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segunda-feira, 7 de setembro de 2020

As duas torres

Vista aérea das ruínas da igreja Bizantina no Monte Gerizim e os ornamentos do seu assoalho, ainda visíveis. Ao lado, Mapa de Canaã mostrando o Templo de Jerusalém em vermelho e o Templo de Gerizim em azul.



Deuteronômio 11

29. Quando o Senhor, vosso Deus, te tiver introduzido na terra que vais possuir, pronunciarás a bênção sobre o monte Gerizim, e a maldição sobre o monte Ebal. 30. Essas montanhas encontram-se além do Jordão, do outro lado do caminho do ocidente, na terra dos cananeus que habitam nas planícies defronte de Gálgala, perto dos carvalhos de Moré. [no livro dos Samaritanos, aqui lê-se "perto de Siquém"]


Deuteronômio 27

11. No mesmo dia, Moisés ordenou ao povo o seguinte: 12. Quando tiverdes passado o Jordão, estarão sobre o monte Gerizim para abençoarem o povo: Simeão, Levi, Judá, Issacar, José e Benjamim; 13. e sobre o monte Ebal, para amaldiçoar: Rúben, Gad, Aser, Zebulom, Dã e Neftali. 14. E os levitas tomarão a palavra e dirão em alta voz a todos os homens de Israel.


Josué 8

33. Todo o Israel, seus anciãos, seus oficiais e seus juízes conservaram-se de pé ao redor da arca, diante dos sacerdotes, dos levitas, que levavam a arca da aliança do Senhor. Ali estavam tanto os estrangeiros como os israelitas, metade deles do lado do monte Gerizim, e metade do lado do monte Ebal, segundo a ordem antes dada por Moisés, servo do Senhor, para abençoar o povo de Israel. 34. Depois disso, Josué leu todo o texto da lei, a bênção e a maldição, assim como estão escritas no livro da lei.


Desde a suposta ocupação de Canaã pelos Hebreus retornando do Egito, começou um processo de sacralização de diversas montanhas. Uma delas é o monte Moriah, onde Abraão teria subido para sacrificar seu filho Isaac por volta de 2000 a.C. A posição do Monte Moriah na geografia, entretanto, já era confusa para os Hebreus. Os Judeus o identificaram com a montanha escolhida para construir, em seu topo, o Templo de Salomão, no séc. 10 a.C. O Templo era uma representação da incrível prosperidade que Israel alcançou nessa época, contando com muito ouro, madeiras valiosas, marfins e tecidos caros. Em 616 d.C., após o cerco de Jerusalém pelas tropas do rei babilônio Nabucodonosor II, o Templo foi saqueado e incendiado. A maior parte da população de Judá foi levada cativa.


Em 538 d.C. os Judeus foram repatriados por Ciro o Persa. Em seu retorno, encontraram as terras ocupadas por Samaritanos, que se opuseram à volta dos Judeus. Mediante o decreto do rei, entretanto, os Samaritanos se ofereceram para ajudar a reconstruir o Templo. Com prerrogativas de pureza, os Judeus repeliram a participação dos Samaritanos.


NEGÓCIOS DE FAMÍLIA


Neemias 13

23. Naqueles dias, encontrei Judeus que haviam desposado mulheres de Azot, de Amon e de Moab. ... 28. Ora, um dos filhos de Joiada, filho do sumo sacerdote Eliasib, tornara-se genro de Sanballat, o horonita; expulsei-o para longe de mim.


O relato bíblico termina dessa maneira sobre a mistura de linhagens entre um membro da nobreza sacerdotal empenhada em reconstruir o Templo e o povo local, que ficou em Israel. O historiador Flavius Josephus, escrevendo sobre os Judeus no séc. 1, entretanto, adicionou uma continuidade desse caso.


"Quando Eliasib, o sumo sacerdote, morreu, seu filho Judas foi bem-sucedido no sumo sacerdócio; e quando ele morreu, seu filho João assumiu essa dignidade; ... 2. Agora, quando João partiu desta vida, seu filho Jaddua foi bem-sucedido no sumo sacerdócio. Ele tinha um irmão, cujo nome era Manassés. Ora, havia um Sanballat, enviado por Dario, o último rei da Pérsia, em Samaria. Ele era um Cutheam de nascimento (Samaritano). Este homem ... deu voluntariamente sua filha, cujo nome era Nicaso, em casamento a Manassés, pensando que essa aliança seria uma garantia de que a nação dos Judeus continuaria sua boa vontade com ele. ... Mas os anciãos de Jerusalém, muito preocupados que o irmão de Jaddua, o sumo sacerdote, casado com uma estrangeira, fosse um parceiro dele no sumo sacerdócio, discutiram com ele ... então eles ordenaram a Manassés que se divorciasse de sua esposa, ou não se aproximasse do altar. O próprio sumo sacerdote juntou-se ao povo em sua indignação contra seu irmão, e afastando-o do altar. Em seguida, Manassés foi até seu sogro, Sanballat, e disse-lhe que, embora amasse sua filha Nicaso, ele não estava disposto a ser privado de sua dignidade sacerdotal por causa dela ... E então Samballat prometeu-lhe não apenas preservar para ele a honra de seu sacerdócio, mas também obter para ele o poder e a dignidade de um sumo sacerdote, e o tornaria governador de todos os lugares que ele agora governava, se ele mantivesse seu filha como esposa. Disse-lhe também que iria construir para ele um templo como o de Jerusalém, no monte Gerizim, que é o mais alto de todos os montes de Samaria; e ele prometeu que faria isso com a aprovação do rei Dario. ... Sanballat deu-lhes dinheiro e dividiu entre eles terra para cultivo e também habitações, e tudo isso para agradar a seu genro de todas as maneiras." (Flavius Josephus, Antiguidades dos Judeus, livro XI)


Segundo Josephus, a disputa entre Samaritanos e Judeus no retorno da Babilônia teria fragmentado a classe sacerdotal dos Judeus, originando um outro Templo no monte Gerizim. Essa montanha é onde os Samaritanos dizem ser Moriah, e onde de fato houve um clone do 2º Templo, construído na era dos Persas.


O TEMPLO DE GERIZIM


Juízes 9

7. Sabendo disso, subiu Joatão ao cimo do monte Gerizim e exclamou: Ouvi-me, homens de Siquém, para que Deus vos ouça! 8. As árvores resolveram um dia eleger um rei para governá-las e disseram à oliveira: reina sobre nós!


Siquém era uma antiga capital religiosa dos Cananeus, próxima de Samaria, a capital do território Samaritano, antes alocado para a tribo de Efraim. A cidade ficava num vale entre as duas montanhas, Gerizim e Ebal. O território é alto e rochoso, uns 400 m de altitude sem rios próximos, e cada uma das montanhas sobe outros 500 m, ficando cobertas de neve no inverno. Nos textos antigos, tal local era assinalado como rico em grandes carvalhos.


Josephus fazia grandes erros de datas em seus escritos, por isso não sabemos se o Sanballat mencionado por ele é o mesmo do tempo de Esdras e Neemias, mas tudo indica que sim. As ruínas encontradas no topo do monte Gerizim indicam um Templo com mesma estrutura, mesma função e compartilhando até peças artesanais com o de Jerusalém. Por exemplo, as escavações no local encontraram um topo de coluna esculpido com a árvore da vida, o que era um entalhe Fenício bem típico da era Persa. As descrições de autores antigos que viram o Templo de Salomão elogiavam justamente uma peça assim em sua entrada.


Foram encontrados os restos de grandes cisternas ou piscinas, como também havia em Jerusalém. Em Gerizim, no entanto, pode-se pensar em reservatórios para água da chuva. E havia também grandes depósitos de ossos de animais queimados (sobretudo carneiros e bodes, mas também vacas e pombas). Era um local para sacrifícios, e sabemos que os Judeus encerraram os sacrifícios a YHWH por ocasião da destruição do Templo de Jerusalém. As inscrições sobre votos e agradecimentos nas pedras também não deixam dúvida sobre a divindade YHWH cultuada ali. Até o altar estava alinhado com os pontos cardeais na mesma posição de Jerusalém.


É curioso que em nenhum ponto da Torá Judaica, de onde vem o nosso VT, há referências a um Templo em Gerizim. Muito pelo contrário, os Samaritanos são desdenhados no texto hebraico, com Sanballat de Hawara/Horon (aprox. 450 d.C.) retratado como o grande rival do governador Neemias. Tudo isso faz pensar em um Templo rival, que por séculos foi um centro de culto em Samaria. Esse Templo era rival mesmo na sua significação, pois os Samaritanos viam Gerizim como o Monte Moriah de Abraão e Siquém como o local de fixação de Josué, durante a conquista de Canaã. Mas as conexões com Jerusalém não terminam aí...


Uzzi é um nome que aparece nos textos Samaritanos. Trata-se de um ancestral do sacerdote Esdras, enviado de Babilônia para reconstruir o Templo de Jerusalém, da mesma família que guardava o Templo desde os tempos de Salomão. Os textos Samaritanos diziam que quando Uzzi morreu, a chama eterna do Templo foi extinta (provavelmente pela chegada de Nabucodonosor II) e os vasos onde ela queimava foram escondidos nas cavernas de Gerizim, à espera do Messias no fim dos tempos.


Neemias 13

10. Soube também que as dádivas devidas aos levitas não lhes tinham sido entregues, e que os levitas e os cantores encarregados do serviço tinham se retirado cada um para as suas terras. 11. Censurei os magistrados e disse-lhes: Por que foi abandonada a casa de Deus? Depois reuni os levitas e cantores, e os recoloquei em seus postos.


Malaquias 1

6. O filho respeita seu pai e o servo, seu senhor. Ora, se eu sou Pai, onde estão as honras que me são devidas? E se eu sou o Senhor, onde está o temor que se me deve? - diz o Senhor dos exércitos a vós ... 10. Vá, antes, um de vós e feche as portas. Não acendereis mais inutilmente o fogo no meu altar.


Tanto os textos de Neemias quanto de Malaquias, contemporâneos do período Persa, dão a entender que o Templo de Jerusalém passava por dificuldades financeiras nessa época. Jerusalém estava sendo reerguida, o Templo sendo refeito, e havia - hoje temos certeza - um outro Templo centralizando os recursos da região de Samaria, a apenas 40 Km dali.


Ao redor do Templo, nas alturas de Gerizim, foi estruturada uma pequena cidade para os sacerdotes e levitas, das quais conhecemos o nome Romano: Flavia Neapolis, hoje fundida a Siquém na grande cidade de Nablus. Alguns historiadores mesmo cogitam se levitas de Jerusalém não migraram para Gerizim e vice versa, durante os 250 anos que esse Templo funcionou. 


AS GUERRAS DO PERÍODO GREGO


Yoma 69

O dia 25 de Tevet (entre Dez/Jan) é conhecido como o dia do Monte Gerizim, que foi estabelecido como um dia de felicidade e no qual elogios fúnebres não são permitidos. O que aconteceu nessa data? Foi nesse dia que os Samaritanos [kutim] solicitaram a Casa de Nosso Senhor a Alexandre, o macedônio, a fim de destruí-la, e ele a deu a eles, ou seja, deu-lhes permissão para destruí-la. Os homens vieram e informaram ao Sumo Sacerdote, Shimon HaTzaddik [Simão o Justo, filho de Onias I, 310–291 a.C.] do que havia acontecido. .... eles esfaquearam os Samaritanos, os penduraram na cauda dos cavalos e os arrastaram sobre os espinhos e cardos até chegarem ao monte Gerizim ... Quando chegaram ao monte Gerizim, onde os Samaritanos tinham seu templo, eles semearam a área com alho-poró, um símbolo de destruição total.


Esse trecho do Talmude Judaico conta sobre a chegada de Alexandre o Grande entre a contenda dos Samaritanos e Judeus. Diversas passagens do Talmude são bastante inverossímeis historicamente, e o historiador Flavius Josephus parece ter se baseado nelas para escrever várias de suas crônicas. Essa, por exemplo, envolve o Sumo Sacerdote reconhecendo a santidade de Alexandre.


O período Persa terminou por volta de 330 a.C., quando o grego Alexandre o Grande (também conhecido como Alexandre da Macedônia) conquistou todas as terras entre o Egito e a Índia. Depois que ele morreu, esse território imenso foi dividido entre seus generais, que fundaram poderosas dinastias e começaram o período Grego. No séc. 3 a.C., essas dinastias empreenderam batalhas históricas entre si. Canaã, em especial, passou muitos anos sendo perdida e reconquistada pelos Ptolomeus (centrados em Alexandria, no Egito, de cuja família nasceu a célebre Cleópatra) e pelos Selêucidas (centrados em Selêucia, hoje Baghdad, e depois em Antioquia, na Síria).


Os reis Selêucidas foram especialmente duros com o Judaísmo, chegando a proibir os idiomas hebraico e aramaico e fechar o Templo de Jerusalém por 20 anos. Em 167 a.C, essa opressão detonou a Revolta dos Macabeus, cujos líderes souberam manobrar aliados aqui e ali para instalarem uma nova monarquia em Israel. Eles foram chamados de reis Hasmoneus, sendo Judeus que governaram no Período Intertestamentário, até a chegada de Roma e sua derrota para a dinastia de Herodes. João Batista foi decapitado e Jesus foi julgado, ambos no reinado do 3º Herodes da Judéia.


No início do séc. 2 a.C., o Templo de Gerizim foi ampliado, passando de 95x95 m para 212x136 m. A vila ao seu redor chegou a ter 400 habitantes. Esse auge foi associado ao estabelecimento de poder dos Selêucidas em Samaria, que agora se tornava politicamente inimiga de Jerusalém, uma protegida dos Ptolomeus. As ruínas do Templo de Gerizim, na época de sua maior riqueza, revelaram um grande número de cerâmicas e moedas de bronze, prata e outro, algo bastante à altura de Jerusalém.


Quando os duelos entre Ptolomeus e Selêucidas passaram de ameaças para os campos de batalha, tanto um Templo como o outro foram severamente atingidos. Os Macabeus deixaram sua visão do que acontecia em Gerizim:


2ª Macabeus 5

21. Tendo Antíoco roubado ao templo [de Jerusalém] mil e oitocentos talentos [1 talento = 20 kg de ouro], voltou sem demora para Antioquia. Com o espírito exaltado, ele cria, em sua soberba, poder navegar sobre a terra e caminhar sobre o mar. 22. Contudo, por motivo de seu ódio para com os judeus, deixou atrás de si oficiais com a incumbência de molestar o povo: em Jerusalém, Filipe, da Frígia, mais bárbaro ainda que seu senhor; 23. no monte Gerizim, Andrônico e, adjunto a estes, Menelau, que se encarniçava contra seus concidadãos de modo mais terrível que os outros.


2ª Macabeus 6

1. Pouco tempo depois, um velho ateniense foi enviado pelo rei para forçar os Judeus a abandonar os costumes dos antepassados, banir as leis de Deus da cidade, 2. macular o templo de Jerusalém, dedicá-lo a Júpiter Olímpico e consagrar o do monte Gerizim, segundo o caráter dos habitantes do lugar, a Júpiter Hospitaleiro. 3. Dura e penosa foi para todos essa avalanche de mal. 4. O templo encheu-se de lascívias e das orgias dos gentios que se divertiam com meretrizes, unindo-se às mulheres nos átrios sagrados e introduzindo coisas ilegais. 5. O altar estava coberto de vítimas impuras, interditas pelas leis.


A QUEDA DE GERIZIM


A luta dos Macabeus contra os Selêucidas fez o Templo de Gerizim como vítima. Logo que assumiu o trono de Judá, o rei-sacerdote João Hyrcanus (neto do 1º Macabeu) sofreu várias derrotas para Antiocus VII Sidetes, rei dos Selêucidas. Hyrcanus chegou a evacuar Jerusalém (Flavius Josephus, Antiguidades dos Judeus 13.240) e pagar Antiocus para que a cidade sagrada não fosse destruída. O preço foi bem alto: 3000 talentos de ouro, retirados da tumba de Davi, e soldados Judeus para o exército de Antiocus (Flavius Josephus, Guerras dos Judeus I cap 2.5).


Quando soube da morte de Antiocus numa batalha contra os Persas em 113 a.C., o rei Judeu resolveu vingar-se das derrotas passadas e lançou um ataque feroz contra a Samaria. Os Selêucidas moveram 6000 soldados para a região, mas não foram suficientes. Após mais de 1 ano de batalha, os Selêucidas foram derrotados. Siquém foi destruída e seus habitantes feitos escravos.


O Templo de Gerizim foi incendiado e demolido por João Hyrcanus, junto com a vila ao seu redor, em 111-110 a.C. Diversos estudiosos interpretam a data festiva de 25/Tevet como uma comemoração da queda do Templo de Gerizim, uma vez que nada nos escritos do Talmude se associa com a "destruição total" profetizada, ou a proibição do lamento pelos mortos. Nos anos seguintes, Samaria foi lentamente repovoada, mas Siquém e a vila ao redor do Templo permaneceram vazias.


DEPOIS DA TORMENTA


O topo do monte Gerizim ficou 200 anos desabitado, ainda que permanecesse um local sagrado para os Samaritanos. Os primeiros a construir algo ali foram os Romanos, no início do séc. 2 d.C. Tratava-se de um Templo de Zeus, pouco ao norte das ruínas do antigo Templo e próximo a Flavia Neapolis, a vila reconstruída.


Já no período Bizantino (Roma agora era Cristã e tinha como capital Constantinopla, na Turquia), o imperador Zeno (476-491 d.C.) ordenou a construção da Igreja de Maria Theotokos [mãe-de-Deus] no topo da montanha, mais ou menos sobre onde ficava o Templo dos Samaritanos. A estrutura octogonal era característica da indicação de lugares sagrados.


Quando os Samaritanos começaram a se organizar contra a igreja em 529 d.C., o imperador Justiniano declarou o Samaritanismo ilegal e igreja foi transformada em uma espécie de fortaleza, de onde os Romanos lutaram contra os Samaritanos.


No início do séc. 8, com o aumento do poder do Islã, a igreja foi abandonada e a região de Canaã logo tomada. No séc. 16, Gerizim se tornou a maqam/tumba do Sheique Ghanem, um dos comandantes do famoso rei Salah al-Din, sultão do Egito e Síria. As atuais ruínas do local foram escavadas e amplamente estudadas pelo arqueólogo Yitzhak Magen.


João 4

[Jesus] Deixou a Judéia e voltou para a Galiléia. Ora, devia passar por Samaria [essa notação é curiosa, pois o caminho dos Judeus entre a Judéia e a Galiléia não passava por Samaria]. Chegou, pois, a uma localidade de Samaria chamada Sicar, junto das terras que Jacó dera a seu filho José. Ali havia o poço de Jacó. E Jesus, fatigado da viagem, sentou-se à beira do poço. Era por volta do meio-dia. Veio uma mulher de Samaria tirar água. Pediu-lhe Jesus: Dá-me de beber. (Pois os discípulos tinham ido à cidade comprar mantimentos.) Aquela Samaritana lhe disse: Sendo tu Judeu, como pedes de beber a mim, que sou Samaritana!... (Pois os Judeus não se comunicavam com os Samaritanos.) ... Senhor, disse-lhe a mulher, vejo que és profeta! Nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar.


Curiosamente, o destino do Templo de Jerusalém espelhou seu irmão, quase 200 anos depois. O Templo, assim como a cidade sagrada, foram saqueados, incendiados e demolidos pelas legiões em 70 d.C., após um longo cerco, durante a 1ª guerra judaico-romana.


Uns 60 anos mais tarde, o imperador Hadriano empreendeu obras de revitalização e, no lugar do Templo de Jerusalém, ergueu um Templo de Vênus. Jerusalém foi reformada e recebeu o nome de Aelia Capitolina.


Após a ocupação Muçulmana, no séc. 7, o local do Templo foi transformando na mesquita de Al Aqsa, onde fica o santuário do Domo da Rocha, que permanece lá até hoje.


O Cristianismo começou com a pregação no Templo de Jerusalém, entre os Judeus, onde provavelmente Pedro, Estevão e Tiago Boanerges foram líderes. Outra vez de forma hilária, o NT traz 4 Evangelhos: 3 deles baseados no ensino de Pedro e Paulo (Lucas em especial se dedica a mostrar isso, no livro de Atos), e 1 deles (João) com grandes chances de ter emergido de uma comunidade Samaritana.


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ESCRITOS NUMA PEDRA DA MONTANHA


Bourgel J, The destruction of the Samaritan Temple by John Hyrcanus: a reconsideration. Journal of Biblical Literature, v. 135, n. 3, p. 505-523, 2016.


John Hyrcanus - wikipedia


JoLynne M, A Samaritan Temple to rival Jerusalem on Mount Gerizim, Studia Antiqua, v. 16, n. 1, p. 21-29, 2017.


Kirby P, http://www.earlyjewishwritings.com, 2013


Magen Y, The temple on Mount Gerizim, Israel Antiquities Authority.


Mount Gerizim - biblewalks.com


Mount Gerizim and the Samaritans, whc.unesco.org, abr/2012


Sauter M, The temple on Mount Gerizim - In the Bible and Archaeology, Bible History Daily, biblicalarchaeology.org, ago/2019.


Steve, Shmuel Browns on Mount Gerizim, israelseen.com, jul/2012.


Talmude online

quinta-feira, 28 de março de 2019

Apocalipse de Isaías

Cena do filme “Senhor dos Anéis”, em que o mago Gandalf luta com cetro e espada contra o demônio Balrog

O profeta Isaías viveu na antiga Judá, quando os Egípcios, Assírios, Babilônios e Persas disputavam territórios. Alguns estudiosos crêem num único homem escrevendo entre os anos 740 e 686 a.C. (são 54 anos apenas de atividade reconhecida, o que o transforma no profeta mais longevo que já existiu). Outros crêem num grupo de aprendizes escrevendo em nome do seu mestre original, ao longo de muitos anos, até o séc. 2 a.C. A enorme quantidade de previsões no livro, várias não realizadas, contribuem para pensar no trabalho de uma "escola de profetas", como o antigo Eliseu tivera.

Basicamente, o enorme livro de Isaías prediz acontecimentos sobre Israel e as nações vizinhas, sendo dividido em Proto-Isaías (capítulos 1-39, descrevendo relação entre o rei Ezequias e Iaveh, com a invasão de Judá pelos Assírios), Deutero-Isaías (capítulos 40-55, sobre o final do período de Exílio, que começou 90 anos mais tarde. O livro de Isaías parece pular o período de 681 a 537 a.C., fortalecendo a idéia de vários autores) e Trito-Isaías (capítulos 56-66, onde o “profeta” fala sobre a reconstrução de Jerusalém, após o Exílio). O tempo coberto pelo livro de Isaías é de mais de 2 séculos, então estima-se que Isaías tenha produzido apenas a 1ª parte desse conjunto.

Eis que virão dias em que tudo quanto houver em tua casa, e o que entesouraram teus pais até ao dia de hoje, será levado para Babilônia. Não ficará coisa alguma, disse o SENHOR. E até de teus filhos, que procederem de ti, e tu gerares, tomarão, para que sejam eunucos no palácio do rei de Babilônia. (Isaías 39.6,7)

Os Judeus foram levados para Babilônia entre 597 e 581 a.C, mas nem todos: o rei dos Babilônios, Nabucodonosor II, ocupou-se sobretudo da elite judaica, os nobres e mais ricos da população, que deveriam liderar seu povo no cativeiro. Em 538 a.C., por um decreto do rei Ciro o Persa, conquistador de Babilônia, os Judeus tiveram permissão de regressar a Judá. A presença de comunidades judaicas no Iraque, como narrado no livro de Ester, e os banu Hashem (família árabe de linhagem judaica) dentre os fundadores do Islã, mostra que nem todos voltaram.

Assim diz o SENHOR, vosso Redentor, o Santo de Israel: Por amor de vós enviei a Babilônia, e a todos fiz descer como fugitivos, os caldeus, nos navios com que se vangloriavam. (Isaías 43.14)

Em sua fase pré-exílio, o livro de Isaías descreve parte da história de seu povo. Ele narra, por exemplo, a invasão de Samaria, ao norte, pelos Assírios, e traz a estória de que uma grande parcela da população foi levada para os campos em alguma região longínqua governada pela Assíria e substituída por novos habitantes não Judeus, que trouxeram práticas pagãs da Mesopotâmia. Daí se originaria a desavença entre os Judeus e os Samaritanos, porque esses últimos não eram reconhecidos como herdeiros divinos de Canaã.

O re-povoamento foi sucedido por 22 anos de acordos de paz entre Judá e a Assíria, no qual os judeus travaram conhecimento dos hábitos e crenças dos Cuteanos, provavelmente aparentados com seus vizinhos politeístas de Moab e Amon. No de Proto-Isaías, com a sucessão do rei Akaz por seu filho Ezekias, em 716 a.C., o novo rei não tardaria a fazer aliança com o Egito e rebelar-se contra os Assírios. A princípio Isaías despeja imprecações contra o rei audacioso, mas por fim anuncia que Deus o havia escolhido para resistir ao inimigo e todos os exércitos celestes o ajudariam.

A substituição dos Judeus de Samaria pelos Cuteanos provavelmente deu aos plantadores e pastores Judeus a impressão de que a nação inimiga havia vindo em benefício de seus vizinhos. Dessa forma, Isaías nos deixa uma nota preciosa do governo de Akaz, em que ele vira um inimigo pobre e frágil  (que ele chama de Moabitas) ocupar todas as terras de Samaria. Chamamos esse trecho de Pequeno Apocalipse de Isaías. No texto, o profeta conta a prevê de Deus para Jerusalém, sua casa, para Ele em pessoa matar os Moabitas terríveis das terras do norte. Eis uma narração resumida do texto:

Iaveh devastara a Terra sem fazer distinção entre as pessoas, pois os homens pecaram;
A bebida forte é amarga, todos estão tristes ao comemorarem o "fim da colheita";
Os homens foram traídos, anjos e os reis serão presos e julgados por Iaveh;
Iaveh sentará em seu trono de Sião, a cidadela dos estrangeiros será destruída;
Sião foi refúgio para o fraco, o indigente, contra a chuva e o calor;
Iaveh prepara um banquete de carnes gordas e vinhos para todos os povos; não haverá mais lágrimas nem morte;
Os justos de Judá serão salvos, os ímpios de Moab serão destruídos;
Os mortos não reviverão; os homens sofreram para produzir algo e era vento;
A terra dará luz a sombras; ela não esconderá os assassinados;
Iaveh matará 3 Leviatãs com uma espada; a vinha que Iaveh rega pede paz;
Os Judeus da Síria e Egito voltarão para Jerusalém.

ISAÍAS E OS SAMARITANOS

Assim andaram os filhos de Israel em todos os pecados que Jeroboão tinha feito. Nunca se apartaram deles, até que o Senhor tirou a Israel de diante da sua presença, como falara pelo ministério de todos os seus servos, os profetas. Assim foi Israel expulso da sua terra à Assíria até ao dia de hoje.

E o rei da Assíria trouxe gente de Babilônia, de Cuta, de Ava, de Hamate e Sefarvaim, e os fez habitar nas cidades de Samaria, em lugar dos filhos de Israel. Eles tomaram a Samaria em herança, e habitaram nas suas cidades.
...
Veio, pois, um dos sacerdotes que transportaram de Samaria, e habitou em Betel, e lhes ensinou como deviam temer ao Senhor. Porém cada nação fez os seus deuses, e os puseram nas casas dos altos que os Samaritanos fizeram, cada nação nas cidades, em que habitava.
...
Assim estas nações temiam ao Senhor e serviam as suas imagens de escultura. Também seus filhos, e os filhos de seus filhos, como fizeram seus pais, assim fazem eles até ao dia de hoje (2ª Reis 17.22-41)

Um dos pontos interessantes sobre o livro Proto-Isaías é sua referência aos Moabitas no norte. Sabemos (historicamente) ser esse o reino de Israel, com sua capital em Samaria. O povo que lá habitava eram os Samaritanos, famosos pelas referências de Jesus a eles.

Nos sécs. 4 e 5 d.C., houve mais de 1 milhão de Samaritanos nas cercanias do monte Gerizim, onde ficava a antiga cidade sagrada de Siquém. A perseguição a eles na Idade Média reduziu seu número para uns 2000 indivíduos na época das Cruzadas (sécs. 10-11). O domínio Islâmico da região os fez cair para menos de 150 indivíduos na virada do séc. 20. Hoje, eles são cerca de 640 pessoas com fortes laços de parentesco. A afirmação bíblica de que os Samaritanos não são judeus, hoje, também parece muito incorreta frente a testes genéticos que mostraram seu parentesco com populações antigas de judeus, de fora da Palestina. Apesar do que dizem os judeus mais ortodoxos, esse pequeno grupo se intitula descendente das antigas tribos de Manassés e Efraim. Nos parágrafos seguintes, tentarei esclarecer de onde vieram os Samaritanos atuais, segundo a genética¹. 

Há como reconhecer DNA materno (passado de uma mãe para todos os seus filhos, através das mitocôndrias nos óvulos) e DNA paterno (passado por um pai a todos os seus filhos homens, através do cromossomo Y). Como os judeus têm regras estritas sobre mistura com outras religiões, os primeiros mapeamentos já mostraram que os Samaritanos são geneticamente bem isolados de outros grupos. Maternalmente eles são ligados com os judeus do Iraque (48% de genes mitocondriais em comum). Os do Iraque são maternalmente ligados com judeus do Marrocos (42%) e Iêmen (41%). A ligação materna dos Samaritanos com os judeus Palestinos de hoje é fraca (27%).

Paternalmente, os Samaritanos são relacionados aos judeus do Marrocos (67%), do Iraque (54%), Ashkenazi (52%) e do Iêmen (50%). Os do Marrocos são ligados aos Iraque (78%) e Palestina (68%); os Ashkenazi são ligados aos do Iêmen (58%) e Iraque (51%).

Assim, juntando dados maternos e paternos, parece haver um grupo genético formado por judeus Samaritanos + Iraque, com Marrocos + Iêmen em 2º plano como ancestrais de ambos, e Palestina + Ashkenazi como parentes mais distantes. Isso reformula muito do que se pensava sobre as andanças dos judeus pelo mundo.

Com base na genética, os judeus do Iraque são descendentes diretos dos Samaritanos levados pelos Assírios e Babilônios, no século. 7 a.C. Sargão II, grande rei da Assíria, registrou o transporte de 27.300 Samaritanos para as terras do rio Eufrates. A Palestina então foi despovoada de Judeus após a expansão Islâmica no séc. 7 d.C., com movimentos intensos de retorno somente após as operações militares estadunidenses nos anos 1940-50. Aqueles judeus que hoje estão na Palestina vieram principalmente do Marrocos, nos movimentos migratórios de 1961-64. Os judeus do Marrocos, por sua vez, são descendentes da Palestina do séc. 3 a.C. (foram fixados no norte da África pelos gregos, como proteção contra Roma), depois misturados com judeus Ahkenazi que cruzaram o Estreito de Gibraltar após a derrota dos islâmicos, por volta de 1400-1500.

Entre 1949-50, a maioria dos judeus no Iêmen foi para Israel, devido a perseguição em seu país. A ligação entre os Palestinos e os Iêmen ocorre de forma materna (44%), mas não paterna (12%), sugerindo um intercâmbio de mulheres entre as famílias que passaram a conviver num mesmo país, mas não de homens, considerados os mantenedores das famílias.

A origem dos judeus no Iêmen é complexa. A tradição mais antiga fala sobre súditos do rei Salomão que acompanharam a rainha de Sabá voltando para um reino então ocupando o extremo oeste da Etiópia e o sul do Iêmen entre os sécs. 12 e 3 a.C. Sabá era uma posição privilegiada na rota das caravanas que levavam incenso da Índia para a Grécia. Existe uma outra tradição de que, no retorno da Babilônia, alguns grupos se recusarem a voltar (como os judeus Iraque) e foram banidos pelo governador Esdras, indo se fixar em cidades pobres do Iêmen, no séc. 4 a.C. Essa segunda hipótese responde pelo surgimento, no séc. 2 a.C., do império Himyar, no atual Iêmen, onde havia uma extensa população de judeus.

Os judeus que retornaram de Babilônia no séc. 6 a.C. levaram para a Palestina o padrão genético "Iraque", que foi base para o povoamento judaico no Marrocos e Iêmen. No Marrocos, a correspondência com os Iraque é de 42% DNA materno + 78% DNA paterno, resultado de duas levas de imigração, na época dos gregos e após a destruição de Jerusalém (70 d.C.). No Iêmen, essa compatibilidade com o genoma dos judeus Iraque é de 41% DNA materno + 48% DNA paterno.

Apesar do parentesco genético com os Samaritanos que vemos hoje escancarado, o texto de 2ª Reis mostra que os judeus retornando de Babilônia com Esdras/Neemias não reconheceram os que ficaram lá em Samaria. Também a alegoria do "bom Samaritano", que Jesus narra, e seu encontro com mulher no poço de Jacó, formam um quadro convincente de disputas entre Judeus e Samaritanos, como se fossem dois povos. O Talmude judaico cita os Cuteanos (da cidade de Cuta, na margem do Eufrates) vivendo em Israel, ao passo que os Samaritanos se identificam como um grupo que jamais deixou sua terra sagrada, de forma que deve ter havido uma mistura de ambos os grupos naquelas terras. De fato, o livro de 2ª Crônicas aponta os Samaritanos desenvolvendo atividades conjuntas com os habitantes de Judá nos tempos do rei Josias (640-609 a.C.), após os Assírios e pouco antes da chegada dos Babilônios.

Uma vez que os traços da Mesopotâmia são bem fracos nos judeus atuais, de todos os grupos, o repovoamento Assírio provavelmente fracassou (e a culpa ficou sobre os leões, que se dizia devorarem os novos habitantes de Samaria, provavelmente Cuteanos re-alocados). O grupo de Cuteanos (maioria no séc. 6 a.C.) talvez tenha formado a idéia sobre os “Samaritanos” que os judeus retornando do Exílio mantiveram até os tempos de Jesus, mas eles não se misturaram significativamente aos Samaritanos, até onde sabemos.

A assimilação de DNA materno da Mesopotâmia pelo judeus Iraque e pelos Samaritanos (pois mulheres convertidas são aceitas nas famílias judaicas) talvez até contribua para sua alta semelhança materna (48%). De qualquer forma, esses testes genéticos revelam que os Samaritanos de hoje ficaram em Samaria (há pelo menos uma linhagem paterna entre eles), ao contrário do que a Bíblia narra.

ISAÍAS E OS LEVIATÃS

Naquele dia, o Senhor com sua espada severa, longa e forte, castigará o Leviatã, serpente veloz, o Leviatã, serpente tortuosa; matará no mar a serpente aquática. (Isaías 27.1)

A parte final do Apocalipse de Isaías apresenta duas cidades, Jerusalém e Babilônia, assim como uma cidade de glória e outra de caos (arrasada). Trata-se de um texto possivelmente feito para se adaptar em qualquer contexto onde o dualismo seja cabível, como um refrão dos seguidores do profeta. O autor então encerra esse trecho com Iaveh vindo destruir o mal original do mundo, simbolizado pelas grandes serpentes Leviatã. Reparemos que a "serpente do mar" não é uma referência a Israel, situada nas margens do Jordão, mas sim as cidades no Mediterrâneo ou no Golfo Pérsico.

No Velho Testamento (VT), o Leviatã geralmente é um símbolo do Egito, entendido pelos judeus como o grande inimigo do poder de Deus. A serpente era o sinal da deusa Ísis. Tanto o Faraó do Êxodo - provavelmente Amenophis IV (1353-1336 a.C.; ver Ezequiel 29.3; Ezequiel 32.2) como o rei babilônio Nabucodonosor II (Jeremias 51.34) são chamados de “monstros marinhos”, por “devorarem” as nações e serem inimigos do povo de Deus. O primeiro Leviatã de Isaías é chamado “serpente veloz”, outro é a “serpente sinuosa”, e o terceiro é o “monstro que está no mar”. O “monstro que está no mar” ocorre no VT como um símbolo do Egito (Salmos 74.13,14). Possivelmente os três Leviatãs representam Egito, Assíria e Babilônia, referidos como seus grandes rios Nilo, Tigre e Eufrates.

A imagem de δράκον (dragão) tem contexto em todas as culturas antigas (suméria, acadiana, indiana, grega, hitita, egípcia e fenícia) associado às forças demoníacas no mundo antigo. O mito mais antigo é o sumério, do século 24 a.C. No Apocalipse de Isaías, Iaveh usando uma espada contra os Leviatãs ainda lembra muito a mitologia dos Cananeus, com os deuses em forma de serpente lutando com Baal. Na Babilônia, o dragão era uma serpente vermelha protegendo seu deus Marduque. Para os hebreus, havia tanto o Leviatã quanto o monstro fêmea do mar, Raabe.

CONCLUSÃO

O Apocalipse de Isaías revela muitas semelhanças estruturais com o Apocalipse de João, livro final da Bíblia, como a ressurreição dos mortos (não era um conceito comum, para os judeus). No entanto, essa previsão de final do mundo do profeta Isaías traz uma bela imersão em sua realidade. Aparecem o contato com os Samaritanos, entendidos pelos judeus (de Judá) como uma forma de Moabitas, ao mesmo tempo em que Iaveh é apresentado na forma do deus-guerreiro Baal, combatendo (de cetro e espada, só faltou o machado lançador de relâmpagos) contra os dragões Leviatãs que simbolizavam o Caos Primordial.

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¹ Os dados sobre semelhança genética de populações de judeus foram retirados do artigo Shen, P., Lavi, T., Kivisild, T., Chou, V., Sengun, D., Gefel, D., ... & Oefner, P. J. (2004). Reconstruction of patrilineages and matrilineages of Samaritans and other Israeli populations from Y‐Chromosome and mitochondrial DNA sequence Variation. Human Mutation, 24(3), 248-260. A tabela abaixo resume as SEMELHANÇAS entre sequências de DNA de várias populações de judeus, utilizando marcadores específicos. Repare que a semelhança entre uma população e ela mesma é sempre 1 = 100%.

grupos de judeus:

ETH = Etiópia (originários dos império Himyar e Axum); ASH = Ashkenazi (judeus do leste europeu, originários de Roma); IRQ = Iraque (originários dos deslocamentos populacionais durante as invasões Assíria e Babilônia na Palestina); LBY = Líbia (originários de colônias estabelecidas pelos gregos de Alexandre o Grande ao redor do Mediterrâneo, como forma de manter postos comerciais); MOR = Marrocos (originários de colônias estabelecidas pelos gregos de Alexandre o Grande ao redor do Mediterrâneo, como forma de manter postos comerciais); YMN = Iêmen (originários de migrações após o Exílio Babilônico e na época dos gregos de Alexandre o Grande); SAM = Samaritanos (população atualmente restrita a dois bairros de Israel); DRU = Druze (árabes originários da Mesopotâmia, que imigraram para a Palestina durante o império Romano e se converteram ao Cristianismo e Judaísmo); PAL = Palestina (judeus de antigas famílias residentes em Israel).


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Enterrado nas areias salgadas do mar de Arabah

A dúvida de Moisés, loungecba.blogspot.com, fev/2017.
Abraão em questão, loungecba.blogspot.com, mar/2018.
Barros OA, Identidade dos animais mitológicos em isaías 27:1 e seus paralelos no clímax do grande conflito em Apocalipse, dissertação de defesa do bacharelado em Teologia, Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia, Instituto Adventista, 2013.
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Moroccan Jews - wikipedia
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Windsor L, Barry M, Isaiah timeline, visualunit.me, 2010.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Alexandre


por Bráulia Ribeiro

Conhecíamos Alexandre há mais de cinco anos. Chegou com 20 e poucos, com o cérebro já detonado pelo crack. Durante o curso de discipulado foi alcançando coerência, e, ao fim de seis meses, voltou à sua casa para fazer vestibular, ciente do que queria: ser piloto missionário. Terminou o ensino médio, inspirou o pai a estudar e fizeram vestibular juntos. O pai passou em direito. Alexandre, ainda tratando de ser lúcido, não.

Vieram outras crises; a razão saía por uma fresta da janela, ficava uma algaravia religiosa indecifrável. Nas crises, ele nos visitava para longas conversas. Nunca foi mau o rapaz. Eu sempre lhe sabia gentil, apesar das incoerências. Meu marido tinha ouvidos para lhe decifrar as angústias no meio da verborragia. Aconselhava, ouvia.

Nos últimos meses, Alexandre começou a observar minha filha que se tornava menina moça e a notar-lhe a beleza florescendo. Ligava às três da manhã falando da menina que vira no balanço, de suas amiguinhas, do toque puro que lhe deu na perna, de como Deus ama os anjos. Meu instinto de mãe se põe de guarda. Aviso às coleguinhas e, quando Alexandre vem, eu o acompanho ao redor da floresta que circunda a comunidade.

Na terça-feira a bicicleta com adesivo Yokohama para na minha porta. Nesse dia Reinaldo está com pressa. Explica pro Alexandre:

- Tô de saída. Tenho reunião com pastores na cidade.

O rapaz insiste, mais transtornado que nunca na esperança absurda que tem em Reinaldo.

- Você é meu pai, meu pastor, eu preciso de você.

Reinaldo começa a se irritar. Explica que não dá. Alexandre implora.

- Deixa eu voltar pra viver aqui com vocês.

- Como? Você se droga, anda por aqui observando nossas crianças e me liga de madrugada falando nelas. Como posso confiar pra te deixar morar aqui?

- Não vou fazer nada com elas, só quero ser como elas, nascer de novo numa família de Deus, Reinaldo. Eu quero ser de Deus e não sei como, será que elas me ajudam?

- Hoje não posso. Tô atrasado demais. Olha, já fizemos tudo o que podíamos por você. Agora acabou.

- Como acabou? Não acaba não, olha.

E mostrou um rolo de papel higiênico que tinha nas mãos.

Reinaldo se irritou com aquele rolo - me contou depois - mesmo assim segurou a ponta enquanto o menino desenrolava lentamente tirando de dentro uma Bíblia pequena amarfanhada, pra ler o Salmo 136.

- Olha o que a Bíblia fala: “Rendei graças ao Senhor, porque seu amor dura para sempre”.

E assim foi lendo parado no sol quente ao lado do carro o Salmo todo enquanto Reinaldo tentava lhe dizer que estava atrasado, que era pastor, que conhecia a Bíblia, que voltasse depois ou nem isto.

Foi-se o pastor pra reunião e o garoto em desespero para a estrada quente de bicicleta. Reinaldo disse que ainda o viu quando voltava, pedalando, percebendo o carro, mas nem o parou de novo como seria seu costume. Virou o rosto como se dissesse: “Olhe, você, meu pastor, falhou, me trocou por uma reunião, não me ouviu, deixou que seu amor acabasse, sendo que o amor de Deus nunca acaba”.

Acabou também naquela tarde a história de Alexandre e sua busca por Deus. Na manhã seguinte sua irmã nos ligou, chamando para o velório. O rapaz se matou na tarde anterior nas rodas de uma carreta de carga depois de duas outras tentativas. Choramos eu e Reinaldo muitas lágrimas de angústia, desespero e culpa, e ainda choro enquanto escrevo isto. Por nós, e por todos os Alexandres da vida que encontram na rua os levitas e não os samaritanos (Lc 30:30-37).

Bráulia Ribeiro, missionária em Porto Velho, RO, é autora de Chamado Radical.
braulia.ribeiro@uol.com.br