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domingo, 7 de janeiro de 2018

Jesus naturalista

"Worlds without end", do artista Greg Olsen

Esse texto foi escrito sobre a base do belíssimo livro Celebrating the Wonder of Creation, de Martin R. De Haan II, RBC Ministries, 2004. Quando li a obra, antes mesmo que ela fosse organizada em um livro, teve um impacto profundo em mim. Recomendo a todos.

Hoje, faz parte da educação (em quase todo mundo) a noção de que somos responsáveis pela conservação do ambiente. Essa preocupação surge sobretudo porque a Natureza (personificando ela) sustenta e também vitimiza sobretudo as populações mais pobres: os danos ambientais se refletem na qualidade da água consumida, nos parasitas e toxinas a que as pessoas são expostas, nas terras que podem ser habitadas e cultivadas. Embora a religião seja uma forma de organizar como as pessoas interagem, em geral a relação dos homens com o ambiente é uma consequência e um foco secundários da religião. A participação Cristã nesse movimento, por exemplo, só começou após 19 séculos, com a Igreja Apostólica da Armênia plantando 100 hectares de floresta, baseada na necessidade de “cuidar da Criação”. Essa postura da Igreja Apostólica Armênia é mantida até hoje.

Uma força religiosa dentro do “Movimento Ambiental”, desde o final do séc. 20, foram os grupos New Age, que tentam recuperar elementos de crenças nativas (não Cristãs) das Américas e da Europa. Em especial, podemos citar a comunicação com espíritos ou entidades da Natureza que igualam homens, animais, plantas, etc e lembram, de alguma forma os cultos de Baal e Asherah na Canaã antiga (ver texto História do nome de Deus). Como resultado da luta Judaica contra esses cultos no séc. 7 a.C. e depois a luta Cristã contra os deuses celtas (associados a locais sagrados) no séc. 5 d.C., restou a imagem do cuidado ambiental sendo um culto pagão à Terra. Mas há uma diferença entre cuidar da Terra “porque ela é seu deus” e cuidar da Terra porque ela “pertence a Deus”. E tal diferença NÃO ESTÁ na forma como você trata a Terra, e sim a Deus. A Bíblia, claro, condena fortemente a 1ª prática, bastante comum nos tempos do Velho Testamento.

Porventura não sois filhos da transgressão, descendência da falsidade, que vos inflamais com os deuses debaixo de toda a árvore verde, e sacrificais os filhos nos ribeiros, nas fendas dos penhascos? (Isaías 57.4,5)

Volta, ó rebelde Israel … Somente reconhece a tua iniquidade, que transgrediste contra o Senhor teu Deus; e estendeste os teus caminhos aos estranhos, debaixo de toda a árvore verde, e não deste ouvidos à minha voz, diz o Senhor. (Jeremias 3.12,13)

De fato, à medida que o Catolicismo marcou a cultura medieval Européia entre os sécs. 4 e 10 d.C., a Natureza tornou-se um representante de Satã, uma tentação sensorial aos homens para afastá-los da espiritualidade. Florestas, lobos, corujas e corvos foram mencionados muitas vezes como imagens do demônio, na literatura da Idade Média. Basta lembrar as lendas e fábulas Européias. A Natureza era vista como maldita desde a queda do homem (Gênesis 3.17) e seu uso era utilitário, ou seja, para satisfazer os desejos dos homens.

No séc. 21, entretanto, as evidências de sofrimento humano associado com danos ambientais fez grupos Cristãos se filiaram ao movimento ambientalista, o que foi chamado de “Esverdeamento dos Evangélicos” e também causou grandes divisões entre os Cristãos. Alguns abraçaram a missão de cuidar da Criação, outros negaram até mesmo a interferência humana nas transformações climáticas recentes, pois estas seriam obras de Deus.

Raízes da repulsão ao cuidado ambiental

No VT, árvores eram sinais de segurança e fertilidade da terra. Por diversas vezes as nações são equiparadas a árvores que crescem ou caem, grandes ou pequenas, com animais abaixo de si ou pássaros em seus galhos. E o destino de tais árvores inequivocadamente pertence a Deus. Apesar disso, o VT também deixa claro que a função das árvores é servir aos propósitos dos homens:

Quando sitiares uma cidade por muitos dias, pelejando contra ela para a tomar, não destruirás o seu arvoredo, colocando nele o machado, porque dele comerás; pois que não o cortarás (pois o arvoredo do campo é mantimento para o homem), para empregar no cerco. Mas as árvores que souberes que não são árvores de alimento, destruí-las-ás e cortá-las-ás; e contra a cidade que guerrear contra ti edificarás baluartes, até que esta seja vencida. (Deuteronômio 20.19,20)

Ao mesmo tempo, o texto bíblico dá a entender que tudo que é vivo sobre Terra, ligado ao homem ou não, depende de Sua bênção:

Não temas, ó terra: regozija-te e alegra-te, porque o Senhor fez grandes coisas. Não temais, animais do campo, porque os pastos do deserto reverdecerão, porque o arvoredo dará o seu fruto, a vide e a figueira darão a sua força. E vós, filhos de Sião, regozijai-vos e alegrai-vos no Senhor vosso Deus, porque ele vos dará em justa medida a chuva temporã; fará descer a chuva no primeiro mês, a temporã e a serôdia. E as eiras se encherão de trigo, e os lagares transbordarão de mosto e de azeite. (Joel 2.21-24)

Preocupações religiosas com a terra

É muito discutível se podemos chamar plantações de Natureza, mesmo sendo plantações de árvores. Mas certamente todos os povos que dependiam de plantações pediram a benção de seus deuses sobre a produção agrícola. Os romanos faziam isso pedindo a Robigus proteção contra as pragas do trigo. Na mesma data de início da Primavera, no séc. 5, os Cristãos de Roma implantaram os "dias de rogação", com peregrinações por entre as lavouras para pedir a benção de Deus sobre as culturas e agradecendo a Ele por Sua provisão. Esta prática foi comum na América do Norte até o século 19.

Só bem recentemente os homens estenderam sua preocupação às terras não plantadas. Em seu ensaio "A idéia de uma sociedade Cristã” (1939), T. S. Eliot¹ escreveu: "Uma atitude errada em relação à Natureza implica, em algum lugar, uma atitude errada em relação a Deus". No caso do ambiente bíblico, as terras de Jerusalém secaram consideravelmente desde os tempos de Davi (1000 a.C.) pela elevação geológica do terreno, mas também pelo retiro de madeiras durante as batalhas em Canaã. Os montes provedores de pinheiros próximos a Tiro e Sidom foram muito desmatados pelos Fenícios e mais ainda pelos Gregos. Por isso, não há como negar que houve, entre o Velho e o Novo Testamentos, um dano grande à Natureza, que não é de forma alguma abordado na Bíblia. A observação de danos ambientais aparentemente nunca surgiu entre os Judeus, Gregos e Romanos, ainda que uma leitura dos textos bíblicos torne claro que tal devastação seria perceptível ao homem moderno.

Por exemplo, os carvalhos mencionados em Gênesis 12.6 não são mais citados depois, assim como a floresta ao norte de Jerusalém nos tempos de Davi (2ª Samuel 18.6) e os bosques frondosos a que Isaías e Ezequiel se referem. No Novo Testamento, as únicas árvores silvestres mencionadas são os sicômoros/figueiras à beira das estradas. Nenhum bosque natural ou floresta é mencionado.

Questionamentos

Se pensarmos que a deterioração do ambiente leva ao empobrecimento dos solos, escassez de alimentos e piora na qualidade da água, o homem moderno poderia se preocupar com isso, e não os moradores de Canaã nos tempos bíblicos, mas e quanto a Deus? Teria Ele se ofendido tanto com o culto de Asherah que fechara os olhos para o Seu povo destruindo Sua obra impune- ou inconscientemente, com prejuízo para as próprias gerações futuras?

O célebre mandamento “Amai ao teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 19.19, Marcos 12.31, Lucas 10.27, não tem em João) poderia, dado o que sabemos hoje sobre a interação entre as pessoas e o ambiente, incluir a preservação ambiental. Talvez a preservação da Natureza fosse até um ponto importante desse mandamento. Mas, ao mesmo tempo, o Apocalipse de João fala sobre a destruição desse mundo e sua substituição por outro, melhor, onde os filhos de Deus viverão (Apocalipse 21.1). Logo seria gentil, mas não necessário, nos preocuparmos com o ambiente.

Pela mesma palavra [de Deus] os céus e a terra que agora existem estão reservados para o fogo, guardados para o dia do juízo e para a destruição dos ímpios … Os céus desaparecerão com um grande estrondo, os elementos serão desfeitos pelo calor, e a terra, e tudo o que nela há, será desnudada … Naquele dia os céus serão desfeitos pelo fogo, e os elementos se derreterão pelo calor. (2ª Pedro 3.7-12)

Isentando a Bíblia

Em outras palavras, a Bíblia não traz instruções, não aprova nem desaprova objetivamente investir esforços para preservar o ambiente, apesar das implicações sérias na vida das pessoas. Algumas interpretações simples disso seriam (1) Deus ignora as interações entre ambiente e pessoas; (2) Deus não interfere ou não se importa com o que fazemos uns aos outros; (3) os autores bíblicos nunca lidaram com problemas ambientais; (4) não importa conservar ou não, mas como isso é feito.

A primeira afirmação é facilmente contestada por passagens do Êxodo onde Deus conduz Seu povo para uma terra cuidada por Ele mesmo e Moisés institui regras que são descaradamente medidas sanitárias (ex. não consumir a carne de certos animais vetores de parasitoses, sepultar os mortos longe do acampamento, banhos de purificação, etc).

A segunda afirmação bate diretamente contra o caráter legislativo de vários livros do Velho e Novo Testamentos, às vezes super-valorizado pelas Igrejas Protestantes de hoje, como eram pelos Fariseus e Saduceus.

Quanto à terceira afirmação, o VT associa pestes, fome, sede, etc com punições divinas (por ex. as que foram invocadas sobre o Egito e sobre Jerusalém), não indagando qualquer causa humana para elas. No NT, centrado no mundo Romano, uma das poucas fomes na Judéia anotadas (ver Atos 11.28-30) se deu em 45-46 d.C., no curto reinado de Claudius. Ao invés de indagar causas, o texto bíblico apresenta reações da Igreja. Essa visão “anterógrada” do NT (isto é, do acontecimento para frente) também norteia a quarta afirmação, onde importam as escolhas feitas nas ocasiões de calamidades, não o que gerou elas. Tal mudança (observar respostas ao invés de causas) tem a ver com a vinculação dos textos bíblicos primeiro à realeza Judaica (de forma que os governantes eram responsáveis/causadores dos problemas ambientais) e depois a um grupo submisso, os Cristãos, vítima das decisões Romanas nas quais não tinha participação.

O texto bíblico, quando muito, vê as catástrofes ambientais como ferramentas de Deus para punir o Seu povo, excluindo por completo a participação humana (ex. exploração excessiva de recursos, superpopulação, má higiene, mal uso do solo, etc). A responsabilização das pessoas pelo ambiente, na Bíblia, simplesmente não existe. Ela está substituída por uma responsabilidade humana quanto ao culto correto/nacional de Deus, enquanto o próprio Senhor organiza o que chamamos de Natureza. Para os povos pagãos (ex. Cananeus, para não ir muito longe), a Natureza era uma manifestação viva de seus deuses, de forma que a ação religiosa e o cuidado ambiental eram quase a mesma coisa. Não impressiona a preocupação com áreas naturais ter nascido dentro do Paganismo e dentro do Cientificismo (séc. 18), mas não no Cristianismo.

Extrapolando as Escrituras

Não só o Cristianismo, mas também o Islamismo deixa de conter em suas Escrituras mais fundamentais a semente de uma ação ambiental. Apesar disso, num e noutro parece que os ideais partilhados foram além das Escrituras.

E, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa. Se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes. ... Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus. (Mateus 5.40-44)

E, vendo Jesus que ele [o jovem rico] ficara muito triste, disse: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! (Lucas 18.24)

E [os Cristãos] perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações. (Atos 2.42)

O ideal de vida simples e comum, longe de riquezas, aparece desde escritos pós-bíblicos muito antigos, como o Pastor de Hermas. Nesse livro, é desenvolvida a idéia de que Deus ouve somente aos pobres. No séc. 4, o conceito de simplicidade e do luxo como inimigo da fé foi aperfeiçoado por Santo Agostinho e norteou o modo de vida ao longo de toda Idade Média. Esse ideal de “dividir, ter somente o necessário”, embora não claramente ligado à proteção ambiental, se vincula a ela pelo fato de que as grandes devastações, mesmo na Antigüidade, estiveram ligadas à cobiça por poder ou riquezas. Essa exploração desnecessária do ambiente é movida pelos ricos/poderosos no sentido de obter mais do que lhes é necessário e pelos pobres no sentido de compensar o que lhes é tirado pelos ricos, conforme defendido por Richard Foltz, estudioso de cultura do Oriente Médio.

Desse modo, ao minar tanto a distinção de classes quanto o enriquecimento, a prática Cristã (e entendamos isso fora da Igreja) favoreceu indiretamente a conservação ambiental. O mesmo ocorreu no Islã: embora o al-Quran não aborde diretamente o tema, também os ensinos de Maomé revelam uma preocupação com sustentabilidade, qualidade de vida e respeito pela Criação. Nos Hadiths, ou ensinamentos do Profeta, há instruções sobre não jogar excrementos nas águas, não permitir que animais o façam, não desperdiçar água mesmo para purificações rituais, manter a fertilidades dos solos, substituir cada árvore velha derrubada por uma nova, etc. Apesar da base ambientalista mais aprimorada que os Cristãos, que assistiram a depredação da paisagem bíblica, os Islâmicos também participaram na devastação das Cruzadas e, recentemente, assistiram o desaparecimento do mar de Aral (Cazaquistão / Uzbequistão) pelo desvio de rios, a desertificação na África sub-saariana pela retirada de florestas, a queima dos depósitos de petróleo no Oriente Médio, a destruição das florestas na Indonésia e Malásia, além do bombeamento de água subterrânea para agricultura na Arábia Saudita, o que resultou em progressiva salinização do solo. Em outras palavras, nem o Cristianismo ou o Islamismo tiveram atuação ambiental significativa. Quanto a outras religiões, como Induísmo e Budismo, não encontramos uma história de reservação diferente. Aparentemente, somente as tradições pagãs (em sua maioria desaparecidas) foram significativas em proteger os recursos naturais.

No séc. 13, em plena Idade Média, uma contribuição ao ambientalismo Cristão foi dada por Giovanni di Bernardone, mais conhecido como São Francisco de Assis. Após iniciar um movimento de pregação entre os leprosos e os mais pobres da região de Assis, na Itália, ele desenvolveu uma liturgia baseada na irmandade de toda Criação - homens, plantas e animais - perante Deus, o que dava um novo sentido ao “dominar” do texto de Gênesis. Além disso, a imagem e semelhança de Deus deveria cuidar, e não explorar os demais seres. Apesar de não ser uma prática Cristã até a atualidade, não é difícil entender a inspiração de Francisco:

Então disse Deus: "Cubra-se a terra de vegetação: plantas que dêem sementes e árvores cujos frutos produzam sementes de acordo com as suas espécies". E assim foi. … Deus fez os animais selvagens de acordo com as suas espécies, os rebanhos domésticos de acordo com as suas espécies, e os demais seres vivos da terra de acordo com as suas espécies. E Deus viu que ficou bom. Então disse Deus: "Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais grandes de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão". Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. (Gênesis 1.25-27)



Tudo o que tem vida louve o Senhor! (Salmo 150.6)

É a partir da grandeza e da beleza das criaturas que, por analogia, se conhece o seu autor. (Sabedoria 13.5)

Seu é tudo o que existe nos céus e na terra; e todos quanto se acham em Sua Presença, não se ensoberbecem em adorá-Lo, nem se enfadam disso. Glorificam-No noite e dia, e não ficam exaustos. (Sura 21.19-20)

[Pedro] Olhei para dentro dele e notei que havia ali quadrúpedes da terra, animais selvagens, répteis e aves do céu. … A voz falou do céu segunda vez: ‘Não chame impuro ao que Deus purificou’. (Atos 11.6-9)

Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas. (Romanos 1.20)

A percepção de Deus através da Criação certamente impõe uma restrição ao uso utilitário dos recursos naturais. Essa percepção aparece sutilmente no Judaísmo, no Islamismo e apareceu no modo simplório dos Benedictinos (séc. 6 d.C.). Como regra, os Benedictinos organizaram a vida medieval sobre um sentido de humildade que refreou bastante a exploração ambiental característica dos tempos Romanos. Francisco foi educado dentro dessa visão.

Grande parte da influência dele sobre o Cristianismo (ele é, no Catolicismo, a 3ª figura mais reverenciada, depois de Maria e Jesus) se deu a partir da popular obra Fioretti (Pequenas flores), de Frei Ugolino Brunforte, no final do séc. 14. A obra apresenta 53 pequenas lendas/estórias sobre a vida de Francisco, muitas das quais envolvem milagres como desafiar e amansar um lobo perigoso. Essa coleção de textos resgatou uma ligação religiosa entre o homem e a Natureza na época, permitindo um vislumbre de ambientalismo enquanto as florestas da Europa e do Oriente Médio eram derrubadas pela nascente nobreza. Francisco também absorveu valores do contato com o Islã nos reinos Mouros e nas terras envolvidas nas Cruzadas. Mas sua influência foi limitada pelo seu tempo: muitos historiadores vêem Francisco, Anselmo de Canterbury² (séc. 11), Hugh de Lincoln³ (sec. 12) e Ramon Lull* (séc. 13) como mentes libertas do pensamento medieval.

Hoje, os Cristãos envolvidos com movimentos ambientais reforçam o fato de que Deus apreciou Sua criação mesmo antes de fazer os humanos e, portanto, a Criação é valiosa a Deus mesmo sem o homem. Outro argumento está na legislação Mosaica sobre a terra não poder ser vendida em absoluto, pois não pertence ao homem (Levíticos 25.23). De forma análoga à maldição sobre a terra por causa de Adão, em diversas ocasiões Deus arrasou a terra para punir os homens e, assim, o destino de um e outro estariam ligados. Infelizmente, mesmo quando vemos pessoas poderosas se filiando ao Cristianismo, não vemos a adesão delas no sentido de reverter sequer explorações trabalhistas (isto é, de humanos sobre humanos), quanto mais de reverter explorações ambientais. Isso significa mais ou menos que o Cristianismo aceita inimigos da filosofia Cristã (que não é claramente ambientalista), ao invés de moldá-los.Tal cisão entre a filosofia e a prática Cristãs não é diferente noutras religiões, exceto as mais pagãs.

Compartilharemos o mundo com as gerações futuras

Guardai e buscai todos os mandamentos do Senhor vosso Deus, para que possuais esta boa terra, e a façais herdar a vossos filhos depois de vós, para sempre. (1ª Crônicas 28.8)

Mas, se alguém não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da sua família, negou a fé, e é pior do que o infiel. (1ª Timóteo 5.8)

Na década de 1980, costumava-se chamar a geração mais nova de "Geração do Eu" ou "Geração do agora". Via-se uma atitude perturbadora entre os jovens que, em essência, era "Eu quero tudo, e quero agora". Considerando a ganância e o materialismo que a geração mais jovem viu nos adultos do anos 1980, as milhares de horas de exposição ao consumismo, a perda de interesse na história, a desintegração dos valores familiares e religiosos, é compreensível que eles se caracterizem pelo Egocentrismo. Isto é, uma preocupação maior com o Eu do que com o restante do mundo.

Contraste isso com o que chamamos Altruísmo - a preocupação com o bem-estar dos outros. Quando os valores de fé em um Deus eterno, compaixão pelos outros, auto-sacrifício e a esperança no futuro desaparecem da cultura geral, há poucas chances de que o Altruísmo sobreviva. Na verdade, a maioria das pessoas hoje provavelmente teria dificuldade em até mesmo definir o termo Altruísmo sem enviesar para uma auto-proteção.

Como as passagens das Escrituras acima indicam, deve haver uma preocupação Cristã quanto a prover seus filhos e deixar para eles uma herança de fé e boa terra. O filósofo-fazendeiro Cristão, Wendell Berry, um consagrado escritor e ambientalista norte-americano, escreveu uma série de livros que ressaltam o amplo significado da terra, animais, vizinhos e familiares na comunidade. Seu trabalho é devotado à manutenção auto-sustentável das pequenas comunidades. Em vários livros e artigos, ele questiona o desdém que as pessoas tiveram e têm com suas terras e os prejuízos que isso trouxe a elas mesmas, bem longe do serviço de mordomos da Criação. Estas palavras do livro "Para que existem as pessoas?" fazem pensar com mais cuidado no nosso legado:

Não precisamos criar um "mundo do futuro". Se cuidarmos o mundo do presente, o futuro receberá nossa justiça completa. Um bom futuro está implícito nos solos, florestas, pastagens, pântanos, desertos, montanhas, rios, lagos e oceanos que temos agora. A única "futurologia" válida disponível para nós é cuidar dessas coisas. Não precisamos inventar o "futuro da raça humana"; temos a mesma necessidade que sempre tivemos - amar, cuidar e ensinar nossos filhos.

Em “Unsettling of America”, Berry diferencia “exploradores” de “cuidadores”: os primeiros usam a terra e se mudam atrás de novos recursos, enquanto os segundos entendem cada lugar como sua casa, onde um equilíbrio precisa ser mantido. E ele alerta que os primeiros ainda predaram os segundos em toda história, sob o impulso colonialista e capitalista. Em outro livro, "Another turn of the crank", ele escreve:

Não sei de nada que questione tão fortemente a nossa capacidade de cuidar do mundo como nossos atuais abusos. Como podemos cuidar de outras criaturas, nascidas como nós, se abandonarmos as qualidades de cultura e caráter que formam as crianças? Seja qual for o motivo, estamos conduzindo uma espécie de guerra contra elas. Estão sendo abortadas ou abandonadas, abusadas, drogadas, bombardeadas, negligenciadas, mal criadas, mal alimentadas, mal treinadas e mal disciplinadas. Muitos deles não encontrarão nenhum trabalho digno, ou nenhum trabalho de qualquer tipo. Herdarão um mundo diminuído, doente e envenenado. Nós jogamos sobre eles não apenas nossos pecados, mas nossas dívidas. Nós criamos ante eles milhares de maus exemplos - governamentais, industriais e recreativos - sugerindo que o caminho violento é o melhor caminho. E então temos a hipocrisia de ser surpreendidos quando eles carregam armas e usam elas.

Eu gostaria de pensar que ele descreveu não-cristãos. Mas como dito acima, a Bíblia é sutil o suficiente em sua pregação ambiental para que poucas mentes tenham visto essa mensagem e menos ainda a tenham a posto em prática. Tenho medo de ver muitos desses comportamentos e atitudes entre nós. Estamos muito longe de ser a comunidade que protege o presente e assegura o futuro, indiferentes a Deus ou certos de que Ele nos deu toda a Criação para usufruirmos irresponsavelmente. Enquanto vigiamos o retorno de Cristo em qualquer momento, não podemos nos desculpar do dever de entregar a Criação de Deus a nossos filhos. E numa forma capaz de prover-lhes o mesmo que deu para nós.

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¹ Thomas Stearns Eliot (1888-1965) foi um dos maiores poetas modernos da língua inglesa, desde sua mocidade. Após sua conversão ao Cristianismo, ele produziu trabalhos de profundo intimismo e análise das relações entre as pessoas e os lugares onde vivem.

² Anselmo de Canterbury (Inglaterra), Anselmo d’Aosta (Itália) ou Anselme du Bec (França) foi um filósofo Cristão muito atuante na política medieval. Seus trabalhos sobre a natureza de Deus misturavam as lógicas de Aristóteles e de Santo Agostinho, sendo precursores da Reforma Protestante no que se refere à Graça como favor imerecido. Ele não foi propriamente um ambientalista, mas deu significação religiosa ao ambiente quando usou fartamente imagens da Natureza para seu raciocínio, tomando como exemplos peixes, moinhos, gado, etc, assim como castelos, servos e coroas.

³ Hugh bispo de Lincoln ficou famoso, na Idade Média, por desafiar o rei da Inglaterra e cuidar das populações mais desfavorecidas, como leprosos e Judeus, ao invés de endossar guerras. Também não se tratava de um ambientalista, mas suas medidas de proteção aos pobres resgataram valores Cristãos havia muito estavam esquecidos, de forma a preservar áreas onde as populações mais carentes habitavam.

* Ramon Lull ficou famoso por sua argumentação Cristã e pacifista junto aos Islâmicos, na Idade Média. Ao mesmo tempo, ele levou para a Europa diversos valores Islâmicos como o cuidado de áreas naturais, pois se tratavam de presentes de Deus aos homens.

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Escritos sem papel
  1. Altman N, Sacred water: the spiritual source of life, cap. 2, ed. Hiddensping, 2002.
  2. Any mentions of Environmental protection in Bible?, Christianity Stack Exchange, 2013.
  3. Berry W, Another Turn of the Crank: Essays, cap. “Conserving forest communities”, Counterpoint Press, 2011
  4. Berry W, The unsettling of America, Ed. Counterpoint, 1977.
  5. Carr S, Anselm of Canterbury - a writer to discover, Placefortruth.org
  6. Christian views on environmentalism - wikipedia
  7. Chuvieco E, Religious approaches to water management and environmental conservation. Water policy, 14(S1), 9-20, 2012.
  8. Eliot TS, The idea of a Christian society, 1939.
  9. Francis of Assisi - wikipedia
  10. Goldberg GJ, New Testament parallels to the works of Josephus, The Flavius Josephus home page.
  11. Haan MR, Celebrating the Wonder of Creation, RBC Ministries, 2004.
  12. Harden B, The greening of Evangelicals, Washington Post, 6 fev 2005.
  13. Hermas, Pastor de Hermas.
  14. Kula E, Islam and environmental conservation. Environmental Conservation, 28(1), 1-9, 2001.
  15. Mahoney K, Bible Verses About Protecting the Environment, ThoughtCo., 2017.
  16. Oosthoek KJ, The Role of Wood in World History, Environmental history resources, 1998.
  17. Sorrell RD, St. Francis of Assisi and Nature: tradition and innovation in Western Christian attitudes toward the environment, Introduction, Oxford University Press, 1988.
  18. St. Hugh Of Lincoln, The Oxford Companion to British History, 2002.
  19. The famine which took place in the reign of Claudius, Church History - Eusebius Pamphilius, Biblehub.com
  20. Ugolino B, Little flowers of St. Francis of Assisi (Fioretti), séc. 14.

sábado, 11 de novembro de 2017

A guerra das árvores - uma nova visão da política de Canaã

À esquerda, um desenho raro de William Jenk Morgan, mostrando o profeta Aías amaldiçoando a esposa de Jeroboão. À direita, mapa de Israel dividida.

Foram uma vez as árvores a ungir para si um rei, e disseram à oliveira: Reina tu sobre nós. Porém a oliveira lhes disse: Deixaria eu o meu azeite, que Deus e os homens em mim prezam, e iria governar as árvores? Então disseram as árvores à figueira: Vem tu, e reina sobre nós. Porém a figueira lhes disse: Deixaria eu a minha doçura, o meu bom fruto, e iria governar as árvores? Então disseram as árvores à videira: Vem tu, e reina sobre nós. Porém a videira lhes disse: Deixaria eu o meu mosto, que alegra a Deus e aos homens, e iria governar as árvores? Então todas as árvores disseram ao espinheiro: Vem tu, e reina sobre nós. E disse o espinheiro às árvores: Se, na verdade, me ungis por rei, vinde, e confiai-vos debaixo da minha sombra; mas, se não, meu fogo consumirá até aos cedros do Líbano. (Juízes 9:8-15)

Hoje, há muito deserto na região da Síria, Líbano e Israel. Mas a desertificação dessas áreas é obra humana e ocorreu principalmente na Idade Média, com a devastação de florestas para construir castelos e armas durante as Cruzadas (séc. 9-12), durante o domínio romano (séc. 1 a.C.-5 d.C) e também devido ao comércio de madeira que abastecia os navios fenícios no mundo antigo. Áreas como Israel, no período romano e ainda mais nos tempos do Velho Testamento, era uma "terra de leite e mel" repleta de grandes florestas de carvalho e pinheiros, fechadas o suficiente para que exércitos não pudessem passar por ali.

O entorno de Jerusalém, ainda mais, é um terreno montanhoso, como quase toda Judéia. Os vales eram férteis e os topos das montanhas ao norte eram rodeados de grandes árvores e abrigaram pequenas vilas, que se tornaram cidades fortificadas na Era do Bronze (3200 – 1200 a.C.) mais ou menos como a famosa Tróia dos gregos. Esse foi o período em que se organizaram as 12 tribos de Israel, como reinos dividindo espaço com as nações cananéias Moab, Amon, Filístia, Edon, Fenícia e Aram. Freqüentemente as cidades-estados guerreavam entre si ou eram subjugadas por uma nação maior. Os livros de Josué e 1ª Samuel estão cheios de narrativas dessas batalhas.

Davi estendeu seu reinado a partir do sul, na fronteira com a Filístia. Durante seu reinado (aprox. 1000 a.C.), a região de Jerusalém (Jebus-Shalim são referências ao povo e ao deus cananeu do sol poente) foi conquistada dos Jebuseus. Ao sul da montanha de Jerusalém estava a fortaleza-templo de Sião. Jerusalém era, até então, a fortaleza mais impenetrável daquela área, que resistiu aos ataques israelitas desde os tempos de Josué (1400 a.C.). Os habitantes que sobreviveram ao ataque foram finalmente feitos servos nos reinados de Davi e Salomão. Junto com Jerusalém, outras fortalezas ao redor foram tomadas:

Porém Davi tomou a fortaleza de Sião; esta é a cidade de Davi. ... Assim habitou Davi na fortaleza, e a chamou a cidade de Davi; e Davi foi edificando em redor, desde Milo para dentro. (2ª Samuel 5.7-9, 1ª Crônicas 11.7-8)

No livro de Juízes, há várias referências à “casa de Milo”, formada por nobres/sacerdotes cananeus, assim como as estelas dos reis cananeus trazem lembranças de batalhas contra a “casa de Davi” (Juízes 9). Aparentemente, Davi se aproveitou das fortalezas de tijolos ao redor para erguer uma grande muralha envolta de Jerusalém, ou mais propriamente várias muralhas, que aproveitavam as muralhas mais antigas de outras fortalezas como Milo e Sião. A nova grande capital de seu reino se estendeu por vários montes vizinhos. 

Era uma época de militarismos. Não apenas Davi iniciou a construção de cidades fortificadas, mas também foi seguido por seu único herdeiro vivo, Salomão. Entre uma coisa e outra, nos anos finais do reinado de Davi, os príncipes de Israel mataram um ao outro e um deles, Absalão, até tentou tomar-lhe o trono. Salomão, filho do famoso caso extra-conjugal de Davi e Bateseba, formou escolas de sábios para gerenciar o reino (os livros de Provérbios e Salmos são frutos dessas escolas), mas usou como mão de obra para suas construções os povos conquistados. Foram criados novos tributos ao seu povo, a fim de pagar pelos materiais das muralhas, das fortalezas e pelo sustento dos trabalhadores.

E esta é a causa do tributo que impôs o rei Salomão, para edificar a casa do Senhor e a sua casa, e Milo, e o muro de Jerusalém, como também a Hasor, e a Megido, e a Gezer. Porque Faraó, rei do Egito, subiu e tomou a Gezer, e a queimou a fogo, e matou os cananeus que moravam na cidade, e a deu em dote à sua filha, mulher de Salomão. Assim edificou Salomão a Gezer, e Beth-Horom [casa de Horon], a baixa, e a Baalate, e a Tadmor, no deserto daquela terra. (1ª Reis 9.15-18)

Baalate, ou Balatah, é uma cidade antiqüíssima, citada no Gênesis e situada entre os montes Gerizin e Ebal, provavelmente a ancestral da cidade sagrada de Siquém. Seu nome é uma referência ao carvalho, árvore imensa e possivelmente sagrada para os cananeus que a fundaram. Na narrativa de Abraão (Gênesis 12.6), ele vai até o “carvalho de Moré” na terra de Baalate/Siquém, que é o nome de um lugar. Em Gênesis 33.18, seu herdeiro Jacó vai até a cidade de Siquém e compra uma terra de Hermor, o patriarca local, onde levantou um altar para El. Ambas as narrativas são bem posteriores aos eventos, possivelmente re-escritas a partir dos papiros no Templo nos tempos do rei Josias de Judá (615 a.C.), mas trazem algo sobre a ocupação humana na área, que cresceu de um povoado para uma cidade. Existem resquícios humanos ali de 5000 a 1150 a.C. , depois a área ficou desabitada até 950 a.C., quando foi re-construída. Tal obra coincide com os reinados de Davi e Salomão.

MEIO AMIGOS

De fato, os israelitas não tomaram Baalate/Siquém. Registros egípcios (as cartas de Amarna, sobre as colônias egípcias em Canaã) falam dos filhos de Lab’ayu (Labão?) entregando Siquém aos Hapiru (Hebreus) nos tempos de Josué. Provavelmente se tratava de uma cidade sagrada em ruínas ou semi-desabitada, que foi favorecida por riquezas e comércio dos israelitas. Em Gênesis 34, um filho de Hemor (chamado Siquém) estabelece tratado de paz com Jacó, sendo circuncidados ele e sua família. A narrativa também é tardia (se bem que os egípcios usassem a circuncisão), mas não há qualquer registro de batalhas entre Baalate/Siquém e os israelitas.

Seria surpreendente se a Tadmor das obras de Salomão fosse o oásis de Tadmor, na Síria. O nome é uma referência às palmeiras que crescem ali. Esse grande oásis foi mais tarde ocupado pelos romanos e transformado numa bela e importante cidade de entreposto entre Roma e a Pérsia, chamada Palmira,  cheia de aquedutos, praças e pórticos de pedra, de onde também vem o nome "palmeira". A Tadmor dos romanos era de fato no deserto, mas bem distante de Jerusalém, o que significaria que Salomão estendeu fortalezas até a 200 Km de sua capital.

Josué esteve em Siquém, sem um relato de batalha. Embora pensemos usualmente em um domínio militar e religioso dos locais no movimento de “invasão” de Canaã pelos israelitas, tudo indica que foi mais uma ocupação de governos, com estabelecimento de tratados políticos e manutenção das populações locais, como seu um certo “partido político” se tornasse influente na região. Estudos arqueológicos recentes, por exemplo, mostram uma presença de 94% do DNA cananeu antigo (extraído de esqueletos de 1700 a.C., anteriores portanto Êxodo em 1500-1400 a.C.) no DNA de populações atualmente presentes em Canaã. Isso vai completamente contra o ideal de genocídio dos cananeus apresentado no livro de Josué. Em Siquém, Josué ergueu um altar (Massebah) de pedra que pode ser visto até os dias atuais (Josué 24), simbolizando o governo israelita e seu Senhor, mas referências posteriores citam em Siquém as casas de Baal-Berith e Milo (Juízes 9.4), que são famílias de nobres e sacerdotes dos deuses cananeus. Também há sinais dos cultos cananeus mantidos por ali, conforme a nomeação “casa de seu deus” quando o texto bíblico diz que se refugiaram do governo israelita.

O texto de juízes até nomeia um templo-fortaleza do deus Berith que foi destruído pelo juiz/rei Abimeleque. As ruínas dessa estrutura foram encontradas por arqueólogos e revelaram se tratar de um imenso templo, na verdade o maior da Canaã antiga, construído por volta de 1700 a.C., antes da dominação egípcia sobre a região. A camada de cinzas relativa ao incêndio causado por Abimeleque em 1125 a.C. também estava presente, confirmando que, embora não tão ruins, as relações entre cananeus e israelitas não eram sempre pacíficas.

A mistura entre as culturas israelita e cananéia se mostra ainda no status de Siquém como cidade sagrada, que se manteve para além da destruição do grande templo na época dos Juízes (1350-1050 a.C.) e até para além do reinado de Salomão (970-930 a.C), pois seu herdeiro Roboão foi a Siquém para ser coroado e honrado pelas famílias reais da Judéia (1ª Reis 11.43, 2ª Crônicas 10.1).

REIS, NOBRES E PROFETAS

Em Israel, os profetas (ex. Balaão, Samuel, etc) tinham grande influência sobre o povo e por isso mesmo eram mantidos próximos pelos líderes. Tais profetas pareciam residir nos templos israelitas e cananeus, onde recebiam ofertas variadas como pães, bolos e mel (1ª Reis 14.3), ou mesmo casas (1ª Samuel 7.17) pelas suas consultas. Saul, por exemplo, foi eleito rei pela influência do profeta Samuel de Siló. Saul tentou manter Samuel próximo a sua corte e, quando esse se afastou (conforme sugerido pelo texto bíblico, devido a tentativas de Saul de assumir a função religiosa), apontou a Davi como novo rei. 

Continuando a militarização iniciada por Davi, Salomão havia imposto tributos mais pesados ao povo para a construção do Templo, diversas muralhas ao redor de Jerusalém e fortalezas. Além disso, nomeou contramestres e obreiros para suas obras, que presidiam sobre servos cananeus:

Dos seus filhos, que ficaram depois deles na terra, os quais os filhos de Israel não destruíram, Salomão os fez tributários, até ao dia de hoje. Porém, dos filhos de Israel, Salomão não fez servos para sua obra (mas eram homens de guerra, chefes dos seus capitães, e capitães dos seus carros e cavaleiros). Destes, pois, eram os chefes dos oficiais que o rei Salomão tinha, duzentos e cinqüenta, que presidiam sobre o povo. (2ª Crônicas 8.8-10)

Os textos de 1ª Reis e 2ª Crônicas, por outro lado, indicam que havia israelitas trabalhando (e não só presidindo) nas obras de Salomão:

E esta foi a causa por que [Jeroboão] levantou a mão contra o rei: Salomão tinha edificado a Milo, e cerrou as aberturas da cidade de Davi, seu pai. E o homem Jeroboão era forte e valente; e vendo Salomão a este jovem, que era laborioso, ele o pôs sobre todo o cargo da casa de José. (1ª reis 11.27-28)

E lhe falou [o rei Roboão]: “Meu pai agravou o vosso jugo, porém eu ainda aumentarei o vosso jugo; meu pai vos castigou com açoites, porém eu vos castigarei com escorpiões.” (1ª Reis 12.14, 2ª Crônicas 10.11)

A fim de manter a paz entre esses servos, provavelmente como seus antecessores, Salomão tolerava os templos e cultos cananeus. Os impostos pesados, no entanto, começaram a estimular revoltas populares que conseguiram o apoio de profetas como Aías de Siló. Esses movimentos populares deram autoridade a Jeroboão (Je-roboão, filho de Roboão), um dos encarregados de Salomão, que se tornou líder popular e por fim foi nomeado em 920 a.C. como novo rei pelo profeta Aías (1ª Reis 11.29-31). Ao contrário de Saul, cuja casa e exército foram derrotados pelas tropas de Davi, Roboão assumiu o trono de seu pai Salomão e manteve as tribos do sul unidas a ele.

DUAS REALEZAS

A “casa de José” era uma das famílias reais israelitas, constituída pelas tribos de Efraim e Manassés. A casa de José comandava uma faixa muito fértil de terras entre o rio Jordão e o Mediterrâneo, onde estavam situadas as cidades sagradas de Siquém e Siló. Isso indica que tal casa real era extremamente rica e poderosa, o suficiente para desafiar Salomão. Josué, líder da “invasão” israelita em Canaã, pertencia à tribo de Efraim e à casa de José, o que também testemunha a favor do poder de tal família. Salomão e Roboão, por outro lado, eram da igualmente poderosa casa de Judá. A existência de duas famílias mais poderosas na região leva alguns estudiosos a acreditar que, enquanto a casa de José era formada por uma nobreza Hyckso migrando a partir do Egito da 18ª dinastia, a casa de Judá e outras tribos descendiam de famílias reais israelitas/cananéias bem mais antigas, que jamais deixaram Canaã.

Como Saul perseguiu o líder popular Davi em defesa de seu trono, Salomão perseguiu a Jeroboão (1ª Reis 12.1-2). A aliança de Davi com Moab, a tolerância de Salomão com os cananeus e depois a aliança de Jeroboão com a nobreza egípcia fortalecem a teoria de dois centros de poder em Israel. Um deles antigo, mais ao sul, e outro novo e ligado ao Egito, ao norte. Possivelmente é dessa fonte ao norte que falavam as cartas de Amarna, sobre os reinos súditos em Canaã.

Com a morte de Salomão e a ação do profeta Aías de Siló, a tensão entre os dois centros de poder aumentou e por fim Israel foi dividida em 2 reinos: Judá ao sul, com Jerusalém como capital e Roboão como rei, e Israel ao norte, com Samaria como capital e Jeroboão como rei. Diversas vezes os dois reinos entraram em guerra um com o outro.

O texto bíblico é extremamente pesado com Jeroboão, descrevendo-o como um grande pecador. Desse texto sabemos que ele fortaleceu o culto ao deus-boi egípcio Ápis (o mesmo culto contra o qual Moisés lutou), temendo que a influência do templo de Salomão em Jerusalém levasse o povo a seguir o rei Roboão, de Judá. Foram implantados ídolos dourados em forma de boi nos templos de Beth-El e Dan. Ambos eram templos cananeus antigos e, novamente, observamos a força do Egito sobre a casa de José. Em 1ª Reis 13.1, vemos que, assim como era com Salomão, o rei tinha participação nos cultos dos templos. 

Jeroboão também destituiu os sacerdotes da tribo de Levi, que historicamente estavam ligados à unificação de Israel e são sempre apontados como nobres que não possuem terras. Voltando algumas gerações, Jeroboão repetia o pecado que custou o reinado de Saul.

Também [Jeroboão] fez casas nos altos; e constituiu sacerdotes dos mais baixos do povo, que não eram dos filhos de Levi. (1ª Reis 12.31)

A qualquer que queria, [Jeroboão] consagrava sacerdote dos lugares altos. (1ª Reis 13.33)

Jeroboão ainda acabou desafiado por um profeta estranhamente sem nome, chamado diversas vezes de “homem de Deus”, que os textos judaicos fazem supor ser Ido.

Os demais atos de Salomão, tanto os primeiros como os últimos, porventura não estão escritos no livro das crônicas de Natã, o profeta, e na profecia de Aías, o silonita, e nas visões de Ido, o vidente, acerca de Jeroboão, filho de Nebate? (2ª Crônicas 9.29)

No texto bíblico, as ações de Jeroboão se traduziram em o profeta Aías de Siló amaldiçoar ele e sua descendência. Seu filho, Abias, morreu ainda menino, supostamente vítima da maldição.

Antes tu fizeste o mal, pior do que todos os que foram antes de ti; e foste, e fizeste outros deuses e imagens de fundição, para provocar-me à ira, e me lançaste para trás das tuas costas. Portanto, eis que trarei mal sobre a casa de Jeroboão; destruirei de Jeroboão todo o homem até ao menino, tanto o escravo como o livre em Israel; e lançarei fora os descendentes da casa de Jeroboão, como se lança fora o esterco, até que de todo se acabe. (1ª Reis 14.9-10)

A despeito da maldição, outro príncipe – Nadabe – assumiu o trono de Israel (reino do norte) quando Jeroboão morreu, após 22 anos de reinado. Esse tempo não pode ser considerado curto; Roboão, filho de Salomão e rei de Judá, reinou por 17 anos. Em Judá não houve mais solidez do culto a Javé do que no norte. Roboão seguiu o culto da deusa cananéia Asherah, senhora das florestas e às vezes denominada esposa de Baal, deus do trovão e das tempestades. Apesar disso e mesmo invasões do Egito (aliado do reino do norte), Judá não foi amaldiçoado. Afinal, é o texto histórico de Judá que chegou a nós. Os textos do reino do norte talvez se encontrem entre os vários livros perdidos que são citados no Velho Testamento.

FIM DA HISTÓRIA

O reino do norte foi conquistado pelo Império Assírio em 722 a.C. e grande parte da população foi substituída por colonos de outros territórios ocupados. Por isso, os samaritanos (da capital antiga, Samaria) deixaram de ser considerados israelitas pelo povo de Canaã. Eles não receberam essa terra como herança da parte de Deus! O reino do sul, aliado da Assíria e depois do Egito, foi conquistado pelo Império Babilônico (assírios + medos + persas unificados pelo pai de Nabucodonosor) em 586 a.C., quando os nobres, profetas e sacerdotes de Judá foram levados para Babilônia.

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SOBROU ISSO AQUI

A dúvida de Moisés - loungecba.blogspot.com
Jebusite - wikipedia
Jerusalem 3000 - When did King David conquer Jerusalem, Israel ministry of foreign affairs, 1993
Sechem, All about archeology, 2010
Tel Dan Stele - wikipedia
Tribe of Joseph - wikipedia

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Jesus no campo

Brevas: até Jesus queria comer


Eu sempre fui curioso sobre uma certa passagem bíblica... Seguem suas 3 versões nos evangelhos sinóticos abaixo:


Mateus 21
18 E, de manhã, voltando para a cidade, teve fome;
19 E, avistando uma figueira perto do caminho, dirigiu-se a ela, e não achou nela senão folhas. E disse-lhe: Nunca mais nasça fruto de ti! E a figueira secou imediatamente.
20 E os discípulos, vendo isto, maravilharam-se, dizendo: Como secou imediatamente a figueira?
21 Jesus, porém, respondendo, disse-lhes: Em verdade vos digo que, se tiverdes fé e não duvidardes, não só fareis o que foi feito à figueira, mas até se a este monte disserdes: Ergue-te, e precipita-te no mar, assim será feito;
22 E, tudo o que pedirdes na oração, crendo, o recebereis.

Marcos 11
12 E, no dia seguinte, quando saíram de Betânia, teve fome.
13 E, vendo de longe uma figueira que tinha folhas, foi ver se nela acharia alguma coisa; e, chegando a ela, não achou senão folhas, porque não era tempo de figos.
14 E Jesus, falando, disse à figueira: Nunca mais coma alguém fruto de ti. E os seus discípulos ouviram isto.
...
19 E, sendo já tarde, saiu para fora da cidade.
20 E eles, passando pela manhã, viram que a figueira se tinha secado desde as raízes.
21 E Pedro, lembrando-se, disse-lhe: Mestre, eis que a figueira, que tu amaldiçoaste, se secou.
22 E Jesus, respondendo, disse-lhes: Tende fé em Deus;
23 Porque em verdade vos digo que qualquer que disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará aquilo que diz, tudo o que disser lhe será feito.

Lucas 13
6 E dizia esta parábola: Um certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha, e foi procurar nela fruto, não o achando;
7 E disse ao vinhateiro: Eis que há três anos venho procurar fruto nesta figueira, e não o acho. Corta-a; por que ocupa ainda a terra inutilmente?
8 E, respondendo ele, disse-lhe: Senhor, deixa-a este ano, até que eu a escave e a esterque;
9 E, se der fruto, ficará e, se não, depois a mandarás cortar. 

Cronologicamente, as três passagens acontecem enquanto Jesus vai de Betânia e Jerusalém. É um caminho bem curto, de aprox. 6 Km. Qualquer pessoa faria esse trajeto em menos de 2h, por mais gente que houvesse junto. Assim, trata-se de algo que aconteceu rápido. Mateus e Marcos contam sobre um evento, enquanto Lucas fala sobre uma parábola. Muitos estudiosos acham que seria curioso Lucas não se importar com um milagre que os demais acharam tão significativo, especialmente sendo o texto dele justamente a versão mais detalhada dos evangelhos, mas é possível que Lucas simplesmente não estivesse presente ou não compreendesse o que se passou. Lucas afinal era um homem urbano, enquanto a passagem é toda em ambiente rural. Muitos pensam que Lucas escrito sua versão muito tempo depois (o livro de Atos provavelmente é obra dele, também), baseando-se nas suas observações e no texto de João Marcos, o que seria de fato o trabalho de um estudioso.

Quase todos os estudiosos dão a Marcos a marcação mais precisa dos fatos referentes à vida de Jesus. Sendo assim, temos realmente uma figueira amaldiçoada por não dar figos fora da estação de figos! Sempre me perguntei se Jesus não estaria tendo um mal-dia, quando secou a pobre planta. Para minha surpresa, porém, descobri que era costume dos judeus viajantes comerem das figueiras quando não era estação de figos... Como?!

A figueira produz pelo menos duas safras de figos, cada ano. A primeira safra vem no fim do inverno, antes de as folhas rebrotarem: são figos disformes, bem grandes mas de pouco sabor, que nascem abaixo da nova folha (os figos "verdadeiros" nascem acima da folha). Nos lugares mais frios, esses figos temporões de menor qualidade costumam ser destruídos pelo frio do final de inverno. Nos climas mais moderados, porém, eles crescem e até são colhidos. Em abril, quando Jesus ia para Jerusalém, era época dos figos temporões. Achei muita gente citando o nome árabe TAQSH para esses figos, porém todos tiveram uma única fonte, que é o livro Hard Sayings of the Bible, Kaiser Jr WC et al, num trecho de Bruce FF. Por isso, não posso assegurar nem que a palavra TAQSH realmente não seja uma invenção desse Bruce FF. No vocabulário latino, esses figos são chamados brebas ou brevas.

O figo brasileiro é uma planta baixa, sempre feminina. No Oriente Médio, porém, são árvores de médio porte masculinas (frutos não comestíveis) e femininas (frutos comestíveis). Fato é que Jesus estava procurando brebas para comer, enquanto passava ensinamentos a todos quanto o seguiam (o texto de Lucas deixa isso muito claro). Não achando brebas, isso significava que aquela figueira não daria figos naquele ano, que era estéril. Vírus, bactéria, falta de esterco... as causas podiam ser várias, mas Jesus tinha um ensinamento a passar, e pretendia impactar quem o seguia. Seu ensinamento, claro, não era sobre como secar árvores estéreis: Ele ensinava sobre como a fé podia sobrepujar todas as coisas.

Outros comentando essa passagem falam que Jesus revelava o que seria de Israel ao não dar-lhe frutos (crentes), ou mesmo como seria ele mesmo o ceifeiro para derrubar as pessoas de coração estéril. Pessoalmente, acho que isso pode ser exagero. Era hábito na sociedade agro-pastoril dos judeus derrubar as árvores estéreis: ninguém parece ter se compadecido da árvore, certamente não viram naquilo uma ameaça. Jesus também poderia dar um sinal maior à própria Jerusalém, para onde Ele seguia. Por isso, discordo que o impacto pretendido fosse por secar uma figueira (símbolo de Israel), mas simplesmente por fazer uma boa ação (sim, retirar árvores estéreis era visto como bom) apenas através da fé. Não foi isso que Jesus foi ensinar no Templo, em Jerusalém, ainda que aos pontapés?

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Referências