sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

História de Natal


Os três magos em um mosaico Bizantino de 565 d.C., Basilica de Sant'Apollinare Nuovo, Ravenna, Itália. As árvores atrás são tamareiras; os gorros vermelhos são persas e iguais aos dos Malês brasileiros.

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Para findar um ano complicado em todos os sentidos, pensei em reunir algumas informações sobre a festa de Natal. Longe de cobrir todo esse tema, gostaria de traçar algum raciocínio sobre o que essa festa significa, o que ela já foi e algumas nuances culturais.

NATIVIDADE

A concordância dos Evangelhos quanto ao nascimento de Jesus é muito baixa. Marcos (o texto mais antigo) e João (o mais novo) nada apresentam; Mateus e Lucas se alternam com estórias distintas, concordando somente quanto a Belém.

Nenhum dos evangelistas escreveu sobre coisas que presenciou. Mateus é fruto de uma Israel já devastada pelas legiões no contexto da Guerra Judaico-romana, à espera de um Messias superpoderoso. Traz Cristo como uma nova divindade, repudiando o Judaísmo. Lucas já é fruto de um trabalho posterior, supostamente conhecimentos sobre Jesus reunidos por um historiador (Romano?) que veio do grupo de Paulo.

Inevitavelmente, esse par sugere que as estórias sobre o nascimento de Jesus são inserções feitas após o texto de Marcos, talvez na 3ª ou 4ª gerações após Jesus. Havia profecias para o Messias cumprir, então não surpreende os evangelistas “criarem” um contexto para isso. Quanto a serem fatos conhecidos para eles, é bem pouco provável, pois não há relatos sobre Jesus entre esse nascimento “profético” e o começo de Sua pregação.

Mateus coloca Jesus homenageado por magos do Oriente seguindo uma estrela, sendo levado ao Egito (centro de poder político e também da tradição dos Judeus) para refugiar-se de Herodes I, com até um massacre dos inocentes recriando a narrativa de Moisés (deve-se ver que Herodes I era famoso por ter assassinado toda a família, da mãe a esposa, filhos e cunhados). Lucas coloca um anjo anunciador do grande milagre, aparecendo a muitas pessoas, até pastores de ovelhas.

Uma terceira tradição natalina aparece ainda na Sura 19 do Alcorão.

SURA 19 - MARIA

19 [O espírito] Explicou-lhe: 'Sou tão somente o mensageiro do teu Senhor, para agraciar-te com um filho imaculado'. [Maria] Disse-lhe: 'Como poderei ter um filho, se nenhum homem me tocou e jamais deixei de ser casta?' Disse-lhe [o espírito]: 'Assim será, porque teu Senhor disse: Isso Me é fácil! E faremos disso um sinal para os homens, e será uma prova de Nossa misericórdia. E foi uma ordem inexorável'. E quando [ela] concebeu, retirou-se, com um rebento a um lugar afastado. As dores do parto a constrangeram a refugiar-se junto a uma tamareira. Disse: 'Oxalá eu tivesse morrido antes disto, ficando completamente esquecida'. Porém, chamou-a uma voz, debaixo dela [Jesus]: 'Não te atormentes, porque teu Senhor fez correr um riacho a teus pés! E sacode o tronco da tamareira, de onde cairão sobre ti tâmaras maduras e frescas. Come, pois, bebe e consola-te; e se vires algum humano, faze-o saber que fizeste um voto de jejum ao Clemente, e que hoje não poderás falar com pessoa alguma'. Regressou ao seu povo levando-o [Jesus] nos braços. E lhes disseram: 'Ó Maria, eis que fizeste algo extraordinário'.

O texto do Alcorão traz uma versão mais oriental do nascimento de Jesus, sem linhagens, nem visitantes, nem José. Embora o Alcorão tenha sido organizado como um conjunto de livros independentes no séc. 8, ele arrastou consigo tradições mais antigas. O nascimento sob uma tamareira, por exemplo, era retratado em mosaicos pelo menos desde o séc. 4.

PROFECIAS SOBRE AQUELE QUE VIRÁ

Messias significa ‘ungido’. Não é necessariamente alguém maior que um profeta, mas os Judeus O esperam no final dos tempos. Ainda esperam. Sobre Ele, os profetas - e sobretudo Isaías - deixaram diversas pistas: deveria nascer em Belém (Miquéias 5.1-2), parido por uma virgem camponesa (que se nutre de manteiga e mel) durante o mais terrível dos conflitos (Isaías 7.14-17), assumir o trono de Davi (Isaías 9.5-6), ser um Salvador esmagado pelos homens (Isaías 53).

Os autores de Mateus se esforçaram por associar a figura notável descrita por João Marcos (a partir dos discursos de Pedro) com o Messias esperado. Mateus juntou à narrativa original uma linhagem conectando Jesus até Davi, um nascimento milagroso (que Marcos não cita), o qual chamou-se Natal, muitos feitos sobrenaturais e uma ascensão ao Reino Celestial. Lucas re-compilou parte dessas estórias, mas trata Jesus mais como um "ensinador" do que um agente divino.

Por exemplo, Lucas não traz a visita de magos do Oriente. Ao invés disso, o anjo Gabriel anuncia a Maria, José sua prima Isabel e o marido Zacarias o que se sucederia. De Isabel nasceria João Batista, o profeta que prepararia a chegada de Jesus. Pelo menos isso é o que narra o texto de Lucas escrito quase 100 anos depois que esses João Batista e Jesus viveram.

TRADIÇÕES ANTIGAS

As tradições religiosas que nos chegaram, aqui no séc. 21, seguiram um longo caminho. Não vieram diretamente da Jerusalém que Jesus conheceu.

Até o séc. 4, o Cristianismo já havia se popularizado entre Judeus, Gregos (sobretudo no Egito e Turquia) e Romanos. Nos sécs. 4 até 6, o Cristianismo foi propagado nas terras Romanas da Europa. Entre os sécs. 7 e 15 ele cresceu no leste Europeu, aliado dos governos imperiais. A partir do séc. 8, os povos "bárbaros" da Europa Ocidental foram unificados sob o martelo de Carlos Magno, Cristão devoto, que em seguida foi coroado pelo papa como novo César. Do séc. 16 em diante, o Cristianismo se fragmentou.

Essa "quebra" produziu muitas tradições Cristãs diferentes, que nem sempre conviveram bem entre si. Dentro delas, diversas versões de Jesus se misturaram com as tradições dos povos Europeus, e acabamos com Cristianismos do Oeste Europeu (Jesus representado pelo Papa), do Leste Europeu (Jesus representado pelos santos e o rei), do Mediterrâneo (Jesus portador de sabedorias e curas), da Pérsia (Jesus profeta) e até da Etiópia (Jesus protetor dos justos).

O Natal nasceu como uma celebração Romana Oriental, ganhando em cada lugar com anexos Cristãos bem diferentes.

O NATAL QUE NÃO INVENTARAM

O Natal desenhado por Mateus e Lucas não teve relevância como festa religiosa até a institucionalização da Igreja no final do séc. 4. Nessas descrições, não há qualquer menção a uma data do ano ou mesmo ao ano (supomos o nascimento de Jesus por volta de 7 a 6 a.C., que foi quando Herodes I reinou)¹. Isso seria esperado de um texto adicionado posteriormente ao Cânon religioso, evitando dar margem a contestações.

Mas, admitido como tradição social, o Cristianismo precisava de uma data para celebrar.

Porque a definição de 25/dezembro? Essa data já era uma comemoração importante dos Europeus muito antes do Cristianismo. Trata-se do Solstício de Inverno, ou mais propriamente o dia mais curto e mais frio de todo ano. É a data esperada para nevascas.

No Oriente Médio, há frio e muita chuva no Solstício de Inverno. Na Europa, é justamente a época mais fria e seca do ano. A estratégia mais comum dos agricultores Europeus era sacrificar a maior parte dos animais antes do Solstício (e guardar as matrizes nos abrigos), aproveitando os meses frios para armazenar as carnes e colheitas de outono. Por isso, o Solstício coincidia com estoques domésticos bem fartos.

No Oriente Médio, as chuvas (sobretudo na Galiléia) tornavam o terreno impróprio para a movimentação dos rebanhos. E também para grandes peregrinações, seja até Belém ou o Egito. De qualquer forma, a instituição da data festiva ocorreu com a Igreja já sediada em Roma e Canaã reduzida a escombros de um mundo antigo. A data oficial foi definida pelo papa Julius I (337-352 d.C.) como o Solstício, em um mundo Romano que já demarcava esse dia.

Boa parte dos povos Celtas e Nórdicos chamavam o Solstício de Yule. Os Romanos a chamavam de Saturnália. Eles fundiram tal comemoração com o nascimento do deus Hórus do Egito (associado ao Sol Invictus cultuado pela família Imperial) ou de Mitra (deus do Zodíaco), ambos ligados à recuperação do mundo a partir de uma época de escuridão. Os Romanos apenas deram outro nome ao dia festivo, mixando sua festa tradicional com a narrativa sobre Jesus.

LENDAS NATALINAS

Houve grandes disputas antes do estabelecimento de uma data para o Natal. Duas figuras ganharam terreno dentro do novo feriado Cristão. Uma delas foi o deus nórdico Odin, cultuado entre os Saxões (atual terreno que vai desde a Alemanha até a Rússia). Odin percorria os céus durante a noite mais escura, montado em animais, observando os homens e estabelecendo destinos para eles. Alguns seriam favorecidos, após sua passagem.

Outra figura notória foi o bispo grego Nikolaos Patareus, membro do clero Cristão de Roma no séc. 4. O bispo era famoso por suas obras de caridade no inverno Europeu, sendo mais popular na Europa Oriental.

A curiosa fusão do feriado Cristão com o vôo de Odin e as caridades de Patareus, todos nas proximidades do Solstício, parece ser a origem do São Nicolau, Santa Claus ou Papai Noel.

O FANTASMA DOS NATAIS PASSADOS

A mais antiga referência à celebração de Natal diz respeito ao Egito romanizado, em 432 d.C. Tratava-se de uma diocese com forte atividade missionária, então é possível que a tradição tenha se espalhado diretamente de lá para a Europa.

Os Natais Romanos (na Europa) eram bem diferentes do que poderíamos esperar. Após a inquietante noite em que o velho Odin passava pelos céus, julgando os homens, o dia se iniciava com uma celebração religiosa Cristã. Então seguia-se a tradição de que os ricos deveriam convidar os pobres a comerem em suas casas. A celebração incluía todos os exageros, bebedices e farras da Saturnália Romana.

De fato, é provável que a data escolhida fosse justamente uma tentativa de cristianizar a Saturnália. Tratava-se de um festival de vários dias em homenagem ao deus Saturno, quando os Romanos celebravam a liberdade. Todas as regras sociais eram temporariamente esquecidas: os escravos ficavam desobrigados de obediência, o jogo e bebidas eram livres, havia troca de presentes. Além disso, havia banquetes públicos oferecidos como caridade, segundo o costume Grego. Muito tempo depois, na Inglaterra do séc. 14, ainda registrou-se uma grande oferta para a população de pão, carne, bacon com mostarda, lebres, sopa de galinha, queijo e tonéis de cerveja.

Uma brincadeira tradicional dos Natais da Idade Média era vendar alguém e esbofetear esse até que ele adivinhasse quem lhe batia. Isso em meio a muita música, vinho e cerveja. Tal forma "pagã" do Natal persistiu até o séc. 18.

As reformas do Protestantismo na Inglaterra e nos EUA acabaram por instituir a Igreja como centro de moralidade. O mundo Católico seguiu de perto essa transformação. Sem muita negociação, a Igreja e as instituições filiadas a ela cancelaram sumariamente as celebrações de Natal. Nos EUA, festejar o Natal foi considerado transgressão às leis até 1680, pelo menos. Não era sem sentido: no Natal de 1828, a cidade de Nova York assistiu um violento combate entre policiais e pessoas embriagadas protestando contra as más condições de vida da população pobre.

A celebração natalina mais moderna surgiu no meio do séc. 19, combinando elementos da Igreja Episcopal, então famosa por sua atuação nos movimentos abolicionistas e na África, as tradições Vitorianas na Inglaterra e um best seller de Washington Irving.

O texto de Irving "The Sketch Book" foi uma obra particularmente influente sobre outro autor de estórias natalinas desse período: Charles Dickens. Por causa dessas mudanças culturais, as festividades de Natal foram restritas ao ambiente doméstico, fazendo-se uma mistura de evento religioso e familiar. Nessa época surgiram as embalagens decoradas para presentes, e o Natal chegou a ser chamado “boxing day”. Mesmo no Brasil, que recém deixara de ser colônia, a influência Inglesa se fazia sentir na criação de uma sociedade urbana. Essa sociedade nova adotou a nova festividade.

PRESÉPIO, ÁRVORES E O NOEL

No séc. 13, Giovanni di Pietro di Bernardone, filho de uma rica família comerciante de tecidos em Assis/Itália juntou-se a uma expedição militar. Voltando em 1205, dedicou-se à vida religiosa ascética. Em 1208, liderava um grupo de monges pobres e em 1210 sua "ordem mendicante" foi reconhecida pelo papa. Então, ele era já conhecido como Francesco di Assisi em referência à sua aparência e descendência da França.

O ministério de Francesco foi intenso: esteve na Croácia, Espanha e Egito, tendo dialogado com líderes Muçulmanos da época. Boa parte de sua biografia é devida à obra do monge Bonaventura, um membro da ordem. Francesco morreu em 1226, sendo canonizado apenas 2 anos depois.

No Natal de 1223, o monge Bonaventura afirma que ele iluminou uma gruta na cidade de Greccio para lembrar às pessoas sobre o nascimento de Jesus. A referência para isso foi o texto de Lucas: Francesco comprou um burro e um boi para simbolizar a atividade dos pastores, além de tomar uma criança verdadeira para interpretar Jesus, enrolada e deitada dentro de uma manjedoura (repare que isso não faz parte de Lucas). Convidadas as pessoas da cidade, Francesco fez uma calorosa pregação sobre o "bebê de Belém" e encerrou com cantos gregorianos. O efeito foi grandioso: nos anos seguintes, cada vez mais cidades montavam reproduções da "natividade". Até o séc. 19, a tradição se esticou para o interior das casas, mesmo que em pequenas cenas com bonecos.

As árvores de Natal parecem ter se difundido a partir da poderosa influência cultural da rainha Alexandrina Victoria da Inglaterra (reino 1837-1901). Tal tradição originou-se de uma mistura dos troncos de carvalhos acesos no Yule dos Saxões com as árvores enfeitadas de velas na Alemanha do séc. 16, quando começou a Reforma Protestante. Em 1846, foi publicado um desenho da rainha Victoria e sua família ao redor de uma árvore enfeitada, o que transformou a peça em elemento natalino de Ingleses e Estadunidenses.

O Papai Noel fez o caminho contrário, indo da América para a Europa. Na verdade, a lenda de Santa Claus andando sobre os telhados e deixando presentes era antiga na Europa, mas sua figura lembrava muito mais um elfo do que o velho gordinho de hoje. O desenhista de pin-ups Haddon Sundblom encabeçou a campanha publicitária da Coca-Cola nos anos 1930 (ele também criaria o sujeito da aveia Quaker) e converteu o elfo Europeu num velho barrigudo e risonho. Essa imagem foi tão influente que perdura até hoje.

NATAL ANDALUZO

A Andaluzia (sul da Espanha) é um território com participação bem curiosa na História do Mundo. Lá pelo séc. 8, quando a Europa se agrupava em reinos Cristãos, a Andaluzia foi ocupada pelo Islã. Ali se organizou o rico califado de Córdoba, onde os reis Mouros faziam uma ponte comercial entre o mundo Islâmico no norte da África e a Europa Medieval. Esse sistema perdurou até o séc. 15, quando os reinos Católicos tomaram conta de todo território Espanhol.

Entre os sécs. 8 e 15, a Andaluzia foi uma porta para costumes Islâmicos chegarem à Europa e vice-versa. Por exemplo, os Cristãos ali tinham liberdade para seus cultos e igrejas, desde que pagassem um imposto ao Califado. Assim, eles podiam celebrar o Natal (Id al-Milad), comemorado com igrejas muito iluminadas e a "Missa do Galo" durante a madrugada.

A tradição natalina foi absorvida em parte pelo mundo Islâmico, por usar figuras familiares como Jesus (maior dos profetas, depois de Muhammad) e Maria. Dessa forma o Milad Andaluz chegou até o Egito e partes da Arábia.

"Nestes festivais se dão presentes preciosos que escolheram com antecedência e “cidades” [de pão] nas quais formam e inventam várias figuras. Os ricos montam barracas em suas casas como as dos lojistas e as arrumam meticulosamente. ... Mais de um viajante nos disse que em algumas cidades de al-Andaluz essas barracas valem setenta dinares ou mais, pelos quintais [medida antiga] de açúcar que contêm, as arrobas de alfenim, a variedade de frutas frescas, sacos de tâmaras, sacos de passas e figos, de diferentes tipos, espécies e variedades, e todos os tipos de cascalho: nozes, amêndoas, avelãs, castanhas, bolotas e pinhões; cana-de-açúcar, toranjas, laranjas e limas da melhor qualidade. Em algumas cidades fazem caçarola de peixe salgado, na qual gastam até trinta dirhemes, e outras refeições semelhantes (…) Liberam as crianças das escolas e com isso enchem o coração de amor por essas inovações que já criaram raízes.” (Kitab al-Durr al-Munazzam, um livro sobre o código de leis, mas também astrologia, interpretação de destinos, etc).

Uma tradição do Oriente também pode ter ajudado nessa comemoração: a celebração do Mawlid, ou nascimento de Muhammad (fim/Out - início/Nov em 2020 no calendário Ocidental). Os Shiitas comemoravam tal festa, e eram abundantes no Egito, igualmente. De fato, sabe-se de uma grande celebração do Mawlid pelo sultão de Granada (na Espanha) no séc. 14. Também não há documentos indicando a data do Mawlid..

A festa Andaluza até hoje é caracterizada pela missa madrugal, os enfeites nas igrejas e as mesas de doces árabes: alfenins (a nossa bala-de-casamento branca e açucarada), almojabanas (um pão de coalhada e milho), mantecados (lembram os nossos sequilhos, mas geralmente com canela), alfajores (bem-casados, no Brasil), cuenca alajú (uma espécie de pão de amêndoas), girlache valenciana (um pé-de-moleque, mas às vezes feito com amêndoas), etc.

ENQUANTO ISSO, NO BRASIL ANTIGO..

A tradição brasileira importou muitos elementos ingleses no final do séc. 19, que mais ou menos uniformizaram a celebração natalina aqui, na Europa e nos EUA. Isso por si só já é bastante curioso, uma vez que o Brasil, no Natal, tem seu Solstício de Verão. Ou seja, dias longos, muita chuva e calor. No entanto, o Natal importado do mundo inglês é, acima de tudo, um comportamento comercial.

Bem antes do final do séc. 19, o Brasil misturava tradições Portuguesas e das nações Africanas. A parte Lusa era aquela de banquetes públicos, regados a muito vinho, cerveja, aguardente e festas sem dia ou hora para acabar. Faziam parte das comemorações "dança estrepitosa", música, sátiras, procissões religiosas e também de grupos de amigos, desafios versejados e cantos responsoriais.

Nas tradições Africanas que o Brasil importou, não vieram referências ao Natal. No entanto, um elemento do chamado "ciclo natalino" desenvolveu-se amplamente nas colônias Portuguesas e Espanholas: o "Dia de Reis". Essa data (6/Jan) marca a adoração dos Reis do Oriente (segundo o Evangelho de Mateus, 12 dias após o nascimento) ao pequeno Jesus. O texto de Mateus, em verdade, os nomeia no grego como Rabis, o equivalente de um líder de clã que detinha tanto as funções de rei, como sábio, santo e mago.

Seus nomes figuram pelo menos desde o séc. 6 na tradição Cristã (e não no texto Bíblico), provavelmente como um fruto de nomes comuns nas nações orientais que tinham importância aos olhos dos Cristãos romanos: Melchior da Pérsia (mirra), Gaspar da Índia (incenso) e Balthazar da Arábia (ouro). Nem há um registro bíblico de que fossem 3 Rabbis, mas apenas 3 presentes. A tradição dos reis provavelmente vem do Império Bizantino e a citação desses personagens do Oriente teve um profundo reconhecimento por parte dos Africanos no Brasil, que já conheciam o Islã.

Como resultado dessa incrível conjuntura de tradições religiosas, o final do "ciclo natalino" ficou marcado por festas portuguesas de comida, bebida e dança mixadas com tambores e a coroação de um Neuvangue (rei), uma Nembanda (rainha), Manafundos (príncipes), um Endoque (feiticeiro) e todo o cortejo tradicional dos reinos Congos. Isso, em pleno Rio de Janeiro do séc. 18. Tradições semelhantes apareceram em Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Sul.

"Não há quem tenha perlustrado as províncias do Norte, que não se recorde de um grupo de negros, vestidos de penas, tangendo instrumentos rudes, dançando e cantando, que, nos dias de festas populares, percorre as ruas das grandes cidades e pequenos povoados". (Melo Morais Filho, 1888)

"O Rei e a Rainha, com seus mantos de belbutina escarlate recamados de estrelas, com suas vestiduras cintilantes de lentejoulas e agaloadas, aquele com seu cetro dourado, e esta com seu diadema resplandecente, pisavam garbosos à frente de sua corte, levando dois vassalos as duas coroas, vestidos de capa e espada, ostentando na cabeleira carapinhada e no pontudo topete fios de corais e miçangas, que lhes desciam em voltas como um casco de capacete. O Feiticeiro, desenrolando e enrolando em torno do pescoço enorme cobra, envergando vestimenta de peles e rubro cocar, olhando misteriosamente, volteavam-lhe os antebraços e o colo fieiras de miçangas e de pequenos búzios, entremeados de figas e talismãs, de rosários e bentinhos. ... Uma vez entronizados pelo capelão, que os recebia à porta do templo, coroava-os ritualmente, conduzindo-os à sacristia, onde ouviam ler, marcavam em cruz e faziam assinar o documento oficial da coroação". (Melo Morais Filho, 1888)

Sem dúvida, é curioso como essa celebração afro-Cristã típica do Brasil ligava justamente o Natal dos reis do Evangelho de Mateus aos conflitos Islã/Bizâncio do séc. 8. Um costume brasileiro muito difundido antes do séc. 19 era enviar comida aos amigos. No linguajar mais popular ou pobre, um "pão-por-Deus".

A TRANSFORMAÇÃO DO NATAL

"Dão-se presentes no Brasil especialmente por ocasião das festas de Natal, de primeiro do ano e de Reis. No dia de Natal e no dia de Reis, sobretudo, são de rigor os presentes de comestíveis, caça, aves, leitões, doces, compotas, licores, vinhos, etc. ... Entretanto, entre as pessoas de posses, os presentes de gosto mais apurado são mandados em bandejas de prata com toalhas de musselina muito finas, pregueadas com arte e presas com laços de fitas cuja cor é sempre interpretativa, linguagem erótica complicada pela adição engenhosamente combinada de algumas flores inocentes". (Jean Baptiste Debret, início do séc. 19).

O Brasil começou a mudar desde que a Família Real Portuguesa chegou, em 1808. E mudou muito mais com a Independência, em 1822. Tanto um processo como outro firmaram um pacto comercial entre Brasil e Inglaterra que teria grandes consequências culturais. Em especial, faria as populações urbanas entrarem em crescimento.

Na 2ª metade do séc. 19, o enrijecimento de costumes na Europa, em especial na Inglaterra, levou à transformação da Saturnália Natalina de Portugal em celebração religiosa-familiar. Ao mesmo tempo, Portugal e Inglaterra entravam na fase de francos assalto/destruição das nações Africanas. Congo caiu em 1857, Mali em 1890.

O Brasil tinha deixado de receber novos Africanos em 1811; após a Independência ocorreram diversos conflitos com os Portugueses vivendo aqui. Isso fez com que as tradições natalinas se desligassem tanto da Europa quanto da África, para só reencontrar eles nos meados da 1ª Guerra Mundial. Esse reencontro, via chegada de imigrantes Alemães, Italianos e Japoneses fugidos da Guerra, trouxe para cá as novas tradições européias. Árvores de Natal, presentes industrializados e até São Nicolau cruzaram o Atlântico, apesar da patente falta de neve no dia mais ensolarado do ano.

"O que é o Natal para você, senão a época de não ter dinheiro para pagar sequer suas contas? A época de se dar conta de que está um ano mais velho e nem uma hora mais rico; o momento para fazer um balanço nos livros de contabilidade e ver que cada item, nestes doze últimos meses, só lhe trouxe prejuízo? Por mim – continuou Scrooge, indignado –, cada idiota que saísse por aí desejando Feliz Natal deveria ser fervido, misturado junto com seu bolo de Natal e enterrado com um galho de pinheirinho no coração, isso sim! ...Muitas coisas boas coisas me aconteceram sem que eu tirasse proveito algum, e o Natal é uma delas – replicou o sobrinho. – Apesar de ser uma festa sagrada, não a vejo somente assim, mas também como uma época muito agradável: uma época de gentileza, perdão, caridade e alegria. A única que eu conheço, no longo calendário do ano, na qual homens e mulheres parecem abrir de boa vontade seus corações fechados e pensar nas pessoas mais pobres como seus legítimos companheiros na viagem para o túmulo, e não como uma raça estranha, viajando para um outro lugar. Por isso, titio, embora o Natal nunca tenha colocado uma moeda de ouro ou de prata no meu bolso, ainda acho que ele me fez – e fará, ainda – muito bem. E que Deus o abençoe!" (Charles Dickens, "A Christmas Carol", Inglaterra, 1843)

O Novo Natal também trazia festas familiares e tudo que a vida urbana poderia fornecer. Nos centros urbanizados desapareceram os jantares públicos, inclusive os promovidos pelas igrejas, mas algo da festança original sobreviveu, lá pelos sertões do Brasil.

"Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes…), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. ... Era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. ... havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. ... E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que, com meus “gostos” já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês." (Mário de Andrade, "O peru de Natal", São Paulo, 1942)

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¹ O padre jesuíta Igartua, em sua excelente obra Los Evangelios ante la Historia, dá um pormenorizado informe sobre o “atraso” no calendário oficial. Eis aqui o estudo de J. M. Igartua: “1. Jesus nasceu nos tempos de Herodes, o Grande, segundo os próprios Evangelhos (Mt 2.1 e Lc 1.5). Mas Herodes morreu antes do ano 1, logo é necessário antecipar a data do nascimento de Cristo. 2. Em que ano morreu Herodes? Chegou-se à precisão através do historiador judeu Flávio Josefo. O ano em que Herodes começou a reinar é fixado por ele, conforme a contagem grega existente, como sendo a 184ª Olimpíada. O intervalo entre as Olimpíadas era de 4 anos – o que dava um total de 736 anos desde a fundação do consulado romano de Cneu Domicius Calvinus e Caius Asínio Polion (Ant. Jud., XIV, 14, 5). Mas ainda não se pode estabelecer a Era Cristã, pois não temos ainda dados de correlação entre ambos os cálculos cronológicos. 3. A duração do reinado de Herodes é dada pelo historiador Josefo como sendo de ‘34 anos depois que matou seu opositor Antígono e 37 anos desde que recebeu o reinado dos Romanos’ (Ant. Jud., XVII, 8, 1). A morte de Herodes I ocorreu cinco dias depois de ordenar a execução de seu próprio filho, Antípatro. Continuamos, porém, na mesma incerteza sobre a correlação com a Era Cristã. Os 736 anos gregos (na 184ª Olimpíada) se correlacionam com os anos Romanos. Segundo Varron, a fundação de Roma se deu no ano 23 das Olimpíadas, e equivalem assim a 736-23 = 713 desde a fundação do Consulado. Como Josefo acrescenta que Herodes reinou 37 anos, somando estes aos 713 temos 750 para o ano romano de sua morte. Como emparelhar agora com a Era Cristã? 4. Providencialmente, um dado quase perdido no conjunto permitiu que se estabelecesse a correlação. Pois Josefo (Ant. Jud., XVII) narra a ocorrência de um ataque dos extremistas religiosos ao Templo contra as insígnias romanas, dirigido pelos doutores da Lei e executado por audazes jovens, a não mais de um mês da morte de Herodes. Este, que mesmo doente, ainda tinha surtos de crueldade, mandou queimar vivos os dois doutores e alguns dos jovens atacantes, e nesse mesmo dia de sua execução – conta Josefo – houve um eclipse da Lua, que foi interpretado como sinal celeste contra Herodes, acrescendo que sua morte ocorreu na Páscoa. Pois bem, os astrônomos modernos identificaram tal eclipse da Lua, visível na Judéia, no ano 4 a.C., em 13 de março. Temos assim um dado já certo de correlação: o ano da morte de Herodes, o Grande, foi o ano 4 a.C., e o nascimento de Jesus deu-se, conforme o que se recorda dos Evangelhos, logo depois. Se acrescentarmos o cálculo de dois anos que fez o próprio Herodes em Mateus, quando mandou matar os meninos menores de 2 anos, terminamos em 6 a.C. (Juan José Benitez).

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PRESENTES LARGADOS NA ÁRVORE

Charles Dickens, Um conto de Natal, 1843.

Francis of Assisi - wikipedia

Gretchen Filz, The Story of St. Francis of Assisi and the First Nativity Scene, as told by St. Bonaventure, catholiccompany.com, 20/dez/2016.

Haddon Sundblom, o criador do moderno Papai Noel, revistapress.com.br, n. 182.

History of Christmas, History.com, 27/out/2019.

Jean-Pierre Isbouts, Who were the three kings in the Christmas story?, nationalgeographic.com, 24/dez/2018.

Juan José Benitez, Operação Cavalo de Tróia 2 - Massada, Ed. Planeta do Brasil, 2014.

Mabel Villagra, As comemorações de Natal e Ano Novo na Ibéria Islâmica (al-Andaluz), historiaislamica.com.br.

Mello Moraes Filho, Festas populares do Brazil, Ed. Garnier, 1888.

NEPOMUCENO, Nirlene. Celebrações negras do ciclo natalino - Teias da diáspora em áreas culturais do Brasil e Caribe. Tese de doutorado em História Social na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2011.

O Natal no Brasil de antigamente, historiahoje.com.

Pope Julius I - wikipedia

Presentes e Costumes de Natal no Século 19, riodejaneiroaqui.com

The History of Christmas, english-heritage.org.uk

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