terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Ignorância




O Tolo, gravura de 1540 feita por Heinrich Vogtherr o jovem, num panfleto da Reforma Protestante na Alemanha. O tolo era uma alegoria medieval representando a pessoa teimosa que comete enganos frequentes. Às vezes, representava o deficiente mental.

No último texto eu falei sobre o Obscurantismo, ou seja, a privação de conhecimento às pessoas por parte de uma autoridade ou liderança. O outro lado dessa moeda é a Ignorância Voluntária, que trata de as próprias pessoas se privarem de conhecimento. Às vezes, um e outro até andam juntos.

RAZÕES BIOLÓGICAS

A cada segundo, nossos circuitos cerebrais são percorridos umas 10 vezes por impulsos nervosos. Trata-se de uma imensa teia de neurônios, muitos formando grupos com a função de banco de dados. Assim, em um único segundo acessamos a necessidade de comprar pão ao voltar do trabalho, a fisionomia estranha de alguém que vimos na rua, o seriado que estamos assistindo, a tarefa que o chefe pediu com urgência.

Essa miríade de lembranças é percorrida muitas vezes por minuto, algumas se repetindo centenas de vezes (aquelas em que prestamos atenção) e outras apenas uma vez (aquelas que escolhemos ignorar). Quanto maior o banco de dados percorrido, menor a chance de que algo de se sobressaia entre todos os outros. Seria útil se fosse a tarefa pedida pelo chefe..

Dessa forma, somos ensinados e aprendemos, desde crianças, a ignorar informações do ambiente. O colega mascando chiclete ao lado, na sala de aula, as pessoas conversando no mesmo ambiente, o texto que não interessa, são todos classificados como "distrações". Prestar atenção, então, se parece com ignorar voluntariamente muitas informações. E isso faz parte de um bom desempenho.

Dentro do Cristianismo, lá no séc. 1 vemos a população de Éfeso queimando seus livros de magias, ou superstições, ou simpatias, após uma pregação de Paulo (Atos 19.19). Os sécs. 1 a 3 proveram muito material escrito, que foi selecionado nos primeiros Concílios da Igreja. Os textos 'que desviavam a atenção do fiel' foram queimados ou escondidos. Se tornaram apócrifos/ocultos. Entre eles até mesmo obras de referência como o Pastor de Hermas e a Didache.

No séc. 16, muito material dos Judeus e do Islã foi destruído pelos Cristãos, como incitador de falsas fés. A maior parte desse material, incluindo o Talmude e o Alcorão, está em bom acordo com o Velho Testamento, publicado em todas as Bíblias. Hoje, muitas igrejas aconselham ou ordenam ao fiel o completo afastamento de qualquer mídia - sobretudo livros - e tal é muito bem recebido. Não ouvi poucas vezes que a Bíblia é um livro completo sobre todos os assuntos, então deveria ser o único lido. E isso não partiu de lideranças. Mas até a Bíblia foi, por muito tempo, considerada uma 'distração' para o fiel, cujo uso era substituído por frases e 'mandamentos' escolhidos.

A PRESSÃO DE GRUPO

Boa parte das sociedades não recebe bem o diferente, o estranho. Dentro do Islã, por exemplo, o nome 'bidah' é um termo pejorativo para inovação, para algo relacionado à fé que não seja referido desde o início da religião. Dentro do Cristianismo, existem e existiram muitos movimentos fundamentalistas, mas o próprio contexto de uma Igreja que nasceu pacífica e ecumênica em meio à perseguição costuma desvanecer o movimento, por não encontrar (geralmente) respaldo no mundo atual, nem no propósito de ser pacífico. As pregações de Paulo, que convertiam milhares de uma só vez, não parecem funcionar tanto fora do séc. 1, e por isso a Igreja geralmente lança mão do velho ‘ame-o ou deixe-o’, no sentido de ‘siga essa comunidade ou seja enxotado por ela’.

O diferente traz, sem dúvida, um elemento cultural novo. Ao ler textos de outras fés com os quais desenvolve alguma empatia, o fiel acaba por perceber que sua visão, sua cultura, não são as únicas possíveis. Alguns verão nisso um convite para diversos 'bidahs'. O Cristianismo, acompanhando a expansão Romana, foi se acrescendo de elementos Gregos, Celtas, Saxões. Depois vieram Yourubás, Indígenas, etc. Mesmo mantendo um texto Romano, Grego e Judaico, a utilização ou transposição desse texto para as ações das pessoas variou muito entre os lugares e épocas. Variações que raramente foram toleradas umas pelas outras. Junta-se a filiação ao Império Romano e dá para entender a igreja como uma organização simultaneamente religiosa, militar e política.

Entre os Cristãos e outras crenças, e mesmo dentro dos Cristãos, a ojeriza ao diferente foi cultivada como uma afirmação de credo e fidelidade. Cristão não fala inglês. Cristão não bebe. Cristão não assiste TV. Cristão não usa saia. Um Cristão não recebe tal pessoa em casa. Esse livro é Cristão? De um jeito mais primal, repelir o 'não-Cristão' desemboca em violência, bullying, destruição de espaços sagrados e execução de pessoas. O Cristão teme seu diferente porque ele é a representação do não-Cristão, que é o Diabo. Não agredir ele é, perante o grupo, aderir ao Diabo, trair ao Sagrado.

Inauguramos o séc. 21 no ponto de exibir, entre a população Cristã nos EUA e no Brasil, pelo menos, carências sérias de informação entre a população adulta, urbana e frequentadora de escolas. São pessoas com repulsa a ensinos fora-da-fé tais que não são capazes de ler um jornal. Numa crise sanitária como se apresenta desde 2020, os óbitos entre Cristãos e nos países Cristãos superaram mesmo as nações mais pobres do mundo.

MAUS JULGAMENTOS

Em 1995, uma estória ganhou os noticiários. Um certo McArthur Wheeler assaltou dois bancos de Pittsburg, sem máscara mesmo, sendo reconhecido e preso poucas horas depois. Os policiais descobriram que o bandido acreditava estar invisível, após esfregar sumo de limão no rosto. Afora os muitos risos que isso provocou, estudos seguintes observaram que a habilidade de avaliar a própria ignorância era falha na maioria das pessoas. Ou seja, os mais sábios e bem dotados intelectualmente se imaginavam tão conhecedores de assuntos quanto os mais inaptos. Esse 'gap' entre o que se sabe e o que julgamos saber ficou conhecido como 'efeito Dunning-Kruger'. A consequência mais direta dele, certamente, é que uma discussão não vai privilegiar o indivíduo mais sábio, na maioria das vezes.

O Velho Testamento traz uma grande valorização da sabedoria, principalmente em livros como Provérbios, Sabedoria, Eclesiastes e Eclesiástico. A sabedoria seria uma força presidindo as pessoas ao aprendizado, à correção. O Novo Testamento já trata a sabedoria fora dos ensinamentos de Jesus, com palavras de Lucas (livro de Atos) e Paulo. Ali, ela aparece como um dom divino, fornecido pelo Espírito Santo, que seria reconhecível (como uma lâmpada) naqueles que o possuem. Obviamente, reconhecer a sabedoria de outrem já mostra um grau de sabedoria própria. Como sugeriu o estudo de David Dunning e Justin Kruger, não podemos esperar esse reconhecimento dos mais inaptos.

Se formos um pouco radicais quanto ao que a Bíblia diz da sabedoria, e o que os experimentos sociais nos contam, os mais sábios tendem a se reunir ao redor de figuras sábias e os mais tolos (esse é o termo bíblico) evitam tais círculos, proclamando a própria sabedoria. A polarização parece inerente às pessoas.

UM MUNDO RÁPIDO DEMAIS

A tomada de decisões por nós humanos, ao menos, segue dois cronogramas. Um é a decisão imediata, intuitiva. Ela faz uso em milissegundos das nossas memórias, mas não aquelas estruturadas, verbais: usa as mais primitivas, muito mais percorridas do que usadas pelos nossos circuitos cerebrais. O outro cronograma é a decisão racional, calculada, projetada para obter algum resultado. A primeira é rápida e fundamentada no passado, a segunda é lenta e ajustada ao que esperamos do futuro. Podem e costumam não concordar entre si.

As decisões no mundo moderno, infestado de informações, são normalmente rápidas. Pela quantidade de dados, pensamos que podemos suprimir o tempo para calcular uma escolha. Isso não é verdade, e muita gente se arrepende das escolhas quando já é tarde para voltar atrás, ou quando já está afundado em pressão social. Por essa exigência 'social' de decisões ágeis, a escolha pelo material de instrução também é fragilizada, legada a maus produtos. Escolhemos o fácil e rápido ao invés do sólido e complexo. A frase de whatsapp ao documento oficial. O vídeo ao livro. O que disseram que é ao que foi ensinado. Antes de ser a fonte sobre a vida de Jesus que foi, antes do líder em Roma que se tornou, Pedro foi um pescador teimoso e bruto. E os Cristãos, bastante Pedros às vezes, são pessoas de fé mais prontas a marchar pelas avenidas em direção a Jesus, batendo panelas e cantando, do que planejar e executar ações para os problemas sociais que rodeiam todos.

Os resultados dessa repulsa em debater, estudar e de fato agir faz os Cristãos até passarem por ridículos. Frequentemente a Bíblia é usada como amuleto. Roupas e cortes de cabelo ‘sagrados’ ou ‘corretos’ são uniformes necessários para não ser desprezado pelos Cristãos. Boa parte das pessoas têm dentro de si que o Gênesis foi escrito ou ditado por Deus, mais ou menos no ano passado, em português da nova ortografia. Natural que não exista nenhum material pós-bíblico, então! Nas igrejas, são raros aqueles com conhecimento das passagens bíblicas. Mais raros ainda aqueles capazes de traçar uma cronologia do que está escrito. E quase impossíveis aqueles que já chegaram a comparar os textos que manuseiam frequentemente. A escolha por ouvir, balançar a cabeça e aplaudir é quase unânime, é fortalecida pela manada, é útil à empresa.

A IGNORÂNCIA NAS IGREJAS

Até aqui, tentei mostrar que há um comportamento de manada, truculento e polarizado que se beneficia do ambiente religioso, mesmo não sendo criado por ele. Esse favorecimento da ignorância, se for aproveitado por lideranças políticas ou religiosas, pode descambar em formas poderosas de Obscurantismo apoiado por aqueles a quem o conhecimento é negado.

Uma problemática no modo de aprender, sobretudo dos adultos, é que as informações vêm imersas em narrativas, não é algo direto como ensinado nas escolas. Em experimentos sociais conduzidos desde os anos 1990, observou-se que essa forma de 'ensino' leva as pessoas a traduzirem as informações dentro de suas próprias narrativas, gerando interpretações muito díspares. No famoso caso da invasão do Iraque pelos EUA, por exemplo, muitas pessoas viram o não encontrar armas de destruição em massa como demonstração de que o país era capaz de esconder elas. É como se o galo não botar ovo ‘provasse’ que ele os têm.

Nas igrejas, outro exemplo dessa inversão do esperado pelo palpável são as curas espirituais. Muitas vezes, esses milagres foram vistos como obrigação do fiel. Se alguém está doente e não obtém o favor divino, isso demonstra sua culpa / pecado. De alguma forma, todos os Cristãos (verdadeiros) seriam dignatários de 'proteção contra todo mal' como em Lucas 10.18, resistentes a serpentes, escorpiões, venenos, doenças e vírus. O não protegido é um infiel, traidor, aliado de Satanás. Em alguns lugares e com algumas pessoas, a doença é 'provação do fiel', noutros lugares e com outras pessoas, é 'punição do infiel'. Por causa dessa relevância e interpretação possível do 'estar doente', os Cristãos (sobretudo Pentecostais) desfilaram ao longo do séc. 20 com um recorde de maus cuidados com a saúde, especialmente a saúde mental. Sendo sinal de pecado ficar doente, quanto mais ter problemas mentais como os endemoniados que Jesus exorcizou?! Recentemente, a mancha ruim se deslocou para os contágios e não-proteção contra a Covid-19.

As pessoas com menos disposição a trabalhos intelectuais, dentro da Igreja (mas não só ali) costumam achar refúgio, valorização, promoção, sensação de poder. 'Em nome de Jesus' pode ser anexado a qualquer fala, mesmo que seja para crucificar alguém. Quem faz o comum, o 'aceito pela manada', pode usar essas palavras para ser enlevado socialmente, bastando que uma autoridade superior o valide. Em outras palavras, bastando que alguém lhe entregue a tal ‘lâmpada’ de que Jesus falava, pois a maioria realmente não parece capaz de discernir entre o sábio e o tolo.

CONCLUSÃO

De um modo mais pessimista, pode-se pensar que talvez a antiga crença dos Judeus numa sabedoria inspirada pelo divino, escrita lá no Velho Testamento, não tenha mais lugar na igreja Cristã. Na Igreja política e empresarial, certamente não tem. A Igreja Empresarial deseja consumidores, e as massas muito mais facilmente se aliam ao fácil, instintivo e repetitivo.

Mas existe a Igreja Ativa, que vive e trabalha pelas pessoas. Paulo passou boa parte de seu ministério coletando donativos para comunidades carentes, instruindo grupos a se organizarem para praticar o ‘amor de Deus’ e não as velhas ‘lutas da carne’. Os 2000 anos de história e aprendizado do cristianismo não produziram poucas grandes mentes ou grandes trabalhos, muito alinhados com o que seria uma ‘filosofia Cristã’.

Como naqueles hilários casos em que algum espectador irrompe na encenação de Páscoa para libertar ‘Jesus’ e acaba socando um ‘centurião’, a Igreja às vezes insiste em pensar que estamos na Palestina do séc. 1, resistindo aos Romanos, enquanto a própria Igreja estende braços fortes dentro da economia e da política. Essa mesma Igreja pode bem sair de seu milenar Jardim de Infância e começar a aplicar os ensinamentos daquele Jesus que visitava os excluídos, alimentava os pobres e repudiava as honras sociais. Será que ela sobreviveria a isso?

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LER ISSO DEVE SER PECADO

COUTO, Cláudio. Estupidez Coletiva. Goethe Institut, goethe.de, 2020. Coletânea de artigos.

KRUGER, Justin; DUNNING, David. Unskilled and unaware of it: how difficulties in recognizing one's own incompetence lead to inflated self-assessments. Journal of personality and social psychology, v. 77, n. 6, p. 1121, 1999.

MOOG, Insa. Caça às bruxas perdura pelo século 21 adentro. Deuthsche Welle Brasil, 04/mar/2012.

SAYURI, Juliana. Dias de fúria. Revista Pesquisa Fapesp, n. 230, 2015.

UNGAR, Sheldon. Ignorance as an under‐identified social problem. The British Journal of Sociology, v. 59, n. 2, p. 301-326, 2008.

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