quinta-feira, 27 de março de 2025

Cultura Woke

Antes que me processem, essa imagem é de autoria de Michael Junkroski e foi retirada da sua postagem "Woke Like Jesus". Adulterei ela para não deixar isso óbvio. Um parágrafo que gostei muito no texto foi "Acho que Jesus é uma lição sobre acordar e responder às injustiças do mundo. Ele nos arranca da visão nebulosa causada pelo sono em nossas vidas e nos empurra para um estado mais elevado, um no qual estamos dolorosamente cientes das diferenças de privilégio e compelidos a não reequilibrar o sistema, mas a inclinar a balança em favor dos pobres e desprivilegiados."

Cultura woke é o nome dado por Reacionários a uma suposta predominância de aporte a ideologias de minorias. Na prática, significa patrocinar mídia com temática antirracista, feminista e pró-LGBT ao invés de outros temas. Os "Wokes" seriam pessoas "acordadas", capazes de ver a manipulação a que estão sujeitas (por parte da cultura, da economia, do governo - é a ideia de um inimigo difuso na classe superior). Os Reacionários são pessoas desagradadas com os Wokes, engajadas em calar ou eliminar eles. Via homicídio, se necessário.

    A primeira questão, indo no sentido contrário, é sobre esse inimigo que não é uma pessoa. Ele existe? Estamos sendo traídos pelo governo? Pelos mais ricos? Pelas potências estrangeiras? Eu não sei se o nome "traído" se aplica aqui, porque em geral a sociedade gira ao redor de consumo, oferta de salários e ensino. Não há promessas (ok, toda propaganda é uma promessa), e sim produtos à venda.

    No caso de consumo cultural, é mais ou menos opcional consumir o que te é oferecido. Existem livros, existe a internet, existem atividades que não são controladas (no Brasil). Fazer o que todos fazem "porque todos fazem isso" é muito mentalidade de rebanho..

    No caso de consumo de produtos físicos (alimentos, aparelhos, etc), sim, estamos nas mãos de uma classe privilegiada. Isso desde o séc. 17 pelo menos. A "cultura Woke", aqui, deveria incentivar o consumo a partir de pequenos produtores, o que muitas vezes acontece. Mas nem sempre. Os pequenos produtores, inclusive, costumam estabilizar a economia nacional porque geram muito mais empregos/R$ lucrado que as grandes empresas. Não é simples para os mais pobres optar coisa alguma, geralmente buscam apenas o que é possível (e as grandes empresas oferecem produtos mais baratos, com muito menos gente sendo empregada para gerar eles). Mas existe uma parcela da população que tem essa possibilidade de optar quanto ao que consumir. Claro, isso faz conta de uma faixa de renda que vai descendo desde "os mais abastados" até certo ponto da "classe média". Em outras palavras, quanto ao consumo, não há Wokes pobres. Não tem como haver, por uma questão de sobrevivência. De certa forma, a "cultura Woke" depende da parte superior do Sistema Capitalista. Relacionemos isso, no meio religiosos, como MISERICÓRDIAdos ricosquanto as pobres.

    No caso da oferta de salários, de novo estamos, sim, mas mãos de quem tem o capital e comanda o Estado. Não tem muita saída a não ser favorecer políticos que estabeleçam regras protecionistas ao trabalhador. Se esses trabalhadores são  majoritariamente pretos, pobres, indígenas, etc depende de uma análise populacional e também de um acordo empresarial sobre "a quem interessa proteger". Essas pessoas precisarão ser pagas e não vai ser o Estado a lhes sustentar. Dentro da mentalidade Woke, importa proteger as minorias. Dentro da mentalidade empresarial, importa pagar quem consome. Em se tratando de minorias, elas vão ser importantes para a economia quando consumirem produtos diferenciados. Não antes. Então o argumento Woke, embora bem humano, fica enfraquecido na sua aplicabilidade. 

    No caso de ensino, chegamos a um ponto complicado. Não há ensino integral, onde tudo seja ensinado aos jovens. E muito do que é aprendido, não é aprendido na escola: há um ensino cultural doméstico, há um ensino cultural das comunidades onde o jovem se apresenta, há um ensino das redes sociais (não as chamo de comunidades), há um ensino encolhido pela própria pessoa. Todos  eles carregam vieses. Mas nem todos são passíveis de regras. A escola é. Ali, o ensino útil às classes mais pobres é a de ideologias de esquerda, destinadas a semear a guerra por direitos. A mentalidade Woke cabe bem nesses locais. Já o ensino útil às classes mais altas é anti-Woke, no sentido de adquirir conhecimentos técnicos necessários a ter postos de trabalho mais altos - que serão proporcionados ou financiados aqui e ali por seus pais. Lutar por direitos indígenas ou equidade racial se torna absoluta perda de tempo, quando você só precisa de um diploma para assumir a vice-presidência da empresa da família, ou para abrir seu próprio escritório em sociedade com o tio milionário. Essa diferença faz pensar em escolas-de-esquerda e escolas-de-direita. Entre as particulares, estão as de direita. Entre as estaduais, tudo muda dependendo de quem está no poder, fazendo um campo de guerra entre aqueles que eram o poder antes e os que são o poder agora. O nome Woke vem daí, de uma forma pejorativa atribuído para os defensores de minorias por aqueles que estão ganhando o poder agora.

    Existe um poder dos mais ricos contra o qual seria justo lutar? Se considerarmos que as famílias mais politicamente poderosas do Nordeste brasileiro são aparentadas com os donos das Capitanias Hereditárias do séc. 16, que financiavam a Coroa Portuguesa, esse poder está posto aqui, no Brasil. Mas ele é disputado, claro, com sobrenomes que "ascenderam" ao longo da história. Trata-se, essencialmente, de uma política controlada pelos mais ricos e que satisfaz os seus interesses. Leis trabalhistas, educação e saúde pública foram implementações DO ESTADO na medida em que se apostou em aumentar o consumo e a eficiência da mão de obra local. E sim, isso sempre funcionou a longo prazo; a curto prazo é dinheiro que poderia ser investido em benefícios agrícolas. E por isso, nem faz sentido falar em Wokes aqui: temos, na verdade, um poder político dividido entre os ricos industriais e os ricos rurais, com flutuações de acordo com o mercado mundial. Na época de expandir a agricultura, investiu-se em estradas. Na época de implementar indústrias, investiu-se em educação básica e vacinação geral. 

    Mas sim, os Wokes estão fazendo seu barulho em prol de políticas para inclusão, equidade, etc. E serão atendidos na medida em que os ricos industriais enxergarem neles um mercado consumidor. Atuações como o Black Money, Pink Money, etc têm talvez mais poderio sobre as decisões políticas dos industriais do que os sindicatos. Talvez estejamos apenas na época do Woke Money sem ter percebido isso, e daí valorizar essa cultura de apoio às minorias ou declarar guerra aberta a tudo o que eles defendem (vide Bolsonaro, Milei, Trump, Orban, etc) vai do novo fortalecimento de um "poder agrícola". Como representantes de um poder econômico derivado da exploração pura e simples de mão de obra para obter os produtos que exportam do país, os empresários/políticos dessa ala têm muitos motivos para defender trabalho escravo, fim de leis trabalhistas e privatização de todos os serviços (povo = lucro a obter). Isso ganha força com recentes movimentos Neofacistas, de supremacia e extermínio das minorias, de forma bem chamativa ocorrendo em países com tradição agropecuária, numa época em que o Leste Asiático desponta como pólo industrial.

    Somos apenas fornecedores de matéria-prima e mão-de-obra sacrificada para esse Novo Mundo. As lutas que  travamos aqui interessam bem pouco nesse cenário: pretos, pobres, indígenas, florestas, rios e jazidas são todos BENS NECESSITANDO DE COMPRADOR. Itens de extrativismo à venda. E os donos dos governos estão fazendo seus negócios. A "cultura Woke", pretendendo mostrar extermínios e maus tratos, não é somente indesejada nesse novo sistema. Ela é desprezível, porque FAZ O PRODUTO À VENDA PARECER FEIO. Quem quer consumir produtos associados à escravização de pessoas, ou à destruição de florestas milenares? Há de se empregar toda mídia comprável em desqualificar esse tipo de visão, de discussão, de abordagem da sociedade. Wokes devem ser calados. Wokes devem ser eliminados. A la Velho Oeste, vivos-ou-mortos.

OS INCOMODADOS

    Um ponto bastante curioso é: a quem a cultura Woke incomoda? Quero dizer, a quem desagrada dar visibilidade aos problemas dos LGBTs, negros, feministas, deficientes, etc? Já vimos que eles são um setor consumidor, e produzir para esse público pode ser um mercado rentável. No entanto, há críticas numerosas contra as abordagens voltadas a eles. Teria desaparecido a cultura não-Woke? Isso é, teria acabado a possibilidade de produzir livros, novelas, séries, quadrinhos, pinturas, matérias de jornais e revistas sem uma abordagem Woke? Se falamos de uma minoria Woke, isso nem faz sentido. Não poderiam conduzir o mercado. Se falamos em uma maioria Woke, há um público consumidor. Falar contra ele é basicamente reclamar de ser uma minoria não atendida pela cultura. O que colocaria os não-Woke como parte dos Woke (rindo sim). Mas os reclamantes existem, declaram-se vítimas de um sistema governamental que não lhes dá voz, um inimigo econômico-cultural coletivo que os priva de visibilidade. Nada mais Woke!

    A visibilidade que se pretende aqui é das pessoas anti-LGBT, anti-negros, anti-mulheres, anti-indígenas, etc. Chamamos estes de grupo de Reacionários, porque sempre se manifestam em oposição a alguém. Estamos falando de pessoas cuja atuação social se direciona a retirar direitos de outras pessoas. Por exemplo, retirar um banheiro destinado a pessoas Trans. Retirar uma cota em concurso público destinada a Indígenas. E vai.. Em suma, manter todas as desigualdades que até mesmo o Sistema Legislativo reconheceu e está trabalhando para consertar. Não sem mérito, trata-se de pessoas autodenomidadas conservadores. A quem interessa manter as desigualdades? Às minorias oprimidas não é.

    Às maiorias oprimidas, fica a questão de se entender como explorado ou embarcar na ONDA COACH de se comportar como explorador para "enganar o universo" e Ele te transformar magicamente em rico empresário. Na época da Escravidão, funcionava com os Capatazes ou Feitores (nenhum deles jamais deixou a condição de escravo), recrutados para oprimir seus iguais e, assim, ser superior.

CADÊ O JESUS?

    Até aqui, talvez o leitor já esteja se perguntando onde foi parar o Cristianismo. Lá no seu tempo de 2000 anos atrás, mais ou menos, Jesus se propunha justamente a "acordar" as pessoas. Não a respeito da dominação Romana (há quem fale que Roma promoveu o Cristianismo de um culto agrícola para a metrópole do mundo antigo), mas falando exatamente contra a religião ritual, institucionalizada, ditada por alguém poderoso. E que dava pouco ou nenhum valor à solidariedade / horizontalidade entre os fiéis. Na condição de um suposto profeta, Jesus era sim um Woke do seu tempo: alguém preocupado com questões como pobreza, fome, doenças, santificação por política (como os Saduceus e Fariseus que compunham a elite Judaica) e a crença de que as pessoas não podem se ajudar. Jesus virava a mesa - literalmente - para dizer que elas tinham o dever de se ajudar. Podemos inclusive voltar à pergunta lá de cima: a quem Jesus e seus seguidores Wokes incomodavam?

    Não eram os Romanos, ainda. Os Cristãos só viraram alvo de Roma após o grande incêndio de 64 d.C. e as revoltas contra o Império nessa mesma época - Jesus é de 40 anos antes. Quem apresentou queixas contra Jesus? Quem mandou Saulo / Paulo de Tarso em perseguição aos Cristãos 20 anos antes? Foram os líderes religiosos da Judéia, em geral com as costas quentes por meio de Roma. Eles eram militaristas, os protetores da moralidade, da ordem, dos bons costumes, da dependência das pessoas quanto às regras ditadas pelo Templo. Isso incluía recrutarem populares para fazer negócios na entrada do espaço sagrado (para a economia não quebrar) ou apedrejar outro popular até a morte. Dá para perceber uma semelhança com os Reacionários, ofendidos mortalmente pela valorização de minorias subjugadas pela Sociedade.

ABSURDUM EST

    Seria completamente absurdo pensar que um carpinteiro pobre de Nazaré, batizado por um revolucionário vestido em peles da beira do Jordão, merecesse mais atenção do que um douto. Um Saduceu versadom pormenores da lei, educado por anos juntoa mestres famosos, frequentador da elite local Romana, descendente das famílias que guardaram o Templo durante a invasão Grega em 300 a.C. A quem cabe a MISERICÓRDIA? Como ficaria a meritocracia?

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Prefira "ser Woke" a ter que ler isso:

Junkroski, M. "Woke like Jesus", postagem em Medium.com,  02/jan/2023.
Loungecba.blogspot.com, "Século 1 - 1ª parte", 28/mai/2016.
Loungecba.blogspot.com, "Os dois lados de uma Cleópatra", 29/jun/2018.
Vacari Neto, N. et al. "Desvendando o Pink money para empreendedores". International Journal of Scientific Management and Tourism, v. 10, n. 6, p. e1211-e1211, 2024.

sexta-feira, 7 de março de 2025

CARNAVALESCO MAN

Bob

Para começar, o título é uma homenagem ao extinto programa Casseta & Planeta, dos anos 1990. Ele (o título) se explica pela referência explícita ao Carnaval, ou talvez a um super-herói questionável que espalhava o Carnaval por onde passava, com raios de purpurina e gritinhos. Mas estamos aqui para conectar o Carnaval brasileiro ao Cristianismo. Mais especificamente, a idéia é falar sobre Evangelho, "a boa notícia". Sim, parece sempre muito estranho que chamemos de Evangelhos a 4 textos (Marcos, Mateus, Lucas, João, nessa ordem cronológica) que contam, de modo narrativo (e diverso) a vida e morte de Jesus. Não a trajetória do Jesus Messias de Paulo, quem escreve a maioria dos outros textos do Novo Testamento, mas o Jesus humano, nazareno, pobre, mortal, raivoso, sofrido, traído, duvidado. Marcos é a base, supostamente reproduzindo as falas de um Pedro velho, que ele [Marcos] anotou. Mateus é o sonho. Lucas é a pesquisa, aquilo que o povo fala. João é o outro lado da história. E tudo isso trazido aqui, com a temática do Carnaval. Que pedante!

Calma lá, leitor. Vou só tentar te convencer que o Carnaval é uma festa Cristã do Bob Espoja. Pepepeperaí...

Esse texto deve ser sua 6ª versão. Ou outra, não faz mal. Ele surgiu da idéia (talvez absurda, e aí os muitos apagamentos têm algo a testemunhar) de discutir o Carnaval enquanto uma grande salada de crenças. Algumas Cristãs! Salada porque essas crenças são diversas como queijo, rúcula, limão e tomates; e porque nos chegam juntas, na melhor das intenções, mas nem sempre de forma boa. Olha só..

No Carnaval, eu identifico pelo menos 3 tribos tomando seus rumos: vou chamar elas de foliões ou Bob Esponjas (a não analogia é difícil para os fãs do desenho), querendo fazer o que der na telha, com suas purpurinas, batuques, trombones, etc; os Lula Moluscos, que só querem ficar em casa maratonando seriados, talvez; e os Crentes ou Siriguejos, que se reúnem para orar, jejuar, enfim fazer o contra dos Bob Esponjas. A analogia com o desenho parece instrutiva. Se você nunca viu, está perdendo. E a questão aqui é justamente O QUE O CARNAVAL CULTUA?

A resposta mais óbvia, penso eu, é que são as pessoas quem cultuam. Não é a data em si, nem as folias, mas as pessoas. E por isso as reparti em três bandos ou personagens. Os nomes do famoso desenho infantil vieram como forma de caracterizar os personagens carnavalescos. Copiei de um podcast que me fez rir muito. Bob Esponja é um rapaz (esponja do fundo do mar, mas é a cara dessas de lavar louça) que trabalha numa lanchonete, metido em um terninho. Ele faz tudo lá, na verdade é só ele quem sabe as receitas. Ganha quase nada e está sempre rindo da vida, das pessoas, até do próprio pé. Lula Molusco é outro funcionário (uma lula), vizinho do Bob no trabalho e na moradia, que tem aquele bom humor de tia velha da repartição pública combinado com diretora de escola em TPM. Em casa, sozinho, ele fica feliz. Desde que o Bob não apareça. E finalmente, Siriguejo é o dono da lanchonete (ele é um caranguejo), o capitalista que tenta lucrar com tudo, grita o tempo todo, demite todos umas 2 vezes por dia, possui de tudo e evita se misturar com a plebe, especialmente se ninguém pagar por isso.

No bloco dos Bobs, os seguidores de Paulo colocariam a placa "um culto da carne", ou simplesmente "dos prazeres". Dá para entender que aqui está o pessoal com chapéus engraçados, purpurinas, confetes, que segue os trios ou faz suas festinhas regadas a muita bagunça. A idéia original do Carnaval lá na Antiguidade era essa, de dar uns dias ao povo para se divertir independentemente da lei. Vale dizer que a lei Romana era imposta a muitos povos não-Romanos. O Carnaval era exatamente uma folga-de-Roma, inclusive para os Romanos. Cultuar a liberdade nesses dias era e é certamente compreensível, diria qualquer dirigente do Império. Não mudou muito.

Mas eu quero explorar isso. E fora da denominação de Paulo, que seguia o Platonismo grego, ou seja, o Espírito (intelecto) e a Carne (corpo) como inimigos entre si. Eu jamais conheci um corpo sem espírito (que fosse vivo) ou um espírito sem corpo (que também fosse vivo), por isso acho a idéia bizarra. Não estou sozinho nessa opinião.

O culto do prazer, por mais estranho que pareça, é corporal (de beber, dançar, beijar, abraçar, ser igual aos outros) e também espiritual (de ter prazer ao beber, de ter prazer ao beijar, de ter prazer ao abraçar, de ter prazer em ser mais um). Basicamente, ter prazer. Nosso cérebro carnal é preparado para escolher comidas e bebidas por prazer, e estar vivo enquanto você faz as muitas coisas que faz. E o cérebro espiritual (seja lá o que isso for, mas você entendeu a idéia) está amalgamado, misturado na coisa carnal. Diriam vários filósofos: é necessário ter prazer no que se está fazendo. Supostamente fomos feito com essa diretriz .. pelo Criador. Mas "ter prazer" se tornou algo ruim, pelo viés Platonista. Esse tema é complexo.

Há prazer em comer, há prazer na cerveja com os amigos, mas também na música. Há prazer em dormir. Há prazer em estar com seus filhos, e com seus pais. Há prazer em ver a arte nas igrejas Cristãs, e também em dançar para Orixás ou para as forças da Natureza. Há prazer em plantar, em colher e em ajudar um amigo. Há prazer em não fazer nada. Acredito que Jesus falava sobre isso quando contou do Bom Samaritano, que ajudava sem nada receber (além de prazer). Há prazer em desafiar as autoridades, e todo adolescente conhece isso. Jesus e todos os mártires também desafiaram autoridades. Há prazer em pintar e em cantar, porque a criatividade é prazerosa. Os Druidas antigos lá na Grã-Bretanha nunca se repetiam em seus cânticos, poemas e feitiços. Mas há prazer também em fazer o que você já faz bastante. Jesus ensinou o prazer de ver seu próximo estar bem. Quem poderia ter aprendido? 

Dentro do bloco carnavalesco dos Bobs, vale dizer que muitos rumos são possíveis. Nem todo prazer seu é prazer do outro e, talvez, atentar para esse "prazer do outro" seja uma lição valiosa para todos que embarcam na folia, atrás dos prazeres de si. Há caminhos para isso verdadeiramente religiosos, seja você Cristão ou não. Valorizar o prazer vai muito na direção do ensino de Jesus ao mostrar que seu pagamento é a própria ação, mas ela precisa trazer bem ao outro. Não é um compromisso estranho, eu lhe garanto. Alguém (Lá encima? Aqui do lado?) te fez justamente para isso, se ser feliz e fazer feliz.

Não esqueçamos os Lula Moluscos, quietos e  rindo seu canto escuro. Não tan´to mas são aqueles que só querem o feriado, a folga, para gastarem um tempo sozinhos. A analogia com o personagem é porque o Lula Molusco nunca quis encher o saco de ninguém. Nem quis ir a festa alguma. O que tem de errado nisso?

Dentro do mundo Capitalista, não tem nada errado. Cada um cuida de si. O Si é mais importante que todos, aliás. No mundo Socialista, alguém perguntaria "como você está servindo a sua comunidade?". Sim, ficar no seu mundinho particular pode então não ser bem visto. Mas não tem problema, desde que você saiba o que faz. Eventualmente, ficar longe de todos pode inclusive ser saudável para alguém se regular, apaziguar os próprios demônios. Se os Bobs querem festejar, os Moluscos só querem estar fora da festa. Mas a pergunta aqui é a mesma: quem você está cultuando quando faz isso?

Uns diriam Ninguém (isso quase sempre é mentira), outros diriam "eu mesmo" (o que seria verdade se você fosse completamente original, mas geralmente não é), outros diriam "a minha liberdade". A tal da Liberdade tem até uma estátua gigante, com tocha na mão e tudo. Não é ruim cultuar a Liberdade, especialmente se você o faz com ética. Nesse último caso, eu até recomendaria você o fizesse em outras épocas do ano, ou se tornasse até arauto desse movimento, pois as pessoas sofrem muito por falta de liberdade.

A parte ruim da liberdade - e vale dizer isso - é que ela costuma ser individualista, como o Molusco. Você basicamente pode ser você mesmo, sem ferir os demais, quando está sozinho. A tolerância ao outro costuma cair por terra quando nos deixamos ser livres, e isso é sintomático de que estamos, no fundo, separados. Apenas pelo que não é liberdade - ou seja, pela força ou o interesse - é que conseguimos estar juntos. Muitas vezes, nem casais conseguem ser livres enquanto juntos, como se o mundo fosse composto de regras estritas sobre o que fazer e não fazer, uma espécie de Roma legislativa sem espaço para a criatividade ou liberdade que nos caracterizam como seres pensantes e sensientes.

A Liberdade é importante para a vida, precisa ser cultuada e experimentada não apenas na solidão dos quartos e apartamentos, mas como inspiração para os demais. A Liberdade levou Jesus a jantar com Fariseus, Publicanos, Plebeus, Centuriões, Juízes, etc. Um nome (Romano) que não havia ainda, mas caberia em Jesus, é "libertino". Do tipo que pega o trigo "sagrado" para dar a homens famintos, ou sai fazendo coisas em pleno Shabat. Muitos O repeliram (os Evangelhos certamente não têm muito a dizer desses encontros ruins, que certamente se deram), mas outros gostaram tanto daquele tipo libertino que se inspiraram Nele. E daí a liberdade no Carnaval, mesmo naqueles tempos de Roma, seja mais Cristã do que você já pensou. "A verdade vos libertará", dizia Ele. E dessa forma, o Molusco é só um carnavalesco retraído quando quer ficar sozinho. Com certeza outros se juntariam a ele para preparar suas requintadas comidas, fazer suas miniaturas, suas esculturas ou tocar o seu trompete.

Sem fugir demais, resta falar sobre o clã dos Siriguejos. É o pessoal que repudia os festejos Pagãos fazendo seus festejos Cristãos. Por Pagão vamos relembrar que foram os Europeus não Romanos (pagani), depois os Europeus não Cristãos, depois os povos originários de África e América que os Europeus invadiram. Não sei se o nome ainda cabe, já tem gente demais dentro dele, incluindo denominações Cristãs diferentes da minha. O pessoal mais Cristão é ensinado a repudiar o pessoal Pagão, embora talvez compre verduras deles.. No Carnaval, isso se traduz em uma. comemoração parecida, mas com Jesus no nome. Talvez você tenha pago por ela igual um Bob pagou no abadá do seu carro alegórico.

Os Siriguejos, aqui, são o pessoal reacionário, que faz questão de ser diferente. Sem preconceitos, mas trata-se de organizar acampamentos, vigílias, etc que não acontecem noutras épocas do ano. É sempre uma possibilidade, no feriado. Mas quem eles cultuam com isso? Jesus Carnavalesco? Que não seja a si mesmos.

Há o problema de ser uma ação reacionária, ou seja, dependendo do outro e direcionada para se afastar ou diferenciar dele. Isso quer dizer que ela fortalece uma comunidade às expensas de declarar quem é o inimigo comum. Os Bobs, claro. Não é necessariamente alguém que vamos apedrejar, mas com certeza alguém que não queremos ser.. Há episódios de Jesus agindo assim, como os conflitos com os religiosos (em todos os Evangelhos, e sendo justo Ele o fundador involuntário de uma religião), com os vendedores no Templo e na instrução para os seguidores não voltarem a uma cidade onde tivessem sido rejeitados. Ide, mas não voltardes.

Esse grupo que "rejeita o mundo", como o Paulo platonista ensinava fazer, pode dizer de si que são os verdadeiros cultuadores de Jesus. Mas só uma parte, porque Ele não gostava de caixinhas e se juntava até com aquelas pessoas de quem mandava ficar longe. Os Siriguejos são esses que ficam longe, que não se misturam. E nesse fragmento de Jesus, estar longe, entre os seus, é um sinal de pureza. São as mesmas pessoas que dizem alegres "Eu evangelizei a Dna Alberta", mas não diriam "A Dna Alberta fez um bolo delicioso e comemos juntos". Não estar junto da Dna Alberta, no caso, se alia com evangelizar ela somente porque traz embutida uma noção de superioridade. Nesse pedestal que Jesus nunca quis, eu sou Cristão separado PORQUE eu sou superior. Comemorar diferente no dia da festa dos Bob Esponjas é o equivalente de fazer uma festa em minha casa NO DIA DO SEU ANIVERSÁRIO, e te dizer "cada escolhe onde ir; aqui ficarão os mais legais".

Rejeitar o mundo não necessariamente é ruim. Os mais religiosos e os mais psicóticos geralmente rejeitam. A diferença está em isso ser reacionário (isto é, no dia da festa dos Bobs) ou constante. Há santidade em "tirar o mundo que nos cega" para ver além. Porém, como aquele que monta um problema matemático a partir de um problema real e depois não retorna para a realidade, se o caminho de volta foi perdido, com certeza não estamos em bom rumo.

Comunicar-se com a sua divindade é maravilhoso para que ele/ela/elo nos instrua, mas essa mensagem tem de voltar aqui. Ou seja, o desligamento do real precisa trazer um alívio prático para os sofrimentos, porque não há como esquecê-los. A volta dos ensinos espirituais, seja quando forem (e talvez o feriado mais pagão seja a data que resta), precisa trazer mudanças e instrução. Principalmente no sentido de dizer às pessoas o que Jesus repete nos ouvidos faz muito tempo: "Cuide das minhas ovelhas". O Siriguejo, em seu "retiro de Carnaval" com gente semelhante, de mesma crença e renda, talvez traga muito menos de lá do que o Molusco, que ficou em casa.

Isso não quer dizer seja um programa de Carnaval matar os Bobs, muito menos ficar longe deles. Menos ainda evangelizar eles. Diante de tendas Cristãs montadas nas ruas onde passam os bloquinhos de Carnaval, será que a Dna Alberta ficou feliz de receber você? Porque será que ela gastou tempo (e gás) te fazendo um bolo? Quão PRÓXIMO você estava dela? Será que você estava mais disponível  do que ela estava PRÓXIMA de você? 

O propósito desse texto nunca foi trazer respostas, mas colocar perguntas que, se te foram difíceis, se te fizeram pensar, talvez tenham te evangelizado.

domingo, 9 de junho de 2024

Sebastião e Oxóssi no nordeste



Sincretismos. Essa palavra tão acadêmica é usada para indicar que um conhecimento ou uma cultura foi traduzido (erroneamente) dentro de outra, literalmente dando aos elementos de um lado a funcionalidade dos elementos do outro lado. Mais ou menos como substituir o açúcar por sal, porque são bem parecidos.

Um exemplo atual e prático de sincretismo é o Dia-das-bruxas. A data de 31/10 é uma data religiosa do antigo calendário Celta (Gália/Espanha, séc. 3 a.C.), chamada Samhain, que coincide com o Dia-de-los-muertos no México (01/11) e o Dia-de-finados no Brasil (02/11), ou seja, uma data quando os vivos e seus antepassados mortos se encontram. Na época dos Celtas, isso significava os vivos levarem presentes ou comidas para ter uma 'reunião' com seus mortos. Mas na Europa cristianizada, se tornou levar flores para os cemitérios (que os Celtas não tinham). A data relacionada aos mortos foi seguida no Brasil, mas não a tradição de fazer festas para os mortos, como no México. Nos EUA, ficou sendo uma peregrinação das crianças (vestidos de mortos) até a porta das casas para exigir seus presentes. Alguma coisa restou de reconhecível.

Aqui, eu gostaria de falar de um duplo sincretismo. Quem sabe triplo. Um deles, relacionado ao santo Católico denominado Sebastião, que foi sincretizado dentro do Cristianismo mesmo. Depois, sobre o orixá Oxóssi, oriundo das tradições Yorubás na região do Congo/Nigéria, que foi miscigenado, no Brasil, ao personagem Católico. O resultado foi uma curiosa quimera, que vale ser desmontada pelo que suas partes dizem das nossas várias vertentes culturais.

OXÓSSI

Oxóssi (escrita brasileira de Òsoòsi) é um Orixá. Na Nigéria, durante o festival de Obatalá (Orixá criador), uma cabeça de pedra é regada a bebidas alcoólicas em homenagem a ele. Diz-se que é a cabeça do próprio Oxóssi, deixada para fora quando ele se fundiu à terra. A palavra já foi usada para designar grandes reis da cultura Yorubá, aqueles que unificaram um grande número de aldeias ou cidades. Mais tarde, foi usada para designar divindades do panteão religioso, normalmente envolvidas com rios, árvores, o céu, etc. Embora hoje existam em forma escrita os textos referentes aos orixás, são na verdade poemas originalmente transmitidos em forma oral, como as lendas gregas. Isso significa que há vários Oxóssi, mais ou menos como os vários Aquiles que Homero reuniu quando escreveu A Odisséia: cada ilha grega tinha o seu herói um pouco diferente.

Os poemas que mencionam essa divindade o nomeiam também como Ocantoxoxô, Erinlè ou Inlè, dando a entender que Oxóssi é um título de grande honra (ex. César = imperador ou Cleópatra = rainha) e não um nome próprio.

Os poemas sobre Oxóssi identificam-no como um homem das matas, conhecedor de trilhas e plantas medicinais. Por outro lado, também é referido como Odé, ou caçador. Sua figura se ajusta bem ao povo Pigmeu que ainda vive na região do Congo, Camarões, etc, mas, dadas as similaridades de ambiente, é difícil o imaginário brasileiro não identificar Oxóssi com um indígena da Mata Atlântica ou Amazônia. Um antigo Itan (poema histórico) diz que Oxóssi atendeu ao convite de Oxalá/Obatalá e veio do Orum (céu) para habitar o Aiê (terra) junto com todo seu povo, antes mesmo que Ele criasse os homens. Não há referências sobre quem seria tal povo, mas a mitologia brasileira faz referência a "espíritos das matas" como Pai-do-mato, Caipora, Boitatá, Cuca, etc. Mesmo a temida Matinta-perera, bruxa das matas (regiões norte e nordeste) que se disfarça como pássaro, vai em algumas linhas fazer tal semelhança parecer assombrosa.

Os Orixás têm pai e mãe. Oxóssi é filho de um curioso Orixá chamado Okò (= fazenda ou fazendeiro), que parece ter sido um jovem irresponsável, briguento e bebedor, que foi expulso da cidade de Irawo e passou tempos andando pelos campos. Em algum texto ele é referido como Olasi ou Olagbirin. Em sua vida campestre, Okò progrediu como plantador (ele é associado ao surgimento da agricultura), voltando à cidade para prover alimentos numa época de fome, e por isso foi chamado Orixá da Agricultura. Okò é venerado com objetos e comidas brancas (símbolo dos Orixás fun-fun ou criadores, como Oxalá) depositadas na base de grandes árvores de mogno [africano], mas também com tigelas de água onde esse conhecedor das plantas medicinais seria capaz de depositar remédios. Muitas dessas características foram passadas a Oxóssi.

A mãe de Oxóssi é Ìyá Apáòka / Iya Nbanba / Iya Mó, outro personagem curioso. Ela é uma das Iyá Mi Oxorongá, ou Mães-feiticeiras, junto com Ìyá Mepere e Ìyá Bokolo. As três (ou centenas delas) vieram do Orum e tinham afeição pelas árvores, mas usavam seus poderes contra os homens¹. Do alto de cada árvore, as feiticeiras, que se transformavam em pássaros, proferiam encantamentos para perturbar tanto homens como Orixás. Qualquer semelhança com a Matinta-perera é digna de ser pensada. Apaziguada ou enfeitiçada por uma preparação de Okò, Ìyá Apáòka teria traído suas companheiras apaixonando-se por Okò, de quem gerou um filho (de ovo?) chamado Erinlè ou somente Inlè. Ao contrário dos outros Orixás, diz-se que Erinlé não aceita sacrifícios de aves (!).

Contam os Itans que Erinlé ( = caçador de elefantes) cresceu como Odé e recebeu seu título de Oxóssi após matar com única flechada um pássaro enorme, enviado das Oxorongá para atormentar uma aldeia. Invulnerável pela magia que o cercava, o pássaro teria sido momentaneamente distraído por uma oferenda de sua mãe às Oxorongá (!). Por isso o símbolo de Oxóssi é um arco-e-flecha. Mais tarde, raptado por Ossain, Orixá das matas mais profundas, ele teria aprendido de seu raptor os segredos de todas as plantas.

O artefato que Oxóssi carrega nas suas representações é um arco-e-flecha de metal; de metal tanto o arco como a corda e a flecha. Logo, não se trata de algo funcional. Outros Orixás também levam ornamentos de metal: Okò (que leva um cajado e uma adaga), Ogum (Senhor-do-ferro, que leva uma espada) e Xangô (Senhor-da-justiça, que leva um machado). Esse simbolismo denota um tempo em que a metalurgia desenvolveu-se na planície do rio Níger, mais ou menos no séc. 9 d.C., até onde se sabe por volta do reinado de Oduduwa². Sendo Xangô frequentemente descrito como um rei, é provável que ele e vários outros Orixás, colocados como divindades, já tenham sido reis Yorubá.

Erinlé também é o nome de um rio Nigeriano que comunica um lago de planície com o caudaloso e longo rio Oxum. Não sem motivo, os Itans dão conta de que Oxóssi/Erinlé apaixonou-se por Oxum, a Dama-das-águas-doces, filha da própria rainha Iemanjá (Dama-das-águas-salgadas). Oxum foi o primeiro ser a enganá-lo, lambuzando-se de mel e rolando sobre as folhas da floresta. Apesar do enorme apetite sexual de Oxóssi (semelhante a Okò, que geralmente é representado com um grande pênis ereto), os dois não se suportavam e se separaram após produziram um filho de estória ainda mais curiosa que o pai, com natureza dual (masculino/feminino, terrestre/aquático).

A semelhança dos Orixás com elementos da paisagem Yorubá não é casual: todo o entorno das aldeias, florestas, árvores, rios, etc são entendidos como entidades, seres vivos aos quais os homens devem respeito e com os quais podem conversar ou mesmo duelar.

SÃO SEBASTIÃO

Trata-se de um santo Católico do período tardio de Roma, entre o auge militar do Império (séc. 1 a.C.) e sua fragmentação no séc. 5 d.C. São Sebastião viveu entre 255 e 288 d.C. Nessa época, o Cristianismo ainda estava em formação, com muitas doutrinas circulantes e considerável integração com outras religiões do Império.

A veneração a São Sebastião foi descrita em textos já de 354 d.C., pouco depois da permissão do Cristianismo em Roma (313 d.C.) e menos de 70 anos após seu assassinato. Ele foi fortemente cultuado na Europa durante a Alta Idade Média, entre a fragmentação de Roma Ocidental e as Cruzadas. Num escrito do séc. 14, especifica-se que São Sebastião veio da Gallia Narbonensis (sul da França) e foi treinado como soldado Romano em 283 d.C. em Milão/Itália. Teria chegado ao posto de capitão da Guarda Pretoriana (soldados que protegiam o imperador, como o Serviço Secreto dos EUA), sem revelar que era Cristão. Nesse tempo, os Cristãos se reuniam silenciosamente nas casas de membros do grupo, sendo seu culto proibido e passível de morte.

Como encarregado dos prisioneiros, ele interagia com esses e as autoridades, tendo inclusive convertido ao Cristianismo pelo menos 16 pessoas que acabaram sendo todas executadas como mártires. De fato, o livro Legenda Áurea, sobre a vida dos santos, descreve que, quando as pessoas eram tentadas a renegar Cristo em troca de salvar as próprias vidas no cárcere, Sebastião as convencia do contrário: "... os contratempos são efême­ros, e essa perseguição que agora sofremos, se é violenta hoje, amanhã terá desaparecido: uma hora a trouxe, uma hora vai levá-la. Mas as penas eternas renovam-se sem cessar, a vivacidade de suas chamas nunca diminui, para sempre punir. Estimulemos nosso amor ao martírio". Nesse meio tempo, uma mulher muda passou a falar. O pai de dois condenados, adoentado, ficou curado após destruir os ídolos que guardava. Centenas de pessoas teriam sido batizadas em plena época de perseguição, ao ouvirem seus testemunhos.

Descoberto como Cristão, um dia ele também foi condenado à morte. A execução [militar] se deu com Sebastião amarrado a uma árvore e "os arqueiros atiraram nele até que ficou tão cheio de flechas quanto um ouriço, e assim o deixaram lá, como morto". Mas as flechas não mataram Sebastião, que foi resgatado pela viúva (também canonizada) de um dos outros mártires. Ela o levou para sua casa e cuidou de seus ferimentos, até que ficasse bom.

Já recuperado, ao invés de fugir, Sebastião se posicionou em um lugar onde o imperador Diocleciano (quem o mandara executar antes) deveria passar e bradou publicamente contra o rei - bem aos modos de João Batista acusando Herodes I - por suas crueldades com os Cristãos. Outra vez foi preso. Agora, num segundo martírio, ele foi espancado até a morte e seu corpo foi atirado na fossa Romana de esgotos. Mais uma vez uma mulher o resgatou, enterrando-o no local onde hoje está a Basílica de São Sebastião ("próxima aos apóstolos"), após uma recomendação post mortem vinda do próprio Sebastião.

O Catolicismo tem como poderosos ou místicos os restos mortais, que sempre atraem peregrinos aos túmulos dos santos. Por isso, o Papa Eugênio II presenteou os ossos "curativos" de São Sebastião à abadia de Saint Denys, na França, "exportando" para lá o seu culto em 826 d.C. O crânio de Sebastião teria sido separado e levado para Ebersberg/sul da Alemanha em 934 d.C, onde também surgiu um centro de peregrinação. Lá está preservado, ainda hoje, um pedaço de osso revestido com ouro e prata.

A recuperação "da morte" foi atribuída a algum poder milagroso de cura, ao que o santo foi associado. De fato, a maioria dos milagres de São Sebastião sempre ocorreram em situações de cura, especialmente nas épocas de peste/epidemia. Por causa disso, São Sebastião ocupou um lugar importante na mídia medieval, constando como um dos santos mais retratados no período após a Peste Negra (aprox. 1348, quando cerca de metade da Europa foi dizimada).

Desde a Renascença (sécs. 14 a 16), quando os ideais de beleza Grega foram resgatados, São Sebastião passou a ser representado como um jovem torneado, amarrado, contorcido e seminu, com as tradicionais flechas cravadas no corpo. Embora essa não tenha sido sua causa mortis, pouco se fala do martírio posterior. Aqui no Brasil, no dia 20 de janeiro (de 1567), aniversário de sua morte, os portugueses expulsaram os franceses do Rio de Janeiro (então Guanabara), ao que a cidade adotou São Sebastião como padroeiro.

Curiosamente, a exposição sacra do corpo masculino fez circularem associações dele com o ideal de atleta ou soldado, além de manifestações eróticas.

VÁRIOS PORQUÊS

É bem conhecido que os cultos Afro no Brasil utilizaram pedras (Otás) e imagens Católicas como refúgio contra a perseguição, decorando os templos de Candomblé(s) com imagens de santo e nomeando seus Orixás como personagens Cristãos. Com o processo de "cristianização" da África em andamento, a Igreja Católica passou a ver os negros como "um povo a se converter" e não mais como "mercadoria sem alma". Assim, desde o séc. 17 surgiram confrarias ou irmandades destinadas a catequizar e proteger os negros catequizados, geralmente tornados devotos de algum santo negro como São Benedito ou Santo Elesbão. Por volta de 1830, as confrarias haviam se agigantado, reunindo tanto negros "misturados", isto é, que praticavam uma mistura de Catolicismo e Candomblé (o que viria a ser a Umbanda, no séc. 19), quanto aqueles que praticavam publicamente o Catolicismo e, no interior da confraria, o Candomblé. Essa foi a origem dos mais antigos terreiros de Candomblé no Brasil (Ilê Axé Iyá Nassô Oká - antiga Sociedade São Jorge do Engenho Velho; Ilê Iyá Omin Axé Iyá Massê - antiga Sociedade São Jorge do Gantois; Ilê Axé Opó Afonjá.- antigo Centro Cruz Santa do Axé Opó Afonjá; Terreiro Bate Folha - antiga Sociedade Beneficente Santa Bárbara do Bate Folha; Ilê Axé Oxumaré ou Casa de Oxumarê - antiga Sociedade Cultural Religiosa e Beneficente São Salvador). Nessa época, entre aqueles que misturavam elementos dos dois credos, Oxóssi foi 'disfarçado como' ou 'misturado a' São Sebastião.

A tradução do Orixá em Santo reúne elementos da diáspora africana (povos Yorubá trazidos para o Brasil), do Cristianismo Europeu (com figuras heróicas e santos Católicos), dos indígenas habitando o nordeste brasileiro e do imaginário caboclo, como se fosse um grande "cozido" de ideias. Sem a imposição do Catolicismo aos Yorubá escravizados, é muito improvável que tal associação acontecesse, e justamente essa escolha entre Orixás e santos merece ser entendida.

Contra a escolha de um representante Cristão para a fé nos Orixás, claramente estava a disparidade de contexto das divindades. No contexto Yorubá lá na África, havia Orixás deixando o mundo espiritual para habitar elementos naturais do Aiê, dos quais se tornam protetores e onde podem ser invocados. Seus lugares não são apenas sagrados, mas que também falam a respeito deles. Lembremos que Enrilé é um caçador de elefantes e também um rio. No contexto Cristão, os santos são pessoas realizando maravilhas só explicadas sobrenaturalmente, muitas vezes tais que só começam a ocorrer após a morte do santo, geralmente nas proximidades de sua tumba ou restos mortais, como se ele emanasse nesse mundo algum poder oriundo de Deus.

Não há elementos para pensar que Oxóssi seria melhor traduzido em São Sebastião do que em outros santos Católicos, como São Huberto de Liège, o caçador (656 - 727 d.C.), ou São João Gualberto (985 -1083 d.C), que viveu em uma mata no pé dos montes Apeninos. A escolha de São Sebastião pela presença de flechas nas imagens parece muito boba. Afinal, se Oxóssi é um Odé, São Sebastião conforme retratado popularmente está mais semelhante à caça do que ao caçador.

Pensando que provavelmente o leitor brasileiro nunca ouviu falar dos santos mencionados acima, a escolha de São Sebastião pode estar ligada ao imaginário local único do Brasil e mais único ainda na região no nordeste, onde o país foi colonizado primeiro. O aspecto nu pelo qual São Sebastião é conhecido lembra um indígena brasileiro, os mesmos Cariris, Caetés, Tupinambás e Tupiniquins com quem os caboclos e portugueses disputavam terras. Sobre ele pesa o imaginário de guerreiro geralmente associada a alguma peça de armadura (também compatível com São Jorge, São Miguel Arcanjo ou até mesmo alguns apóstolos de Jesus como Simão o zelote). Além disso, a eleição de São Sebastião em particular pode ter alguma ligação com a grande popularidade nordestina de Dom Sebastião I (1554 - 1578), um lendário rei de Portugal³. Nessa terra de engenhos de açúcar para onde desembarcaram muitos Yorubás, o rei português morto no norte da África pode ter tido sua imagem (mítica) misturada com a do santo Pretoriano de quem veio seu nome, favorecendo que ganhasse ares de cavaleiro ou guerreiro salvador.

Dom Sebastião foi associado à cavalaria medieval e muito propagandeado como esperança de libertador pelo célebre escritor luso-brasileiro Padre Antônio Vieira⁴. Ecos desse culto a Dom Sebastião foram vistos até mesmo no final do séc. 19 em episódios como a Pedra Bonita⁵. Nessa junção do Orixá africano com o indígena brasileiro e o cavaleiro mítico português, o santo Romano levou vantagem. Os dias votivos de São Sebastião e Oxóssi são ambos em 20 de janeiro, aniversário de morte do santo*.

Uma semelhança sensível entre os dois mundos, que também deve ter contribuído para que os brasileiros caboclos unissem um Orixá a um santo é que os Orixás são materialmente associados a seus elementos. Na África, Enrilé era associado com as matas ao redor do rio de mesmo nome mas, no Brasil, o conceito se diluiu e Oxóssi se tornou um indígena da Mata Geral. Qualquer mata, e mais particularmente a Mata Atlântica no litoral do nordeste. Os santos Católicos são geralmente associados a basílicas e templos contendo algum resto mortal do santo, peça de roupa, etc. Na Europa, São Sebastião ficou "repartido" entre o local em que foi enterrado originalmente e mais dois onde guardam pedaços seus (Itália, França e Alemanha). No Brasil, sem as basílicas, toda igreja ou casa com uma imagem do santo pode ser local de culto.

Se há o fácil acesso a pontos de culto encontrado no Candomblé, que permitiu a devoção a Orixás africanos acontecer no Brasil e Caribe, a devoção aos santos Católicos também pode ser muito significativa em locais pouco oficiais como capelas erigidas numa fazenda, numa casa, etc. Imagine-se o que pode ter ocorrido com uma imagem de São Sebastião, tradicionalmente seminu e portando alguma parte de armadura, se esta fosse instalada por portugueses em uma capela junto à mata, num local de adoração frequentado por caboclos brasileiros, muitos descendentes de Yorubás ou convivendo com descendentes deles, que tinham contato com indígenas e que ouviam, na cidade, sobre as façanhas de Dom Sebastião. Esse caldeirão onde todas as ideias se misturam pode ter "cozinhado" um Oxóssi - São Sebastião que ganharia seu nome dependendo de onde estivesse, se numa reunião de Candomblé ou numa procissão.

Com o tempo, os ambientes de Candomblé e Catolicismo brasileiros se distanciaram. A urbanização das populações contribuiu muito para isso. Os filhos de Oxóssi, hoje, tentam aproximar seus comportamentos da vida indígena, ideais de coragem, manipulação de ervas medicinais e provimento de alimentos. Em muitos casos, são filhos-de-santo (iniciados) que incorporam o Orixá nas cerimônias religiosas e estão condicionados a abster-se de algumas coisas chamadas "quizilas". No mundo Cristão, as experiências mais intensas estão associadas às igrejas evangélicas pentecostais, onde se fala da possessão pelo Espírito Santo, mas onde nenhum santo é cultuado. Dentro do universo Católico em específico, onde estão os devotos de São Sebastião, há quem participe do auxílio e pregação aos presos ou doentes (como Sebastião em seus tempos de Guarda Pretoriana), mais raramente desafiando governantes injustos (geralmente ditadores ou presidentes militares).

Entre os filhos de Oxóssi (ou qualquer outro Orixá), não há apelos à prática de nudez, mesmo em situações rituais. Tampouco há qualquer elemento gay nas incorporações desse Orixá. Também não há nudez ou elementos gays (seja lá o que isso for) nas manifestações de fé Católicas. Dessa forma, o apreço dos gays (masculinos) com São Sebastião não tem qualquer associação com a vida do santo, nem com suas formas de culto e provavelmente ocorre apenas via uma reação mais imatura à exposição do corpo masculino.

O milagre de cura de São Sebastião não se repetiu com ele mesmo, que morreu espancado. Sua popularidade na Europa foi construída através de contos sobre a influência benigna dele na cura de vários doentes ou até cidades inteiras. Por exemplo, o rei Gumbert da Lombardia (665 - 700 d.C.) supostamente conseguiu que a peste parasse de atacar suas terras após mandar erguer no ano de 680 um altar para São Sebastião na capital Ticinum, hoje Pávia / Itália. Há Orixás com poder de cura e Oxóssi é um deles, mas não existe uma "oração para Oxóssi" ou mesmo um ebó (oferenda) que possa ser feito para conseguir magicamente uma cura. Há, porém, preparações medicinais feitas pelo babalaô/ialorixá que devem, a fim de produzirem seu efeito, serem consagradas por exemplo a Oxóssi. Participar de um desses rituais de cura não é tão diferente de levantar um altar para o santo sobre seriam preparados os medicamentos.

Podemos finalizar afirmando que o equivalente de Oxóssi dentro do Cristianismo é São Sebastião por motivos bem particulares do nordeste do Brasil na época da colonização. O "Sebastoxóssi" produzido  daí não é cultuado nas igrejas Católicas nem nos terreiros de Candomblé, por serem religiões mais atreladas a sua fundação histórica. Mas trata-se de uma divindade presente na religiosidade mais popular e alheia às autoridades e bibliografias. E ele também é uma divindade reverenciada em muitos templos de Umbanda, de Jurema ou simplesmente um elemento de compreensão ou aceitação das divindades Afro dentro do universo Católico.

Nesse espaço, "Sebastoxóssi" funciona semelhantemente a um signo do zodíaco, um arquétipo de personalidade significando ser "confiante, expansivo, e também raivoso quando ameaçado ou traído". No Candomblé, além do arquétipo de personalidade existe a necessidade do "filho de Oxóssi" agradar seu Orixá patrono para ter sucesso, assim como ter "de nascença" certas fragilidades em relação às quizilas que o enfraquecem. Oxóssi é fragilizado por mel (vide Oxum), bebidas alcoólicas (vide Ossaim) e aves mortas (vide mamãe Apaoká). Dentro da Umbanda, vemos algo da devoção Católica de oferendar algo para obter certo resultado, ou mais especificamente realizar alguma "simpatia" ou "despacho" para se obter o favor do santo, além da tradicional devoção imposta por um dos pais que dedicou a criança ao santo, em geral em troca da cura de uma doença grave.

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notas de rodapé:

¹ Dentro do entendimento Yorubá da Natureza, as árvores possuem temperamentos específicos, podendo ser benéficas ou terríveis. Daí a necessidade de interagirem com as árvores e conseguir sua amizade. A árvore Orobó (Garcinia kola heckel) produz felicidade, justiça e vida longa; a araticuna da areia (Annona senegalensis) produz destruição de tudo que alguém gosta; o baobá (Adansonia sp.) propicia a realização dos desejos; o iroko ou gameleira branca é a árvore mais poderosa de todas (Milicia excelsa ou Ficus insipida) e pode fazer as pessoas sofrerem acidentes; o apaoká ou mogno (Khaya senegalensis) é capaz de matar.

² Oduduwa é referido também como um Orixá. Ele rivaliza com Oxalá nas tradições sobre a criação do mundo material. Em alguns Itans, Oxalá se embriaga com vinho de palmeira, dorme e Oduduwa vem em seu ligar para o Aiê e cria o mundo. A Oxalá resta a fabricação dos homens a partir do barro. Verger chegou a registrar um Itan onde Odudua é a esposa de Oxalá. Nos Itans particularmente transplantados para o Brasil com líderes religiosos escravizados, toda a Criação ocorre por obra de Oxalá e Oduduwa nem é mencionado.

³ Dom Sebastião I nasceu em 20 de janeiro e foi nomeado em homenagem ao santo executado naquele dia. Ele foi coroado rei de Portugal em 1574 e desapareceu no Marrocos, durante uma batalha do processo de conquista do norte da África por Portugal. Muito jovem para ter herdeiros, ele foi sucedido no trono por seu parente Felipe II, rei da Espanha, que unificou os dois países. Em Portugal e no Brasil, nutriu-se por muito tempo a crença de que Dom Sebastião retornaria um dia da África para resgatar seu reino. No Brasil, Dom Sebastião tornou-se protagonista de lendas sobre um "cavaleiro salvador" que duraram até o séc. 19.

⁴ Padre Antônio Vieira (1608-1697) foi um jesuíta português que fez muitas viagens entre o Brasil e Portugal, terminando por ser enterrado na Bahia. Tratava-se de um intelectual com alta produção de textos, sermões e livros que eram muito influentes não apenas na política, mas também entre a sociedade não religiosa. Ele fez parte do movimento Sebastianista nos dois países, defendendo os direitos indígenas entre a nobreza. Mais ao fim de sua vida, Vieira chegou a escrever profecias que descreviam Portugal como o Reino de que a Bíblia fala, situando essa 'terra abençoada por Deus' bem aqui no Brasil. Por se tratar de um escritor e orador muito influente, suas ideias acaloraram as disputas por poder entre a Coroa Portuguesa a Igreja no Brasil.

⁵ Pedra Bonita, na Serra do Catolé / Pernambuco, foi palco de um evento messiânico retratado por Ariano Suassuna em seu livro "A Pedra do Reino". Nesse local de muitas mortes, onde existem duas torres de rocha de 30 m de altura no meio do sertão, entre 1836 e1838 um grupo de adoradores de Dom Sebastião I elegeu para si um rei-sacerdote que anunciava que, havendo suficientes sacrifícios humanos, Dom Sebastião (aquele, da reconquista da África) voltaria à vida ali mesmo, como um cavaleiro medieval vestindo sua armadura, tornaria as pedras em torres do seu castelo e implantaria um reino de justiça na Terra.

* Uma curiosidade: na Bahia, Oxóssi é sincretizado com São Jorge, o cavaleiro turco. Seu dia votivo então é 23 de abril, início da primavera.
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Nem leia mesmo..
 
Ajisafe,  Oluwo Ifagboun. Òrìsà Oko, Templo Iledi Ifagboun Ajisafe, 16/06/2021.

Barcelos, Renata (Yemojagbemi Omitanmole Arike). 10 coisas para saber sobre orisa Oko na Africa yoruba. 2023.
 
de Varazze, Jacopo (arcebispo de Gênova, 1229-1298). Legenda áurea : vidas de santos. Ed. Companhia das Letras, 2003.
 
Hansley, Keith. The Great Pestilence of Ticinum in the 7th century. Thehistorianshut.com, 16//06/2021.
 
Ifágbòàlà, Oluwo. O conceito do culto à Òsóòsi em relação à Òrúnmìlà. Instituto de Pesquisa Yorùbá – egbé Ifá gidi gidi, 07/06/2017.
 
Marins, Luiz de Lourdes. Òrìsà dídá ayé: òbátálá e a criação do mundo iorubá. África, v. 31-32, p. 105-134, 2011/2012.
 
Ogumefu, Margaret Irene. Yoruba Legends. Ed. The Sheldon Press, 1929.
 
Òrisà Oko. Candomblé - O Mundo dos Orixás, 02/10/2014.
 
Prandi, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. Ed. Companhia das Letras, 2001.
 
Tabu no Candombé - continuação. Candomblé casa das águas, 04/10/2016.
 
Verger, Pierre Fatumbi. Orixás – Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo. Ed. Corrupio, 1981.
 
Verger, Pierre Fatumbi. Lendas Africanas dos Orixás. Ed. Carybé, 1997.
 
Yá Apaoká. Oloje Ikú Iké Obárainan, 04/10/2013.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

SOBRE A BENÇÃO AOS CASAMENTOS HOMOSSEXUAIS

Recentemente, muito falatório circulou sobre a determinação do papa Francisco I sobre a benção aos casais homossexuais. Em geral, trataram-se de teorias sobre a Igreja Católica estar abrindo mão de uma exclusão antiga aos casamentos de pessoas do mesmo sexo - não no sentido de preconceito ou afastamento dos locais sagrados (como ocorre nas igrejas Protestantes / Evangélicas) - mas no sentido de não reconhecer uniões homossexuais.

O LADO DA LEI

No Brasil, a união civil de pessoas do mesmo serviço foi possibilitada pelo Projeto de Lei 580/07, do ex-deputado Clodovil Hernandes, onde a única condição imposta era de que as pessoas fixassem em contrato seus patrimônios. Sem haver ainda a anexação à Constituição, entretanto, a bancada Evangélica / Bolsonarista luta contra tal resolução através de outros projetos de lei, um do ex-deputado Capitão Lucínio Castelo de Assumção (PL) e outro do deputado pastor Francisco Eurico da Silva (também PL / Assembléia de Deus). Entre os argumentos contra a possibilidade de casamento homoafetivo estão que “a relação homossexual não proporciona à sociedade a eficácia especial da procriação" e a alegação de que o banimento da homossexualidade do catálogo de transtornos mentais (lá nos idos de 1973) foi uma intervenção político-ideológica na ciência.

Sinceramente, num planeta com 8 bilhões de pessoas, é difícil sustentar o valor inestimável da reprodução humana. Além disso, nenhum cientista (geralmente depreciados que são pela Igreja) apoia, hoje em dia, o tratamento medicinal da homossexualidade.

O LADO RELIGIOSO

A posição da Igreja como hostil aos homossexuais descende dos escritos moralistas de Paulo, lá nos anos 50 d.C.

Carta aos Romanos 1.19-32
Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou.
Porque as Suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o Seu eterno poder, como a Sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis.

Tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem Lhe deram graças. Antes, em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, aves, quadrúpedes e répteis.

Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si.
Mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém.

Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. Semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro.

Como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm. Estando cheios de toda a iniqüidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade; sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais e às mães; néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia.

Conhecendo a justiça de Deus (que são dignos de morte os que tais coisas praticam), não somente as fazem, mas também consentem aos que as fazem.

A rejeição aos homossexuais aparece no antigo sistema dos Fariseus (lá no Antigo Testamento), o que direciona para esse lado de maior rejeição as igrejas Evangélicas, junto com Testemunhas de Jeová e Mórmons. Os Protestantes Tradicionais/Históricos, Católicos, Muçulmanos e Judeus estão no meio do caminho, enquanto os Budistas e religiões Africanas situam-se no extremo de maior aceitação. Muitas vezes, os homossexuais são associados ao comportamento social da antiga cidade de Sodoma,destruída "devido a seus pecados" (Gênesis 19.1-11), sobre a qual o profeta Ezekiel escreveu:

Ezekiel 16.49
Eis que esta foi a iniqüidade de Sodoma, tua irmã [irmã de Gomorra, ambas incendiadas]: Soberba, fartura de pão, e abundância de ociosidade teve ela e suas filhas; mas nunca fortaleceu a mão do pobre e do necessitado.

No texto de Levítico, parte do longo código ditado a Moisés), os homossexuais estão excluídos daqueles aceitos por Deus (Levítico 18.22 e 20.13). Em sua 1ª Carta aos Coríntios, Paulo também listou os homossexuais entre aqueles que não entrarão no Reino de Deus, junto com idólatras, bêbados, ladrões e avarentos (1ª Coríntios 6.9). No mais atual Catecismo da Igreja Católica (1992, papa João Paulo II), a homossexualidade aparece descrita como "ato intrinsecamente desordenado", "contrário à lei natural porque fecha o ato sexual ao dom da vida", "em caso algum podendo ser aprovado". Ao contrário das igrejas mais Pentecostais, que atribuem a homossexualidade à possessão demoníaca ou afastamento do Espírito Santo, dentro da Igreja Católica apenas o ato sexual e os trejeitos são vistos como pecaminosos. Ao mesmo tempo em que a Igreja Católica afirma ser contra titular os homens por seu comportamento sexual, aos homossexuais ("dentro do armário") é prescrita a castidade eterna como forma de evitar o pecado que lhes tenta.

UM PAPA DESAFIADOR?

Diante desse posicionamento da Igreja Católica como hostil à união homossexual (hostilidade defendida fervorosamente pelos papas João Paulo II e Bento XVI), a declaração de Francisco I com relação à benção de homossexuais causou forte alvoroço. Cinco cardeais direcionaram ao "Dicastério para a Doutrina da Fé" uma carta contendo 5 "dubias", ou questionamentos acerca do posicionamento do papa. Trata-se de um novo nome para a "Suprema e Sacra Congregação do Santo Ofício", também já chamada "Suprema e Sacra Congregação da Inquisição Universal da Idade Moderna". O mesmo orgão que comandava as queimas de hereges e bruxas na Idade Média. Essa perguntas eram: (1) se devemos reinterpretar a Divina Revelação com base nas mudanças culturais e antropológicas; (2) se a prática de bênção das uniões com pessoas do mesmo sexo estaria de acordo com a Revelação; (3) se o Sínodo dos Bispos (assembléia que ajuda o papa nas diretrizes do Concílio Vaticano II, de aproximar a Igreja das comunidades desasistidas) é um órgão constitutivo da Igreja; (4) se a teologia da Igreja mudou e mulheres poderão ser sacerdotes; (5) se o perdão é um direito humano e o arrependimento não seria necessário para receber a benção.

Francisco I não apenas respondeu publicamente as questões no dia seguinte, mas juntou seus pareceres em forma detalhada no documento “Fiducia supplicans” (Confiança do Suplicante) publicado pelo Vaticano. Nas respostas e no texto, o papa abordou com "luvas de pelica" e admirável diplomacia a questão dos homossexuais. No fim, seu pronunciamento foi muito menos chamativo do que as teorias levantadas a respeito:

1) Não há nenhuma intenção da Igreja Católica em consentir ou abençoar uniões homossexuais. O casamento continua entendido como um sacramento da união de homem e mulher para a procriação. Assim, a união homossexual nem mesmo é considerada um "casamento" pela Igreja Católica.

2) A Igreja afirma não ter qualquer poder sobre relações que fogem ao prescrito na Bíblia. Isso se estende a todas as relações sexuais diferentes do casamento.

O ponto de Francisco I foi simplesmente estender o conceito de benção para um propósito da Igreja em aproximar os homens de Deus. A benção, segundo ele, é uma ferramenta para essa aproximação, pois Jesus abençoou as crianças, assim como os apóstolos no momento de sua Ascenção. Sem analisar nenhum dos dois grupos a respeito de sua retidão moral. Criticando uma postura elitista da Igreja ao requerer perfeição moral prévia das pessoas para aplicar aquilo que foi concedido gratuitamente por Jesus, o papa retratou a benção como algo que deve ser concedido a todos aqueles buscando a ajuda de Deus, independente de sua condição.

Mas também os homossexuais? Sim, a todos os homens que aceitam sua condição imperfeita e pedem a ajuda de Deus. As bênçãos têm como destinatários as pessoas, objetos de culto e devoção, imagens sagradas, lugares de
 vida, de trabalho e de sofrimento, os frutos da terra e do trabalho humano. No entanto, Francisco I ressaltou a diferença entre benção e sacramento, ou ato oficioso da entidade Igreja em aprovar e fortalecer algo. A benção gratuita não deve em momento algum se assemelhar a um sacramento: nem nos momentos em que esse é aplicado (como um casamento), nem com as mesmas roupas ou significados. Então os homossexuais podem ser abençoados, mas não se trata de estender o sacramento do matrimônio a uma união entre pessoas do mesmo sexo.

DETALHANDO AS COISAS

É interessante observar que a referência bíblica sobre a condenação dos homossexuais (e isso significa algo vago, que se estende na prática desde a perseguição e imposição de uma "cura gay pela fé", até afastamento dos espaços religiosos ou direcionamento à castidade) parte das cartas de Paulo, enquanto a determinação do que seria uma benção parte dos Evangelhos narrando a vida de Jesus. Até antes de Francisco I, as duas coisas pareciam inconciliáveis. Assim como em muitas outras situações, essa "rachadura interna" advém da origem fragmentada do Cristianismo: Marcos reproduziu o que ouviu de Pedro; Mateus "super-heroidizou" Jesus; Lucas recolheu narrativas das pessoas; João escreveu algo talvez mais idealizado, que construiu das andanças de Jesus por entre os  Samaritanos; Paulo misturou elementos Fariseus e Gregos para satisfazer a um Espírito Santo de perfeição moral.

Jesus não pareceu se importar com perfeição moral em qualquer um dos quatro diferentes Evangelhos. Entre Seus escolhidos, estavam pessoas comuns, cheias de conflitos e defeitos: um acreditava em luta armada, o outro em salvar a própria pele, etc. Justamente daí vinha seu conflito frequente com os Fariseus, que associavam perfeição e privilégio moral / social / político com a proximidade de Deus. No arrebanhamento da Igreja por Roma, as cartas de Paulo (e talvez muitas delas não escritas por ele) tiveram maior peso sobre a teologia Cristã do que o próprio Jesus. Como reflexo disso, hoje vemos pregações nas igrejas Cristãs que ressaltam muito mais a morte de Jesus como Sacrifício Vivo do que elementos da Sua vida; Jesus se  tornou alguém para reverenciar e não para imitar - o que devemos imitar é a perfeição moral que Paulo extraía do Espírito Santo.

Nesse caminho que o Cristianismo tomou, os homossexuais (e mais ainda sua união religiosa) estão bem longe de serem aceitos. Obviamente existem excessões bem mais aparentadas com o Jesus que pregava aos pescadores e Samaritanos do que com o Paulo Fariseu Romano. Dentro dessas esferas mais altas das instituições, a Igreja Católica deu um pequeno passo, entendendo os homossexuais (institucionalmente falando) como dignos de benção.

Certamente nada incomodaria mais ao Criador das galáxias, nebulosas e tudo o que é vivo ou morto do que alguém com preferências pelo mesmo sexo satisfazer suas preferências em uma relação duradoura com quem ama.

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NOS PORÕES QUE NÃO SÃO DO VATICANO

Júnior, J. e Haje, L. Comissão aprova projeto que proíbe o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Camara.leg.br, 10/10/2023.

Brabo, P. Em 6 passos o que faria Jesus. Ed. Garimpo, 2009. Cap. 1.




Sbardelotto, M. Papa responde às "dubia" de cinco cardeais. Ihu.unisinos.br, 03/10/2023. https://www.ihu.unisinos.br/categorias/632889-papa-responde-as-dubia-de-cinco-cardeais

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Em que dia Jesus nasceu

Peguei uma imagem do Carlos Ruas. Impossível descrever melhor o drama. Na esquerda Deus/Javé, no meio Zeus/Júpiter, na direita Odin/Anthony Hopkins.

Falar sobre o nascimento de Jesus é algo complicado em muitos aspectos. Cronologicamente, temos 3 fontes sobre Jesus: Paulo (que não conviveu com Ele nem Seu grupo, mas foi o 1º a escrever, por volta de 50 d.C.), Pedro (oral) -> Marcos -> Mateus -> Lucas (produzidos nessa ordem, que criam uma narrativa baseada, cada um, na narrativa anterior e mais algo próprio, feitas entre 70 e 100 d.C.) e João (que traça uma nativa própria, isolada das demais (aprox. 150 d.C.). Dentre esses Evangelistas, apenas Mateus e Lucas se preocuparam com o "Natal". Nos demais, Jesus chega ao texto bíblico já adulto.

UM POUCO DA HISTÓRIA DO NATAL 

As duas narrativas que temos sobre o Natal são semelhantes, mas não iguais. Em Mateus, trata-se de cumprir uma profecia de Miquéias sobre a cidade de Belém/Efrata (Miquéias 5.2). Um anjo aparece no sonho de José dizendo que Maria conceberia do Espírito Santo e seu filho deveria ser chamado Jesus e ser conhecido como Emanuel, além de Nazareno. "Uns magos vindos do Oriente" chegam em Jerusalém guiados por uma estrela, e depois rumam para Belém (ao sul), onde encontram o local do nascimento. Os presentes que trazem são ouro, incenso e mirra (esses eram produtos típicos da antiga rota-da-seda, que unia caravanas no curso litoral da China - Índia - Iêmen - Arábia - Palestina e Egito - Turquia - Grécia; quantos eram os magos, não saberemos jamais.

Em Lucas, o anjo Gabriel aparece ao sacerdote Zacarias para anunciar o nascimento milagroso de seu filho João (o Batista), depois aparece a Maria para anunciar que ela geraria o Filho do Altíssimo. José e Maria seguem de Nazaré para Belém, a fim de participar do Censo de Augusto, imperador Romano. Assim que Jesus nasce, fora da cidade, onde não havia hospedagem, uma multidão de anjos surge aos pastores no campo, convidando-os para ver O Salvador. Não há estrela, nem magos, nem presentes.

Em 1223, na cidade de Greccio/Itália, o monge Francesco (futuramente São Francisco de Assis) resolve encenar o nascimento de Cristo em praça pública, fazendo uma manjedoura de altar, com um boi e um burro amarrados a uma casinha de madeira e pedras, coberta e forrada com palha. Não havia nenhuma imagem de pessoas. A cena externa e sua pregação sobre um Jesus pobre e desamparado surpreenderam a ponto de ser comentada por muitos escritores e copiada até os dias de hoje.

A DATA NATALINA

O historiador judeu Sextus Julius Africanus (160-240 d.C.) datou a concepção de Jesus (como embrião) em 25/3 (início da Primavera e data em que ele afirmava que o mundo foi criado). Após nove meses no ventre de sua mãe, Jesus nasceria em 25/12. A festa nesse dia foi padronizada em 336 d.C., durante o reinado de Constantino I, quem legalizou o Cristianismo em Roma. Constantino colocou o novo feriado Cristão sobre vários feriados Romanos que coincidiam: (1º) a comemoração do solstício de inverno (no hemisfério norte, 21/12 marca a noite mais longa do ano, quando neva; no hemisfério sul, é o dia mais longo); (2º) era também o aniversário da divindade indo-européia Mitra, associada com a movimentação de todo o Zodíaco (o que hoje chamamos de movimento de precessão da Terra), luz e da lealdade militar; (3º) o Solstício marcava o dia do Solis Invictus, basicamente um culto ao Sol, do qual Constantino I era devoto; (4º) ao feriado se seguia a Saturnalia, festa em honra ao deus Saturno, durante a qual as pessoas festejavam com fantasias, bebiam muito e trocavam presentes).

Noutras palavras, a data do Natal não tem bases em Jesus propriamente dito, mas apenas se apoveitou de feriados Romano que foram resignificados. Para azar geral, os Evangelhos de Mateus e Lucas não especificam datas. Mas podemos dar um palpite de que 25/12 é o dia errado: considerando o clima da região de Israel, entre novembro e janeiro ocorre uma época bem fria e chuvosa, na qual ninguém (especialmente um casal com uma mulher grávida) seguiria de Nazaré para Belém através dos campos, muito menos receberia visitas de magos viajantes ou de pastores, porque nenhum animal de criação sequer estaria nos campos.

ESTIMANDO O NASCIMENTO DE CRISTO 

Os dois relatos bíblicos que temos, se pensarmos que eles de fato contém algo verídico sobre o Natal, por outro lado podem sugerir um momento para o nascimento de Jesus. Mateus cita o evento astronômico da estrela que guiou os magos do Oriente para o Ocidente. Lucas cita o Censo de Augusto, registrado sem ano preciso entre as muitas burocracias Romanas. Ora, o Censo (que não foi um processo rápido, mas um deslocamento de muitas pessoas em muitas regiões a fim de contabilizar uma possível força militar) foi decretado por volta de 8 a.C. e, contabilizando as votações do Senado e sua execução em províncias distantes, deve ter ocorrido em Israel entre 6 e 4 a.C., para encontrar em reinado todas os monarcas citados.

A pista seguinte é dada pela estrela. Alguns corpos celestes costumam ser bem significativos quanto ao seu brilho. Um deles é Vênus, nosso planeta mais próximo e "estrela" mais brilhante. Vênus é mais próximo do Sol do que a Terra, de forma que, ao anoitecer, ele sempre se mantém no Oeste. Seria uma bússola confiável nos desertos, porém não muito duradoura: Vênus geralmente é visto só até as 20h00. De manhã, Vênus reaparece no lado leste. Outra possibilidade é Júpiter. Trata-se de um astro muito brilhante que, entre 6 e 4 a.C., estava alinhado com a Terra e o Sol, ou seja, aparecendo fortemente durante as noites. Júpiter também se desloca para o Oeste durante a noite, podendo servir de bússola para alguém que fosse nessa direção. Observadores do céu (como eram as nações Persas de então) poderiam ter usado Vênus ou Júpiter como guia para chegar até Belém, mas talvez fosse pouco provável se referirirem a astros "costureiros" como indicativo de algo único em significado.

Um dos fundadores da astronomia moderna, Johannes Kepler (1571-1630), sugeriu que a Estrela de Belém pudesse ser algo como uma "nova", que é o nome dado a uma estrela explodindo. Nessa situação, pela qual só passam estrelas imensas, uma única delas pode produzir mais luz que toda a galáxia. São eventos raros e muito visíveis: o último foi registrado em 1997. Era uma boa teoria, mas carece de evidências práticas: quando uma estrela explode, ela destrói tudo a seu redor, incluindo outras estrelas, e deixa um imenso anel de poeira, que se expande com o passar dos anos, muitas vezes com um pulsar (o centro da estrela, que permanece emitindo pulsos de rádio). Não há nenhum resquício de nova que pudesse ter ocorrido por volta de 5 a.C. Além disso, os astrônomos Chineses da dinastia Han (206 a.C. - 220 d.C.) eram muito cuidadosos em suas anotações e não deixariam de registrar um novo astro de tal magnitude.

Isso deixa poucas opções para a tal estrela. Excluindo planetas e uma nova, a opção mais plausível (também pela dificuldade de provas em contrário) é o surgimento de um cometa. São astros às vezes bem notórios, brilhantes e grandes, com uma cauda que sempre aponta na direção do Oeste após o pôr do Sol. Alguns cometas são cíclicos, como o Halley, que se aproxima da Terra a cada 76 anos; outros são errantes e passam uma única vez pelo sistema solar.

COMETA DE BELÉM 

Citação de cometas no livro CHINESE MATHEMATICAL ASTROLOGY, de Ho Peng Yoke, 2003, com observações astronômicas antigas. "Po" é um cometa pequeno, pouco visível. "Sui" é um cometa grande.

Os astrônomos Chineses registraram um cometa pequeno em 12 a.C. (que confere com nosso conhecido Halley), um cometa gigantesco em 5 a.C. e outro pequeno em 4 a.C., ano em que Herodes I, rei da Galiléia, morreu. Este último pode ser descartado segundo Mateus, pois Jesus estaria então no Egito. O primeiro também pode ser descartado, pois Jesus não era ainda nascido. Justamente o cometa de 5 a C. corresponde às espectativas, sendo um astro novo e que chamou muito a atenção quando foi visto.

A datação Chinesa é precisa quanto aos dias: o grande cometa foi visto entre 9/março e 4/maio de 5 a.C., coincidente com a época da Páscoa, quando os pastores dormem nos campos mais quentes para proteger os rebanhos de ovelhas contra o ataque de lobos e chacais. O nascimento de Jesus na primavera é consistente com o relato de Lucas sobre uma visita de pastores em Belém, embora Lucas não mencione estrela alguma. Devido ao deslocamento quilométrico entre as terras persas e Jerusalém, isso colocaria o nascimento de Jesus em algum ponto no final de abril.

O cometa de 5 a.C., além de imenso, segundo a descrição Chinesa, também apareceu quando 3 planetas davam seu show no céu noturno: Marte, Júpiter e Saturno. Para astrólogos persas, isso certamente indicaria um evento grandioso no Oeste. Curiosamente, Johannes Kepler analisou os movimentos dos planetas e calculou seu alinhamento a cada 805 anos: segundo ele, em 1604, ano da Reforma Protestante; em 799 quando Carlos Magno foi coroado rei de toda Europa; em 7-6 a.C. quando Jesus nasceu; em 812 a.C. quando Isaías fez suas previsões; e em 1617 a.C. na época de Moisés. Ele não errou muito nas datas.

DEPOIS DO NASCIMENTO

Segundo Mateus, Herodes I inquiriu os magos sobre onde e quando deveria nascer o Messias. Logo após o nascimento de Jesus, um anjo apareceu nos sonhos de José e o alertou para fugir ao Egito, onde ficou até a morte de Herodes (4 a.C.). Nesse meio tempo, o rei mandou exterminar todos os meninos com menos de 2 anos. Já Lucas contra uma história diferente: não ocorre extermínio de crianças e aos 8 dias de vida Jesus chega ao Templo de Jerusalém para ser circuncidado. Ele volta com os pais todos os anos para a festa de Páscoa (o que parece ter feito diligentemente até seus últimos dias), até o episódio em que fica no Templo aos 12 anos, "ouvindo e questionando os doutores da fé". Já em Lucas 3.23 Jesus reaparece junto de João Batista, com 30 anos.

São detalhes bem díspares nos dois Evangelhos, sendo que os demais sequer mencionam uma infância de Jesus. Dada a importância que ambos dedicam para a linhagem de Jesus e o tempo em que compuseram seu trabalho (entre 70 e 100 d.C.), podem ser detalhes inventados ou coletados de forma a simplesmente preencher uma lacuna. Ambos os textos cumprem a função de atribuir ares heróicos ou proféticos para o o jovem Jesus, que caberiam a alguém revelando sua importância após os 30 anos. Mateus inclusive reproduz o extermínio de crianças da época de Moisés, enquanto Lucas associa Jesus com profetas em atividade no Templo, como Simeão e Ana bar Fanuel.

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Manuscritos de escritores vivos

Britannica - History and Society. Why Is Christmas in December?

HUMPHREYS, Colin J. The Star of Bethlehem, A Comet in 5 BC and the Date of Christ’s Birth. Tyndale Bulletin, v. 43, n. 1, p. 31-56, 1992.




RAYMO C. Do you see what I see? Sciencemusings.com, 24/02/2019


segunda-feira, 27 de novembro de 2023

O Fim está próximo

Dilúvio - quadro feito a pena e nanquim pelo ilustrador francês Gustave Doré (1832 - 1883)

Seguem 4 textos sobre o Dilúvio para serem lidos, antes de tudo.

1. DILÚVIO ASSÍRIO (Epopéia de Gilgamesh, Uruk, 2000 a.C.)

...

Gilgamesh então disse a Utnapishtim, o Longínquo: "Olho para ti, Utnapishtim, e vejo que és igual a mim; não há nada estranho em tuas feições. Pensei que fosse encontrar um herói preparado para a batalha, mas aqui estás, confortavelmente refestelado. Conta-me a verdade, como foi que vieste a te juntar aos deuses e ganhaste a vida eterna?" Utnapishtim disse a Gilgamesh: "Eu te revelarei um mistério; eu te contarei um segredo dos deuses."

Naqueles dias, a terra fervilhava, os homens multiplicavam-se e o mundo bramia como um touro selvagem. Este tumulto despertou o grande deus (Anu). Enlil (o guerreiro) ouviu o alvoroço e disse aos deuses reunidos em conselho: 'O alvoroço dos humanos é intolerável, e o sono já não é mais possível por causa da balbúrdia.' Os deuses então concordaram em exterminar a raça humana. Foi o que Enlil fez, mas Ea, por causa de sua promessa, me avisou num sonho.

Ele denunciou a intenção dos deuses sussurrando para minha casa de colmo: 'Casa de colmo, casa de colmo! Parede, oh, parede da casa de colmo, escuta e reflete. Oh, homem de Shurrupak, filho de Ubara-Tutu, põe abaixo tua casa e constrói um barco. Abandona tuas posses e busca tua vida preservar; despreza os bens materiais e busca tua alma salvar. Põe abaixo tua casa, eu te digo, e constrói um barco. Eis as medidas da embarcação que deverás construir: que a boca extrema da nave tenha o mesmo tamanho que seu comprimento, que seu convés seja coberto, tal como a abóbada celeste cobre o abismo; leva então para o barco a semente de todas as criaturas vivas.' 

Quando compreendi, eu disse ao meu Senhor: 'Sereis testemunha de que honrarei e executarei aquilo que me ordenais, mas como explicarei às pessoas, à cidade, aos patriarcas?' Ea então abriu a boca e falou a mim, seu servo: 'Dize-lhes isto: Eu soube que Enlil está furioso comigo e já não ouso mais caminhar por seu território ou viver em sua cidade; partirei em direção ao golfo para morar com o meu Senhor Ea. Mas sobre vós ele fará chover a abundância, a colheita farta, os peixes raros e as ariscas aves selvagens. A noite, o cavaleiro da tempestade vos trará uma torrente de trigo.'

Ao primeiro brilho da alvorada, toda a minha família se reuniu ao meu redor; as crianças trouxeram o piche e os homens todo o resto necessário. No 5º dia eu aprontei a quilha, montei a ossatura da embarcação e então instalei o tabuado. O barco tinha um acre de área e cada lado do convés media 120 côvados, formando um quadrado. Construí abaixo mais 6 conveses, num total de 7, e dividi cada um em 9 compartimentos, colocando tabiques entre eles. Finquei cunhas onde elas eram necessárias, providenciei as zingas e armazenei suprimentos. Os carregadores trouxeram o óleo em cestas. Eu joguei piche, asfalto e óleo na fornalha. Mais óleo foi consumido na calafetagem, e mais ainda foi guardado no depósito pelo capitão da nave. Eu abati novilhos para a minha família e matava diariamente uma ovelha. Dei vinho aos carpinteiros do barco como se fosse água do rio, vinho verde, vinho tinto, vinho branco e óleo. Fez-se então um banquete como os que são preparados à época dos festejos do ano-novo; eu mesmo ungi minha cabeça. No 7º dia, o barco ficou pronto.

Foi com muita dificuldade então que a embarcação foi lançada à água; o lastro do barco foi deslocado para cima e para baixo até a submersão de 2/3 de seu corpo. Eu carreguei o interior da nave com tudo o que eu tinha de ouro e de coisas vivas: minha família, meus parentes, os animais do campo - os domesticados e os selvagens - e todos os artesãos. Eu os coloquei a bordo, pois o prazo dado por Shamash (o Sol) já havia se esgotado; e ele disse: 'Esta noite, quando o cavaleiro da tempestade enviar a chuva destruidora, entra no barco e te fecha lá dentro.'

Era chegada a hora. Caiu a noite e o cavaleiro da tempestade mandou a chuva. Tudo estava pronto, a vedação e a calafetagem; eu então passei o timão para Puzur-Amurri, o timoneiro, deixando todo o barco e a navegação sob seus cuidados. Ao primeiro brilho da alvorada chegou do horizonte uma nuvem negra, que era conduzida por Adad, o Senhor da tempestade. Os trovões retumbavam de seu interior, e, na frente, por sobre as colinas e planícies, avançavam Shul-lat e Hanish, os arautos da tempestade. Surgiram então os deuses do abismo; Nergal destruiu as barragens que represavam as águas do inferno; Ninurta, o deus da guerra, pôs abaixo os diques; e os 7 juizes do outro mundo, os Anunnaki, elevaram suas tochas, iluminando a terra com suas chamas lívidas. Um estupor de desespero subiu ao céu quando o deus da tempestade transformou o dia em noite, quando ele destruiu a terra como se despedaça um cálice. Por um dia inteiro o temporal grassou devastadoramente, acumulando fúria à medida que avançava e desabando torrencialmente sobre as pessoas como os fluxos e refluxos de uma batalha; um homem não conseguia ver seu irmão, nem podiam os povos serem vistos do céu. Até mesmo os deuses ficaram horrorizados com o dilúvio; eles fugiram para a parte mais alta do céu, o firmamento de Anu, onde se agacharam contra os muros e ficaram encolhidos como covardes.

Foi então que Ishtar, a Rainha do Céu, de voz doce e suave, gritou como se estivesse em trabalho de parto: 'Ai de mim! Os dias de outrora estão virando pó, pois ordenei que se fizesse o mal; por que fui exigir esta maldade no conselho dos deuses? Eu impus as guerras para a destruição dos povos, mas acaso estes povos não pertencem a mim, pois fui eu quem os criou? Agora eles flutuam no oceano como ovas de peixe.' Os grandes deuses do céu e do inferno verteram lágrimas e se calaram.

Por 6 dias e 6 noites os ventos sopraram; enxurradas, inundações e torrentes assolaram o mundo; a tempestade e o dilúvio explodiam em fúria como dois exércitos em guerra. Na alvorada do 7º dia o temporal vindo do sul amainou; os mares se acalmaram, o dilúvio serenou. Eu olhei a face do mundo e o silêncio imperava; toda a humanidade havia virado argila. A superfície do mar se estendia plana como um telhado. Eu abri uma janelinha e a luz bateu em meu rosto. Eu então me curvei, sentei e chorei. As lágrimas rolavam pois estávamos cercados por uma imensidade de água. Procurei em vão por um pedaço de terra. A quatorze léguas de distância, porém, surgiu uma montanha, e ali o barco encalhou.

Na montanha de Nisir o barco ficou preso; ficou preso e não mais se moveu. No 1º dia ele ficou preso; no 2º dia ficou preso em Nisir e não mais se moveu. Um 3º e um 4º dia ele ficou preso na montanha e não se moveu. Um 5º e um 6º dia ele ficou preso na montanha. Na alvorada do 7º dia eu soltei uma pomba e deixei que se fosse. Ela voou para longe, mas, não encontrando um lugar para pousar, retornou. Então soltei uma andorinha, que voou para longe; mas, não encontrando um lugar para pousar, retornou. Então soltei um corvo. A ave viu que as águas haviam abaixado; ela comeu, voou de um lado para o outro, grasnou e não mais voltou para o barco. Eu então abri todas as portas e janelas, expondo a nave aos quatro ventos.

Preparei um sacrifício e derramei vinho sobre o topo da montanha em oferenda aos deuses. Coloquei quatorze caldeirões sobre seus suportes e juntei madeira, bambu, cedro e murta. Quando os deuses sentiram o doce cheiro que dali emanava, eles se juntaram como moscas sobre o sacrifício. Finalmente, então, Ishtar também apareceu; ela suspendeu seu colar com as jóias do céu, feito por Anu para lhe agradar. 'Oh, vós, deuses aqui presentes, pelo lápis-lazúli que circunda meu pescoço, eu me lembrarei destes dias como me lembro das jóias em minha garganta; não me esquecerei destes últimos dias. Que todos os deuses se reúnam em torno do sacrifício; todos, menos Enlil. Ele não se aproximará desta oferenda, pois sem refletir trouxe o dilúvio; ele entregou meu povo à destruição.'

Quando Enlil chegou e viu o barco, ele ficou furioso. Enlil se encheu de cólera contra o exército de deuses do céu. 'Alguns destes mortais escaparam? Ninguém deveria ter sobrevivido à destruição.' Então Ninurta, o deus das nascentes e dos canais, abriu a boca e disse ao guerreiro Enlil: 'E que deus pode tramar sem o consentimento de Ea? Somente Ea conhece todas as coisas.' Então Ea abriu a boca e falou para o guerreiro Enlil: 'Herói Enlil, o mais sábio dos deuses, como pudeste tão insensatamente provocar este dilúvio?

Inflige ao pecador o seu pecado, 
Inflige ao transgressor a sua transgressão, 
Pune-o levemente quando ele escapar, 
Não exageres no castigo ou ele sucumbirá; 
Antes um leão houvesse devastado a raça humana 
Em vez do dilúvio, 
Antes um lobo houvesse devastado a raça humana 
Em vez do dilúvio, 
Antes a fome houvesse assolado o mundo 
Em vez do dilúvio. 
Antes a peste houvesse assolado o mundo 
Em vez do dilúvio.

Não fui eu quem revelou o segredo dos deuses; o sábio soube dele através de um sonho. Agora reuni-vos em conselho e decidi sobre o que fazer com ele.'

Enlil então subiu no barco, pegou a mim e a minha mulher pela mão e nos fez entrar no barco e ajoelhar, um de cada lado, com ele no meio. E tocou nossas testas para abençoar-nos, dizendo: 'No passado, Utnapishtim era um homem mortal; doravante ele e sua mulher viverão longe, na foz dos rios.' Foi assim que os deuses me pegaram e me colocaram aqui para viver longe, na foz dos rios.

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2. DILÚVIO GREGO (Mitos reunidos por Thomas Bulfinch, séc. 6 a.C.)

...
A mais dura e a pior das idades foi a de Ferro. Uma torrente de crimes eclodiu; a modéstia, a verdade e a honra desapareceram. Em seu lugar vieram a fraude, a dissimulação, a violência e a ambição sem limites.

Então os marinheiros ergueram suas velas aos ventos, e as árvores foram tiradas das montanhas para servir de quilhas aos navios, que arranharam a face do oceano. A terra, que até agora tinha sido cultivada coletivamente, começou a ser dividida em propriedades. Os homens, não satisfeitos com aquilo que a superfície produzia, resolveram rasgar as entranhas da terra para tirar de lá os minérios e metais. O ferro nocivo e o ainda mais nocivo ouro foram produzidos.

Estouraram as guerras utilizando-se de ambos como armas; o hóspede já não se sentia seguro na casa de seu amigo; e os genros e sogros, irmãos e irmãs, maridos e esposas não podiam mais confiar uns nos outros. Filhos desejavam que seus pais estivessem mortos, de modo que pudessem receber a herança; o amor familiar caiu prostrado. A terra estava molhada pelo sangue dos massacres, e os deuses a abandonaram, um por um, até restar apenas Astreia (Inocência), que finalmente partiu também.

Ao ver esse estado de coisas, Júpiter ardeu em fúria. Reuniu os deuses em conselho. Atendendo ao chamado, eles tomaram a estrada para o palácio no céu. A estrada, que qualquer um pode enxergar em noite clara, se estende através da face do céu, e é chamada de Via Láctea. Às margens da estrada erguem-se palácios de deuses ilustres; a plebe celestial vive à parte, de ambos os lados da estrada.

Júpiter dirigiu-se à assembleia, relatando as condições assombrosas das coisas na terra, e terminou revelando suas intenções de exterminar todos os seus habitantes e de criar uma nova raça diferente da primeira, uma raça que seria mais digna de viver e mais devota aos deuses. Assim dizendo, tomou um raio nas mãos e já estava prestes a lançá-lo para destruir o mundo pelo fogo, mas, lembrando-se do perigo que tal conflagração poderia representar caso o próprio céu se incendiasse, mudou os seus planos e resolveu inundar o planeta.

O vento norte que espalha as nuvens foi seguro; o vento sul foi enviado, e logo cobriu a superfície do céu com um manto de negra escuridão. As nuvens, carregadas em bloco, ressoaram com grande estrondo; chuvas torrenciais caíram; as plantações foram arrasadas; o trabalho de um ano do agricultor pereceu em uma hora.

Júpiter, não satisfeito com suas próprias águas, chamou o seu irmão Netuno para ajudá-lo. Este deixou que os rios se derramassem sobre a terra. Ao mesmo tempo, a sacudiu com um terremoto, e trouxe para os litorais o refluxo dos oceanos. Rebanhos, homens e casas foram varridos, e os templos com seus objetos sagrados foram profanados. Se algum edifício permaneceu de pé, foi encoberto pelas águas e suas torres se encontram ocultas sob as ondas. Agora tudo se tornou mar, mar sem litoral.

Aqui e ali alguns indivíduos sobreviveram sobre o topo das montanhas, e alguns outros em barcos, puxando remos onde costumavam puxar o arado. Os peixes agora nadavam entre as copas das árvores; as âncora presas em um jardim. No lugar em que os graciosos carneirinhos brincavam, as focas desajeitadas fazem malabarismos. O lobo nadava entre as ovelhas, os leões amarelos e os tigres se debatiam na água. A força do javali não mais lhe servia, nem a ligeireza do cervo. Com as asas exaustas, os pássaros caiam dentro da água, sem encontrar terra em que pudessem descansar. Os seres vivos que a água poupara caíram em decorrência da fome.

De todas as montanhas, apenas o Parnaso ultrapassava a altura das ondas; e ali Deucalião e sua esposa Pirra, da raça de Prometeu, encontraram refúgio - ele, um homem justo, e ela, uma fiel adoradora dos deuses. Júpiter, quando viu que ninguém havia sobrevivido além desse casal e recordando-se da inofensiva vida deles e de sua conduta piedosa, ordenou aos ventos do norte que levassem as nuvens para longe e revelassem os céus para a terra e a terra para os céus. Igualmente Netuno deu ordens a Tritão que soasse a sua concha, provocando o recuo das águas. As águas obedeceram, e o mar voltou aos seus limites, e os rios retornaram aos seus leitos.

Então Deucalião assim dirigiu-se a Pirra: “Ó esposa, única mulher sobrevivente, unida a mim primeiro pelos laços de parentesco e do casamento, e agora pela experiência de um perigo comum, tivéssemos nós o poder de nosso ancestral, Prometeu, e renovaríamos a raça tal como ele fez a princípio! Mas, como não podemos, vamos àquele templo consultar os deuses sobre o que nos resta a fazer”.

Eles entraram no templo, deformado que estava, cheio de lodo, e se aproximaram do altar, no qual não ardia fogo algum. Ali caíram prostrados em terra e rogaram à deusa que lhes informasse o modo de reaver sua miserável vida. O oráculo respondeu: “Deixai o templo com a vossa cabeça coberta por um véu e com as vestes abertas, e lançai para trás de vós os ossos de vossa mãe”. Eles ouviram essas palavras com assombro. Pirra quebrou o silêncio: “Não podemos obedecer; não ousamos profanar os restos de nossos pais”. Eles procuraram um lugar seguro na floresta e ali refletiram sobre o que lhes dissera o oráculo.

Mais tarde, Deucalião disse: “Ou a minha sagacidade me engana, ou devemos obedecer à ordem sem receio. A terra é a grande mãe de todos; as pedras são seus ossos; são essas que devemos lançar para trás; penso que esse é o significado do que nos disse o oráculo. Pelo menos não haverá dano em tentá-lo”. Eles colocaram o véu sobre as faces, abriram as vestes, apanharam pedras e as jogaram atrás de si. As pedras (maravilhosamente) tornaram-se macias e assumiram formas, que, em diferentes graus, se assemelhavam à silhueta humana, como obras inacabadas nas mãos de um escultor. A umidade e o lodo, que estavam próximos, tornaram-se carne; as pedras tornaram-se ossos; os veios tornaram-se veias, mudando o seu uso e mantendo o nome semelhante. As pedras lançadas pelo homem deram origem a homens, e aquelas lançadas pela mulher tornaram-se mulheres. Era uma raça robusta, bem adaptada ao trabalho, tal como somos nós hoje, fato que denuncia claramente a nossa origem.

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3. DILÚVIO JUDEU (Bíblia, Gênesis 6.1 a 8.22, séc. 6 a.C.)

E aconteceu que, como os homens começaram a multiplicar-se sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas, viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram.

Então disse o Senhor: Não contenderá o meu Espírito para sempre com o homem; porque ele também é carne; porém os seus dias serão cento e vinte anos. Havia naqueles dias gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens e delas geraram filhos; estes eram os valentes que houve na antiguidade, os homens de fama.

E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente. Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem sobre a terra e pesou-lhe em seu coração. E disse o Senhor: Destruirei o homem que criei de sobre a face da terra, desde o homem até ao animal, até ao réptil, e até à ave dos céus; porque me arrependo de os haver feito.

Noé, porém, achou graça aos olhos do Senhor. Estas são as gerações de Noé. Noé era homem justo e perfeito em suas gerações; Noé andava com Deus. E gerou Noé três filhos: Sem, Cam e Jafé.

A terra, porém, estava corrompida diante da face de Deus; e encheu-se a terra de violência. E viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque toda a carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra.

Então disse Deus a Noé: O fim de toda a carne é vindo perante a minha face; porque a terra está cheia de violência; e eis que os desfarei com a terra. Faze para ti uma arca da madeira de gofer; farás compartimentos na arca e a betumarás por dentro e por fora com betume. E desta maneira a farás: De trezentos côvados o comprimento da arca, e de cinqüenta côvados a sua largura, e de trinta côvados a sua altura. Farás na arca uma janela, e de um côvado a acabarás em cima; e a porta da arca porás ao seu lado; far-lhe-ás andares, baixo, segundo e terceiro.

Porque eis que eu trago um dilúvio de águas sobre a terra, para desfazer toda a carne em que há espírito de vida debaixo dos céus; tudo o que há na terra expirará.

Mas contigo estabelecerei a minha aliança; e entrarás na arca, tu e os teus filhos, tua mulher e as mulheres de teus filhos contigo. E de tudo o que vive, de toda a carne, dois de cada espécie, farás entrar na arca, para os conservar vivos contigo; macho e fêmea serão. Das aves conforme a sua espécie, e dos animais conforme a sua espécie, de todo o réptil da terra conforme a sua espécie, dois de cada espécie virão a ti, para os conservar em vida. E leva contigo de toda a comida que se come e ajunta-a para ti; e te será para mantimento, a ti e a eles. Assim fez Noé; conforme a tudo o que Deus lhe mandou, assim o fez.

Depois disse o Senhor a Noé: Entra tu e toda a tua casa na arca, porque tenho visto que és justo diante de mim nesta geração. De todos os animais limpos tomarás para ti 7 e 7, o macho e sua fêmea; mas dos animais que não são limpos, dois, o macho e sua fêmea. Também das aves dos céus 7 e 7, macho e fêmea, para conservar em vida sua espécie sobre a face de toda a terra.

Porque, passados ainda sete dias, farei chover sobre a terra 40 dias e 40 noites; e desfarei de sobre a face da terra toda a substância que fiz.

E fez Noé conforme a tudo o que o Senhor lhe ordenara. E era Noé da idade de 600 anos, quando o dilúvio das águas veio sobre a terra. Noé entrou na arca, e com ele seus filhos, sua mulher e as mulheres de seus filhos, por causa das águas do dilúvio.

Dos animais limpos e dos animais que não são limpos, e das aves, e de todo o réptil sobre a terra, entraram de 2 em 2 para junto de Noé na arca, macho e fêmea, como Deus ordenara a Noé. E aconteceu que passados 7 dias, vieram sobre a terra as águas do dilúvio.

No ano 600 da vida de Noé, no mês 2º, aos 17 dias do mês, naquele mesmo dia se romperam todas as fontes do grande abismo, e as janelas dos céus se abriram, e houve chuva sobre a terra 40 dias e 40 noites. E no mesmo dia entraram na arca Noé, seus filhos Sem, Cam e Jafé, sua mulher e as mulheres de seus filhos. Eles, e todo o animal conforme a sua espécie, e todo o gado conforme a sua espécie, e todo o réptil que se arrasta sobre a terra conforme a sua espécie, e toda a ave conforme a sua espécie, pássaros de toda qualidade. E de toda a carne, em que havia espírito de vida, entraram de dois em dois para junto de Noé na arca. E os que entraram eram macho e fêmea de toda a carne, como Deus lhe tinha ordenado; e o Senhor o fechou dentro.

E durou o dilúvio 40 dias sobre a terra, e cresceram as águas e levantaram a arca, e ela se elevou sobre a terra. E prevaleceram as águas e cresceram grandemente sobre a terra; e a arca andava sobre as águas. E as águas prevaleceram excessivamente sobre a terra; e todos os altos montes que havia debaixo de todo o céu, foram cobertos. Quinze côvados acima prevaleceram as águas; e os montes foram cobertos. E expirou toda a carne que se movia sobre a terra, tanto de ave como de gado e de feras, e de todo o réptil que se arrasta sobre a terra, e todo o homem. Tudo o que tinha fôlego de espírito de vida em suas narinas, tudo o que havia em terra seca, morreu.

Assim foi destruído todo o ser vivente que havia sobre a face da terra, desde o homem até ao animal, até ao réptil, e até à ave dos céus; e foram extintos da terra; e ficou somente Noé, e os que com ele estavam na arca. E prevaleceram as águas sobre a terra 150 dias.

E lembrou-se Deus de Noé, e de todos os seres viventes, e de todo o gado que estavam com ele na arca; e Deus fez passar um vento sobre a terra, e aquietaram-se as águas. Cerraram-se também as fontes do abismo e as janelas dos céus, e a chuva dos céus deteve-se. E as águas iam-se escoando continuamente de sobre a terra, e ao fim de 150 dias minguaram. E a arca repousou no 7º mês, no dia 17 do mês, sobre os montes de Ararate.

E foram as águas indo e minguando até ao 10º mês; no 10º mês, no 1º dia do mês, apareceram os cumes dos montes. E aconteceu que ao cabo de 40 dias, abriu Noé a janela da arca que tinha feito. E soltou um corvo, que saiu, indo e voltando, até que as águas se secaram de sobre a terra. Depois soltou uma pomba, para ver se as águas tinham minguado de sobre a face da terra. A pomba, porém, não achou repouso para a planta do seu pé, e voltou a ele para a arca; porque as águas estavam sobre a face de toda a terra; e ele estendeu a sua mão, e tomou-a, e recolheu-a consigo na arca. E esperou ainda outros 7 dias, e tornou a enviar a pomba fora da arca. E a pomba voltou a ele à tarde; e eis, arrancada, uma folha de oliveira no seu bico; e conheceu Noé que as águas tinham minguado de sobre a terra. Então esperou ainda outros sete dias, e enviou fora a pomba; mas não tornou mais a ele.

E aconteceu que no ano 601, no 1º mês, no 1º dia do mês, as águas se secaram de sobre a terra. Então Noé tirou a cobertura da arca, e olhou, e eis que a face da terra estava enxuta. E no 2º mês, aos 27 dias do mês, a terra estava seca. Então falou Deus a Noé dizendo: Sai da arca, tu com tua mulher, e teus filhos e as mulheres de teus filhos. Todo o animal que está contigo, de toda a carne, de ave, e de gado, e de todo o réptil que se arrasta sobre a terra, traze fora contigo; e povoem abundantemente a terra e frutifiquem, e se multipliquem sobre a terra. Então saiu Noé, e seus filhos, e sua mulher, e as mulheres de seus filhos com ele. Todo o animal, todo o réptil, e toda a ave, e tudo o que se move sobre a terra, conforme as suas famílias, saiu para fora da arca.

E edificou Noé um altar ao Senhor; e tomou de todo o animal limpo e de toda a ave limpa, e ofereceu holocausto sobre o altar. E o Senhor sentiu o suave cheiro, e o Senhor disse em seu coração: Não tornarei mais a amaldiçoar a terra por causa do homem; porque a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice, nem tornarei mais a ferir todo o vivente, como fiz. Enquanto a terra durar, semeadura e sega, e frio e calor, e verão e inverno, e dia e noite, não cessarão.

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4. DILÚVIO ISLÂMICO (Alcorão, 11ª Surata 25-49, Hüd, séc. 7 d.C.)

Enviamos Noé ao seu povo: “Eu sou para vocês um admoestador claro. Vocês não adorarão ninguém além de Deus. Senão, temo por vocês a agonia de um dia doloroso.” Os notáveis que descreram entre seu povo disseram: “Não vemos em você nada além de um homem como nós, e vemos que apenas os piores entre nós o seguiram, aqueles de julgamento imaturo. E vemos que você não tem vantagem sobre nós. Na verdade, achamos que você é mentiroso.”

...

Eles disseram: “Ó Noé, você discutiu conosco e discutiu muito. Agora traga sobre nós aquilo com que você nos ameaça, se for sincero". Ele disse: “É Deus quem fará isso sobre vocês, se Ele quiser, e vocês não poderão escapar”.

...

E foi revelado a Noé: “Ninguém do seu povo acreditará, exceto aqueles que já acreditaram, então não se preocupe com o que eles fazem. Construa a Arca, sob Nossos olhos e com Nossa inspiração, e não se dirija a Mim a respeito daqueles que fizeram o mal; eles serão afogados.”

Enquanto Noé construía a arca, sempre que alguns do seu povo passavam por ele, zombavam dele. Ele disse: “Se vocês nos ridicularizarem, nós ridicularizaremos vocês, assim como vocês nos ridicularizam. Vocês certamente saberão sobre quem virá um tormento que o humilhará e sobre quem cairá um tormento duradouro.”

Até que, quando chegou Nossa ordem, e as fontes da Terra jorraram, dissemos: “Embarque um par de cada tipo, e sua família – exceto aqueles contra quem a sentença já foi proferida – e aqueles que acreditaram”. Mas aqueles que acreditaram com Noé foram poucos. Ele disse: “Embarque. Em nome de Deus será a sua navegação e o seu ancoradouro. Seu Senhor é realmente Indulgente e Misericordioso.”

Assim navegou com eles em meio a ondas como colinas. E Noé chamou seu filho, que havia se afastado: “Ó meu filho! Embarque conosco e não fique com os descrentes.” Ele disse: “Vou me refugiar em uma montanha – ela me protegerá das águas”. Noé disse: “Não há proteção contra o decreto de Deus hoje, exceto para aquele de quem Ele tem misericórdia”. E as ondas surgiram entre eles, e ele estava entre os afogados.

E foi dito: “Ó terra, engula suas águas” e “Ó céu, limpe”. E as águas baixaram, e o evento foi concluído, e caiu sobre os Judeus, e foi proclamado: “Fora com as pessoas más”. Noé chamou seu Senhor, dizendo “Ó meu Senhor, meu filho é da minha família, e Tua promessa é verdadeira, e Tu és o mais sábio dos sábios”.

Ele disse: “Ó Noé, ele não é da sua família. É uma ação injusta. Portanto, não Me pergunte sobre algo sobre o qual você nada sabe. Eu o advirto, para que você não seja um dos ignorantes.” Noé disse: “Ó meu Senhor, busco refúgio em Ti, para te perguntar sobre coisas que não tenho conhecimento. A menos que você me perdoe e tenha misericórdia de mim, serei um dos perdedores.”

Foi dito: “Ó Noé, desembarca com a Nossa paz, com bênçãos sobre você e sobre as comunidades daqueles que estão com você. E a outras comunidades concederemos prosperidade, e então um doloroso tormento nosso cairá sobre elas.”* Estas são algumas histórias do passado que lhe revelamos. Nem você nem seu povo os conheciam antes disso. Então seja paciente. O futuro pertence aos piedosos.

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O mistério da própria criação sempre foi tema da mitologia dos povos. Aqui, apresento 4 textos antigos sobre a Gênese do mundo que podemos comparar: um da antiga Assíria (2000 a.C.), um da mitologia Judaica (600 a.C.), outra da Grega (600 a.C.), e um texto Islâmico (700 d.C.). Essas datas, obviamente aproximadas, são referências da última versão oral ou fragmentos que deu origem ao texto escrito que nos chegou. Possivelmente são mais antigas, e talvez descendentes uma da outra. Mas é exatamente sobre isso que desejo falar.

O evento narrado é o mesmo: o Dilúvio, uma inundação universal que destruiu todos os homens e animais, com exceção de um seleto grupo favorito do(s) deus(es), e do qual todos na atualidade do texto seriam então descendentes. Trata-se de algo mitológico - uma estória que fornece explicações - até onde sabemos. A Terra guarda registros de inundações, secas, extinções em massa, habitações humanas. Assim como a Jericó fortificada não existia mais nos tempos em que os Hebreus chegaram na Palestina, também não há evidências de uma grande inundação quando os homens já eram capazes de fazer embarcações. Apesar disso, entre tantos mitos de cada povo e época, o relato do Dilúvio aparece preservado entre culturas muito diferentes, enquanto centenas de outros mitos não foram compartilhados. Mas o que esse relato explica? Porque justamente ele se manteve?

Alguns apontamentos merecem ser feitos. Primeiro, todos os textos falam sobre a divindade extinguir os humanos que Lhe irritavam, por motivos vários. No texto Assírio, o era o barulho que não deixava os deuses dormirem; no Judeu, a terra estava corrompida pela maldade e violência; o mesmo motivo aparece no texto Grego; no texto Islâmico, era a descrença no Deus único. Uma vez que a motivação de divindades só pode ser inferida, e geralmente isso é feito de modo a produzir alguma advertência no presente, vemos que cada povo tinha seus ideais. Os Assírios queriam silêncio, os Judeus e Gregos queriam paz, os Muçulmanos queriam monoteísmo. A ameaça de uma catástrofe costuma ser útil para obter comportamentos. E o conto sobre uma catástrofe punitiva costuma desestimular que as pessoas busquem no seu passado a justificativa para seus atos.

Cada um dos textos também revela detalhes ao leitor sobre a mecânica do mundo, e assim conquista seu interesse. No Assírio, sabemos que os deuses dormem, brigam entre si, podem sentir raiva, medo e tristeza, que alguns controlam grandes reservatórios de água. No texto Judeu, sabemos da ira e do arrependimento de YHWH, assim como seu controle sobre as chuvas e os ventos. Na versão Grega, sabemos da ira e as preocupações de Júpiter, assim como seu parentesco com Netuno e o controle dos raios e águas. No texto Muçulmano, vemos um testemunho do poder de Allah, preocupado com o destino de cada fiel. Esse ensino teológico está contido nas obras maiores onde o conto sobre o Dilúvio foi incrustado para preservar, pela expansão de situações, o pensamento sobre onde perceber a divindade. Nomeando cada personagem e seus poderes, os textos dão ao leitor uma ferramenta para dialogar com quem controla o mundo. Nós não desejaríamos algo assim?

A divindade escolheu o afogamento coletivo como meio para purificar Seu povo. Esse é um ponto comum dos textos - a destruição do mundo pela água. Certamente algo familiar a qualquer povoamento que já tenha passado pela inundação incontrolável das chuvas, dos rios ou do mar. Mas porque não outro meio, como a simples morte de todos, ataque de um povo conquistador, pragas, terremotos ou incêndio? O Antigo Testamento apresenta destruições de nações por todas essas formas. Mas, aqui, era essencial salvar uma testemunha ocular. A água parece mais adequada, então. Essa intenção se torna clara quando vemos que, a despeito do plano de destruir tudo, alguém foi detalhadamente instruído sobre a data do desastre e o modo de escapar (com exceção da versão Grega). No texto Assírio, um dos deuses instrui Utnapishtim (futuro imortal) sobre como fazer um grande barco; esse mesmo meio aparece no texto Judeu, com Noé. Igualmente, a divindade dita medidas e instruções precisas. No texto Muçulmano, o personagem também é Noé, um profeta a quem Allah fala, mas não há esse detalhamento. No texto Grego não há barco, mas simplesmente uma grande montanha, o Parnaso, onde morava Deucalião. Outro detalhe: apenas nos textos Assírio e Judeu (povos mais agro-pastoris) há o comando para salvar animais, indicando uma catástrofe universal.

Foram salvos aqueles mais bem-quistos da divindade. Utnapishtin tinha uma promessa do deus Ea, que o comanda a enganar a população. Não sabemos de onde veio essa promessa. Noé andava com Deus, era justo e perfeito no que fazia (texto Judeu), um "admoestador claro" (texto Muçulmano). Deucalião era da raça de Prometeu, justo e fiel aos deuses do Olimpo (texto Grego). Esses personagens exemplares são o cerne do texto, aqueles em quem o leitor deve se espelhar para não sofrer o castigo divino. E dos quais ele descende - pois todos os outros morreram. Na verdade, o texto Grego aponta que, aqui e ali, alguns outros se salvaram. Assombrosamente, os próprios Gregos seriam filhos das pedras - não deste nobre Deucalião. No texto Muçulmano, mesmo um filho de Noé é tragado pelas ondas, no momento em que creditou a si mesmo a capacidade para escapar.

Após o Dilúvio, é refeito o pacto entre homens e a divindade. Utnapishtin oferece um sacrifício atraente, os deuses Assírios discutem entre si e Enlil se desculpa abençoando os sobreviventes. Noé também oferece um sacrifício e JHWH diz que não tornará a destruir o mundo. Na versão Muçulmana, Allah abençoa Noé e sugere que nem todos morreram (11.48, marcado com *). No texto Grego, o oráculo de um templo enlameado fala a Deucalião, sinal de seu bem-querer no Olimpo. Esse pacto refeito é o sinal de que há esperança para os viventes que ouvem o texto. Eles são filhos de um homem de fé preservado e de um acordo refeito após o fim de todos os desobedientes. Poderia haver situação que melhor combinasse estímulo e ameaça?

É nesse sentido que o mito trabalha - moldando seu leitor. Esse mito, que ultrapassou a fronteira entre as culturas, hoje faz haver pessoas assegurando ter encontrado os restos da Arca, em montanhas diferentes pelo mundo. Ele se mostrou amplamente útil ao ensino. Não podemos dizer que todas as versões sejam exatamente parentes: duas versões são politeístas e duas são monoteístas; enquanto uma versão se preocupa em listar descendentes para assegurar a posse de terras no mundo pós-Dilúvio, outra versão nem mesmo nomeia as pessoas salvas; os nomes dos deuses e personagens nas estórias são radicalmente distintos; muitos outros mitos postos nos mesmos livros não foram copiados. Mas o valor do Dilúvio, talvez transmitido como poema ou canção (essa dissonância do contexto fica clara nos textos Assírio e Grego) o colocou como escolhido para ser lembrado, pois diz ao homem atual que ele descende de um servo amado e que todos os não-servos foram afogados (por motivos variados, é verdade). Portanto, que tome cuidado!

As versões Assíria (onde Utnapishtin de fato se torna imortal) e Judaica vão além, dizendo que todos os animais PERTENCEM ao mesmo povo, pois foram salvos junto com o preferido dos deuses. A versão Grega não é tão exigente; a versão Muçulmana, permeada de outros discursos entre Allah e o Profeta, somente se preocupa com Noé. 

Seria errado dizer que cada povo adaptou o Dilúvio ao seu mundo, com grandes montanhas ou sem elas. Na verdade, parece que cada um fez o seu próprio Dilúvio, com os antecedentes, salvos e pactos que servissem ao propósito educativo do seu próprio mito. Talvez algo tenha vindo de uma versão mais antiga, e muitas partes sejam novas. Mas, uma vez que a estória foi usada, ela moldou pessoas. Os Assírios souberam que um imortal, testemunha dos deuses, habitava a foz dos rios - para o herói Gilgamesh, ele testemunhou que apenas os deuses podiam conceder a imortalidade. Para os Judeus, Noé findou a época dos patriarcas que se dizia viverem milênios ou séculos. Seus filhos também inauguraram 3 raças a colonizar o mundo agora desabitado: Sem deu origem ao povo de Canaã (Semitas), Cam gerou os africanos e Jafé os Persas. Para os Gregos, Deucalião e suas pedras fizeram um povo vigoroso. Para os Muçulmanos, Noé foi um dos muitos que precederam Muhammad em anunciar um Deus único e poderosíssimo. Esse mito também fez alguns mais silenciosos, outros mais tementes aos deuses, ou ao Deus único, e deu a outros uma explicação de porque são fortes. De modos diferentes, o Dilúvio fez a todos que ouviram sobre ele serem mais entrosados com seu mundo espiritual, dentro do medo de que o desastre voltasse a acontecer, cada vez que uma tempestade se formava.

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O QUE LER NUM BARCO CHEIO DE ANIMAIS


A epopéia de Gilgamesh, Ed. Martins Fontes.

Bulfinch, Thomas. O livro da Mitologia: a idade da fábula - São Paulo: Martin Claret, 2020.