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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Pensando bobagens e virtudes


texto de A.W. Tozer

O que pensamos quando estamos com liberdade para pensar sobre o que queremos ser - é isso que somos ou logo seremos.

A Bíblia tem muita coisa para dizer acerca dos nossos pensamentos; o evangelismo atual não tem praticamente nada para dizer sobre eles. A razão por que a Bíblia fala tanto deles é que os nossos pensamentos são vitalmente importantes para nós; a razão por que o evangelismo fala tão pouco é que estamos reagindo exageradamente contra as seitas do "pensamento", como as do Novo Testamento, da Unidade, da Ciência Cristã, e outras semelhantes. Estas seitas fazem os nossos pensamentos ficarem muito perto de tudo, e nos opomos fazendo-os ficar muito perto de nada. Ambas as posições são erradas.

Os nossos pensamentos voluntários não só revelam o que somos; eles predizem o que seremos. A não ser aquela conduta que brota dos nossos instintos naturais básicos, todo o nosso comportamento é precedido pelos nossos pensamentos e deles se origina. A vontade pode vir a ser serva dos pensamentos, e, em elevado grau, mesmo as nossas emoções seguem o nosso pensar. "Quanto mais penso nisso, mais louco fico", é como o homem comum o coloca, e ao fazê-lo, não somente relata com precisão os seus processos mentais, mas também paga inconsciente tributo ao poder do pensamento. O pensamento instiga o sentimento, e o sentimento dispara a ação. Assim fomos feitos, e bem que podemos aceitá-lo.

Os Salmos e os Profetas contêm numerosas referências ao poder que o reto pensamento tem de inspirar sentimento religioso e de incitar a conduta certa. "Considero os meus caminhos, e volto os meus passos para os teus testemunhos" (Sl 119.59). "Enquanto eu meditava ateou-se o fogo: então disse eu com a própria língua..." (Sl 39.3) Vezes sem conta os escritores do Velho Testamento nos exortam a aquietar-nos e a pensar em coisas elevadas e santas como fator preliminar para a correção da vida ou uma boa ação ou um feito corajoso.

O Velho Testamento não está sozinho em seu respeito pelo poder do pensamento humano, poder outorgado por Deus. Cristo ensinou que os homens se corrompem por seus maus pensamentos, e chegou ao ponto de igualar o pensamento ao ato: "Qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração já adulterou com ela" (Mt 5.28). Paulo recitou uma lista de fulgentes virtudes, e ordenou: "Seja isso o que ocupe o vosso pensamento" (Fp 4.8).

Estas citações são apenas quatro das centenas que poderiam fazer-se das Escrituras. Pensar em Deus e em coisas santas cria uma atmosfera moral favorável ao crescimento da fé, bem como do amor, da humildade e da reverência. Pelo pensamento não podemos regenerar os nossos corações, nem eliminar os nossos pecados, nem mudar as manchas do leopardo. Tampouco podemos com o pensamento acrescentar um côvado à nossa estatura, ou tornar o mal bem, ou as trevas luz. Ensinar isso é representar falsamente uma verdade bíblica e usá-la para a nossa própria ruína. Mas, pelo pensamento inspirado pelo Espírito, podemos ajudar a fazer de nossas mentes santuários purificados em que Deus terá prazer em habitar.

Referi-me num parágrafo anterior aos "nossos pensamentos voluntários", e usei as palavras de propósito. Em nosso jornadear através deste mundo mau e hostil, ser-nos-ão impostos muitos pensamentos de que não gostamos e pelos quais não temos simpatia moral. As necessidades da vida podem compelir-nos por dias e anos a abrigar pensamentos em nenhum sentido edificantes. O conhecimento comum do que fazem os nossos semelhantes produz pensamentos repugnantes à nossa alma cristã. Estes necessariamente nos afetam, mas pouco. Não somos responsáveis por eles, e eles passam por nossas mentes como um pássaro cruzando os ares, sem deixar rastro. Não têm efeito duradouro em nós porque não são propriamente nossos. São intrusos mal recebidos pelos quais não temos amor e dos quais nos livramos tão depressa quanto possível.

Quem quiser verificar sua verdadeira condição espiritual pode fazê-lo notando quais foram os seus pensamentos nas últimas horas ou dias. Em que pensou quando estava livre para pensar no que lhe agradasse? Para o quê se voltou o íntimo do seu coração quando estava livre para voltar-se para onde quisesse? Quando o pássaro do pensamento foi posto em liberdade, voou para longe como o corvo, para pousar sobre as carcaças flutuantes ou, como a pomba, circulou e voltou para a arca de Deus? Ê fácil realizar esse teste, e, se formos sinceros conosco mesmos, poderemos descobrir não só o que somos, mas também o que vamos ser. Logo seremos a suma dos nossos pensamentos voluntários.

Conquanto os nossos pensamentos instiguem os nossos sentimentos, e assim influenciem fortemente as nossas vontades, é contudo certo que a vontade pode e deve ser senhora dos nossos pensamentos. Toda pessoa normal pode determinar aquilo em que vai pensar. Naturalmente, a pessoa aflita ou tentada pode achar um tanto difícil controlar os seus pensamentos, e mesmo enquanto se concentra num objeto digno, pensamentos insensatos e fugidios podem fazer travessuras sobre a sua mente, como vivos relâmpagos numa noite de verão. Tendem estes a ser mais molestos do que perniciosos e, no final das contas, não fazem muita diferença, sejam isto ou aquilo.

O melhor meio de controlar os nossos pensamentos é oferecer a mente a Deus em completa submissão. O Espírito Santo a aceitará e assumirá o controle dela imediatamente. Depois será relativamente fácil pensar em coisas espirituais, especialmente se treinarmos o nosso pensamento mediante longos períodos de oração diária. Praticar longamente a arte da oração mental (isto é, falar com Deus interiormente, enquanto trabalhamos ou viajamos) ajudará a formar o hábito do pensamento santo.

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Esse texto foi roubado cautelosamente de http://www.ortopraxia.com/2011/03/para-estarmos-certos-temos-de-pensar.html. Cem anos de perdão. Ninguém viu.

domingo, 20 de março de 2011

Qual o seu motivo?



texto de A. W. Tozer, traduzido por Pr. Timóteo Sanches, depois alterado

A prova pela qual toda conduta será finalmente julgada é o motivo. Como a água não pode subir mais alto do que a sua fonte, a qualidade moral de um ato nunca pode ser maior do que o motivo onde se inspira. Por isso, nenhum motivo mau pode gerar um ato bom, mesmo se algum bem parecer que resulta dele. Toda a ação praticada por ira ou despeito, por exemplo, mostrará que foi praticada a favor do Inimigo e contra o reino de Deus.

Infelizmente, a religiosidade também funciona assim: pode vir de motivos maus, como a raiva, a inveja, a vaidade e a avareza. Nesse caso, essa religiosidade é má e será avaliada no dia do julgamento.

Na relação de motivos e ações, os fariseus foram exemplos claros. Eles foram o mais triste fracasso religioso do mundo, não por causa do erro doutrinário, nem porque eram pessoas de má conduta. Todo o problema estava nos seus motivos religiosos. Oravam, mas para serem ouvidos pelos homens; o seu motivo arruinava as orações e inutilizava, fazendo-as más.

Contribuíam com o templo, mas o faziam para escapar do seu dever para com os seus pais, e isso era um mal, um pecado. Os fariseus condenavam o pecado e se levantavam contra ele, quando o viam nos outros. Seu motivo era inocentarem a si mesmo e também por sua dureza de coração. Assim ficaram lembrados. Eram cercados por aparências de santidade; as mesmas ações, se fossem por motivos puros, seriam boas e louváveis. Toda a fraqueza dos fariseus estava na qualidade de seus motivos.

Isso não é uma coisa insignificante. Aqueles religiosos formais e ortodoxos continuaram em sua cegueira, até que crucificaram o Senhor, sem qualquer noção do seu crime.

Atos religiosos com motivos vis são duplamente maus - maus em si mesmos e maus por serem feitos em nome de Deus. Isto equivale a pecar em nome de Quem não tem (nem aprova) o pecado, mentir em nome de Quem é a verdade, e odiar em nome dAquele que é amor. Os crentes mais ativos devem separar um tempo para sondar a sua própria alma, certificarem-se dos seus motivos.

Muito solo é cantado para exibição; muitos sermões são pregados para mostrar talento; muitas igrejas são fundadas como um insulto contra outra igreja. Mesmo a atividade missionária pode tornar-se competitiva, e a conquista de almas pode degenerar, tornando-se uma espécie de marketing para satisfazer a carne. Os fariseus também eram grandes missionários, rodavam mares e terras para fazer convertidos!

Um bom modo de evitar a armadilha da religiosidade vazia é comparecer diante de Deus, sempre que possível, com nossa Bíblia aberta em 1 Coríntios 13. Esta passagem, considerada uma das mais belas da Bíblia, é também uma das mais severas. O apóstolo pega o serviço religioso mais nobre e o renega, se não for motivado pelo amor. Sem amor, profetas, mestres, oradores, filantropos e mártires são inúteis. E amor até o pecador mais sujo pode ter.

Resumindo, podemos dizer que, aos olhos de Deus, somos julgados não tanto pelo que fazemos e sim por nosso motivo. Não "o quê" mas "por quê" será a pergunta importante que ouviremos, quando nós, crentes, comparecermos no tribunal, a fim de prestarmos contas do que fizemos no mundo.