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quarta-feira, 25 de novembro de 2020

A Cronologia dos Evangelhos

“Poor man’s bible”, ou “Bíblia do homem pobre”. Esse era o nome dado genericamente a trabalhos artísticos retratando as cenas dos Evangelhos. Tais ilustrações nas igrejas foram, por muito tempo, a principal referência sobre a vida de Jesus. Esse é um vitral do séc. 13, da catedral de Canterbury, na Inglaterra, retratando o famoso casamento em Caná da Galiléia. Estão representados, com auréolas, José, Maria e Jesus, enquanto um serviçal coloca água nos potes.



Escrever sobre a cronologia dos Evangelhos é uma daquelas coisas que se tem de tornar muito cuidado para não fazer um assunto chatíssimo. Afinal, nem estamos contando uma estória. É a estória de como a estória foi contada.


O LUGAR DE JESUS


O primeiro ponto é entender o lugar onde Jesus vivia. Quase tudo ali se relacionava com o rio Jordão (que era sagrado). Esse rio nasce bem para o norte de Israel, nas montanhas de Golan, no Líbano. Ele então entra por uma grande fratura tectônica no solo, profunda e literalmente em linha reta, descendo até o grande lago de Genesaré. Essa porção de água doce também foi chamada lago ou mar de Tiberíades, ou da Galiléia. Muitas cidades se desenvolveram ao redor do lago, vivendo da pesca ou como entrepostos de caravanas do Egito, Líbano e Pérsia. O Jordão continua na margem sul do lago, descendo em linha reta por muitos quilômetros ainda, até Jerusalém. Mais abaixo da capital ainda ficam as terras férteis perto do Mar Morto e, finalmente, o grande mar salgado. Essas foram, no passado distante, as terras de Sodoma.


A Galiléia, pátria de Jesus, ficava ao poente do lago de Genesaré. Era uma terra de colinas arredondadas onde perambulavam pastores e mercadores. Mais ao sul, na margem do Jordão, ficava Samaria, uma região de florestas e montanhas altas. Mais ainda ao sul ficava Judá, outra terra de colinas, porém mais árida. Judá é ainda famosa por suas uvas e azeitonas. Os Judeus não gostavam dos Galileus e não recebiam bem os Samaritanos.


Do outro lado do Jordão as terras são mais áridas, desembocando em Damasco, fronteira do deserto da Síria. Ali ficavam cidades afeitas aos Romanos, politeístas como eles: Gadara, Gerasa, Pela, Philadelphia, etc. Perto do lago, ao nascente, ficava a planície de Bashan, rica em incenso, tâmaras e por onde chegavam as caravanas de camelos da Síria e Pérsia. Ao sul, erguiam-se as montanhas de Gileade, com seus pastores de cabras. Os povos dos dois lados do Jordão também não se gostavam.


Pelo que sabemos, Jesus nunca saiu dessa região.


AS FONTES


O segundo ponto é que os Evangelhos são 4 livros diferentes, escritos por pessoas, comunidades, locais e épocas diferentes. Eles não nasceram juntos! O indício mais antigo de encontro dessas obras uma com a outra foi a composição do Diatessaron, por volta de 170 d.C., na Síria. Esse livro era uma fusão dos 4 originais, já tentando "aparar as arestas" ou divergências entre eles. Não pretendo aqui comparar, nem reuni-los, a não ser no sentido temporal.


Ao fazer isso, já levamos em conta que cada um dos quatro narra parte da vida (e morte) de Jesus, de forma linear, como seriam biografias. Mas os Evangelhos não são biografias! Jesus já era morto havia muito tempo quando foram escritos. Mal sabemos dos seus autores que, nenhum deles, foi testemunha do que escreveu. Além disso, todos foram produzidos em comunidades religiosas, juntando dados biográficos de Jesus com ensinamentos morais, sabedorias e até política, tudo sob o mesmo nome de "tradição".


Não apenas quatro foram produzidos, mas o Diatessaron já nos alertava serem os primeiros. Marcos, o mais antigo e base para os outros, foi redigido 30-40 anos após Jesus, por um bispo de Alexandria, possivelmente ex-companheiro de Pedro. Como diria Leonardo Boff, é impossível separar Jesus (o homem) do Cristo (figura lendária).


Para mostrar como isso funciona, vou buscar justamente o concorrente Americano¹ de Jesus, chamado Papai Noel. Se você fosse fazer uma "biografia" do Noel, o que escreveria? Relatos sobre ele estão na campanha publicitária da Coca Cola, nos anos 1930, ilustrada por Haddon Sundblom. Também temos o conto/poema de Natal escrito por Clement Clark Moore em 1822 ("A Visit From St. Nicholas", ou "Uma Visita de São Nicolau"), em que Sundblom se baseou. Mas alguém falaria sobre o ícone da igreja Bizantina São Nicolau no séc. 15? Ou o santo padroeiro dos marinheiros em Myra/Grécia no final do séc. 11? Ou a mistura de Odin/Santa Claus que voava sobre os telhados da Germânia (poderes de Odin) e ajudava os mais pobres (poderes de Nikolaos) nos sécs. 7-9? Lembrariam do bispo Nikolaos Patareus, famoso na Grécia dos séc. 3-4? Como Jesus, ele foi irremediavelmente fundido com sua lenda; só não contou com a Igreja para carimbar essa documentação.


Na prática, tratar com quatro bio-lendas significa que muitas coisas constando de um texto não aparecem nos outros, ou a sequência deles é totalmente distinta. Isso é exatamente o que acontece com os Evangelhos.


INVENTANDO UM MÉTODO


Primeiro separei as obras em sequências de ações de Jesus, que pudessem encontrar paralelo de uma na outra. Para isso, usei um roteiro já pronto baseado em Edward Robinson e Cox & Easley, nas referências. Tentei ser mais específico quanto a nomes e na parte da Ressurreição.


Depois, descobri que não há um modo linear de colocar os eventos descritos nos Evangelhos. Isto é, a sequência dos eventos em comum varia de um livro para outro, de modo que aceitar um inválida outros. Esse tipo de efeito ocorre, geralmente, quando um grande manuscrito é reescrito de memória ou tem páginas reordenadas, por falta da indicação de sequência (abençoado seja quem começou a numerar os cantos das páginas). No tempo em que reproduzir um texto significava copiar ele palavra por palavra, entre a redação dos textos (séc. 1) e sua versão mais antiga ainda existente (séc. 10), passaram-se 1000 anos e talvez uma centena de laboriosas recompilações. Sem considerar que talvez Mateus e Lucas já fossem originalmente recompilações de Marcos..


Como a sequência de um ou mais textos seria inevitavelmente prejudicada, optei por priorizar a antiguidade dos mesmos. Em outras palavras, se Marcos e Mateus discordam de uma sequência, Marcos é o correto, por ser mais antigo. Na ordem de prioridade ficaram Marcos, Mateus, Lucas e João. Os eventos que aparecem em todos os 4 Evangelhos ou em todos os Sinóticos foram tomados como marcadores principais para o alinhamento.


Finalmente, fiz a anotação dos locais descritos. Em muitos, não havia indicação alguma (estão marcados com …). Quando houve discordância, foram anotados ambos. Apesar das discordâncias temporais, as de lugar foram raras.


Terminado, mais ou menos metade dos eventos aparecia em um único Evangelho, enquanto a outra metade concordava entre 3 ou 4 deles.


NASCIMENTO DE JESUS


A concordância quanto ao nascimento de Jesus é muito baixa. Marcos e João nada apresentam; Mateus e Lucas se alternam com estórias distintas, concordando somente quanto a Belém. Inevitavelmente, isso sugere uma inserção feita após o texto de Marcos. Havia uma profecia para o Messias cumprir, então não surpreende os evangelistas “criarem” um contexto para isso. Quanto a serem fatos conhecidos para eles, é bem pouco provável, pois não há relatos sobre Jesus entre esse nascimento “profético” e o começo de Sua pregação.


Mateus coloca Jesus homenageado por magos do Oriente seguindo uma estrela, sendo levado ao Egito para refugiar-se de Herodes I, com até um massacre dos inocentes recriando a narrativa de Moisés (deve-se ver que Herodes I era famoso, justamente por assassinar toda a família, da mãe a esposa, filhos e cunhados). Já Lucas coloca um anjo anunciando o milagre a Maria, assim como a pastores de ovelhas. Uma terceira tradição natalina aparece ainda na Sura 19 do Alcorão.


Gal = Galiléia; Jud = Judéia


BATISMO


Não há narrativas canônicas da vida de Jesus antes da Sua consagração por João Batista. Isso nos diz que Ele era desconhecido e - pelo menos nas narrativas - “herdou” a carreira de um profeta anterior. As cenas do Ministério de João Batista, Batismo de Jesus no rio Jordão e Tentação no deserto são altamente repetidas em todos os textos. Temos, então, um material muito sólido para iniciar.


João Batista foi uma figura profética importante na Judéia do séc. 1. Sabemos, inclusive, que Jesus ficou com alguns discípulos de João, sobre o qual se diz que deveria "abrir os caminhos do Senhor". Pregando sobre arrependimento dos pecados, contra a corrupção dos governantes de uma terra invadida, João foi um legítimo profeta. Ele reuniu os pobres numa organização mais horizontal, distinta da benção dos Saduceus e das práticas de purificação dos Fariseus. A Salvação estava ao alcance das pessoas comuns.


Foi a partir desse contato, e até um possível parentesco (não sabemos se verdadeiro) que Jesus se inicia como andarilho e disseminador de idéias sobre um Reino Celestial, que contrastava amargamente com a Judéia dos Romanos.



PRODÍGIOS NA GALILÉIA


Enquanto se tornava conhecido, antes de designar seus 12 escolhidos, Jesus teria feito ensinamentos e sobretudo milagres nas terras pastoris perto de Nazaré. Entre eles estão o casamento onde transformou água em vinho, um exorcismo na Sinagoga, a instrutiva conversa com Nicodemus sobre "nascer de novo" (alguém educado, talvez um juiz ou membro do Sinédrio), a pesca milagrosa no lago de Genesaré, a estória sobre o rico que não tinha a quem deixar sua fortuna, as curas no Sábado (também na Sinagoga).


O cenário mais geral aqui é o convívio comum dos Judeus, as Sinagogas. O que acontecia na Sinagoga era público, tinha várias testemunhas. São estórias que aparecem em Lucas e mais algum livro, ou somente em João. Dessa forma, podemos pensar que fizeram parte da "pesquisa" que Lucas empreendeu para "compor uma história dos acontecimentos que se realizaram entre nós" (Lucas 1.1). As expressões mais comuns associadas aos discursos e prodígios de Jesus são termos vagos como "um lugar", "uma montanha", "uma planície" e "a multidão". Quase vejo o velho Lucas, antigo escrivão de Paulo, visitando as Sinagogas com rolos de pergaminhos sob os braços e perguntando a respeito de Jesus! 


Certamente as diversas comunidades pobres da Galiléia tinham estórias variadas sobre Ele, que foi seu conterrâneo e profeta. Nessas estórias, Mateus e Lucas fazem parecer que Jesus era um novo sujeito de cajado na mão e reunindo seus fiéis para ouvi-Lo falar. Ele chegou mesmo a elaborar Seu próprio código de leis!


Os eventos em azul estão mais adiante, no Evangelho em questão. Os em vermelho estão um pouco atrás, no evangelho a que pertencem.


OS ESCOLHIDOS


Pouco antes de Jesus nomear seus Doze, uma pequena série de acontecimentos foi relatada por Marcos e replicada por Mateus e Lucas. Ao que parece, Jesus havia se estabelecido junto a Pedro, André, Tiago e João em Cafarnaum, cidadezinha na margem noroeste do lago. As referências de local são vagas, mas aparecem "perto do lago", "perto da casa de Simão" e "na Galiléia".


Nessa vila de pescadores, onde fica a "casa de Pedro", hoje um ícone Cristão, Jesus era descrito como curandeiro. Por sua benção foram sarados endemoniados, leprosos, paralíticos, cegos, mudos, doentes em geral. Lá ele também escolheu Seu grupo de confiança: André e Simão Pedro (os filhos de Jonas), João e Tiago Boanerges (os filhos de Zebedeu), Filipe, Judas Iscariotes, Judas Tadeu, Mateus Levi, Natanael, Tiago (o menor), Tomé e Simão o Zelote.


Os eventos em azul estão mais adiante, no Evangelho em questão. Os em vermelho ou laranja estão um pouco atrás, no evangelho a que pertencem.


AS PARÁBOLAS DO REINO


Nas margens do lago, Jesus teria contado parábolas sobre o homem forte que defende sua casa, o semeador espalhando a mensagem de Deus, a lâmpada que deve brilhar como exemplo, a semente de mostarda que se torna uma grande árvore para abrigar a todos. Nesse meio tempo Jesus fez exorcismos, acalmou uma tempestade e ressuscitou a filha do chefe da Sinagoga. Tratam-se de eventos contados por Marcos, que foram replicados nos outros Evangelhos Sinóticos. João, como condiz com sua origem nas montanhas de Samaria, nada tem sobre isso.


O tema aqui é o Reino dos Céus, com Jesus anunciando seu crescimento, que seria um tempo de euforia pela pregação, algo a ser largamente compartilhado. As diversas descrições do Reino são, na verdade, descrições de como o Reino cresce. A isso se somam os prodígios de Jesus, indicando Seu enorme poder.


Pensando que Marcos obteve suas informações da oralidade de Pedro, um morador daquela comunidade de pescadores, podemos pensar que tais falas fossem justamente uma propaganda Cristã usada por Pedro. Trata-se de uma forma de ensino tipicamente semita e mostrada, sem tanto apelo, através dos Provérbios de Salomão. Jesus certamente se tornou muito popular por ali.


Mateus estica a coleção de estórias um pouco além de Marcos, ajuntando outras similares também sobre o Reino dos Céus: o joio do Diabo e o trigo de Deus, o fermento que faz a massa crescer e crescer, a rede de peixes onde Deus escolherá os Seus, o tesouro do escriba com velhos e novos ensinamentos.



DECÁPOLIS


Logo depois que ficou sabendo da morte de João Batista, Jesus realizou o milagre da multiplicação dos pães e peixes para alimentar 5000 homens. O evento é registrado por todos os evangelistas. Lucas refere o lugar como perto de Betsaida, na margem nordeste do lago.


Seguem-se algumas estadias de Jesus na margem oriental do Jordão, na região conhecida como Decápolis. Tratavam-se de cidades "premiadas" com menores impostos, devido a aliança com assuntos do Império. Ali, Jesus refez o milagre da multiplicação dos pães, agora para 4000 homens. Nos interessa que os eventos registrados nessa parte são referidos por Marcos e replicados por Mateus. Lucas, no entanto, é omisso nessa parte.


Segundo Marcos e Mateus, Jesus perambulava pela margem oriental do lago, entre gente pouco afeita aos Judeus, na função de curandeiro. Ele foi a Genesaré, no extremo norte do lago, depois ao Líbano, voltou a Betsaida, então seguiu para Cesária de Filipe (bem mais ao norte, perto da nascente do Jordão). Em cada lugar Jesus curou cegos, surdos, possuídos. Voltando dessa região montanhosa a Betsaida, ocorreu a transfiguração de Jesus, em que ele se tornou luminoso e falou diretamente com os antigos profetas, ante os olhos de Pedro, Tiago e João.


Marcos parece colocar Jesus perambulando por todo o mundo dos Judeus, incluindo seus amigos e inimigos. Não é estranho que João (o Evangelho) nada fale sobre isso, mas é curioso que Lucas não fale. Especialmente porque são relatos presentes em Marcos, aos quais ele teve acesso. Podemos pensar que Lucas perdeu o rastro do Messias, nunca foi ao norte perguntar sobre Ele, ou - como Pedro - resistia a incluir no Cristianismo aqueles que não fossem Judeus.



O PREGADOR DE CAFARNAUM


Após essas andanças no norte, Jesus parece ter voltado à vila de pescadores onde reuniu Os Doze. Lucas emenda uma cadeia de estórias e parábolas supostamente ensinadas por Jesus. Essas parábolas não estão registradas em Marcos, por isso, novamente, é possível que se trate de uma coletânea semita de sabedorias sobre o Maná, o maior no Reino dos Céus, a valorização de um convidado, a confiança em bens materiais, a falta de gratidão, etc. O tom de Jesus aqui é diferente das parábolas contadas por Mateus. Lucas tinha um objetivo religioso bem definido, e recolheu ensinamentos não sobre a vida mundana, mas sobre a atitude dos homens (de confiança ou não) para com Deus.


Além do ensino, Jesus começou a assumir claramente a função de líder religioso. Ele conclamou os seguidores a abandonar tudo, a "partilhar" Sua carne e Seu sangue.


Depois de Cafarnaum, Jesus foi para a Judéia. Lucas não referência bem as histórias que coletou; raramente há indicação de local, só quando a mesma passagem é repetida por Mateus ou João. Muitos ensinamentos ficaram espalhados no caminho entre Cafarnaum e Jerusalém. As referências de João, em especial, sugerem que Jesus fez essa trajetória passando pelas montanhas de Samaria, onde teria curado leprosos e tido um curioso diálogo com uma mulher à beira dum poço.



O ADVERSÁRIO DOS FARISEUS


Vindo de Samaria, Jesus transitou pelas cidades da Judéia (ex. Betânia, Jericó, etc) antes de se estabelecer em Jerusalém. Esse caminho foi marcado por milagres e ensinamentos sobre o divórcio, as riquezas, etc vistos sob a perspectiva do Reino dos Céus.


Jesus adentrou a capital sob homenagens (domingo de Ramos), e então sabemos que Ele já era uma figura bem conhecida da região. Em Jerusalém, seus ensinos nas Sinagogas e no Templo fizeram Ele se tornar um mestre altamente questionado pelos Fariseus. Estes eram uma casta de estudiosos que se dedicavam a debater nas Sinagogas e discursar, no Templo, sobre a Lei. Jesus abertamente os chamava de “víboras” e devia, no mínimo, ser chamado de “blasfemo” por eles.


As parábolas e ensinamentos de Jesus passaram a se dar como respostas a desafios orais dos Fariseus, para Jesus explicar Seus ensinos em confronto com a Lei. Aqui apareceram máximas como o bom pastor, o brotamento e maldição da figueira, "dai a César..", a oferta da viúva, etc. Em meio às pregações, Jesus ressuscitou Seu amigo Lázaro de Betânia e predisse a própria morte, assim como Sua ressurreição ao 3º dia.


Ao invés de um vai e volta a Jerusalém, o alinhamento temporal dos Evangelhos sugere uma única e decisiva incursão do Messias na cidade sagrada. Junto Dele seguiram os Doze e também as mulheres que, não nominalmente, atendiam às necessidades do grupo. Algumas forneciam dinheiro, outras haviam sido curadas, outras prestavam pequenos serviços. Nenhum dos evangelistas se dedica a descrever funções dentro da comunidade. A única descrição feita é quanto a Judas Iscariotes, que cuidava do dinheiro.


Essa parte da narrativa é muito mais densa de concordâncias entre os Evangelhos do que as anteriores, o que faz pensar que se trate da principal lembrança deixada por Jesus para as reconstruções feitas no futuro.



AS CEIAS E A TRAIÇÃO


Chegamos na parte principal das estórias sobre Jesus, pensando que elas talvez até tenham sido compostas de trás para frente, isto é, partindo do Martírio do Senhor e se perguntando o que teria acontecido antes disso. Os relatos sobre Jesus, aqui, são cronologicamente muito próximos, quase passo após passo, dia após dia e minuto após minuto.


Dias antes da Páscoa, Jesus foi convidado para ceiar em Betânia, cidade vizinha de Jerusalém. A ocasião foi importante, relatada por todos os evangelistas. Há controvérsia sobre se a casa pertenceria a Lázaro, amigo íntimo, Simão o leproso ou um Fariseu ilustre. Mas foi lá que certa Maria, provavelmente irmã do dono da casa, ungiu Jesus com bálsamo de nardo, ao que Ele anunciou ser um preparativo para Seu enterro. Um papa, no futuro, diria se tratar da Maria Magdalena, uma prostituta. Mas nenhuma menção disso houve com respeito a ela.


Duas coisas tornam esse encontro muito curioso. Lázaro já era um ressuscitado e, segundo João, o motivador de muita movimentação popular ao redor de Jesus. Ainda, a Maria que ungiu Jesus não foi a de Magdala, mas outra que, segundo a narrativa da Ressurreição, seria anunciada por Jesus como também uma das primeiras testemunhas.


Infelizmente, não há descrição dos discursos nessa refeição mas, ao reunir num só lugar todos os seus mais importantes divulgadores, Jesus poderia bem estar organizando uma movimentação teológica futura. Ou tentando Se proteger dos Fariseus.


Na véspera da Páscoa, Jesus se preparou para fazer com os Seus a tradicional ceia ritual dos Judeus. Essa refeição deveria ocorrer após o pôr do sol, conter um cordeiro assado, ervas amargas e coisas calóricas, recriando os preparativos para cruzar o Mar Vermelho. A ceia descrita por Paulo, repetida por Marcos e os outros evangelistas, entretanto, cita somente pão e vinho. João até desvia-se por completo do feriado e rituais Judeus. Em todas as narrativas, Jesus identifica seu traidor.


Sabemos que a narrativa vem de Paulo pelo completo desconhecimento do local da ceia, por parte dos Evangelistas. O Monte das Oliveiras, vizinho em cujo cume fica o jardim chamado Getsêmani, nos deixa em clara dúvida entre Jerusalém - para onde iam os Judeus na Páscoa - e Betânia, a cidade mais próxima, a exatos "um monte" dali.


Depois da ceia, Jesus e os seguidores foram noite adentro para uma oração no Getsêmani, onde havia um altar milenar ou templo a céu aberto no cume do Monte das Oliveiras. João descreve um longo discurso sobre a perseguição futura e a vinda do Consolador, no caminho até lá.


Todos os evangelistas entram em sincronia desse ponto em diante. Em sua oração, Jesus pediu pela preservação dos Seus (João) ou pela própria (Sinóticos). Estando Ele a orar, apareceram Judas e a guarda do Templo. Os discípulos lutaram, mas foram debelados e fugiram por entre as árvores. Jesus foi levado à casa de Caifás. 



CULPADO?


O julgamento de Jesus é uma incógnita histórica. Apesar da sustentação em todos os Evangelhos, tal julgamento parece extraído das falas de Paulo e não se adapta às leis dos Judeus nem dos Romanos. Para os Judeus, era um feriado sagrado quando deveriam cuidar das famílias e não se envolver em disputas. Divergências doutrinárias e profetas milagreiros eram comuns em Jerusalém, podendo no máximo terminar em expulsão da cidade, prisão ou açoites. O maior suplício da Lei era o apedrejamento.


Mas Jesus foi buscado pela guarda do Templo, julgado numa noite sagrada e executado como rebelde traidor de Roma. Várias décadas mais tarde, os evangelistas descreveram tudo tão rápido que até encavalaram a celebração da Páscoa por Jesus e a celebração do Templo.


Lucas, em sua pesquisa histórica, cria um cenário digno de filme. Herodes Antipas, rei da Galiléia, vai a Jerusalém para a Páscoa, faz as pazes com Pilatos (que ocupava o posto de sua família) e procede um julgamento independente de Jesus, no Sábado Sagrado. Pilatos termina condenando Jesus puramente por uma misteriosa pressão popular, ele que era um burocrata e não tinha popularidade sequer entre os Romanos. Pilatos ainda liberta, também por pressão popular, um líder revolucionário, Barrabás, cujo nome significa "filho do meu pai". É mais ou menos como se ninguém soubesse explicar a participação de Roma, nem de qualquer autoridade. "Só sei que foi assim".


Lembremos que Lucas, se esteve em Jerusalém, precisaria ter chegado antes do início da Guerra, que terminou por aniquilar a cidade entre 66 e 70 d.C. Como ele dispunha já do manuscrito de Marcos como guia, e o manuscrito foi composto na mesma época lá em Alexandria, no Egito, isso se torna bem improvável. Ele pode ter andado pela Galiléia, mas deve ter feito isso quando Herodes Antipas, Pilatos e mesmo Jerusalém já eram lendas e escombros de um outro tempo.


Marcos, o primeiro a escrever, juntou as palavras de Pedro e Paulo, de memória, enquanto estava bem longe dali, literalmente refugiado no Egito. Paulo, testemunha mais antiga e que escrevia, deixou um relato muito sucinto sobre Jesus. Tão sucinto que a única fala do Messias deixada por Paulo, em todas as suas cartas, foi o ritual da Ceia.



A CRUZ


Como parte do julgamento de Pilatos, Jesus foi açoitado e logo conduzido ao Gólgota para ser crucificado junto com outros dois, dos quais não houve notícia antes. Segundo os evangelistas, parece que aqui há um retorno do tempo, a menos que a descrição da Ceia não fosse uma comemoração de Páscoa, apesar do que eles mesmo sugerem (segundo Marcos e Lucas, a Ceia foi no começo do Sábado, Mateus a coloca na véspera e, João, num momento incerto antes da Páscoa).


Marcos menciona 3 personagens curiosos: Simão Cireneu e seus filhos, Alexandre e Rufus. Todos parecem personagens do mundo greco-judaico, onde também Paulo andava. Segundo a tradição Ortodoxa Bizantina, eles estariam entre os 70 enviados por Jesus para divulgar Sua mensagem.


Em poucas horas, diferente do que os Romanos costumavam fazer, por ocasião da Páscoa os guardas são instruídos a quebrar as pernas dos condenados. Mas Jesus já estava morto. José de Arimatéia, ilustre Sinedrista, pede o corpo a Pilatos, que consente, e daí somos levados a pensar em favorecimentos mútuos entre o mal afamado governador Romano e os líderes Judeus. Normalmente, os executados eram jogados em valas.



RESSURREIÇÃO


No domingo ao amanhecer, entre 1 e 2 dias após o sepultamento do Messias, um grupo de mulheres seguiu à cova de José de Arimatéia para concluir o embalsamamento funerário tradicional. Após 3 dias, o cadáver não poderia mais ser tocado. O único nome certo entre elas é Maria de Magdala. Elas encontraram a tumba aberta.


Os relatos variam a partir do avistamento de anjo(s) na tumba, mostrando que uma tradição sobre a Ressurreição não se concretizara, até o final do séc. 1. Paulo não descreveu Jesus ressuscitado, embora enfatizasse a Ressurreição como um pilar do Cristianismo.


1ª carta aos Coríntios, cap. 15

15. Além disso, seríamos convencidos de ser falsas testemunhas de Deus, por termos dado testemunho contra Deus, afirmando que ele ressuscitou a Cristo, ao qual não ressuscitou (se os mortos não ressuscitam). Pois, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, é inútil a vossa fé, e ainda estais em vossos pecados. Também estão perdidos os que morreram em Cristo.


Os Evangelhos tratam de 5 aparições de Jesus. As mais repetidas, em pelo menos 3 dos 4 Evangelhos, foram a Maria de Magdala (não é citada por Lucas), na estrada de Emaús (ausente em Mateus e João) e aos Onze (que Mateus situa na Galiléia, mas João sustenta ser perto do Sepulcro). Judas Iscariotes estava morto. Outras aparições foram na presença de Tomé e questionando Pedro (ambas em João). Nalgumas narrativas, Jesus fez questão de comer com os discípulos para demonstrar sua carnalidade.


Em todas as aparições, Ele surgiu "disfarçado" ou "não reconhecível", mesmo a Seus íntimos, e depois Se revelou. Ficamos com a impressão de um Jesus usando turbante, óculos escuros e barba falsa. Além disso, tratou-se de uma Ressurreição simbólica: Jesus não voltou a andar entre os homens, nem a pregar ou curar nas aldeias. Também não se sabe dele conclamando o povo a uma Nova Lei. Isto é, não foi exatamente uma reversão da morte. Em pouco, Ele nem estaria mais visível.



PALAVRAS PÓSTUMAS


Os Evangelhos são encerrados de formas diferentes. Marcos coloca Jesus dizendo aos discípulos para espalharem Sua mensagem, depois subindo aos Céus. Mateus encerra com o "Ide". Lucas e João têm um anúncio do Espírito Santo, mas em pontos distintos da narrativa. Segundo Mateus e João, os discípulos vão para a Galiléia; segundo Lucas, eles ficam em Jerusalém. Na prática, todos os evangelistas sabiam (de seu próprio passado) sobre o destino terrível da cidade sagrada. Marcos e Lucas, em especial, conheceram as primeiras comunidades Cristãs.


Pedro e Paulo se encontraram em Jerusalém, no ano 49-50 d.C. Houve conflitos entre eles e depois se separaram. Quem narrou isso, expondo as falhas de Pedro, foi um seguidor de Paulo. Pedro, mais tarde, foi relatado em Roma - lá está sua tumba. Incrivelmente, 20 a 50 anos de pregação e expansão Cristã ocorreriam antes que os fiéis tivessem acesso a detalhes escritos sobre a vida de Jesus.



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¹ Na América, Papai Noel se tornou um personagem importante do Natal. Na Europa e Leste Europeu, contudo, as tradições e dias festivos diferenciam o dia de São Nicolau (6/dez, aniversário de morte do bispo Nikolaos) e o Natal (25/dez, supostamente aniversário de nascimento de Jesus).


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FÁBULAS DE QUE ME LEMBRO


Clement Clarke Moore, A Visit from St. Nicholas, poetryfoundation.org


Five things you never knew about Santa Claus and Coca-Cola. coca-colacompany.com


Lista completa da Cronologia


Steven L. Cox; Kendell H. Easley, "Analytical Outline of the Harmony", HCSB Harmony of the Gospels, B&H Publishing, 2006.


William Newcome, Edward Robinson (ed.), A harmony of the Gospels in Greek, in the general order of Le Clere & Newcome, with Newcome's notes: Printed from the text and with the various readings of Knapp, Gould and Newman, 1834.

sábado, 11 de novembro de 2017

A guerra das árvores - uma nova visão da política de Canaã

À esquerda, um desenho raro de William Jenk Morgan, mostrando o profeta Aías amaldiçoando a esposa de Jeroboão. À direita, mapa de Israel dividida.

Foram uma vez as árvores a ungir para si um rei, e disseram à oliveira: Reina tu sobre nós. Porém a oliveira lhes disse: Deixaria eu o meu azeite, que Deus e os homens em mim prezam, e iria governar as árvores? Então disseram as árvores à figueira: Vem tu, e reina sobre nós. Porém a figueira lhes disse: Deixaria eu a minha doçura, o meu bom fruto, e iria governar as árvores? Então disseram as árvores à videira: Vem tu, e reina sobre nós. Porém a videira lhes disse: Deixaria eu o meu mosto, que alegra a Deus e aos homens, e iria governar as árvores? Então todas as árvores disseram ao espinheiro: Vem tu, e reina sobre nós. E disse o espinheiro às árvores: Se, na verdade, me ungis por rei, vinde, e confiai-vos debaixo da minha sombra; mas, se não, meu fogo consumirá até aos cedros do Líbano. (Juízes 9:8-15)

Hoje, há muito deserto na região da Síria, Líbano e Israel. Mas a desertificação dessas áreas é obra humana e ocorreu principalmente na Idade Média, com a devastação de florestas para construir castelos e armas durante as Cruzadas (séc. 9-12), durante o domínio romano (séc. 1 a.C.-5 d.C) e também devido ao comércio de madeira que abastecia os navios fenícios no mundo antigo. Áreas como Israel, no período romano e ainda mais nos tempos do Velho Testamento, era uma "terra de leite e mel" repleta de grandes florestas de carvalho e pinheiros, fechadas o suficiente para que exércitos não pudessem passar por ali.

O entorno de Jerusalém, ainda mais, é um terreno montanhoso, como quase toda Judéia. Os vales eram férteis e os topos das montanhas ao norte eram rodeados de grandes árvores e abrigaram pequenas vilas, que se tornaram cidades fortificadas na Era do Bronze (3200 – 1200 a.C.) mais ou menos como a famosa Tróia dos gregos. Esse foi o período em que se organizaram as 12 tribos de Israel, como reinos dividindo espaço com as nações cananéias Moab, Amon, Filístia, Edon, Fenícia e Aram. Freqüentemente as cidades-estados guerreavam entre si ou eram subjugadas por uma nação maior. Os livros de Josué e 1ª Samuel estão cheios de narrativas dessas batalhas.

Davi estendeu seu reinado a partir do sul, na fronteira com a Filístia. Durante seu reinado (aprox. 1000 a.C.), a região de Jerusalém (Jebus-Shalim são referências ao povo e ao deus cananeu do sol poente) foi conquistada dos Jebuseus. Ao sul da montanha de Jerusalém estava a fortaleza-templo de Sião. Jerusalém era, até então, a fortaleza mais impenetrável daquela área, que resistiu aos ataques israelitas desde os tempos de Josué (1400 a.C.). Os habitantes que sobreviveram ao ataque foram finalmente feitos servos nos reinados de Davi e Salomão. Junto com Jerusalém, outras fortalezas ao redor foram tomadas:

Porém Davi tomou a fortaleza de Sião; esta é a cidade de Davi. ... Assim habitou Davi na fortaleza, e a chamou a cidade de Davi; e Davi foi edificando em redor, desde Milo para dentro. (2ª Samuel 5.7-9, 1ª Crônicas 11.7-8)

No livro de Juízes, há várias referências à “casa de Milo”, formada por nobres/sacerdotes cananeus, assim como as estelas dos reis cananeus trazem lembranças de batalhas contra a “casa de Davi” (Juízes 9). Aparentemente, Davi se aproveitou das fortalezas de tijolos ao redor para erguer uma grande muralha envolta de Jerusalém, ou mais propriamente várias muralhas, que aproveitavam as muralhas mais antigas de outras fortalezas como Milo e Sião. A nova grande capital de seu reino se estendeu por vários montes vizinhos. 

Era uma época de militarismos. Não apenas Davi iniciou a construção de cidades fortificadas, mas também foi seguido por seu único herdeiro vivo, Salomão. Entre uma coisa e outra, nos anos finais do reinado de Davi, os príncipes de Israel mataram um ao outro e um deles, Absalão, até tentou tomar-lhe o trono. Salomão, filho do famoso caso extra-conjugal de Davi e Bateseba, formou escolas de sábios para gerenciar o reino (os livros de Provérbios e Salmos são frutos dessas escolas), mas usou como mão de obra para suas construções os povos conquistados. Foram criados novos tributos ao seu povo, a fim de pagar pelos materiais das muralhas, das fortalezas e pelo sustento dos trabalhadores.

E esta é a causa do tributo que impôs o rei Salomão, para edificar a casa do Senhor e a sua casa, e Milo, e o muro de Jerusalém, como também a Hasor, e a Megido, e a Gezer. Porque Faraó, rei do Egito, subiu e tomou a Gezer, e a queimou a fogo, e matou os cananeus que moravam na cidade, e a deu em dote à sua filha, mulher de Salomão. Assim edificou Salomão a Gezer, e Beth-Horom [casa de Horon], a baixa, e a Baalate, e a Tadmor, no deserto daquela terra. (1ª Reis 9.15-18)

Baalate, ou Balatah, é uma cidade antiqüíssima, citada no Gênesis e situada entre os montes Gerizin e Ebal, provavelmente a ancestral da cidade sagrada de Siquém. Seu nome é uma referência ao carvalho, árvore imensa e possivelmente sagrada para os cananeus que a fundaram. Na narrativa de Abraão (Gênesis 12.6), ele vai até o “carvalho de Moré” na terra de Baalate/Siquém, que é o nome de um lugar. Em Gênesis 33.18, seu herdeiro Jacó vai até a cidade de Siquém e compra uma terra de Hermor, o patriarca local, onde levantou um altar para El. Ambas as narrativas são bem posteriores aos eventos, possivelmente re-escritas a partir dos papiros no Templo nos tempos do rei Josias de Judá (615 a.C.), mas trazem algo sobre a ocupação humana na área, que cresceu de um povoado para uma cidade. Existem resquícios humanos ali de 5000 a 1150 a.C. , depois a área ficou desabitada até 950 a.C., quando foi re-construída. Tal obra coincide com os reinados de Davi e Salomão.

MEIO AMIGOS

De fato, os israelitas não tomaram Baalate/Siquém. Registros egípcios (as cartas de Amarna, sobre as colônias egípcias em Canaã) falam dos filhos de Lab’ayu (Labão?) entregando Siquém aos Hapiru (Hebreus) nos tempos de Josué. Provavelmente se tratava de uma cidade sagrada em ruínas ou semi-desabitada, que foi favorecida por riquezas e comércio dos israelitas. Em Gênesis 34, um filho de Hemor (chamado Siquém) estabelece tratado de paz com Jacó, sendo circuncidados ele e sua família. A narrativa também é tardia (se bem que os egípcios usassem a circuncisão), mas não há qualquer registro de batalhas entre Baalate/Siquém e os israelitas.

Seria surpreendente se a Tadmor das obras de Salomão fosse o oásis de Tadmor, na Síria. O nome é uma referência às palmeiras que crescem ali. Esse grande oásis foi mais tarde ocupado pelos romanos e transformado numa bela e importante cidade de entreposto entre Roma e a Pérsia, chamada Palmira,  cheia de aquedutos, praças e pórticos de pedra, de onde também vem o nome "palmeira". A Tadmor dos romanos era de fato no deserto, mas bem distante de Jerusalém, o que significaria que Salomão estendeu fortalezas até a 200 Km de sua capital.

Josué esteve em Siquém, sem um relato de batalha. Embora pensemos usualmente em um domínio militar e religioso dos locais no movimento de “invasão” de Canaã pelos israelitas, tudo indica que foi mais uma ocupação de governos, com estabelecimento de tratados políticos e manutenção das populações locais, como seu um certo “partido político” se tornasse influente na região. Estudos arqueológicos recentes, por exemplo, mostram uma presença de 94% do DNA cananeu antigo (extraído de esqueletos de 1700 a.C., anteriores portanto Êxodo em 1500-1400 a.C.) no DNA de populações atualmente presentes em Canaã. Isso vai completamente contra o ideal de genocídio dos cananeus apresentado no livro de Josué. Em Siquém, Josué ergueu um altar (Massebah) de pedra que pode ser visto até os dias atuais (Josué 24), simbolizando o governo israelita e seu Senhor, mas referências posteriores citam em Siquém as casas de Baal-Berith e Milo (Juízes 9.4), que são famílias de nobres e sacerdotes dos deuses cananeus. Também há sinais dos cultos cananeus mantidos por ali, conforme a nomeação “casa de seu deus” quando o texto bíblico diz que se refugiaram do governo israelita.

O texto de juízes até nomeia um templo-fortaleza do deus Berith que foi destruído pelo juiz/rei Abimeleque. As ruínas dessa estrutura foram encontradas por arqueólogos e revelaram se tratar de um imenso templo, na verdade o maior da Canaã antiga, construído por volta de 1700 a.C., antes da dominação egípcia sobre a região. A camada de cinzas relativa ao incêndio causado por Abimeleque em 1125 a.C. também estava presente, confirmando que, embora não tão ruins, as relações entre cananeus e israelitas não eram sempre pacíficas.

A mistura entre as culturas israelita e cananéia se mostra ainda no status de Siquém como cidade sagrada, que se manteve para além da destruição do grande templo na época dos Juízes (1350-1050 a.C.) e até para além do reinado de Salomão (970-930 a.C), pois seu herdeiro Roboão foi a Siquém para ser coroado e honrado pelas famílias reais da Judéia (1ª Reis 11.43, 2ª Crônicas 10.1).

REIS, NOBRES E PROFETAS

Em Israel, os profetas (ex. Balaão, Samuel, etc) tinham grande influência sobre o povo e por isso mesmo eram mantidos próximos pelos líderes. Tais profetas pareciam residir nos templos israelitas e cananeus, onde recebiam ofertas variadas como pães, bolos e mel (1ª Reis 14.3), ou mesmo casas (1ª Samuel 7.17) pelas suas consultas. Saul, por exemplo, foi eleito rei pela influência do profeta Samuel de Siló. Saul tentou manter Samuel próximo a sua corte e, quando esse se afastou (conforme sugerido pelo texto bíblico, devido a tentativas de Saul de assumir a função religiosa), apontou a Davi como novo rei. 

Continuando a militarização iniciada por Davi, Salomão havia imposto tributos mais pesados ao povo para a construção do Templo, diversas muralhas ao redor de Jerusalém e fortalezas. Além disso, nomeou contramestres e obreiros para suas obras, que presidiam sobre servos cananeus:

Dos seus filhos, que ficaram depois deles na terra, os quais os filhos de Israel não destruíram, Salomão os fez tributários, até ao dia de hoje. Porém, dos filhos de Israel, Salomão não fez servos para sua obra (mas eram homens de guerra, chefes dos seus capitães, e capitães dos seus carros e cavaleiros). Destes, pois, eram os chefes dos oficiais que o rei Salomão tinha, duzentos e cinqüenta, que presidiam sobre o povo. (2ª Crônicas 8.8-10)

Os textos de 1ª Reis e 2ª Crônicas, por outro lado, indicam que havia israelitas trabalhando (e não só presidindo) nas obras de Salomão:

E esta foi a causa por que [Jeroboão] levantou a mão contra o rei: Salomão tinha edificado a Milo, e cerrou as aberturas da cidade de Davi, seu pai. E o homem Jeroboão era forte e valente; e vendo Salomão a este jovem, que era laborioso, ele o pôs sobre todo o cargo da casa de José. (1ª reis 11.27-28)

E lhe falou [o rei Roboão]: “Meu pai agravou o vosso jugo, porém eu ainda aumentarei o vosso jugo; meu pai vos castigou com açoites, porém eu vos castigarei com escorpiões.” (1ª Reis 12.14, 2ª Crônicas 10.11)

A fim de manter a paz entre esses servos, provavelmente como seus antecessores, Salomão tolerava os templos e cultos cananeus. Os impostos pesados, no entanto, começaram a estimular revoltas populares que conseguiram o apoio de profetas como Aías de Siló. Esses movimentos populares deram autoridade a Jeroboão (Je-roboão, filho de Roboão), um dos encarregados de Salomão, que se tornou líder popular e por fim foi nomeado em 920 a.C. como novo rei pelo profeta Aías (1ª Reis 11.29-31). Ao contrário de Saul, cuja casa e exército foram derrotados pelas tropas de Davi, Roboão assumiu o trono de seu pai Salomão e manteve as tribos do sul unidas a ele.

DUAS REALEZAS

A “casa de José” era uma das famílias reais israelitas, constituída pelas tribos de Efraim e Manassés. A casa de José comandava uma faixa muito fértil de terras entre o rio Jordão e o Mediterrâneo, onde estavam situadas as cidades sagradas de Siquém e Siló. Isso indica que tal casa real era extremamente rica e poderosa, o suficiente para desafiar Salomão. Josué, líder da “invasão” israelita em Canaã, pertencia à tribo de Efraim e à casa de José, o que também testemunha a favor do poder de tal família. Salomão e Roboão, por outro lado, eram da igualmente poderosa casa de Judá. A existência de duas famílias mais poderosas na região leva alguns estudiosos a acreditar que, enquanto a casa de José era formada por uma nobreza Hyckso migrando a partir do Egito da 18ª dinastia, a casa de Judá e outras tribos descendiam de famílias reais israelitas/cananéias bem mais antigas, que jamais deixaram Canaã.

Como Saul perseguiu o líder popular Davi em defesa de seu trono, Salomão perseguiu a Jeroboão (1ª Reis 12.1-2). A aliança de Davi com Moab, a tolerância de Salomão com os cananeus e depois a aliança de Jeroboão com a nobreza egípcia fortalecem a teoria de dois centros de poder em Israel. Um deles antigo, mais ao sul, e outro novo e ligado ao Egito, ao norte. Possivelmente é dessa fonte ao norte que falavam as cartas de Amarna, sobre os reinos súditos em Canaã.

Com a morte de Salomão e a ação do profeta Aías de Siló, a tensão entre os dois centros de poder aumentou e por fim Israel foi dividida em 2 reinos: Judá ao sul, com Jerusalém como capital e Roboão como rei, e Israel ao norte, com Samaria como capital e Jeroboão como rei. Diversas vezes os dois reinos entraram em guerra um com o outro.

O texto bíblico é extremamente pesado com Jeroboão, descrevendo-o como um grande pecador. Desse texto sabemos que ele fortaleceu o culto ao deus-boi egípcio Ápis (o mesmo culto contra o qual Moisés lutou), temendo que a influência do templo de Salomão em Jerusalém levasse o povo a seguir o rei Roboão, de Judá. Foram implantados ídolos dourados em forma de boi nos templos de Beth-El e Dan. Ambos eram templos cananeus antigos e, novamente, observamos a força do Egito sobre a casa de José. Em 1ª Reis 13.1, vemos que, assim como era com Salomão, o rei tinha participação nos cultos dos templos. 

Jeroboão também destituiu os sacerdotes da tribo de Levi, que historicamente estavam ligados à unificação de Israel e são sempre apontados como nobres que não possuem terras. Voltando algumas gerações, Jeroboão repetia o pecado que custou o reinado de Saul.

Também [Jeroboão] fez casas nos altos; e constituiu sacerdotes dos mais baixos do povo, que não eram dos filhos de Levi. (1ª Reis 12.31)

A qualquer que queria, [Jeroboão] consagrava sacerdote dos lugares altos. (1ª Reis 13.33)

Jeroboão ainda acabou desafiado por um profeta estranhamente sem nome, chamado diversas vezes de “homem de Deus”, que os textos judaicos fazem supor ser Ido.

Os demais atos de Salomão, tanto os primeiros como os últimos, porventura não estão escritos no livro das crônicas de Natã, o profeta, e na profecia de Aías, o silonita, e nas visões de Ido, o vidente, acerca de Jeroboão, filho de Nebate? (2ª Crônicas 9.29)

No texto bíblico, as ações de Jeroboão se traduziram em o profeta Aías de Siló amaldiçoar ele e sua descendência. Seu filho, Abias, morreu ainda menino, supostamente vítima da maldição.

Antes tu fizeste o mal, pior do que todos os que foram antes de ti; e foste, e fizeste outros deuses e imagens de fundição, para provocar-me à ira, e me lançaste para trás das tuas costas. Portanto, eis que trarei mal sobre a casa de Jeroboão; destruirei de Jeroboão todo o homem até ao menino, tanto o escravo como o livre em Israel; e lançarei fora os descendentes da casa de Jeroboão, como se lança fora o esterco, até que de todo se acabe. (1ª Reis 14.9-10)

A despeito da maldição, outro príncipe – Nadabe – assumiu o trono de Israel (reino do norte) quando Jeroboão morreu, após 22 anos de reinado. Esse tempo não pode ser considerado curto; Roboão, filho de Salomão e rei de Judá, reinou por 17 anos. Em Judá não houve mais solidez do culto a Javé do que no norte. Roboão seguiu o culto da deusa cananéia Asherah, senhora das florestas e às vezes denominada esposa de Baal, deus do trovão e das tempestades. Apesar disso e mesmo invasões do Egito (aliado do reino do norte), Judá não foi amaldiçoado. Afinal, é o texto histórico de Judá que chegou a nós. Os textos do reino do norte talvez se encontrem entre os vários livros perdidos que são citados no Velho Testamento.

FIM DA HISTÓRIA

O reino do norte foi conquistado pelo Império Assírio em 722 a.C. e grande parte da população foi substituída por colonos de outros territórios ocupados. Por isso, os samaritanos (da capital antiga, Samaria) deixaram de ser considerados israelitas pelo povo de Canaã. Eles não receberam essa terra como herança da parte de Deus! O reino do sul, aliado da Assíria e depois do Egito, foi conquistado pelo Império Babilônico (assírios + medos + persas unificados pelo pai de Nabucodonosor) em 586 a.C., quando os nobres, profetas e sacerdotes de Judá foram levados para Babilônia.

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SOBROU ISSO AQUI

A dúvida de Moisés - loungecba.blogspot.com
Jebusite - wikipedia
Jerusalem 3000 - When did King David conquer Jerusalem, Israel ministry of foreign affairs, 1993
Sechem, All about archeology, 2010
Tel Dan Stele - wikipedia
Tribe of Joseph - wikipedia

sábado, 28 de maio de 2016

Século 1 - 1ª parte


Incêndio de Roma

O 1º século do Cristianismo foi uma época bastante turbulenta, estando entre os grandes eventos na época a destruição de Roma num incêndio, a destruição de Jerusalém pela legiões romanas e uma turbulência política sem precedentes no Império. Para quem se alarma com a situação política no Brasil, Roma chegou a coroar 4 imperadores em um mesmo ano.

ROMA

Quando Octavianus foi coroado Augusto (Caesar Divi Filius Augustus, 27 a.C. – 14 d.C.), sucedendo seu pai Júlio César, ele iniciou uma tradição de honrar aos imperadores romanos como deuses. Roma era politeísta, misturando versões dos deuses etruscos e gregos, de forma que Augusto viu nessa medida uma forma de atrelar o poder romano às imensas terras conquistadas pelo Império, que iam desde a Bretanha até o norte da África, Grécia e Síria. Os povos conquistados geralmente associavam heróis de seu passado a deuses e espíritos protetores, de forma que não é surpreendente Roma ter absorvido algo dessa tradição. Porém, tratava-se também de uma manobra política, uma vez que tais heróis e deuses protetores serviam freqüentemente de inspiração a movimentos libertários. Desde o reinado de Augusto, as estátuas do imperadores passaram a ser postas em templos e fomentava-se a sua adoração, como forma de reverência a Roma.

Quando Roma desmantelou-se no Ocidente (~ 490 d.C.), a igreja romana assumiu essa posição de ser reverenciada e mesmo o idioma romano - o latim - resistiu por muitos séculos como uma espécie de língua sagrada.

Para os povos politeístas da Europa e norte da África, a adoração aos imperadores romanos não foi problemática. Entretanto, os povos monoteístas (como os Judeus) sentiram-se tremendamente ofendidos e as medidas de Augusto só pioraram as tensões. Os reis locais instituídos por Roma como Herodes I (37 - 4 a.C.), Herodes Arquelau (4 a.C. - 6 d.C.), Herodes Antipas (4 a.C. - 39 d.C, assumiu a Judéia após o exílio de Arquelau) e Herodes Agrippa (41 - 49 d.C.) tiveram de manter um equilíbrio complicado entre as revoltas internas e o que era oferecido a Roma como garantia de sua lealdade. Por isso é compreensível que Antipas e Pôncio Pilatos, autoridades locais, tivessem muito tato ao lidar com líderes populares como profetas (ex. João batista, Jesus, etc) e os membros do Sinédrio. Várias vezes os conflitos saíram de controle e legiões foram mandadas para “manter a ordem” na Galiléia, Judéia e Síria, executando milhares de judeus, incluindo os sacerdotes do Templo. Outras vezes, os reis locais foram substituídos por prefeitos ou generais romanos.

Por essa situação, Roma permaneceu muito tempo desinteressada em movimentos religiosos minoritários como o Cristianismo. Os Judeus eram um problema muito maior, sobretudo considerando que a Síria, Judeía e Galiléia eram postos comerciais importantes e territórios estratégicos em fronteira com os Persas, no Oriente.

Para os Judeus, o Cristianismo logo representou uma ameaça, visto que Jesus e seus discípulos falavam diretamente contra a pureza legalista dos Fariseus (observantes estritos da Lei escrita e da tradição) e a pureza hereditária dos Saduceus (descendentes das famílias nobres da Judéia). Juntos, os Fariseus e Saduceus negociavam a todo momento com Roma o poder político na Judéia, tendo a responsabilidade por muitos levantes populares. João (e talvez outros profetas antes dele) já havia questionado o sistema dos Fariseus ao afirmar que era suficiente arrepender-se dos pecados e abster-se dos prazeres carnais, mas ainda estava ligado ao sistema judaico no sentido em que a atenção de Deus precisava ser merecida e alcançada. Jesus quebrava essa noção ao dizer que Deus já amava os homens, mesmo os pecadores. Seus seguidores iam ainda mais longe ao dizer que bastava crer em Jesus para ser salvo. Pior que isso, os seguidores de Jesus pregavam uma resistência pacífica, o que enfraquecia os Saduceus e Fariseus perante Roma.

Uma evidência de que Roma importava-se muito pouco com o Cristianismo está no culto que se desenvolveu ao redor de Apolônio de Tyana (3 a.C. - 97 d.C.). Esse filósofo era um seguidor de Pitágoras que andou pela Capadócia, na Turquia, aparentemente ensinando que Deus era uma entidade desvinculada do mundo material e responsável pela inteligência humana. Seus ensinamentos funcionaram como norteamento moral e terapêutico, sendo propagados pela Grécia, norte da África e até em Roma. Ao invés de mover uma perseguição a Apolônio, Roma chegou mesmo a cultuá-lo como divindade, sendo sua suposta biografia encomendada pela imperatriz Julia Domna no final do 2º século d.C. João batista, Jesus e os apóstolos se encaixavam nesse modelo de pregadores, ao qual Roma estava bastante acostumada.

AQUECENDO OS CONFLITOS

Na Judéia, as relações entre Cristãos e Judeus se agravaram com o apedrejamento de Estevão (~ 31 d.C.), após ser interrogado pelo Sinédrio. Saulo-Paulo estava supostamente presente nesse julgamento, embora fosse um membro excepcionalmente novo do Sinédrio, estrangeiro e educado pelo conciliador mestre Gamaliel. Em nome do Sinédrio (e não de Roma, como Lucas faz parecer às vezes no livro de Atos), Paulo chefia a perseguição aos Cristãos na Judéia, até sua própria conversão, poucos anos depois.

A Roma capital do mundo ocidental era uma grande cidade formada por 14 distritos, habitada por romanos, gregos, sírios, judeus, cartagineses, espanhóis, gauleses e bretões. Grande parte deles provinha de áreas rurais e moravam nos distritos mais pobres ou nem tinham casa. Como os escravos eram a principal mão de obra (professores, médicos, cirurgiões e arquitetos), os homens livres geralmente eram comerciantes (padeiros, peixeiros, carpinteiros, cabeleireiros, etc), podendo pagar muito pouco por uma habitação. Assim, a cidade era formada por cerca de 50 mil edifícios de 5 a 7 andares, construídos da forma mais precária possível. Os andares superiores não tinham janelas nem banheiros e muitas vezes desabavam com o peso dos seus habitantes. As ruas eram vielas estreitas e sem iluminação, onde eram jogados os dejetos dos moradores. Nas partes mais altas da cidade, por outro lado, ficavam prédios públicos e as casas de madeira e mármore das famílias ricas, com suas áreas abertas e jardins internos. Os distritos pobres eram o cenário perfeito para um grande incêndio, como os que freqüentemente devastam as favelas brasileiras.

Em julho de 64 d.C., no meio de um verão quente e seco, numa noite com muito vento, um incêndio começou entre as lojas ao redor do Circus Maximus, um estádio de corrida de carruagens. O fogo se alastrou por 6 dias antes de ser controlado; em seguida, reacendeu e queimou a cidade por mais três. Quando a fumaça se dissipou, 10 dos 14 distritos estavam em ruínas. O templo de Júpiter Stator - de 800 anos - e o Atrium Vestae, templo principal das virgens vestais, tinham desaparecido. O calor havia atingido temperaturas tais que pregos das construções e moedas derreteram. Muitas pessoas se abrigaram em prédios públicos e não conseguiram escapar. O imperador Nero, que não estava na cidade, mobilizou grandes esforços para evacuar Roma e conter o fogo, que destruiu boa parte do seu palácio principal. Nos anos seguintes, Nero atribuiu o incêndio à atividade criminosa dos Cristãos, passando a prendê-los, dar como como caça aos leões no Colliseum e até queimá-los vivos, usando as carcaças em chamas para iluminar suas festas noturnas.

O diretor polonês Henryk Sienkiewicz (Nobel de literatura em literatura em 1905) assombrou o mundo com seu livro “Quo Vadis”, onde ele misturou os relatos de historiadores antigos como Tacitus, Suetonius e Dion Cassius para criar um Nero infantil, cruel e que mandou incendiar sua cidade como parte de uma “peça teatral” escrita por ele mesmo. O Nero verdadeiro provavelmente estava longe disso: houveram esforços reais para salvar a população, a reconstrução da cidade foi um projeto urbano claramente voltado a evitar incêndios e o próprio palácio real foi reconstruído quase idêntico ao original e usando partes dele. Mas os historiadores registraram que não faltaram acusações a ele como mandante do incêndio. Hoje sabemos que o fogo em Roma era provável, além de se espalhar de forma natural e previsível. Mas a população queria um culpado.

A perseguição de Nero aos Cristãos por um lado apresentava esse “culpado” e por outro conseguia alguma empatia dos Judeus, com quem Roma travava um embate crítico na Judéia. Além disso, tanto Judeus como Cristãos espalhavam pregações apocalípticas de que a dominação de Roma seria extinta com fogo. O livro de Apocalipse, por exemplo, traz visões do apóstolo João na ilha de Patmos (Grécia). Ele teria sua forma escrita só no final do séc. 1, mas já devia circular como pregações orais. Nele lemos

Então o anjo me disse: "Por que você está admirado? Eu lhe explicarei o mistério dessa mulher e da besta sobre a qual ela está montada, que tem sete cabeças e dez chifres. A besta que você viu, era e já não é. Ela está para subir do abismo e caminha para a perdição. Os habitantes da terra, cujos nomes não foram escritos no livro da vida desde a criação do mundo, ficarão admirados quando virem a besta, porque ela era, agora não é, e entretanto virá. Aqui se requer mente sábia. As sete cabeças são sete colinas sobre as quais está sentada a mulher. São também sete reis. Cinco já caíram, um ainda existe, e o outro ainda não surgiu; mas, quando surgir, deverá permanecer durante pouco tempo. (Apocalipse 17.7-10)

Curiosamente, Roma era conhecida em todo mundo antigo como a “cidade das 7 colinas”. É bastante provável que Nero, influenciado por informantes, tenha se baseado das pregações cristãs para apontar os culpados pelo grande incêndio.

JUDÉIA EM GUERRA

A Judéia do 1º século não era muito diferente de Roma: ali viviam juntos Judeus (com suas muitas castas), Gregos e Romanos. O trabalho catequético de Jesus e os 1os apóstolos já inspirara conflitos com os Saduceus e Fariseus. Segundo Lucas,

Eles estavam muito perturbados porque os apóstolos estavam ensinando o povo e proclamando em Jesus a ressurreição dos mortos. (Atos 4.2)

No ano de 45 d.C., quando Paulo já havia partido em suas viagens missionárias (incluindo Atenas e Roma), o rei Herodes Agrippa mandou executar Tiago Boanerges, filho de Zebedeu, irmão de João e sobrinho de Pedro. Em seguida o próprio Pedro foi aprisionado (Atos 12.1,2). Em 66 d.C. um conflito com os gregos em frente ao Templo teve os Fariseus solicitando tropas romanas, o que lhes foi negado. Como resultado, os sacerdotes deixaram de coletar impostos para o Império e o governador romano mandou que as tropas invadissem o Templo para pegar o que lhes era direito. Judeus de toda parte passaram a atacar os romanos. As tropas passaram a crucificar todo aquele que fosse acusado de traição, Judeu, Grego ou Romano. Em pouco mais de 1 ano, os Fariseus haviam recrutado os Zelotes para tomar armas e massacrar os romanos na região. Agrippa II fugiu para a Galiléia e a Judéia declarou-se independente de Roma, voltando a usar o alfabeto hebraico e cunhar as próprias moedas.

O contra-ataque era certo: em meio à reconstrução de Roma, Nero destacou 30 mil soldados de 5 legiões para a Galiléia, exterminado as rebeliões e matando pelo menos 10 mil Judeus. Muitas lideranças dos Judeus em fuga da Galiléia criaram esquadras marítimas na costa do Mediterrâneo para impedir o fluxo de mercadorias da Fenícia para Roma. Em pouco tempo Jerusalém estava cercada, mas a cidade tinha 3 muralhas e muitos soldados, terminando por afastar as legiões até o mar, onde foram derrotadas, para surpresa do próprio imperador.

Em 67 d.C. chegam à região o general Vespasiano e seu filho Titus, com mais 2 legiões para se unirem aos soldados de Herodes Agrippa II. Até encurralarem novamente os Judeus em Jerusalém, pelo menos 100 mil foram mortos pelas tropas. Os Zelotes, fugindo para dentro da cidade, entraram em conflito com os Saduceus e Fariseus. Nero foi deposto pelo Senado e uma crise política abalou Roma: em poucos meses assumiram o trono Galba (jun/68 - jan/69), Salvius Otho (jan - abr/69) e Vitellius Germanicus (abr - dez/69). Vitorioso na Galiléia, o general Vespasiano seguiu para Roma, a fim de tomar o trono. Titus, muito menos diplomático que o pai, mandou erguer uma 4ª muralha para impedir a fuga dos Judeus e chegou a crucificar até 500 Judeus  num único dia. Quando os romanos finalmente entraram, se depararam com uma população faminta e entregue à pestilência. O Templo foi demolido e Jerusalém incendiada no ano de 70 d.C. Nas palavras de Titus, “Não há mérito em derrotar uma gente esquecida pelo seu próprio Deus”. Estima-se que mais de 1 milhão de Judeus tenham sido mortos.

A queda de Jerusalém e a destruição do Templo abalaram terrivelmente os Judeus em todo mundo, iniciando a era dos rabinos. Jesus faz uma referência a essa destruição com um trecho aparentemente  bem fora do contexto da viúva fazendo suas ofertas no Templo:

"Disso que vocês estão vendo, dias virão em que não ficará pedra sobre pedra; serão todas derrubadas … Quando virem Jerusalém rodeada de exércitos, vocês saberão que a sua devastação está próxima. Então os que estiverem na Judéia fujam para os montes, os que estiverem na cidade saiam, e os que estiverem no campo não entrem na cidade. Pois esses são os dias da vingança, em cumprimento de tudo o que foi escrito. Como serão terríveis aqueles dias para as grávidas e para as que estiverem amamentando! Haverá grande aflição na terra e ira contra este povo. Cairão pela espada e serão levados como prisioneiros para todas as nações. Jerusalém será pisada pelos gentios, até que os tempos deles se cumpram.” (Lucas 21.20-24)

Muitas cidades da Galiléia se renderam sem luta. Nesses casos, os Judeus foram feitos prisioneiros e levados para trabalhar para os romanos segundo suas habilidades. Um dos líderes de Yotapata, um sacerdote Judeu chamado Flavius Josephus, por exemplo, foi levado por Titus para documentar a queda de Jerusalém. Ele se tornaria um dos principais historiadores descrevendo o início do Cristianismo. Flavius Josephus documentou também a heróica resistência dos Zelotes em Masada. Nessa fortaleza construída por Herodes I no topo plano de uma grande rocha perto do Mar Morto, 970 Zelotes que escaparam do cerco a Jerusalém juntaram muitos pergaminhos de Qumran (pois os legionários incendiaram tudo por onde passaram), montaram uma muralha de terra e madeiras do palácio, que pudesse resistir às catapultas romanas, e ali lutaram por ainda 3 anos após a queda de Jerusalém. Titus liderou o cerco a Masada, aumentando uma rampa natural até as muralhas da citadela, onde incendiaram a proteção dos Judeus e entraram, para encontrar todos mortos. Uns poucos sobreviventes contaram a Josephus como todos ali escolheram “morrer livres” a sucumbir aos romanos. Seus muitos corpos foram enterrados pelos soldados em sinal de respeito e, séculos depois, quando as legiões voltaram a ocupar Masada, levantaram uma igreja (cristã) ali. Os manuscritos de Qumran que sobreviveram às legiões, incluindo os encontrados em Masada, validariam o evangelho de João no séc. 19.

EPÍLOGO (da 1ª parte)

O final do 1º século se daria com Roma sendo reconstruída, após uma violenta crise política entre os reinados de Nero e Vespasiano (68 - 69 d.C.). A Galiléia havia sido retomada pelo Império e Jerusalém estava em ruínas. Não há como negar que essas tensões favoreceram a saída dos missionários Cristãos da Judéia, em direção ao Egito, Síria, Grécia e mesmo a Itália. O banimento dos Judeus dos cargos políticos nos territórios romanos de certa forma também facilitou esse processo, eliminando a principal oposição aos Cristãos fora da cidade de Roma.

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LIVROS ANTIGOS E QUEIMADOS

Apollonius of Tyana - wikipedia
Biblical Archaeology Society, Masada - the dead sea’s desert fortress, 2014
First Jewish–Roman war - wikipedia
Great Fire of Rome - wikipedia
James, son of Zebedee - wikipedia
PBS - Secrets of the Dead, The great fire of Rome - Clues and Evidence
PBS - Secrets of the Dead, The great fire of Rome - Background
PBS - Secrets of the Dead, The great fire of Rome - Interview with fire investigator Dave Townsend
Raddato C, Magnum incendium Romae (the Great Fire of Rome, 64 AD) - Nero the Arsonist on screen, Ancient History et cetera, July 23th, 2015
Wasson DL, Roman daily life, Ancient History Encyclopedia. December 10th, 2013