Mostrando postagens com marcador anjos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador anjos. Mostrar todas as postagens

sábado, 6 de julho de 2013

O hinário e os hinos

1º Hinário brasileiro, de 1855 - Igreja Evangélica Fluminense
(clique para ampliar)

A música é a expressão de sentimentos através de vibrações sonoras, uma “linguagem por detrás das palavras”. Existe certa musicalidade até no que falamos, e não por acaso a música sempre foi atrelada nos ritos religiosos. Aprender sobre Deus COM MÚSICA é, para todos os humanos, melhor do que aprender SEM MÚSICA. Mas, claro, a Bíblia não é uma coleção de livros de música. Mesmo os Salmos, que são canções, não trazem qualquer tipo de partitura e só possuem alguma sonoridade se cantados no dialeto hebraico original. Dessa forma, a música nas igrejas cristãs precisou ser criada, inventada, ritmada. Como fazê-lo?

O primeiro contato que temos com a música é no ambiente profano, mesmo aquelas canções infantis que usamos para ensinar algo às crianças: Boi da cara preta, Era uma casa muito engraçada, etc. Uma boa harmonia ou ritmo sempre cativam, e a música ainda traz valores culturais, pessoais, do tempo de cada um. Todo os povos são dotados de musicalidade, não existe nem um povo que não tenha sua própria música, assim como não existe ninguém que não aprecie algum tipo de música.

Seria a música profana algo maligno? Paulo recomenda à igreja de Filipos: “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai” (Filipenses 4.8). Paulo não tinha uma Bíblia; assim como ele recomenda, convém que comparemos o que ouvimos com o que realmente é TEXTIFICADO como verdade. Há coisas lindas que as pessoas podem produzir, mas há coisas lindas que podem ser contrárias à Bíblia. Vão dois exemplos de canções consagradas:

Eu sei que vou te amar; por toda a minha vida eu vou te amar; em cada despedida eu vou te amar; desesperadamente, eu sei que vou te amar... (Eu sei que vou te amar, Tom Jobim)

Eu aprendi; a vida é um jogo; cada um por si; e Deus contra todos; Você vai morrer; e não vai pro céu; é bom aprender; a vida é cruel... (Homem Primata, Titãs)

Na 1ª delas, temos uma declaração de amor erótico, de uma mulher para um homem (vejam a letra completa). Isso é bíblico! O Cântico dos Cânticos é muito mais erótico do que Tom Jobim já conseguiu ser. Na 2ª canção, “cada um por si” e “Deus contra todos” simplesmente negam o ensino bíblico de Gênesis a Apocalipse. A letra é poética, o ritmo e a melodia são geniais, mas é encher os pensamentos com aquilo que Paulo mandou rejeitar.

Alguém talvez diga: mas os compositores não são cristãos. Na Bíblia, a maior parte dos personagens também não era. Pregamos um Jesus que visitava os endemoniados e os leprosos, que andava na companhia de publicanos “impuros” e até comia em suas casas. Cada coisa é simplesmente aquilo que apresenta! No caso da música, significa que ela pode trazer elementos cristãos ou não, sem que isso se atrele a sua qualidade sonora.

A MÚSICA SACRA

Música sacra é aquela que tocamos ou cantamos especificamente em ambientes sagrados, com propósitos religiosos. Ninguém é contra ouvir música sacra em casa, mas certamente ouvir música profana no local de culto está fora de questão. Pensamos que é necessário garantir dignidade do templo - o prédio - ao invés de devolver às mãos do Senhor os flagelos com que Ele expulsou os profanadores em Jerusalém. Mas se a música é atraente, se aprendemos música fora do culto, é realmente difícil separar as duas coisas.

Pelo seu poder comunicativo, a música sacra pode acrescentar mais eficácia à pregação. Ela pode criar um elo entre o coração e o texto bíblico. E por isso desejamos que ela seja santa, que exclua todo o profano em si mesma, nas pessoas que tocam ou cantam, no modo como é executada e até na vida do compositor. Mas a música é por demais humana para isso... Se ela for arte verdadeira, se permitir a cada nação incluir como sacras as suas composições religiosas, sua música própria, então como podemos falar em algo TEOLOGICAMENTE universal?

A Bíblia não nos fornece qualquer ensino objetivo de como fazer cultos entre 4 paredes. As descrições são fragmentadas, dispersas em textos com outros propósitos. O seja, a Igreja não tem exemplos das Escrituras para desenvolver serviços de culto! Assim, há uma busca pelos “princípios escriturísticos de culto”, oque depende do entendimento, valores de cada um, etc, variando um tanto entre as culturas e pessoas.

No mundo Católico, existe uma “fórmula ideal” para as missas. Mostraremos a seguir que isso variou muito ao longo do tempo, entretanto. No mundo Protestante, não existe essa fórmula. Para Lutero, por exemplo, as questões litúrgicas (ou seja, referentes ao FORMATO do culto) não eram prioritárias – ele simplesmente conservou a liturgia das missas Católicas. Para as novas Igrejas surgidas após 1500, entretanto, esta era uma questão essencial. O famoso teólogo Protestante Ulrich Zwinglio (1484-1531) enfatizou a pregação da Palavra como elemento central do culto. Ele até suspeitava do “poder sedutor” da música, banindo da Igreja todo tipo de música, artes visuais, iconografias, mandou pintar todas as paredes de branco. Esse modelo mais ou menos continua até hoje.

NATUREZA DA MÚSICA SACRA

Nem toda música na Bíblia é música sacra. Há canções de guerra, de lamento, de vitória. E há canções dedicadas ao Senhor. Talvez a aparição mais inquietante da música sacra seja no livro de Jó, o mais antigo das Escrituras, onde lemos que quando Deus lançava os fundamentos da terra, as estrelas da alva cantavam e todos os filhos de Deus rejubilavam (Jó 38.1-7). Se compararmos esta passagem com Isaías 14.12 onde Lúcifer é chamado de estrela da manhã e filho da alva, podemos entender que, mesmo antes da criação do universo, havia no céu uma hoste angelical separada para cantar louvores ao Eterno Deus, da qual Lúcifer parece ter sido o regente (Ezequiel 28.12-15).

A mais forte aparição de música sacra sem dúvida são os 150 Salmos, escritos por Davi e os músicos que ele designou para o Templo. Todos são canções de culto; 55 deles contêm instruções para os regentes sobre a execução de vários instrumentos musicas e as melodias para acompanhamento. Infelizmente, tais melodias não foram “partituradas”.

Os judeus (como nós) faziam canções para os momentos de festa e para os de tristeza. Isso não excluía os cultos. Assim, se tomarmos os Salmos como exemplo, as canções/orações no culto não precisam ser espetáculos vibrantes, eufóricos. Ali também tem muito sofrimento... Há hora para festejar e hora para chorar! O apóstolo Tiago nos deixou esse ensino: “Está alguém entre vós aflito? Ore. Está alguém contente? Cante louvores” (Tiago 5.13). Há muito tempo, os compositores de música sacra perceberam que a música influenciava emocionalmente as pessoas. Hoje, dizemos que tem funções de impressão e de expressão.

IMPRESSÃO tem a ver com criar uma atmosfera propícia, que exaltar as pessoas dependendo de sua susceptibilidade ou carências momentâneas. A música de impressão é capaz de criar diferentes “climas”: alegria, paz, tristeza, majestade, etc. Embora possa vir acompanhado de texto, esse tipo de música não depende dele. Ela valoriza o som em si, seu objetivo é emocionar as pessoas, criar um ambiente místico. A música de excelência na Igreja Católica é o Canto Gregoriano, criado pelo papa Gregório Magno entre os séculos 6 e 7. Claramente, a função do canto gregoriano é de “impressão”, usando textos muito curtos em latim ou grego, que são cantados beeem lentamente. Afinal, a liturgia da missa era “mágica” e beneficiaria os presentes, quer entendessem ou não.


A música de EXPRESSÃO é elaborada intencionalmente para que ressaltar o texto, fixá-lo nas pessoas. Como as canções de Tom Jobim e dos Titãs acima! Ela é um veículo para o texto, eleva a letra e não a melodia. No ambiente religioso, talvez os Salmos ofereçam o exemplo mais excelente de música de expressão.

Ouça aqui os salmos cantados (a numeração é a grega, usada nas Bíblias Católicas. Em geral, isso representa -1 na numeração hebraica, usada pelos Protestantes)

Nas palavras do reformador João Calvino (1509-1564), “... o canto por um lado concilia dignidade e graça aos atos sacros, por outro, muito vale para incitar os ânimos ao verdadeiro zelo e ardor ao orar. Contudo, impõe-se diligentemente guardar que não estejam os ouvi dos mais atentos à melodia que a mente ao sentido espiritual das palavras...”.

Essa fala repetia Santo Agostinho, que estruturou a teologia cristã no séc. 4: “Porém quando me lembro das lágrimas derramadas ao ouvir os cânticos da vossa Igreja nos primórdios da minha conversão à fé, e ao sentir-me agora atraído, não pela música, mas pelas letras dessas melodias, cantadas em voz límpida e modulações apropriadas, reconheço, de novo, a grande utilidade desse costume... Quando, às vezes, a música me sensibiliza mais do que as letras que se cantam, confesso com dor que pequei”.

Dessa forma, a emoção e a música de impressão no culto têm seu lugar: a emoção deve passar pelo entendimento das verdades de Deus, e não ser um fim em si mesma. Portanto, uma música sacra ruim é aquela que chama demais a atenção para si (seja pelo ritmo intenso, seja pela melodia enfática), desviando a atenção da Palavra. A boa música sacra, por outro lado, abre caminho para o texto, explica e inculca-o.

Convém explicar algo mais de música. RITMO é a marcação do tempo ou a freqüência em que a ação se repete. O ritmo mexe com a velocidade com que pensamos, com a nossa excitação, podendo ser algo lento como um canto gregoriano ou rápido como uma balada de rock. Já a MELODIA é a sucessões de sons diferentes, e ela mexe com nossas emoções. Não há necessidade do Espírito Santo para fazer um auditório chorar; basta usar a melodia certa! Harmonia pode ser definida como os sons simultâneos numa música. A combinação de vozes em um coral, por exemplo, forma uma harmonia. A harmonia excita e exige do intelecto para ser decifrada, analisada. Mozart usava a harmonia como ninguém.

O detalhe é que nosso cérebro é limitado nas informações que consegue receber. Quando uma música valoriza demais o ritmo, o entendimento da letra é desligado. Por isso, o ritmo é um dos elementos mais valiosos para o desligamento das pessoas nos centros de umbanda, ioga, zen budismo, etc.. "Mantra" nada mais é do que uma pequena melodia repetida tantas vezes que se torna um ritmo. Excesso de ritmo leva as pessoas a pararem de pensar. O excesso de melodia também é ruim: as pessoas se emocionam, choram ou riem, sem que a Palavra seja sequer compreendida. Já o excesso de harmonia pode tornar uma música tão complexa que as pessoas mais simples deixam de identificá-la como música. É preciso moderar os elementos da música, se o propósito dela é servir a um culto, se é usada para fixar a Palavra.

Lutero já dizia: "eu sei que amanhã, 2ª feira, vocês vão esquecer o que eu estou falando agora no meu sermão. Mas os hinos que os faço cantar, jamais vão ser esquecidos". Por isso mesmo, toda música sacra deve passar pelo crivo da Bíblia, ou corre o risco de catequizar a igreja com baboseiras teológicas. Mas se a música for ruim, também não fixará coisa alguma. O célebre músico Johan Sebastian Bach passou 45 anos de sua vida trabalhando como músico de uma única Igreja (a Igreja de St. Thomaz, em Leipzig). Sua obra inteira foi S.D.G. (Soli Deo Gloria). Ele assinava assim. Essa era a sua finalidade; por isso ele fazia o melhor que podia, exatamente porque era para a glória de Deus. Quem dirá Antônio Vivaldi (compositor de As Quatro Estações), que era padre!

Quando falamos de música boa ou ruim, estamos apenas desejando que ela realize seu propósito SACRO. Existem músicas "de louvor" muito boas, assim como existem músicas "de hinário" que precisam ser revistas. O sacro, na verdade, aquilo que é verdadeiramente aceito por Deus, não tem nada a ver com o tipo de sons; tem a ver com o coração e lábios limpos, tem a ver com o cantante e com Deus.

E A MÚSICA SACRA MUDOU AO LONGO DO TEMPO...

Algumas pessoas argumentam que a Igreja Primitiva dirigia seus próprios cânticos, que cantar e dirigir cânticos eram coletivos, não um evento profissional dirigido por especialistas. No entanto, a Bíblia mostra que já em 1000 a.C. havia um serviço de música especializado, antes mesmo que houvesse um Templo (1ª Crônicas 16.4).

Com muitos hinos compostos por Davi e seus músicos, o livro dos Salmos é o hinário mais antigo que se conhece, usado tanto por judeus como por cristãos. Novas feições musicais foram inseridas com o aparecimento de cânticos e hinos especificamente do Cristianismo (1ª Coríntios 14.26; Efésios 5.19; Colossences 3.16).

Diderentemente dos músicos do templo, que usavam címbalos, tambores, chifres e cítaras, os 1os cristãos aparentemente não usavam instrumentos na sua adoração a Deus. Isso porque o uso de instrumentos no Velho Testamento estava associado com as ofertas e cerimônias do templo, que não aconteciam nas sinagogas após a Diáspora. Desta forma, nos dias de Jesus e dos apóstolos, o canto à capela (só com vozes) era o modo usado para se louvar a Deus. As canções usadas talvez ainda incluíssem os Salmos, mas haviam composições novas, como fica sugerido no Magnificat de Maria.

A minha alma engrandece ao Senhor,
E o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador;
Porque atentou na baixeza de sua serva;
Pois eis que desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada;
Porque me fez grandes coisas o Poderoso;
Santo é seu nome, e a sua misericórdia é de geração em geração sobre os que o temem.
Com o seu braço agiu valorosamente;
Dissipou os soberbos no pensamento de seus corações.
Depôs dos tronos os poderosos, e elevou os humildes.
Encheu de bens os famintos, e despediu vazios os ricos.
Auxiliou a Israel seu servo, recordando-se da sua misericórdia;
Como falou a nossos pais, para com Abraão e a sua posteridade, para sempre.

Quando o Cristianismo se tornou a religião ESTATAL romana, a prática do coral foi adotada do costume romano iniciar as cerimônias imperiais com música. Foram fundadas escolas especiais e os cantores do coral foram reconhecidos como “clero de segunda ordem”. Assim nasceu o cantor profissional na igreja, e cantar na adoração cristã agora estava sob o controle do clero e do coral. Para os corais, o bispo Ambrósio de Milão (339-397 d.C.) escreveu os primeiros hinos pós-apostólicos de que se tem conhecimento.

Na época de Constantino, surgiram corais infantis nos orfanatos. Era um costume pagão estendido ao Cristianismo, pois os pagãos acreditavam que as vozes dos meninos possuíam poderes especiais! No séc. 5, os cristãos passaram a usar templos e prédios (antes destinados às divindades greco-romanas) e começaram a refinar a liturgia cristã, que substituiu a simplicidade inicial por uma cerimônia formal e institucional. A melodia ganhou multivocais e contracantos. Com a dificuldade das melodias e dos arranjos, o povo foi definitivamente substituído pelos corais. Foi se tornando mero espectador, adorador passivo.

Perto do fim do século 6, o papa Gregório reorganizou a Schola Cantorum (escola de cantores) em Roma. A Schola profissionalizou cantores nos coros cristãos ao longo de todo o Império Romano. Cada cantor agora era um clérico treinado por 9 anos e tinha de memorizar todos os famosos “cânticos gregorianos”. Os “meninos cantores” entretanto persistiram, geralmente cantando em missas para a realeza. À medida que Roma Ocidental se fragmentou, o lado Oriental (ou Bizantino) aprimorou os cantos em grego. A Igreja Ocidental fundou monastérios por toda Europa, a fim de catequizar os pagãos; nesses mosteiros, o canto gregoriano manteve o latim, língua de Roma. O famoso canto “Dedit Dominus Confessionem Sancto Suo”, dos monges cistercianos franceses do séc. 12, por exemplo, consiste em repetições de “O Senhor deu sua santa confissão”, uma referência a Neemias 9.3. Ouça esse canto AQUI.

Na Idade Média, a dramaturgia e a encenação das histórias bíblicas foram usados como ferramentas de cristianização. O “2º clero” vestia roupas simbólicas; o sacerdote e o coral promoviam diálogos musicais. Isso se manteve até o século 10, as monarquias na Europa começaram a disputar territórios.

Até o século 9, o canto gregoriano ERA a música sacra. Uma música vocal em latim ou grego, com uma linha melódica apenas, ou seja, que se adaptava ao ritmo das palavras. Claro que poucos fora da igreja entendiam o latim ou o grego, mas o canto e a própria cerimônia religiosa eram considerados mágicos, ou seja, seu fim estava em simplesmente ser recitados. A música profana era semelhante, mas admitia o acompanhamento de instrumentos e danças, além de ter como tema as paixões humanas.

Pelos séculos 12 e 13, o órgão foi incorporado na Missa, como acompanhamento. Nessa época aflorou o Humanismo, que declarava o homem como centro do universo. Os humanistas davam muita importância ao ser humano e ao natural. Leonardo da Vinci e Michelangelo Buonarotti ousaram dar rostos humanos a Deus! A música deixou de seguir o ritmo das palavras para tomar um ritmo regular e certa exatidão na duração das notas, o que era necessário para sincronizar instrumentos. Mais ainda do que antes, o compositor precisava de altos conhecimentos de escrita musical. Essa época marcou uma mudança das composições anônimas (canto gregoriano) para composições autorais. Freqüentemente, cléricos eram chamados à vida na corte por sua fama como músicos.

No séc. 16, a música religiosa incluía duas formas musicais: a missa e o moteto. A missa era organizada como um ritual, contendo vários cantos como o Kyrie Eleison (Ó Senhor, tem misericórdia de nós - Salmo 51.1), o Gloria in excelsis Deo (Glória a Deus nas alturas – Lucas 2.14), o Credo in unum Deum (Creio em um só Deus), o Sanctus (Santo, Santo, Santo; Senhor Deus dos Exércitos; Céu e a Terra estão cheios da Vossa glória; Hosana nas alturas - como em Jó 37), o Benedictus (Bendito é aquele que vem em nome do Senhor; Hosana nas alturas – como Lucas 19.38) e o Agnus Dei (Cordeiro de Deus; que tirais o pecado do mundo; Tende piedade de nós; Cordeiro de Deus; que tirais o pecado do mundo; Dai-nos a paz – como João 1.29). Em meio a uma divisão dos cristãos em Católicos ou Protestantes, a missa do séc. 16 foi adotada pelas 1as igrejas Protestantes, podendo incluir recitais.

O moteto era um canto a 4, 5 ou mais vozes, construído em cima de pequenos textos, que podiam ser pequenas frases em que cada voz cantava uma palavra. No início o texto era em latim; mais tarde, passou ao o francês e outras línguas nas outras vozes. Quase não havia uma música instrumental independente do canto, pela baixa qualidade dos instrumentos.

A principal contribuição da música dos reformadores foi a restauração da música na congregação e o uso de instrumentos. João Hus (1372-1415 d.C.) da Boêmia e seus seguidores estiveram entre os primeiros a usar a música não-profissional. Lutero também encorajou o cântico congregacional, mas a música sacra Protestante só alcançou seu auge no século 18, durante o avivamento de Wesley na Inglaterra.

Entre os Protestantes, não havia consenso quanto ao uso de instrumentos. Enquanto os Puritanos (de Zwinglio) destruíam os órgãos das igrejas, os Luteranos e Calvinistas os aproveitavam ao máximo. Calvino acreditava que a música inflamava humano com zelo espiritual, podendo trabalhá-lo. O ponto central da música na igreja era primeiramente o que se cantava; a música era direcionada à congregação e devia ser simples, sem requerer treinamento ou habilidade daquele que a cantaria. Seu foco, obviamente, foi restaurar o canto dos Salmos.

Aqueles que introduzem novidades, métodos inventados de adoração a Deus, realmente cultuam e adoram a criação de suas próprias destemperadas imaginações” (Calvino).

Em algumas partes da Europa, o canto da missa simplesmente passou a ser coletivo, incluindo o Kyrie Eleison, Gloria in Excelsis, e posteriormente o Nunc Dimitris (ou Cântico de Simeão - Lucas 2.28-32). Com exceção do Kyrie, os demais foram traduzidos para as línguas populares. Sem a tradução, o Kyrie lentamente desapareceu das igrejas Protestantes. Porém, outros cantos congregacionais foram inseridos: os Dez Mandamentos (largamente utilizados), a Oração do Senhor, o Credo dos Apóstolos e outros. Contudo, os que em maior numero foram metrificados e inseridos na liturgia foram os salmos. Calvino providenciou para que eles fossem traduzidos diretamente do hebraico para o francês:

1539 - Alcuns Psalmes et Cantiques mys em chant
Talvez o 1º Hinário, de Calvino e Clement Marot, incluía 19 salmos, o Cântico de Simeão, os 10 mandamentos e o Credo dos Apóstolos.
1542 - versão com 49 salmos
1551 - 34 salmos metrificados por Theodorus Beza
1552 - versão com 83 salmos
1561 - todo o saltério

Theodorus Beza e François Gindrom também introduziram os 1os Cânticos que não eram transcrições bíblicas.

Os Saltérios sem dúvida superaram as Bíblias, em vendagem. Por ser um livro muito mais volumoso, a Bíblia usava mais papel e era um livro caro no séc. 16. Aconteceu, entretanto, que os Saltérios se transformaram em um grande negócio para os Protestantes leigos. Estavam desejosos de algo mais, que os fizesse poder abraçar com maior integralidade as doutrinas ouvidas na explanação da Palavra. Ao cantar, eles “tornavam viva” a sua fé.

No começo do séc. 17, a música instrumental (antes um acompanhamento dos vocais) ganha independência e passa a ser expressão da própria música. Tanto na música vocal como na música instrumental os compositores se empenhavam na MELODIA para que as pessoas fossem afetadas por elas.

Pelo séc.18, o órgão tomou o lugar do coro nos cultos cristãos. É interessante, mas não há qualquer evidência de instrumentos musicais na igreja cristã até a Idade Média. Após esse período, toda música durante o culto era realizada sem instrumentos. Calvino continuou esta prática. Ele acreditava na música, mas achava que os instrumentos eram pagãos. Assim, reavivaram-se os corais (inclusive nas igrejas Protestantes), de forma que havia (como na igreja Católica) uma “música especial” que a congregação simplesmente assistia.

Ao final do século 19, apareceram coros de crianças nas igrejas americanas. O local do coro é sugestivo: o coro não só voltou, com roupões eclesiásticos, mas ocupavam a frente do “público”! Na igreja Católica, o papa Pio X reagiu ao crescente laicismo e estabeleceu que a língua própria da Igreja Romana sempre seria a latina. Foi proibido cantar em língua vulgar nas cerimônias; o coro ainda devia ser composto por homens de conhecida piedade e probidade de vida (e as mulheres foram consideradas incapazes do canto sacro).

Nas igrejas contemporâneas, Católicas e Protestantes, o coro tem sido substituído pelo “grupo de louvor”. Essa “equipe de adoração” surgiu na Capela do Calvário (EUA), em 1965. Chuck Smith, o fundador da denominação, começou um ministério para “hippies e surfistas”, convidou-os a transformar sua música em uma nova música sacra. Ele deu à contracultura uma base para sua música, levando-os a fazer exibições aos domingos pela noite. A nova forma musical começou a ser chamada “louvor e adoração”.

Nas igrejas Protestantes, o edifício ainda tem poucos símbolos religiosos. A roupa dos cantores agora é normal, são usados vários instrumentos. Apenas algumas denominações usam hinários. Os cânticos são corinhos animados e positivos ricos em RITMO e MELODIA, que a congregação acompanha cantando, com palmas, balançando os corpos com as mãos levantadas e às vezes dançando. O enfoque de quase todos os cânticos é uma experiência individual, são cheios de pronomes na primeira pessoa - “eu, mim, meu”. Em algumas poucas congregações, a coletivização do louvor fez com que os fiéis passassem a compor a música, levando-a para ser ensinada aos demais. Tantos nas igrejas Protestantes como Católicas, as mulheres recentemente voltaram a compor o grupo de canto e até representam a maioria nesses grupos. Vários grupos passaram a cantar música sacra em espetáculos fora da igreja, como forma de evangelização.

HINOS BRASILEIROS

Os hinos são músicas que vêm da metrificação de trechos bíblicos ou de composições independentes. Eles levam uma mensagem congregacional, sendo ao mesmo tempo evangelizadores e instrumentos de coesão denominacional. O 1º hinário brasileiro - Psalmos & Himnos - foi organizado pelo casal Kalley, fundadores da Igreja Evangélica Fluminense, a 1ª igreja evangélica em língua portuguesa no Brasil, em 1855. Os hinos eram traduções de composições européias e logo foram adotados por várias denominações no país. Em 1891, compositores da Assembléia de Deus e da Igreja Batista do Brasil criaram um hinário destacando as doutrinas pentecostais: o Cantor Pentecostal, com 44 hinos e 10 corinhos. Em 1922 surgiria a Harpa Cristã, com 300 hinos. Mas em 1932, a Harpa Cristã já havia sido ampliada para 400 hinos! A Harpa Cristã tem sido o principal hinário brasileiro desde então, o que talvez se explique pelo fato de cada crente assembleiano ter que possuir o seu próprio exemplar do hinário.

O Cantor Cristão foi adotado pela Igreja Batista do Brasil, que o ampliou para 571 hinos em 1921. Nesse meio tempo surgiram também obras de menor impacto como o Hymnário Evangélico e a Lyra Christã. A Igreja Presbiteriana do Brasil introduziu o Novo Cântico, um manual com cerca de 400 hinos dividido por assuntos como oração, evangelização, vida cristã, reforma, advento, natal, passagem de ano, vida futura, trindade, etc.

Mais conservadores, a Igreja Evangélica Luterana do Brasil publicou no Brasil o Hinário Luterano (em alemão) em 1824. A obra trazia hinos alemães da Reforma Protestante até a Guerra dos Trinta Anos (séculos 16 e 17) e hinos dos Estados Unidos do século 19, que foram traduzidos antes do início do séc. 20. Os hinos mais antigos, ainda são adaptações de canto gregoriano, com as melodias em partitura.

ET VOCIS PODERUM LEREM SI QUISEREM
Arte e Júbilo - O fim do período de Louvor, 2010
Cantor Cristão – wikipedia
Flauzino I, Colégio Teresiano – CAP/PUC, Estudo dirigido do 2º bimestre de 2012
Harpa Cristã – wikipedia
Hinário Luterano – wikipedia
Missa Católica – wikipedia
Novo Cântico – wikipedia
Salmos e Hinos – wikipedia
Silva JH, A música na liturgia de Calvino em Genebra, Fides Reformata 7(2), 2002
Verdadeiros - A músicana na Bíblia, 2011
Zágari M, O que é boa música evangélica?, 2012

domingo, 19 de maio de 2013

Sodomia & Gomorria

Ló e sua família são retirados de Sodoma por anjos

Duas cidades se tornaram símbolos da ira divina e até hoje inspiram a imaginação das pessoas: Sodoma e Gomorra, símbolos da ira divina. Aqui vamos discutir um pouco sobre o que levou essas cidades à destruição e o que elas representavam para o Oriente Médio, na época em que existiram.

A primeira referência às cidades aparece no começo do livro de Gênesis, logo após Abraão e Ló dividirem entre si as terras vizinhas ao rio Jordão.

E aconteceu nos dias de Anrafel, rei de Sinar, Arioque, rei de Elasar, Quedorlaomer, rei de Elão, e Tidal, rei de Goim, que estes fizeram guerra a Bera, rei de Sodoma, a Birsa, rei de Gomorra, a Sinabe, rei de Admá, e a Semeber, rei de Zeboim, e ao rei de Belá (esta é Zoar). Todos estes se ajuntaram no vale de Sidim (que é o Mar Salgado).

Doze anos haviam servido a Quedorlaomer, mas ao décimo terceiro ano rebelaram-se. E ao décimo quarto ano veio Quedorlaomer, e os reis que estavam com ele, e feriram aos refains em Asterote-Carnaim, e aos zuzins em Hã, e aos emins em Savé-Quiriataim, e aos horeus no seu monte Seir, até El-Parã que está junto ao deserto. Depois tornaram e vieram a En-Mispate (que é Cades), e feriram toda a terra dos amalequitas, e também aos amorreus, que habitavam em Hazazom-Tamar.

Então saiu o rei de Sodoma, e o rei de Gomorra, e o rei de Admá, e o rei de Zeboim, e o rei de Belá (esta é Zoar), e ordenaram batalha contra eles no vale de Sidim, contra Quedorlaomer, rei de Elão, e Tidal, rei de Goim, e Anrafel, rei de Sinar, e Arioque, rei de Elasar; quatro reis contra cinco.

E o vale de Sidim estava cheio de poços de betume; e fugiram os reis de Sodoma e de Gomorra, e caíram ali; e os restantes fugiram para um monte. E tomaram todos os bens de Sodoma, e de Gomorra, e todo o seu mantimento e foram-se. Também tomaram a Ló, que habitava em Sodoma, filho do irmão de Abrão, e os seus bens, e foram-se. (Gn 14.1-12)

Trata-se de uma cena de guerra ocorrida por volta de 3000 a.C. O território ao redor do Jordão era povoado por pastores e agricultores que habitavam vilas sob o domínio ou ao redor de cidades-estado rodeadas por muralhas. Várias delas são citadas nesse trecho. Sodoma, Gomorra, Admá (ou Adamá), Zeboim e Belá (Zoar) eram as chamadas cidades da planície, uma faixa de terra muito fértil e irrigada ao redor do Mar Morto (ou também Mar Salgado). Aparentemente, as cidades-estado exerciam poder político umas sobre as outras, o suficiente para que 4 delas se rebelassem contra a principal (Elão), que também reuniu seus aliados. Como a disputa se deu nas terras de pastoreio que couberam a Ló (isto é, o leste do Jordão), ele foi feito refém dessa guerra.

Anrafael é apontado pelos arqueólogos como Amirapaltu ou também Kamu-rabi, um dos grandes reis que iniciaram a unificação da Babilônia, então repartida em muitos pequenos reinos. Outros reis na região eram Khudur-Lagamar ("servo da deusa Lagamar" ou Quedorlaomer), Eri-Aku (Arioque) e Tudkhula (Tidal). Eles já haviam conquistado os Refains, Zuzins e Emins, tidos como povos de gigantes guerreiros. Aparentemente, os reis das cidades da planície rebelaram-se contra os reis babilônicos (leia-se deixaram de pagar-lhes tributos) e estes chegaram ao Jordão para reafirmar seu poder capturando as cidades rebeldes.

Abraão aparece com um exército para afastar os babilônicos, juntando suas forças com o rei de Sodoma, provavelmente a cidade mais poderosa da planície. Temos aí o aparecimento de Melquisedeque, rei de Salém (provavelmente um aliado do oeste do Jordão), a quem o poderoso Abraão entrega o primeiro dízimo registrado na Bíblia. A passagem citando o conflito de poderes, entretanto, não dá a entender sobre os usos e costumes nas cidades da planície, onde Ló (outro líder tribal) habitava com sua família (ou clã, o que pode significar centenas de pessoas).

ONDE FICAVAM AS CIDADES

As cidades da planície eram tidas como plantadas em terreno muito fértil, que Ló preferiu para si quando repartiu as terras com Abraão.

Olhou então Ló e viu todo o vale do Jordão, todo ele bem irrigado, até Zoar; era como o jardim do SENHOR, como a terra do Egito. Isto se deu antes de o SENHOR destruir Sodoma e Gomorra. Ló escolheu todo o vale do Jordão e partiu em direção ao leste. (Gn 13.10)

A Bíblia sem dúvida dá vários indícios de onde as cidades situavam-se ao redor do Mar Morto:

[Os anjos instruem a Ló] E aconteceu que, tirando-os fora, disse: Escapa-te por tua vida; não olhes para trás de ti, e não pares em toda esta campina; escapa lá para o monte, para que não pereças. (Gn 19.17) [ou seja, Sodoma - a cidade principal do vale de Sidim - ficava na planície, perto das montanhas]

Ló partiu para as montanhas e... “Apressa-te, escapa-te para ali; porque nada poderei fazer, enquanto não tiveres ali chegado. Por isso se chamou o nome da cidade Zoar. Saiu o sol sobre a terra, quando Ló entrou em Zoar.” (Gn 19.22-23). Essa cidade existe até hoje, no sul do Mar Morto. Então Sodoma deveria estar a oeste dela. Abraão podia observar Sodoma de onde estava fixado, logo, era preciso que a cidade ficasse numa altitude bem abaixo das colinas de Samaria.

Grande parte da dificuldade em se localizar hoje os restos dessas cidades da Era do Bronze (3500-2000 a.C.) está no fato de que o relevo e o clima mudaram bastante no Oriente Médio. Alguns locais submergiram sob o mar, outros eram vales férteis e hoje são parte de desertos. Rios a que os textos se referem mudaram seu curso ou desapareceram. No caso das cidades da planície, a periferia do Mar Morto mudou bastante: o Mar Morto, localizado sobre uma falha tectônica, era bem menos baixo (~ 300 m abaixo do nível do mar) do que é hoje.

Buscando vestígios de cidades na região ao redor do Mar Morto, várias ruínas soterradas foram encontradas. Como a água do Mar Morto não serve para consumo, especula-se que as cidades da planície abasteciam-se da água de vários ribeiros com 20-50 Km de extensão (dos quais só restam os leitos secos) que desciam das colinas de Moab. As cidades-ruína encontradas foram chamadas de Bab-edh-dhra (provavelmente Sodoma), Numeira (provavelmente Gomorra), Safi, Feifa e Khanazir. Despejando sedimentos no solo rico em minerais das margens do Mar Morto, os ribeiros devem ter feito da planície um terreno muito fértil, talvez até “como o jardim do Senhor”. Numa sociedade movida pelo pastoreio e cultivo de grãos, seria equivalente as cidades da planície eram a região mais rica de Canaã. As pesquisas no local encontraram, na mesma profundidade onde estão os restos da cidade, vestígios fossilizados de cevada, trigo, uvas, figos, linho, grão de bico, ervilhas, favas e azeitonas.


Cidades ancestrais e os rios fósseis que as abasteciam

Sodoma era a maior das cidades, e se a nomeação das ruínas está correta, ela ocupava uma área de 9-10 acres (~ 40 Km², ou a área da cidade de Palmas, capital de Tocantins), cercada por muralhas de pedra com 7 m de espessura. A população devia ser de aproximadamente 1000 pessoas. No lado nordeste, foram encontrados os restos do que devia ser o portal da cidade, guardado por duas torres de vigia, que davam acesso à muralha: "E vieram os dois anjos a Sodoma à tarde, e estava Ló assentado à porta de Sodoma; e vendo-os Ló, levantou-se ao seu encontro e inclinou-se com o rosto à terra" (Gn 19.1).

O imenso cemitério entre Sodoma e Gomorra e os restos miscigenados de cerâmica no local dão a entender que era uma área comum usada pelas várias cidades para seus funerais.

COM O QUE SE PARECE A IRA DE DEUS

Então o SENHOR fez chover enxofre e fogo, do SENHOR desde os céus, sobre Sodoma e Gomorra, e destruiu aquelas cidades e toda aquela campina, e todos os moradores daquelas cidades, e o que nascia da terra. E a mulher de Ló olhou para trás e ficou convertida numa estátua de sal. Abraão levantou-se aquela mesma manhã, de madrugada, e foi para aquele lugar onde estivera diante da face do SENHOR. Olhou para Sodoma e Gomorra e para toda a terra da campina; e viu que a fumaça da terra subia, como a de uma fornalha. (Gn 19.24-28)

De fato, as escavações arqueológicas descobriram que as cidades mais ao norte da planície foram destruídas quase simultaneamente por volta de 2350 a.C., ao que parece, em um fantástico incêndio. A ira divina pode ter vindo sobre as cidades segundo o comentário de Gênesis sobre a batalha contra os babilônicos: "Ora, o vale de Sidim era cheio de poços de betume e, quando os reis de Sodoma e de Gomorra fugiram, alguns dos seus homens caíram nos poços e o restante escapou para os montes" (Gn 14.10).

O betume é uma forma “inacabada” de petróleo, e os poços de betume são conhecidos por expelir gás metano. Tanto o gás quanto o betume são muito inflamáveis, então uma"centelha divina" poderia  transformar em enorme fogueira toda aquela região. Além disso, lembrando que o vale do Jordão está sobre uma falha tectônica, a ocorrência de terremotos ali é bem comum, e existem pesquisadores que acreditam na devastação das cidades por um tremor simultaneamente com o incêndio. É possível que uma quantidade de magma tenha vindo à superfície, incendiando os poços de betume ou fazendo jorrar betume em chamas para o alto e sobre as cidades.

Hoje, as ruínas das cidades da planície “aparecem” às margens do Mar Morto, abaixo de quase 1 m de sedimentos. Com a aridez aumentando e elevação do terreno ao longo dos milênios, os ribeiros que vinham de Moab cessaram de fluir e o Mar Morto esticou suas bordas por uma área maior e também ao sul, tragando o que restou das cidades queimadas. O número considerável de esqueletos encontrados sugere que a população não deve tempo de escapar do desastre: como na famosa erupção do Vesúvio que destruiu a cidade de Pompéia, os habitantes das cidades da planície foram carbonizados junto com as cidades, enquanto Abraão observava estarrecido, do outro lado do Mar Morto, nas colinas de Hebron.

O Alcorão (~600 d.C.) traz uma versão semelhante da destruição de Sodoma, reforçando a hipótese de uma explosão vulcânica. No texto, os anjos que retiraram Ló e sua família explicam-se:

E quando se cumpriu o Nosso desígnio, reviramos a cidade nefasta e desencadeamos sobre ela uma ininterrupta chuva de pedras de argila endurecida (sura 11.82)

Então, destruímos os demais, e desencadeamos sobre eles um impetuoso torvelinho; e que péssimo foi o torvelinho para os admoestadores (que fizeram pouco caso)! (sura 26.172-173)

E desencadeamos sobre eles uma tempestade. E que péssima foi a tempestade para os admoestados! (sura 27.58)

COMO ATRAIR A IRA DIVINA

Quando Deus anuncia a Abraão que destruiria Sodoma e Gomorra, onde Ló (e seu clã) havia ido morar, Ele diz que passaria pelas cidades em pessoa para ver se o que falavam delas era verdade:

As acusações contra Sodoma e Gomorra são tantas e o seu pecado é tão grave que descerei para ver se o que eles têm feito corresponde ao que tenho ouvido. Se não, eu saberei”. (Gn 18.20)

Bem, sabemos o final dessa “inspeção divina”. O livro de Gênesis não dá evidências claras sobre o que se dava de tão terrível nas cidades da planície. No entanto, em suas visões o profeta Ezequiel cita as cidades para compará-las à Jerusalém que o Senhor também castigaria:

[Jerusalém, ] sua irmã mais velha era Samaria, que vivia ao norte de você com suas filhas; e sua irmã mais nova, que vivia ao sul com suas filhas, era Sodoma. Você não apenas andou nos caminhos delas e imitou suas práticas repugnantes, mas em todos os seus caminhos logo você se tornou mais depravada do que elas. Juro pela minha vida, palavra do Soberano Senhor, sua irmã Sodoma e as filhas dela jamais fizeram o que você e as suas filhas têm feito. Ora, este foi o pecado de sua irmã Sodoma: Ela e suas filhas eram arrogantes, tinham fartura de comida e viviam despreocupadas; não ajudavam os pobres e os necessitados. Eram altivas e cometeram práticas repugnantes diante de mim. Por isso eu me desfiz delas conforme você viu. (Ez 16.46-50)

Dessa forma, o terrível pecado das cidades parece estar ligado à falta de generosidade e arrogância. Sodoma é citada no livro judaico chamado de Mishnah (que significa estudo, revisão). Esse livro é uma versão escrita das tradições orais no tempo dos fariseus (530 a.C. - 70 d.C.). O livro foi escrito pelo rabino Yehudah haNasi por volta de 220 d.C. Nele, encontramos

Há quatro tipos entre os homens: Aquele que diz: "O que é meu é meu e o que é seu é seu" - este é o tipo mais comum, embora alguns digam que este é o tipo de Sodoma. Aquele que diz: "O que é meu é teu e o que é teu é meu" - ele é um homem ignorante. Aquele que diz: "O que é meu é teu e o que é teu é teu" - ele é um homem santo. E aquele que diz: "O que é seu é meu, e o que é meu é meu" - ele é um homem mau. (Pirkei Avot, cap. 13)

Daí, podemos mais uma vez inferir que Sodoma e Gomorra eram cidades de egoísmo abundante. Além disso, os povos semitas valorizam por demais a lei de hospedagem, isto é, a necessidade de acolher bem aos viajantes que chegam na casa de alguém. Isso aparece implicitamente por toda a Bíblia (como por exemplo em Ex 22.21), com os espias de Josué sendo acolhidos na casa de Raabe (Js 2.1), José e Maria sendo acolhidos em um estábulo, quando não encontraram lugar para pernoitar (Lc 2.7), Jesus sendo acolhido por Zaqueu (Lc 19.5) e Paulo por Judas de Damasco (Atos 9.11). O Alcorão igualmente valoriza essa prática. Por outro lado, quando os anjos apareceram a Ló na porta de Sodoma e foram acolhidos por ele, os habitantes da cidade que os viram logo organizaram uma milícia para violentar ou humilhar os visitantes, como se fazia com os vencidos numa guerra.

Os dois anjos chegaram a Sodoma ao anoitecer, e Ló estava sentado à porta da cidade. Quando os avistou, levantou-se e foi recebê-los. Prostrou-se, rosto em terra, e disse: "Meus senhores, por favor, acompanhem-me à casa do seu servo. Lá poderão lavar os pés, passar a noite e, pela manhã, seguir caminho. Não, passaremos a noite na praça", responderam. Mas ele insistiu tanto com eles que, finalmente, o acompanharam e entraram em sua casa. Ló mandou preparar-lhes uma refeição e assar pão sem fermento, e eles comeram. Ainda não tinham ido deitar-se, quando todos os homens de toda parte da cidade de Sodoma, dos mais jovens aos mais velhos, cercaram a casa. Chamaram Ló e lhe disseram: "Onde estão os homens que vieram à sua casa esta noite? Traga-os para nós aqui fora para que tenhamos relações com eles". Ló saiu da casa, fechou a porta atrás de si e lhes disse: "Não, meus amigos! Não façam essa perversidade! (Gn 19.1-7)

Ló não era natural da cidade, mas de repente teve de se confrontar com uma prática daquele povo que todos os semitas abominariam. Muitos teólogos associam aqui uma prática homossexual disseminada em Sodoma, o que certamente não parece ser o caso, dada a atitude de Ló, inconcebível nos dias de hoje:

"Não, meus amigos! Não façam essa perversidade! Olhem, tenho duas filhas que ainda são virgens. Vou trazê-las para que vocês façam com elas o que bem entenderem. Mas não façam nada a estes homens, porque se acham debaixo da proteção do meu teto". (Gn 19.7-8)

A ABOMINAÇÃO DE SODOMA

Não há dúvidas de que o extermínio das cidades da planície foi um evento genocida, ou seja, com o objetivo de destruir todo um povo com determinada característica que o Senhor achou extremamente nociva ao seu povo, que começava a crescer no lado oeste do Jordão. A destruição de Sodoma e Gomorra (e demais cidades vizinhas, com exceção de Zoar) foi o 2º evento mais destrutivo da história bíblica, perdendo apenas para o Dilúvio.

As cidades da planície ficavam em território dos Cananeus (descendentes de Canaã, neto de Noé). Os Cananeus habitaram a região entre o Mediterrâneo e o vale do Jordão de 8000 a 1000 a.C., sendo conhecidos a partir de 4000 a.C. como comerciantes de azeite, vinho, pistache, trigo e cevada. Entre os principais povos com os quais se relacionavam estavam o Egito e a Suméria, que compravam tinturas de conchas. As escavações arqueológicas na região revelaram bastante sua cultura: os deuses principais eram Baal (senhor dos montes) e Astarte (a deusa da fertilidade, conhecida como Ishtar entre outros povos). Baal era retratado como um jovem guerreiro e vingador, geralmente segurando uma lança. Astarte era descrita como uma mulher sedutora, geralmente de quadris largos e seios grandes, às vezes também uma grávida.

Os cultos de Baal eram realizados ao redor de pilares sagrados nos montes (Jz 2.13, 1Rs 11.5), com o sacrifício de animais como oferenda, a exemplo do que os hebreus faziam. No entanto, entre os restos de sacrifícios foram encontrados ossos de porcos, um animal tido como imundo pelos hebreus, e também restos de crianças. Os animais e as crianças tinham seu sangue recolhido em reentrâncias com formato e tamanho de xícaras ao redor dos pilares, e depois eram enterrados ao redor deles. Já os cultos de Astarte eram realizados em templos, onde sacerdotisas e sacerdotes separados se ofereciam à prática de relações sexuais com o objetivo de produzir a reprodução dos animais e das plantas sobre a terra. Curiosamente, o povo Cananeu originalmente adorou a Javé, constituindo um contraponto aos Sumérios na região. Com o passar do tempo, entretanto, absorveram deuses Sumérios e elaboraram suas próprias divindades pagãs (isto é, ligadas à terra).

Os Cananeus também tinham lugares de adivinhação, como os gregos. Eram basicamente cavernas com espaço para 1 ou 2 pessoas, as quais se comunicavam por orifícios na pedra com outras cavernas vizinhas ocupadas pelos sacerdotes ou adivinhos. Dessa forma, as vozes dos adivinhos pareciam vir da própria terra! Vários lugares assim foram encontrados na Grécia e também em Canaã, assim como nas bordas da planície ao redor do Mar Morto, muitas vezes com objetos rituais deixados em seu interior.

O profeta Ezequiel usa a palavra “abominação” especialmente para definir os ídolos que existiam em toda terra de Canaã. Aparentemente, esse desvio de um povo originalmente ligado aos hebreus foi o que despertou a ira do Senhor, de forma semelhante ao que aconteceria mais tarde no Êxodo, quando os hebreus passaram a cultuar o deus-boi Ápis, do Egito, fazendo-lhe um ídolo revestido de ouro (Ex 32.1-6).

O texto de Judas dá uma referência diferente ao pecado de Sodoma e Gomorra:

Mas quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto, que, havendo o Senhor salvo um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu depois os que não creram; e aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia; assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregue à fornicação como aqueles, e ido após outra carne, foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno. (Jd 1.5-7)

Aqui, Judas Tadeu, um dos apóstolos, dá a entender que grandes motivos de condenação ao inferno eram a vinda de anjos à Terra para se relacionarem com humanos (Gn 6.1-7) e a fornicação (também traduzida como prostituição) de Sodoma e Gomorra, que “foram após outra carne”. Na Bíblia, o termo “prostituição” é ligado ao ato sexual, mas também fortemente ligado à idolatria:

E sucedeu que, como Gideão faleceu, os filhos de Israel tornaram a se prostituir após os baalins; e puseram a Baal-Berite por deus. (Jz 8.33)

Quando alguém se virar para os adivinhadores e encantadores, para se prostituir com eles, eu porei a minha face contra ele, e o extirparei do meio do seu povo. (Lv 20.6)

Disse mais o SENHOR nos dias do rei Josias: Viste o que fez a rebelde Israel? Ela foi a todo o monte alto, e debaixo de toda a árvore verde, e ali andou prostituindo-se. (Jr 3.6)

O fato de “ir após outra carne” pode ter muitas interpretações, mas considerando-se as falas de Jesus, podemos entender que se trata de acreditar em homens e não em Deus, os tais “adivinhadores” que conduziam os homens e eram comuns nas cidade da planície, enfurecendo o Senhor: "Este povo se aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim. Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens. E, chamando a si a multidão, disse-lhes: Ouvi, e entendei: O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem. Então, acercando-se dele os seus discípulos, disseram-lhe: Sabes que os fariseus, ouvindo essas palavras, se escandalizaram? Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada. Deixai-os; são condutores cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova". (Mt 15.8-14)

Um dos livros apócrifos escrito por volta de 600 a.C., conhecido como livro de Jasher (ou ainda "Sepir Ha Yasher", ou ainda Sabedoria dos Justos) comenta sobre as abominações de Sodoma e Gomorra e a batalha onde os reis da cidades da planície lutaram contra os babilônicos. Nesse livro, conta-se que habitantes das cidades costumavam ir por 4 vezes ao ano para um vale com suas famílias e lá entregarem-se a relações sexuais entre eles, trocando esposas e esposos, jovens e velhos, para depois retornarem a suas casas e ocupações sociais, sem dizer uma palavra (cap. 18). Não há como negar que esse habito se parece muito com os "bacanais", rituais pagãos de fertilidade que existiram na Grécia e em Roma, realizados nos solstícios e equinócios.

O Livro de Jasher ainda conta sobre uma lei das cidades sobre dar prata aos que apareciam pedindo por comida. Então esperavam que o viajante morresse de fome, para depois pegar de volta a prata que haviam dado. Na estória, uma das filhas de Ló ilude os homens da cidade para levar pão a um faminto e acaba sendo presa e morta numa fogueira por ter ajudado o viajante (cap. 19). Essa estória também se pareia muito bem com o tratamento dado pelos homens da cidade aos viajantes (anjos) que Ló recebeu em sua casa.

Dessa forma, embora o termo “sodomia” tenha adquirido conotações sexuais ao longo da história, Sodoma e Gomorra parecem ter sido aniquiladas devido a violações explícitas do código hebreu sobre o qual haviam surgido, tanto por sua adoração a deuses pagãos como por sacrifícios de inocentes e o enaltecimento do egoísmo como se fosse uma virtude.

O PARENTESCO COM OS HEBREUS

Esse é exatamente o ponto que coloca o genocídio das cidades como uma eliminação daquilo que poderia se propagar ao povo de Abraão, no lado oeste do Jordão. Por volta de 2350 a.C. A dinastia dos reis nas cidades da planície era aparentada com os hebreus. A aceitação de Ló e seu clã em Sodoma mostra exatamente isso: se era lei matar de fome os estrangeiros ou quem os ajudasse, como Ló se estabeleceu facilmente lá, vindo dentre os Caldeus junto com Abraão?

Também, quando o Senhor revela a Abraão o seu plano para destruir as cidades, Abraão começa uma espécie de “pechincha” para convencer o Senhor a não realizar Seu intento.

Destruirás também o justo com o ímpio? Se porventura houver cinqüenta justos na cidade, destruirás também, e não pouparás o lugar por causa dos cinqüenta justos que estão dentro dela? Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra? Então disse o SENHOR: Se eu em Sodoma achar cinqüenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles. E respondeu Abraão dizendo: Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor, ainda que sou pó e cinza. Se porventura de cinqüenta justos faltarem cinco, destruirás por aqueles cinco toda a cidade? E disse: Não a destruirei, se eu achar ali quarenta e cinco. E continuou ainda a falar-lhe, e disse: Se porventura se acharem ali quarenta? E disse: Não o farei por amor dos quarenta. Disse mais: Ora, não se ire o Senhor, se eu ainda falar: Se porventura se acharem ali trinta? E disse: Não o farei se achar ali trinta. E disse: Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor: Se porventura se acharem ali vinte? E disse: Não a destruirei por amor dos vinte. Disse mais: Ora, não se ire o Senhor, que ainda só mais esta vez falo: Se porventura se acharem ali dez? E disse: Não a destruirei por amor dos dez. E retirou-se o SENHOR, quando acabou de falar a Abraão; e Abraão tornou ao seu lugar. (Gn 18.23-33)

O que se segue é justamente um par de anjos chegando a Sodoma para retirar de lá a Ló, sua esposa e as duas filhas. Abraão conseguiu salvar os justos, mas não impediu que as cidades fossem destruídas. O sofrimento de Abraão e seu esforço pelas cidades, em mais de uma ocasião, novamente reforça quanto os hebreus no oeste do Jordão eram ligados aos Cananeus do outro lado. Essa ligação, da mesma forma que havia possibilitado a Ló se estabelecer em Sodoma, muitas vezes permitiu que os Cananeus e até os Moabitas levassem seus costumes (e principalmente seu culto pagão) para o povo hebreu. Mesmo depois da destruição das cidades, não faltaram profetas falando contra os cultos dos “altos” (ou postes-ídolos) e de Baal entre os hebreus.

Se era abominável ao Senhor ver esses cultos vindo ao Seu povo a partir dos estrangeiros, quanto mais seria de outros hebreus?

Quando o Altíssimo distribuía as heranças às nações, quando dividia os filhos de Adão uns dos outros, estabeleceu os termos dos povos, conforme o número dos filhos de Israel. Porque a porção do SENHOR é o seu povo; Jacó é a parte da sua herança. Achou-o numa terra deserta, e num ermo solitário cheio de uivos; cercou-o, instruiu-o, e guardou-o como a menina do seu olho. … Ele o fez cavalgar sobre as alturas da terra, e comer os frutos do campo, e o fez chupar mel da rocha e azeite da dura pederneira. Manteiga de vacas, e leite de ovelhas, com a gordura dos cordeiros e dos carneiros que pastam em Basã, e dos bodes, com o mais escolhido trigo; e bebeste o sangue das uvas, o vinho puro. … 

E, engordando-se Jesurum, deu coices (engordaste-te, engrossaste-te, e de gordura te cobriste) e deixou a Deus, que o fez, e desprezou a Rocha da sua salvação. Com deuses estranhos o provocaram a zelos; com abominações o irritaram. Sacrifícios ofereceram aos demônios, não a Deus; aos deuses que não conheceram, novos deuses que vieram há pouco, aos quais não temeram vossos pais. … Porque a sua vinha é a vinha de Sodoma e dos campos de Gomorra; as suas uvas são uvas venenosas, cachos amargos têm. … Esconderei o meu rosto deles, verei qual será o seu fim; porque são geração perversa, filhos em quem não há lealdade. ... Porque um fogo se acendeu na minha ira, e arderá até ao mais profundo do inferno, e consumirá a terra com a sua colheita, e abrasará os fundamentos dos montes. Males amontoarei sobre eles; as minhas setas esgotarei contra eles. (Dt 32)

VAI LÊ TAMÉM, Ó...

terça-feira, 23 de abril de 2013

O QUE DEUS FAZIA ANTES DE NOÉ - A DESCENDÊNCIA DE ADÃO

Após cuidar de Adão e Eva no jardim que chamou de Éden, Deus baniu de lá o 1º casal, que passou a gerar descendência sobre a terra, povoando-a. Fora do jardim, contudo, o Senhor não se afastou deles. A última fala de Deus à família dos patriarcas se dá justamente quando Caim o enfureceu, depois chorando porque seria morto por quem o encontrasse. Deus o protegeu com um sinal e ele afastou-se de onde fosse visto:

O SENHOR, porém, disse-lhe: "Portanto qualquer que matar a Caim, sete vezes será castigado". E pôs o SENHOR um sinal em Caim, para que o não ferisse qualquer que o achasse. E saiu Caim de diante da face do SENHOR, e habitou na terra de Node, do lado oriental do Éden. (Gn 4.15-16)

Segundo a Bíblia, não menos de 1500 anos se passaram desde que Deus falou a Caim (entre 9000 e 7600 a.C.), até que Ele novamente se manifestou a Noé:

Então disse Deus a Noé: "O fim de toda a carne é vindo perante a minha face; porque a terra está cheia de violência; e eis que os desfarei com a terra. Faze para ti uma arca da madeira ... " (Gn 6.13-14)

Primeiro, é necessário dizer que os livros do Pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) dão fortes indícios de terem sido escritos por uma única pessoa, que provavelmente foi Moisés (~ 1600 a.C.). Nesse caso, ele relatou no Gênesis eventos que devem ter ocorrido por volta de 8000 a.C., ou seja, 64 séculos antes. Muito disso estava na tradição oral dos judeus, como longas histórias sobre a sua descendência e figuras do passado, além do que Moisés pode ter contado efetivamente com a ajuda divina nessa tarefa de escrever o que as pessoas lembravam. O fato de ele não ter escrito detalhadamente sobre a vida de muitos revela tão somente que Moisés sabia pouco sobre eles, não que tenham tido vidas curtas (e os únicos dados que ele deu de alguns foi o seu tempo de vida excepcionalmente grande) ou tenham sido pessoas pouco importantes. Muito menos que Deus tenha se esquecido deles!

Não se vendem dois passarinhos por um ceitil? e nenhum deles cairá em terra sem a vontade de vosso Pai. E até mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois; mais valeis vós do que muitos passarinhos. (Mt 10.29-31; Lc 12.7)

Nessa passagem, Jesus conta que Deus se preocupa mesmo com os pequenos e desprezados. Não cuidaria de todos nós? Não cuidaria das 24 gerações entre Adão e Moisés? Mesmo que o patriarca escritor não tenha se lembrado deles, ou não tivesse de onde tirar informações sobre eles, foram 24 famílias sobre a Terra construindo o povo que deus chamaria de Seu. Assim, alguns deles tiveram detalhes sobre a sua vida registrados por Moisés, outros simplesmente não. Por exemplo, a Bíblia não cita os nomes das mulheres nos casais, embora alguns livros apócrifos mais antigos falem sobre isso. Também, o livro de Gênesis sempre comenta que os patriarcas tiveram muitos filhos e filhas, mas somente nomeia um deles, que provavelmente havia se tornado o líder tribal. Dessa forma, o que o Gênesis oferece não é uma genealogia como a entendemos (com primos, tios, etc), e sim uma “dinastia” de chefes tribais. É uma viagem à mais remota antigüidade humana, em uma terra (e literalmente com esse nome) onde as pessoas estavam começando a habitar, sem instrumentos, armas, ferramentas ou quaisquer utensílios que não os feitos pelas suas próprias mãos a partir dos recursos naturais, e cujos registros que restaram não falam ainda das pessoas como um todo, mas apenas dos líderes que Deus proveu para comandá-los.

SETE ou SETH

Era por volta do ano 7400 a.C., iniciando o período que a história conhece como Neolítico, uma época de sociedades tribais cuja principal tecnologia consistia no uso de madeira e pedras. O filho tardio de Adão e Eva foi concebido depois da fuga de Caim, quando Adão já somava cerca de 130 anos (ele viveu até os 930 anos, ou 930 A.M., de Anno Mundi):

E tornou Adão a conhecer a sua mulher; e ela deu à luz um filho, e chamou o seu nome Sete; porque, disse ela, “Deus me deu outro filho em lugar de Abel; porquanto Caim o matou”. (Gn 4.25)

Uma vez que a linhagem de Caim foi destruída, a Bíblia considera Sete o herdeiro da linhagem de Adão até os últimos dias. Algumas versões trazem “Deus plantou uma nova semente”, que é um trocadilho com o nome de Sete, palavra que significa “plantar” algo na terra. Talvez fosse mesmo uma referência ao começo da agricultura entre os homens.

No apócrifo chamado Livro dos Jubileus, Sete casa-se em 231 A.M. com Azura, sua irmã 5 anos mais velha. Desse casamento Deus proveria o nascimento de Enos.

A semente plantada por Deus foi boa - Sete viveu até os 912 anos. Os muçulmanos acreditam que a tumba de Sete está preservada até hoje em Al-Nabi Shayth (que significa O Profeta Sete), no Líbano. Em seu livro “Antiguidades”, o historiador romano Josephus fala sobre monumentos deixados por Sete; entretanto, os historiadores posteriores desqualificam cada um deles, concluindo que qualquer resquício de antes do dilúvio tenha sido soterrado.

ENOS

Nessa 3ª geração desde Adão, nasceu aquele que o nome significa “homem mortal”, mesmo que ele tenha vivido não menos que 905 anos.

Há bem pouca informação sobre esse descendente de Adão (que continuou vivo para assistir muitas gerações suas). Sete tinha 105 anos quando Enos nasceu. Na Bíblia, após o nascimento de Enos “então se começou a invocar o nome do SENHOR” (Gn 4.26). Isso significa que houve um reavivamento espiritual ou que os homens começaram a dividir-se segundo os que criam no Senhor e os que veneravam outros deuses ou ídolos (Gn 31.19). De fato, a palavra hebraica para “começar” aqui é “huchal”, que pode significar “profanar”.

No Livro dos Jubileus, Enos casou-se com sua irmã No'am e deles Deus proveu o nascimento de Cainã em 325 A.M., quando Enos chegava aos 95 anos.

QUENAN ou CAINÃ

A 4ª geração desde Adão começa em 7260 a.C. (325 A.M.), com um curioso personagem de nome significando “artífice” ou “artesão”. Mais tarde, esse nome seria usado principalmente pelas pessoas que moldavam ferro (ex. blacksmith, em inglês). Mas não havia ainda o manejo do ferro... isso requer certa tecnologia com minerais, fornos e ferramentas que só apareceria por volta de 1300 a.C. Mesmo a fundição de bronze ainda estava longe, e só aconteceria lá por 3500 a.C. Então, talvez o nome do ancestral bíblico se referisse a uma ocupação na fabricação de utensílios com qualquer outro material, peles, madeiras, etc.

A linhagem de Adão era de homens excepcionalmente longevos, característica provida por Deus: Cainã teria vivido também até os 910 anos. De acordo com o Livro dos Jubileus, ele seguiu o costume e casou-se com sua irmã Mualeleth. Desse casal nasceu Maalael, concebido aos 70 anos do patriarca.

MAALAEL

A cidade mais antiga que se conhece é Ugarit, no extremo noroeste da Síria, junto ao Mediterrâneo. A cidade foi fundada em cerca de 6000 a.C. por navegantes egípcios, provavelmente. Entre o pouco que restou de Ugarit, está uma placa de pedra que fala sobre o culto ao pai celestial El, figura que representava uma espécie de patriarca dos povos nômades e - admire-se - era identificado como “o leão”, ou “senhor dos leões”. A semelhança com o nome “El-Shadday” não é coincidência, se lembrarmos que Abraão era originário do povo cananeu e, portanto, da terra que hoje chamamos de Síria.

Com Maalael, vemos pela primeira vez a inclusão do sufixo -el no nome, como em Isra-el, lembrando também a vinculação ao Pai celestial. Essa ligação do líder tribal ao Senhor indica que por volta de 7200 a.C. havia um culto (ao Senhor) entre o povo e o patriarca era visto como uma espécie de sacerdote. Uma vez que a Bíblia descreve cuidadosamente a dinastia dos líderes, é de supor-se que esses patriarcas não permaneciam como líderes até a morte (quase todos morreram bem próximo ao Grande Dilúvio em ~6000 a.C.), mas eram substituídos por seus filhos talvez perto dos 70 anos, quando se casavam.

Segundo a Bíblia, Maalael viveu 895 anos, compartilhando então a velhice com todos os seus antecessores, incluindo o próprio Adão. O Livro dos Jubileus acrescenta que ele deposou a prima Diná, de quem nasceu seu sucessor Jared, quando tinha 65 anos. Em outro livro apócrifo, foi na casa de Maalael que Enoque (seu neto) recebeu a visão do apocalipse, a qual foi interpretada por Maalael (Enoque 83.6).

JAREDE

A 6ª geração de Adão começou quando a humanidade contava 460 anos, segundo o relato bíblico. Como seus antecessores, Jarede viveu seus 962 anos, casando-se então com Beraka (segundo o Livro dos Jubileus), de quem nasceria o profeta Enoque, quando ele tinha 162 anos (pode se tratar então de um filho homem sobrevivente, ou talvez um nascido após muitas filhas).

Seu nome significa “descendente” pois, segundo Enoque, quando ele nasceu os anjos vieram ao monte Hermon para unirem-se às filhas dos homens.

Viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram. … Havia naqueles dias gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens e delas geraram filhos; estes eram os valentes que houve na antiguidade, os homens de fama. (Gn 6.2-4)

Naqueles dias, quando os filhos dos homens se multiplicaram, aconteceu que lhes nasceram filhas muito belas. E os anjos, os filhos do céu, viram-nas e desejaram-nas, e eles disseram uns aos outros "Venham, vamos escolher esposas para nós entre as filhas dos homens, para nos gerarem filhos". Semyaz, sendo seu líder, disse-lhes: "Eu temo que talvez vocês não vão consentir que este ato seja feito, e só me tornarei responsável por este grande pecado". Mas todos eles responderam-lhe: "Vamos todos fazer um juramento que ligue todos entre nós por uma maldição a não abandonarmos este propósito". Então, todos eles juraram juntos e ligaram-se um ao outro pela maldição. E eles eram duzentos ao todo, e desceram para Ardos, que é o ápice da montanha de Hermon. E eles chamavam o monte Armon, porque ali juraram e amarraram um ao outro por uma maldição. E os seus nomes são os seguintes: Semyaz, o líder do Arakeb, Rame'el, Tam'el, Ram'el, Dan'el, Ezeqel, Baraqyal, As'el, Armaros, Batar'el , Anan'el, Zaqe'el, Sasomaspwe'el, Kestar'el, Tur'el, Yamayol e Arazyal. Estes são seus chefes de dezenas e de todos os outros com eles (Enoque 6)

Na Bíblia, a união dos anjos com as filhas dos homens resultou em Deus decidindo que a vida humana duraria apenas 120 anos.

Então disse o SENHOR: Não contenderá o meu Espírito para sempre com o homem; porque ele também é carne; porém os seus dias serão cento e vinte anos. (Gn 6.3)

No entanto, muitas gerações super-longevas ainda passariam antes que isso acontecesse. Até a geração de José, senhor do Egito (por volta de 5800 a.C.), nenhum patriarca viveu menos de 120 anos.

ENOQUE

Apontado como profeta, Enoque foi o patriarca que menos tempo viveu, chegando apenas aos 365 anos. No entanto, o final de sua vida foi diverso da de todos os demais.

E viveu Enoque sessenta e cinco anos, e gerou a Matusalém. E andou Enoque com Deus, depois que gerou a Matusalém, trezentos anos, e gerou filhos e filhas. E foram todos os dias de Enoque trezentos e sessenta e cinco anos. E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou. (Gn 5.21-24)

Diversas interpretações foram dadas ao texto, porém a palavra para “tomou” nas primeiras traduções gregas do hebraico original levam “metatithemi” (μετατίθημι), que literalmente é “levar de um lugar para outro”. Essa visão é reafirmada na Carta aos Hebreus:

Pela fé Enoque foi transladado para não ver a morte, e não foi achado, porque Deus o transladara; visto como antes da sua trasladação alcançou testemunho de que agradara a Deus. (Hb 11.5)

Em outras palavras, a vida breve de Enoque se deve a uma glorificação e tomada dele para os Céus por volta de 6600 a.C., como se deu com Elias. Essa glorificação de Enoque fez dele uma figura principal do misticismo judaico no 1º milénio a.C., pois acreditava-se que Enoque tivesse tido acesso ainda em vida a conhecimentos dos anjos. Boa parte desse credo paralelo foi registrado no Livro de Enoque ou simplesmente 1º Livro de Enoque, onde Enoque recebe diversas visões sobre o Paraíso, o mundo espiritual e o Apocalipse. O Livro de Enoque era amplamente difundido entre os judeus, e prova disso é a citação de uma passagem sua por Judas Tadeu:

E destes [os que proclamam doutrinas sobre o que não conhecem] profetizou também Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos; para fazer juízo contra todos e condenar dentre eles todos os ímpios, por todas as suas obras de impiedade, que impiamente cometeram, e por todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra ele. (Jd 1.14-15)

Segundo o Livro dos Jubileus, a esposa de Enoque chamava-se Edna. Talvez grande parte da lenda ao redor de Enoque venha da confusão com um Enoque anterior, o filho de Caim:

E conheceu Caim a sua mulher, e ela concebeu, e deu à luz a Enoque; e ele edificou uma cidade, e chamou o nome da cidade conforme o nome de seu filho Enoque; e a Enoque nasceu Irade, e Irade gerou a Meujael, e Meujael gerou a Metusael e Metusael gerou a Lameque. E tomou Lameque para si duas mulheres; o nome de uma era Ada, e o nome da outra, Zilá. E Ada deu à luz a Jabal; este foi o pai dos que habitam em tendas e têm gado. E o nome do seu irmão era Jubal; este foi o pai de todos os que tocam harpa e órgão. E Zilá também deu à luz a Tubalcaim, mestre de toda a obra de cobre e ferro; e a irmã de Tubalcaim foi Noema. (Gn 4.17-22)

Alguns estudiosos vêem na linhagem de Caim uma mensagem embutida, pois a Bíblia primeiro fala da fuga dele para o Oriente e depois repentinamente sua linhagem surge, mais ou menos sem explicação. Os nomes dos personagens são sugestivos: Lameque é “servo de Deus”; Ada é “poente”; Zilá é “sombra”; Jabal é “pastor”; Jubal é “músico”; Tubalcaim é “ferreiro” e Noema é “beleza”. Assim, a passagem poderia ser “O servo de Deus tomou duas esposas, a luz e a escuridão. A luz trouxe o pastor, que era o pai dos moradores das tendas, e pastores, e seu irmão era o músico, que era o pai dos harpistas e gaiteiros. Mas a escuridão trouxe o ferreiro, mestre do bronze e do ferro, e sua irmã era o prazer.

No ano de 7000 a.C., isso sugere uma mudança tecnológica drástica na vida das pessoas, que trocavam a vida nos campos pelas cidades.

MATUSALÉM

Chegamos ao ano 6780 a.C. com a 8ª geração desde Adão, para encontrar o homem que mais viveu na história da humanidade, segundo a Bíblia. Matusalém nasceu quando Adão e todos os patriarcas anteriores ainda eram vivos (e Adão contava apenas 687 anos), porém sua vida se estendeu para além da morte de todos eles. Curiosamente todas essa geração morreu por volta de 7000 a.C., mas Matusalém permaneceu vivo até 6000 a.C., época do Grande Dilúvio. Ele ultrapassou inclusive a morte de seu herdeiro, nascido quando Matusalém tinha 187 anos.

Pela segunda vez, um patriarca gerou seu herdeiro em idade muito além dos 70 anos, o que pode indicar a morte prematura de outros herdeiros ou uma sucessão de mulheres. Matusalém significa “homem com lança”, o que sugere uma época de conflitos e favorece justamente a 1ª hipótese. No livro dos Jubileus, sua esposa tinha o mesmo nome de sua mãe, o que talvez indicasse um nome de família real, como Cleópatra.

Placas de argila encontradas na cidade suméria de Shuruppak (~3000 a.C.) falam do Grande Dilúvio e um grande rei (Ubaratutu), filho de um profeta, que teria vivido desde os tempos longínquos até aquela data.

LAMEQUE

A 9ª geração encontra Matusalém gerando seu sucessor Lameque aos 187 anos. Esse nome entretanto não aparece uma única vez na Bíblia, assim como Enoque. O Lameque filho de Caim lembra sua maldição:

E disse Lameque a suas mulheres Ada e Zilá: Ouvi a minha voz; vós, mulheres de Lameque, escutai as minhas palavras; porque eu matei um homem por me ferir, e um jovem por me pisar. Porque sete vezes Caim será castigado; mas Lameque setenta vezes sete. (Gn 4.23-24)

A linhagem de Caim extinguiu-se com a grande inundação que houve nas terras da Ásia Menor. O filho de Matusalém nasceu em 7100 a.C., bem distante da linhagem de Caim (mas também chamando-se “servo do Senhor”, o que sinaliza outra vez a função do patriarca como sacerdote) e viveria ainda até os 777 anos. Com 182 anos ele geraria Noé, mais uma vez provavelmente o restante de vários herdeiros anteriores.

Lameque foi o primeiro a assistir a morte dos patriarcas: até os seus 100 anos de idade, ele viu morrerem todas as gerações anteriores (sinal do final dos tempo?) com excessão única de seu pai, que viveria ainda depois da sua morte. Segundo a Bíblia, somente a dinastia de Noé (seu filho) sobreviveu ao Dilúvio.

NOÉ

E viveu Lameque 182 anos, e gerou um filho, a quem chamou Noé, dizendo: Este nos consolará acerca de nossas obras e do trabalho de nossas mãos, por causa da terra que o SENHOR amaldiçoou. (Gn 5.28-30)

Assim começa a 10ª geração, a última antes do Dilúvio. A Bíblia enfatiza que apenas Noé, de toda a sua geração, foi capaz de agradar ao Senhor. Novamente, isso talvez o colocasse como uma espécie de sacerdote.

E viu o SENHOR que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente. Então arrependeu-se o SENHOR de haver feito o homem sobre a terra e pesou-lhe em seu coração. E disse o SENHOR: Destruirei o homem que criei de sobre a face da terra, desde o homem até ao animal, até ao réptil, e até à ave dos céus; porque me arrependo de os haver feito. Noé, porém, achou graça aos olhos do SENHOR. (Gn 6.5-8)

A terra, porém, estava corrompida diante da face de Deus; e encheu-se a terra de violência. E viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque toda a carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra. (Gn 6:11-12)

Os antecessores de Noé não foram destruídos pelo Dilúvio, mas de alguma forma o Senhor esperou que eles morressem pela própria idade, e o mesmo se deu com até com Matusalém. Como se nenhum dos patriarcas devesse ver a destruição da terra... Na Bíblia, o plano de destruição da aparece logo após os anjos unirem às filhas dos homens e, mesmo que a ordem cronológica aí não seja clara, parece que isso deixou Deus furioso. De fato, quase tudo desde Caim até Noé parece simplesmente uma descrição de dinastia, uma série de líderes artesãos, guerreiros, etc, e sem dúvida sacerdotes do Senhor. Não se tratava da descendência de Caim, mas de Sete... Por isso, quando Deus resolveu destruir a tudo que tinha criado, aquilo que tanto o havia agradado no Início, Ele simplesmente esperou que os patriarcas morressem de velhos. Então a quem Deus desejava destruir?

A Bíblia quase não dá indícios de onde estaria o mal a que o texto se refere. No entanto, parece que ele não estava nos descendentes de Sete. Tudo o que sabemos é que, após um “silêncio” de mais de 1500 anos, o Senhor voltou a falar a Noé, para instruí-lo em 6000 a.C. sobre a construção da arca que salvaria sua família. Ele não esteve tão quieto quanto nos possa parecer, mas sem dúvida esteve sendo o Senhor que todos poderiam esperar: tolerante e cuidador. Pelo menos com os que que o seguiram...

SE DUVIDA VAI LER LÁ Ó
A linhagem de Adão (em Anno Mundi)