interpretação da palavra, um grupo “santo”. O complicado era que, segundo o Mestre, eles também deveriam ir a todas as pessoas e convidá-las para seu grupo, que era dentro de onde a Caridade podia ser feita livremente. Indo ao ápice na famosa ceia com os doze, Jesus lavava os pés de quem o seguia e dividia tudo conforme cada um quisesse, para desfazer a noção da Anti-caridade de que uns podiam ser expropriados em favor de outros. Viver assim era muito anti-romano e aceitar qualquer um ao grupo era também muito anti-judeu. Por isso Ele estava cultivando algo que dependia do amor dos de fora, mas que tinha a cultura daquela época e lugar ensinando todos a odiar e temer.
Se olharmos como a ideia de Caridade se espalhou pelo tempo e espaço (nós a colocamos no dicionário com as referências do Oriente Médio do séc. 1), veremos que ela apaixonou a muitos. Jesus sabia o quanto era atraente; até avisou Seus seguidores que morreriam por ela, sabendo que nem assim eles desistiriam. Os missionários da diocese de Alexandria (Egito), nos sécs. 4 e 5, possivelmente foram os 1os responsáveis por levar isso Europa adentro. Sua estratégia não foi muito diferente do pessoal descrito em Atos dos Apóstolos: formaram grupos fechados, onde se praticava a Caridade, convidando todos a entrarem. E logo perceberam que, para alimentar um grupo assim, que dá gratuitamente, era preciso fazer um acordo com a Anti-caridade. Seria dada a graça aos mais ricos em troca de algum dinheiro, não mas de graça. Com esse dinheiro poderiam ajudar os pobres que esses mesmos ricos expropriaram. A Igreja entrou no circuito da autoridade e passou até a considerar o merecimento, pois eram bocas demais a alimentar e o conforto do dinheiro era bem merecido pelos santos.
Foi muita evolução e revolução até os dias de hoje, mas vimos a Igreja daquele que desafiava Romanos e Judeus fazer extermínios até piores do que os feitos pelos primeiros. Hoje, nem pensamos mais em encontrar a graça dando sopa por aí, muito menos a Caridade, e esta última não esperamos encontrar sequer dentro dos redutos da Igreja. Francisco de Assis, nascido na Itália do séc. 12 e tido como o 2º Cristão mais reverenciado desde Jesus, fez exatamente essa barbaridade. Também visitado por um Jesus re-afirmando sua culpa na ideia, como Paulo ele jogou para o alto seu merecimento e desafiou as autoridades quando, diz-se, criou um grupo de ambulantes dedicados à Caridade. Mas até os seguidores de Francisco - que não poderiam ser melhores que os de Jesus - quase sempre encontram-se trancafiados em círculos de santos, protegidos e à margem do mundo que a Anti-caridade governa. Mas aquela coisa plantada pelo Nazareno continuou apaixonante, tentadora pelo quanto é fácil e gratuita.
O mundo não tem outra alternativa a não ser fazer que tudo e todos ao nosso redor fale contra a Caridade. Aquele que pede ajuda na rua certamente não a merece: provavelmente vai usar qualquer dinheiro para comprar drogas ou beber. Aquele conhecido que está endividado, com certeza não estudou ou não trabalhou tão bem que pudesse garantir um futuro próspero. Até o rapaz mal educado na padaria não teve boa família ou educação que o ensinasse a se portar. A Anti-caridade faz questão de escancarar a falta de merecimento, de autoridade e de pureza, e muitas vezes não está mentindo.
Mas a questão de Jesus é justamente mandar isso às favas, porque a Caridade só se importa em ajudar, em igualar, sem sequer esperar um obrigado. Fora dos círculos de santos protegidos, até contratuados com o oposto da Igreja de Jesus, a Caridade pode ser, hoje, tudo que nos resta para semear o que Jesus teve a ufana ambição de chamar de Reino.
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Papai Noel avisou que não passaria lá
Bacelar T, A maquina da desigualdade, Le Monde Diplomatique Brasil, 8/nov/2007
Mapa das desigualdades do Distrito Federal 2016 - movimentonossabrasilia.org.br
Mapa da desigualdade na Grande São Paulo 2017 - nossasaopaulo.org.br
Pernías TR, O crescimento da desigualdade no capitalismo contemporâneo, Le Monde Diplomatique Brasil, 14/dez/2018
Mas a questão de Jesus é justamente mandar isso às favas, porque a Caridade só se importa em ajudar, em igualar, sem sequer esperar um obrigado. Fora dos círculos de santos protegidos, até contratuados com o oposto da Igreja de Jesus, a Caridade pode ser, hoje, tudo que nos resta para semear o que Jesus teve a ufana ambição de chamar de Reino.
“Mas a economia demonstra que a desigualdade social atrapalha o crescimento, veja os números” tem a mesma precisa eficácia de dizer “mas Deus é amor, leia o versículo”. Defender a ciência econômica é como defender Deus: é inútil e contraproducente, e não é da índole nem de um nem do outro.
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Papai Noel avisou que não passaria lá
Bacelar T, A maquina da desigualdade, Le Monde Diplomatique Brasil, 8/nov/2007
Mapa das desigualdades do Distrito Federal 2016 - movimentonossabrasilia.org.br
Mapa da desigualdade na Grande São Paulo 2017 - nossasaopaulo.org.br
Pernías TR, O crescimento da desigualdade no capitalismo contemporâneo, Le Monde Diplomatique Brasil, 14/dez/2018
quinta-feira, 15 de março de 2018
Abraão em questão
Ilustração de um manuscrito do Irã, datado do séc. 15. Da esquerda para a direita, o anjo Gabriel, um bode, Ismael e Abraão. As chamas normalmente são usadas para identificar mensageiros de Deus.
No ano de 610 d.C., Maomé começa a receber as revelações que dariam origem ao Quran (Alcorão) e aos Hadith (testemunhos do profeta e seus contemporâneos). Ao longo de poucos anos, essas revelações formariam o Islã como sistema religioso e com Maomé como líder político. O Islã nasceu no início da Idade Média do Ocidente, período que vai desde a fragmentação de Roma Ocidental em 480 d.C. até a tomada de Bizâncio pelos turcos em 1492 d.C.. Desde cedo, afirmou parentesco com o Cristianismo e com o Judaísmo, como se houvesse uma sucessão de profetas desde Abraão (aprox. 2000 a.C.) até Malaquias (aprox. 400 a.C.), com Jesus (aprox. 30 d.C.) e depois saltando até Maomé, o derradeiro profeta e portador da mensagem completa de Deus.
O Alcorão não nem a “formalidade” de referências passíveis de data como a Torá judaica. Por isso, mesmo batalhas críticas na implantação da nova doutrina, como Badr (624 d.C.) e a Batalha das Trincheiras (627 d.C.) são dificilmente datadas pelo livro. Ainda, em sua fase inicial, o Islã tentou apagar todos os traços da história pagã em Meca¹ e Medina², suas cidades sagradas, de forma que é difícil traçar mesmo a genealogia dos líderes árabes antes de Maomé. Apesar disso, o Alcorão apresenta Jesus como um profeta e fala dos Israelitas como seus antecessores. O Alcorão também cita vários personagens do Velho Testamento, mas raramente esclarece sua história, como se a Torá judaica e a vida de Jesus fossem de conhecimento geral nos tempos em que foi escrito.
DESCENDENTES
Esse texto é justamente sobre o parentesco do Islã (pensado como religião e cultura) com o Judaísmo e o Cristianismo. Segundo o Alcorão, o parentesco se dá diretamente através da descendência de Ismael, primogênito de Abraão. Na tradição islâmica, Ismael é requerido por Deus como sacrifício (mas o Alcorão não é taxativo quanto a isso), depois ele e Abraão constroem a Ka’aba como santuário ou casa de Deus, num lugar chamado Makka, no oásis de Yathrib. Dentro do cubo de pedra coberto com pano preto ficavam uma pedra negra que seria o altar de Abraão (ela foi destruída ao longo da história), e também um fragmento de rocha onde teria ficado marcada sua pegada. Eis o ponto onde a descendência do Judaísmo se quebra: segundo a Torá (ou Velho Testamento), o filho de Abraão requisitado em sacrifício foi Isaac.
E quando chegou à adolescência, seu pai lhe disse: Ó filho meu, sonhei que te oferecia em sacrifício. Que opinas? Respondeu-lhe: Ó meu pai, faze o que te foi ordenado! Encontrar-me-ás, se Deus quiser, entre os perseverantes! (Sura 37.102)
A versão bíblica é diferente da versão islâmica, mas devemos ter o cuidado de lembrar que todo o Gênesis bíblico também foi “montado” durante o reinado de Josias (649-609 a.C.), a partir dos escritos esquecidos do Templo (ver História do nome de Deus). Pela versão da Torá, o primeiro filho de Abraão nasce de Hagar, a egípcia, serva de Sarai. Ismael, o “jumento selvagem”(expressão que o livro de Jó também usa para significar um viajante, peregrino) e Hagar terminam acolhidos pelo Senhor após deixarem Abrão. Ismael torna-se flecheiro e toma uma esposa egípcia, tornando-se pai de príncipes e fixando suas terras entre Havilá e Sur, ou seja, entre o norte da Arábia e o deserto do Sinai (Gênesis 25.17-18, Onde foi parar o paraíso). A ligação com o Egito faz sentido, mas isso coloca Ismael bem no norte da Arábia, a uns 1000 Km de Meca. Qual tradição está certa?
Supostamente a correta é judaica, pois é mais antiga. Mesmo entre os estudiosos árabes dos 1os séculos após a implantação do Islã, havia controvérsias sobre os papéis de Isaac e Ismael. Com o passar dos anos, entretanto, o nome de Ismael foi fixado pela tradição. Essa descendência de Ismael merece ser vista com mais cuidado.
Supostamente a correta é judaica, pois é mais antiga. Mesmo entre os estudiosos árabes dos 1os séculos após a implantação do Islã, havia controvérsias sobre os papéis de Isaac e Ismael. Com o passar dos anos, entretanto, o nome de Ismael foi fixado pela tradição. Essa descendência de Ismael merece ser vista com mais cuidado.
HISTÓRIA ANTIGA
O Islã iniciou pela aliança de Maomé com diversas tribos árabes e judaicas na região de Hijaz (Al-Ḥijāz), onde ficam Meca e Medina. Segundo os escritos judeus, Ismael se fixou no deserto de Parã, junto a um poço de água (Gênesis 21.19-21). Os islâmicos associam esse poço com a fonte ZamZam em Bakka, a região sagrada de Meca, onde está a Ka’aba. Ali existe um deserto chamado Parã, assim como ao sul de Israel, junto ao deserto de Sur. Não é improvável que a semelhança de nomes seja proposital ou associada ao estabelecimento de uma comunidade judaica antiga na região. E então temos um parentesco entre Islâmicos e Israelitas, como é dito no Alcorão! Por sinal, a região de Bakka era conhecida das caravanas que iam até Jerusalém mesmo em tempos longínquos como os de Salomão (1000-950 a.C.).
Como são felizes os que em ti encontram sua força, e os que são peregrinos de coração! Ao passarem pelo vale de Baca, fazem dele um lugar de fontes; as chuvas de outono também o enchem de cisternas. (Salmos 84.5-6)
Um exame das citações no livro sagrado do Islã também pode fornecer alguns indícios. Há vários personagens em comum com a Torá, alguns com uma história e feitos associados (semelhantes ou diferentes da Torá), outros com apenas a citação de um nome. Restringiremos nossa abordagem aos profetas, pois eles deixaram, ao menos na Torá, mensagens longas o suficiente para que fossem transmitidas como livros em separado e não apenas dentro de um grande volume, mais fácil de se perder. A figura em anexo dá uma cronologia desses profetas judeus.
Pela cronologia Islâmica, temos o aparecimento de vários profetas com uma estória associada a eles, no Alcorão, até Jonas, por volta de 820 a.C. Depois, chama a atenção que mesmo profetas muito influentes como Isaías (750 a.C. e Jesus cita ele) não são mais citados no Alcorão. E chama mais a atenção ainda o fato de que a pregação de Isaías a respeito do monoteísmo se emparelha muito com a do Alcorão.
A data de Isaías é importante porque, em 740 a.C., os exércitos de Tiglath Pileser da Assíria chegaram até Canaã e começaram a incorporar as terras de Israel (Reino do norte) às colônias assírias. O processo não terminaria até que quase toda a população - incluindo a capital Samaria - fosse deportada para as terras agrícolas subordinadas a Nínive.
Jerusalém também foi atacada, mas resistiu devido ao favor divino (1ª Crônicas 5.26, 2ª Reis 15, O orgulho separa e Deus une novamente, Apócrifos II - notas de rodapé). Como resultado da invasão do Reino do norte, 10 das 12 tribos/clãs dos judeus foram deportadas. Mais tarde, muitos judeus regressaram a Israel, clamando uma descendência desses clãs: há grupos judeus até mesmo na Índia que se dizem (e talvez com verdade) descendentes dos que foram levados para longe.
A data de Isaías é importante porque, em 740 a.C., os exércitos de Tiglath Pileser da Assíria chegaram até Canaã e começaram a incorporar as terras de Israel (Reino do norte) às colônias assírias. O processo não terminaria até que quase toda a população - incluindo a capital Samaria - fosse deportada para as terras agrícolas subordinadas a Nínive.
Jerusalém também foi atacada, mas resistiu devido ao favor divino (1ª Crônicas 5.26, 2ª Reis 15, O orgulho separa e Deus une novamente, Apócrifos II - notas de rodapé). Como resultado da invasão do Reino do norte, 10 das 12 tribos/clãs dos judeus foram deportadas. Mais tarde, muitos judeus regressaram a Israel, clamando uma descendência desses clãs: há grupos judeus até mesmo na Índia que se dizem (e talvez com verdade) descendentes dos que foram levados para longe.
A metodologia Assíria era bastante simples e eficaz: retirar os povos conquistados de suas terras e os assentar em províncias agrícolas distantes, para que os laços culturais e com a terra não os inspirassem a revoltas. No Reino do norte também foram assentados habitantes de outras terras, o que levou os judeus (do Reino do sul) a desqualificar os Samaritanos como descendentes de Abraão.
É possível que alguns judeus tenham sido deslocados nessa época ao longo da costa leste do Mar Vermelho, chegando até a região montanhosa de Hijaz (onde estão Meca e Medina) e até bem ao sul, na costa do Iêmen. Isso explicaria porque os escritos judeus após 750 a.C. não eram conhecidos. Mas essa história, ainda que difícil de provar, não termina aí.
É possível que alguns judeus tenham sido deslocados nessa época ao longo da costa leste do Mar Vermelho, chegando até a região montanhosa de Hijaz (onde estão Meca e Medina) e até bem ao sul, na costa do Iêmen. Isso explicaria porque os escritos judeus após 750 a.C. não eram conhecidos. Mas essa história, ainda que difícil de provar, não termina aí.
HISTÓRIA MENOS ANTIGA
No século 1, antes da destruição de Jerusalém pelos romanos (70 d.C.), tanto judeus como Cristãos eram vistos como “massa útil ao Império”, porque havia judeus em altos postos administrativos. O Império crescia e as rotas das caravanas de incenso, especiarias e seda eram muito valiosas. Essas rotas passavam ora pela planície dos rios Tigre e Eufrates (onde ficava Babilônia e depois o Império Persa), ora pelo Iêmen, contornando o deserto da Arábia até Hijaz e depois para o norte até a Síria.
Era preciso proteger os produtos das caravanas. Muitas colônias judaicas foram estabelecidas nesses pontos de comércio, longe do controle rígido de Roma. Logo depois da destruição de Jerusalém, diversas dessas colônias abraçaram o Cristianismo como oposição a Roma.
A Arábia dos séculos 1 e 2 era um conglomerado de tribos árabes longe do poderio Persa, cultuando deuses tribais ou mais poderosos como Hubal, judeus distantes de Israel e Cristãos convertidos ou fugidos das terras próximas a Roma. Por isso, os clãs de Hijaz foram formados de uma forma curiosa: associando as tradições árabes, uma tradição judaica muito antiga (anterior a 750 a.C.) e um Cristianismo emergente.
Durante a Idade Média, antes que o Islã se estabelecesse, a direção religiosa dos árabes mudou radicalmente. O maior poder dentre os árabes era então o império Himyar, que abrigou muitos judeus e controlou o Iêmen e a costa do Mar Vermelho nos sécs. 2 a.C. até 6 d.C. Himyar se converteu oficialmente ao Judaísmo em 380 d.C., como proteção contra os Persas, Bizantinos e Axumitas. Por volta de 520 d.C., o último rei Himyar - Yusuf As'ar Yath'ar - foi derrotado por Axum (reino Cristão da Etiópia que se expandiu até o sul da Arábia entre os sécs. 1 e 10 d.C.) e seu reino tornado uma colônia Cristã (ver O Cristianismo negro - parte I).
Em ouras palavras, a ligação do Islã com o Judaísmo e o Cristianismo é mais fragmentada do que simplesmente uma descendência de Ismael. Mas a ligação com o Cristianismo também merece alguma atenção.
Para começar, o Alcorão inclui de forma muito pobre o conteúdo dos Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas, que apresentam uma cronologia da vida de Jesus). Há uma preocupação “judaica” com as genealogias, como no livro de Mateus, e nada dos escritos de João (apóstolo) ou Paulo, este último amplamente divulgado no norte do Mediterrâneo e na Grécia.
Ora, João era um judeu e Paulo, um romano que não se aventurou na Arábia. Outro romano, Lucas fez o trabalho de um historiador e reuniu/colou as narrativas sobre Jesus que encontrou ao longo de suas viagens com Paulo. Ele apresenta um material que não há nos outros Evangelhos, como o nascimento de João Batista e sua ancestralidade. O texto de Lucas 1.5-20 é bem parecido com o do Alcorão:
37. O Senhor a aceitou [Maria] benevolentemente e a educou esmeradamente, confiando-a a Zacarias. Cada vem que Zacarias a visitava, no oratório, encontrava-a provida de alimentos, e lhe perguntava: 'Ó Maria, de onde te vem isso?' Ela respondia: ‘De Deus!, porque Deus agracia imensuravelmente quem Lhe apraz’. 38. Então, Zacarias rogou ao seu Senhor, dizendo: 'Ó Senhor meu, concede-me uma ditosa descendência, porque és Exorável, por excelência'. 39. Os anjos o chamaram, enquanto rezava no oratório, dizendo-lhe: ‘Deus te anuncia o nascimento de João, que corroborará o Verbo de Deus, será nobre, casto e um dos profetas virtuosos’. 40. Disse: ‘Ó Senhor meu, como poderei ter um filho, se a velhice me alcançou e a minha mulher é estéril?’ Disse-lhe (o anjo): ‘Assim será. Deus faz o que Lhe apraz’. 41. Disse: ‘Ó Senhor meu, dá-me um sinal’. Asseverou-lhe (o anjo): ‘Teu sinal consistirá em que não fales com ninguém durante três dias, a não ser por sinais. Recorda-te muito do teu Senhor e glorifica-O à noite e durante as horas da manhã’. (Sura 3.37-41)
CRISTIANISMO MARGINAL
Para começar, o Alcorão inclui de forma muito pobre o conteúdo dos Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas, que apresentam uma cronologia da vida de Jesus). Há uma preocupação “judaica” com as genealogias, como no livro de Mateus, e nada dos escritos de João (apóstolo) ou Paulo, este último amplamente divulgado no norte do Mediterrâneo e na Grécia.
Ora, João era um judeu e Paulo, um romano que não se aventurou na Arábia. Outro romano, Lucas fez o trabalho de um historiador e reuniu/colou as narrativas sobre Jesus que encontrou ao longo de suas viagens com Paulo. Ele apresenta um material que não há nos outros Evangelhos, como o nascimento de João Batista e sua ancestralidade. O texto de Lucas 1.5-20 é bem parecido com o do Alcorão:
37. O Senhor a aceitou [Maria] benevolentemente e a educou esmeradamente, confiando-a a Zacarias. Cada vem que Zacarias a visitava, no oratório, encontrava-a provida de alimentos, e lhe perguntava: 'Ó Maria, de onde te vem isso?' Ela respondia: ‘De Deus!, porque Deus agracia imensuravelmente quem Lhe apraz’. 38. Então, Zacarias rogou ao seu Senhor, dizendo: 'Ó Senhor meu, concede-me uma ditosa descendência, porque és Exorável, por excelência'. 39. Os anjos o chamaram, enquanto rezava no oratório, dizendo-lhe: ‘Deus te anuncia o nascimento de João, que corroborará o Verbo de Deus, será nobre, casto e um dos profetas virtuosos’. 40. Disse: ‘Ó Senhor meu, como poderei ter um filho, se a velhice me alcançou e a minha mulher é estéril?’ Disse-lhe (o anjo): ‘Assim será. Deus faz o que Lhe apraz’. 41. Disse: ‘Ó Senhor meu, dá-me um sinal’. Asseverou-lhe (o anjo): ‘Teu sinal consistirá em que não fales com ninguém durante três dias, a não ser por sinais. Recorda-te muito do teu Senhor e glorifica-O à noite e durante as horas da manhã’. (Sura 3.37-41)
Além disso, o Alcorão também traz algo do Evangelho da Infância segundo Tomé³, um texto apócrifo. A chegada desse texto Sírio na Arábia revela que a tradição Cristã oral seguiu pela costa do Mar Vermelho. Parece notável que o Cristianismo tenha se espalhado sem sequer um texto Sinótico que o embasasse, mas tal flexibilidade parece ter permitido que um Pseudo-cristianismo fosse bem assimilado por grupos judeus e árabes.
Evangelho da Infância segundo Tomé, cap. 2
Esse Menino Jesus, que na época tinha cinco anos, encontrava-se um dia brincando no leito de um riacho, depois de haver chovido. Represando a correnteza em pequenas poças, tornava-as instantaneamente cristalinas, dominando-as somente com sua a palavra. Fez depois uma massa mole com barro e com ela formou uma dúzia de passarinhos. Era um Sabbath e havia outros meninos brincando com ele. Um certo homem judeu, vendo o que Jesus acabara de fazer num dia de festa, foi correndo até seu pai, José, e contou-lhe tudo: ‘Olha, teu filho está no riacho e juntando um pouco de barro fez uma dúzia de passarinhos, profanando com isso o dia do Sabbath’. José foi ter ao local e, ao vê-lo, ralhou com ele dizendo: ‘Por que fazes no Sabbath o que não é permitido?’ Jesus, batendo palmas, dirigiu-se às figurinhas, ordenando lhes: ‘Voai!’ Os passarinhos foram todos embora, gorjeando. Os judeus, ao verem isso, encheram-se de admiração e foram contar aos seus superiores o que haviam visto Jesus fazer.
48. Ele [Jesus] lhe ensinará o Livro, a sabedoria, a Torá e o Evangelho. 49. E ele será um Mensageiro para os israelitas, (e lhes dirá): Apresento-vos um sinal de vosso Senhor: plasmarei de barro a figura de um pássaro, à qual darei vida, e a figura será um pássaro, com beneplácito de Deus, curarei o cego de nascença e o leproso; ressuscitarei os mortos, com a anuência de Deus, e vos revelarei o que consumis o que entesourais em vossas casas. Nisso há um sinal para vós, se sois fiéis. (Sura 3.48-49)
O Alcorão também apresenta um Jesus criança que ensina aos adultos (Sura 19.29-34), mas não traz elementos sobre sua vida ou ensinamentos após a infância, muito menos sobre João Batista. Nos clãs árabes, a transmissão de primogenitura era matriarcal, diferentemente dos judeus. A isso talvez se deva a imensa preocupação do Alcorão com Maria, que mereceu mesmo um capítulo ou Sura do livro, enquanto José nem é citado. Uma exploração pobre de José acontece nos Evangelhos Sinóticos.
A pobreza de elementos pareados com os Evangelhos chama a atenção (e isso em pleno séc. 7, quando Axum era uma potência comercial Cristã, Bizâncio representava a 2ª Roma e o norte da Europa se convertia ao Cristianismo). Novamente, isso sugere que os elementos Cristãos haviam chegado somente de forma oral e muito flexível à Arábia. Mas como essa tradição oral judaico-Cristã evoluiu até ser incluída no Alcorão?
ANTES DO ISLÃ
Uma parte da trajetória dos textos está ligada ao desmantelamento do império Himyar por Axum no séc. 5. Sem uma liderança de poder, os clãs árabes, judeus e pseudo-cristãos se organizaram em pequenas fortalezas e citadelas muradas, como na Europa medieval. Essas pequenas fortalezas estavam frequentemente em guerra umas com as outras. Meca já era uma cidade-templo desde a Antiguidade, então sob a tutela do clã árabe banu Jurhun. Provavelmente a Ka’aba era o templo de Hubal, um equivalente de El.
Amr ibn Luhayy al-Khuza'i, líder do clã banu Khuza'a (Iêmen) então derrotou os Jurhun e tomou o controle de Meca. A ele foi atribuído o início do politeísmo em Meca, que principalmente deve ter sido uma estratégia para agregar ao redor dos Khuza’a todos os demais clãs árabes. As lendas dizem que ele se consultava com um djinn/demônio chamado Abu Thumamah, que o instruiu a trazer (da Síria!) os ídolos de Hubal, Moloque, Uzayy, Asaf, Na'ila e Mana.
Os Khuza’a se tornaram uma estirpe de sacerdotes e cuidadores da cidade-templo, para onde vinham as caravanas do Iêmen. Desse culto politeísta evoluíram oferendas agrícolas de animais e pastagens sagrados, que não podiam ser tocados, com os quais Maomé teria contato muitos anos depois (Suras 5.103, 6.136-149). Mas era uma época de guerras e tanto Meca como a Ka’aba acabaram seriamente danificadas com o passar dos anos.
Amr ibn Luhayy al-Khuza'i, líder do clã banu Khuza'a (Iêmen) então derrotou os Jurhun e tomou o controle de Meca. A ele foi atribuído o início do politeísmo em Meca, que principalmente deve ter sido uma estratégia para agregar ao redor dos Khuza’a todos os demais clãs árabes. As lendas dizem que ele se consultava com um djinn/demônio chamado Abu Thumamah, que o instruiu a trazer (da Síria!) os ídolos de Hubal, Moloque, Uzayy, Asaf, Na'ila e Mana.
Os Khuza’a se tornaram uma estirpe de sacerdotes e cuidadores da cidade-templo, para onde vinham as caravanas do Iêmen. Desse culto politeísta evoluíram oferendas agrícolas de animais e pastagens sagrados, que não podiam ser tocados, com os quais Maomé teria contato muitos anos depois (Suras 5.103, 6.136-149). Mas era uma época de guerras e tanto Meca como a Ka’aba acabaram seriamente danificadas com o passar dos anos.
Ainda no séc. 5, Qusai ibn Kilab (400-480 dC), do clã banu Quraysh, casou-se com uma nobre da família Khusa'a e foi tomado como herdeiro da cidade-templo. Ele ficou famoso na história árabe por ter reconstruído a Ka’aba. Os Quraysh eram muito ricos: possuíam rotas comerciais entre o Iêmen, Síria e Irã, além de controlarem grandes mercados como Akkaz e Dhu I-Majaz. Quando dominaram Meca, aliaram-se a outro clã árabe poderoso, os banu Kinana. As referências islâmicas dizem que os Quraysh originalmente eram monoteístas (Hanif), mas vários se desviaram. Dessa forma, ao redor de Meca começava a se organizar uma nobreza e seus clãs vassalos.
FINALMENTE, COMEÇA O ISLÃ
Particularmennte, os Quraysh tinham um forte parentesco com os clãs judeus. Uma sub-divisão de sua linhagem até usava o nome banu Hashem (Hashem significa ‘O nome’, um substituto dos judeus medievais para o sagrado nome de Deus, YHWH). A linhagem mais judaica dessa família usava o nome banu Qurayza e tinha sua fortaleza ao lado de Medina. Assim, não é estranho que Maomé, nascido no subclã banu Hashem, um secto dos banu Quraysh, tenha buscado refúgio na rica cidade de Medina, controlada pelos banu Qurayza! Ele simplesmente se manteve dentro de seu círculo de nobres.
Maomé saiu de Meca por pregar algo que desagradava sua família: o monoteísmo. Não tanto pela religião (os Quraysh rapidamente se converteram ao Islã, mais tarde), mas porque isso quebrava o pacto dos Quraysh com os clãs árabes ao redor. Expulso de Meca com seus seguidores, o que deu início à Hijra, o profeta sediou-se em Medina, que também era um lugar repartido por diversos clãs. Havia o grupo formado pelos Aws (árabes) e Qynoqa (judeus); mas havia também o grupo dos Khazraj (árabes), Nadhir (judeus) e Quraydha/Qurayza (judeus).
Os judeus Qynoga e Nadhir entraram em conflito com Maomé, tendo suas fortalezas cercadas e destruídas pelos islâmicos. Ao final, perderam suas terras e foram forçados a migrar para o norte, se re-alocando na Síria.
Os banu Qurayza fizeram um pacto de proteção mútua com Maomé, mas esse pacto foi quebrado numa negociação entre eles e os Quraysh de Meca (novamente revelando seu parentesco), quando planejavam destruir os Islâmicos e assumir o controle de Medina. Na Batalha das Trincheiras, o cerco a Medina falhou e os Quraysh recuaram, expondo o plano dos judeus Qurayza.
Maomé ordenou sua rendição em troca de poupar as mulheres e crianças, mas que teve como resultado a decapitação de uns 400 homens. Contra eles foi usado o texto de Deuteronômio 20.10-14, que condenava os homens à morte e mulheres e crianças à escravidão.
"Como eles estavam sendo levados em lotes para o Apóstolo, eles perguntaram a Ka`b o que ele pensava que seria feito com eles. Ele respondeu: 'Você nunca entenderá? Você não vê que o convocador nunca pára e aqueles que são levados não retornam? Por Deus, é a morte!' Isso aconteceu até o Apóstolo ter acabado com eles. Huyayy foi levado para fora vestindo uma túnica florida em que ele tinha feito furos no tamanho das pontas dos dedos, para que não fosse tirada dele, com as mãos amarradas ao pescoço por uma corda. Quando viu o Apóstolo, ele disse: 'Por Deus, não me culpo por me opor a você, mas aquele que abandona Deus será abandonado'. Então ele foi aos homens e disse: 'O comando de Deus está certo. Um livro e um decreto, e um massacre foram escritos contra os filhos de Israel'. Então ele se sentou e sua cabeça foi cortada."(Ibn Ishaq - ou filho de Isaac, tradicionalista islâmico do séc. 8)
Os poucos homens Qurayza que sobraram foram aqueles que se converteram ao Islã. A nova fé nascia do extermínio judeu carregando passagens tanto da antiguidade da Torá quanto de um pseudo-cristianismo implantado a partir da Síria.
Quando a própria Meca se rendeu aos exércitos de Maomé, ele destruiu os ídolos da Ka’aba, afirmando o santuário como o legítimo templo de Abraão e Ismael, construído antes do Templo de Salomão. Os Quraysh então se converteram prontamente, sendo re-empossados como guardiões da cidade-templo. E, não havendo descendentes vivos do profeta, a liderança do Islã passou sucessivamente a seus parentes. Mas isso já é outra história...
CONCLUSÃO
Embora os islâmicos afirmem uma descendência linear de Abraão e Ismael (não podemos dizer que ela não seja real) como fonte de sua fé monoteísta e pura (Hanif), a ligação deles com o monoteísmo, Judaísmo e o Cristianismo é truncada. Houve a absorção de conceitos muito antigos do Judaísmo, mantidos apesar de um quase extermínio/expulsão dos judeus na Arábia, além de intrusões Cristãs bem marginais ou gnósticas. Embora pareçam ancorar o Islã como sucessor ou descendente de fés mais antigas, isso na verdade faz do Islã uma religião bastante original em sua concepção, tanto quanto o Cristianismo e o Judaísmo foram, quando surgiram.
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¹ Meca fica na costa ocidental/central da Arábia. A cidade e seu santuário, a Ka’aba (que deu origem à palavra Cubo) é uma localidade sagrada desde muito antes do Islã, tendo sediado o culto de outras divindades. Desde a antiguidade, as peregrinações levaram a Meca muitas pessoas, o que enriqueceu os vários clãs que cuidaram de seu santuário. No Islã, Meca representa a cidade natal de Maomé, o templo de Abraão e Ismael e a própria Ka’aba foi convertida/revertida em santuário maior de Allah, para onde todos os muçulmanos (crentes) devem peregrinar alguma vez na vida e perfazer um ritual que inclui rodear a grande caixa de pedra.
Sura 22.26 Recorda-te de quando indicamos a Abrão o local da Casa, dizendo ‘Não me atribuas parceiros, mas consagra a a minha casa para os circungirantes, para os que permanecem em pé, os genuflexos e os prostrados’. 27. Proclama a peregrinação às pessoas. Elas virão a ti a pé e montando toda espécie de camelos, de todo longínquo lugar.
Sura 22.26 Recorda-te de quando indicamos a Abrão o local da Casa, dizendo ‘Não me atribuas parceiros, mas consagra a a minha casa para os circungirantes, para os que permanecem em pé, os genuflexos e os prostrados’. 27. Proclama a peregrinação às pessoas. Elas virão a ti a pé e montando toda espécie de camelos, de todo longínquo lugar.
² Medina é uma rica cidade comercial, na rota que vai do Iêmen até Jerusalém, pela costa do Mar Vermelho. Rodeada por uma cadeia de montanhas, essa foi a cidade onde Maomé se refugiou da perseguição pelos do seu clã, os banu Quraysh de Meca. Essa mudança coletiva para Medina (em 622 d.C.) é chamada de Hijra e representa o início do calendário Islâmico. A partir de Medina, Maomé construiu alianças entre os clãs árabes e judeus, resistiu a invasões e partiu para a conquista de Meca, o que de fato aconteceu em 630 d.C. O governo da cidade sagrada de Meca, entretanto, foi mantido nas mãos dos banu Quraysh, familiares de Maomé, após se converterem ao Islã.
³ O Evangelho da Infância segundo Tomé é uma colagem siríaca de textos gnósticos, senão completamente imaginativos, de 140-170 d.C. Ele apresenta um Jesus de 5 anos que mata e humilha para reforçar sua autoridade, terminando com a passagem de Jesus ensinando no Templo, aos 12 anos, coletada por Lucas. Essa obra é uma versão anterior do Evangelho Árabe/Siríaco da Infância, que também é uma versão anterior do Proto-evangelho de Tiago. Ver Uma dúvida apócrifa.
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AS MIL E UMA PÁGINAS
A infância de Jesus segundo São Tomé
Amr bin Luhai - the first man who changed the religion of Abraham, Islamic awareness for the youth, dez 2010
Before Islam: when Saudi Arabia was a Jewish kingdom, Haaretz.com, nov 2017
History of the Jews in the Arabian peninsula - wikipedia
Infancy gospel of Thomas, earlychristianwritings.com
Ishmael and Isaac: the birth of the israeli-palestinian conflict, musalaha.org, 2016
Ishmael or Isaac - the Koran or the Bible? - Jackson J, christiancourier.com
Jewish tribes of Arabia - wikipedia
List of people in both the Bible and the Quran - wikipedia
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sábado, 31 de dezembro de 2016
Lua nova
cartão dos anos 1920
Algumas vezes, vemos eventos da natureza observados pelos povos ao redor do mundo marcados como tradições pagãs, contrárias ao Cristianismo. Isso demarca o que chamamos de “Cristianismo” como algo cultural, muito maior do que um princípio ou tradição religiosa. Existiria assim (e creio que as igrejas evangélicas brasileiras são um exemplo muito atual disso) uma “cultura cristã” que pode até ter suas raízes na Bíblia, mas excede em muito o ensinado por Jesus e mesmo o legado que o Novo Testamento preserva. Pessoalmente, isso diz que muito do que carregamos como sagrado é, na verdade, um apanhado de valores culturais passados e pontos de vista dos líderes religiosos que movimentaram os últimos 20 séculos do Cristianismo. Alguns grupos deificam tradições hebraicas, outras as tradições romanas, outras a opinião de um ou outro líder santo. Voltando ao que o Cristianismo (tentaremos pensar em algo uniforme, coeso e irreal, aqui) chama de “pagão”, temos tradições orientadas, como o próprio Cristianismo, segundo valores culturais e opiniões de líderes passados. Em especial, muitas são orientadas segundo a natureza do lugar onde surgiram.
Nenhum ensino religioso pode ser mais poderoso que o reconhecimento, em cada lugar e cada instante, das evidências do divino. Os demônios Vikings estavam nas terras frias do norte, os Celtas tinham seus deuses nas estações do ano, os Persas enxergavam demônios das areias dos desertos e deuses da abóbada celeste. Os Egípcios viam seus deuses nos animais do vale do Nilo. Os Cristãos tentaram desvincular-se desse “naturalismo” centrando tudo ao redor da figura humana de Jesus, expressões como “leão de Judá” e “cordeiro de Deus” nos lembram que, como retratado nos presépios natalinos, o Cristianismo nasceu numa terra onde habitavam serpentes, leões, cordeiros, bodes, jumentos, camelos e pescadores, e não uma terra de guarás, tamanduás, antas e onças. Os porcos eram malditos ali, mas na Europa estiveram na base da alimentação por muito tempo. Transpor os ensinamentos do Jesus galileu para o Brasil moderno também requer algumas peripécias lógicas que o próprio Jesus fez um trabalho muito mais incrível em facilitar do que os escritores do Velho Testamento. Na Judéia, se podia ir ao templo de Salomão, ao poço de Jacó, ao mar que Moisés abriu, nadar no Jordão onde João Batista pregava e até passear pelas margens do Mar Morto onde ficavam Sodoma e Gomorra. Na Europa, onde não há serpentes, ou na América, onde não há leões, algumas explicações precisam ajudar as pessoas a entender significados que os autores da Bíblia não fizeram questão de esmiuçar por considerarem um conhecimento inato ou senso comum.
Nessa transposição de significados, coisas bíblicas podem não encontrar correspondente em outra época e lugar. Ao mesmo tempo, o mundo que cerca as pessoas das Américas, da Europa, África, Ásia ou Oceania nos dias de hoje pode ficar tão distante do que a Bíblia fala que mereceria aquela prévia de Star Wars: “há muito tempo, numa terra muito distante…”. Isso faz da religião algo artificial, o que certamente não é seu propósito. Para quem quiser aprender algo sobre a incorporação de elementos naturais no Cristianismo, recomendo muito o livro “Celebrating the wonder of creation” que Dean Ohlman escreveu em 1982. No momento, falarei sobre um evento natural (apenas um de muitos) que é citado diversas vezes na Bíblia: a Lua Nova.
A LUA PAGÃ
Embora muitos povo tenham adorado a Lua como divindade (e daí o paganismo de “adorar a criatura e não o Criador”), o ciclo de translação da Lua ao redor da Terra (aprox. 29 dias, 12 h e 30 min) é observável em todo mundo, além das marés que seguem esse deslocamento do nosso satélite. Seria surpreendente se, em algum momento da história, ninguém se orientasse por um astro tão brilhante como a Lua: ela organiza calendários, plantios, colheitas e pescas. Como o ciclo lunar tem a mesma duração aproximada do ciclo menstrual humano, muitos povos associaram a Lua a rituais de fertilidade e deusas pagãs (necessariamente femininas) como Febe, Artêmis, Selena e Hécate, mais tarde lembradas na mitologia Celta em associações com a magia para obter colheitas.
O que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles [os homens], porque Deus lhes manifestou. Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis … Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. … Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres criados, em lugar do Criador. (Romanos 1.25)
No Oriente Médio, os calendários são até hoje orientados segundo a Lua, o que significa que a observação direta do astro determina o início e o final de cada mês. No Ocidente, assumimos 30 dias para o ciclo lunar (sem deixar de fazer muitas correções, com meses de 28, 29 ou 31 dias) e chamamos isso de mês. Nosso ano de 365 dias (translação da Terra ao redor do Sol) é também um conjunto de 12 ciclos da Lua ao redor da Terra. Os Judeus marcavam o início de um novo mês quando ocorria a Lua Nova. Até a palavra hebraica para "mês" (hodesh) literalmente significa "Lua Nova". Isso não é adorar a Lua, mas apenas usá-la como uma indicação de data.
COMEÇO DA TRADIÇÃO
Nos tempos após Moisés, os israelitas deveriam trazer uma oferenda a Deus em cada Lua Nova, por determinação do próprio Senhor. O início do mês era determinado por testemunhas da primeira aparição visível da Lua Nova. Assim que a ela fosse avistada, isso era anunciado em todo o país por fogos de sinalização nas montanhas e pelo sopro de grandes trombetas.
Também em seus dias festivos, nas festas fixas e no primeiro dia de cada mês, vocês deverão tocar as cornetas por ocasião dos seus holocaustos e das suas ofertas de comunhão, e elas serão um memorial em favor de vocês perante o seu Deus. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês". (Números 10.10)
A oferta da Lua Nova é descrita como um holocausto de 2 novilhos, 1 carneiro, 7 cordeiros de um ano e 1 bode, todos sem defeito, uma oferta de cereais e outra de vinho (Números 28.11-15). O festival Lua Nova marcou a consagração a Deus de cada novo mês do ano. Nessas festividades havia mesmo a suspensão de compromissos políticos, sociais ou familiares, tão importantes como um jantar com o rei (1ª Samuel 20.5,6), do trabalho e comércio (Neemias 10.31).
Como em qualquer ritual religioso (ou não religioso), havia o perigo de observar os festivais da Lua Nova como uma simples prática cultural. Assim, uns 500 anos depois de Davi os homens ainda separavam seus touros, cordeiros e cabras, mas não desistiam de seus pecados. Confiavam nas práticas externas (como hoje se dá em relação a roupas, hábitos, etc ligados ao movimento evangélico) para limpá-los, mesmo que ainda houvesse mal em seus corações. Deus tinha palavras severas para tal hipocrisia com um ritual que Ele mesmo tinha ordenado.
Parem de trazer ofertas inúteis! O incenso de vocês é repugnante para mim. Luas novas, sábados e reuniões! Não consigo suportar suas assembléias cheias de iniqüidade. Suas festas da lua nova e suas festas fixas, eu as odeio. Tornaram-se um fardo para mim; não as suporto mais! Quando vocês estenderem as mãos em oração, esconderei de vocês os meus olhos; mesmo que multipliquem as suas orações, não as escutarei! As suas mãos estão cheias de sangue! Lavem-se! Limpem-se! Removam suas más obras para longe da minha vista! Parem de fazer o mal, aprendam a fazer o bem! Busquem a justiça, acabem com a opressão. Lutem pelos direitos do órfão, defendam a causa da viúva! (Isaías 1:13-17)
Deus de fato estava farto do que os festivais da Lua Nova tinham se tornado. Quando Jesus andou entre os homens, esses sacrifícios se tornaram completamente desnecessários. Mesmo o Templo, onde Jesus tinha ensinado quando criança aos doutores Fariseus, havia se tornado o reduto daqueles que viam em Jesus um revolucionário a ser extirpado. Ninguém recebeu insultos de Jesus como os Fariseus que comandavam o Templo e a observância dos rituais desde Moisés e Esdras!
FIM DA TRADIÇÃO
Um ponto interessante é que Paulo se refere aos rituais da Lua Nova, mostrando que ainda eram observados pelos Judeus. Mas ele o faz uma única vez, e apenas ele faz isso no Novo Testamento. Em nenhum dos evangelhos Jesus diz ou faz qualquer coisa com relação às festividades da Lua Nova, sugerindo que talvez a invasão dos costumes gregos e romanos tenha tornado essas festividades em algo folclórico ou pouco importante na Israel do 1º século d.C. Jesus em especial pregou sobre um culto pessoal a Deus, ao invés dos rituais coletivos e lugares sagrados a que o Velho Testamento se refere, apesar de esses lugares estarem em atividade ou íntegros durante o governo romano.
Disse a mulher [samaritana]: "Senhor, vejo que é profeta. Nossos antepassados adoraram neste monte, mas vocês, judeus, dizem que Jerusalém é o lugar onde se deve adorar”. Jesus declarou: “Creia em mim, mulher: está próxima a hora em que vocês não adorarão o Pai nem neste monte, nem em Jerusalém. Vocês, samaritanos, adoram o que não conhecem; nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. No entanto, está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. São estes os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade.” (João 4.19-24)
Não apenas a Lua Nova era um ritual valioso dos Judeus. Haviam muitos rituais gerenciados pelos Fariseus, aquilo a que Jesus se referiu quando disse que coavam um mosquito e engoliam um camelo (Mateus 23.24). Mesmo os discípulos mais próximos de Jesus foram entorpecidos por costumes e práticas sociais, como se fossem sagrados, logos nos primeiros anos em que perambularam pelo mundo sem seu mestre. Pedro se afastava dos gentios quando havia Judeus presentes e Paulo recomendava a observância de hierarquia entre os sexos, apesar de se hospedar em comunidades muitas vezes lideradas por mulheres. Ele também associava abertamente o pecado a costumes e ações das pessoas:
Por causa disso [do afastamento de Deus] Deus os entregou a paixões vergonhosas. Até suas mulheres trocaram suas relações sexuais naturais por outras, contrárias à natureza. Da mesma forma, os homens também abandonaram as relações naturais com as mulheres e se inflamaram de paixão uns pelos outros. Começaram a cometer atos indecentes, homens com homens, e receberam em si mesmos o castigo merecido pela sua perversão. (Romanos 1.26,27)
Provavelmente após sua 1ª estadia em Antióquia da Síria, Paulo muda bastante seu modo de agir, concentrando-se nos aspectos espirituais e inclusivos do Reino de Deus.
Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo. … Portanto, não permitam que ninguém os julgue pelo que vocês comem ou bebem, ou com relação a alguma festividade religiosa ou à celebração das luas novas ou dos dias de sábado. Estas coisas são sombras do que haveria de vir. (Colossenses 2.16,17)
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REBARBA DA PÁGINA
List of lunar deities - wikipedia
terça-feira, 13 de setembro de 2016
Cristãos do norte
Ilhas britânicas no início da Idade Média. As setas marcam o caminho feito pelor evangelizadores Cristãos. <ampliar>
Não é muito raro ver lutas dentro do Cristianismo: Neopentecostais versus Tradicionais, Protestantes (puros) versus Luteranos, Protestantes (puros e impuros) versus Católicos, Católicos Romanos versus Católicos Ortodoxos e por aí vai. Algumas das famosas cruzadas (sécs. 10 a 14) foram lutas entre Cristãos e Islâmicos (por Jerusalém), outras foram lutas entre Cristãos aprovados por Roma e Cristãos reprovados por Roma (como os Cátaros, na França). Gostaria de relembrar aqui uma dessas lutas, a catequização dos Pictos, que considero especial porque envolveu muitos séculos de (1) evangelização / cristianização de um povo; (2) uma transformação do Cristianismo em força política e (3) uma romantização posterior dos conflitos, fazendo-se crer em um ramo do Cristianismo – com único nome para isso – que jamais existiu.
Os Pictos eram um povo do norte da Escócia, formado por clãs familiares (ex. Caerini, Cornavii, Lugi, Smertae, Decantae, Carnonacae, Caledonii, Selgovae e Votadini) que surgiram através da lenta travessia do Atlântico norte por marinheiros da Escandinávia, por volta de 2000 a.C. Seu nome deriva da palavra Pecht, Pettir (em nórdico) ou Pehtas (em anglo), que significa “ancestrais”. Como não usavam da escrita, os registros mais antigos dos Pictos foram feitos pelos invasores romanos, que apontaram o fato de se pintarem para as batalhas. Os clãs combatiam entre si por terras e gado, mas se uniam sob a liderança de guerreiros respeitados contra inimigos em comum. Quando os Romanos chegaram, os Pictos praticavam uma religião pagã baseada em divindades da natureza que habitavam certos locais sagrados dentro das suas terras, locais que eram visitados apenas pelos magos. Essa religião tinha as mesmas características dos cultos celtas no restante da Europa, ou seja, era liderada por bardos (músicos / adivinhos), ovates (médicos / fazedores de poções) e druidas (sacerdotes).
UM NOVO SISTEMA
Júlio César chegou às ilhas britânicas em 54-55 a.C., mas o estabelecimento de bases romanas ali só ocorreu em 43 a.C. no reinado de Claudius. O contato com os Bretões (povo do sul das ilhas) foi tradicionalmente truculento: as terras foram invadidas, exércitos exterminados e os dominados foram incorporados ao exército romano. Foram cerca de 100 anos até que as primeiras cidades romanas (como Londinium, a futura Londres) estivessem estabelecidas. Em 79 d.C., logo após as perseguições de Nero aos Cristãos, quando os eventos das cartas de Paulo já estavam escritos e os evangelhos começavam a ganhar forma literária, os romanos depararam-se com os Pictos, no norte das ilhas. A 9ª Legião os pôs em fuga (segundo os Romanos), mas de fato nenhuma vila ou cidade foi conquistada.
Os Pictos faziam ataques inesperados e logo desapareciam, sem deixar campos ou habitações que pudessem ser ocupados. Esses combates de guerrilha invalidavam as técnicas romanas de luta e controle das regiões, porque também não conseguiam soldados locais para suas tropas. Além disso, o governo totalmente descentralizado dos Pictos se mostraria um desafio intransponível para a forma romana de política, nos séculos seguintes. Em 122 d.C., o imperador Hadriano considerou as terras escocesas tão inseguras que ordenou a construção de uma muralha de 120 Km - de costa a costa - para separar os povos “civilizados” da Bretanha, ao sul, e os Pictos “selvagens”, ao norte. Vinte anos depois, uma nova muralha foi erguida, pouco mais ao norte. Era uma demarcação de terras contra algo que os Romanos não podiam controlar: quando as legiões deixaram a Bretanha para proteger Roma em 410 d.C., praticamente nada havia mudado na forma de vida ao norte das muralhas.
Os Pictos faziam ataques inesperados e logo desapareciam, sem deixar campos ou habitações que pudessem ser ocupados. Esses combates de guerrilha invalidavam as técnicas romanas de luta e controle das regiões, porque também não conseguiam soldados locais para suas tropas. Além disso, o governo totalmente descentralizado dos Pictos se mostraria um desafio intransponível para a forma romana de política, nos séculos seguintes. Em 122 d.C., o imperador Hadriano considerou as terras escocesas tão inseguras que ordenou a construção de uma muralha de 120 Km - de costa a costa - para separar os povos “civilizados” da Bretanha, ao sul, e os Pictos “selvagens”, ao norte. Vinte anos depois, uma nova muralha foi erguida, pouco mais ao norte. Era uma demarcação de terras contra algo que os Romanos não podiam controlar: quando as legiões deixaram a Bretanha para proteger Roma em 410 d.C., praticamente nada havia mudado na forma de vida ao norte das muralhas.
A CHEGADA DOS CRISTÃOS
O Cristianismo alastrou-se pelo Império desde as viagens de Paulo e os conflitos na Judéia (60-80 d.C.). Ainda no reinado de Tiberius (séc. 1), o historiador Gilda relatou a chegada de missionários Cristãos às ilhas britânicas, em sua parte sul. Algumas tradições falam até da ida de José de Arimatéia para essa parte do mundo, após a Ressurreição e, entre os 70 missionários enviados por Jesus, conta-se nos escritos romanos um certo Aristobolus, descrito como bispo da Bretanha. Em 314 d.C., o Cristianismo tornou-se a religião oficial de Roma, com voto e participação de um bispo de Londres!
Por volta de 350 d.C., o Cristianismo já se apresentava como força Romana e tentava se organizar, pois haviam muitas doutrinas diferentes, produzidas por uma variedade de escrituras, a falta delas e várias teologias. No sul das ilhas, por exemplo, Pellagio pregava que o homem nascia moralmente neutro e podia optar por seguir a Cristo ou não, alcançando assim a Salvação. Em Roma, por outro lado, Agostinho de Hippona afirmava que o pecado e aversão a Cristo eram naturais do homem e, portanto, a Salvação devia ser imposta. Pellagio foi considerado um herege, junto com diversos outros líderes Cristãos.
Em 367 d.C. os Saxões da Noruega começaram a atacar as ilhas, o que duraria muitos séculos. Enquanto as tropas romanas ao sul abandonaram gradativamente as ilhas à própria sorte, as tropas ao norte se juntaram aos Pictos e sua forma distinta de combate para resistirem à invasão, como belamente retratado no filme hollywoodiano “rei Arthur”. Mesmo assim, as terras dos Pictos eram consideradas território selvagem e, no imaginário dos povos ao sul, eram terras brancas habitadas por gigantes como os Enaquins e Refains do Velho Testamento. Chamavam aquela região de Albion ou Alba. De fato, se tomarmos essa época como a fonte das lendas medievais sobre Arthur e seus cavaleiros, encontramos um estranho cruzamento: Arthur, os cavaleiros e a organização de poder em um castelo ou citadela são elementos romanos, até mesmo com juramentos Cristãos de fidelidade; por outro lado a espada mágica, Merlin, as fada Viviane do lago e Morgana, e mesmo Gwenevere (flor branca) são elementos da religião druida ao norte das muralhas.
Os missionários Cristãos então começam a fazer uma curiosa rota rumo ao norte: do continente para a Bretanha (terras do sul, romanizadas), pelo mar até Hibérnia (Irlanda) e dali pelo mar até Albion (Escócia). Esses missionários eram nobres e viajavam com grandes escoltas de militares e cléricos, fundando monastérios onde se estabeleciam. Os chefes locais eram seguidores dos druidas e não raro havia guerras contra eles, mas algumas vezes o convívio era pacífico. Com a evasão de Roma, os monastérios passaram a ser a organização política das cidades nas ilhas e cada governante recebia o título de “Santo”, ainda que não fosse ordenado monge ou religioso. Inevitavelmente, o número de “santos” cresceu incrivelmente nesse início da Idade Média.
Em 397 d.C., Santo Ninian fundou a igreja Cândida Casa em Hibérnia, de onde converteu os Pictos na região. Tratava-se realmente de uma mudança enorme nos conceitos de um Picto: ao invés de divindades morando nas florestas, montanhas e lagos, um só Deus habitando o intangível céu. Ao invés de seres sagrados meio-humano-meio animal-meio sobrenaturais, um Deus invisível com filho humano. Palladius (431 d.C.) partiu de Cândida Casa e provavelmente foi um dos primeiros a conseguir seguidores Cristãos em Albion. Lá, os líderes dos clãs locais também eventualmente se uniam aos pregadores; às vezes também incendiavam os monastérios e matavam todos ou levavam os Cristãos como escravos.
DIVERGÊNCIAS NO CRISTIANISMO
Em 480 d.C., Roma é atacada e saqueada pelos Vândalos da Ibéria (Espanha). Esse ano marca a retirada completa das legiões de outras partes da Europa e sua movimentação em defesa do Império, que estava ruindo. Bem longe dali, assim que uma geração de “Santos” nativos das ilhas britânicas apareceu, veio com ela também um Cristianismo remodelado segundo a cultura Picta. Esse foi chamado “Cristianismo Celta” em tempos mais recentes. Eis algumas diferenças:
- As lideranças dos monastérios eram locais e não hierárquicas. Isto é, o abade local tinha fortes poderes políticos e controlava terras agrícolas. Eram casados e um dos filhos tornava-se o próximo “protetor”. No continente, os cléricos não se casavam. O abade era submisso ao bispo local, que respondia ao arcebispo do reino e este obedecia diretamente ao papa. O poder político era exercido em nome do papa e as terras da igreja eram, em última instância, as terras do papa.
- Os “Santos” eram protegidos ou relacionados com líderes dos clãs, oferecendo sua ajuda intercessória, na forma de autoridade ou até mesmo desafiando os clãs rivais quando havia disputas. No continente, o clero dispunha de exércitos próprios.
- Filhos ilegítimos dividiam a herança igualmente com seus irmãos. Isso se adaptava bem ao fato de diversos líderes de clãs terem várias esposas. No continente, apenas o primogênito tinha direitos. Os irmãos eram, quando muito, seus “protegidos”.
- As pessoas não iam à missa, mas haviam peregrinações dos membros do monastério até onde viviam. No continente se levantavam grandes igrejas nos territórios de Roma.
- As pessoas entravam e saíam facilmente das comunidades religiosas. Muitos jovens ingressavam para estudar, saíam e se casavam, para voltarem quando velhos. Isso fazia dos monastérios partes funcionais da sociedade. No continente, a saída de alguém podia condená-la à mais baixa casta social.
- Havia uma ligação com práticas do Velho Testamento, inclusive o uso da lei mosaica. Isso desfavorecia muito o Cristianismo das ilhas segundo a visão de Roma, seguidora da estrutura proposta por Paulo e de certa forma avessa aos costumes Judeus.
- Havia discordância entre as datas da Páscoa (25 de março), devido a diferenças de Calendário e observância ou não do calendário Judeu. O Concílio de Nicéia (325 d.C.) havia estabelecido o calendário de Alexandria e Roma para a Páscoa (21 de março).
- A forma de cortar os cabelos funcionava como uma identificação de posição hierárquica. Nas ilhas, os homens usavam cabelos longos e barbas, com os escravos não tendo barba. No continente, os homens não usavam barbas e tinham o cabelo raspado no alto da cabeça.
- A penitência era um ritual particular, normatizado. No continente, era um ritual público (como dos Judeus) e podia ser substituído pelo cedimento de terras ou riquezas à Igreja. Nas ilhas, a penitência costumava ser uma forma voluntária de exílio, dependendo do pecado cometido. Pecadores graves se tornavam evangelistas, sobretudo em Hibernia ou Albion. Diversos “Santos” assumiram seu papel evangelizador como forma de penitência.
Os abades que foram de Hibérnia para Albion ofereceram socorro em desastres climáticos (inverno rigoroso seguido de estiagem severa) e períodos de fome como em 535 d.C. assim como epidemias de lepra como a Praga de Justiniano em 547 d.C. Alguns até se tornaram personagens de lendas populares. Por exemplo, St. Patrick, famoso evangelizador de Hibérnia teria sido visitado por anjos numa noite, os quais lhe designaram o controle e a responsabilidade pelo reino de Aird Mache ou Armagh. Esse acontecimento ficou registrado em uma obra dele, considerada sagrada na época, denominada Liber Angeli. St. Columba (Colm Cille = pomba da igreja, 563 dC), um seguidor dele que se exilou em Albion após provocar a guerra entre os clãs em defesa do próprio monastério também teria banido com orações uma besta ou dragão para dentro do rio Ness, o que originou a lenda sobre o monstro nas águas. Columba, em especial, era aliado dos chefes de clãs a ponto de receber deles o governo de pequenos reinos subordinados. Assim, nas ilhas, o poder político Cristão era altamente mesclado aos poderes familiares locais e ao imaginário popular típico da Idade Média. Os abades e evangelizadores eram tidos como Paulo e Pedro eram, na Judéia e depois em Roma: figuras mágicas, poderosas e – bem diferente dos primeiros líderes Cristãos - politicamente influentes.
AS DISPUTAS ESCANCARADAS
As diferenças entre o Cristianismo Celta (das ilhas) e o Cristianismo Romano (do continente) faziam parecer que os Pictos eram insubordinados e hereges. Em 597 d.C., o papa Gregório enviou o monge Augustine para as terras sob comando dos Saxões, no oeste da Bretanha. Os Saxões eram pagãos aparentados com os Vikings, o que mereceu uma missão fortemente política: Augustine contava com representantes oficiais dos reis Theuderic II da Burgúndia, Theudebert II da Austrasia e Chlotar II de Neustria. Todos esses reis europeus estavam interessados em proteger suas terras no norte do continente contra o rei saxão Æthelbert da Inglaterra, que estava temporariamente em paz com eles por um casamento com a rainha Bertha, parente deles. Augustine levou 40 nobres (alguns deles também eram cléricos) e seus subordinados para a Inglaterra, estabelecendo ali uma igreja e um monastério. Sob permissão do rei inglês, não apenas os Saxões foram incorporados ao Cristianismo Romano, mas o próprio rei foi batizado. Enquanto isso, a maioria dos Pictos já era adepta ao Cristianismo Celta, mas eventualmente sofria ataques dos Saxões: em 616 d.C., o monastério de St. Donnan (Hibérna) no porto de Tiree foi incendiado e todos os monges decapitados.
CRISTIANISMO E REALEZA: UMA SEPARAÇÃO CADA VEZ MAIS DIFÍCIL
Apesar do sucesso entre os Saxões pagãos, Augustine não foi bem recebido entre os Pictos cristãos. Os abades Pictos foram chamados para um Concílio com Augustine, mas segundo o costume local esperavam que ele se sentasse após eles, em sinal de humildade. Como Augustine os recebeu já sentado, interpretaram isso como um sinal de soberba de Roma e rejeitaram todas as mudanças que ele requisitava, sobretudo quanto à data da Páscoa.
O surgimento do reino Anglo-saxão (isto é, de Saxões Cristãos) de Northumbria obrigou os Pictos a se reorganizarem ao redor de um governo central. Mas as relações de poder não eram excludentes: Bridei mac Billi ou Brude mac Bile foi um rei Picto que lutou contra o avanço de Northumbria; curiosamente, o rei rival era seu primo e Brude foi ajudado por ele para subjugar os clãs vizinhos, em especial os Scots. O rei de Northumbria organizou tudo isso em troca de tributos dos Pictos, mas Brude quebrou o pacto, repelindo os Alglo-saxões para o sul em 685 d.C. Assim, como nos tempos da muralha de Hadriano, o Cristianismo ficava dividido entre sul e norte. Mas Roma era um aliado poderoso e sempre uma tentação para reis acostumados a duelar contra o sul...
Em 710 d.C., o rei Picto Nechtan decretou que seguiria o Cristianismo Romano. Seu reino entrou em guerra civil, ele abdicou e se retirou para um monastério. Os dois segmentos Cristãos mantiveram os conflitos até 734 d.C., quando um novo rei unificou o país para uma guerra contra os Scots de Dál Riada (Irlanda + Escócia). Seus descendentes foram mais longe e juntaram-se também aos Scots para batalhar contra os Anglo-saxões e, dessa forma, o Cristianismo se separou segundo fronteiras estabelecidas por exércitos. Essa estrutura de poder só seria quebrada pelas invasões Vikings no séc. 10, depois do que exércitos do continente invadiriam toda a Bretanha e forçariam a adoção do Cristianismo Romano.
CONCLUSÃO
Apresentei aqui uma história longa. Ela começa com a chegada da Roma pagã de Júlio César, a cristianização de Roma, o estabelecimento do Cristianismo Celta e vai até os embates por poder político e religioso. Nela aparece uma religião que hora se preocupava com as crenças religiosas das pessoas, ora estabelecia Santos e líderes políticos para forçar a adoção de seus modos de culto. Tanto a uma coisa como outra somos forçados chamar de Cristianismo, embora os ideais de amor ao próximo e a Deus estivessem difíceis de ver, às vezes. Hoje, tanto Protestantes como Católicos praticamente ignoram a sua história. Depois da fragmentação no séc. 19, os Protestantes em especial parecem ver os tempos do Novo Testamento como se tivessem ocorrido ontem (em um mundo que certamente era bem diferente do atual), apesar de adotarem costumes e teologias forjadas lentamente nos últimos 20 séculos.
Mais ainda, vemos que o Cristianismo não está imune a misticismos. Os Cristãos Romanos se aventuravam pelo mundo com a prerrogativa de que todo o globo havia sido deixado pelo próprio Jesus aos cuidados de Pedro, e isso politicamente falando. Os Cristãos Celtas veneravam os líderes de monastérios como protetores sobrenaturais muito após a sua morte; atribuíam-lhes poder sobre as batalhas, rios e até mesmo anjos. De um e de outro lado, as alianças políticas resultavam em poder e conversões forçadas.
Os poderes políticos e religiosos enfim se separaram, mas o misticismo não desapareceu. Nos sécs. 12 e 13, ideais de um Cristianismo livre de corrupção propagaram Arthur e as ilhas britânicas como cenário de reis valentes e cavaleiros fiéis, que combatiam bruxos e dragões. No séc. 18, o romantismo de uma raça Celta livre da poluição intelectual forjou a imagem de um Cristianismo Celta mais espiritual, melhor do que o Romano. Depois, os movimentos New Age no séc. 20 contrapuseram a espiritualidade dos Celtas a qualquer falha de comunicação na espiritualidade moderna, pintando um Cristianismo Celta ideal e também uma Igreja Primitiva heróica, mais aceita por Deus que as igrejas atuais. Pelo menos nesse trecho da história, tentei mostrar um Cristianismo que verdadeiramente é/foi mutante, intimamente ligado às características políticas e sociais de cada tempo, que hora enaltecia valores de humildade e paz, noutras de poder e organização política.
Longe dos misticismos, fica a difícil tarefa de destilar as falas de Jesus através da realidade dos homens.
Longe dos misticismos, fica a difícil tarefa de destilar as falas de Jesus através da realidade dos homens.
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LEITURAS PÓS-ROMANAS
Augustine of Canterbury - wikipedia
Beveridge E. Coll and Tiree: their prehistoric forts and ecclesiastical antiquities with notices of ancient remains in the Treshnish Isles. Edinburgh. p141-142 e 146,1903.
Donnán of Eigg - wikipedia
Gascoigne M, Alban (Albion) white island, Anno Mundi books, 2001
Mark JJ. “Picts”, Ancient History Encyclopedia. Last modified December 18, 2014.
Rothlin G, Straker F, Read Val, Read J, Franklin G, Crookston M, MacLean M, MacLean A, Ancient Chapels and Burial Grounds in Tiree, 2006
The Annals of Ulster, University College, Cork
The Liber Angeli, Book of Armagh, University College, Cork
Watson WJ. The history of the Celtic place-names of Scotland: being the Rhind lectures on archaeology (expanded) delivered in 1916. Edinburgh. p 92, 1926.
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