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sábado, 13 de setembro de 2014

O corpo da mente cristã


Félix perguntou ao eremita onde existe Deus, pois fortemente se assombrava de não vê-Lo. O eremita respondeu que Deus está e existe em Si mesmo e em tudo o que existe, essencial e presencialmente. Como Deus não é coisa corporal, é invisível aos olhos corporais mas, como é coisa espiritual, é visível aos olhos espirituais.
(Ramon Lull, Félix o El Libre de meravelles, 1288)

Hoje, ainda existe um grande debate sobre a natureza dualista do ser humano. E provavelmente esse debate ainda durará muito, pois já se arrasta há milênios. Alguns de seus maiores expoentes certamente foram Platão (Atenas, 428-348 a.C.) e René Descartes (França, 1596-1650). Graças ao trabalho de Descartes, o homem mais ou menos deixou de ser um ser único formado por espírito e corpo unificados. Até então, esta união colocava as doenças como resultados de más ações individuais ou coletivas, o que em muito dificultou o desenvolvimento científico. Em algumas partes do mundo civilizado, por exemplo, era imperativo que o corpo fosse preservado para que alma pudesse chegar ao Céu. Após Descartes, a alma e a mente foram separadas como assunto para a religião, enquanto o corpo foi deixado como assunto para a ciência.

Apesar disso, é recente a constatação de que o dualismo mente-corpo colocou um viés nos tratamentos: enquanto a medicina e a ciência se ocupam das questões corpóreas, não é pequena a necessidade espiritual/mentalista dos pacientes, de forma que dificilmente um tratamento será satisfatório ao seu público alvo.

As pessoas ditas ‘dualistas’ acreditam que a realidade consiste de matéria e espírito. Quando aplicado a uma pessoa, elas acreditam que uma pessoa tem tanto um corpo material e um espírito não-material ou mente. Já as ‘materialistas’ acreditam que a realidade consiste apenas da matéria, que supostamente o espírito é ilusório ou é redutível à matéria, e que, portanto, uma pessoa é um corpo (incluindo o cérebro) somente. As ‘idealistas’ por sua vez acreditam que a realidade consiste apenas de espírito, que a matéria é ilusória ou é redutível ao espírito, e que, portanto, uma pessoa é apenas uma idéia (mais ou menos como a realidade virtual).

A esmagadora maioria dos leigos é dualista. Acreditam que as pessoas têm tanto um corpo físico, e uma mente não-física ou consciência. Muitos acreditam que as pessoas têm uma alma, o que também seria o Eu não-físico, que pode ou não ser um outro nome para a mente consciente. Os filósofos e cientistas, minoritariamente, tendem a ser quase sempre materialistas. Essa distinção, entretanto, inclui também pessoas de crenças metafisicamente neutras, as quais ressaltam que embora o mundo não-físico exista, apenas fenômenos materiais podem ser estudados cientificamente, e que todas as teorias, hipóteses, leis causais, experiências, etc, devem necessariamente ser redigidos em termos materiais. A realidade imaterial seria intangível e irrelevante para a ciência.

O idealismo é uma posição extremamente rara, tanto entre os profissionais como entre pessoas comuns. Muito disso se resume a semântica, no entanto. Existem teorias filosóficas e até práticas terapêuticas que soam fortemente idealistas, dependendo de como são interpretadas.

Mas vamos olhar um pouco mais de perto o dualismo mente-corpo, especificamente a versão que parece ser ‘senso comum’ para a maioria das pessoas. Como corpos e mentes supostamente interagem, se corpos são materiais e mentes não são?

1º ponto: UMA PESSOA É UMA MENTE, MAS TEM UM CORPO
A maioria dos dualistas afirma que a identidade pessoal reside na mente (ou consciência ou alma ou espírito, etc). Muitos dualistas acreditam que o espírito ou alma de uma pessoa sobrevive à morte, enquanto o corpo apodrece num caixão. A preservação da parte não-física seria a forma de a pessoa sobreviver à própria morte. Por outro lado, se você descobrisse que após você morrer a sua consciência estará perdida para sempre, mas o seu corpo permanecerá funcionando (mais ou menos como nos filmes de zumbis), você provavelmente não chamaria isso de sobreviver. Assim, a ‘vida’ poderia ser descrita como a parte ‘imaterial’, e não o corpo de alguém.

Para a maioria dos crentes em reencarnação, quando uma pessoa morre, o mesmo espírito ou alma anima um corpo diferente de um recém-nascido e assim por diante, através de diferentes vidas. E como se trata da mesma alma, todas essas vidas são a mesma pessoa. Para outros, essa alma ou mente é alojada em algum lugar distinto do corpo, e assim a pessoa continua viva, porém em outro mundo mais ou menos incomunicável com a nossa realidade material.

2º ponto: CORPOS EXISTEM NO ESPAÇO E NO TEMPO; MENTES EXISTEM APENAS NO TEMPO
A alma ou mente parece ser localizável no espaço apenas de uma forma muito vaga, imprecisa. Ela está associada a um determinado corpo, por exemplo, mas ‘onde’ ela está em relação ao corpo não é claro. A sua mente ocupa exatamente o mesmo espaço que o seu corpo? Está em algum lugar na sua cabeça? Se ela está ‘dentro’ de você, parece ser alguma metáfora espacial, não exatamente no sentido de ‘dentro’.

3º ponto: CORPOS PODEM SER DIRETAMENTE OBSERVADOS POR OUTROS; A MENTE SÓ É OBSERVÁVEL PARA SI MESMA
Você pode tocar, ver, ouvir, cheirar e provar o corpo de uma pessoa. Mas tudo o que você sabe ou pensa que sabe sobre a mente de uma pessoa só pode ser inferida a partir de coisas como o que ela diz e faz. Em outras palavras, a mente do outro é algo que a sua mente imagina.

4º ponto: O ESTADO DA PRÓPRIA MENTE PODE SER DEDUZIDO ERRONEAMENTE, ASSIM COMO DO PRÓPRIO CORPO
Aqui podemos citar a ‘síndrome do membro fantasma’, onde uma pessoa que teve um braço ou uma perna amputados sente dor ou coceira no membro amputado. Obviamente isso é impossível, mas algo bastante certo para a pessoa é ‘Eu sinto dor’, ou seja, o estado mental dela própria. ‘Eu sinto’ quase sempre é uma referência mentalista.

Por outro lado, ‘Eu estou feliz’ ou ‘Eu estou agressivo’ são estados mentais aos quais as pessoas se referem freqüentemente, mas que sabidamente são muito errôneos em suas aplicações práticas. Por causa desses erros, Freud chegou mesmo a construir o conceito de ‘inconsciente’, que nada mais é do que uma mente inacessível à própria mente. Assim, qualquer um pode estar feliz e não saber, ou agressivo, e isso seriam estados do ‘inconsciente’ aos quais a própria pessoa não tem acesso.

5º ponto: CORPOS ESTÃO SUJEITOS A LEIS CAUSAIS
Qualquer coisa desde descer as escadas até o padrão de neurônios disparando em seu cérebro pode, em princípio, ser explicada em termos de causa e efeito físicos. Mas a mente não está sujeita a leis causais (ou não haveria ‘livre arbítrio’), ou então se sujeita a leis causais não-físicas e desconhecidas pra a ciência.

COMEÇANDO A PENSAR

Tradicionalmente, existem dois problemas principais com este tipo de senso comum do dualismo mente-corpo, com os quais os filósofos se ocupam. A primeira é a relação entre mente e corpo. Como pode uma coisa não-física interagir com uma coisa física e vice-versa? Por exemplo, digamos que eu decida pegar uma bola e jogá-la em algum ponto da sala. Essa decisão, e qualquer deliberação que a precede, é mental, de acordo com o dualista. Mas, então, o ato de jogar a bola é, obviamente, físico e, em princípio, você pode traçar uma cadeia causal desde uma certa atividade do cérebro até o resultado em movimentos, passando pelos sistemas nervoso e muscular. Então, nós (mais ou menos) sabemos o que acontece no campo mental e no plano físico, mas como eles se conectam? Como é que uma decisão mental interfere na atividade do cérebro? Como pode um evento não-físico ou série de eventos saltar dos trilhos e causar um evento físico?

Naturalmente, acontece a mesma coisa na outra direção. Nós certamente podemos traçar uma cadeia causal de eventos físicos no contato da minha mão com um objeto quente, produzindo determinada atividade nervosa e uma atividade cerebral correspondente. Mas, segundo os dualistas, ‘dor’ não é uma atividade cerebral. Ela está correlacionada com a atividade do cérebro, e pode ser causada por essa atividade cerebral, mas não é a atividade cerebral. É uma sensação desagradável ​​puramente mental. Mais uma vez, como uma cadeia física de eventos pula as barreiras em algum lugar do cérebro e tem impacto causal sobre uma substância completamente diferente e não-física?

A pesquisa neurológica não ajudou os dualistas aqui, e até os prejudicou. Experimentos revelaram, por exemplo, que a atividade do cérebro que resulta em um determinado comportamento muitas vezes acontece antes da ‘decisão’. Isto é, primeiro o processo para responder a um outro motorista com um gesto obsceno é iniciado em seu cérebro e, uma fração de segundo mais tarde, quando a mensagem nervosa já está viajando através de seu sistema nervoso para a sua mão, você decide: ‘Quer saber? Eu vou dar àquele idiota o que ele merece!

Os dois eventos estão tão próximos que você acredita que sua decisão vem primeiro, mas realmente a sua ‘decisão’ é, na verdade, uma racionalização que ocorre após o fato. Isso parece reduzir a relevância da mente ainda mais, sem resolver em absoluto o problema de como uma mente e um corpo podem interagir causalmente.

A segunda questão é o problema das ‘outras mentes’. Clássico: Se só temos acesso direto a nossa própria mente, como sabemos sobre outras mentes, ou mesmo que elas existem? A resposta superficial é que é fácil de inferir a existência e estado de outras mentes. Você sabe que tem uma mente, você vê os outros seres que são muito semelhantes a você do lado de fora, então, por analogia, você conclui que o que está acontecendo dentro deles é bastante semelhante ao que está acontecendo dentro de você.

O problema com esse raciocínio, porém, é que ele é muito fraco. Em primeiro lugar, você está raciocinando a partir de apenas um caso - o seu próprio. Não é como se você tivesse acesso a milhares de mentes, examinasse todas elas e tirasse conclusões sobre outros casos dos quais você só pode ver o exterior. Você tem um só uma amostra. Em segundo lugar, nenhuma das suas inferências podem jamais ser confirmada, o que é difícil de aceitar pelo lado científico. Você não pode aprender com a experiência sobre o que se passa dentro de outras pessoas. Na milésima vez que você faz este tipo de inferência, a evidência ainda é virtualmente zero, como na primeira vez.

Por essas e outras razões, a maioria dos filósofos e cientistas se afastaram do tradicional dualismo corpo-mente. No meio do caminho ficaram alguns considerando o raciocínio lógico como um processo corporal e o raciocínio emocional como um processo puramente mental; contudo, as evidências dessa separação são fracas e de fato se reduzem progressivamente. No entanto, a maioria leigos ainda acredita no dualismo e, de fato, provavelmente, consideram isso tão evidente que nem podem imaginar como está sendo questionado.

E A IGREJA COM ISSO?

O Novo Testamento foi escrito com um conceito fortemente dualista (vide ‘Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito’ em Lucas 23.46), isto é, tomando por base que os homens são parte material e parte mental/espiritual. Jesus, por exemplo, fala em uma criação das falas no pensamento antes que sejam ‘tornadas materiais’:

Raça de víboras, como podem vocês, que são maus, dizer coisas boas? Pois a boca fala do que está cheio o coração. O homem bom, do seu bom tesouro, tira coisas boas, e o homem mau, do seu mau tesouro, tira coisas más. (Mateus 12.34-35)

E, naturalmente, é forte a descrição de uma realidade espiritual, tão semelhante à realidade material que Jesus a descreve com paralelismo surpreendente:

Na casa de meu Pai há muitos aposentos; se não fosse assim, eu lhes teria dito. Vou preparar-lhes lugar. E se eu for e lhes preparar lugar, voltarei e os levarei para mim, para que vocês estejam onde eu estiver. (João 14.2-3)

Dessa forma Paulo também traça toda uma luta entre o corpo e a mente, ou entre a ‘carne’ e o espírito, de forma que ambos nem ao menos andam em paralelo, mas são causadores independentes (e dissidentes) do comportamento humano.

A EXPERIÊNCIA RELIGIOSA PARA OS MATERIALISTAS

Como dito antes, é uma marca do pensamento materialista a capacidade de testar teorias, o que pouco ou nada se aplica ao universo mentalista. Dessa diferença, naturalmente que o passar dos anos e o desenvolvimento tecnológico e filosófico favorecem o crescimento do que se sabe a respeito de questões materiais e em escala muito menor contribui para as questões espirituais ou mentais, que dificilmente podem ser testadas, a não ser cada um testando-as em seu próprio universo. Além disso, a correlação entre fenômenos mentais e a estrutura cerebral estão se tornando cada vez mais fortes nos últimos anos.

Sem dúvida, existem regiões cerebrais associadas com a experiência religiosa. Afinal, as emoções, sensações e ações relacionadas ao sagrado não são fundamentalmente diferentes das experimentadas nos eventos cotidianos; apenas são direcionadas a um propósito ou relacionadas a uma causa espiritual. Assim, são respostas orgânicas comuns produzidas por uma fonte não mensurável e que supostamente possuem um desenrolar também não mensurável. Embora a parte espiritual não seja observável de forma científica, a parte material certamente é.

Dependendo da cultura estudada, entre 20 e 60% das pessoas comuns relatam experiências religiosas, o que não pode passar despercebido. Em ordem de freqüência, essas experiências são (1) seqüências de eventos não controláveis pela pessoas, organizados de forma significativa e aparentemente intencional; (2) sensação da presença de uma entidade superior; (3) resposta a uma oração; (4) sensação de estar sendo vigiado ou guiado por uma entidade; (5) sensação da presença de um espírito humano invisível; (6) sensação de uma força dispersa no ambiente ou na natureza; (7) sensação de uma presença maléfica; (8) sensação de que todas as coisas estão conectadas. Há pelo menos 50% de semelhança nas experiências religiosas de gêmeos idênticos criados separados, de forma que um background orgânico nessas experiências é bastante plausível. Por exemplo, o ítem 8 é bastante relatado por pacientes com atividade muito superior no hemisfério cerebral direito. Os pacientes de epilepsia também relatam freqüentemente experiências religiosas intensas, e os relatos associando anomalias da atividade cerebral são consistentes mesmo com os relatos de religiosos e epiléticos famosos em toda história, desde Paulo de Tarso, Maomé, Joana d’Arc, Dostoievsky, Van Gogh, etc.

As experiências de quase-morte, tão aclamadas como provas do mundo espiritual/mental raramente são aceitas como experimentos científicos, dada sua natureza não reprodutível. Ainda, alguns estudos reunindo narrações dessas experiências indicam que a maioria delas conta com forte reorganização cognitiva após os eventos, de maneira que a experiência relatada por alguém é contada de forma diferente com o passar do tempo. Enquanto as experiências recém-ocorridas geralmente têm narrativas de paz, luz e um ambiente estranho, as mesmas pessoas tendem a adicionar tempos depois sensações de felicidade, sentidos amplificados, mudança na percepção do tempo e compreensão maior. Dessa forma, justamente os ‘aprendizados’ ou a parte não-sensorial gerados por tais experiências acabam vistos não como fruto direto delas, mas como uma ilusão gerada a partir de reestruturações incomuns da memória. Na experiências de epiléticos, também há fortes indícios dessa reestruturação.

O largo uso de substâncias químicas como potencializadores ou produtores de experiências religiosas também fala a favor de uma concepção materialista. Afinal, de que forma meras substâncias químicas poderiam modificar o funcionamento de uma mente ou espírito não-material? Tais substâncias são facilmente controláveis e neutralizáveis em laboratórios, de forma que as experiências associadas a elas podem mesmo ser impedidas com uso de outras drogas, apesar de todo o conteúdo cultural ou social relacionado a tais experiências.

O ARGUMENTO DUALISTA

Um dos maiores defensores do dualismo foi René Descartes. Em seu famosos argumento, ele afirmava que sabia e sentia a sua própria existência, mas poderia estar errado quanto à existência do seu corpo. Dessa forma, Descartes afirmava que a sua mente e seu corpo eram entidades distintas. Esse argumento, naturalmente, sempre deixa a fresta de que a própria existência de alguém - ou sua mente - seja de fato uma ilusão neurológica. Afinal, o fato de se auto-avaliar já coloca um funcionamento (contemplativo e analítico) diferente na mente, de forma que ninguém poderia, de fato, descrever-se com exatidão.

Muitas críticas dualistas apresentam fenômenos que não podem ser medidos fisicamente, como a consciência humana. Embora válido, esse é um argumento arriscado, pois sempre há avanços tecnológicos, o que significa que muito do que observamos hoje não podia ser observado tempos atrás, e nem por isso deixam de ser fenômenos físicos. Hoje falamos sem problemas em medicamentos de ação neural, estimulação cerebral, competição entre os hemisférios cerebrais, etc, o que era inconcebível no passado. Portanto, ainda que não exista uma explicação física da consciência humana, estamos a cada dia mais próximos disso e podemos até reproduzir tal consciência nas máquinas ‘pensantes’ com as quais convivemos no nosso dia a dia. Não é por acaso que os sistemas digitais trabalham com dois bancos de dados, um de estocagem e outro de processamento rápido. Nosso cérebro também funciona assim.

Embora a Bíblia seja bastante explícita quanto à existência de um mundo espiritual (que raramente é mostrado), devemos observar que a maioria dos ‘milagres’ relatados ocorre de forma claramente material. Isso vai desde uma Sara idosa gerando filho, a abertura do Mar Vermelho (por um vento impetuoso), a água brotando de um veio na rocha, leprosos sendo curados (pela destruição imediata de bactérias e regeneração dos tecidos danificados), cegos enxergando (por restauração de alguns tecidos nos olhos, supostamente o cristalino), paralíticos andando (por crescimento muito rápido de terminações nervosas), água se tornando em vinho (pelo surgimento de substâncias químicas) ou pães e peixes se multiplicando (pela formação de matéria). Não são eventos no mundo espiritual, são modificações diretas e assombrosas - da matéria tendo uma causa não materialmente possível, mas um desenrolar bem observável por olhos humanos.

Entre as obras puramente espirituais/mentalistas de Deus, poderíamos citar a manipulação de povos inteiros (que guerrearam ou fugiram sem motivo), as ressurreições (se assumirmos, claro, a natureza dualista dos homens), a cura de endemoniados (que são referidos como possuídos por espíritos imundos), a conversão de Saulo, etc. Evidentemente, controlar os espírito dos homens também não parece ser difícil a Deus, mas dado o caráter descritivo da narrativa bíblica (ou seja, são contados os feitos e ações, não as intensões ou pensamentos das pessoas), é de se esperar a pobreza justamente dos relatos mentalistas que favoreceriam um estudo espiritual do ser humano.

A fala de Jesus ‘Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade’ (João 4.24) é bastante categórica em definir a natureza espiritual de Deus, sem que no entanto isso limite sua ação no mundo material.

No Velho Testamento, o ser humano era dividido em Basar (o aspecto exterior das pessoas), Nephesh (ou alma, a identidade dos seres) e Ruach (ou espírito, podendo significar também vento ou sopro, o que corresponderia ao nosso conceito de ‘vida’). No entanto, o Velho Testamento também faz uso de suposições grosseiras sobre os aspectos físicos do homem, como atribuir a propriedade da reflexão aos rins (a tradução NVI corrigiu tais divergências substituindo ‘rins’ por ‘coração’) e as emoções aos intestinos (também corrigida).

A tradução das Escrituras para o grego no período inter-testamentário (420 a.C. a 70 d.C.) encontrou uma linguagem mais sofisticada para as descrições e também uma preocupação maior com detalhamentos metafísicos. Por isso, o Novo Testamento oferece uma descrição mais apurada do que se poderia considerar o espírito humano.

Platão considerava o homem formado por Nous (mente), Psiqué (alma) e Soma (corpo), com a mente sendo a estrutura principal e comandante das demais. Reparemos que embora Paulo fosse grego e usasse largamente o pensamento grego em suas divagações, ele não segue a divisão de Platão senão pelas palavras semelhantes, dividindo o homem em Soma (corpo), Psiqué (os aspectos psicológicos da pessoa) e Pneuma (ou espírito, força de vida). Essas duas divisões usando os mesmos nomes com sentidos diferentes já foi causa de grandes confusões: por exemplo, Platão considerava a mete como o aspecto mais superior do homem; já Paulo a chama de psiqué e a coloca como sujeita ao espírito. Nos tempos de Santo Agostinho, os grandes pensadores cristãos logo perceberam que a língua latina criava confusões ao analisar termos gregos e simplificaram essa divisão - para propósitos práticos - em corpo e espírito, ambos corrompidos pelo pecado original.

O Novo Testamento coloca o espírito e a mente mais ou menos como uma única entidade responsável pela vida do corpo, além da vontade.

Pois a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais afiada que qualquer espada de dois gumes; ela penetra ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e julga os pensamentos e intenções do coração. (Hebreus 4.12)

Assim como o corpo sem espírito está morto, também a fé sem obras está morta. (Tiago 2.26)

Paulo em especial diferenciava o espírito (ou ‘vontade’) da mente pensante (ou ‘racional’), que ele considerava sujeita ao espírito (a vontade racional) ou ao corpo (a ‘carne’, ou vontade natural), de forma semelhante aos Id e Super-ego de Freud.

Então, que farei? Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento. (1ª Coríntios 14.15)

Durante a Reforma, a corrupção do espírito humano pelo pecado original foi tratada de forma bastante drástica: eliminava-se o espírito, tornando o homem não diferente de um objeto em meio a vários outros, sem vontade própria, para que então o Espírito Santo substituísse o espírito antigo. Durante muito tempo e provavelmente até hoje, essa foi uma forma muito usada de educação cristã.

Embora o Espírito Santo seja fundamentalmente diferente do espírito humano, a Bíblia (e outras tradições religiosas também) coloca ambos como reais e relacionados de forma que um possa tomar o lugar do outro.

O próprio Espírito testemunha ao nosso espírito que somos filhos de Deus. (Romanos 8.16)

POR ACASO VALE LER ISSO TAMBÉM?

Charland-Verville V, Jourdan JP, Thonnard M, Ledoux D, Donneau AF, Quertemont E, Laureys S, Near-death experiences in non-life-threatening events and coma of different etiologies, Frontiers in Human Neuroscience, v.8, n.203, p.1-8, 2014.

Mehta Neeta, Mind-body Dualism: A critique from a Health Perspective, Mens Sana Monographs, v.9, n.1, p.202–209, 2011.

Philo Gabriel, Humanities 360º, Mind body dualism, fev. 2010, http://www.humanities360.com/index.php/mind-body-dualism-28902

Saver JL, Rabin J, The neural substrates of religious experience, The Journal of neuropsychiatry and clinical neurosciences, v.9, p.498-510, 1997.Tripartite theology - wikipedia

domingo, 17 de junho de 2012

A religião no divã


Esse texto foi publicado numa versão muito mais correta no site CPPC. Mas por alguma razão psicanalítica, você vai preferir ler esse aqui. Advertimos que talvez seja um problema com a sua mãe.

Em 1914, o pastor e psicanalista Oskar Pfister (1873-1956) publicou “O método psicanalítico”, prefaciado por S. Freud - e lá defendia um conceito de pulsão diferente de Freud. Este chamava de pulsão "um conceito situado na fronteira entre o psíquico e o somático”, ou ainda o representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo e alcançam a mente. Para Freud, a pulsão tinha sua fonte em fenômenos somáticos, corporais, mas tomava um destino basicamente psíquico: ela era um estímulo para o psíquico, uma força que obrigava a mente a imaginar o que há dentro do corpo, ou ainda formular representações para o que chega do exterior. Por exemplo, a fome seria o impulso para o cérebro criar a representação de comida, para pensar no alimento, dar cores novas e sabores a uma velha idéia; a pulsão seria o motor para fazer isso.

Freud associou a pulsão essencialmente a uma manifestação sexual. Mas para Pfister, a pulsão não era sexual, tratava-se apenas de uma energia que se manifesta em várias formas, sendo uma delas a sexualidade e outra a espiritualidade. Assim, a espiritualidade do homem deveria ser tratada como um componente básico de sua personalidade. Para Pfister, pulsão era um coletivo envolvendo desde a força da sexualidade (e sua pulsão pela busca do prazer sensorial), a descarga motora (e a pulsão de ver os resultados da ação) e a agressividade (com sua pulsão de morder, de triturar). Estas seriam as formas "toupeira" - ou mais primitivas - de expressão da pulsão. Na outra ponta, a pulsão tem a forma “águia”, congregando expressões da busca da liberdade, da estética, da cultura e da religião.

A religião, tanto para Freud como para Pfister, é uma pulsão, um motivador de idéias. Esse motivador não poderia ser de forma alguma destruído, mas necessariamente reapareceria de outras formas, dirigindo secretamente o modo de pensar.

A RELIGIÃO [NÃO] PODE SER REPRIMIDA

Reprimir significa desalojar da consciência por ser "inconcebível" ou "inaceitável" como pensamento. Logo pensamos nos ateístas, mas em verdade há uma grande diferença entre a religião "cerebral" e a religião bíblica. Se essa diferença não existisse (e se fosse menos gritante) a Bíblia não seria necessária, não conteria tantas recomendações de não cultuar vários deuses, paus e pedras, não comer sacrifícios, etc, e o Cristianismo não precisaria ser ensinado. Teoricamente, o movimento protestante se propôs a desenvolver a religião bíblica e suprimir a religião cerebral, chamada mesmo de "velho homem", segundo o conceito de novo nascimento do NT. Claro que a definição bíblica de religião é algo bem simples:

Tg 1.27. A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo.

E mesmo esta é bem diversa daquilo que a mente considera religião, e que está geralmente mais ligada ao politeísmo, à veneração de forças da natureza ou institucionais (Roma não venerava os imperadores?), trocas sacrificiais do tipo "eu faço isso e deus faz aquilo", fetichismo (atribuição de poderes a objetos), transes ou êxtases (que fornecem revelações ou poderes), etc. Freud e diversos outros empreenderam duras críticas ao comportamento religioso (não à religião bíblica) justamente por considerarem essas manifestações como algo primitivo, bestial até, que sobreviveu à evolução dentro do inconsciente humano. Certamente eles têm razão na crítica, pois mesmo o que a Bíblia chama de culto não é o instintivo humano, não é a religião cerebral que fornece alívio a pulsões primitivas, mas algo bem mais racional (Rm 12.1).

Mas como separar as pulsões religiosas "primitivas", "cerebrais", daquela pulsão de conectar-se ao Senhor, que também está lá dentro? Nem os ateístas podem abolir tanto uma quanto outra pois, segundo Freud, as pulsões não podem ser desfeitas. Nós temos áreas específicas do córtex pré-frontal do cérebro fazendo essa função de selecionar o que pode e o que não pode subir ao nível racional mas, ao ser retirada do Consciente, Freud e Pfister defendiam que a religião iria alojar-se em profundidades do inconsciente, nas emoções que regem as nossas respostas e interpretações. Ela pode ficar ali, bem segura pelos núcleos já abrigados no inconsciente, por toda uma vida, e então achar um caminho conhecido como o "retorno do reprimido". O desejo ou memória que foi reprimido reaparece na forma de impressões, comportamentos, semelhanças, etc. Sabemos por Freud que este retorno pode assumir as formas mais bizarras como a admiração de um cristo nu, a propensão a fazer em secreto os pecados que mais se considera, o temor de demônios associados à religião. Assim, se não exteriorizada na forma religiosa, essa pulsão bem poderia assumir a forma de crenças nos superpoderes de empresas, de pessoas, de igrejas...

O RELIGIOSO HISTÉRICO, OBSESSIVO E FÓBICO

Por ativar circuitos neurais diferentes dos usuais, em especial circuitos ligados aos neurotransmissores serotonina (diminuída) e dopamina (aumentada), a religião cerebral produz uma mistura confusa de dor e prazer¹, que a parte racional do cérebro pode interpretar das formas mais variadas. Uma dessas formas - um extravasamento dessa pulsão - é a valorização de sensações corporais como manifestações do sobrenatural, seja na forma de prazer, transes, êxtases, paralisias e sensações viscerais associadas à possessão.

Diversas doenças clínicas como asma, úlcera péptica, retocolite ulcerativa, hipertensão arterial sistêmica, artrite reumatoide, psoríase e lúpus eritematoso sistêmico têm sido denominadas doenças psicossomáticas, por associarem vulnerabilidade para o aparecimento ou piora da doença com reação a estressores psicológicos ou psicossociais. A somatização ou histeria pressupõe a presença de sintomas físicos inexplicáveis, que se desenvolvem de forma semelhante a essas doenças, além de que os sintomas em questão apresentam um valor simbólico característico. Este comportamento, cuja origem está no significado social de "ser abençoado", ou ainda "estar possuído” por um demônio ou mesmo pelo Espírito Santo, e cujo objetivo está nos ganhos e vantagens que o papel representa, é, na verdade, uma ação desviante que fornece ao paciente uma saída para a resolução de problemas ou dilemas pessoais.

No mundo evangélico, tem sido notável o aparecimento de comportamentos histéricos do tipo "falar em línguas" ou "cair tomado pelo espírito". Evidentemente que essa é uma ocorrência Bíblica (e daí mesmo vem o valor da ação), mas vejamos o que o texto de Atos diz sobre isso:

Atos 2.4. E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. E em Jerusalém estavam habitando judeus, homens religiosos, de todas as nações que estão debaixo do céu. E, quando aquele som ocorreu, ajuntou-se uma multidão, e estava confusa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua.

Tomada apenas em parte, a citação pode dar a entender que os apóstolos produziam sons incompreensíveis, de utilidade tão questionável quanto cair ao chão. O texto em sua íntegra por outro lado mostra que, longe de ser incompreensíveis, os apóstolos tornaram-se miraculosamente capazes de falar a várias nações simultaneamente.

A pulsão religiosa, segundo Freud, pode também retornar ao Consciente na forma de obsessões, ou seja, idéias ou sentimentos fixados fortemente e cuja origem nada tem de racional. Na prática, isso significa que o fetichismo-animismo-politeísmo da religião cerebral (de novo, essa não é a religião bíblica) acaba explodindo em rituais privados ou públicos com valor muito maior do que seria de se esperar. Bons exemplos dele são a fixação em lugares específicos de culto, a necessidade de choros, danças ou mesmo gritos e esbravejamentos como parte do culto. Nada há sobre isso na Bíblia (e muito há nas várias religiões espalhadas pelo mundo), mas é visível o fascínio que esses comportamentos têm sobre as pessoas, como se o contato com Deus dependesse de tais coisas.

Atualmente, o transtorno obsessivo-compulsivo (uma forma extremada de obsessão) é visto como um transtorno neuropsiquiátrico, para cuja origem concorrem fatores de ordem biológica, como vulnerabilidade genética, disfunção neuroquímica cerebral e o ambiente familiar. Tem sido também muito valorizado o fato de o paciente descobrir/aprender que os rituais aliviam a ansiedade e passa por este motivo a repetí-los, necessitar deles. Têm sido também destacadas determinadas crenças errôneas que auxiliam na manutenção da doença, como a avaliação irreal do risco de fazer ou de não fazer certas ações, a importância exagerada que estes pacientes dão aos seus pensamentos, o perfeccionismo, e necessidade de ter controle e certeza, entre outros. Seu tratamento, em função desses novos fatos, passou a ser a farmacoterapia associada à terapia cognitivo-comportamental, e não mais a psicanálise.

A religião (cerebral) reprimida pode até mesmo retornar na forma fóbica. Na criança são comuns os sentimentos ambivalentes, principalmente em relação aos pais. Amamos o pai que dá carinho, amor, mas, ao mesmo tempo, somos tomadas pelo ódio quando este pai nos nega algo, impõe regras, limitações aos nossos desejos (será diferente com Deus?). É muito angustiante lidar com tal ambivalência, com essa culpa por sustentar sentimentos hostis por quem amamos (e se amar a Deus é um Mandamento, então!). Suprimir sentimentos, porém, não é o mesmo que descartar um objeto. Não há como jogar fora! Os sentimentos se preservam dentro do inconsciente, e muitas vezes o sentimento reprimido (o sentimento hostil, por exemplo) se desloca para um objeto externo, pois é mais fácil lidar com a aversão a qualquer objeto do que com nosso pai, não é mesmo? Basta apenas a criança se afastar de tal objeto que ela estará protegida. Se a fobia é comum e transitória na infância, ela se torna um problema quando atinge a idade adulta. E como nos lembra o psicanalista Laplanche, a fobia é consequência de um “resíduo irresolvido” da história de vida do sujeito. A pessoa desloca a angústia de uma situação insuportável para outra que aparentemente não tem nada a ver. 

Os afetos da idéia proibida que se ligam a algum fragmento da realidade poder se transformar até em alucinações (imagens ou sentimentos terríveis experimentados na presença de um simples objeto, comentário, etc). Certos objetos de culto, o próprio Deus, práticas religiosas ou inimigos da divindade são assim demonizados e despertam temor, pânico, pois lá estão projetados os impulsos mais inaceitáveis em nós mesmos.

Freud observou em seus trabalhos que o afeto ligado às fobias é a angústia. Os sentimentos que predominam neste tipo de auto-defesa quase sempre são raiva, medo, remorso, dúvida, etc. Segundo ele, sintomas físicos como irritabilidade, expectativa angustiada, ataques de distúrbios respiratórios, acessos de tremores, vertigem locomotora, pânico noturno, parestesias (falta de sensibilidade) também são sinais de uma mente ou ego se posicionando fortemente contra uma ameaça que deve se mantida fora da consciência do indivíduo. Eles irão aparecer de forma exagerada em resposta coisas que todos, numa certa medida, temem, como alguns animais, escuridão, morte, doenças, etc; ou então a um certo ambiente, dentro de um contexto. A neurose de angústia, com a ansiedade por principal sintoma, é uma expressão das fobias, na verdade um mimetismo emocional criado pelo sujeito para lidar com a ameaça relacionada a um objeto perigoso, cuja identidade o indivíduo já desconhece ou apagou.

Desde os anos 1980, tem havido um movimento nas igrejas protestantes para demonizar práticas da umbanda², e recentemente esse movimento tem se concentrado na música secular e nos bares, que assim se tornam lugares proibidos dotados de um misticismo que apenas os freqüentadores das igrejas podem conhecer.

AS PULSÕES E O AMOR

Freud combateu a religião por considerá-la perigosa. Dizia que a religiosidade pode assumir formas perversas. Na sua forma agressiva, essa pulsão pode originar a caça aos hereges, agressividade legitimada e até recompensada por um ser divino. Faz parte da pulsão religiosa encontrar o neurótico, o perverso e o psicótico presentes em cada um, embutidos no que as nossas mentes podem fazer em termos de religiosidade, mas Pfister agradecia a Deus pela genialidade de Freud, que lhe possibilitava retirar os ídolos dos átrios dos templos.

Dentre suas manifestações, a pulsão religiosa também inclui o amor. Ele também surge de formas neuróticas, perversas e doentes, mas nunca houve tentativa séria de erradicá-lo, só porque se mostra doente. Antes, a tentativa da humanidade tem sido no sentido de aprimorar nossa capacidade de amar. Pfister labutava para que a psicanálise fosse a "humilde lavadora dos pés da verdade", limpando as sujeiras que a conflitiva humana, os amuletos e rezas fortes e fracas aglutinaram nas devoções. Em seu artigo publicado na própria revista de Freud, ele defendia que uma religiosidade purificada e purificadora poderia se ligar ao amor,  debaixo do conceito cristão de graça. O imperativo do amor poderia substituir o imperativo do dever religioso - gênese da obsessão, do recalcamento.

Não cessamos de amar se estamos sem as ferramentas que os cultos provém, nem deixamos de crer quando descobrimos a neurose incrustada em nossas crenças. Podemos amar mais e melhor, aceitar mais nossa humanidade com suas ambivalências e falhas - a tolerância para conosco e para com os outros. É a combinação da pulsão religiosa com a amorosa que transforma até a pulsão agressiva. Desta forma podemos entender os depoimentos daqueles criminosos que se tornam doces ao se converterem a uma fé religiosa, enquanto muitos religiosos expressam publicamente a sua agressividade, sob aplausos e imitações dos que só sabem sofrer sob um jugo que Jesus advertiu não ser o seu.

Sl 38:1. O SENHOR, não me repreendas na tua ira, nem me castigues no teu furor. Porque as tuas flechas se cravaram em mim, e a tua mão sobre mim desceu. Não há coisa sã na minha carne, por causa da tua cólera; nem há paz em meus ossos, por causa do meu pecado. Pois já as minhas iniqüidades sobrepassam a minha cabeça; como carga pesada são demais para as minhas forças. (Davi)

Mt 11.28. Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve. (Jesus)


Embora o amor seja a única forma benéfica de religião, Freud chega a dizer que “uma pequena minoria de pessoas acha-se capacitada, por sua constituição, a encontrar felicidade no caminho do amor”. Ele afirmava que o protótipo de toda relação de amor seria a experiência de uma criança sugando o seio da mãe, uma relação egoísta onde um procura no outro o que necessita ou o que lhe falta para a perfeição imaginária. Assim, ama-se ao pensar que algum dia se poderá ter um outro para si , transformar dois indivíduos em um. 

Os psicanalistas sempre consideraram o amor um acontecimento digno do sujeito frágil, falível e que necessita conviver com o outro. Esse constrói o amor a um objeto/ser imaginário, que vem ocupar o lugar do que lhe falta. Supor tal ser diferente no outro leva o amante em direção ao amado, leva mesmo o Homem em direção a Deus. Portanto, não existe amor puro, a não ser o amor de Deus, que nada tem a desejar nos homens. Para nós mortais, a impossibilidade de satisfazer essa perfeição na união com o outro bastaria para transformar o amor em ódio, o outro lado da mesma pulsão (enquanto o amor pretende transformar pela união, o ódio pretende fazê-lo pelo expurgo, pela separação). Racional ou inconscientemente, a pulsão religiosa poderia encontrar no amor uma forma [boa] de escape, ainda que pela condição imperfeita de cada um isso signifique um rosto diferente para o Deus amado, que a arte de elaboração dos cultos deveria acomodar. Se não acomoda, a pulsão pode ser transformar e extravasar nas formas descritas de histeria, obsessividade e fobia. A Deus caberia a difícil tarefa de produzir nos homens que o amem, assim fazendo que desejemos amar outros homens que nada têm a oferecer e nos satisfazendo nisso. Em sua fala, Freud observava que poucas pessoas pareciam capazes disso...

Talvez um exemplo de cristão bem sucedido tenha sido Francisco de Assis (na verdade Giovanni di Pietro di Bernardone, 1182-1226), que, depois de tentar impedir mais uma cruzada, foi pessoalmente ao califa muçulmano. Chegando lá, foi agredido e permaneceu preso até que sua conduta [bondosa, insistente ou conformada, nunca saberemos] chamou tanta atenção que o califa o recebeu. Depois de muitos dias em conversas amistosas, acontece a despedida e a bênção que até hoje perdura entre muçulmanos e franciscanos. Francisco era admirado por Freud e Pfister. Exceção entre todos? Quantos anônimos religiosos, de muitas confissões e credos, associaram sua pulsão religiosa com a amorosa, e geraram vida e não morte? Talvez, a única morte, neste nível, seja a do próprio Eu, e até do próprio corpo. A religião do amor, quando se pode filtrá-la do politeísmo-fetichismo-animismo que há em nossas mentes, constituti-se algo que gera vida, que não precisa ser reprimido e é recomendado pelo Senhor:

2Tm 2.24. Ao servo do Senhor não convém brigar mas, sim, ser amável para com todos, apto para ensinar, paciente. Deve corrigir com mansidão os que se lhe opõem, na esperança de que Deus lhes conceda o arrependimento, levando-os ao conhecimento da verdade, para que assim voltem à sobriedade e escapem da armadilha do diabo, que os aprisionou para fazerem a sua vontade.

Me parece que gastamos muito tempo fazendo a vontade do diabo, e até sendo ensinados a isso nas igrejas! Deus nos permita uma religião de amor...

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Já que você perdeu tempo chegando até aqui, vá também até ali:

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¹ Alterações semelhantes da neuroquímica cerebral são encontradas nos mecanismos de vício e de paixão. O humano está sempre sujeito a ambos, que não casualmente tendem a ocupar o lugar da religião. João (de Patmos) fala sobre sobre esse "primeiro amor" em Ap 2.4, coisa que não poderia ser abandonada em se tratando do Senhor, pois Jesus repete o 1º mandamento de "amar a Deus acima de todas as coisas".

² A umbanda é uma religião brasileira, mas ela encontra muitos similares na Santeria do Caribe. Em suma trata-se da fusão do catolicismo com os politeísmos afro e o Espiritismo, que inclui em seu panteão de divindades o Exú (diferente do Exú do Candomblé), Jesus-Oxalá, santos católicos, gênios ou espíritos de lugares como florestas e rios, caboclos (espíritos de índios), pretos-velhos, etc. Por não ter um código escrito (como a Bíblia) e ser resultado de uma fusão de outros credos, a umbanda acaba se parecendo bem mais à religião cerebral (em especial do brasileiro, com suas raízes afro e indígenas) do que o Cristianismo. Talvez daí resulte a batalha empreendida pelos protestantes à umbanda, praticamente ignorada entre os católicos.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O pecado encarnado

Ser mau ou fazer maldades,
eis a questão...

Segue um texto genial do Alex Altorfer sobre as bases biológicas das nossas crenças. Caso o texto faça você pensar, é porque você tem cérebro.

Nós humanos possuímos uma natureza dualista. Somos santos capazes de realizar grandes feitos; de amar, de proteger e cuidar dos necessitados, e de atos de grande nobreza. Somos também capazes de fazer o mal, de mentir, trair, ferir, e matar, até mesmo por motivos torpes. Enfim, somos pecadores.

O comportamento humano é algo que herdamos de nossos ancestrais. Nascemos com o instinto de proteger e cooperar com outros seres humanos, mas também com o instinto de combater e atacar. O instinto de auto proteção se estende aos grupos a que pertencemos, a começar pela família, depois à tribo, nação, etc. Defendemos ao nosso grupo imediato em oposição aos que pertencem a outros grupos. Travamos guerras contra os “de fora”. Tudo isso carregamos em nosso DNA. Faz parte do que significa sermos humanos.

As antigas religiões criaram histórias para explicar o comportamento humano. Entre tais histórias encontramos o belíssimo relato da criação do Gênesis, o primeiro livro da Bíblia judaico-cristã. Através da teologia evolucionária podemos estabelecer um harmonioso ponto de contato entre os antigos mitos de criação e o atual conhecimento científico das ciências biológicas e da psicologia evolucionista. Mas antes de explorarmos a dinâmica de tal ponto de contato, é interessante compreendermos a origem e o significado do relato bíblico da criação, assim como o desenvolvimento das definições clássicas de aspectos da natureza humana, inclusive do pecado original, na tradição cristã.

Os primeiros cinco livros da Bíblia, chamados de Pentateuco, foram escritos por pelo menos quatro autores diferentes, hoje academicamente identificados por biblistas como yahwista (J), eloísta (E), sacerdotal (P), e deuteronomista (D). Posteriormente os textos destes autores foram combinados por um redator (R). Tais fontes documentárias foram escritas em épocas diferentes e representam escolas literárias diferentes. O autor yahwista chama a Deus pelo tetragrama YHWH (Jeová), enquanto o autor eloísta se refere a Deus como Elohim, que no antigo idioma cananeu significa “deuses”. Os sacerdotes responsáveis pela composição do documento sacerdotal (P) utilizaram como fonte o material eloísta, entre outros. O texto eloísta (E) é o mais antigo e antecede o exílio babilônico. A paleografia e a lingüística localiza o texto eloísta no reino israelita do norte entre 799-700 a.C., enquanto os textos de autoria yahwista e sacerdotal foram escritos durante ou logo após o exílio babilônico. 

Foi no antigo mito (verdade metafórica) hebreu da criação relatado no livro de Gênesis que os povos monoteístas das três grandes religiões abraâmicas encontraram uma explicação para a natureza humana. Este mito bíblico é rico em verdades espirituais, e divide-se em dois relatos de criação de autoria distinta; um de autoria sacerdotal (P), que vai de Gênesis 1:1 à Gênesis 2:3, e outro de autoria yahwista (J), a partir de Gênesis 2:4. O relato sacerdotal é um elegante e sofisticado poema, enquanto o relato yahwista é uma prosa linguisticamente simples, de vocabulário pobre.

A posição do homem no universo e sua natureza mortal fazem parte da temática dos relatos do Gênesis. O ser humano vive em estado de alienação para com Deus e necessita conectar-se com Ele. Embora estejamos no “topo da cadeia alimentar”, ao ponto de podermos dar nome a todos os animais e de termos domínio sobre eles, somos pó e ao pó voltaremos. 

O Gênesis apresenta uma das primeiras explicações da natureza humana, expressa dentro do contexto cultural do antigo povo hebreu. O mito do primeiro pecado reflete o nascimento da consciência humana e a descoberta de nosso potencial para o mal, algo que ocorreu em tempos pré-históricos imemoriais e tem origens evolutivas. O primeiro pecado ocorreu no jardim do Éden. O casal primordial desobedeceu ao Criador por comer do fruto do conhecimento do bem e do mal. Deus revidou expulsando o casal do paraíso e amaldiçoando a todas as gerações posteriores. As conseqüências do pecado foram dramáticas, culminando na história do dilúvio, enviado por um Deus arrependido para destruir a humanidade rebelde.

Posteriormente a história da torre de Babel descreve mais um episódio de interferência divina, desta vez para impedir que os homens alcancem os céus ao construir uma torre suficientemente alta, o que faria com que eles se tornassem poderosos demais. Tais histórias não têm sentido literal algum, mas colocam o ser humano em seu devido lugar. Não somos deuses. Somos humanos falíveis e mortais. Por mais que construamos torres, estações espaciais, e pisemos na Lua, não devemos perder de vista de que no final das contas somos pó, e ao pó voltaremos.

A declaração do Criador de que o cosmo por Ele criado é “bom” tem implicações éticas importantes em relação à nossa própria atitude para com a ordem criada. As questões da responsabilidade ecológica e do aquecimento global pelo efeito estufa remetem ao fato de a criação ser “boa”, e que por isso devemos respeita-la.

Outros aspectos abordam a posição social ideal da mulher ao lado do homem, sendo esta formada a partir de uma costela e não de um osso do pé, assim como a necessidade de semanalmente observarmos um dia de descanso, pois o próprio Deus o observou.

O Gênesis, portanto, é um documento cheio de metáforas e alegorias plenas de significados éticos, sociais e espirituais. Refletir sobre tais metáforas é algo profundamente enriquecedor. Porém, o Gênesis não serve como relato histórico e científico das origens do universo e da espécie humana. A história tem aspectos obviamente mitológicos: uma serpente falante, frutos que contém conhecimento entre o bem e o mal, uma mulher formada de uma costela, anjos que guardam a entrada de um mítico jardim, etc. Certamente os autores originais do Gênesis nunca tiveram a intenção de escrever um relato histórico.

No terceiro século da era cristã, Orígenes de Alexandria já alertava contra o perigo de interpretar o relato bíblico da criação literalmente:

"Qual pessoa inteligente pode imaginar que houve um primeiro dia, depois um segundo e um terceiro dia, tarde e manhã, sem o sol, sem a lua, e as estrelas? E que o primeiro dia, se faz sentido chama-lo assim, existiu até mesmo sem um firmamento? Quem é tolo o suficiente para crer que, como um jardineiro humano, Deus plantou um jardim no Éden no oriente e colocou nele uma arvore da vida, visível e física, para que comendo-se de seu fruto obtenha-se vida? E que comendo-se de uma outra arvore, obtenha-se conhecimento do bem e do mal? E quando é dito que Deus andou pelo jardim quando Adão se escondeu atrás de uma arvore, não posso imaginar que alguém duvidaria que esses detalhes apontam simbolicamente para significados espirituais utilizando uma narrativa histórica que realmente não aconteceu". (Orígenes de Alexandria, DE PRINCIPIIS, século 3)

Os cristãos sempre acreditaram na necessidade de remissão de pecados. Desde o início a crença central do cristianismo foi o sacrifício de Cristo como Cordeiro de Deus para remir os pecados da humanidade, complementada pela centralidade litúrgica da eucaristia como participação dos fiéis neste sacrifício.

A remissão de pecados implicava em salvação, que no cristianismo primitivo possuía alcance universal. A crença na restauração universal de todas as coisas, chamada por Orígenes de apocatástase, era comum entre os patriarcas do primeiro período da patrística. Deus exigia a punição de pecados, mas a redenção pela fé em Cristo mais cedo ou mais tarde alcançaria a todos, nesta vida ou na próxima. Foi Tertuliano quem primeiro advogou que as penas do inferno deveriam ser eternas. Ele não sabia ler nem escrever em grego, fez má exegese bíblica, e a Igreja latina do ocidente se encarregou de completar o estrago.

Foi Santo Agostinho de Hipona quem, no século 4, primeiro formulou o dogma do pecado original. Ele concluiu que todos já nascem com a natureza pecaminosa herdada do casal primordial. Antes de Agostinho prevalecia na Igreja uma visão semelhante ao pelagianismo: as crianças nasceriam sem pecado e permaneceriam inocentes até que se tornassem capazes de começar a pecar por iniciativa própria. Agostinho, em seu zelo por combater Pelágio, conseguiu estabelecer um novo paradigma: todos já nasceriam com a culpa da queda adâmica inscrita no tecido da essência humana. Desenvolveu-se então, a crença de que o poder regenerativo do batismo incluiria também a remissão do pecado original herdado, além dos pecados cometidos pela própria pessoa.

É digno de nota que no Novo Testamento, a crença no poder do batismo para remir pecados encontra respaldo no livro de Atos:

Pedro então lhes respondeu: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo”. (Atos 2:38)

Até o século 5, muitos cristãos protelaram o batismo até o leito de morte, devido a expectativa de que os pecados considerados mortais cometidos após o batismo não fossem remissíveis¹. Esta estranha crença não vingou, e logo prevaleceu a prática do batismo infantil. O clero passou a batizar crianças para evitar o risco de que morressem com a culpa de Adão, o que poderia acarretar penalidade após a morte. Na época a doutrina das penas eternas (inferno perpétuo) já estava enraizada na igreja latina do ocidente, e gradualmente se popularizava no oriente grego. No século 9,  Pedro Abelardo propôs a doutrina do limbo, lugar para o qual as crianças pequenas iriam se morressem antes de remidas pelo batismo.

Por muito tempo arrastou-se a polêmica acerca do pecado original. Durante a reforma do século 16 vários grupos protestantes rejeitaram a doutrina agostiniana, adotando uma posição semelhante à do antigo pelagianismo. O ser humano não nasceria já culpado pelo pecado de Adão. Bebês natimortos seriam salvos e não iriam para o limbo, pois não tiveram oportunidade de pecar em suas vidas. Havia, porém, um consenso universal quanto ao fato de que o homem já nasce com uma natureza pecaminosa. Independentemente de nascermos ou não com a culpa pelo ato original de Adão, todos nascemos propensos a pecar. Surpreendentemente, este consenso não apenas sobreviveu ao ceticismo iluminista do seculo 18, como fortaleceu-se com as descobertas da ciência moderna.

Durante a maior parte dos primeiros 1500 anos da história da Igreja, os conceitos cosmológicos pré-científicos da Bíblia não foram seriamente questionados. Veio então a ciência para mudar isto de forma irreversível. No século 16, o heliocentrismo de Nicolau Copérnico, subseqüentemente apoiado pelas observações de Galileo Galilei, foi apenas um prelúdio ante a grande transformação que estava porvir. A partir do século 18, com o advento do iluminismo, interpretações literalistas da Bíblia passaram a enfrentar crescente ceticismo. Novos paradigmas filosóficos e teológicos varreram a civilização ocidental. Uma enorme explosão de conhecimento científico abalou a humanidade, e as coisas nunca mais foram as mesmas.

Sir Isaac Newton descreveu um cosmo racional regido por leis físicas previsíveis, Robert Plot descobriu o primeiro fóssil de dinossauro, Louis Pasteur e Robert Koch contribuíram com a descoberta de que as doenças são causadas por germes, Anton van Leeuwenhoek descobriu que os espermatozóides fecundam os óvulos na reprodução, Charles Darwin descobriu que a seleção natural é o principal mecanismo por trás da origem evolutiva das espécies, Gregor Mendel descobriu os mecanismos da hereditariedade, Alfred Wegener descobriu a deriva continental, Edwin Hubble descobriu a existência de galáxias fora da via láctea, e a dupla Watson/Crick descobriu a estrutura molecular do DNA. Estes e outros homens da ciência acenderam a forte luz da razão, e o obscurantismo que encobria a civilização se esvaeceu. O mundo outrora assombrado por demônios foi exorcizado. Com tudo isto, a compreensão literalista dos relatos bíblicos gradualmente caiu em descrédito². Porém, as descobertas da ciência iluminaram os significados metafóricos das narrativas bíblicas da criação, em especial os que abordam o comportamento humano.

Hoje a psicologia evolucionista constata que os teólogos da idade média sabiam do que estavam falando: os aspectos sombrios da natureza humana são de fato hereditários. Um tipo de pecado original realmente existe e é transmitido de geração a geração em nosso DNA.

A evolução moldou a espécie humana. A seleção natural determinou as características que nos definem como humanos. Como toda e qualquer espécie que tenha evoluído em nosso planeta, nossos ancestrais travaram uma luta de vida ou morte pela sobrevivência. Tal luta levou à seleção de características positivas e negativas que permitiram que o gênero Homo se perpetuasse. O que chamamos de pecado original é a soma de nossas características hereditárias negativas

A origem do comportamento humano está vinculada à evolução do cérebro. Nos últimos 3,5 milhões de anos, o crescente desenvolvimento de habilidades sociais facilitou o acesso e compartilhamento de informações sobre a disponibilidade de alimentos, o que proporcionou o suporte metabólico necessário para que o volume do cérebro humano se expandisse tremendamente, a partir dos 300 mL do Australopitecus afarensis, até atingir seu tamanho atual de 1400 mL cerca de trezentos mil anos atrás. Com a expansão do cérebro humano, evoluímos a capacidade de auto consciência, e com isso aprendemos a discernir entre o bem e o mal. O fruto do conhecimento do bem e do mal tem um preço, pois na espécie humana o tamanho da elipse encefálica do feto requer uma maior expansão da bacia, região vulvo-perineal, e vagina durante o parto, o que provoca dores de parto mais intensas do que as sentidas por fêmeas de outras espécies (Gn 3.16).

Além do aumento no tamanho médio do cérebro humano, ocorreu também a diferenciação entre os tipos de células nervosas que o compõe. Isto foi imprescindível para a evolução da inteligência em nossos ancestrais e pode ser constatado através do estudo de nossa fisiologia cerebral.

A fisiologia do cérebro humano é claramente resultante da evolução. Nossa estrutura cerebral mais antiga é o cérebro reptílico, chamada assim por ser herança do tempo em que nossos ancestrais ainda eram répteis. O cérebro reptílico situa-se na base da nuca, e é constituído pelo tronco cerebral e o cerebelo. Nós compartilhamos esta estrutura primitiva com todos os répteis e mamíferos. Aqui originam nossos instintos primordiais de autodefesa, sustentação alimentar e reprodução sexual. Aqui se encontram os impulsos mais primitivos de defesa territorial e agressão. O cérebro reptílico é bem representado pela serpente do mito bíblico da criação, que desde o Éden primordial nos tenta a pecar e a perder a harmonia com o Criador.


Logo acima do cérebro reptílico encontramos o cérebro paleo-mamífero, também conhecido como sistema límbico. Esta estrutura cerebral herdamos do tempo em que nossos ancestrais répteis evoluíram e se tornaram mamíferos primitivos. Nós compartilhamos o sistema límbico com todos os mamíferos existentes, mas os répteis nunca adquiriram esta estrutura cerebral. Bem mais complexo que o cérebro reptílico, o sistema límbico é constituído por várias partes, incluindo a amígdala, o tálamo, o hipotálamo, o giro cingulado, a fórnix e o septo. Aqui originam as fortes emoções, como a paixão reprodutiva e o afeto pela prole. Vínculos familiares e a cooperação recíproca com outros da mesma espécie são possíveis graças ao cérebro paleo-mamífero.

Envolvendo o cérebro paleo-mamífero encontramos a parte maior e mais recentemente evoluída do cérebro humano, o cérebro neo-mamífero ou neocórtex. No neocórtex se encontram as funções executivas do cérebro, incluindo nossas faculdades racionais. Com o neocórtex somos capazes de utilizar linguagem simbólica, fazer cálculos matemáticos, antecipar eventos futuros, tomar decisões morais entre instintos conflitantes, e buscar o propósito de nossas vidas. É no neocórtex que se desenrola o ainda misterioso fenômeno da consciência.



O neocórtex contém cem bilhões de células nervosas, e é dividido em lobos frontal, parietal, temporal, e occipital. Aqui se destaca o lobo frontal, região mais evoluída nos grandes primatas, em especial no Homo sapiens sapiens. No lobo frontal encontramos o córtex pré-frontal, onde se encontra a circunvolução de Broca, área do cérebro humano que permite a linguagem falada.

Através da expansão do lobo frontal conseguimos aprimorar nossos instintos de empatia, altruísmo, e cooperação grupal de forma extraordinária. Descobrimos que fortes vínculos familiares são muito vantajosos. Isto nos ajudou a sobreviver em bandos de caçadores-coletores cada vez maiores, que gradualmente se tornaram tribos.

Instintos sociais negativos, tais como o egoísmo e a agressividade, também favoreceram a sobrevivência de indivíduos e grupos. Tais comportamentos negativos foram inicialmente vantajosos na defesa contra predadores de outras espécies, e posteriormente contra humanos de outros grupos competitivos. A necessidade de defesa contra ataques físicos, assim como a escassez de recursos alimentares, resultaram na seleção de fortes características competitivas. Desenvolvemos fortes comportamentos territoriais.

A territorialidade tribal surgiu com a necessidade de defender áreas onde havia abrigo e alimento de incursões inimigas, enquanto a territorialidade reprodutiva é resultante das diferenças comportamentais e fisiológicas entre os machos e fêmeas da espécie.

A espécie humana não é naturalmente monogâmica. Hoje a monogamia favorece a coesão da vida humana em sociedade, mas no passado as coisas não eram assim. Os machos do gênero Homo evoluíram com o instinto de espalhar seus espermatozóides o máximo possível, de forma a favorecer a própria continuidade genética. As fêmeas, por outro lado, evoluíram com o instinto de selecionar os melhores machos, de forma a garantir que a prole tenha maiores chances de sobrevivência. Estas diferenças entre os sexos refletem distinções hormonais e neurofisiológicas que foram necessárias para a perpetuação da espécie humana no passado remoto. Até hoje carregamos em nossos genes esta herança, que nos causa os conflitos sociais relacionados à territorialidade reprodutiva.

O fruto da territorialidade reprodutiva é o ciúme, reação emocional à possibilidade de traição pelo parceiro reprodutivo. A traição pode surtir uma variedade de conseqüências sociais negativas. Por exemplo, pode fazer com que uma fêmea seja abandonada e substituída por outra mais jovem, assim como fazer com que um macho crie filhos que não foram gerados por ele. O ciúme é herança natural instintiva da evolução e tem sua função social: evitar a traição. No entanto, quando o ciúme não é controlado, pode exacerbar-se em sua irracionalidade, levando-nos a cometer crimes passionais que podem levar à morte. 

Como desde tempos imemoriais nossos diversos comportamentos territoriais levaram a situações conflitantes, tornou-se necessário o estabelecimento de regras comuns que regulamentassem nossos instintos sociais, mas isto só foi possível com a invenção da escrita, complementada pela agricultura e pecuária.

As invenções da agricultura e pecuária fizeram que as pequenas populações das tribos nômades da pré-história explodissem. Com o assentamento de terras as tribos se tornaram vilarejos, cidades, reinos, e depois impérios.

A invenção da escrita permitiu que nossos instintos sociais fossem codificados pelas mais antigas religiões da humanidade. Nossos instintos sociais negativos passaram a ser desencorajados através de penalidades previsíveis, enquanto nossos instintos sociais positivos receberam a ênfase necessária para dar continuidade e coesão a cada cultura incipiente. Surgiram então o código de Hamurabi e as leis bíblicas encontradas nos livros de Levítico e Deuteronômio. Isto ocorreu no período conhecido como Era Axial, entre 800 e 200 a.C.

Compreender que nosso jeito tão humano de ser foi moldado pela evolução é algo poderosamente libertador (Jo 8.32). Hoje sabemos o porquê de sermos tentados por fortes impulsos e confrontados com decisões morais difíceis. Podemos lidar com nossos instintos sociais de forma esclarecida, sem temer que seres diabólicos invisíveis estejam nos assombrando, influenciando nossos pensamentos e sentimentos. Não somos fantoches manipulados por demônios. Somos seres autônomos dotados de livre arbítrio. Os demônios são apenas símbolos de nossos próprios impulsos conflitantes interiores. Libertos dos antigos legalismos baseados em psicologias pré-científicas, podemos tomar a livre iniciativa de enfatizar nossos comportamentos positivos e evitar os negativos, isentos de culpa e paranóias demonomaníacas.

O esclarecimento evolucionário nos possibilita tomar decisões morais de forma responsável. Não é mais necessário esconder o fato de termos dentro de nós impulsos e desejos que podem causar conflitos em nossos relacionamentos com as pessoas que amamos. Não precisamos reprimir ou esconder que temos sentimentos causados por nossos instintos como se fossem segredos inconfessáveis. Sabemos que todas as pessoas compartilham de tais impulsos e desejos, pois somos todos frutos da evolução. Podemos compartilhar nossas dificuldades com aqueles que amamos e buscar ajuda profissional quando necessário, pois somos todos iguais. Podemos pulverizar os tabus moralistas, banir a vergonha e resolver conflitos de forma transparente e esclarecida.

Podemos também ser mais compreensivos com outras pessoas, pois sabemos que elas também herdaram os mesmos instintos que nós. Somos todos humanos, e nenhum de nós escolheu nascer com a herança evolutiva do pecado original em nosso DNA. Nossos atos são decisões morais que conscientemente tomamos, mas nossa herança evolutiva é involuntária. Reconhecer este fato faz com que o ato de perdoar se torne muito mais fácil.

A evolução produziu em nossa espécie tanto a bênção original quanto o pecado original. Ao reconhecer que nossos comportamentos são frutos da evolução, podemos honrar o passado e venerar o espírito das leis levíticas e deuteronômicas sem cair nas armadilhas do fundamentalismo bíblico. Assim somos livres para viver de acordo com a lei do amor.

Como disse Jesus de Nazaré, “em apenas dois mandamentos se sustentam a lei e os profetas; amar a Deus de forma total e imersiva, e amar a outros seres humanos como amamos a nós mesmos” (Mt 22.37-40). Esta lei do amor é suficiente, pois nela todo legalismo intransigente se dissolve. Se amamos ao nosso próximo, não ousaremos fazer nada que o prejudique. Assim podemos automaticamente viver em comunidade de forma justa e harmoniosa. Este é o espírito do verdadeiro e puro cristianismo. Vivamos neste espírito, então, como pessoas evolucionariamente esclarecidas.

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¹ O Império Romano era grande demais, mesmo para o governo. No ano de 308 d.C., Roma chegou a ter 6 imperadores simultâneos, cada qual com sua região. Inevitavelmente os imperadores entraram em batalhas sucessivas nas terras bárbaras, matando um ao outro, até que em 323 d.C. apenas Constantino II permaneceu, assumindo o controle de todo o império e fundando a 2ª Capital em Constantinopla. Em 313 d.C. Constantino declarou o Cristianismo como a religião oficial de Roma, mas ele mesmo somente se deixou batizar no leito de morte, em 337 d.C.

² Há uma longa história de duelos entre a fé bíblica e o conhecimento científico. Boa parte dessa briga se origina da crença que a Bíblia é A ÚNICA fonte de conhecimento "verdadeira". As pessoas que escreveram os textos bíblicos, no entanto, nunca pareceram interessadas em fazer um livro científico (e muitos trabalhos "científicos" foram feitos simultaneamente aos textos bíblicos, pelos judeus inclusive), mas sim um livro que conduzisse as pessoas à fé em Deus. Mesmo hoje, esse duelo permanece.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Pensando bobagens e virtudes


texto de A.W. Tozer

O que pensamos quando estamos com liberdade para pensar sobre o que queremos ser - é isso que somos ou logo seremos.

A Bíblia tem muita coisa para dizer acerca dos nossos pensamentos; o evangelismo atual não tem praticamente nada para dizer sobre eles. A razão por que a Bíblia fala tanto deles é que os nossos pensamentos são vitalmente importantes para nós; a razão por que o evangelismo fala tão pouco é que estamos reagindo exageradamente contra as seitas do "pensamento", como as do Novo Testamento, da Unidade, da Ciência Cristã, e outras semelhantes. Estas seitas fazem os nossos pensamentos ficarem muito perto de tudo, e nos opomos fazendo-os ficar muito perto de nada. Ambas as posições são erradas.

Os nossos pensamentos voluntários não só revelam o que somos; eles predizem o que seremos. A não ser aquela conduta que brota dos nossos instintos naturais básicos, todo o nosso comportamento é precedido pelos nossos pensamentos e deles se origina. A vontade pode vir a ser serva dos pensamentos, e, em elevado grau, mesmo as nossas emoções seguem o nosso pensar. "Quanto mais penso nisso, mais louco fico", é como o homem comum o coloca, e ao fazê-lo, não somente relata com precisão os seus processos mentais, mas também paga inconsciente tributo ao poder do pensamento. O pensamento instiga o sentimento, e o sentimento dispara a ação. Assim fomos feitos, e bem que podemos aceitá-lo.

Os Salmos e os Profetas contêm numerosas referências ao poder que o reto pensamento tem de inspirar sentimento religioso e de incitar a conduta certa. "Considero os meus caminhos, e volto os meus passos para os teus testemunhos" (Sl 119.59). "Enquanto eu meditava ateou-se o fogo: então disse eu com a própria língua..." (Sl 39.3) Vezes sem conta os escritores do Velho Testamento nos exortam a aquietar-nos e a pensar em coisas elevadas e santas como fator preliminar para a correção da vida ou uma boa ação ou um feito corajoso.

O Velho Testamento não está sozinho em seu respeito pelo poder do pensamento humano, poder outorgado por Deus. Cristo ensinou que os homens se corrompem por seus maus pensamentos, e chegou ao ponto de igualar o pensamento ao ato: "Qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração já adulterou com ela" (Mt 5.28). Paulo recitou uma lista de fulgentes virtudes, e ordenou: "Seja isso o que ocupe o vosso pensamento" (Fp 4.8).

Estas citações são apenas quatro das centenas que poderiam fazer-se das Escrituras. Pensar em Deus e em coisas santas cria uma atmosfera moral favorável ao crescimento da fé, bem como do amor, da humildade e da reverência. Pelo pensamento não podemos regenerar os nossos corações, nem eliminar os nossos pecados, nem mudar as manchas do leopardo. Tampouco podemos com o pensamento acrescentar um côvado à nossa estatura, ou tornar o mal bem, ou as trevas luz. Ensinar isso é representar falsamente uma verdade bíblica e usá-la para a nossa própria ruína. Mas, pelo pensamento inspirado pelo Espírito, podemos ajudar a fazer de nossas mentes santuários purificados em que Deus terá prazer em habitar.

Referi-me num parágrafo anterior aos "nossos pensamentos voluntários", e usei as palavras de propósito. Em nosso jornadear através deste mundo mau e hostil, ser-nos-ão impostos muitos pensamentos de que não gostamos e pelos quais não temos simpatia moral. As necessidades da vida podem compelir-nos por dias e anos a abrigar pensamentos em nenhum sentido edificantes. O conhecimento comum do que fazem os nossos semelhantes produz pensamentos repugnantes à nossa alma cristã. Estes necessariamente nos afetam, mas pouco. Não somos responsáveis por eles, e eles passam por nossas mentes como um pássaro cruzando os ares, sem deixar rastro. Não têm efeito duradouro em nós porque não são propriamente nossos. São intrusos mal recebidos pelos quais não temos amor e dos quais nos livramos tão depressa quanto possível.

Quem quiser verificar sua verdadeira condição espiritual pode fazê-lo notando quais foram os seus pensamentos nas últimas horas ou dias. Em que pensou quando estava livre para pensar no que lhe agradasse? Para o quê se voltou o íntimo do seu coração quando estava livre para voltar-se para onde quisesse? Quando o pássaro do pensamento foi posto em liberdade, voou para longe como o corvo, para pousar sobre as carcaças flutuantes ou, como a pomba, circulou e voltou para a arca de Deus? Ê fácil realizar esse teste, e, se formos sinceros conosco mesmos, poderemos descobrir não só o que somos, mas também o que vamos ser. Logo seremos a suma dos nossos pensamentos voluntários.

Conquanto os nossos pensamentos instiguem os nossos sentimentos, e assim influenciem fortemente as nossas vontades, é contudo certo que a vontade pode e deve ser senhora dos nossos pensamentos. Toda pessoa normal pode determinar aquilo em que vai pensar. Naturalmente, a pessoa aflita ou tentada pode achar um tanto difícil controlar os seus pensamentos, e mesmo enquanto se concentra num objeto digno, pensamentos insensatos e fugidios podem fazer travessuras sobre a sua mente, como vivos relâmpagos numa noite de verão. Tendem estes a ser mais molestos do que perniciosos e, no final das contas, não fazem muita diferença, sejam isto ou aquilo.

O melhor meio de controlar os nossos pensamentos é oferecer a mente a Deus em completa submissão. O Espírito Santo a aceitará e assumirá o controle dela imediatamente. Depois será relativamente fácil pensar em coisas espirituais, especialmente se treinarmos o nosso pensamento mediante longos períodos de oração diária. Praticar longamente a arte da oração mental (isto é, falar com Deus interiormente, enquanto trabalhamos ou viajamos) ajudará a formar o hábito do pensamento santo.

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Esse texto foi roubado cautelosamente de http://www.ortopraxia.com/2011/03/para-estarmos-certos-temos-de-pensar.html. Cem anos de perdão. Ninguém viu.