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terça-feira, 17 de junho de 2014

Peneirando gente


Gene Kelly fazendo graça lá pelos idos de 1951

Em um mundo gerido pelo Senhor, certamente ficamos intrigados quando a situação é ruim para um bom servo de Deus, e mais ainda se isso se dá com nós mesmos (e não somos bons servos ???). Nessas horas, alguns de nós simplesmente questionam a existência de Deus; outros a rejeitam entristecidos como nem Jó ficou; outros loucamente loucamente se abraçam ainda mais ao Senhor, por improvável que pareça sua ação. Afinal, se “Deus é bom”, e “não abandona seus filhos” (o que de fato Lhe atribuiria menos bondade), onde está Deus quando um filho Seu sofre? Porque não o defende? Porque não o Todo Poderoso não salva os seus?

Apenas como início de conversa, os profetas do Velho Testamento morreram de formas variadas. Elias foi levado em vida aos céus, mas Isaías morreu serrado por ordem do rei Manassés. Outros morreram em paz e velhos, como Samuel. Dentre os seguidores diretos de Jesus, a coisa foi bem menos variada:

  • Pedro morreu entre 64 e 67 d.C., provavelmente em Roma, durante as perseguições de Nero aos cristãos. A tradição diz que ele foi crucificado de cabeça para baixo, após se dizer desmerecido de morrer como Jesus.
  • André, irmão de Pedro, foi martirizado em Achaia, sul do Grécia.
  • Tiago, irmão de João e filho de Zebedeu, foi decapitado em 44 d.C. por ordens de Herodes Agripa.
  • João, um dos evangelistas, discípulo amado de Jesus, irmão de Tiago e filho de Zebedeu (provavelmente o mesmo João que escreveu o livro de Apocalipse), foi o único a não ter sua morte conhecida.
  • Filipe (não o evangelista que batizou o eunuco) foi martirizado em Hierópolis, na Turquia.
  • Bartolomeu Natanael foi martirizado em Baku, atual Azerbaijão, ma margem oeste do Mar Cáspio.
  • Tomé seguiu para o Iraque e oriente, podendo ter chegado ao sudeste da Índia, na cidade de Madras. Não se sabe como ele morreu.
  • Mateus Levi, o antigo publicano e depois evangelista, foi martirizado na Etiópia, nordeste da África.
  • Tiago filho de Alfeu foi martirizado no Egito.
  • Judas Tadeu, irmão de Jesus e provável autor do livro de Judas, foi martirizado na Pérsia.
  • Simão Zelote foi martirizado na Pérsia.
  • Judas Iscariotes enforcou-se após tentar devolver seu pagamento ao Sinédrio.
  • Matias foi martirizado provavelmente na Etiópia.
  • Paulo de Tarso foi provavelmente executado em Roma.

Sem dúvida, é comum que os homens até clamem a Deus pela morte de outros homens. No livro dos Salmos, uma coletânea de orações feitas ao Senhor e de algumas respostas do Próprio, vemos algumas coisas como:

Quando tentei entender tudo isso [da prosperidade dos maus], achei muito difícil para mim, até que entrei no santuário de Deus, e então compreendi o destino dos ímpios. Certamente os pões em terreno escorregadio e os fazes cair na ruína. Como são destruídos de repente, completamente tomados de pavor! São como um sonho que se vai quando a gente acorda; quando te levantares, Senhor, tu os farás desaparecer. (Salmos 73.16-20)

Senhor, trata com bondade aos que fazem o bem, aos que têm coração íntegro. Mas aos que se desviam por caminhos tortuosos, o Senhor dará o castigo dos malfeitores. Haja paz em Israel! (Salmos 125.4-5)

Por outro lado, em diversas ocasiões Deus falou por intermédio dos profetas que não intencionava destruir aqueles que os homens queriam destruídos:

Teria Eu algum prazer na morte do ímpio? Pelo contrário, acaso não me agrada vê-lo desviar-se dos seus caminhos e viver? (Ezequiel 18.23)

Ao invés disso (e para exclamação geral), Deus descarregou sua fúria diversas vezes sobre Seu povo, arruinou cidades, afogou o mundo todo, mandou exércitos destruidores para tomarem as terras e escravizar, mas aos quais caberiam ameaças e profecias de destruição também acaso não atentassem para seu papel menor de “co-participantes”. Talvez Deus prefira fustigar os acreditam Nele, o que seria muito curioso, pois que isso tende (em se tratando de pessoas) a fazê-los mudar para o lado mais sossegado da coisa.

Entre os escritos de sabedoria que os sábios de Salomão deixaram, eis que temos uma chave para entender (ou cogitar) o que se passa na cabeça de Deus:

Discipline seu filho, pois nisso há esperança; não queiras a morte dele. O homem de gênio difícil precisa do castigo; se você o poupar, terá que poupá-lo de novo. (Provérbios 19.18-19)

Mas como assim, então estariam os seguidores de Deus sujeitos à sua vara e cajado? O profeta Isaías ousou repetir em outros termos a fórmula acima:

A vereda do justo é plana; Tu, que és reto, torna suave o caminho do justo. … Ainda que se tenha compaixão do ímpio, ele não aprenderá a justiça; na terra da retidão ele age perversamente, e não vê a majestade do Senhor. (Isaías 26.7-10)

E se considerarmos a visão de João em Patmos como um prenúncio do evangelho, lá vem de novo o mesmo recado insólito:

Eu [o Senhor] repreendo e disciplino aqueles que eu amo. Por isso, seja diligente e arrependa-se. Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo. (Apocalipse 3.19-20)

Entendamos bem que abrir a porta, aqui, é para alguém que chega com a vara na mão! O que levaria alguém a querer tal coisa? Pensando no imediato, nada. Ou talvez a fé que Ele traz algo maior consigo, o ensino de algo que Ele considera direito, bom e justo… mas nós não. Algo que Ele estranhamente chega trazendo sob a capa (e com a vara pronta para bater) para ser oferecido àqueles que Lhe abrirem a porta. Nada é mais assustador que a revelação de Naum - “O SENHOR é bom, um refúgio em tempos de angústia. Ele protege os que nele confiam (Naum 1.7)” - se tivermos em mente que a avalanche chegando é obra Dele próprio. Sobre quem ela virá? Todos, mas especialmente sobre os filhos, a quem Ele próprio assegura proteção, uma arca, um refúgio, uma fortaleza, casa sobre a rocha.

A CORDA NA HORA DA TORMENTA

Talvez um dos pontos mais fundamentais de Deus em sua ameaçadora oferta seja a necessidade da fé em Sua proteção. As alternativas são estarrecedoras:

O nome do Senhor é uma torre forte; os justos correm para ela e estão seguros. Já a riqueza dos ricos é a sua cidade fortificada, eles a imaginam como um muro que é impossível escalar. Antes da sua queda o coração do homem se envaidece, mas a humildade antecede a honra. (Provérbios 18.10-12)

Por fazerem o meu povo desviar-se … Virá chuva torrencial, e derramarei chuva de pedra, e rajarão ventos violentos. Quando o muro desabar, o povo lhes perguntará: "Onde está a caiação que vocês fizeram?” (Ezequiel 13.10-12)

Maldito é o homem que confia nos homens, que faz da humanidade mortal a sua força, mas cujo coração se afasta do Senhor. Ele será como um arbusto no deserto; não verá quando vier algum bem. Habitará nos lugares áridos do deserto, numa terra salgada onde não vive ninguém. (Jeremias 17.5-6)

Atualmente, a maior fortaleza humana é sem dúvida o dinheiro. Nós vemos e acreditamos que os ricos e poderosos são mais resistentes, mais amparados, mais bonitos, mais legais e menos sujeitos às agruras [de Deus] que os mortais com quem trombamos nas ruas. Salomão encontrou um reino fortificado, organizado, rico e invejável. Em meio à sabedoria que ganhou, ele manteve-se fiel ao Senhor. No entanto, até ele tombou à tentação de mulheres, paz e reinos (que trazia junto a frouxidão moral e culto aos deuses estrangeiros).

Nos tempos de Jesus, seu primo João Batista (talvez o único a quem Jesus se referiu sempre com os mais esmerados elogios) encontrou uma saída curiosa a esse dilema: desprezar todos os prazeres humanos, comendo insetos e mel no deserto, dormindo sob o vento, ficando à parte das cidades como profeta para Deus não tivesse nada que lhe tirar, exceto a liberdade e a vida. Jesus, como representante do Mais Alto, contudo, de certa forma riu-se de João e não teve como acompanhá-lo, chegando até a ser questionado por dois discípulos de João (talvez um deles o André que veio a segui-lo).

SIMPLESMENTE JESUS

Para o rabi de Nazaré, ser rico e ganancioso não era conduta especialmente corrupta ou perversa - estava mais para o imbecil. Porque, ele ousava argumentar, correr atrás do material impedia justamente de desfrutá-lo. O mais rastaquera lírio do campo ostentava guarda-roupa mais exuberante que o de Salomão; pássaros banqueteavam-se com mais gosto que Herodes. Diria Ele talvez que um pão de queijo no pé da serra desbancasse o mais irretocável boeuf bourguignon, que uma caminhada ao lado de quem se ama sobrepuja o banco do passageiro vazio de uma Ferrari e um pé descalço é mais feliz do que o que calça Mr. Cat. Talvez dissesse isso em rede nacional.

A ganância é idolatria porque é essencialmente mentirosa - promete segurança e poder quando quando ambos são derramados sem qualquer pré-requisito por Deus. O mundo de Jesus é seguro não porque os cofres e celeiros estão cheios, mas porque Deus é Pai. A ganância é mentirosa porque promete embalar e entregar, a seu preço, aquilo que Deus dá de graça.

Jesus, enfim, propôs o grande paradoxo de desfrutar sem possuir. Tomando Sua vida de olhar os lírios do campo, jantar em várias casas, distribuir peixes e pães, copos de vinho (e odres inteiros, se a festa fosse pra valer), banquetes com fariseus e publicanos, onde mais feliz que o convidado só o anfitrião, era preciso não viver para a riqueza no sentido de não viver por ela em sentido algum. Não cobiçá-la como o jovem rico e nem maldizê-la como João Batista, mas viver sem que ela faça diferença. Ele propunha fazer uso descarado do que Deus lhe deu, e dar a César só a ninharia que é de César.

Talvez dançar na chuva não seja má idéia, nem dormir num barco embalado pelas ondas de uma tempestade.

"Porque ele me ama, eu o resgatarei; eu o protegerei, pois conhece o meu nome. Ele clamará a mim, e eu lhe darei resposta, e na adversidade estarei com ele; vou livrá-lo e cobri-lo de honra. Vida longa eu lhe darei, e lhe mostrarei a minha salvação." (Salmo 91.14-16).

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PODE ATÉ CULPAR DESSES AÍ

J. B. Phillips - Questions about the New Testament - Morte dos apóstolos
Bispo Salomão, The Book of the Bee, 1222, tradução de Earnest A. Wallis Budge.
Paulo Brabo - Em 6 passos o que faria Jesus, Ed. Garimpo, 2009

domingo, 23 de junho de 2013

O caso Naamã - até onde Deus chega

Eliseu recusa o pagamento de Naamã - Pieter de Grebber

Um ponto importante no Cristianismo hoje parece ser a identificação com a comunidade religiosa. Por todo canto, católicos colocam imagens de N. Senhora nas camisas, evangélicos adesivam os carros com peixes, outros até com logos de suas denominações. Os ateus lançam ônibus para circular com mensagens de “Deus não existe”, laçam livros sobre o assunto, e por aí vai. Embora essa energia toda em “defender a sua fé” não seja nociva, ela por vezes pode fazer com que uma comunidade ou até uma pessoa se sinta “detentor de toda verdade” ou, em termos mais filosóficos, da “verdade das verdades”. E se tomarmos à risca a fala de Jesus – “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida” (Jo 14.6) – talvez cheguemos à fantástica conclusão que cada secto cristão possui um Cristo particular.

Será que isso é parte da mensagem que Deus confiou, que cada grupo tenha sua versão própria Dele? Será que o Espírito Santo é capaz de vazar através dos NOSSOS templos (e mesmo os nossos corações) para penetrar os templos de outros, para produzir amor entre aqueles de quem discordamos, ou nem reconhecemos como irmãos?

A história de Naamã talvez nos forneça alguns indícios sobre isso. Ela aparece detalhadamente no 2º Livro dos Reis, cap. 5, por isso vamos esperar que você a leia na sua Bíblia, antes de continuar.

------ AGUARDAREMOS SUA LEITURA ------

Já leste? Para resumir, Naamã era um alto oficial do exército arameu / sírio, atormentado pela lepra. Seu rei mandou-o até Israel, para que fosse curado. Depois de conseguir mais do que fora buscar, Naamã confessa ao profeta Eliseu que reconhecia o Senhor como deus. E então ele lhe pede permissão para continuar a freqüentar o templo de Rimom*, onde acompanhava o seu rei. Isso incluía curvar-se ao ídolo de Rimom, coisa que os profetas de Israel abominavam, sobretudo Elias, que fora mestre de Eliseu. Mas Eliseu disse que ele fosse em paz, ao invés de dizer-lhe que não fizesse isso, que enfrentasse a todos, etc.

NAAMÃ, O ARAMEU

 mapa de Israel em 830 a.C.
(clique para ampliar)

Pela indicação de que havia paz entre a Síria (Aram) e Israel, não é difícil localizar na história a passagem bíblica. Aram ficava do lado leste do rio Jordão, ao norte do reino de Amon e ao sul da Assíria. Do lado oeste estava Israel, então repartida em dois reinos: Israel / Samaria / Efraim ao norte e Judá ao sul. Sempre foram comuns as guerras na região, mas o texto bíblico diz que “Naamã era capitão do exército do rei da Síria, era um grande homem diante do seu SENHOR, e de muito respeito; porque por ele o SENHOR dera livramento aos sírios” (2Rs 5.1). Em 853 a.C. houvera uma guerra entre arameus e assírios, na qual os arameus saíram vitoriosos**. Provavelmente Naamã era um herói dessa batalha – afinal, por ele o Senhor dera livramento - e dessa forma se tornara predileto do rei Be-Hadad II. Era uma situação semelhante ao que aconteceria em Judá muitos anos mais tarde, quando Davi se tornaria predileto do rei Saul após derrotar os filisteus.

Vemos a importância de Naamã quando esse vai ao rei de Aram e consegue que ele mande uma carta de apresentação ao rei de Israel, junto com um suntuoso presente de dez talentos de prata (340 Kg), seis mil siclos de ouro (70 Kg) e dez mudas de roupas (2Rs 5.5). Esse presente, fosse da parte do capitão ou do próprio rei de Aram, era sem dúvida a apresentação de um nobre.

Apesar de seus feitos em batalha e sua importância no reino, a história começa nos dizendo que Naamã era leproso.

A LEPRA NOS TEMPOS ANTIGOS

A lepra sempre foi considerada uma doença terrível nos tempos bíblicos. Era considerada o castigo divino para os impuros. Normalmente os leprosos eram banidos das cidades, pois tratava-se de uma doença contagiosa. Atualmente a doença é chamada de hanseníase (ou mal de Hansen), sendo causada por duas bactérias chamadas Mycobacterium leprae e Mycobacterium lepromatosis, que infectam a pele e principalmente os nervos. Ambas são transmitidas por roedores que vivem nas cidades, que se proliferam em condições de pouca higiene ou super-população... Elas destroem as terminações nervosas e inflamam terrivelmente a pele, causando ulcerações e inchaços desfigurantes.

Curiosamente, a doença que a Idade Média chamou de lepra não tem os mesmos sintomas descritos por Moisés em Levítico cap. 13, como manchas brancas profundas e pelos descorados. A lepra parece ter se originado na China por volta de 4000 a.C., daí se espelhando para a Índia. Documentos sumérios e babilônicos de 3000 a.C. falam de pústulas na pele, perda de coloração e um odor pútrido. Os papiros egípcios de 2700 a.C. (como o tratado médico de Ebers) falam de uma doença semelhante. Entre 700 e 250 a.C. a doença aparece nos manuscritos gregos, mas os primeiros sinais da doença que conhecemos como “lepra” apareceram na Europa com os soldados de Alexandre retornando da Índia por volta de 320 a.C., ou seja, milênios após a vida de Moisés. Dessa forma, há uma certa controvérsia quanto ao significado da moléstia que aparece no hebraico original com o nome de sara’at ou tzara.

Os gregos Heródoto (484 - 420 a.C.) e Hipócrates (460 – 370 a.C.), considerados os fundadores da medicina, traduziram sara’at como leuke ou leucoderma (pele branca), de onde vem o nome “lepra”. Já Cláudio Galeno (130 – 200 d.C.) usou o termo elephas ou elefantíase para indicar o inchaço da pele produzido por uma doença que ele observava entre os gregos, e que possuía o caráter contagioso apontado no livro de Levítico. Popularmente, a elefantíase é associada com um inchaço fabuloso dos membros, mas a maioria dos casos na verdade se manifesta com a obstrução de pequenos vasos sangüíneos ou linfáticos por bactérias e o surgimento de várias pequenas regiões inchadas, além de brancas pela falta de irrigação.

Os sintomas do livro de Levítico em sua maioria estão mais ligados a formas de elefantíase e outras parasitoses de pele, como carbúnculo, furúnculo ou impetigo (infecção com bactérias do gênero Staphylococcus ou Streptococcus). Um dos sinais de que não se trata da hanseníase é o fato de que não são mencionados sinais aberrantes da doença como a contratura dos músculos, úlceras na pele, odor pútrido, febre e perda de sensibilidade. Ainda, a lepra e a elefantíase não atingem o corpo todo, como é mencionado em Levítivo ou no caso do servo Geazi (2Rs 5.20-27). A descrição da doença nesse caso parece mais o que chamamos hoje de psoríase, que é uma doença auto-imune. Também há semelhança com a dermatofitose, que é uma infecção da pele por fungos transmitidos a partir de cabras ou ovelhas.

Na falta de condições para tratar a lepra ou a elefantíase, Moisés implantou uma reforma sanitária entre os hebreus que consistia em tirar das cidades os indivíduos doentes, assim como abandonar as casas onde eles habitavam. A denominação “impuro” servia como forma de impedir que as pessoas tocassem nos infectados, mas assumiu um papel de “impureza perante Deus”. Apenas lembrando, o próprio Moisés havia sido vítima dessa doença (Ex 4.6). Quando Jesus curou um leproso e mandou-o apresentar-se ao sacerdote (Lc 5.12-15), vemos que a função sacerdotal como “vigilante” de pessoas leprosas na sociedade continuava em prática muito tempo após Moisés.

No tempo de Naamã, portanto, a “lepra bíblica” era motivo de exclusão social. Não temos uma “bíblia” que nos conte sobre como os arameus tratavam os leprosos, mas é possível que as medidas sanitária não fossem muito diferentes. Afinal, a língua dos arameus permaneceu falada no norte de Israel até os dias de Jesus. Havia um prejuízo social (ou Naamã não se encaminharia ao reino vizinho para obter tratamento) mas talvez sem a exclusão a que os judeus leprosos estavam condenados.

Quando Geazi pecou contra Eliseu, buscando Naamã para pedir seus tesouros em nome do mestre, o papel da lepra como “castigo divino” se mostrou novamente. Geazi estabeleceu um contraponto a Naamã, querendo lucrar com a obra de Deus e mentindo a todos. Como está escrito, Eliseu jogou sobre ele esta maldição:

... a lepra de Naamã se pegará a ti e à tua descendência para sempre. Então saiu de diante dele leproso, branco como a neve. (2Rs 5.27)

A TERRA DE ISRAEL

Um ponto interessante na história de Naamã foi a forma como ele se tornou crente, tendo toda a sua concepção de fé derrubada. Primeiro, Naamã se concebia como alguém digno de toda atenção, de forma que se revoltou quando Eliseu nem ao menos foi vê-lo, simplesmente mandando um mensageiro. Ele, que carregava o presente de um rei!

Segundo, Naamã via Eliseu como um curandeiro cujos poderes pessoais lhe trariam a cura. Havia recebido esse testemunho de uma escrava israelita que mantinha em casa. Mas Eliseu não orou junto a ele, nem sequer o tocou. Na verdade, Eliseu não podia fazer nada por Naamã: isso seria obra de Deus, quando Naamã tivesse mais fé Nele do que em si mesmo.

“Não são porventura Abana e Farpar, rios de Damasco, melhores do que todas as águas de Israel? Não me poderia eu lavar neles, e ficar purificado?” (2Rs 5.12). Agora, segundo a mente de Naamã, o poder de cura estava no rio. Esse conceito também precisava ser quebrado, antes que Deus agisse. Apenas quando Naamã simplesmente seguiu as ordens do profeta foi que se curou, e assim ele reconheceu o poder do Senhor: “Eis que agora sei que em toda a terra não há Deus, senão em Israel” (2Rs 5.15).

Sendo curado, Naamã percebeu que precisava servir ao “Deus de Israel”, mas como fazê-lo, na Síria? Para os povos pagãos (dos quais fazia parte), seus deuses estavam vinculados não às pessoas, mas à terra e ao lugar onde viviam. O “Deus de Israel”, portanto, estava ligado à terra de Israel. E Naamã solucionou o problema levando Israel consigo: “... dê-se a este teu servo uma carga de terra que baste para carregar duas mulas; porque nunca mais oferecerá este teu servo holocausto nem sacrifício a outros deuses, senão ao SENHOR.” (2Rs 5.17).

Isso bastou para que Eliseu o reconhecesse como servo do Senhor. Naamã teve sua terra, e sua bênção. Ele foi abençoado mesmo dizendo que iria ao templo de Rimom com seu rei, servindo de apoio para o mesmo. Sendo um alto oficial como era, Naamã era observado pelo rei e seguido por muitos: não ir ao templo com o rei o condenaria talvez à morte, e era preciso que outros na Síria soubessem o que o “Deus de Israel” fazia e chegassem ao Senhor (esse plano começara com a improvável vitória dos Sírios sobre a Assíria). Desde sua cura, Naamã seria um crente no templo pagão, e não mais um pagão ali.

CONCLUSÃO

As histórias de Naamã e Geazi fazem parte dos contos moralistas da Bíblia, ou seja, que expressam mais do que um relato histórico. Naamã cai de seu pedestal próprio ao ficar leproso, sendo restaurado por Deus quando expressa humildade. Geazi cede à tentação dos tesouro, mente e obtém lucro com a obra de Deus, sendo condenado – junto com sua descendência.

O ponto que eu gostaria de deixar aqui é justamente a humildade que expressamos quanto ao conhecimento de Deus. Os fariseus nos tempos de Jesus gabavam-se de sua posição social (mantida por Deus, segundo eles) e sua pureza, não podendo jamais aceitar um Messias que tocava em leprosos, que comia com publicanos e tomava vinho (Mt 11.19). Eles foram severamente criticados por Jesus.

E [Jesus] disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus. Portanto, aquele que se tornar humilde como este menino, esse é o maior no reino dos céus. (Mt 18.3-4)

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* Rimom era o deus da tempestade arameu. Na Bíblia, a passagem sobre Naamã é a única citação dele, embora a palavra Rimom fosse usada para a árvore que produz romãs e também para uma rocha nas proximidades de Gibeá.

** A batalha de Qarqar, em 853 a.C., ficou conhecida como a maior guerra já travada até então. Nessa batalha, o império assírio governado por Salmaneser III invadiu o território de Aram com cerca de 100 000 soldados e foi confrontado por 12 reis (incluindo o rei Acabe de Israel), que somaram mais de 60 000 homens. As perdas do lado assírio foram tantas que o império recuou, mas as perdas de Aram também foram tantas que alguns anos mais tarde outro ataque colocou Aram sob o domínio assírio.

O REI SÍRIO MANDOU LER

Batle of Qarqar – wikipédia
Cochrane RG - Biblical Leprosy: A Suggested Interpretation
Leprosy – wikipédia

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Pensando bobagens e virtudes


texto de A.W. Tozer

O que pensamos quando estamos com liberdade para pensar sobre o que queremos ser - é isso que somos ou logo seremos.

A Bíblia tem muita coisa para dizer acerca dos nossos pensamentos; o evangelismo atual não tem praticamente nada para dizer sobre eles. A razão por que a Bíblia fala tanto deles é que os nossos pensamentos são vitalmente importantes para nós; a razão por que o evangelismo fala tão pouco é que estamos reagindo exageradamente contra as seitas do "pensamento", como as do Novo Testamento, da Unidade, da Ciência Cristã, e outras semelhantes. Estas seitas fazem os nossos pensamentos ficarem muito perto de tudo, e nos opomos fazendo-os ficar muito perto de nada. Ambas as posições são erradas.

Os nossos pensamentos voluntários não só revelam o que somos; eles predizem o que seremos. A não ser aquela conduta que brota dos nossos instintos naturais básicos, todo o nosso comportamento é precedido pelos nossos pensamentos e deles se origina. A vontade pode vir a ser serva dos pensamentos, e, em elevado grau, mesmo as nossas emoções seguem o nosso pensar. "Quanto mais penso nisso, mais louco fico", é como o homem comum o coloca, e ao fazê-lo, não somente relata com precisão os seus processos mentais, mas também paga inconsciente tributo ao poder do pensamento. O pensamento instiga o sentimento, e o sentimento dispara a ação. Assim fomos feitos, e bem que podemos aceitá-lo.

Os Salmos e os Profetas contêm numerosas referências ao poder que o reto pensamento tem de inspirar sentimento religioso e de incitar a conduta certa. "Considero os meus caminhos, e volto os meus passos para os teus testemunhos" (Sl 119.59). "Enquanto eu meditava ateou-se o fogo: então disse eu com a própria língua..." (Sl 39.3) Vezes sem conta os escritores do Velho Testamento nos exortam a aquietar-nos e a pensar em coisas elevadas e santas como fator preliminar para a correção da vida ou uma boa ação ou um feito corajoso.

O Velho Testamento não está sozinho em seu respeito pelo poder do pensamento humano, poder outorgado por Deus. Cristo ensinou que os homens se corrompem por seus maus pensamentos, e chegou ao ponto de igualar o pensamento ao ato: "Qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração já adulterou com ela" (Mt 5.28). Paulo recitou uma lista de fulgentes virtudes, e ordenou: "Seja isso o que ocupe o vosso pensamento" (Fp 4.8).

Estas citações são apenas quatro das centenas que poderiam fazer-se das Escrituras. Pensar em Deus e em coisas santas cria uma atmosfera moral favorável ao crescimento da fé, bem como do amor, da humildade e da reverência. Pelo pensamento não podemos regenerar os nossos corações, nem eliminar os nossos pecados, nem mudar as manchas do leopardo. Tampouco podemos com o pensamento acrescentar um côvado à nossa estatura, ou tornar o mal bem, ou as trevas luz. Ensinar isso é representar falsamente uma verdade bíblica e usá-la para a nossa própria ruína. Mas, pelo pensamento inspirado pelo Espírito, podemos ajudar a fazer de nossas mentes santuários purificados em que Deus terá prazer em habitar.

Referi-me num parágrafo anterior aos "nossos pensamentos voluntários", e usei as palavras de propósito. Em nosso jornadear através deste mundo mau e hostil, ser-nos-ão impostos muitos pensamentos de que não gostamos e pelos quais não temos simpatia moral. As necessidades da vida podem compelir-nos por dias e anos a abrigar pensamentos em nenhum sentido edificantes. O conhecimento comum do que fazem os nossos semelhantes produz pensamentos repugnantes à nossa alma cristã. Estes necessariamente nos afetam, mas pouco. Não somos responsáveis por eles, e eles passam por nossas mentes como um pássaro cruzando os ares, sem deixar rastro. Não têm efeito duradouro em nós porque não são propriamente nossos. São intrusos mal recebidos pelos quais não temos amor e dos quais nos livramos tão depressa quanto possível.

Quem quiser verificar sua verdadeira condição espiritual pode fazê-lo notando quais foram os seus pensamentos nas últimas horas ou dias. Em que pensou quando estava livre para pensar no que lhe agradasse? Para o quê se voltou o íntimo do seu coração quando estava livre para voltar-se para onde quisesse? Quando o pássaro do pensamento foi posto em liberdade, voou para longe como o corvo, para pousar sobre as carcaças flutuantes ou, como a pomba, circulou e voltou para a arca de Deus? Ê fácil realizar esse teste, e, se formos sinceros conosco mesmos, poderemos descobrir não só o que somos, mas também o que vamos ser. Logo seremos a suma dos nossos pensamentos voluntários.

Conquanto os nossos pensamentos instiguem os nossos sentimentos, e assim influenciem fortemente as nossas vontades, é contudo certo que a vontade pode e deve ser senhora dos nossos pensamentos. Toda pessoa normal pode determinar aquilo em que vai pensar. Naturalmente, a pessoa aflita ou tentada pode achar um tanto difícil controlar os seus pensamentos, e mesmo enquanto se concentra num objeto digno, pensamentos insensatos e fugidios podem fazer travessuras sobre a sua mente, como vivos relâmpagos numa noite de verão. Tendem estes a ser mais molestos do que perniciosos e, no final das contas, não fazem muita diferença, sejam isto ou aquilo.

O melhor meio de controlar os nossos pensamentos é oferecer a mente a Deus em completa submissão. O Espírito Santo a aceitará e assumirá o controle dela imediatamente. Depois será relativamente fácil pensar em coisas espirituais, especialmente se treinarmos o nosso pensamento mediante longos períodos de oração diária. Praticar longamente a arte da oração mental (isto é, falar com Deus interiormente, enquanto trabalhamos ou viajamos) ajudará a formar o hábito do pensamento santo.

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Esse texto foi roubado cautelosamente de http://www.ortopraxia.com/2011/03/para-estarmos-certos-temos-de-pensar.html. Cem anos de perdão. Ninguém viu.